terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

10 COISAS A SABER ANTES DE COMEÇAR HORTA URBANA


10 COISAS QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE COMEÇAR UMA HORTA


Ao longo desses quase 10 anos trabalhando com agricultura urbana, conheci pessoas que traziam as mais variadas motivações para se cultivar uma horta: saúde, ecologia, organização comunitária, razões políticas, econômicas, ambientais, e um grande etcétera.
E realmente: horta é tudo isso e um pouco mais. Desconheço outras práticas que sejam tão agregadoras, plurais e transversais como a agricultura, principalmente a urbana, orgânica e em grupo.
Felizmente, cada vez mais pessoas tem nos procurado pedindo orientações de como começar uma horta nas mais distintas condições. Por conta disso, resolvi fazer esse pequeno texto com orientações básicas e iniciais para quem se interessar pelo assunto. Obviamente não se trata de um manual, mas de questões a serem consideradas e indicações de aprofundamento.
1) COMO COMEÇAR?
item 1 planejando
Em geral, estudando e acompanhando quem já faz. Não existe caminho mais seguro que a observação. Se você quer começar uma horta, minha primeira dica é: procure alguém que tenha uma, vá até essa pessoa e converse. Observe como ela trabalha, quais são os desafios, as tarefas e os principais procedimentos. E disponha-se a ajudar. O voluntariado é uma das principais e mais sólidas portas de entrada nesse universo! Depois de estudar e observar, ponha-se a planejar a sua própria horta, de acordo com o espaço e as condições que tiver à disposição. Desenhe, escreva e pesquise: com essas três atitudes, suas chances de sucesso aumentam demais!
2) QUAL ESPAÇO PRECISO TER?
item 2 - horta pequena
Qualquer um. Uma horta pode ser um conjunto de vasos em uma sacada, um terreno de 100 m² ou dois hectares cultivados. Em se tratando de horta, tamanho não é documento. No entanto, seja qual for o tamanho disponível para começar, o espaço precisa atender a algumas condições básicas: é preciso que haja insolação direta (ainda que em apenas uma parte do dia), que exista solo ou substrato (seja em um vaso, canteiro ou cano para aquaponia), e que se tenha água a disposição. Ar também é um requisito, mas achei que era óbvio demais pra precisar citar (em outras palavras, não faça experiências de produção vegetal no vácuo, rs).
3) O QUE PLANTAR?
item 3 consorciação
Existem inúmeros métodos de plantio, mas vou te contar uma máxima da biologia: quanto mais vida, mais vida. Em outras palavras, prefira os métodos de plantio que agreguem a maior biodiversidade possível à sua horta. Quanto mais vida no solo, no ar e nas plantas, mais resistentes e saudáveis elas serão. Quando for iniciar um plantio você deve primeiro observar ao redor: quais são as plantas presentes na sua região? As mais resistentes, mais adaptadas? A horta não irá produzir tudo o que queremos, mas aquilo que as condições dadas permitirem que seja produzido. É preciso estudar o clima e as características gerais da sua região para escolher os melhores cultivos. Não adianta plantar 100 pés de mamão formosa em uma região fria, alta e montanhosa, pois o fruto não irá se desenvolver adequadamente. Além disso, as plantas interagem entre si, química e fisicamente, por isso, quando colocadas em locais próximos, precisamos conhecer um pouco de sua fisiologia e observar como reagem. O plantio pode ser feito através de mudas, sementes, estacas e pedaços de outras plantas: cada uma tem seu processo reprodutivo e o método de plantio recomendado. Em resumo: o que você irá plantar, depende da área que tem à disposição e das condições climáticas e estruturais. No máximo com 3 ou 4 dias de estudo você já estará pronto para fazer algumas escolhas. E lembre-se: nada melhor do que a prática – tentativa e erro 😉
