quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

PODEMOS APRENDER COM A ESPANHA?

O PARTIDO-MOVIMENTO, CRIADO A PARTIR DOS INDIGNADOS, DENOMINA-SE "PODEMOS". EM MENOS DE UM ANO, JÁ ESTÁ LEVANDO AO PÂNICO A "CASTA" DIRIGENTE, SEJA DOS PARTIDOS TRADICIONAIS, SEJA DO GRADE CAPITAL, QUE OS FINANCIA E É POR ELES PRIVILEGIADOS. 

O QUE ESTÁ MOBILIZANDO A CIDADANIA, AO PONTO DE DAR AO PODEMOS A RESPONSABILIDADE DE GOVERNO DENTRO DE POUCO TEMPO?

O ARTIGO QUE SEGUE NOS AJUDA A COMPREENDER O QUE ESTÁ EM PROCESSO NA ESPANHA. MAS VALE DESTACAR DOIS PONTOS DA PROPOSTA POLÍTICA: 
         1) "HÁ ALTERNATIVAS"; 
         2) "VAMOS TIRAR TODAS AS CASTAS".

PERCEBAM, AMIGAS E AMIGOS, O QUE HÁ EM COMUM ENTRE AS CAUSAS DA INDIGNAÇÃO QUE TOMOU CONTA DA ESPANHA - E DA GRÉCIA, LEMBREM-SE - E AS POLÍTICAS DE "AJUSTE FISCAL" QUE ESTÃO SENDO IMPOSTAS NO BRASIL VIA DECRETO DO GOVERNO FEDERAL. JUNTO COM O DESASTRE ECONÔMICO E SOCIAL QUE ESSE TIPO DE POLÍTICA PROVOCA, DILMA, COMO TANTOS OUTROS CANDIDATOS E PARTIDOS ELEITOS, TAMBÉM SE APRESENTA COMO QUEM, UMA VEZ NO CARGO DE PRESIDENTE, PODE IMPOR, SEM DEBATE E CONSULTA, MEDIDAS QUE NÃO FORAM ANUNCIADAS NA CAMPANHA ELEITORAL. QUE OS PARTIDOS TRADICIONAIS FAÇAM ISSO, NADA ESTRANHO: É DE SEU DNA. MAS QUE O PT FAÇA A MESMA CIOSA, É MUITO GRAVE, PORQUE, NO CASO DA CRISE SE APROFUNDAR, COMO É PRATICAMENTE CERTO SE AS POLÍTICAS "DE AJUSTE" CONTINUAREM, A POPULAÇÃO, ENTÃO INDIGNADA, DESEJARÁ LIVRAR-SE DE "TODAS AS CASTAS".

QUEM SABE CHEGAREMOS, TAMBÉM NO BRASIL, AO "FIM DE UM PERÍODO", COMO O AUTOR REFERE NO FINAL DO ARTIGO. A PERGUNTA QUE FICA É ESSA: COM QUE MEDIAÇÃO POLÍTICA ABRIREMOS CAMINHO NO "NOVO PERÍODO"?

