quinta-feira, 22 de setembro de 2016

PECUARISTAS E MADEIREIROS SÃO CANDIDATOS NO ARCO DO DESMATAMENTO

POR DIFICULDADE DE PUBLICAR DADOS ESSENCIAIS PARA ENTENDER O ARTIGO, QUEM DESEJAR CONHECER OS NOMES, OS TAMANHOS DE SUAS PROPRIEDADES, SUA DECLARAÇÃO DE RENDA ETC. CLIQUE  NESTE LINK:

http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2016/09/13/pecuaristas-e-madeireiros-protagonizam-eleicoes-no-arco-do-desmatamento/


CIMI: VIOLÊNCIA CONTRA POVOS INDÍGENAS CONTINUA ACENTUADA

E ESSA VIOLÊNCIA REVELA QUE SE ESTÁ BUSCANDO TOMAR O RESTO DOS TERRITÓRIOS DOS POVOS ORIGINÁRIOS, PRESENTES NESTE CONTINENTE HÁ MILÊNIOS. QUANDO AS ELITES ECONÔMICAS DEIXARÃO DE SER COLONIZADORAS VIOLENTAS, SEDENTAS DE TERRA E DE PODER PARA COMPLETAR SEU PROGRESSO DESTRUIDOR DAS CONDIÇÕES DE VIDA NO PLANETA TERRA? 

Violência contra povos indígenas no Brasil permanece acentuada: Cimi lança relatório com 'Dados 2015'
18.09.2016

Violência contra povos indígenas no Brasil permanece acentuada: Cimi lança relatório com 'Dados 2015'. 25116.jpeg
Brasília, 15 de setembro de 2016 - O relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil - Dados de 2015, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), evidencia a permanência do quadro de omissão dos poderes públicos em relação aos direitos dos povos indígenas, especialmente em relação ao direito à terra, o que impacta drasticamente no direito deles viverem de acordo com o seu modo tradicional, ambos reconhecidos e garantidos pela Constituição Federal.
Os dados evidenciam que, em 2015, também permaneceu a situação de constante invasão e devastação das terras demarcadas; assim como se manteve a realidade de agressões às pessoas que lutam por seus legítimos direitos, com casos de assassinatos, espancamentos e ameaças de morte, dentre outros; e permaneceu ainda um assustador número de morte de crianças até 5 anos, em muitos casos por doenças facilmente tratáveis.

Chama atenção o agravamento do número de perversos ataques milicianos contra os frágeis acampamentos das comunidades Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Até mesmo inaceitáveis práticas de tortura com requintes de crueldade, como a quebra de tornozelos de anciãos, foram realizadas. Neste caso específico, em outubro, no tekoha Mbaracay, município de Amambai, após um desproporcional ataque com armas de fogo. 

Nesse sentido, o presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho, Dom Roque Paloschi, na apresentação do relatório, indigna-se "porque se repetem e se aprofundam as mesmas práticas criminosas, sem que medidas tenham sido efetivamente adotadas", e questiona: " Até quando teremos que apresentar esses relatórios?". 

Dados de 2015

Como em anos anteriores, em 2015 pouco se avançou nos processos de regularização das terras indígenas. Sete homologações foram assinadas pela presidenta Dilma Rousseff, enquanto o Ministério da Justiça publicou apenas três Portarias Declaratórias e a Presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai) identificou somente quatro terras indígenas, além de ter publicado duas Portarias de Restrição. Na foto, lançamento do relatório na sede da CNBB, em Brasília (DF).

De acordo com a Constituição Federal, todas as terras tradicionais indígenas deveriam ter sido demarcadas até 1993, cinco anos após a promulgação da Constituição. No entanto, de acordo com o levantamento do Cimi, de 31 de agosto de 2016, 654 terras indígenas no Brasil aguardam atos administrativos do Estado para terem seus processos demarcatórios finalizados. Esse número corresponde a 58,7% do total das 1.113 terras indígenas do país.

Observa-se que, do total dessas 654 terras indígenas com pendências administrativas para terem finalizados os seus procedimentos demarcatórios, 348 terras - ou seja, pouco mais da metade (53%) - não tiveram quaisquer providências administrativas tomadas pelos órgãos do Estado até hoje. O maior número de terras nessa etapa Sem Providências concentra-se no Amazonas (130), seguido pelo Mato Grosso do Sul (68) e pelos estados de Rio Grande do Sul (24) e Rondônia (22).

Outras 175 terras, ou 26%, encontravam-se na fase A Identificar. Em muitos casos, verifica-se intensa morosidade nesta etapa. Podemos citar o caso da Terra Indígena (TI) São Gabriel/São Salvador, do povo Kokama, localizada no município de Santo Antônio do Içá, no Amazonas, que teve seu Grupo Técnico criado em 25 de abril de 2003 mas, doze anos depois, seus trabalhos ainda não foram concluídos.

 Cimi registrou 18 conflitos relativos a direitos territoriais e 53 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio dos povos, sendo que o Maranhão é o estado com o maior número de registros, com 18 casos.

Em 2015, segundo os dados oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e do Distrito Sanitário Especial Indígena do Mato Grosso do Sul (Dsei-MS), houve 137 assassinatos de indígenas em todo o país, sendo que 36 deles foram registrados pelo Dsei-MS. Os dados da Sesai, no entanto, não permitem uma análise mais aprofundada, visto que não apresentam informações detalhadas das ocorrências, tais como faixa etária das vítimas, localidade e povo. Os dados sistematizados pelo Cimi registraram um total de 54 vítimas, sendo que 20 das ocorrências aconteceram no Mato Grosso do Sul, que novamente é o estado com o maior número de casos.

Dentre os casos envolvendo conflitos fundiários, destacamos o macabro assassinato de Vítor Kaingang, uma criança de apenas 2 anos, em Santa Catarina, em dezembro de 2015. Na TI Tupinambá de Olivença, Adenilson da Silva Nascimento, conhecido como Pinduca, importante liderança de seu povo que lutava pela regularização fundiária da terra tradicional, foi assassinado numa emboscada por disparos de arma de fogo.

No estado do Maranhão, na TI Alto Turiaçu, a liderança Euzébio Ka'apor, que também liderava seu povo na luta pela defesa de seu território e, especialmente contra a exploração madeireira, foi assassinado a tiros quando estava no município de Centro do Guilherme.

Outro caso preocupante ocorreu no Mato Grosso do Sul, o Guarani e Kaiowá Simeão Vilhalva foi assassinado depois que os fazendeiros e políticos da região do município de Antônio João promoveram um ato público convocando a população a se rebelar contra a comunidade indígena de Ñhanderu Marangatu. Os indígenas haviam realizado algumas ações de recuperação de parcelas de seu território, que havia sido homologado em 2005 mas, no entanto, permanece sob a posse de não índios.

Ainda em relação à violência contra a pessoa, houve o registro de 31 tentativas de assassinato; 18 casos de homicídio culposo; 12 registros de ameaça de morte; 25 casos de ameaças várias; 12 casos de lesões corporais dolosas; 8 de abuso de poder; 13 casos de racismo; e 9 de violência sexual.

