quinta-feira, 31 de outubro de 2019

PARA SALVAR O PANETA, TEMOS QUE SALVAR A AMAZÔNIA


IHU, 31 de outubro de 2019

O Seminário do Bioma Amazônico terminou com uma conclusão firme: Para salvar o planeta, temos que salvar a Amazônia. Ativistas, movimentos sociais, entidades eclesiais e povos indígenas estiveram reunidos entre os dias 23 e 26 de outubro em Manaus para avaliar as agressões que o Bioma Amazônia sofre, buscar práticas de preservação e estabelecer compromissos para o futuro com o objetivo de salvar a Amazônia.

A nota é de Gerson Neto, jornalista e membro do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social.

Eis a nota.

O professor Philip Fearnside, pesquisador do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em sua palestra sobre o relatório do IPCCPainel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, divulgado em 8 de agosto deste ano, mostrou pesquisas de várias equipes que mostram que o desmatamento sucessivo e o aquecimento do clima pode impedir a reprodução das árvores da floresta, começando pelas maiores e mais longevas. Os vários cenários apontam para a possibilidade da Floresta Amazônica se transformar em uma savana ou até mesmo em uma região semiárida.

Outra catástrofe prevista para o futuro é o fim dos rios voadores. As pesquisas do INPA provaram que a umidade que permite a existência da mata atlântica vêm da Amazônia através das correntes de ar que atravessam o continente. Com o fim da floresta essa umidade deixará de chegar, criando um grande deserto nas regiões sudeste e sul do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Foto: Sonia Cifuentes | FOSPA 

Todo esse desastre jogará mais carbono ainda na atmosfera agravando mais as mudanças climáticas que ficarão totalmente fora de controle e reproduzirão seus efeitos por todo o planeta. Isso coloca o Brasil e a Amazônia como o centro do futuro do planeta, justificando as preocupações que vários organismos internacionais e o Vaticano tem tido com a preservação da floresta.

Entre as principais ameaças levantada pelo Seminário para a Amazônia estão os grandes projetos desenvolvimentistas para a região e que se fortalecem entre si para criar um ambiente de desenvolvimento destrutivo. A mineração, as usinas hidrelétricas, a exploração madeireira, a abertura de estradas, o agronegócio com monoculturas extensivas, uso de agrotóxicos e criação de gado e principalmente as mudanças climáticas.

Os efeitos dessas atividades pressionam as populações tradicionais e os povos indígenas ameaçando seus territórios e sua própria existência. Os peixes desaparecem dos rios prejudicando a pesca, o regime de chuvas se altera prejudicando a agricultura, a violência cresce com ameaças e assassinatos de lideranças populares, invasões e grilagem de terras indígenas e da união, enchentes e secas.
Segundo Ivo Poletto, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, há uma guerra sendo travada contra os pobres. “É uma guerra de caráter econômico cujos agentes e promotores instrumentalizam as leis, o Estado e as política públicas, concentrando as riquezas em suas mãos. Agora eles quererem dominar os bens comuns, as florestas, a água e outros para transformá-los em ativos de mercado.”

Foto: Sonia Cifuentes | FOSPA

O Seminário também mapeou as práticas que podem salvar a Amazônia. O projeto Tapajós Solar, que mostra alternativa de geração de energia solar em vez de hidrelétrica, os protocolos de consulta às comunidades tradicionais para a instalação de grandes projetos desenvolvimentistas, o fortalecimento da comunicação popular para democratizar o debate socioambiental, o uso de tecnologias sociais para a redução do desmatamento, a processos educativos das comunidades, ampliação das articulações regionais, projetos de reflorestamento da Amazônia, iniciativas de acolhida das comunidades migrantes, a resistência contra novas represas hidrelétricas, o cultivo de alimentos orgânicos, a proteção dos povos indígenas isolados, as redes de mulheres e as feiras do bem viver estiveram entre as práticas levantadas que precisam ser fortalecidas.

O Seminário do Bioma Amazônico também foi uma atividade de preparação para o oitavo Fórum Social Panamazônico – FOSPA, que será realizado nos dias 22 a 25 de março de 2020 em Mocoa, na Colômbia. Javier Marín, um dos organizadores do FOSPA disse: “Precisamos nos interligar. Temos que ser comunitários como é a vida da natureza, da selva.” Entre os temas que serão tratados no FOSPA estão a defesa dos rios, mulheres e território, democratização da comunicação, mapeamento dos conflitos, direitos humanos e empresas, mudanças climáticas, educação intercultural, segurança e soberania alimentar.