4) E AS SEMENTES? AS MUDAS?
item 4 sementes
Como falei, cada tipo de planta exige um método de plantio, que, em termos gerais, pode ser direto (através de sementes) ou por mudas já crescidas. Em geral, raízes como cenoura e rabanete, que não gostam de ser movimentadas uma vez germinadas, devem ser plantadas direto no solo, usando sementes. Já algumas folhosas e solanáceas (como tomate ou pimentão), preferem que se faça a muda em local reservado para, posteriormente, organizá-las nos canteiros ou vasos maiores. Um pouco de estudo irá te mostrar sobre a preferência de cada uma, e nada como uma pesquisa prévia no google antes de qualquer plantio. As mudas e sementes podem ser compradas, trocadas ou conseguidas. Sementes compradas, em geral produzidas por grandes empresas, além da possibilidade de serem geneticamente modificadas, trazem venenos (por isso várias delas são de cor rosa) para evitar que sejam comidas durante o período em que estiverem armazenadas. Por essas (e várias outras) razões, prefira conseguir as chamadas sementes crioulas com amigos e amigas, e pessoas próximas. São sementes naturais, reproduzidas ao e mantidas ao longo do tempos por muita gente. Além disso, prefira também sementes adaptadas à sua região, pois elas já trazem consigo uma certa ‘memória’ genética que irá facilitar seu desenvolvimento. Se você plantar no Pará sementes de milho vindas do Rio Grande do Sul, por exemplo, elas irão demorar algumas gerações de plantio para se adaptar à nova realidade, sendo que sua produção nos primeiros 3 ou 4 anos será menor do que o esperado. Felizmente, são cada vez mais comuns as feiras de trocas de mudas e sementes, e muita gente vai poder te ajudar se você fizer uma postagem no facebook do tipo: “galera, alguém tem sementes de abóbora para me arrumar?”.
5) QUANTAS PESSOAS EU PRECISO JUNTAR PRA COMEÇAR?
item 5 pessoas mandala
Quantas quiserem e puderem. Não há limite mínimo ou máximo. Quanto mais gente, mais capacidade de trabalho, é claro. Mas uma pessoa é mais do que capaz de cuidar de uma horta pequena sozinha. Cada espaço tem suas características: temos hortas domésticas, comerciais, comunitárias… tudo depende do contexto em que nos encontramos. O mais importante é ter alguém ou algum grupo responsável por manter o espaço, regar as plantas, combater as pragas e, é claro, colher os frutos <3 p="">
6) E ÁGUA? COMO CONSEGUIR? QUANTO USAR?
item 6 água
Uma horta precisa de água a disposição. Seja água de chuva armazenada ou do tratamento de sua cidade. Seja usando balde ou mangueira. O importante é que as plantas precisam de água quase diariamente. Cada planta terá sua necessidade mas, em geral, uma rega diária é o recomendado para uma horta. A água da chuva é mais indicada, por não possuir cloro, flúor e outros tantos produtos químicos usados no tratamento, além de ser gratuita. Água de poços, quando estes não afetam a disponibilidade local de água, também é interessante. Prefira essas fontes à água tratada que, além do mais, é cara.
7) QUAL É O MELHOR FORMATO? CANTEIROS? VASOS? MANDALA?
item 7 mandala
O melhor formato é aquele que melhor aproveita o seu espaço e que se adequa às suas prioridades. O que é principal pra você? Produção? Estética? Funcionalidade? Essa questão será importante na hora de escolher o formato, e uma combinação equilibrada de todos esses fatores é um bom caminho. Na permacultura, preferimos utilizar formas curvas e circulares sempre que possível porque, além de mais agradáveis, criam mais bordas, aumentando nossa área produtiva e facilitando o manejo. O ideal é fazer vários desenhos antes de colocar a mão na massa, pra poder visualizar da melhor forma possível qual será o resultado final. Falando de espaço urbano, sempre vale levar em consideração toda verticalização possível, usando paredes, desníveis e relevos à nosso favor.