Dos 87 casos de suicídio em todo o país registrados pela Sesai e pelo Dsei-MS, 45 ocorreram no Mato Grosso do Sul, especialmente entre os Guarani e Kaiowá. Entre 2000 e 2015 foram registrados 752 casos de suicídio apenas neste estado. Um recente estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Grupo Internacional de Trabalho sobre Assuntos Indígenas (IWGIA) sobre os Guarani e Kaiowá afirma: "...esses jovens indígenas carregam um trauma humanitário cheio de histórias contadas por seus parentes, histórias de exploração, violências, mortes, perda da dignidade, enfim, a história recente de muitos povos indígenas. Histórias carregadas de traumas, presas a um presente de frustrações e impotência. Nessas circunstâncias, estes jovens são o produto do que se costuma chamar uma geração que sofre do que se chama Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)".

Com base na Lei de Acesso à Informação, o Cimi obteve, da Sesai e do Dsei-MS, dados parciais da mortalidade indígena na infância. Somando as duas bases de dados, chega-se a um total de 599 óbitos de crianças menores de 5 anos em todo o país. Trata-se de números parciais, visto que pelo menos três Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei) deixaram de informar se houve mortes na área de sua abrangência (Alto Rio Juruá, Bahia e Parintins).

As três principais causas das mortes foram: pneumonia não especificada, com 48 mortes (8,2%); diarreia e gastroenterite de origem infecciosa resumível, com 41 mortes (7%). Pneumonia, diarreia e gastroenterite são doenças perfeitamente tratáveis, mas causaram a morte de pelo menos 99 crianças menores de 5 anos. A região Norte do país concentra o maior número de óbitos, com 349 mortes de crianças menores de 5 cinco anos, ou 58% do total dos dados parciais. Os povos indígenas mais afetados são das áreas de abrangência dos Dsei Xavante, com 79 óbitos, Alto Rio Solimões, com 77 óbitos, e Yanomami, com 72 óbitos.

Os dados do Dsei Mato Grosso do Sul revelam um coeficiente de mortalidade infantil duas vezes maior que o da média nacional, com 26,35 por mil nascidos vivos. A taxa de mortalidade infantil no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 13,82 por mil nascidos vivos (dados de 2013). Os dados mostram ainda que o maior número de óbitos ocorreu no polo base de Dourados, com 11 mortes.

Ainda em relação à violência por omissão do poder público, foram registrados 52 casos de desassistência na área de saúde; 3 mortes por desassistência à saúde; 5 casos de disseminação de bebida alcoólica e outras drogas; 41 registros de desassistência na área de educação escolar indígena; e 36 casos de desassistência geral.

Retrocesso e criminalização

Nas análises publicadas no relatório, o Cimi avalia que a ofensiva sobre os direitos indígenas realizada pelos Três Poderes, e protagonizada especialmente pela bancada ruralista no Congresso Nacional, assim como pelo Executivo em relação à omissão nas demarcações de terras, é diretamente responsável pela permanência do quadro de severa violência e violações aos povos indígenas no Brasil, assim como pelo agravamento dos cruéis ataques no Mato Grosso do Sul.

Nesse contexto, em um dos textos da apresentação, o secretário executivo do Cimi, Cleber César Buzatto, ressalta a agudez da criminalização em 2015. "A tentativa de criminalizar lideranças indígenas, profissionais de antropologia, organizações e pessoas da sociedade civil que atuam em defesa dos projetos de vida dos povos indígenas no Brasil também foi intensificada pelos ruralistas em 2015", avalia Buzatto, referindo-se, por exemplo, às Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) contra o Cimi, instalada na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, e a da Funai e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), instalada na Câmara dos Deputados.

Fonte: CIMI

MUDANÇAS CLIMÁTICAS: DOENÇAS DO CALOR

MAIS DO QUE ASSUSTAR, AS INFORMAÇÕES QUE SEGUEM DEVEM SERVIR PARA QUE NOS DEMOS CONTA QUE AS DECISÕES EM RELAÇÃO AO FUTURO DEVEM SER TOMADAS AGORA, COM URGÊNCIA. SEM ISSO, O PIOR PODE TORNAR-SE REALIDADE. E É PRECISO TER PRESENTE QUE 2100 É DEPOIS DE AMANHÃ, ESTÁ LOGO AÍ NA ESQUINA...

O aumento da temperatura global está associado a mais casos de doenças infecciosas, pulmonares, cardiovasculares e a óbitos provocados por ondas de calor, inclusive no Brasil. Se a emissão de poluentes não for freada, a Terra se tornará um local inóspito ao homem

» Paloma Oliveto
Publicação: 18/09/2016 04:00



Os sintomas estão cada vez mais sérios. Aumento da temperatura, acidificação dos oceanos, exacerbação de desastres naturais, perda de biodiversidade, embranquecimento de corais, elevação do nível do mar, derretimento de geleiras... O diagnóstico é bem conhecido: o paciente sofre com a liberação de dióxido de carbono e outras substâncias poluentes há mais de um século e meio, desde a Revolução Industrial. O planeta, contudo, não adoece sozinho.

As evidências científicas indicam que o homem já está sofrendo, na pele, as consequências das mudanças climáticas. Para o futuro, caso a tendência de emissões de gases do efeito estufa se mantenha, a Terra será um desafio para a saúde humana. Projeções baseadas nos cenários divulgados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas mostram que o aumento de temperatura — que tem atingido níveis recordes mês a mês neste ano — está associado a doenças infecciosas, pulmonares, cardiovasculares e a óbitos por ondas de calor.

De acordo com o IPCC, caso não seja feito nada para deter o avanço das emissões, no próximo século, a temperatura pode ficar 4ºC acima dos níveis pré-industriais, um quadro considerado extremo, mas não impossível. “É como a queda de um avião. É algo muito raro de acontecer. Mas, pode acontecer. E, se o avião cai, todo mundo morre”, compara a enfermeira especialista em saúde pública Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nessa semana, ela apresentou, no seminário Mudanças Climáticas e Biodiversidade, do Instituto Chico Mendes (ICMBio), um relatório que mostra as consequências desse cenário extremo para a saúde dos brasileiros.

O trabalho, produzido com a também investigadora da Fiocruz Sandra Hacon, faz parte do relatório Riscos de mudanças climáticas no Brasil e limites à adaptação, realizado com apoio da embaixada britânica no primeiro semestre. Com base em publicações do IPCC, do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), do Banco Mundial e da Organização Mundial da Saúde, além de artigos científicos, as pesquisadoras investigaram os impactos diretos (estresse por calor, morte por eventos extremos), os indiretos (mortalidade e morbidade por todas as causas e causas específicas), a distribuição de enfermidades vetoriais e a vulnerabilidade sociodemográfica e econômica, tendo como modelo um país 4ºC mais quente que no fim do século 19.

As projeções para esse cenário são dramáticas. Entre 1999 e 2000 — período usado para a comparação no trabalho — a sensação térmica no país já não era das melhores: enquanto no Sul, no Sudeste, em partes da Bahia e no Distrito Federal o estresse térmico era moderado, o restante do Brasil sofria com estresse por calor forte. Em 2090, todas as regiões estarão sob estresse muito forte ou extremo. Nessa última condição, da qual apenas o litoral escapará, a sobrevivência humana é praticamente impossível. “Algumas vacas conseguem viver no estresse extremo. Vacas”, ressalta Beatriz Oliveira.

A enfermeira explica que estresse por calor é uma condição fisiológica que ocorre quando o organismo não consegue mais manter a temperatura corporal. “Quando você está em um ambiente muito quente, o seu corpo vai suar para tentar dissipar o calor e manter sua temperatura entre 36,5ºC a 37ºC. Quando você está em um ambiente muito quente e muito úmido, o corpo começa a ter dificuldade de dissipar esse calor. Então, vai chegar um momento em que o organismo não consegue mais se adaptar àquela condição climática. O corpo entra em colapso e pode acontecer morte.”

