quarta-feira, 11 de julho de 2018

ALIANÇA DE TEMER COM RURALISTAS DEIXA UM MONTE DE MORTOS PELO CAMINHO

IHU - 10 Julho 2018
Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paris.
A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 09-07-2018.
A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).
Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.
Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.
No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.
Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.
Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congeladaunidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.
Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.
Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.
No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia. 
O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.
No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.
NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.
O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.
Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.
“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticumjuntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.
“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.
http://www.ihu.unisinos.br/580705-alianca-entre-temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-brasil 

CARAVANA DO SEMIÁRIDO CONTRA A FOME

IHU - 10 de julho de 2018
De 27 de julho a 05 de agosto, representações do Semiárido cruzam o país com paradas estratégicas em 5 cidades. É a Caravana Semiárido Contra a Fome!
A reportagem é publicada por Articulação do Semiárido - ASA, 05-07-2018.
Serão pouco mais de 2.906 quilômetros do sertão de Pernambuco até a capital paranaense. A ideia de cruzar o país para denunciar a iminente volta do Brasil ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) se dá devido ao desmonte de políticas públicas sociais que afetam a segurança alimentar dos povos do Semiárido. Cerca de 90 pessoas sairão no dia 27 de julho de Caetés (PE) e seguirão em dois ônibus para Curitiba (PR). A Caravana terá paradas estratégicas em Feira de Santana (BA) e Guararema (SP), até a chegada ao Paraná no dia 02 de agosto. No percurso de volta, o grupo tem uma parada em Brasília, no dia 05, com o objetivo de pautar o tema no Supremo Tribunal Federal (STF).
A redução de pessoas subalimentadas no país é uma conquista recente. Isso porque as ações que contribuíram com a saída do Brasil do Mapa da Fome, no ano de 2014, foram iniciadas com a criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em 2003, aliado à garantia de crédito, acesso à água potável - por meio da implantação de tecnologias como as cisternas de placas – e renda, a exemplo do Bolsa-Família.
Entretanto, menos de 4 anos depois do Brasil celebrar a saída do Mapa da Fome, esse fantasma volta a rondar as populações carentes do campo e da cidade em todo o país, e no Semiárido, região marcada historicamente pela miséria e ausência de políticas públicas, a situação se acentua por conta da redução de investimentos nas políticas sociais e de convivência com a região.
“A Caravana dos povos do Semiárido contra a fome tem como objetivo chamar atenção da sociedade brasileira sobre os riscos da volta da fome para a população mais pobre do Brasil. Considerando que o Semiárido e o Nordeste sempre tiveram os maiores índices de fome da história do Brasil- por ser a maior área rural do país e uma ausência da ação do Estado por muitos anos. Queremos chamar atenção da sociedade sobre esse período que vivemos na história, os avanços e conquistas que tivemos com políticas sociais que priorizaram recursos de atendimento da população mais pobre, especialmente a população rural”, explica o coordenador executivo da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Alexandre Pires.
A iniciativa dos movimentos, redes e organizações do campo Popular e democrático do Semiárido, contará com momentos de debate em universidades, atos públicos e ações de agitação e propaganda. “Na medida em que as organizações da ASA se propõem a realizar uma caravana como esta, ela sai com três grandes objetivos: o primeiro debater a situação política do Brasil; o segundo fazer uma denúncia muito clara sobre o tema da fome, e por fim, a defesa da democracia. Vai ser um momento muito rico e acredito que à medida que ela [a caravana] for passando e debatendo com a militância ela vai ganhar nome, e vai obrigar os candidatos a falar sobre o assunto”, salienta o membro da coordenação nacional do MST, João Paulo Rodrigues.