Espanha, a próxima a se rebelar?
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Como surgiu, dos Indignados, o “Podemos”. Por que está este prestes a derrubar partidos tradicionais, que se auto-sabotaram. Que transformações políticas e econômicas propõe
Por Vicenç Navarro | Tradução: Inês Castilho
Uma imenso mar humano povoou as ruas de Madri no último sábado. Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se, atendendo a um chamado do partido-movimento Podemos, criado há menos de um ano. Esperançosas após a vitória eleitoral do Syriza, na Grécia, elas sinalizaram que a Europa vai continuar tremendo, nos próximos meses. Que já não será fácil manter “ajustes fiscais” [“austeridade”, na Europa] que cortam direitos e mantêm as rendas financeiras. Que a suposta “racionalidade econômica” não poderá mais ser usada como pretexto para afastar a sociedade das decisões e transferi-las a “especialistas”. Que pode estar com os dias contados o sistema em que dois partidos — rivais na disputa pelo Estado, mas cada vez mais semelhantes nas políticas que adotam — alternam-se eternamente no poder.
Que ventos produzem o furacão espanhol? Até há um ano, o sistema bipartidário instituído há quatro décadas parecia inabalável. PP (centro-direita) e PSOE (ex-social-democrata) estavam acomodados, com diferenças mínimas de tom, ao mesmo projeto que resultou — na Espanha e na maior parte do mundo — num aumento brutal das desigualdades sociais. Um partido ligado à esquerda história (“Izquierda Unida”) cumpria um previsível papel de coadjuvante.
Três fatores parecem ter sacudido este ambiente de pasmaceira. No texto abaixo, Vicenç Navarro, co-autor do programa econômico do Podemos, explica em detalhes, e em seu complexo contexto histórico, quais são.  Os partidos tradicionais auto-sabotaram-se, por julgarem que, à falta de alternativas, a população se acomodaria mais uma vez a uma democracia reduzida a teatro. A difusão de novas formas, desierarquizadas, de relações sociais, tornou grotesco o controle das instituições por um punhado de “líderes” partidários — hoje conhecidos na Espanha como “a casta”. Por fim, o próprio Podemos teve sabedoria para converter a energia rebelde dos Indignados de 2011 num projeto de transformações que dialoga de igual para igual com as maiorias — ao invés de auto-distanciar-se delas por meio de jargões e métodos de “direção” anacrônicos.
Assim como o Syriza, o Podemos viverá oportunidades e desafios imensos, nos próximos meses. Ainda no primeiro semestre, disputará eleições municipais. A formação de um novo governo, por meio de um pleito antecipado, pode ocorrer ainda em 2015. Sobreviverá à necessidade de encontrar saídas para a crise — e aos riscos de ser cooptado pelo sistema que quer transformar? Navarro parece dizer que a resposta está em aberto. “É o fim de um período, sem que saibamos o que virá depois”, diz ele, referindo-se a Gramsci. Quando o futuro é incerto, cada ato e atitude são importantes. Vale conhecer o que está em jogo na Espanha e na Europa, neste exato momento (A.M.)
Por Vicenç Navarro | Tradução: Inês Castilho
Alguma coisa acontece na Espanha. Um partido fundado há apenas um ano, o Podemos, com um programa claramente de esquerda, poderia ganhar a maioria no Parlamento espanhol, se as eleições fossem hoje. Após a vitória do Syriza nas eleições gregas de 25 de janeiro, tem-se especulado sobre a possibilidade do Podemos alcançar feito semelhante nas eleições parlamentares da Espanha no final deste ano. Mas, o que está conduzindo o partido ao sucesso?
O apoio ao Podemos está intrinsecamente ligado às políticas impostas pelo governo conservador do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy. Essas políticas incluíram os maiores cortes em gastos sociais públicos (desmantelando o subfinanciado Estado de bem-estar social espanhol) desde que a democracia foi estabelecida na Espanha, em 1978, e as mais duras reformas trabalhistas fixadas no mesmo período, as quais deterioraram substancialmente as condições do mercado de trabalho. Os salários baixaram 10% desde a Grande Recessão iniciada em 2007, e o desemprego alcançou um recorde histórico de 26% (52% entre os jovens). O percentual de trabalho temporário e precário aumentou, tornando-se a maioria dos novos contratos no mercado de trabalho (mais de 52% da totalidade dos contratos); 66% dos desempregados não têm nenhuma forma de seguro desemprego ou assistência pública.
Essas medidas criaram um enorme problema de falta de demanda interna, importante causa da recessão duradoura. Houve apenas um recente crescimento muito limitado, devido principalmente à queda dos preços do petróleo, a uma desvalorização do euro e ao compromisso, pelo Banco Central Europeu (BCE), de comprar títulos públicos. O governo espanhol não teve nada a ver com esses fatos, embora reivindique a limitada recuperação como resultado de suas políticas.
As políticas atuais foram promovidas pela União Europeia por meio do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e do BCE, e pelo Fundo Monetário Internacional. Foram realizadas na Espanha com apoio e estímulo do capital financeiro, das principais corporações e seu instrumento político, o Partido Popular. A direita espanhola conseguiu, possivelmente, o que sempre quis: a redução dos salários e a asfixia da proteção social, com o esfacelamento do estado de bem-estar. Essas políticas são aquilo que os participantes da última reunião do G20 na Austrália apresentaram como estratégia a ser seguida por todos os países, elegendo a Espanha como país modelo.
Por que razão os cortes foram feitos?
A redução dos salários e do número de pessoas que recebem salários, assim como a redução dos gastos públicos, resultaram num enorme declínio da demanda interna e, consequentemente, do crescimento econômico. A queda dos salários significou aumento do endividamento das famílias e das pequenas e médias empresas. A dívida aumentou enormemente. Isso significa que também as transações bancárias aumentaram enormemente (a Espanha tem um dos maiores setores bancários na Europa, proporcionalmente três vezes maior que o dos Estados Unidos). Mas a baixa rentabilidade da economia produtiva significou um grande aumento dos Investimentos bancários especulativos, causando enormes bolhas, das quais a mais importante foi a bolha imobiliária.
Quando a bolha ainda estava inchando, um sentimento de euforia dominava oestablishment político. Até mesmo o governo do líder socialista, José Luis R. Zapatero, sentia que, em tempos de crescimento tão exuberante, os impostos deviam ser reduzidos – seu slogan então era que “reduzir os impostos devia ser um objetivo da esquerda”. Reduziu enormemente os tributos, em especial sobre ganhos de capital e rendas elevadas. E em 2007, quando a bolha explodiu, surgiu um grande buraco nas receitas do Estado: 27 bilhões de euros. De acordo com economistas do departamento de estatística do Ministério das Finanças, 70% desse buraco era devido aos cortes de impostos, e apenas 30% à queda da atividade econômica no início da Grande Recessão.
Foi assim que começaram os cortes – sob o falso argumento de que era preciso enfrentar as medidas de austeridade porque o país estava gastando muito. Na realidade, quando a crise começou, o Estado espanhol tinha superávit. Na verdade, o gasto público da Espanha é muito baixo: muito menor do que exigiria o seu nível de desenvolvimento econômico. Os cortes demonstram a natureza política dessas intervenções.
Zapatero congelou as aposentadorias públicas para economizar 1,5 bilhão de euros, quando poderia ter obtido 2,5 bilhões recuperando os impostos sobre a propriedade, que havia abolido; revertendo a redução dos impostos sobre herança (2,3 bilhões); ou revertendo a diminuição dos impostos de indivíduos com rendimento anual de 120 mil euros (2,2 bilhões). Esses cortes foram mais tarde ampliados por Rajoy, que cortou 6 bilhões do Serviço Nacional de Saúde, argumentando, como dissera antes Zapatero, que “não havia alternativa” — a frase mais frequentemente usada na narrativa oficial.
Contudo, havia alternativas. Ele poderia ter revertido a redução de impostos sobre o capital para grandes corporações, que havia aprovado, obtendo 5,5 bilhões. De fato, escrevi, junto com Juan Torres e Alberto Garzón, um livro a esse respeito intitulado Hay Alternativas: Propuestas para Crear Empleo y Bienestar Social em España. O livro demonstrou, com números claros e convincentes, que havia na verdade outras opções às políticas impostas. Tornou-se um best-seller na Espanha e foi largamente utilizado pelo movimento dos Indignados.
O movimento dos Indignados