Palavra de especialista
Idosos e pobres sofrerão mais

“À medida que a temperatura sobre, as ondas de calor se tornarão mais frequentes e também poderão ser mais duradouras e severas. Essas ondas provocarão um aumento nas mortes, e os mais afetados serão os idosos, os que já têm a saúde fragilizada e as pessoas em situação de pobreza, sem acesso a ar-condicionado. Também haverá um aumento na frequência de eventos cardiovasculares devido às altas concentrações de ozônio na superfície — e esse é um poluente-chave no ar, conhecido por causar irritações nos pulmões. A distribuição de alérgenos também deve se expandir. E há a preocupação de que certas doenças infecciosas se espalhem devido ao clima mais quente. No passado, invernos frios ajudaram a mitigar a disseminação de algumas doenças. Finalmente, as mudanças climáticas vão trazer enchentes e chuvas excessivas, que podem aumentar o risco de enfermidades infecciosas e alérgicas.”

Mark R. Windt, imunologista do Centro de Asma, Alergia e Doenças
Respiratórias de North Hampton.
Ele é coautor de um estudo publicado neste mês no Jornal Respiratório
 Europeu sobre os danos das mudanças climáticas à saúde
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terça-feira, 20 de setembro de 2016

ARGENTINA, O BRASIL DE AMANHÃ?