8) E SE EU QUISER FAZER UMA HORTA COMUNITÁRIA?
item 5 pessoas
Uma horta comunitária é uma das maneiras mais interessante de aprofundar a sociabilidade entre grupos, pessoas e vizinhos, e pode ser um ótimo tema gerador para organizar uma comunidade. Existem milhares de modelos de hortas comunitárias possíveis, e tudo isso depende da comunidade em questão, seus membros e seu propósito. O principal é encontrar qual é a motivação que unifica a todos os participantes. Oferecer ao bairro uma alimentação alimentar a preços populares? Garantir a soberania alimentar do entorno? Utilizar a horta como ferramenta pedagógica pra crianças e adolescentes? Combater o desperdício de lixo? Auxiliar uma ONG? Enfim, são muitas as possibilidades, e se você quer organizar uma horta comunitária, sua primeira e principal função será encontrar a ‘cola’ entre a horta e as pessoas que você quer engajar, e para isso não existe receita que não a conversa, o diálogo, e a observação. Chame reuniões em seu grupo, exponha sua vontade para as pessoas, escute-as, e planeje coletivamente.
9) PODE SER EM ESPAÇO PÚBLICO?
item 9 espaço publico
Sim! A horta pode ser também realizada em uma praça, terreno ou espaço público, desde que haja autorização do órgão competente (prefeitura, governo ou união), proprietário do imóvel. Claro que também é possível plantar seu autorização o que agrada ainda mais algumas pessoas, mas, nesse caso, você estará sujeito a ter seu trabalho perdido e, eventualmente, até mesmo ser notificado ou multado por sua ação. Então, estude bem as consequências e possibilidades, e escolha o melhor caminho. O ideal é que você procure a administração responsável e leve até ela um projeto para área, pedindo sua cessão de uso para uma Organização local, como uma ONG, por exemplo. Isso pode ser facilmente conseguido com boa vontade política e já acontece em milhares de situação Brasil a fora.
10) MAS AFINAL, POR QUE FAZER UMA HORTA?
item 10 veracidade
Como dissemos no início, razões para fazer uma horta não faltam. Eu vou elencar algumas:
– Horta é um jeito da gente se conectar com os ritmos naturais e com o mundo vegetal, elementos dos quais o ritmo urbano nos afasta e aliena;
– A produção de alimentos é encantadora e estimula hábitos físicos e alimentares mais saudáveis;
– Hortas trazem vida para as cidades, com animais, pássaros e muitos outros seres associados aos vegetais cultivados;
– Horta organiza e junta gente. Não tem quem não goste de falar do assunto, e é algo muito agregador;
– Horta é resistência. Mostra que nós podemos buscar mais autonomia, determinar os rumos das nossas próprias vidas, e que não precisamos ser reféns do mercado e das grandes corporações para conseguir existir no mundo.
Espero que esse esforço possa ser útil e estimule as pessoas a darem os primeiros passos nesse universo incrível que é a agricultura! Não tenha dúvida: tendo 1 m² quadrado de sol na sua garagem ou quintal, plante um pé de alface, uma cebolinha, um pouco de salsinha, e seja feliz! Se quiser conversar sobre o assunto, tirar mais dúvidas ou começar algo com nosso apoio, é só entrar em contato.
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=443926518258259368#editor/target=post;postID=766179191634366248 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