Dados

Com a política de cortes do Governo Federal, chegamos à expressiva e preocupante exclusão de 1,1 milhão de famílias do Programa Bolsa Família, cerca de 4,3 milhões de pessoas, em sua maioria crianças. Além disso, houve cortes nos investimentos para ações que garantem a segurança alimentar e nutricional das populações como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Para completar, o número de desempregados vem aumentando exponencialmente.
Em março deste ano, especialistas e pesquisadoras que participaram da aula inaugural da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) avaliaram que de 2014 a 2016, o número de pessoas em extrema pobreza no Brasil saltou de pouco mais de 5.162 milhões para quase 10 milhões, o que ratifica o risco de o país retroceder na missão de erradicar a pobreza. Os números só não foram piores porque as regiões Norte e Nordeste, que historicamente abrigavam as populações mais carentes, conseguiram manter um equilíbrio, graças aos investimentos recebidos por meio de ações como o Programa de Cisternas, Bolsa-Família, Seguro-Safra e aposentadoria rural.
Pensando nisso, o percurso da Caravana do Semiárido contra a Fome contará com paradas estratégicas em municípios da Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo a fim de sensibilizar as populações para o problema da má-nutrição e a redução das políticas públicas sociais. “Com a mudança das prioridades do Governo atual, de aplicação dos recursos, vemos voltar uma situação de fome e miséria. Então, as paradas que devem ocorrer têm como objetivo chamar a população para refletir e mobilizar a sociedade para estar atenta a essa situação que se agrava. Esse é o sentido de mobilizar estudantes, movimentos sociais e urbanos, juventudes”, explica Pires.
http://www.ihu.unisinos.br/580707-povos-do-semiarido-percorrem-mais-de-2-mil-quilometros-para-denunciar-volta-da-fome

A EXTREMA POBREZA VOLTA À SITUAÇÃO DE 12 ANOS ATRÁS

IHU - 11 Julho 2018
Ao deixar em 2014 a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.
O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório.
Menezes também especialista em segurança alimentar conta que no final deste mês um novo documento atualizado da sociedade civil será lançado. E alerta: “A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza”. Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao Mapa da Fome. “Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.”
Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAidBrasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão nessa condição (veja o gráfico abaixo). “Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.”
O economista Francisco Menezes concedeu entrevista à Thiago Domenici, publicada por Agência Pública, 10-07-2018.
Eis a entrevista.
A insegurança alimentar voltou a rondar o país?
No ano passado, nós fizemos uma advertência à ONU de que, se o Brasil prosseguisse no rumo mais recente que tinha tomado de certo abandono das políticas de proteção social, correria o risco de retornar ao Mapa da Fome do qual saiu em 2014. Publicamos esse relatório em julho de 2017, e um novo relatório de acompanhamento desses objetivos do desenvolvimento sustentável vai sair ao final deste mês. O que nós assinalamos naquela primeira advertência vem sendo confirmada agora.
Como se chegou a essa constatação?
A cada cinco anos é feita uma pesquisa pelo IBGE sobre a situação de segurança e insegurança alimentar do brasileiro. Essa pesquisa era feita junto à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio — Pnad — e passou agora a ser feita pela POF, que é a pesquisa do orçamento familiar.
A última pesquisa foi realizada em 2013 e divulgada em 2014. Como é quinquenal, ainda está sendo realizada, mas o pessoal está no campo e a divulgação desses resultados deve sair no final de 2018 ou início de 2019. O que ocorre é que existem algumas situações em relação ao estado da segurança alimentar, desde os que estão em segurança alimentar — de ter acesso aos alimentos de uma forma regular e suficiente — até níveis de insegurança alimentar. E tem a insegurança alimentar grave, expressão que se usa para caracterizar a fome, em que uma determinada família não teve disponibilidade de alimentos num determinado período.
Essa insegurança alimentar grave em 2013, por exemplo, quando foi feita a última pesquisa, estava num nível bastante baixo, e é por isso também que em 2014 a ONUcolocou o Brasil fora do mapa do fome.
Os dados agora apontam um retrocesso?
Quantas pessoas passam fome? Para dizer alguma coisa próxima, vai ter que esperar um pouco, mas toda experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos. Mas a nossa advertência já leva a quase uma certeza.
Primeiro, é preciso considerar que uma situação de extrema pobreza tem uma correlação muito grande com a situação de fome. Ou seja, pessoas que estão numa situação mais extrema de pobreza estão fortemente vulneráveis e sujeitas à fome, geralmente passando fome. Por isso, é importante trabalhar a questão da fome junto com a questão da pobreza, e nós temos assistido a um empobrecimento muito acelerado da população, e sobre isso nós temos os dados.
Em três anos, 2015, 2016, 2017, a gente, infelizmente, voltou a 12 anos atrás em termos do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação bastante ruim, que deve aparecer no final do ano com os dados da POF. A extrema pobreza está crescendo mais aceleradamente do que a pobreza, que voltou a oito anos atrás.
Brasileiros na pobreza extrema (em milhões)