Os compromissos estabelecidos pelo Seminário do Bioma Amazônico foram: o fortalecimento das inciativas de articulação na Amazônia, como o FOSPA e a ARCA (Articulação pela Convivência com a Amazônia), a busca de novas fontes de energia como a solar e biogás que não destruam os rios e o ambiente, a formação de redes de comunicadores populares, as práticas educativas para o cuidado do ambiente, a defesa dos rios da Amazônia com nem uma barragem a mais, o fortalecimento da agroecologia e do reflorestamento e a recusa dos projetos de morte, como o agronegócio, as hidrelétricas e a mineração.

Foto: Sonia Cifuentes | FOSPA

O Seminário do Bioma Amazônico faz parte de uma série de seminários propostos em cada bioma do Brasil pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social - FMCJS e realizado junto com entidades locais. Na Amazônia a organização foi feita pela ARCA – Articulação pela Convivência com a Amazônia, pelo SARES, Serviço Amazônico de Reflexão e Educação Socioambiental e pelo FMCJS, que contaram com o apoio da Misereor e da Cáritas Brasileira.

Outros dois seminários de biomas já foram realizados no Pantanal e no Cerrado. Ainda serão realizados em 2020 seminários nos biomas Semiárido, Mata Atlântica e Pampa.

http://www.ihu.unisinos.br/593957-para-salvar-o-planeta-temos-que-salvar-a-amazonia 

FMCJS: CARTA DO SEMINÁRIO DO BIOMA AMAZÔNICO

Carta do Seminário do Bioma Amazônico e Pré-FOSPA


IHU, 31 de outubro de 2019

Publicamos a seguir a carta sobre o Seminário do Bioma Amazônico, realizado pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental, pela Articulação pela Convivência com a Amazônia e SARES, em Manaus. A carta foi enviada por Gerson Neto, jornalista e membro do FMCJS.

Eis a carta.

“Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia
Tá na opção pelos pobres,
Tá na defesa da vida,
É pela água,
É pela Terra,
Tá na missão assumida”.

Nós, indígenas, ribeirinhos/as, quilombolas, camponeses/as, populações urbanas, homens e mulheres, jovens, ativistas ambientais, professores/as, pesquisadores/as e estudantes universitários/as, comprometidos/as com os movimentos sociais e populares, reunidos no Centro de Treinamento Maromba (Manaus/AM - Brasil), entre os dias 23 e 26 de outubro de 2019, sentimo-nos provocados/as a lançar nosso olhar amoroso, cuidadoso, esperançoso e comprometido com a diversidade das realidades que compõem o Bioma Amazônia.

Diante da imensa biodiversidade e sociodiversidade que nos rodeia, somos atingidos por modelos de desenvolvimento exploratórios impostos pelas grandes corporações financeiras internacionais, aplicados pelos Estados Nacionais, promovendo um neocolonialismo (material e mental) alheios à vida e ao território que têm evidenciado cada vez mais a deterioração dos bens comuns, a expropriação territorial e a violação dos direitos socioambientais, políticos e culturais dos povos amazônicos.

O desmatamento, os projetos de mineração (inclusive em terras indígenas), de hidrelétricas, de portos, o avanço do agronegócio, as redes do narcotráfico, do tráfico de pessoas, do abuso e exploração sexual de mulheres, adolescentes e jovens, as desigualdades sociais nas grandes cidades amazônicas são feridas que contribuem nos efeitos da crise socioambiental, provocada pelo processo de aquecimento global e mudanças climáticas. É sabido que esta crise ameaça gravemente a manutenção deste bioma, comprometendo a reprodução dos modos de vida amazônicos.

A partir das práticas locais compartilhadas no Seminário, alicerçadas nos conhecimentos ancestrais, demonstra-se e visibiliza-se a existência de outros modelos socioeconômicos sustentáveis que garantem a vida da Pachamama, da Mãe Terra. Estas outras formas de pensar, produzir e agir passam pela educação popular, pela autonomia dos povos, num processo de gestão comunitária compartilhada e o empoderamento das populações originárias. Subverte-se a lógica do capital, que se pauta em um modelo consumista e produtivista sem limites, para uma prática que se pauta na lógica do Bem Viver. O dinheiro assim não se apresenta maior do que a dignidade e a vida dos povos e do bioma.