11º MANDAMENTO: CULTIVAR E GUARDAR A CRIAÇÃO

Roberto Malvezzi (Gogó)
A Quaresma continua a mesma e, com as Campanhas da Fraternidade, cada vez melhor. É um tempo que rememora os 40 anos do povo de Israel no deserto, ou 40 dias de Jesus no deserto, ou 40 dias que a Igreja delimitou como anteriores à celebração da Páscoa. Os sinais de “conversão”, no sentido de “rasgar os corações e não as vestes”, são o jejum, a oração e a esmola. Mas, o que importa é a conversão permanente.
Entretanto, ao trazer o tema da CF relacionando a fraternidade com o cuidado dos biomas brasileiros, a Igreja fala aos católicos, às outras Igrejas e a todo povo brasileiro. Agora nossa conversão adquire uma terceira dimensão. Se antes era um período de conversão a Deus e aos irmãos, agora inclui o 11º mandamento: cultivar e guardar a criação (Gênesis 2,15).
Bioma vem do grego. Bio é vida. Oma é conjunto, estrutura, etc. Portanto, bioma é um conjunto de vidas que ocupam um determinado espaço, sob um mesmo clima, um solo semelhantes e um relevo semelhante. Dai nossos 6 biomas oficiais: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. Para os movimentos sociais os povos que ocupam esses espaços são parte integrante dos biomas.
Para alguns cientistas a zona costeira dos manguezais e restingas deveria ser um bioma especial. Para outros ainda, a zona marinha deveria ser outro bioma. Para Aziz Ab’Saber deveríamos falar em “domínios morfoclimáticos”, incluindo o domínio das araucárias. Porém, oficialmente estamos definidos como 6 biomas.
Dessa biota – conjunto de todas as vidas – dependemos para comer, beber, produzir fármacos, essências, ter um clima ameno, e tantos outros serviços ambientais. Lembrando Francisco, tudo está interligado, vivemos numa fraternidade universal, cada criatura tem sua mensagem e precisamos entendê-las e respeitá-las.  
Francisco nos mostra que precisamos de uma conversão ecológica. A Quaresma é um tempo propício. Que saibamos usufruir esse período numa verdadeira conversão ecológica, que exige o reconhecimento e agradecimento ao Criador por tudo que Ele nos deu, a gratidão aos irmãos e irmãs que fazem de sua vida um gesto de cuidado e à toda a criação pela abundância de bens – tão maltratados – que ela nos oferece.

CIDADE DO MÉXICO: O PREÇO DA AGRESSÃO

CUIDADO: OS EFEITOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SÃO COMO FAGULHAS NUMA PILHA DE LENHA!

Quase todas as notas que soltamos sobre a Cidade do México falam de seu trânsito, de veículos a diesel e da baita poluição que é uma das características da cidade. 

Este artigo do New York Times mostra outro lado. A cidade foi construída pelos Astecas em uma ilha lacustre. A cidade cresceu em direção às montanhas que a cercam, drenando e soterrando o lago. A água foi sendo expulsa para dar mais espaço para as avenidas e construções. 

Resultado: uma cidade que mostra sinais de que está afundando. E que tem cada vez menos água para beber. O artigo, o primeiro de uma série sobre como as cidades enfrentam as mudanças do clima, diz “os efeitos da mudança do clima são variados e oportunistas, mas uma coisa é consistente: são como fagulhas numa pilha de lenha”.

  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NA ÍNDIA A SOLAR CADA VEZ MAIS BARATA E O CARVÃO CADA VEZ MAIS SUJO

 E NO BRASIL, POR QUE ESSAS VANTAGENS NÃO SÃO LEVADAS A SÉRIO? E HÁ AINDA QUEM RECLAMA QUANDO AFIRMAMOS QUE NOSSO PAÍS CONTINUA COLONIZADO, POR FORÇA DAS ELITES QUE NOS DOMINAM.

Num leilão reverso para uma planta solar de 750 MW, o preço da energia solar caiu para US$ 53,50/MWh (R$ 166 pelo câmbio de ontem). Duas das principais razões desta queda são específicas do mercado indiano: empréstimos com prazos maiores autorizados recentemente pelo governo (19 anos) e queda na taxa de juros (9,5%). A razão de ordem geral é a queda de 30% no preço dos módulos fotovoltaicos nos últimos 18 meses.

Um estudo publicado esta semana pelo indiano TERI (The Energy and Resources Institute) aponta para uma Índia sem carvão em 2050. Mostra que a atual capacidade instalada, somada à que já está em construção, aguenta a demanda até 2026 e que, até lá, nenhum novo investimento em usinas a carvão deverá ser feito. A partir de 2024, as renováveis já estarão mais baratas do que o carvão e, portanto, a capacidade a ser instalada a partir daí deverá ser eólica e solar.