POR 
HUGO ALBUQUERQUE

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Contra-reformas neoliberais de Maurício Macri já provocam recessão, desemprego e disparada de preços. Popularidade declina e apenas grandes corporações comemoram. Será o futuro de Temer?
Por Cauê Ameni e Hugo Albuquerque
Era para ter sido só mais uma sexta-feira de inverno em Mar del Plata. Tudo se resolveria com um discurso simples, recheado de lugares comuns e uma partida tranquila. Contudo, Maurício Macri, presidente da Argentina, não conseguiu discursar mais do que dez minutos. Ele não resistiu às – nada metafóricas – pedradas desferidas pela multidão aos gritos de “Macri, basura [lixo], vos sos la ditadura”. O líder argentino encerrou seu breve discurso e entrou rapidamente no carro oficial, cercado pelos manifestantes.
Qualquer semelhança com o sumiço do então “presidente” Michel Temer, que quebrou o protocolo ao pedir que seu nome não fosse anunciado na abertura das Olimpíadas e seu desaparecimento no encerramento, além das vaias ensurdecedoras na abertura das Paraolimpíadas, não são meras coincidências. Macri chegou ao poder prometendo reduzir a inflação, a pobreza e o desemprego, além de tentar acalmar os ânimos na polarização política. Entretanto, os primeiros efeitos são exatamente o contrário. Embora esteja no poder em virtude do voto, representa setores com agendas políticas parecidasàs que aqui sustentam Temer. Como chegou ao poder um pouco antes, a Argentina já sente o peso, das medidas de austeridade mais claramente.
Enquanto os manifestantes brasileiros tiveram seus cartazes de protesto caçados dentro dos estádios e são recebidos com cassetetes nas ruas por se oporem ao processo de impeachment, os manifestantes argentinos reagem a repressão. Organizações em defesa de perseguidos e desaparecidos políticos na ditadura, conduzem atos enormes de resistência na esteira do rumoroso caso da tentativa de prisão de Hebe de Bonafini, líder das mães da praça de maio – em 4 de agosto último, resultando em um rotundo fracasso e consequente desmoralização das forças da repressão locais. Além disso, para colocar mais gasolina na fogueira, aliados de Macri estão relativizando a cifra de mortos da última ditadura e tribunais agora começam a liberar repressores da ditadura.
Várias perguntas se insurgem sobre a atual conjuntura: o que significa a presença de Macri no poder para a Argentina e para a América Latina? O que explicaria tamanha fúria contra um jovem presidente, eleito como novidade, com apenas nove meses de mandato? As suas políticas econômicas estão sendo mal compreendidas? Qual a real situação argentina? Seria a Argentina a imagem do Brasil e da América Latina de amanhã?
TEXTO-MEIO
Argentinos protestam contra
Argentinos protestam contra
Macri: a “novidade” contra atípica estabilidade da Era Kirchner
Eleito em 2015, Macri conseguiu a “proeza” de se tornar o primeiro candidato neoliberal a presidir a Argentina depois da catástrofe social, econômica e política que explodiu naquele país em 2001, quando cinco presidentes passaram pela Casa Rosada, sede do poder argentino, em poucas semanas – consequência deflagrada diretamente pelas políticas neoliberais que afundaram o país naquela ocasião.
Dali em diante, e com a prosperidade socioeconômica iniciada nos doze anos de governos do casal Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015), parecia ser muito difícil que a direita neoliberal voltasse ao poder. Sobretudo por não ter havido nenhuma crise relevante, mesmo nos maus momentos do Kirchnerismo – levando em consideração que a grande crise argentina de 2001 contudo, não foi nem a única, nem a mais trágica dos últimos cem anos naquele país.
A era kirchnerista (2003-2015) foi um dos períodos de maior estabilidade – política, mas também econômica – da história argentina. Quase uma ilha pacifica em meio a um mar turbulento. Desde que o sufrágio universal foi instituído naquele país, pela Lei Sáenz Peña,em 1912, não demorou muito para que os problemas aparecessem: já em 1930 os argentinos se viram diante do primeiro dos cinco golpes militares – totalizando vinte e cinco anos de regimes militares de corte fascista.
Filho da elite argentina, ex-presidente do Boca Juniors, ex-prefeito de Buenos Aires, Macri pode ser tudo, menos um elemento novo na política de seu país ou da América Latina. Contudo ele conseguiu ser vendido com ares de novo, eleitoralmente, por uma razão episódica: sem nunca ter sido militar e não vir de nenhum dos dois principais partidos da Argentina moderna, seus marqueteiros conseguiram maquiar sua biografia.
Vitorioso em segundo turno contra o moderado Daniel Scioli – candidato peronista apoiado, de maneira não muito animada, por Cristina Kirchner – Macri teve um êxito eleitoral apertadíssimo (51,34% contra 48,66% do rival) o exato mesmo placar com o qual Dilma Rousseff bateu seu rival Aécio Neves em 2014 – e um pouco mais do que Maduro bateu Henrique Capriles em 2013 na Venezuela (na ocasião, 50,61% a 49,12%). Nos casos brasileiro e venezuelano, o ponteiro das urnas continuo inclinado para o campo popular, mas no caso argentino ele pendulou a favor das elites.
Depois de anos de constituição de direitos, como a legalização do casamento homoafetivo, o enfrentamento do legado militar, uma lei que *regulamentou* o setor midiático e a realização de eleições regulares, o discurso de Macri explorou o esgotamento do ciclo progressista e um suposto mau momento econômico.
Sem registrar a ocorrência de nenhum desastre político à moda Argentina, a tese do desgaste de Cristina em virtude da situação econômica poderia ser uma explicação plausível. Mas a pergunta defacto é: até que ponto Macri teria razão nisso, qual a real gravidade da situação econômica argentina em 2015?
A economia argentina sob kircherinismo desestabilizou o país? Plano Macri seria a solução?
tabelaargentina
O gráfico acima é um resumo do crescimento do PIB argentino desde 1961. Os altos e os baixos lembram a melancolia de um tango: da ribalta à sarjeta em uma mesma vida. Não foram poucas as vezes que a economia argentina foi do céu ao inferno em um curtíssimo espaço de tempo. Na era kirchnerista, contudo, o PIB jamais caiu, em que pesem os últimos anos de Cristina serem marcados por uma desaceleração do crescimento – movido, sobretudo, pela queda nos preços internacionais das commodities.
A mídia, que viu seu monopólio ameaçado com a Ley de Medios, e Macri, contudo, conseguiram convencer os argentinos da suposta gravidade da situação econômica do país e, não só, sutilmente deixar no ar que seriam necessários ajustes. Scioli, o candidato peronista, tampouco parecia ter desenvoltura para explicar a queda do ritmo de crescimento ou, quem sabe, defender o modelo socioeconômico que, por sinal, não era exatamente o seu – Scioli é uma cria do menemismo, vertente neoliberal do peronismo, referente ao ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).
Visto em conjunto o período kirchnerista sob a ótica econômica, registrou-se uma média de crescimento anual de 5,2% – tendo uma sequência em torno de 9% nos mandatos de Néstor; a taxa de desemprego despencou de 20% no fim de 2002 para 6% no final de 2015 – com queda de 87% na desigualdade salarial e uma valorização salarial, em termos reais, de mais de 70%.
A balança comercial se manteve superavitária, a exportação chegou a quadruplicar em 2011 – indo de 25 bilhões de dólares em 2002 para 84 bilhões dólares. Ano em que o PIB per capita atingiu 17.376 dólares, o maior na América Latina. Em 2015, o país teve seu primeiro défict na balança comercial depois de 15 anos, mas, mesmo assim, manteve o crescimento do PIB em 2,4%.
Do ponto de vista social, a pobreza recuou severamente: de 57,8% nos anos da crise para apenas 29% no último ano de Cristina Kirchner no poderA desigualdade social seguiu um rumo de queda muito acentuado depois de ter atingido seu auge, não por caso, em virtude da crise de 2001 – na qual os mais pobres, evidentemente, sofreram mais do que os mais ricos.
Ponto polêmico, a inflação foi controlada, despencou de 40% em 2002 para metade, chegando a 8% no último ano do mandato de Nestor. Embora tenha se elevado posteriormente, tendo uma média de 13,3% nos governos da Cristina, criou-se uma celeuma entre o governo Kirchner e a oposição, que acusava o governo de maquiar dados – muito embora a legislação e a atuação governamental, inclusive nas articulações junto aos sindicatos, sempre garantissem reposições salariais.
Concretamente, a economia argentina passou a crescer menos nos últimos anos de Cristina. Macri tinha esse flanco e a inflação, ainda que com seus efeitos contidos pelas políticas de Cristina. A crise foi desenhada, vendida e, ao final do processo eleitoral, comprado pelo eleitorado argentino, ainda que por uma pequena vantagem. Agora, era hora da nova etapa, quando o discurso de Macri iria encontrar a realidade prática.
A “solução” macriana
As primeiras atitudes de Macri no governo foram surpreendentes para muitos argentinos: ao contrário de resolver pragmática e gradualmente os problemas, da “grande crise” que ele e seus marqueteiros criaram, ele construiu um cavalo de troia para mudar o modelo econômico; apostou todas as fichas em uma mudança completa do modelo econômico do país, dando um enorme cavalo de pau, independentemente do custo que isso tivesse.