Compreende-se que a defesa do planeta, em especial do Bioma Amazônia, nada mais é do que a defesa da vida, como nos fala o Papa Francisco. Em um movimento que nos aponta que tudo está interligado!

Cada vez, fica mais evidente, em encontros como esses, que a articulação em rede e a formação de alianças tornam possíveis resultados positivos. Nossas diferenças somadas são a oportunidade de uma vivência mais integrada com a Mãe Terra. É unindo os saberes ancestrais, os conhecimentos científicos e tecnológicos, a criação e a implementação de políticas públicas, o comprometimento pessoal e comunitário com todos os seres vivos, como sementes lançadas ao chão, que veremos o broto novo surgir concretizando a esperança de defesa do bioma amazônico e, assim, a defesa da vida em todo o planeta.

Juntos/as na defesa da vida, continuemos a semear resistência e esperança no chão da Amazônia!

Manaus, 25 de outubro de 2019

Entidades presentes no Seminário do Bioma Amazônico:

Articulação de Mulheres Brasileiras
Articulação de Mulheres do Amazonas
Coletivo Ponta de Lança
Conselho Indigenista Missionário;
Coordenação dos Povos Indigenas de Manaus
Curso de Polinizadores – Roraima
Curso de Polinizadores – Manaus
Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Amazonas
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Fórum de Educação Escolar Indigena do Amazonas
Fórum Permanente de Mulheres do Amazonas
Instituto Poraque Ambiental, Social e Educacional do Amazonas
Movimento Nacional de Luta pela Moradia
Movimento Tapajós Vivo
Movimento pela Soberania Popular na Mineração
Pastoral Indigenista da Arquidiocese de Manaus
Pastoral da Criança de Manaus
Rede Eclesial Pan-Amazônico
Serviço Amazônico de Ação Reflexão e Educação Socioambiental

http://www.ihu.unisinos.br/593958-carta-do-seminario-do-bioma-amazonico-e-pre-fospa

TRANSPORTE PÚBLICO GRATUITO É POSSÍVERL

E VALE A PENA SER ESTUDADO E IMPLEMENTADO. MELHOR AINDA SE FOR COM MOTORES ELÉTRICOS.

CARTA MAIOR, 30 de outubro de 2019

Criação de um fundo de financiamento do transporte possibilita tarifa zero, diz estudo

Inesc apresenta estudo sobre a criação de um fundo com fontes extratarifárias para o financiamento do transporte público. De acordo com o documento, transporte gratuito e universal custaria R$ 70,8 bilhões por ano, o equivalente a um por cento do PIB

Por Redação Carta Maior
30/10/2019 13:06
(Reprodução)
Créditos da foto: (Reprodução)
 
Transporte público, gratuito e de qualidade é possível? A resposta a essa pergunta permeia todo o estudo “Financiamento Extratarifário da Operação dos Serviços de Transporte Público Urbano no Brasil”, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). O documento apresenta soluções que possibilitariam a oferta de um transporte coletivo de qualidade, com tarifas zeradas ou reduzidas, garantindo seu acesso universal.

O estudo foi escrito por um dos maiores especialistas em mobilidade urbana no País, Carlos Henrique de Carvalho, em parceira com o Instituto, e suas conclusões serão apresentadas nesta quarta-feira 30, durante a audiência pública, na Câmara dos Deputados, que trata da regulamentação do transporte como direito social. Em resumo, o texto identifica fontes de recursos diferentes para subsidiar os gastos da população usuária de ônibus, já que hoje essas pessoas – em geral, de baixa renda – arcam quase sozinhas com a receita desse sistema no Brasil. Há estados como São Paulo e DF, que já usam algum tipo de subsídio público, mas são exceções.