O corte dos gastos públicos e as três reformas do mercado de trabalho realizadas primeiro pelo governo socialista (PSOE) e depois pelo governo conservador (PP), despertaram a ira de muitos cidadãos, já que nenhuma dessas medidas havia recebido um mandato popular genuíno. Nenhuma dessas políticas foi mencionada no programa eleitoral dos partidos governantes. Em resposta, o movimento Indignados surgiu e espalhou-se rapidamente por todo o país. Seus slogans, tais como “A classe política não nos representa”, tornaram-se largamente populares. Em consequência, as instituições começaram a perder legitimidade, enquanto o Estado respondia tentando reprimir o movimento. Contudo, isso não deteve os Indignados: muitos de seus líderes eram jovens e portanto profundamente afetados pela crise.
O movimento reclamava uma segunda transição, pedindo o fim do regime de 1978 (o sistema político estabelecido quando terminou a ditadura) e a elaboração de uma nova ordem democrática, explicando a necessidade de substituir as instituições representativas existentes por outras, complementadas por novas formas de participação democrática tais como referendos e/ou assembleias populares. O objetivo era estabelecer um sistema democrático autêntico, com formas de participação direta dos cidadãos tais como referendos, acrescidas de formas indiretas tais como a democracia representativa, de modo a garantir que os partidos políticos fossem muito mais democráticos do que são hoje.
Os Indignados tiveram um impacto enorme, sendo seu primeiro passo um protesto contra o slogan “Não há alternativas”. De fato, a liderança do movimento exibiu nosso livro, Há Alternativas, diante da polícia, que tentava controlar a manifestação. A fotografia de milhares de pessoas mostrando o livro foi amplamente distribuída dentro do movimento e publicada pela imprensa. Seu alvo principal era, essencialmente, destacar que havia, sim, alternativas, e questionar a legitimidade do Estado, que impunha políticas para as quais não tinha mandato popular.
O novo partido político: Podemos
Os Indignados tornaram-se conscientes de que, paralelamente aos protestos, tinham também de intervir na arena política – e foi assim, essencialmente, que o Podemos começou. Os líderes do Podemos surgiram do grupo de pessoas que desempenharam um papel de liderança no movimento. Alguns são membros do jovem corpo docente do Departamento de Ciências Políticas e Sociais na maior universidade pública da Espanha, Complutense. Muitos haviam sido ativistas nos movimentos de juventude do Partido Comunista Espanhol.
Independentemente de sua origem, todos sentiam que a raiz do problema era o controle do Estado por uma classe de políticos sustentados principalmente pelos maiores partidos – o partido conservador-liberal (PP) e o socialista (PSOE) – que se relacionavam intimamente e estavam vinculados às principais corporações financeiras e bancárias que corromperam as instituições do Estado. Eles clamavam pelo estabelecimento de um Estado democrático e uma Europa democrática – “uma Europa do povo, não a Europa dos banqueiros”.
Eles participaram das eleições para o Parlamento Europeu em 2014 e tiveram muito mais votos que esperavam. Em seguida, e mais importante, pesquisas revelaram crescimento substancial de seu apoio popular. A ponto de se tornar claro, ao final de 2014, que o Podemos poderia chegar ao governo – uma situação que seus criadores nunca haviam pensado possível em tão pouco tempo. A mensagem do partido, “Vote contra a casta. Jogue-os todos fora”, ressoou profundamente entre o eleitorado. Parece claro que a maioria da população está farta do establishment político e mediático e voltou-se para o Podemos como alternativa.
No entanto, a esta altura ainda faltava ao partido uma estrutura claramente definida. Isso impôs a necessidade urgente de desenvolver uma organização partidária, baseada num modelo de assembleia e a partir de uma base proposta pela liderança. Para preparar este programa, pediram a mim e a Juan Torres (co-autor de Hay Alternativas) que formulássemos um esboço do programa econômico que um governo do Podemos deveria implementar, se eleito. Este esboço seria a base para uma vasta discussão no interior do partido. O documento recebeu um título inicial autoexplicativo: “A necessidade de democratizar a Economia para acabar com a crise e ampliar Justiça Social, Bem-estar e Qualidade de Vida – Uma proposta para abrir um debate e resolver os problemas da economia espanhola”. Foi amplamente distribuído pelo Podemos, com novo nome: Um projeto econômico para pessoas” (Un proyecto económico para la gente). Teve enorme impacto.
A apresentação da proposta, pelo porta-voz do Podemos, Pablo Iglesias, junto conosco, como autores, tornou-se um grande acontecimento na Espanha. A hostilidade da velha mídia e dos ornais econômicos, assim como dos intelectuais e porta-vozes dos grandes partidos governistas (PP e PSOE) produziu alguns ataques furiosos ao documento e a seus autores. Na Europa, o presidente do banco central alemão (Bundesbank) sustentou que as propostas expressas no texto causariam prejuízos às economias da Espanha e da Europa. Em paralelo a estas respostas negativas sem precedentes, no entanto, houve ampla aceitação das pessoas comuns, a ponto de alterar a agenda do debate econômico e desafiar a ideologia que o impregnava.
Nosso documento não é um orçamento para o futuro governo do Podemos, mas traça as linhas estratégicas a se4 seguidas. A análise das causas da crise está focada no enorme crescimento da desigualdade, responsável pelas crises financeira, econômica e política. Coloca no centro da análise o conflito do capital (sob a hegemonia do setor financeiro) contra o trabalho. Ele levou a um enorme declínio da demanda doméstica, causada pela redução real dos salários, aumento do desemprego e cortes nas despesas públicas. Voltadas a reverter este crescimento da desigualdade, as propostas, portanto, sugerem ampliar a demanda doméstica (elevando os salários e o emprego) e expandindo os gastos e investimentos públicos (em particular, os relacionados à infraestrutura social)
Sublinha-se também a necessidade de expandir os bancos públicos, como forma de oferecer crédito a famílias e a pequenas e médias empresas. Propõe-se a redução da jornada de trabalho para 35 horas e a idade de aposentadoria, dos 67 anos atuais para 65 – o que reverteria posições aprovadas pelo PP e PSOE. O impacto do programa fortaleceria o trabalho às custas do capital. Além disso, defende-se a clara necessidade de corrigir desigualdades de gênero, inclusive como forma de ampliar o emprego. E demonstrou que todas estas propostas poderiam ser sustentadas por meio de uma Reforma Tributária e da redução das fraudes fiscais.
Que explica o sucesso do Podemos?
É fácil responder a pergunta. Há enorme ira popular diante do que o Podemos chama dela casta. O termo inclui as elites governantes no establishment político, que desenvolveram cumplicidade aberta com as corporações financeiras e não-financeiras que dominam as instituições e a mídia. O apelo para “jogá-los todos fora” desperta apoio geral entre a maioria do povo espanhol.
Além disso, o Podemos foge dos jargões, usa linguagem comum, redefine luta de classes como o conflito entre os que estão no topo e todos os demais. É uma narrativa que mobiliza uma base de apoio ampla e diversa. Além disso, o partido tornou central, em sua estratégia, a luta pela democracia – e a redefiniu para incluir distintas formas de participação, como referendos (definidos como el derecho a decidir), além das formas tradicionais de representação. É por seu compromisso democrático que aceitou o direito a autodeterminação das diferentes nações que exitem na Espanha, rompendo com a visão que esta seria um Estado uninacional.
A compreensão da Espanha como um Estado “plurinacional” foi uma exigência de todos os partidos de esquerda (inclusive o PSOE), mas foi abandonada durante a transição para a democracia pelo Partido Socialista, por pressões do rei (apontado por Franco) e do exército. A ampla reivindicação popular dos catalães pelo direito à auto-determinação (não confundir com independência: 82% apoiam a primeira; apenas 33%, a segunda) criou enorme tensão entre o governo central e o tornou altamente impopular.
O sucesso do Podemos tornou-se uma grande ameça ao establishment espanhol (e europeu). Hoje, as elites financeira, econômica, política e midiática na Espanha estão na defensiva e em pânico. Aprovaram leis que tornam mais dura a repressão. Os dirigentes dos grandes bancos estão particularmente preocupados. O presidente do Santander, que morreu em setembro passado, anunciou pouco antes de falecer que estava extremamente preocupado, frisando que o Podemos e a Catalunha representavam, em sua opinião, grandes ameaças à Espanha – a sua Espanha, é claro. E ele tinha rezão. O futuro agora está aberto. Como disse Gramsci certa vez, é o fim de um período, sem que tenhamos visão clara sobre como sera o próximo. A Europa e a Espanha estão fechando uma era. Resta saber como será a próxima