O gráfico ActionAid e Ibase é resultado do processamento de microdados de Pnads Contínuas (a partir de 2012) e de Pnads de 1992 a 2011. As Pnads não são feitas nos anos em que são realizados os censos demográficos. Entre diversas metodologias que apresentam números muito próximos, adota-se mais frequentemente aquela seguida pelo programa Bolsa Família. A população em situação de extrema pobreza é a com rendimento domiciliar per capita de até R$ 70,00 e a em situação de pobreza de até R$ 140,00 referente a junho de 2011 e deflacionado/inflacionado pelo INPC para os meses de referência de coleta da Pnad.
O que você está dizendo é que a tendência já aponta, mesmo que ainda não confirmada, que o Brasil voltará ao Mapa da Fome?
Acredito que, infelizmente, sim. Nós não temos ainda os dados dessa pesquisa que comentei. Eu posso falar, sim, sobre os próprios dados da Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua], que revelam esse empobrecimento acelerado da população com aumento muito grande, e que varia de região para região, de estado para estado. O Rio de Janeiro, por exemplo, vive uma situação em que a pobreza extrema, muito ligada à questão do próprio desemprego, cresceu muito, triplicou em um ano [de 143 mil para 480 mil em um ano].
Quais são as outras regiões?
Nordeste brasileiro e a região Norte têm um grau de pobreza maior do que o Sudeste e o Sul, mas o nordeste teve um movimento muito positivo até 2014 no sentido de recuperação, mas agora a gente volta a assistir a uma situação de agravamento, porque já era mais vulnerável originalmente.
E quais são os fatores desse crescimento da extrema pobreza?
São vários fatores. Avalio que, em primeiro lugar, a título de enfrentamento do que se chamava desequilíbrio fiscal, se fez uma política que, de um lado, gerou uma paralisia grande da economia, gerando com isso desemprego, e não resolveu o problema do déficit fiscal. A receita, consequentemente, se reduziu e o país entrou num círculo vicioso de paralisia e, ao mesmo tempo, crescimento do desemprego e da pobreza, sem capacidade própria de gerar uma recuperação. Esse é um fator.
Não querendo ser o dono da verdade, mas é a prática de uma política econômica completamente equivocada nos três últimos anos. Não se pode esquecer de que 2015 já se experimentou uma política bastante recessiva como opção para o enfrentamento das dificuldades que apareceram. A paralisia na construção civil, por exemplo, atinge as camadas pobres da população, deixando um grande número de pessoas desempregadas ou subempregadas; as próprias empresas que trabalhavam em torno do sistema Petrobras e tantas outras que foram paralisando agravam esse quadro. Ou seja, o desemprego não pode ser desprezado nesse aspecto.
A tomada de decisão de fazer o ajuste fiscal e congelar os gastos públicos por 20 anos deve ser considerada com efeito imediato?
Não tenha dúvida. A emenda constitucional foi aprovada no final de 2016. Se você pega o orçamento de 2016 — e estou falando dos programas sociais —, já se vê um fortíssimo contingenciamento durante aquele ano. Então se viveu já em 2016 uma experimentação do corte de recursos. A proposta de orçamento para 2017 traz um enorme corte e para 2018 ainda mais. É o que nós hoje estamos chamando de estado de desproteção social, porque faltam recursos de todos os lados.
No aspecto da pobreza extrema, a gente está sentindo que em relação ao programa Bolsa Família, estão sendo feito cortes grandes de contingentes de famílias que, na verdade, ao contrário do que o governo alega, não são famílias que simplesmente não prestaram conta adequadamente, mas são aquelas mais vulneráveis que em geral têm mais dificuldades de prestar essas contas. Muitas famílias dentro do Bolsa Família foram cortadas e tinham, ou como única renda ou uma parte importante de sua renda, vinda do programa, e isso tem uma importância na questão alimentar por outras pesquisas que já fizemos. A gente sabe que os recebedores do Bolsa Família, na sua maior parte, gastam em alimentação, pelo peso que o alimento tem nos seus próprios orçamentos.
Essa questão do Bolsa Família é um levantamento ou uma percepção?
Não é um levantamento. Foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias, pode-se ver pelos próprios dados do governo. Inclusive, para 2018 o governo já coloca um orçamento menor para o Bolsa Família. O que está ocorrendo, o que a gente supõe, não temos comprovação ainda, é que grande parte dessas famílias cortadas são as mais pobres.
E uma outra causa é a questão dos preços, não só dos alimentos, mas outra questão que pesa, o gás. O gás impacta muito sobre as famílias mais pobres. Com um aumento dos combustíveis de uma maneira geral, estamos começando a escutar as primeiras manifestações do quanto isso está pesando. Fora o fato de que o aumento dos combustíveis gera um aumento dos gêneros alimentícios.
O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do mundo e pessoas passam fome. Como compreender essa situação?
O Brasil tem indubitavelmente uma capacidade de produção de alimentos relevante. Esse não é o nosso problema, o da produção, mas o que ocorre é que existe uma profunda desigualdade, inclusive, no campo.
http://www.ihu.unisinos.br/580741-a-extrema-pobreza-voltou-aos-niveis-de-12-anos-atras-diz-pesquisador-da-actionaid-e-ibase