O Inesc levará para a audiência pública na Câmara alguns exemplos de como seria o financiamento do transporte público, pensando em três situações: a) tarifa zero de transporte público; b) redução de 30% no valor atual da tarifa; c) redução da tarifa de transporte público em 60%. Em todas elas, o aumento da demanda de usuários foi calculado, já que um ônibus barato atrairia muitas pessoas que hoje preferem o carro. “Preparamos diversas sugestões para mostrar que não existe uma composição única de fontes de financiamento e, por isso, esse tema merece ser amplamente discutido, desde que fique garantido o acesso de toda a população a um transporte público de qualidade e a progressividade no modo de cobrança dos novos recursos para sustentá-lo”, explicou Cleo Manhas, assessora política do Inesc.

Os cálculos elaborados preveem um custo de R$ 70,8 bilhões para o cenário onde a tarifa zero seria implementada em todo país. “Isso equivale a 1% do PIB ou dois programas Bolsa Família. É um custo-benefício que vale a pena, considerando os impactos positivos para o meio ambiente e o combate às desigualdades sociais”, argumentou a especialista do Inesc. Para efeitos de comparação, o governo gasta R$ 85 bilhões com isenções fiscais destinadas aos combustíveis fósseis.

Também são apresentados no estudo modelos de composição do fundo de financiamento ao transporte coletivo, com recursos vindos de novas alíquotas para os impostos IPTU, IPVA, ICMS da gasolina, de maneira progressiva (quem tem maior renda paga mais). As respectivas justificativas para a escolha dessas receitas são: quem tem imóveis em regiões valorizadas pela oferta de ônibus e metrô no local deve pagar um IPTU maior; donos de automóveis precisam aceitar um aumento no IPVA, pois com mais gente migrando para um transporte coletivo barato, menos trânsito encontrarão no seu trajeto; o Estado, que abrirá mão de uma pequena parte da arrecadação com ICMS, estará cumprindo seu papel social; e os empresários devem participar desse rateio, pois recebem, em contrapartida, o aumento na circulação de potenciais clientes pela cidade, além de reduzir ou zerar o valor pago em vale transporte aos seus funcionários.

Modelo atual
Atualmente, o transporte coletivo no Brasil se mantém com R$ 59 bilhões ao ano, dos quais 89,8% (ou R$ 52,9 bi) vêm de tarifas cobradas dos passageiros, quase sempre pagas pela população de baixa renda. As subvenções públicas representam apenas 10,2% desse montante, enquanto as receitas não tarifárias (publicidade, por exemplo) somam R$ 375 mil.

Entendendo a injustiça de deixar 90% do custo de um serviço primordial à sociedade somente nas mãos dos usuários, o Inesc vai propor ao Congresso a criação de um fundo de financiamento ao transporte público, com recursos vindos dos cofres públicos, de empresas privadas e até de pessoas que optam por não utilizar o transporte coletivo para se locomover. “Usando ou não o ônibus, todos se beneficiam do transporte coletivo, seja ao encontrar mais espaços nas vias ou ao garantir que um funcionário dependente deste meio chegue ao trabalho”, explica Cleo Manhas.

Com os custos desse sistema financiados por um fundo, as empresas de ônibus poderão reduzir o valor das tarifas, mantendo a qualidade e promovendo a expansão das linhas. Para a especialista do Inesc, só assim será cumprida a Emenda Constitucional 90, promulgada em 2015 e de autoria da deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), que transformou o transporte público em um direito social no Brasil, colocando-o no rol das garantias do Estado para com seus cidadãos. “Do mesmo modo que existem subsídios para garantir o acesso da população à educação, saúde, alimentação, lazer e outras condições essenciais a uma vida digna, o transporte público também deve ser financeiramente acessível a todos”, defende.

Na avaliação do Inesc, o atual modelo do sistema de transporte está preso a um ciclo vicioso, na medida em que o encarecimento das tarifas de ônibus empurra a demanda para o veículo individual, onerando ainda mais o custo do transporte público, já que menos pessoas pagarão por ele. Com mais carros nas ruas, os congestionamentos urbanos crescem, o que aumentam os gastos para as empresas de ônibus, que compensam a diferença em novos reajustes, resultando em outra perda de demanda. “Além disso, hoje o sistema não oferece transparência sobre o lucro das empresas, transformando um direito em mercadoria”, acrescenta.