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

CAMPANHA PELAS ÁGUAS E CONTRA O MINERODUTO DA FERROUS

VERGONHA, É O QUE SINTO DIANTE DA AMPLIAÇÃO DA MINERAÇÃO EM MINAS GERAIS E EM TODO O PAÍS, GASTANDO ENORMES QUANTIDADES DE ÁGUA EM TEMPOS DE CRISE DE ÁGUA PARA A POPULAÇÃO!

ESPERANÇA, É O QUE CRESCE EM MIM POR CAUSA DA TEIMOSA LUTA DOS AFETADOS PELOS PROJETOS DE MINERAÇÃO.

CONHEÇAM E APOIEM MAIS ESTA CAMPANHA! 

  
 
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Campanha Pelas Águas e Contra o Mineroduto da Ferrous!...
Luiz Paulo Guimarães de Siqueira* 29/01/2015 Minas Gerais enfrenta talvez a pior crise hídrica de sua história.
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"Se somarmos os volumes de água utilizados por estes projetos chegaremos ao escandaloso valor de 19,350m³/hora. De acordo com o diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, o consumo médio per capita de água, em Minas Gerais, é de 159 litros por dia. Ou seja, o valor consumido por estes projetos minerários equivale ao abastecimento de cerca de 2,900 milhões de mineiros ou, o suficiente para atender a demanda de quase 50% da RMBH."

"Governador Fernando Pimentel, o senhor foi eleito sob o lema “ouvir para governar”, e muitos dos que estão sofrendo com as mazelas da mineração em Minas creditaram e acreditaram neste lema ajudando a eleger este novo Governo. O povo mineiro já fez a sua opção, não quer assistir às suas águas, casas, nascentes, plantações, culturas, memórias, suor, comunidades e minérios entrando pelo cano; queremos sim, o quanto antes, nos livrarmos destes projetos que nada tem a nos oferecer e empenharmos conjuntamente para garantir a segurança hídrica do estado e isto, significa, definitivamente, enterrarmos de vez esta infeliz ideia de mineroduto."

ATÉ ONDE NOS LEVARÃO AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

CHEGAREMOS A PRESENCIAR PESSOAS FUGINDO DA CRISE DE ÁGUA EM SÃO PAULO E EM TODO O SUDESTE? E NO CENTRO OESTE, ATÉ QUANDO SE PODERÁ PRODUZIR GRÃOS?

VEJA NESTE ARTIGO A REFERÊNCIA À CHINA, NUMA PERSPECTIVA PREVENTIVA, COISA QUE FALTA DE FORMA TRÁGICA EM NOSSOS GOVERNANTES. COMO NOSSOS GOVERNANTES ESTÃO COMPROMETIDOS COM OS GRUPOS ECONÔMICOS QUE TÊM TUDO A VER COM A GERAÇÃO DA CRISE CLIMÁTICA, CABE A NÓS BUSCARMOS CAMINHOS ALTERNATIVOS E IMPOR AS MUDANÇAS POLÍTICAS QUE DEVEM SER FEITAS, DOA A QUEM DOER. 