Noves meses depois das promessas, Macri, que propagandeava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, vai ter de se contentar com a queda de 1%. Basicamente, algumas das mudanças radicais que ele promoveu foram a violenta e abrupta desvalorização do peso argentino (30% já em dezembro) e os cortes nos subsídios implantados durante o kircherismo. Em outras palavras, promoveu um verdadeiro tarifaço400% nas contas do gás; na tarifas de energia houve um aumento de 300%, chegando em alguns casos a 700%; o aumento na água oscilou de 216% e 375%; o combustível aumentou 35% acumulados desde dezembro; e o preço do transporte público teve um aumento de 100%. A sanha de cortar sem anestesia para “reduzir o estado” foi tanta, que o governo chegou ao ponto de cortar 160 remédios distribuídos para aposentados e pensionistas.
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Manifestação contra o tarifaço
Ambas as medidas, com fulcro em aumentar os ganhos de concessionários e grandes detentores de dólares, fizeram, irônica e justamenteinflação disparar, alcançando a casa de 46%, a mais altadesde 1991 – ao fim do governo Cristina, a mesma taxa estava em 25% há oito meses. Ironicamente, o governo Macri insiste em dizer que a inflação é menor do que a acusada pelos órgãos independentes, a mesma prática que ele condenava na antecessora. Por outro lado, o governo tem sido duro nas negociações salariais, não repondo as perdas com a inflação – o que torna o problema inflacionário muitíssimo maior.
Ainda, com a retração do consumo interno (o gasto médio de compra caiu 26,5%) e o baixo preço das commodities – sejam os derivados de gás e petróleo ou mesmo os produtos agrícolas –, além da incerteza sobre qual será o novo desenho da economia argentina, que está bem no meio de um cavalo de pau, fez com que o crescimento desacelerasse: nos três primeiros trimestres de 2016 a economia caiu em um ritmo cada vez mais acelerado,sugerindo um desempenho negativo no final do ano, o primeiro desde 2001. Segundo a consultora Scentia, alguns setores da economia foram fortemente golpeados pelo aprofundamento da recessão: a atividade na construção civil caiu 19,6% e a indústria recuou 6,5%. Segundo os sindicatos, até junho foram demitidos 200 mil assalariados. E para piorar, Macri vetou uma lei antidemissões.
Como consequência, com o avanço da inflação afetando os trabalhadores – duplamente, pelo avanço objetivo das tarifas de serviços públicos e como isso aumenta o preço de outras mercadorias por irradiação – e a desvalorização do peso favorecendo os mais ricos – que detinham reservas em dólares – verifica-se um desaquecimento geral que fez o desemprego saltar de 5,9% para 9,3% sob Macri!Ademais, estudos comprovam que neste curto período mais de um milhão de argentinos entraram na linha de pobreza – que agora chega a 34,5% da população.
A popularidade do novo governo também despencou. Ao tomar posse, em 10 de dezembro, Macri contava com 63%. Hoje, segundo a pesquisa da M&F de agosto, apenas 43,1% dos argentinos o aprovam, contra 42,6% que desaprovam e 43% que esperam uma situação econômica pior nos próximos meses.
A política neoliberal ortodoxa de Macri conseguiu destruir até hábitos arraigados entre os argentinos: os churrascos se tornaram vaga lembrança quando preço da carne dobrou. A combinação dos efeitos cruzados da restauração da economia neoliberal e a repressão – necessária para garantir a implementação dessa Doutrina de Choque, mas também dissuasória – não estão isoladas de um contexto internacional turbulento, o qual também está conectado com fenômenos paralelos na América Latina – mas o que representaria, do ponto de vista institucional, a volta da arte de governo neoliberal no cenário pós-inclusão social dos últimos anos?
Até lá, a economia deixa o governo sob pressão e com popularidade em queda. Pesquisa da M&F de agosto indica que 42,6% dos argentinos desaprovam a forma como Macri conduz o governo, contra 43,1% que aprovam. E 43% esperam uma situação econômica pior nos próximos meses, contra 34,7% que esperam melhora e 18,2% que não veem mudanças.
Restauração neoliberal na América Latina, com as bençãos de Washington
Macri, é verdade, veio num momento no qual as experiências de esquerda popular da América Latina estavam em fase de declínio – do radical Chavismo ao brando Lulismo, as quais nasceram da resposta ao neoliberalismo dos anos 1990. Nesse sentido, Macri é o marco de uma indisfarçável restauração construída sob um véu clean e moderado de mudança.
Não que os governos populares, em que pesem suas inúmeras e relevantes conquistas, não tenham igualmente falhado: fiaram seus planos e projetos nos altos preços das commodities – sobretudo, do petróleo – enquanto supuseram que grandes economias “nacionais” poderiam dar conta de superar ou mesmo enterrar definitivamente o neoliberalismo ou, de maneira ambiciosa, as contradições entre as classes.
A economia extrativista, pouco preocupada com a natureza e pouco centrada na criação e inovação, indispôs os governos populares com suas bases, mas também encontrou seu limiar econômico com a queda do preço do petróleo, em grande medida pela política americana no Oriente Médio: daí, surgiu um verdadeiro efeito dominó que, a priori, pôs as elites em desespero pela perspectiva de arcarem com algum custo dessa crise.
Como se sabe, a oportunidade é a mãe da invenção. As oligarquias tradicionais sul-americanas, nesse contexto, fabricaram e implementaram um plano arriscado: remover a todo custo os governos populares para, assim, empossar governos dispostos a implementar políticas de “ajuste” que se apliquem apenas sobre os trabalhadores e os mais pobres.
De maneira coordenada, se viu na Venezuela, no Brasil e na Argentina o surgimento de candidaturas dessa nova direita quase idênticas: Capriles, Aécio e Macri – embora só o último tenha vencido uma eleição para dar mostras do que poderiam ser os dois outros.
A novíssima direita sul-americana apresenta líderes que contrastam sua estética moderada com, ironicamente, um marxismo às avessas na prática: a defesa de políticas radicais assentadas em um sujeito político classista – não os trabalhadores, mas a oligarquia –, a ação antagônica e nenhuma disposição à conciliação.
Na Venezuela e no Brasil, o jogo eleitoral agressivo foi continuado, após a derrota da direita, com uma pressão para deslegitimar a qualquer custo os líderes democraticamente eleitos. No Brasil, esse movimento chegou ao golpe branco implementado contra Dilma Rousseff. Na Venezuela, a polarização nas ruas e a busca pela revogação do mandato de Maduro não difere em nada.
A aparente normalidade institucional da chegada ao poder de Macri é, portanto, episódica e não uma questão de princípio. Materialmente, a política de Macri é a de Capriles e a de Aécio – e agora a de Temer, vice de Dilma que chega ao poder após uma manobra parlamentar para aplicar, tragicamente, o programa chumbado nas urnas pelos eleitores brasileiros em 2014.
Ainda, o arranjo de direita na América do Sul marca a volta da velha aliança à geopolítica dos Estados Unidos – como sugere a nada inocente visita de Obama à Argentina, durante o processo deimpeachment de Dilma, para acordar a abertura de duas bases norte-americanas com Macri. Essa recentíssima investida neoliberal, por sinal, reforça a histórica aliança entre as oligarquias latino-americanas e a ação militar burocrática dos Estados Unidos.
Os discursos assentados na correção técnica dos erros dos governos populares, desse modo, logo se desmontam ao se defrontarem com os dados, assim que os neoliberais voltam ao poder: no caso argentino, os indicadores pioraram com Macri, mas isso pouca importa, visto que o objetivo desde o começo sempre foi uma mudança do modelo socioeconômico.
Nesse sentido, uma escalada repressiva passa a fazer todo sentido – como no caso de Hebe de Bonafini, mas também na ameaça inquisitória contra Cristina Kirchner –, pois isso não é apenas uma forma de conter a contestação social, mas também de literalmente desviar o foco da opinião pública sobre os efeitos desastrosos dessarestauração.
Por ora, Macri passa a usar uma blindagem também nos seus carros oficiais – em virtude da celeuma de Mar del Plata, que deu início a este ensaio – a qual se somar a todas as demais blindagens simbólicas e midiáticas que lhe protegem – mesmo assim, sua popularidade chegou em agosto ao mais baixo ponto de sua breve presidência, lançando dúvidas até onde ele poderá e terá coragem de ir. A única certeza, além do derretimento dos indicadores sociais e econômicos argentinos, é que aquele país é a imagem do futuro próximo que assombra a América do Sul – o Brasil de Temer sobretudo.
Cauê Seignemartin Ameni é sociólogo formado pela PUC-SP. Editor de Outras Palavras, subeditor no De Olho Nos Ruralistas e editor da editora Autonomia Literária.
Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da editora Autonomia Literária.