Nas duas últimas décadas, o encarecimento das tarifas e as políticas de estímulo à indústria automobilística fizeram o transporte público perder espaço para o veículo individual no País. Hoje, do total de quilômetros percorridos por veículos motorizados nas grandes cidades, os carros representam 44% do trajeto, acima do deslocamento feito por ônibus (42%) e motocicletas (7%), segundo dados da Associação Nacional de Transporte Público. Entre os anos de 2016 e 2018, a passagem de ônibus urbano aumentou 20,9% no País, superando a inflação (IPCA) de 13,5% acumulada no período.

A porta voz do Inesc lembra ainda que sua proposta está alinhada à edição da Lei da Mobilidade Urbana (12.587, de 2012), cujo texto deixou clara a possibilidade da implementação de um financiamento extratarifário, entendendo que a mobilidade nas grandes cidades é uma responsabilidade de todos, incluindo as pessoas que optam pelo automóvel, mas continuam sendo beneficiadas pela existência de meios de locomoção coletivos.

Além de menos vias congestionadas, toda a sociedade é impactada positivamente com um transporte público de qualidade e economicamente acessível. Afinal, o prejuízo econômico gerado pelos ônibus – considerando a poluição, os danos ambientais e os acidentes – é de R$ 16,6 bilhões por ano, contra uma perda 8 vezes maior (R$ 137,8 bilhões) provocada pela circulação de carros e motos. “Não faz sentido só os passageiros sustentarem o transporte coletivo, quando cada ônibus consegue tirar 50 carros da rua, e uma composição de metrô elimina 800 automóveis das vias públicas”, finaliza Cleo.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cidades/Criacao-de-um-fundo-de-financiamento-do-transporte-possibilita-tarifa-zero-diz-estudo/38/45674 

EL NIÑO: DE NATURAL A AGRAVADO PELO AQUECIMENTO PROVOCADO POR HUMANOS

ATENÇÃO: NEM O EL NIÑO PODE SERVIR MAIS DE DESCULPA PARA OS QUE TENTAM MANTER A "VERDADE" DE QUE O AQUECIMENTO É ALGO "NATURAL": A PESQUISA CIENTÍFICA PROVA QUE HÁ "SUPER EL NIÑOS", PROVOCADOS ELOS AÇÕES HUMANOS QUE PROVOCAM O AQUECIMENTO DAS ÁGUAS DO PACÍFICO. 

VALE LER E REFLETIR COM SERIEDADE SOBRE O QUE A HUMANIDADE - OU MELHOR, O SISTEMA ECONÔMICOS QUE DOMINA E USA A HUMANIDADE - ESTÁ FAZENDO PARA DESTRUIR AS BOAS CONDIÇÕES DE VIDA QUE ENCONTROU NO PLANETA TERRA. 

E SE AMAZÔNIA FOR DESTRUÍDA, QUE EL NIÑO TEREMOS?

IHU, 30 de outubro de 2019

Aquecimento global: Super El Niño, a perigosa versão do fenômeno climático cada vez mais frequente no Pacífico


No oceano Pacífico, próximo à linha do Equador, um padrão climático gere periodicamente as chuvas, as secas, as inundações e as tormentas de todo o planeta.

A reportagem é publicada por BBC News, 28-10-2019.

Quando El Niño está ativo, a água do oceano na zona equatorial está mais quente. Foto: BBC News

No oceano Pacífico, próximo à linha do Equador, um padrão climático gere periodicamente as chuvas, as secas, as inundações e as tormentas de todo o planeta.

Esse fenômeno meteorológico, cujo nome completo é El Niño-Oscilação Sul (Enos), surge do aquecimento das águas oceânicas e castiga com frequência o clima da Terra.

“O Enos altera os padrões de circulação da atmosfera e causa eventos extremos pelo mundo. De inundações na Índia ou na Austrália a inundações na costa oeste da América do Sul”, explica Bin Bin Wang, chefe do Departamento de Meteorologista da Universidade do Havaí (EUA), em entrevista à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol).

Mas segundo o especialista, esta oscilação atmosférica mostrou nos últimos 40 anos seu lado mais trágico: o chamado “Super El Niño”, uma versão mais intensa do fenômeno com consequências ainda mais devastadoras.

“O ‘Super El Niño’ é uma forma extrema do Enos, na qual a intensidade pode fazer com que as águas do Pacífico subam até 3ºC ou 4ºC em relação à temperatura normal do oceano”, afirmou Bin.

De acordo com especialista, só foram registrados três “Super El Niño” nos últimos 130 anos: em 1982, 1998 e 2015.