REFUGIADOS AMBIENTAIS
Não sou catastrofista. Todavia não é possível ser tão ingênuo ao ponto de não enxergar as mudanças climáticas que estão ocorrendo e a crise hídrica que esta acontecendo com consequências dramáticas. As mudanças climáticas não são ocorrências que irão acontecer no amanhã. Não. Há que reconhecer: são fenômenos que já estão acontecendo agora. A duração do tempo de estiagem esta aumentando e a duração do período chuvoso esta diminuindo. Isto é fato. Tanto é assim, que o ciclo de plantio da soja no Centro-Oeste esta se modificando.
Ninguém podia imaginar que um dia poderia faltar água na região metropolitana de São Paulo. Durante séculos, a crise hídrica era fenômeno natural exclusivo da região do nordeste. São Paulo era sinônimo de abundancia de água e terras férteis: o Eldorado dos nordestinos. Era para lá que se direcionava o fluxo migratório dos flagelados pela seca. Hoje, em pleno período chuvoso, a represa de Cantareira, responsável por abastecer uma população estimada em 6,5 milhões de pessoas na capital paulista está com um volume de apenas 5,1% de sua capacidade, prestes a sofrer um colapso, ou seja, simplesmente secar.
Em levantamento feito pelo Estadão o sistema Cantareira atinge o pior nível de capacidade no mês de agosto, quando entramos no período critico da estiagem. Nesse mês, a vazão media do sistema historicamente calculado baixa para 21,24%. No ano de 1953, quando foi registrado a pior seca o nível em agosto alcançou 14,19%. Agora, em 2014, o nível caiu para 6,28 e, em janeiro de 2015, 5,1%. Ou seja, nunca o sistema da Cantareira baixou em tamanha proporção seu nível.
A crise hídrica não é exclusividade de São Paulo, atinge o sudeste como um todo, abrangendo Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Das quatro represas que abastecem de água e fornece energia ao Rio de Janeiro, São Paulo e Minas três já estão captando no volume morto: Paraibuna, Santa Marta e Funil.
Para se recompor em níveis que possa garantir o abastecimento de água seria necessário que a estação chuvosa no período de fevereiro-marco  fique acima da media histórica de 60% a 80% a mais. Diante do quadro atual é praticamente impossível disso acontecer.
O que se pergunta nessas circunstancia é o seguinte: o que vai acontecer quando se encerrar o período chuvoso e entrarmos, depois de abril, no inicio da estiagem? Se em pleno período de chuvas as represas não elevam a sua capacidade, ao contrario, diminuindo ao ponto de atingir o volume morto o que se pode esperar no período de estiagem? Certamente, o pior ainda esta por vir.
Diante desse quadro gravíssimo nenhuma autoridade responsável seja do governo estadual seja do governo federal vem a publico explicar para a população o que realmente esta acontecendo, quais são as causas de tudo isso e quais são as medidas que se tem que adotar a curto, médio e longo prazo. O que se vê é um comportamento de desfaçatez e desonesto, que procura tirar qualquer responsabilidade diante do que esta acontecendo, como se a culpa fosse exclusivamente da falta de chuvas. Repete-se aqui, como em todos os outros casos flagrados de corrupção, apesar das impressões digitais e tudo, de procurar se eximirem de qualquer culpa negando ad nauseiam suas responsabilidades. Lamentavelmente, gestou se uma casta política, independente do partido que ocupa o poder, que se pauta pela mediocridade e uma espetacular incompetência na gestão da administração publica. Não conseguem dar a mínima transparência de suas ações e muito menos planejar uma administração que consiga dar respostas concretas aos problemas que elas próprias geraram. A combinação perversa da desonestidade e da incompetência produz a catástrofe. O que esta acontecendo com as mudanças climáticas e com a crise hídrica é a face mais exposta desta combinação explosiva, que pode ter consequências trágicas para a população.
O cientista Antonio Donato Nobre mundialmente conhecido como pesquisador do INPE(Institui to Nacional de Pesquisa Espaciais) deu um depoimento extremamente esclarecedor sobre as causas e consequências do que esta acontecendo com as mudanças climáticas.
Segundo ele, foram desmatados na Amazônia durante os últimos 40 anos, 42 bilhões de arvores, o que equivale a três São Paulo e duas Alemanha. Evidentemente que tudo isso não se fez sem consequências trágicas para o clima do planeta. Apesar de muitos asseclas que circulam nas altas esferas do poder afirmar o contrario (resultado disso foi à atitude da Dilma em não assinar o compromisso de desmatamento zero em 2030 na reunião da ONU) , segundo Nobre, a Amazônia realmente condiciona o clima. O desmatamento muda o clima. A região amazônica funciona como uma verdadeira usina de serviços ambientais. Para corroborar com sua tese ele afirma que cientificamente esta provada que uma arvore da Amazônia com uma copa de 10 metros de raio coloca mais de mil litros de água por dia, via transpiração. Ora, o calculo que faz é de que se considerarmos o território da região amazônico com uma área de cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrado, teríamos, portanto, um volume de 20 bilhões de toneladas de água que a floresta transpira diariamente. O rio Amazonas despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia no oceano. Assim, Nobre chega a estonteante conclusão de que a floresta amazônica gera um fluxo de vapor maior do que o do rio Amazonas. O ar que circula pelo continente adentra vai recebendo o fluxo de vapor da transpiração da floresta e da evaporação da água do oceano agregando outros fatores precipita as chuvas.
Dessa forma o desmatamento não causa um problema somente em relação ao CO2 como também causa destruição no sistema de condicionamento climático local. A conclusão da tese de Nobre é estarrecedora: o estrago já foi feito é irreversível mesmo se adotasse o desmatamento zero. A única maneira de mitigar a tragédia é partir para um esforço de guerra realizando um programa massivo de reflorestamento, replantando florestas e recompondo ecossistemas.
Alguns anos atrás tive oportunidade de ler uma entrevista do ministro do meio ambiente da China na revista alemã Dier Spiegel onde ele alertava da possibilidade da região nordeste da China produzir um fenômeno inaudito, por conta da exploração intensiva do solo que estava provocando sua desertificação: os refugiados ambientais. Segundo seu alerta esta região poderia provocar um êxodo de mais de 200 milhões de chineses. Fiquei imaginando as consequências catastróficas de fenômeno dessa natureza e não passava nunca pela minha cabeça que um dia pudéssemos aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, imaginar que poderíamos estar na eminência de termos um fenômeno semelhante: refugiados ambientais, fugindo da falta d’água, em uma região que outrora foi palco da abundancia de recursos naturais e que agora são vitimas da incompetência generalizada dos governos estadual e federal. Somado a tudo isso ainda tem o apagão energético causado pela falta d’água. Repito, não sou catastrofista, ate quando, não sei.
Fernando Safatle- Economista- Fernando.safatle
Diario da Manha- 28 jan 15