REBELIÃO NA INGLATERRA: PISTA PARA O BRASIL?



Uma rebelião na Inglaterra

Como Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, está desafiando a mídia, as estruturas do velho Labour e o bom-mocismo para demonstrar que, em tempos de crise da política, a radicalidade é bem-vinda
Por Antonio Martins
[Leia a seguir a versão textual do comentário]
No próximo sábado, dia 24, o Partido Trabalhista britânico fará uma nova eleição de seu líder. Todos os prognósticos indicam a vitória do rebelde Jeremy Corbin, atual ocupante do postos. Ele despontou há um ano embora não seja jovem (tem 67 anos), nem novato na política (tem sido eleito, desde 1982, para a Câmara dos Comuns).
Corbyn emergiu por desafiar a liderança acomodada e imponte do partido, que havia abandonado toda a velha tradição de luta por igualdade e direitos para as maiorias. Sustentou posições muito renovadoras. Provocou, em poucos meses, uma reviravolta na política britânica, obrigando os conservadores, no governo a recuar de algumas posições. É atacado diariamente pela mídia – inclusive pelo The Guardian, que muitas vezes tenta mostrar-se à esquerda.
Em 28 de Junho, Corbyn foi questionado por um voto de desconfiança emitido pela grande maioria de parlamentares de seu partido, interessados numa volta ao antigo status quo. Recusou-se a uma renúncia honrosa, que lhe foi proposta. Recorreu às bases do partido, que, tudo indica, reafirmarão seu mandato sábado. Vamos buscar compreender o que isso significa – também para o Brasil – num momento em que é preciso reinventar a própria esquerda.
Em 28 de Junho, Corbyn foi questionado por um voto de desconfiança emitido pela grande maioria de parlamentares de seu partido, interessados numa volta ao antigo status quo. Recusou-se a uma renúncia honrosa, que lhe foi proposta. Recorreu às bases do partido, que, tudo indica, reafirmarão seu mandato sábado. Vamos buscar compreender o que isso significa – também para o Brasil – num momento em que é preciso reinventar a própria esquerda.
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A história do Partido Trabalhista Britânico – o Labour – é importante por acompanhar as principais tendências políticas do Ocidente, a partir da segunda metade do século XX. Fundado nos anos 1890, o trabalhismo participou de alguns governos fugazes, antes da II Guerra. Mas foi apenas depois do conflito que exerceu o poder de forma estável.
Eram o que Eric Hobsbawn chamou de “anos gloriosos”. A hegemonia capitalista não chegou a ser ameaçada. Mas a existência da União Soviética, ainda que burocratizada, obrigava as classes dominantes a oferecer importantes concessões aos trabalhadores. O Labour soube tirar proveito desta brecha. Governou por dois períodos emblemáticos.
Entre 1945 e 51, o primeiro-ministro Clement Atlee estabeleceu uma política de “bem estar social do berço ao túmulo”. Assegurou Edução pública excelente para todos e criou o Sistema Nacional de Saúde, também público. Nacionalizou as ferrovias, a energia, as siderúrgias, as minas de carvão e o Banco da Inglaterra. Aceitou a independência da Índia e do Paquistão, desconstruindo o Império Britânico. Estas conquistas haviam criado consenso e foram mantidas mesmos quando os conservadores retomaram o poder, em 1951.
Já entre 1964 e 1970 e entre 1974 e 79, quando volta ao governo, o Labour estabelece o direito ao aborto, descriminaliza a homossexualidade e cria a Universidade Aberta. Mas aos poucos, a crise da social-democracia também o atinge. São tempos de estagnação econômica e de falta de criatividade política. Diante de défictis públicos e inflação crescentes, os trabalhistas – que tinha nos sindicatos sua principal base de apoio – arrocham salários.
Vivem uma série de conflitos internos que desembocará numa derrota eleitoral acachapante, em 1979. Quem os derrota é Margareth Thatcher, que liderará, tanto na Inglaterra quanto em todo o mundo, a contra-revolução neoliberal. Ao contrário do que ocorrera antes, todas as conquistas da era trabalhistas serão colocadas em xeque.
A tragédia do partido amplia-se, paradoxalmente, quando ele volta ao poder em 1997. Sob a liderança de Tony Blair, e sob a égido do “Novo Trabalhismo”, já está acomodado à nova ordem. Introduz reformas de mercado na Saúde e Educação. Impõe a cobrança de mensalidades nas universidade públicas. Ataca benefícios do Estado de bem-estar social. E pior: subordina-se, no plano geopolítico à política de guerra total de George W. Bush, presidente dos EUA, que começa com a invasão do Iraque. No plano local, isso refletirá em mais vigilância, ampliação dos poderes da polícia e restrições ao direito de manifestação. Em 2010, os trabalhistas perdem o governo. Em 2015, já sem poder e sem identidade, sofrem uma estrondosa derrota nas eleições gerais. O líder do partido, Ed Miliband, é forçado a reunciar.
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É neste contexto desolador que emerge a figura de Jeremy Corbyn. Quando ele lança sua candidatura à sucessão de Miliband, o fato é tratado como piada. Durante os anos decadentes de Novo Trabalhismo, Corbyn havia desafiado incessantemente a liderança do partido, votando 428 vezes contra sua orientação. Destacou-se, em especial pela oposição às guerras do Afeganistão e Iraque e, mesmo no partido do governo, ajudou a formar e liderou a coalização de movimentos sociais chamada Stop The War.
O próprio registro de Corbyn, na primeira candidatura à liderança trabalhista é obtido numa espécie de favor, por parlamentares que veem sua pretensão como quixotesca, porém simpática. Tudo muda, no entanto, em dois meses de campanha. As propostas radicais do pretendente rebelde mobilizam os membros do Partido Trabalhista. Em setembro, disputando contra três outros postulantes, todos solidamente ancorados na burocracia do partido, Corbyn obtém uma vitória esmagadora – 59,5% dos votos.
Eleito líder, ele não muda de discurso. Propõe ao Partido Trabalhista um programa de revisão radical das políticas neoliberais. Quer o fim das mal-chamadas políticas de “austeridade” – que cortam direitos sociais para manter os privilégios da oligarquia financeira. Defende a renacionalização dos serviços públicos e das ferrovias. Inova. Quando lhe perguntam de onde tirar dinheiro para isso, lembra que a Grã-Bretanha emitiu centenas de bilhões de libras para salvar os bancos, numa política conhecida comoquantitive easing. E pergunta: por que não um quantitative easing social, que injete recursos em infra-estrutura e garantia de direitos?
No plano mundial, rejeita a ideia de envolvimento da Grã-Bretanha nos bombardeios comandados por Washington na Síria. E, heresia suprema, opõe-se ao programa nuclear britânico, honrando sua história de ativista antiguerra e antinuclear.
Estas políticas, totalmente heréticas em face dos dogmas neoliberais, atraem a ira dos jornais. O público identifica o viés. Numa pesquisa recente, 51% dos britânicos disseram acreditar que os jornais e TVs distorcem deliberadamente o noticiário contra Corbyn, conta apenas 29% que não creem nisso.
Ao menos uma parte do eleitorado, porém, já não se deixa influenciar pela mídia. Sob a liderança de Corbyn, o número de membros do Partido Trabalhista dispara. Como mostra o gráfico. Em um ano, e depois de um longo declínio, a militância é o dobro do que era antes. Os novos ativistas são quase todos jovens, antes afastados da política institucional. O fenômeno sugere: a crise da representação é tão vasta que as sociedades tendem a buscar qualquer brecha que sirva para reconstituir a utopia – ainda que nos velhos partidos.
Mas as velhas estruturas não se sensibilizam nem diante de números tão eloquentes. Em 28 de junho, depois de várias tentativas anteriores, os parlamentares do Partido Trabalhista – em sua grande maioria defensores do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair – decidem, por 172 votos a 40 proclamar um “voto de desconfiança” contra Jeremy Corbyn. Queriam que ele defendesse com entusiasmo a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia – que foi rejeitada pelo eleitorado.
Mídia e parlamentares esperam de Corbyn o afastamento voluntário da liderança. Ele reage convocando os eleitores a se manifestar diante do parlamento. Depois, diz: “só sairei se derrotado pelo voto”.
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Na Inglaterra, ao contrário do Brasil, não são os parlamentares, mas o conjunto de militantes dos partidos que escolhe, diretamente, o líder da bancada. As eleições novas eleições, provocadas pelo desafio a Corbyn, serão sábado. Há, agora, um único oponente: Owen Smith, também membro da Câmara dos Comuns. No último fim de semana, até mesmo The Guardian parecia entregar os pontos e reconhecer que não será possível afastar o líder rebelde.
A velha mídia brasileira, tão incapaz de informar sobre grandes temas internacionais, parece ainda mais silenciosa neste episódio. Há razões para isso. Os jornais e TVs tupiniquins estão empenhados em demonstrar que o programa de contra-reformas de Michel Temer é inevitável, apesar de doloroso. O fenômeno Corbyn sugere o contrário: todas as saídas dependem de decisões e vontade política.
É como se, no Brasil, Dilma Roussef tivesse convocado a sociedade após as eleições para dizer que, em vez do “ajuste fiscal”, estava disposta a enfrentar a crise obrigando os ricos a pagar impostos, iniciando uma Reforma Política capaz de dar voz ativa à cidadania, quebrando o oligopólio da mídia, defendendo as terras indígenas, ampliando as relações com os BRICS, fazendo a reforma agrária.
Ainda mais importante: a rebeldia de Corbyn demonstra que a crise da velha política não é um beco sem saída. Será possível esperar algo semelhante no Brasil? Haverá, nos partidos de esquerda, gente disposta a abandonar o pragmatismo estéril das concessões sem horizontes? O que ocorre na Inglaterra – e ocorreu, em menor medida, nos Estados Unidos, com Bernie Sanders, mostra que há espaço para tanto. Só não se sabe é se haverá vontade política.