segunda-feira, 9 de julho de 2018

GEOGRAFIA DO VENENO

Frei Betto

Em meio à Copa, deputados federais aprovaram, a 25 de junho, o parecer que propôs reduzir o controle governamental sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Vitória da bancada ruralista. Atualmente, 30% dos agrotóxicos permitidos no Brasil são proibidos na União Europeia.
A fome, como questão política, entrou na agenda brasileira desde 1946, quando Josué de Castro publicou o clássico Geografia da fome, sublinhando que a desnutrição de milhões de pessoas nada tem a ver com a fatalidade, seja climática, seja religiosa.
Passados 70 anos, a geógrafa e professora da USP Larissa Mies Bombardi publica o atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, um conjunto de mais de 150 imagens entre mapas, gráficos e infográficos que radiografam os impactos do uso de agrotóxicos no Brasil.
O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos. Cerca de 20% dos pesticidas fabricados no mundo são despejados em nosso país. Um bilhão de litros ao ano: 5,2 litros por brasileiro!
Há direta relação entre uso de agrotóxicos e o agronegócio no Brasil. As plantações de soja, milho e cana utilizaram 72% de todo agrotóxico comercializado no País em 2015. Estas são três das principais mercadorias da agricultura capitalista que estão no topo da lista de exportações brasileiras.
Ao recorde quantitativo soma-se o drama de autorizarmos o uso das substâncias mais perigosas, já proibidas na maior parte do mundo por causarem danos sociais, econômicos e ambientais.
O conjunto de mapas do Atlas está dividido em seções que abordam, por exemplo, as intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola, com mapas em escalas nacional, regional, estadual e municipal. As intoxicações são detalhadas segundo a circunstância da intoxicação, o sexo da população intoxicada, a faixa etária, os grupos étnico-raciais, a exposição ao trabalho e a escolaridade.
No período entre 2007 e 2014, os casos de intoxicação por agrotóxicos notificados ao Ministério da Saúde somam 25 mil ocorrências – na média, 8 intoxicações diárias. Entretanto, estima-se que, para cada caso notificado, outros 50 não foram notificados.
Os mapas sobre intoxicação por agrotóxicos revelam que a principal ocorrência no Brasil é a de tentativa de suicídio, com números alarmantes: mais de 9.500 casos de tentativas de suicídio com ingestão de agrotóxicos entre 2007 e 2014.
Os mapas que abordam a intoxicação por faixa etária revelam uma realidade que afronta diretamente os direitos humanos e, em especial, os direitos das crianças e adolescentes: cerca de 20% da população intoxicada é de crianças e jovens com idade até 19 anos. Mesmo bebês de 0 a 12 meses são intoxicados por agrotóxicos: em números oficiais, somaram mais de 340 casos entre 2007 e 2014.
Atlas mostra profunda assimetria entre os limites permitidos para resíduos de agrotóxicos em alimentos e na água, no Brasil e na União Europeia.