DILMA, OS ÓRFÃOS E AS VIÚVAS

REFLEXÃO E DENÚNCIA SÉRIA E DESAFIADORA: POR QUE SE MEXE COM TANTA FACILIDADE NOS CONTRATOS COM AS PESSOAS FRÁGEIS E EMPOBRECIDAS, ENQUANTO OS CONTRATOS COM OS RICOS SÃO MANTIDOS COMO ALGO INTOCÁVEL, SAGRADOS? NÃO SERIA ESTA PRÁTICA REVELAÇÃO DE QUE OS DEUSES DO MERCADO EXIGEM SANGUE DE HUMANOS EMPOBRECIDOS?

Dilma, os órfãos e as viúvas.
Roberto Malvezzi (Gogó)
Se há uma tradição bíblica onde o Deus judaico-cristão se manifesta claramente, é exatamente no cuidado com os órfãos, as viúvas e os estrangeiros. Para esse Deus, essas são cláusulas pétreas e inegociáveis.
Esse cuidado não era por acaso, mas porque esses eram os grupos de pessoas mais desamparados da sociedade daquele tempo.
O Deus bíblico vai sempre lembrar ao povo judeu esses cuidados, até porque tinha sido escravo no Egito.
Portanto, é chocante ver que o governo Dilma escolheu exatamente os mais indefesos da sociedade – órfãos e viúvas e desempregados – para fazer os ajustes que a economia de mercado, ainda um tanto neoliberal, exige.
Ela tinha milhões de modos para arrecadar mais, ou gastar menos, para angariar reservas com a finalidade de pagar a sede insaciável dos juros da dívida pública. Poderia retomar os impostos dos carros, fazer as grandes fortunas pagarem algo pelo seu luxo, aumentar o imposto do cigarro, dos refrigerantes, ou de qualquer outra porcaria que não afetasse a vida dos brasileiros. Mas, ela preferiu reduzir em 50% a pensão das viúvas, o que impacta diretamente o cuidado com seus filhos.
Certamente cada leitor conhece alguma família em que a mãe morreu cedo, ou o pai, ficando aquele que continua vivo responsável pelos seus filhos. Certamente sabe a situação dramática que é enfrentar a viuvez e o cuidado com os filhos. Então, exatamente quando mais precisa, é exatamente onde o governo escolheu cortar para arrecadar e saciar os deuses do mercado.
Dilma dissera que não mexeria nos direitos dos trabalhadores, nem que a vaca tossisse. Nem precisou.
Nesse país os contratos são vacas sagradas e intocáveis, mas só se forem do capital com o governo. Os contratos do governo com a população são facilmente quebrados, sempre em nome dos ajustes econômicos. Basta lembrar o fator previdenciário, o reajuste das aposentadorias, agora o seguro desemprego, agora a pensão das viúvas e viúvos.
O governo Dilma conseguiu preservar empregos mesmo com a economia aí posta patinando. Na Grécia, Espanha e outros países da Europa a crise econômica jogou nas ruas milhares de pais de famílias. Na Espanha cerca de 50% da juventude continua desempregada, mesmo sendo altamente qualificada. Mas, essa qualidade do governo não lhe dá autoridade para sacrificar aqueles que não tem como se defender.
Segue sobre essa realidade o silêncio dos sindicatos e da sociedade em geral, inclusive das igrejas.

VAMOS SOLARIZAR O BRASIL

MUITO IMPORTANTE A CAMPANHA DO GREENPEACE: SOLARIZAR DUAS ESCOLAS. ISSO VAI AJUDAR A CAMPANHA DA FRENTE POR UMA NOVA POLÍTICA ENERGÉTICA PARA O BRASIL: EXIGIR UMA NOVA POLÍTICA ENERGÉTICA, DESCENTRALIZADA E COM AS FONTES MAIS LIMPAS POSSÍVEIS.

PARTICIPEM, DIVULGUEM E MULTIPLIQUEM INICIATIVAS COM ESTA!

Olá IVO,
Lançamos esta semana uma nova campanha para mostrar que a energia solar é um caminho possível de ser trilhado por todos nós, além de dar um novo futuro para nossas crianças.
Juventude Solar
Você que nos acompanha de perto sabe melhor do que ninguém que o Greenpeace promove o uso da energia solar, uma fonte limpa e renovável. Para mostrar que um futuro movido pelo Sol é possível, vamos instalar sistemas fotovoltaicos em duas escolas, uma estadual em São Paulo e outra municipal em Uberlândia, em Minas Gerais. Para concretizar esse lindo projeto, precisamos da sua ajuda!

Queremos beneficiar mais de 1.800 estudantes que terão acesso a energia limpa. As escolas vão gerar sua própria energia e irão economizar na conta de luz – esse montante será revertido para atividades culturais. Apresentações artísticas, cinema, teatro e até viagens poderão ser inclusas no cronograma escolar destes jovens. Precisamos deixar um mundo melhor para as futuras gerações e você pode fazer a diferença.
Sua ajuda é muito importante para o sucesso desse projeto e para que possamos ver sorrisos ainda mais iluminados nos rostos destes jovens! Faça uma doação para que este projeto possa se tornar realidade.
Faça sua parte
Obrigada pelo apoio,
Barbara Rubim
Greenpeace Brasil

A PREVIDÊNCIA E AS VIÚVAS

RECEBI DE DIRLENE MARQUES O ARTIGO QUE SEGUE E VALE A PENA DIVULGAR. DE FATO, ALÉM DOS NEOLIBERAIS, VAI ENTENDER E ACEITAR AS MEDIDAS QUE LIMITAM GRAVEMENTE DIREITOS SOCIAIS PARA MANTER OS PRIVILÉGIOS DOS ESPECULADORES E DOS DETENTORES DE GRANDES FORTUNAS. HÁ ANÁLISES QUE DESCREVEM ESSA GUINADA DA PRESIDENTE DILMA COMO ADESÃO MAIS COMPLETA AO QUE FOI DEFENDIDO POR QUEM FOI E CONTINUA OPOSIÇÃO NEOLIBERAL. 