HIDRELÉTRICA BALBINA NO PAÍS DA IMPUNIDADE

O ARTIGO QUE PUBLICO É UMA RESPOSTA AOS QUE PUBLICARAM NO JORNAL VALOR ECONÔMICO QUE O POVO WAIMIRI-ATROARI SERIA UMA DEMONSTRAÇÃO DE QUE A CONSTRUÇÃO DE HIDRELÉTRICAS NÃO PREJUDICARIA OS POVOS INDÍGENAS. VEJAM A HISTÓRIA REAL DA HIDRELÉTRICA DE BALBINA E DE COMO A ELETRONORTE PARTICIPOU DO GENOCÍDIO DESTE POVO, E COMO AINDA HOJE É MANTIDO EM ISOLAMENTO PARA QUE NÃO CONTE O QUE ACONTECEU COM ELE.

                                                        Balbina no País da Impunidade
Sob o título “IGNORÂNCIA OU MÁ FÉ SOBRE AS HIDRELÉTRICAS EM TERRAS INDÍGENAS”, Claudio Sales e Alexandre Uhlig, em o Valor Econômico defendem a continuação de projetos hidrelétricos em áreas indígenas da Amazônia, exaltando seus benefícios para as populações amazônicas “(incluindo a indígena)”. Para comprovar suas afirmações os autores sugerem “uma analise serena sobre experiências passadas que desmontam o argumento segundo o qual hidrelétricas seriam uma ameaça a populações indígenas”. Eles se atem à experiência de Balbina como “exemplo documentado” da ação da Eletronorte em beneficio do povo indígena atingido pelo empreendimento energético implantado.
Em resposta vou ater-me também à questão Waimiri-Atroari, povo com quem convivi com a família durante um ano e meio e venho acompanhando desde os anos 60 pelo noticiário e desde 1980 diretamente morando em seu território tradicional.
Em primeiro lugar alguns esclarecimentos para os articulistas:
1.    O povo indígena Waimiri-Atroari não habitava “parte da área do reservatório da hidrelétrica de Balbina”, mas toda a área do reservatório.
2.    A primeira providência do programa Waimiri-Atroari-PWA, da Eletronorte foi a transferência das duas aldeias Taquari e Topupuna, atingidas pelo lago e não a “demarcação da terra indígena”.
3.    Omitem os dados do levantamento da Universidade de Brasília, de 1983, quando o povo W-A chegou ao seu número mais baixo, 332. Quando o Programa foi criado já estavam em franco crescimento, como prova o número dos 374.
4.    A interferência da FUNAI e dos empresários do setor energético e mineral interrompeu um programa abrangente cuidadosamente elaborado por um Grupo de Trabalho-GT constituído pelo primeiro presidente da Funai após os 20 anos de Ditadura.
 “Uma análise serena inclui um olhar sobre experiências passadas que desmontam o argumento segundo o qual hidrelétricas seriam uma ameaça a populações indígenas.” Vou mostrar que a verdade se encontra colocando esta frase do artigo de “Valor Economico” ao contrário.
Um olhar sobre a experiência passada do povo indígena Waimiri-Atroari, demonstra como são prejudiciais as hidrelétricas na Amazônia para os povos indígenas e populações não indígenas.
Os trabalhos de Balbina iniciaram nos anos 60 sob a direção da Empresa Eletronorte e perpassaram os anos 70 e não apenas os 80, como, por astúcia, os autores do artigo em Valor Econômico-VE escreve.
 Este projeto energético teve ativa participação no genocídio do povo Waimiri-Atroari. Quando começaram os estudos sobre as possibilidades da construção de Balbina, em 1968, a população do povo Waimiri-Atroari era estimada em 3.000 pessoas, (vejam Calleri 1968 e FUNAI 1972).
Havia então pelo menos 8 aldeias na área do reservatório de Balbina, 6 delas citadas em documento da FUNAI de 1972: as malocas “dos capitães Canori, Coroinha, Abonari, Tomaz, Manoel e Pedro e outras aldeias arredias”. No alto Abonari havia duas aldeias, Taquari e Topupuná, cuja existência a Eletronorte ainda negava em meados dos anos 80.
Por volta de 1973 começou uma pressão contra o livre trânsito entre as aldeias do Alto e do Baixo Abonari e do Uatumã (área do reservatório). Denúncias da época falam até de grade colocada pelos militares sob a ponte do Abonari, na BR-174, impedindo a passagem dos índios em suas canoas. É evidente que se tratava de forçar as aldeias a abandonarem o seu habitat da área do lago. Como os índios teimaram em desocupar esta e outras áreas, durante o ano de 1974, sumiram aldeias em todo o território Waimiri-Atroari. Segundo os índios Atroari da margem direita do Alalaú nos informaram, as aldeias foram bombardeadas por produto “igual pó” jogado “kawune=do alto”. Entre elas sumiram 9 aldeias na Região da mina do Pitinga, onde se instalou a mineração Taboca e as 6 aldeias supracitadas do Baixo Abonari, área do lago de Balbina.
Quando os índios do Norte contavam as cenas de violência sofridas por eles na região do Alalaú, durante a travessia da Br-174, incluindo bombardeios aéreos, frequentes vezes, concluíam dizendo que a violência sofrida pelos irmãos do Axia (Ig. Abonari) foi ainda pior. Citavam, nominalmente, parentes casados com Waimiri, mortos lá. “Foi avião que matou o pessoal do Axia” – concluíam. “Lá o massacre aconteceu no final da festa, quando os índios ainda não se haviam dispersado.” “No Camanaú desceram de helicóptero e mataram muita gente com espingarda. Agora tem pouca gente”. Tenho certeza que os dirigentes da Eletronorte da época e o atual coordenador do PWA da empresa Eletrobrás, sabem muito mais do que eu sobre a violência sofrida então pelos Waimiri-Atroari durante os anos 70, para “limpar” a área do futuro lago. Cadê a “documentação e registro da memória dos Waimiri-Atroari”, da Eletronorte, do PWA e alardeado pelo VE.? Cadê o registro dos Waimiri-Atroari, mortos no Massacre do Alalaú II, em novembro de 1974, onde morreram funcionários da FUNAI, cujos cadáveres foram recolhidos pelo hoje funcionário da Eletrobrás, José Porfirio de Carvalho, há quase 30 anos coordenador do PWA. Autor do livro: “Waimiri-Atroari, a Historia que ainda não foi contada”, Carvalho conta o massacre da expedição do Pe. Calleri e dos funcionários da FUNAI, mortos pelos Waimiri-Atroari, mas não cita um nome de índio morto ou sumido pelos invasores: os militares, a FUNAI, Mineradora Paranapanema e Eletronorte.
Das aldeias do Baixo Abonari e do Uatumã, não restou uma só. Restaram duas no Alto Abonari, negadas pela Eletronorte, até que por pressão internacional, foi forçada em 1987 a reconhece-las. E a primeira ação do Programa Waimiri-Atroari-PWA foi a transferência, às pressas, dessas duas aldeias,(e não foi a demarcação da reserva, “(primeira providência do programa), como mentem astutamente, os autores do artigo do VE. Uma ação fora da lei, porque até hoje não foram indenizados como manda a Carta Magna e a OIT.
Esta interferência do Estado através do Exército e da FUNAI em função dos interesses empresariais (Balbina e mineração) levou o povo Waimiri-Atroari à ruina, ao caos. À uma depopulação drástica. Em apenas 10 anos dos 3.000 em 1972, restaram apenas 332 em 1983.