AMAPÁ: A FRONTEIRA FINAL AMEAÇADA PELO PETRÓLEO E PELA SOJA

COMO ACABAR COM ESSE PROCESSO DESTRUIDOR DE OCUPAÇÃO DA AMAZÔNIA? JÁ SOFREM OS POVOS DA REGIÃO, JÁ SOFREM AS REGIÕES QUE DEPENDEM DA UMIDADE QUE É GERADA PELA AMAZÔNIA. MAS HÁ CEGOS E SURDOS, EXCLUSIVAMENTE VOLTADOS PARA O CULTO AO ÍDOLO RIQUEZA.


Os moradores do estado menos desenvolvido do Brasil temem que os planos governamentais para a soja e o petróleo destruam a floresta e seus meios de subsistência. A Comissão Pastoral da Terra levantou o registro por empresas e especuladores de mais de 828.000 hectares em apenas três anos. Estas áreas haviam sido destinadas pelo governo federal a pequenos proprietários, mas nunca registradas. A CPT teme que a violência e as disputas sigam a ocupação das terras, assim como ocorreu no vizinho estado do Pará quando as florestas foram derrubadas e o agronegócio avançou.

Antropólogos e acadêmicos dizem que o Amapá enfrenta outras ameaças: embora 70% da sua área seja protegida por terras indígenas e unidades de conservação, as florestas estão sendo abertas a barragens, mineração de ouro e megaprojetos de desenvolvimento.

E tem mais: é possível que nos próximos 18 meses as petroleiras estrangeiras BP e Total, junto com empresas brasileiras, iniciem perfurações no litoral do Amapá. Lá foi identificado um novo e possivelmente vasto campo petrolífero, que pode conter entre 15 e 20 bilhões de barris. A perspectiva de exploração de petróleo assusta os 4 mil pescadores do Amapá e muitos grupos indígenas, que dependem da água limpa para sobrevivência e alimentação. 

As empresas afirmam que a perfuração não terá qualquer impacto sobre o estado, e que qualquer poluição será levada por correntes para mar aberto, mas os moradores discordam. O Greenpeace, que está neste momento desafiando as petroleiras, diz que "a perfuração de petróleo perto do recife de corais recém descoberto afetará todo o estado do Amapá e a própria região amazônica. Qualquer derramamento porá em perigo a pesca, as florestas e os povos indígenas. Usar o óleo aumentará a mudança do clima e ameaçará a floresta". 

Grupos sociais e ambientais alertam que o Amapá é extremamente vulnerável ao caos social. A pobreza já é alta: mais de 55 mil dos 750 mil moradores do Amapá vivem em extrema pobreza. "Se petróleo e soja forem desenvolvidos no estado, os problemas só crescerão. Esta é a nova fronteira do petróleo e do agronegócio. Ambas as indústrias ameaçam a vida, destroem o mundo natural e empobrecem as pessoas. Nenhum delas é sustentável". É o que diz Paulo Adário, do Greenpeace.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A VOLTA DA MISÉRIA

Roberto Malvezzi (Gogó)
Quando debatíamos as fragilidades das conquistas sociais dos governos Lula-Dilma, um dos assombros era a possível volta da miséria. As reformas mais estruturais não tinham vindo e sempre achávamos que, com um governo regressista, o volta poderia acontecer.
O medo virou realidade antes de qualquer previsão. A estimativa do Banco Mundial é que 3,6 milhões de brasileiros regressem à miséria até o final desse ano.
Quem já viu tanta fome, sede, migração, saques, mortalidade infantil, se tiver um pingo restante de humanidade, não gostaria mais de ver essas cenas. Talvez menos aqui no Nordeste – já que a sociedade civil construiu uma infraestrutura mais sólida que os programas sociais -, mas, sobretudo nas periferias das grandes cidades.
Mesmo em crise, a sexta ou sétima economia do mundo não precisaria produzir miséria para se reajustar, se houvesse algum critério humanitário no reajuste.
O atual governo vai dizer que o retrocesso é uma herança da desorganização econômica oriunda dos governos anteriores. Jamais vai admitir que aprofundou a problemática econômica e que está tentando ajustar a economia às custas dos trabalhadores, aposentados e da miséria dos mais pobres.
Mas, a volta das crianças aos faróis, dos pedintes em mesas de bar e nas esquinas, no faz pensar que esse país realmente não tem jeito, que as forças reacionárias sempre vencem. É o pais dos “sangrados e ressangrados, capados e recapados”, como dizia Capistrano de Abreu.
Outro sinal é a anarquia social, o “mundo cão” das facções, quadrilhas, assassinatos, assaltos, assim por diante.
Não temos para onde ir, a não ser continuar combatendo, com o pouco que temos, as forças que produzem miséria para manter a acumulação do capital.  Mas, esse capital tem rosto e tem nome. Basta ver o noticiário de cada dia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MOVIMENTOS DE MULHERES CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA

MANIFESTO - MOVIMENTOS DE MULHERES CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

CONVOCAM LUTAS PARA O MÊS DE MARÇO DE 2017

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida” (Simone de Beauvoir)

O Brasil vive hoje o aprofundamento do golpe parlamentar, midiático e jurídico que rompeu com a democracia em 2016, semeou ódio às mulheres e população LGBT e reforçou o racismo. Temos vivido uma conjuntura de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados, seguido do aumento da violência e do controle sobre a vida e o corpo das mulheres, além da repressão, criminalização aos movimentos sociais populares e da desqualificação e perseguição das esquerdas. Em que pese essa onda conservadora, o feminismo tem resistido nas ruas contra retirada de direitos, contra a violência e feminicídios, lutando por autonomia e por nossos direitos sexuais e reprodutivos.

Os desmontes dos direitos e das políticas sociais atingem de forma particular as mulheres. Quanto mais avançam a privatização e a precarização da saúde e da educação, por exemplo, mais se intensifica a sobrecarga de responsabilização e de trabalho das mulheres, aumentando desigualdades de gênero, classe, raça e de geração.

Na contramão do reconhecimento da sobrecarga de trabalho e responsabilidades historicamente imputadas às mulheres, foi apresentada pelo governo golpista de Michel Temer uma proposta de reforma da Previdência que propõe igualar a idade de homens e mulheres, trabalhadores (as) rurais e urbanos para 65 anos, com 25 anos de contribuição. Dessa forma, as trabalhadoras rurais, por exemplo, que até agora se aposentavam com 55 anos, precisarão trabalhar pelo menos 10 anos a mais. Equiparar a idade de homens e mulheres para aposentadoria é desconsiderar a tripla jornada de trabalho das mulheres, que garantem a realização do trabalho doméstico e de cuidados, além da reprodução da força de trabalho.

Com as novas regras, as pensões por morte e os benefícios assistenciais definidos pela Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) deixam de ser vinculados ao salário mínimo e a idade de acesso do Benefício da Prestação Continuada (BPC) passará para 70 anos, retirando o acesso de milhares de pessoas ao benefício que, em diversas famílias, é a única fonte de renda.

Para trabalhadoras e trabalhadores rurais, a PEC 287/2016 propõe várias mudanças que dificultam significativamente o acesso aos direitos previdenciários. Um dos maiores problemas está na obrigatoriedade da contribuição individual em substituição à aplicação de alíquota sobre o resultado da comercialização da produção (art. 195, § 8º da Constituição Federal), conhecido como FUNRURAL. No contexto das relações desiguais na família, quando a família tiver que optar por um membro da família para contribuir, dificilmente será a mulher ou a/o jovem.

Outra alteração drástica será a desvinculação da aposentadoria do Salário Mínimo, que será 51% da média dos salários de contribuição, somados a 1% por ano de contribuição. Isto significa que, para se aposentar com um salário mínimo, um/a trabalhador/a rural necessitará ter contribuído por 49 anos e ter começado a contribuir aos 16 anos de idade.