A Previdência e as viúvas

DEBORA DINIZ
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.
Artigo publicado em 6/1/2015 no jornal 

Cara presidente Dilma Rousseff, estou indignada: nós, mulheres, não somos as responsáveis pelo “rombo das contas públicas”. O ano suspirava seu final quando o então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, anunciou medidas provisórias que alteraram as formas de proteção às famílias trabalhadoras. Tempo de conjugalidade, período de contribuição, idade dos beneficiários foram modificados e sem regras de transição. Trabalhadores jovens e velhos serão igualmente afetados por medidas econômicas que ignoram características fundamentais não só do mercado de trabalho, mas do modo como as famílias se reproduzem no Brasil. Tenho vontade de gritar minha surpresa — o tema não foi discutido, sequer anunciado durante a campanha presidencial —, mas guardarei minha indignação para os fatos. Entre as medidas de contenção, está o corte de 50% da aposentadoria para o cônjuge do trabalhador falecido. As medidas provisórias se protegem nesse falso universal neutro da língua portuguesa, pois o correto seria dizer “haverá corte de 50% na aposentadoria das viúvas idosas”.

Sou de uma geração em que as mulheres trabalham na casa e na rua — cuidam dos filhos e recebem salários. Muitas enfrentaram a difícil decisão sobre como cuidar dos filhos e se ordenar no mercado do trabalho, esse ambiente que ignora que as crianças vão à escola, adoecem, reclamam cuidados. Conheço mulheres mais jovens do que eu — e uma multidão de velhas — que optaram por cuidar dos filhos, pois consideraram que o salário de seus companheiros seria uma garantia de aposentadoria integral a ser compartilhada. Algumas delas escolheram empregos com menor remuneração, como forma de ajustes domésticos para os deveres de cuidado.

Uma divisão do trabalho doméstico e da rua foi acordada no passado com projeção para o futuro: cuidariam dos filhos — ela na casa e ele na rua —, mas casa e rua teriam a mesma proteção na velhice. Fizeram escolhas de longa data, pois acreditaram na estabilidade democrática. As medidas provisórias ignoram como as famílias se organizam no Brasil, mas principalmente ignoram a vida das mulheres que nos antecederam. Pergunto-me se essas mulheres não seriam também mães dos senhores que anunciaram as medidas provisórias — talvez uma amnésia os tenha feito esquecer quem os amamentou, limpou suas fraldas ou revisou seu dever de casa de matemática.

Em nome de uma economia que se anuncia como de bilhões, as medidas provisórias dizem a cada uma das senhoras idosas perto da viuvez que, além do luto, experimentarão empobrecimento. O Estado brasileiro passou a entender que o direito à aposentadoria é como patrimônio — a esposa teria direito a 50% dos bens. Por que falo em mulheres velhas? Porque é para elas que as medidas provisórias de “reforma da previdência” apontam o dedo como as responsáveis pelo rombo: elas seriam como sanguessugas do dinheiro público, mulheres que não trabalharam na rua, mas herdaram o direito conquistado pelo suor de seus companheiros. Há muito erro e injustiça nessa análise rasa das formas de conjugalidade e reprodução social. A aposentadoria não é apenas um direito do trabalhador, mas uma forma de proteção às famílias.

Na velhice, senhora presidente, a família se reduz à viúva. As mulheres morrem mais tardiamente do que os homens. Há explicações epidemiológicas e demográficas para a longevidade das mulheres que alcançam a velhice: cuidam melhor da saúde, e são mais jovens que seus velhos maridos. Nem perco tempo com a nova fantasia da previdência social sobre as mulheres — homens velhos que se casam com meninas jovens, eles oferecem segurança, e elas, juventude. Até mesmo para esse roteiro amoroso, as medidas provisórias lançaram a rede: o direito à aposentadoria não é mais vitalício para mulheres com menos de 44 anos e é preciso, ao menos, dois anos de conjugalidade para o direito. Sim, o alvo são as mulheres.

Se minha indignação por cada mulher idosa não for suficiente para fazer este governo envergonhar-se das medidas provisórias, apelo à estabilidade democrática. Essa é uma matéria da mais absoluta centralidade para o justo: não pode ser decidida por medidas provisórias e em período de recesso da atenção pública. Por isso, repito, não estamos falando de reformas, senhora presidente, mas da seguridade social, de desrespeito à boa democracia e, mais ainda, de fragilização da velhice.



(dirlenetmarques@gmail.com)
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AUMENTAM AMEAÇAS AOS POVOS INDÍGENAS

O SECRETÁRIO DO CIMI NOS ATUALIZA COM INFORMAÇÕES SOBRE AS AMEAÇAS AOS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS. LEMBRA-NOS QUE ELES SÃO "ORIGINÁRIOS", ISTO É, POVOS ANTERIORES AOS QUE CHEGARAM A PARTIR DA INVASÃO COLONIAL, E POR ISSO, UMA VEZ COMPROVADO O TERRITÓRIO EM QUE VIVE CADA POVO HÁ SÉCULOS E ATÉ HÁ MILÊNIOS, SEUS DIREITOS DEVEM SER SIMPLESMENTE RECONHECIDOS E GARANTIDOS PELO GOVERNO - E NÃO REDISCUTIDOS POR UM LEGISLATIVO CONTROLADO POR QUEM DETÉM PODER ECONÔMICO E É SENHOR DA MAIOR PARTE DAS TERRAS DO PAÍS. 