Na virada da Ditadura um conhecedor da situação Waimiri-Atroari, Ezequias Heringer, foi chamado pelo presidente da FUNAI, onde ocupou um cargo importante. De imediato propôs iniciar mudanças profundas na política do órgão. E começou pela situação aflitiva dos Waimiri-Atroari. Criou um Grupo de Estudos e Trabalho-GET, integrado por várias entidades e experts na questão para fazerem um levantamento da situação e proporem um novo programa de atividades. Sem preconceitos, além das pessoas da FUNAI, incluiu no GET índios Waimiri-Atroari, professores de universidade, integrantes da Operação Anchieta-OPAN e do CIMI. Após meio ano de atividades na área, em reunião realizada na aldeia Yawará, o GET apresentou uma proposta abrangente. E os índios, por sua vez, apresentaram a sua urgência maior: um programa de alfabetização. Ate então a FUNAI em seus quase 20 anos de presença não tinha nenhum plano neste sentido. Pior, não conseguiu reunir um vocabulário mínimo da língua desse povo. Seus chefes eram tratados por apelidos dados pelos funcionários. Sequer a autodenominação do povo era conhecida. A proposta do GET incluía além da alfabetização, acompanhamento na saúde, na economia, com pesquisa antropológica, linguística e deter os interesses que já haviam iniciado o saque do território indígena. O trabalho começou imediatamente, iniciando pela solicitação dos índios: a alfabetização que se valeu do método Paulo Freire, mundialmente reconhecido.
Houve desde o inicio um rigoroso acompanhamento de especialistas da FUNAI na área que acabaram por recomendar a extensão do trabalho da Aldeia Yawará a todo o território Waimiri-Atroari. Mas, sem demora, os empresários, já empenhados no saque dos recursos da reserva, e o recém-empossado Presidente da Funai, Romero Jucá, conhecido pelego das mineradoras, não aguentaram a mudança. Covardemente expulsaram todos os membros do GET atuantes na área e transferiram ao arrepio da lei, a política indigenista dos Waimiri-Atroari ao comando da empresa Eletronorte. Todo o programa elaborado e em execução pelo GET, foi desmontado.
Ficou evidente que o investimento na construção da BR-174 e o genocídio dos índios Waimiri-Atroari visava o saque das riquezas naturais da região e não o beneficio do povo amazonense e local. O objetivo era a instalação de Balbina e o saque do Minério. Por iniciativa do Banco Mundial, foram transferidos recursos nunca vistos em qualquer área indígena do país, recursos que servem para manter os Waimiri-Atroari à margem do movimento indígena nacional e jogar areia nos olhos dos índios e da sociedade para manter ocultos os crimes do passado, isolando o povo Waimiri-Atroari das pessoas e entidades que pudessem animá-los a exigir os seus direitos frente aos saqueadores de suas riquezas e revelar a sua historia sob novos olhos e não sob a dos seus assassinos. Esta é a razão por que Valor Econômico não quer a presença de entidades que criticam os projetos energéticos.
Mediante imposição dos financiadores do projeto, o grande volume de recursos do Banco Mundial, o povo Waimiri-Atroari tem hoje uma estrutura própria e vive à margem do movimento indígena nacional e do restante da sociedade. Assim vivem impedidos de contar o genocídio que o seu povo sofreu durante a construção da BR-174, Balbina e a instalação da Mineração Taboca. Desde 1981 o minério mais cobiçado do mundo desfila pela BR-174, sem controle algum da SEFAZ.
Não seria dali que sai o suborno que paga reportagens tendenciosas e mentirosas, como esta do Instituto Acende Brasil no V. Econômico?
Sem nenhuma alusão ou critica ao seu programa, alardeia o fato do crescimento demográfico da população Waimiri-Atroari, como grande feito e resultado da politica empresarial, procurando esconder outros grandes problemas que vem impondo ao povo Waimiri-Atroari, como a doutrinação ou catequese econômica mediante a qual a cultura deste povo está se transformando paulatinamente em mercadoria, vendida em lojas, sob o controle da Empresa e não dos índios, nas cidades circunvizinhas, Manaus, Presidente Figueiredo e Novo Airão.
Quando propala o aumento populacional como resultado de iniciativas do PWA, esquece de referir que esta recuperação, já estava em curso quando o PWA iniciou e com um índice anual superior ao que se verificou durante a politica empresarial. Como prova pesquisa do professor Marcio Silva da USP.
Há que se referir ainda que o povo Waimiri-Atroari, talvez exatamente devido ao seu crescimento populacional recente e à morte violenta de suas principais lideranças durante o processo de instalação empresarial e da BR-174, enfrenta hoje sérios problemas de consaguinidade ou genéticos, que exigiriam mais do que qualquer outro povo, a presença de especialistas como previa o programa do GET, alijado da área pelos dirigentes do PWA da Eletronorte.
Para uma empresa acostumada a resolver tudo de cima para baixo, tudo parece muito simples quando se tem milhões de dólares para gastar. De fato, o primeiro problema que estes empresários resolveram com o dinheiro, foi isolar os Waimiri-Atroari do movimento indígena nacional e afastar as “indesejáveis” ONGs. Após a retirada dos membros do GET, nenhuma revelação sobre sua historia recente aconteceu. Todo o professor, funcionário ou jornalista que ouse se aproximar desse povo com a criatividade que sua profissão exige esbarra com os dirigentes do PWA. Assim o povo WA vive hoje uma situação de isolamento. Isolamento que chega ao ridículo. Na semana passada o meu filho Luiz, passando pela Reserva na BR-174, encontrou dois Waimiri-Atroari na saída da reserva, no Jundiá. Um deles  dizia-se funcionário do PWA. Ofereceu um exemplar do livro: A DITADURA MILITAR E O GENOCIDIO DO POVO WAIMIRI-ATROARI, de autoria do Comitê pela Memoria, Verdade e Justiça do Amazonas, cujo primeiro capitulo é fruto da primeira experiência de alfabetização vivida por eles. Embora ambos se mostrassem muito interessados no livro disseram que não podiam recebe-lo porque os dirigentes do PWA não o permitiam.
Com receio de que os Waimiri-Atroari se conscientizassem e que a sociedade brasileira tome conhecimento do que aconteceu a esse povo durante o planejamento e construção de Balbina, da BR-174 e da instalação da Mineração Taboca, os responsáveis por estes empreendimentos até hoje fazem questão de “cuidar” desses índios, mantendo-os afastados de entidades e organizações que possam conscientizá-los sobre os seus direitos constitucionais quanto à exploração de energia e minérios no município e na reserva indígena. A ânsia desses empresários de se afirmarem como os únicos a “cuidar” bem desse povo, mantendo até a FUNAI afastada, visa evitar que a sociedade tenha acesso à História dos Waimiri-Atroari, onde houve participação direta de suas empresas nos crimes de ontem e de hoje.
Toda a vez que o Governo cria um grande projeto na Amazônia em terras indígenas, o índio é visto como “empecilho” e como tal, afastado do caminho. E a FUNAI sempre colaborou nesta ação do Governo. Da BR-174, Mineração Taboca e hidrelétrica de Balbina em terras Waimiri-Atroari, aos tempos de Belo Monte em terras Kayapó, e hoje das tentativas de construção de mais um desses Monumentos a Insanidade Humana, em São Luiz do Tapajós, a atitude dos empresários não mudou e jamais mudará.

Casa da Cultura do Urubuí/Amazonas, 20 de setembro de 2016,

Egydio Schwade