Nós, mulheres trabalhadoras do campo, da floresta, das águas e da cidade, manifestamos nossa posição contrária à reforma da Previdência Social que impõe retirada de direitos adquiridos e aumento das desigualdades sociais; mas não mexe nos privilégios das classes dominantes, levando à privatização deste direito social e ao aumento do lucro dos bancos e das empresas de previdência privada. Defendemos o sistema de Seguridade Social e a Previdência Universal, Pública e Solidária, que contribua de forma justa com a distribuição de renda e a diminuição das desigualdades entre homens e mulheres, considerando as diferenças entre as/os trabalhadoras/es rurais e urbanos.

Só com uma ampla mobilização impediremos esses retrocessos. Nosso caminho e alternativa é resistir e lutar juntas!!!

Por isso, convocamos a todas as mulheres e organizações de mulheres a participar do processo de construção das ações do Dia Internacional de Luta das Mulheres, 08 de março: lutas em defesa dos nossos direitos contra a reforma da Previdência Social.

Para isso, sugerimos:

• Formação política sobre os impactos da reforma da Previdência na vida das mulheres;
• Participação em programas de rádio;
• Pressão sobre vereadoras/es, prefeitas/os e deputadas/os nos estados, propondo audiências públicas em Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas;
• Realização de grandes mobilizações, atos, paralisações e jornadas de lutas descentralizadas nos esta- dos, entre os dias 06 a 15 de março, de forma unitária com mulheres urbanas e rurais e em articulação com partidos de esquerda, movimentos populares e sindicais;
• Lutas contra o desmonte da reforma da Previdência, a retirada de nossos direitos e todos os tipos de violência contra as mulheres;
• Seguir presentes em todas as lutas deste mês de março contra a retirada dos direitos;
• Apoiar as lutas da “Parada Internacional de Mulheres” neste 08 de março.

Nossos Direitos, só a luta faz valer!!! Nenhum Direito A menos!!! Fora Temer!!!

Assinam:

Articulação Brasileira de Lésbicas - ABL Articulação de Agroecologia da Bahia - AABA Articulação de Mulheres Brasileiras - AMB Articulação Mineira de Agroecologia - AMA Casa da Mulher do Nordeste
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB Central Única dos Trabalhadores - CUT
Centro da Agricultura Alternativa do Norte de Minas Coletivo Democracia Corinthiana - CDC
Coletivo Jaçanã Musa dos Santos - Poços de Caldas/MG
Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil - CONTRAF Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação - CNTE
Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares - CONTAG Conselho Indigenista Missionário - CIMI
Conselho Nacional das Populações Extrativistas - CNS
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional - FASE
Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas - FENATRAD Frente Mulheres de Esquerda
GT Gênero da Articulação Brasileira de Agroecologia- ABA GT Gênero e Agroecologia
GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia - ANA GT Mulheres e Agroecologia da ASA Paraíba
Levante Popular da Juventude - LPJ Marcha Mundial das Mulheres – MMM
Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia - MAMA Movimento Camponês Popular – MCP
Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos / Movimento Organizado de Trabalhadores Urbanos - MTD/MOTU Movimento de Mulheres Camponesas – MMC
Movimento de Mulheres da Zona da Mata e Leste de Minas - MMZML Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense – MMNEPA
Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste - MMTR-NE Movimento dos Atingidos por Barragem - MAB
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra – MST Movimento dos(as) Pescadores(as) Artesanais - MPP
Movimento Graal/Brasil
Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu - MIQCB Movimento Nacional Contra a Corrupção e pela Democracia - MNCCD Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM
Núcleo de Defesa da Democracia – NDD/DF
Núcleo de Estudos, Pesquisas e Práticas Agroecológicas do Semiárido - NEPPAS/UFRPE Rede de Mulheres Empreendedoras Rurais da Amazônia – RMERA
Rede Nacional de Negras e Negros LGBT
Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos Rosas pela democracia (DF)
União Brasileira de Mulheres - UBM
União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária – UNICAFES