ESTÁ É A DETERMINAÇÃO DA NOSSA CONSTITUIÇÃO FEDERAL.MAS OS QUE SE IMPÕEM COMO SENHORES QUEREM MUDAR A PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO PARA, MAIS UMA VEZ, AUMENTAR SEU PRIVILÉGIO E PODER DE CONTROLE SOBRE O TERRITÓRIO NACIONAL. E, POR ISSO, TORNAM MAIS DO QUE LEGÍTIMAS AS LUTAS DOS POVOS INDÍGENAS. E OS INDÍGENAS PRECISAM E CONTAM COM O APOIO DE TODOS QUE SÃO VÍTIMAS DESSES ABUSOS DE PODER PARA QUE SEUS DIREITOS DE POVOS SEJAM RESPEITADOS E GARANTIDOS.

E a luta continua: aumentam as ameaças aos povos originários do Brasil

O governo brasileiro segue decidido a nada decidir, favorecendo os setores anti-indígenas e potencializando os conflitos e as violências contra os povo


Cleber Buzatto
www.cimi.org.br
O ano de 2015 apresenta graves ameaças e importantes desafios aos povos indígenas do Brasil. A vitória na batalha relativa à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/00, no final de 2014, foi emocionante e enaltecedora, mas não decretou o fim dos ataques e da guerra imposta pelos ruralistas e demais inimigos contra os povos e seus direitos fundamentais.

Fortalecidos, ao longo dos últimos anos, por vultosos financiamentos subsidiados com recursos públicos e abastecidos com doações milionárias de grandes corporações, inclusive multinacionais, o ruralismo saiu ainda maior das urnas em 2014. Sedentos, insaciáveis e raivosos, tudo indica que aumentarão ainda mais a pressão e o ataque contra os povos e seus direitos em todos os níveis.

No Legislativo, o texto constitucional continuará sendo alvejado. Antes mesmo de iniciar oficialmente a nova legislatura, os ruralistas já estão em plena movimentação a fim de retomar a tramitação de instrumentos danosos aos povos, tais como a PEC 215/00 e o Projeto de Lei Complementar 227/12. As negociações da Frente Parlamentar da Agricultura e Pecuária com Eduardo Cunha (PMDB/RJ), candidato à presidência da Câmara dos Deputados, foram concluídas com o compromisso público deste em criar uma nova Comissão Especial para tratar da PEC 215/00 em troca da adesão dos ruralistas à sua candidatura. Cunha conta ainda com o apoio manifesto da bancada evangélica.

No Judiciário, preocupa a possibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) impor uma interpretação extremamente restritiva quanto ao alcance do direito constitucional dos povos às suas terras tradicionais. Neste sentido, a eventual confirmação, em plenário, da anulação de portarias declaratórias de terras tradicionalmente ocupadas pelos povos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, e Canela-Apãnjekra, no Maranhão, em decisões parciais tomadas pela 2ª. Turma do STF, em setembro de 2014, sob argumentos simplórios e descontextualizados de que os indígenas não teriam direito à terra porque não estavam sobre ela em 5 de outubro de 1988, causaria uma instabilidade generalizada e uma onda de ações e decisões anti-indígenas relativa a centenas de procedimentos administrativos de demarcação de terras indígenas. As consequências potenciais advindas de decisão do STF nessa direção, em termos de conflitos, violências e violações aos povos, são imensuráveis.

No Executivo, o texto constitucional é desrespeitado reiteradamente. São fartas e públicas as informações que atestam a ação intencional do governo federal, especialmente por meio da Presidência da República, Casa Civil e Ministério da Justiça, em negar o seguimento legal aos procedimentos administrativos de demarcação das terras indígenas no Brasil. Em 2014, nenhuma terra indígena foi homologada pela presidente Dilma. Atualmente, ao menos 21 terras poderiam ser homologadas uma vez que os respectivos procedimentos administrativos estão tecnicamente aptos e não há qualquer impedimento judicial para fazê-lo. No entanto, a presidente simplesmente não assina os decretos de homologação necessários. Da mesma forma, ao menos nove terras poderiam ser imediatamente declaradas pelo ministro da Justiça.

O governo brasileiro segue decidido a nada decidir, descumprindo a Constituição, favorecendo os setores anti-indígenas e potencializando os conflitos e as violências contra os povos.

Os povos, por sua vez, dão fortes sinais de que manterão as articulações e mobilizações em 2015. Cientes de que somente a própria mobilização em defesa de suas vidas e direitos tem potencialidade para impedir os intentos dos seus inimigos, os povos indígenas demonstram estar dispostos e preparados para mais um ano de intensas lutas Brasil afora.

Nesse processo, consideramos de grande importância os povos manterem-se  atentos às estratégias anti-indígenas, especialmente àquelas relativas à criminalização e à cooptação de lideranças. São fortes os indicativos de que grupos políticos que representam interesses econômicos manifestamente contrários aos direitos indígenas estão se movimentando para “atrair” povos e lideranças para o seu campo de jogo. Isso não significa, porém, que abandonarão a estratégia de incitação ao ódio e à violência contra os povos. Tudo indica que estas continuarão sendo implementadas de maneira associada à estratégia da criminalização posta a cabo por forças do próprio Estado.

Diante de tamanhas adversidades, a fim de reforçar ainda mais a legitimidade e estender o alcance de suas lutas, organizações, povos e lideranças indígenas têm importantes desafios ao longo do ano. Trata-se, especialmente, de manter firme o processo de mobilização em todos os níveis, de potencializar a atuação também em espaços de incidência política no âmbito internacional a fim de informar a sociedade e instâncias de direitos humanos de outros países acerca da realidade efetivamente vivida pelos povos no Brasil, bem como, de ampliar a articulação de suas lutas com setores da sociedade brasileira no meio urbano e com comunidades tradicionais e movimentos sociais do campo em nosso país.