Um estudo realizado por Bin e outros especialistas, publicado recentemente na renomada revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences, indica que esse fenômeno extremo deverá ser cada vez mais frequente e destruidor.

Para o grupo de cientistas, há um responsável por trás disso: o aquecimento global induzido pela ação humana. Segundo Bin, esse fator é chave para determinar a frequência e a intensidade do “Super El Niño” no futuro.
El Niño esteve especialmente ativo entre 1997 e 1998 e entre 2015 e 2016 (Foto: BBC News)

Um relatório da Agência Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, também publicado recentemente, indica que hoje há condições para um “El Niño” neutro, isto é, que não manifeste seus efeitos nos próximos meses.

No entanto, Bin lembra que a ativação do fenômeno é periódica e isso não descarta que nos próximos anos ele possa retornar com força total.


O que os pesquisadores identificaram?

O estudo do grupo de cientistas, que se estendeu por mais de dois anos, analisou pela primeira vez os registros climáticos do El Niño de 1901 a 2017.

“Durante esse período, houve 33 eventos do El Niño e analisamos quando eles começaram, como se desenvolveram, o que causou seu desenvolvimento e qual foi seu impacto”, lembra Bin.
“A principal descoberta foi que o local de origem do Enos mudou do leste do Pacífico para o oeste desde a década de 1970 e coincide com os eventos mais extremos”, acrescenta o acadêmico.

Segundo o estudo, antes de 1970, o fenômeno se originou no extremo leste do Pacífico, mas no último meio século seu foco mudou para uma região mais quente: o oeste do oceano.


Quais são as causas e as consequências do fenômeno?

Para Bin, o estudo indica que, em razão de ações humanas, as águas do Pacífico ocidental foram, de modo desproporcional, mais rapidamente aquecidas do que as do Pacífico central.

Esse aquecimento foi responsável pelos eventos mais extremos do El Niño registrados nas últimas décadas e deve ser o fator-chave no futuro próximo, segundo o especialista.
Último grande episódio de inundações na América do Sul e de secas na África e na Ásia causadas pelo El Niño ocorreram entre 2015 e 2016
(Foto: NOAA/Science Photo Library)

Na opinião dele, o estudo mostra como a ação humana pode levar a maiores eventos extremos de El Niño no futuro.

Os pesquisadores identificaram que esse fenômeno extremo pode elevar de forma acentuada a temperatura global, gerar mais furacões e tufões e inclusive afetar ciclos naturais do planeta.

Seus danos incluem a destruição de arrecifes de corais, inundações, deslizamentos e secas. “Esses eventos climáticos afetam milhões de pessoas e causam danos de milhões de dólares. Há uma série de consequências socioeconômicas profundas”, afirma Bin.

http://www.ihu.unisinos.br/593901-aquecimento-global-super-el-nino-a-perigosa-versao-do-fenomeno-climatico-cada-vez-mais-frequente-no-pacifico 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O MUNDO SEM A AMAZÔNIA

ESSE É UM EXERCÍCIO DE PREVISÃO QUE PRECISA SER LEVADO A SÉRIO. QUEM VIVERÁ NO BRASIL SE A FLORESTA AMAZÔNICA FOR SUBSTITUÍDA POR PASTO?

VEJAM OS DADOS, ANTES DE DAR RESPOSTA.

questões climáticas

O mundo sem a Amazônia

Modelo climático prevê efeitos da conversão da floresta em pasto: diminuição de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com prejuízo "catastrófico" para agricultura e produção de energia

João Moreira Salles e Bernardo Esteves
17out2019_17h59

Piauí, 17 de outubro de 2019 - Em


FOTO DE LALO DE ALMEIDA/FOLHAPRESS

Se a Floresta Amazônica fosse toda convertida em pastagem, a quantidade média de chuvas que cairia sobre o Brasil diminuiria 25%. A conclusão é de pesquisadores norte-americanos e brasileiros que simularam como seria o clima global caso a Amazônia fosse ocupada pela pecuária em parte ou no todo, em diferentes cenários. A diminuição das chuvas apontada pelo estudo se somaria àquela que já é de se esperar em parte do território brasileiro por causa do aquecimento global. 