No Brasil, o limite de resíduo de malationa (inseticida) no brócolis é 250 vezes maior do que o permitido na União Europeia. No feijão, essa diferença é 400 vezes maior por aqui.
Na água potável, a diferença de resíduos é 5 mil vezes maior para o agrotóxico glifosato (o herbicida mais vendido no Brasil) em relação à União Europeia.
Outro conjunto de mapas mostra que 70% dos municípios paulistas são atingidos pela pulverização aérea de agrotóxicos, prática proibida na União Europeia desde 2009.
O Estado brasileiro tem atuado de forma a subvencionar o capital das corporações fabricantes de agrotóxicos. No Brasil, o ICMS tem redução de 60% e há isenção total de PIS/COFINS e de Imposto sobre Produtos Industrializados para a produção e o comércio de agrotóxicos.
Segundo o defensor público Marcelo Novaes, apenas no Estado de São Paulo e no ano de 2015, o governo deixou de arrecadar cerca de 1,2 bilhão de reais por conta dessas desonerações.
Enquanto a fome segue sendo realidade sofrida para milhões de brasileiros, o capital transforma alimentos em commodities e em agroenergia, segundo o modelo baseado na estrutura fundiária concentrada e no uso massivo de agrotóxicos.
Há que buscar solução na transição agroecológica, ou seja, na gradual e crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade, e redistribuindo a terra em propriedades menores.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

PAPARA FRANCISCO EXPERIMENTA A IMPOTÊNCIA DOS EMPOBRECIDOS

Roberto Malvezzi (Gogó)

Ao optar claramente por um papado que comunga a condição dos empobrecidos da Terra, o Papa Francisco também experimenta a impotência dessa parcela de seres humanos no mundo contemporâneo.

Quando Francisco abre uma lavanderia e um albergue para o povo de rua ao redor do Vaticano, suas atitudes até são divulgadas. Porém, quando exige da Igreja e de toda sociedade uma conversão ecológica para preservar a humanidade e a criação, os ouvidos são moucos, inclusive em grande parte da própria Igreja Católica. Os que aceitaram seu desafio vem mais de fora da Igreja que de seus quadros.

Quando condenou uma “economia que mata”, uma sociedade do descarte, então o silêncio é absurdo.

Quando Francisco leva uma malinha pessoal nas próprias mãos, então vira notícia. Porém, quando condena os golpes na América Latina, baseado em calúnias, na divulgação caluniosa da velha mídia, referendada por um judiciário parte do golpe, então vem o silêncio.

Quando visita Lampedusa, símbolo global dos imigrantes, a princípio vira notícia, mas o que se vê é cada vez mais um mundo com muros e cercas, tentando isolar os bem estabelecidos das hordas humanas que rondam a Europa e os Estados Unidos.

Nos bastidores há críticas, resistências, rejeições. Mas, agora está reunido com jovens para celebrar os três anos da Laudato Sí, visitou os povos originários da Amazônia em Puerto Maldonado, em 2019 vai realizar o Sínodo para a Amazônia em Roma. Não perde o humor, não perde a esperança, não desanima.