Baseado em modelos climáticos rodados em computador, o estudo dá números ao argumento de que o agronegócio brasileiro depende da chuva gerada na Amazônia. É a evapotranspiração das florestas que gera o vapor d’água transportado continente adentro nos chamados rios voadores. Sem árvores que os abasteçam, eles ameaçam secar.

A simulação mostrou que, além da própria Amazônia, áreas de Cerrado nas regiões Centro-Oeste e Sudeste – onde se concentra a maior parte da produção agrícola brasileira – estão entre as que sentirão com mais força a queda na precipitação. O agronegócio brasileiro é dependente da chuva – só 6% da área cultivada é feita com irrigação. Caso não contenha o desmatamento da Amazônia, o Brasil vai ter dificuldade para se manter como uma potência agrícola global. A chuva não é o único problema. “O aumento de temperatura será catastrófico para o Brasil”, afirmou Stephen Pacala, autor principal do estudo.

Praticamente 20% da área original da Floresta Amazônica já foi derrubada, dos quais cerca de dois terços foram substituídos por pastagens. De acordo com os alertas emitidos pelo Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a área derrubada acumulada entre janeiro e setembro deste ano, nos primeiros nove meses do governo Bolsonaro, foi 93% maior que o verificado no mesmo período em 2018 – ano em que a taxa anual de desmatamento chegou ao maior índice da década. 

A ideia 

Em maio de 2019, três brasileiros entraram no gabinete de Stephen Pacala, professor de ecologia na Universidade de Princeton. Pacala, um dos grandes especialistas mundiais em mudanças climáticas, estava em pé num canto da sala, fazendo café. Os três visitantes – Adalberto Veríssimo, ecólogo, Tasso Azevedo, engenheiro florestal, e João Biehl, antropólogo – vinham convidá-lo para participar de uma conferência sobre a Amazônia que se realizaria dentro de cinco meses ali mesmo, em Princeton. No encontro seria discutido o futuro da floresta. 

Pacala, aparentemente distraído, ainda se ocupava do café quando Adalberto Veríssimo começou a falar da situação na Amazônia. Eram tempos difíceis para o bioma, a conjuntura política não se mostrava favorável à floresta – ela estava sob ataque. Havia violência, ocupação ilegal de terras públicas, queimadas. Pacala foi se interessando. Deixando o café de lado, sentou-se de costas para as equações que tomavam os quadros-negros atrás dele. O relato dos brasileiros sugeria que, se a degradação em curso prosseguisse, a floresta poderia se tornar inviável e corria o risco de desaparecer no prazo de algumas décadas. 

“Há uma coisa que não está clara para a maioria das pessoas”, observou o americano, dirigindo-se aos três colegas. Referia-se ao Acordo de Paris. “Quando se diz que, para o aumento da temperatura não ultrapassar o intervalo de 1,5°C a 2,0°C, a emissão de gases do efeito estufa nos países desenvolvidos precisa zerar até 2050 e, no restante do mundo, até 2100, subentende-se aí que os sumidouros naturais de carbono continuarão a existir.” Se eles desaparecessem, explicou, na prática não bastaria reduzir as emissões, e isso significava que alcançar as metas de Paris dependia do fim do desmatamento e da continuidade da absorção natural de gás carbônico. “A meu ver, então, seria possível demonstrar que, desmatando a Amazônia, destruindo o sumidouro natural de carbono e provocando emissão de gases com incêndios florestais, o Brasil sozinho provavelmente tornaria impossível concretizar o Acordo de Paris num nível global.”

Os cientistas brasileiros se entreolharam. Havia uma novidade ali. “Interessante”, disse Azevedo, já tendo ideias: “E se nós fizéssemos o seguinte? Vamos considerar que as leis ambientais brasileiras tenham sido alteradas para permitir desmatar mais 20% da floresta, e aí calculamos o impacto disso sobre o clima.” Stephen Pacala, cada vez mais animado, meneou a cabeça e contrapropôs: “Não, vamos ser draconianos: elimine-se a Amazônia! Toda ela vira soja. Assim nós conseguimos calcular o valor desses recursos que queremos preservar. Mandamos embora um bom naco da biodiversidade do planeta, mandamos embora o hábitat das populações indígenas. Em troca, ganhamos soja. Que valor isso tem? Qual o preço para o futuro da humanidade em termos de aquecimento global? É isso, vamos transformar tudo em soja e calcular.” 