Experimentar a impotência dos pobres é também confiar naquele que é o alfa e o ômega, o princípio e o fim, para além das frágeis forças humanas, inclusive dos opressores da história. Na história ninguém ri por último. Todos têm seu dia. E os empobrecidos possuirão a Terra.

Há quem entenda e quem comungue.

PARÓQUIA SOLAR


Foi muito bom participar da inauguração da produção de energia solar fotovoltaica na paróquia Sant´Ana da cidade de Sousa, na Paraíba. Essa é uma história que começou em iniciativas ligadas à sociedade civil desta região do sertão paraibano, articuladas e animadas pelo Comitê de Energias Renováveis do Semiárido – CERSA. Foi o trabalho dessa articulação que tornou possível a aprovação do Projeto “Semiárido Solar” pelo organismo de solidariedade internacional da Igreja Católica da Alemanha, a Misereor, e de outros projetos, especialmente da Fundação Socioambiental CASA. Com isso, já foi implantado um número significativo de pequenos projetos de produção descentralizada de energia com fontes renováveis em dez municípios da região, com destaque para a transformação dos raios do sol em energia.

O primeiro destaque a ser dado ao projeto Paróquia Solar implantado na comunidade Sant`Ana é a acolhida do Pe. Paulo ao convite presente nesses pequenos projetos, no sentido de que todas as pessoas e instituições tomassem a decisão de entrar no caminho de produzir energia com fontes mais limpas e renováveis. Ao manifestar o desejo de implantar esse tipo de energia na sede paroquial, a paróquia foi apoiada com um dos pequenos projetos do Semiárido Solar, e ele tomou a iniciativa de dialogar com o empresário que que venceu a licitação, consultando sobre a possibilidade de ampliar a usina para produzir o total de energia que a igreja matriz, a casa paroquial, o centro de pastoral e quadra de esportes necessitam. O resultado foi um acerto de financiamento com a empresa, tonando possível pagar o investimento com prestações menores do que a paróquia já gastava todo mês com energia. Em outras palavras, em três anos, o único gasto será a taxa mínima cobrada pela empresa distribuidora de energia.

Mas esse é apenas o resultado financeiro. O mais importante é o trabalho feito com a comunidade no sentido de celebrar a produção de energia solar como prática de amor à Mãe Terra, deixando de usar energia produzida com exploração dos rios ou com queima de combustíveis fósseis, que aumentam o aquecimento global e agravam as mudanças climáticas. Essa prática já conta, com certeza, com a bênção de Deus, da Terra e dos pobres, que são os que mais sofrem com as mudanças climáticas.

Amigos e amigas, dialoguem em suas comunidades e com seus párocos para que sigam esse bom exemplo, fazendo que muitas ou todas as paróquias se tornem Paróquias Solares.

            Ivo Poletto, do Fórum MCJS

BARGANHAS DO GOVERNO TEMER AGRAVAM AGRESSÃO AO MEIO AMBIENTE

Nota da coordenação do Observatório do Clima sobre pesquisa publicada nesta segunda-feira no periódico "Nature Climate Change" sobre impacto climático das barganhas políticas no Brasil


9 DE JULHO DE 2018
"O estudo mostra com números que o que se faz em Brasília se paga na atmosfera de todo o planeta. A sociedade civil vem alertando nos últimos dois anos que os acordos que vêm mantendo a governabilidade e o mandato de Michel Temer se refletem em mais desmatamento e mais violação de direitos de povos tradicionais e pequenos agricultores. A ciência, agora, confirma o alerta e projeta que não conseguiremos cumprir nossa meta climática caso se mantenham os retrocessos.

O Brasil é o sétimo maior emissor global de gases de efeito estufa. Perder o controle sobre o desmatamento, ainda mais num momento em que o segundo maior emissor, os EUA, abandonam o controle de emissões, significa que outros países terão de se esforçar mais para estabilizar o aquecimento global. Ou que outros setores da economia brasileira terão de pagar a conta do desajuste nas florestas. Em qualquer um dos casos, uma irresponsabilidade histórica que ficará como legado de Temer."

Coordenação do Observatório do Clima