(Quando fizeram o estudo, os pesquisadores acabaram optando por projetar como seria o clima no futuro caso a Amazônia fosse substituída por pastagens, e não por soja, já que a maior parte da área desmatada acaba sendo destinada à pecuária.)

Poucos lugares no mundo seriam mais apropriados para aquele exercício de imaginação. A cidade de Princeton, em Nova Jersey,  sedia o Laboratório Geofísico de Dinâmica dos Fluido (GFDL na sigla em inglês), um centro avançado de modelagem climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, a NOAA, órgão do governo americano responsável pela previsão de intempéries. “Mais de 100 doutores trabalham lá”, explicou Pacala. Os modelos de previsão climática foram inventados no GFDL por volta de 1960. “É o pessoal que prevê furacões, ciclones. Seria relativamente simples adaptar esses modelos para outro tipo de cenário – a gente aniquila a Amazônia e vê o que acontece.”

O encontro se encerrou com Pacala avisando que o modelo só poderia ser rodado se ele conseguisse convencer uma colega sua – a russa Elena Shevliakova, modeladora sênior do GFDL e codiretora do laboratório – a largar tudo o que estivesse fazendo para se dedicar ao exercício. “É que ela está sempre ocupadíssima”, explicou. “Cresceu na União Soviética, é muito séria. Mas se eu pedir com jeito…”

Duas semanas depois, Biehl, Veríssimo e Azevedo caminhavam pelo campus quando avistaram Pacala vindo na direção deles de bicicleta. O cientista apeou e, com um sorriso, deu a notícia: “Elena topou. Vamos rodar o modelo.” 

Os resultados seriam apresentados às 16 horas do dia 17 de outubro de 2019, durante a conferência sobre a Amazônia organizada por João Biehl e seus colegas de Princeton. 

O modelo

Para rodar o modelo, Pacala e Shevliakova dividiram o globo terrestre em pequenas unidades de análise para entender como o clima evoluiria em cada uma delas. Na parte continental do planeta, eles aplicaram sobre a superfície uma retícula de 1° por um 1° (latitude e longitude), correspondendo a blocos de 110 km por 110 km. Para os oceanos, usaram uma trama mais apertada, de 55 km por 55 km. 

Um mundo em quadradinhos: modelo de pesquisa dividiu o globo em pequenas unidades e supercomputador analisou o que pode acontecer com o clima em cada uma delas

O modelo leva em conta as condições específicas de cada uma dessas unidades de análise. Assim, se uma célula da retícula espelha um trecho do oceano, consideram-se correntes, temperatura da água e interações geoquímicas dessa área em particular; se espelha terra, trabalha-se com emissão de metano (da agricultura, de animais), carbono produzido pelas queimadas, evapotranspiração das plantas, aerossóis de carbono (partículas suspensas pelo fogo), aerossóis minerais (partículas de areia sopradas pelo vento), condensação e evaporação.

A partir desses dados, o modelo retrocede até a idade pré-industrial, ou seja, até meados do século XIX, e calcula o que aconteceu e acontecerá com a temperatura e o carbono desde aquela data até o ano de 2050. Cada rodada do modelo avança 30 minutos no cálculo, e é assim, de meia hora em meia hora, que se chega a 2050. Oito anos de transformações climáticas fatiados em unidades de meia hora em cada quadrante do planeta – da Amazônia à Sibéria, do chifre da África a um canto vazio do Pacífico Sul –, exigem um dia de uso intensivo do supercomputador operado por Shevliakova. O cálculo requer o uso de 3 456 processadores no caso das áreas terrestres (para as unidades oceânicas, que são menores, o número de processadores cai pela metade).

Pacala e Shevliakova rodaram o modelo aplicando-o a dois cenários previstos pelo Acordo de Paris. Mais otimista, o primeiro constructo, batizado de SSP1 – sigla de Shared Socio-Economic Pathways  – trabalha com a hipótese de que o mundo escolherá o caminho da sustentabilidade, enquanto o segundo, SSP5, pessimista, presume que seguiremos até 2050 sem alterar os padrões atuais de emissão de gases.

Tanto em SSP1 como em SSP5 a Amazônia existe. Na ocasião em que esses cenários foram desenhados, não havia razão por que imaginar que em algum momento a floresta estaria sob risco existencial. O exercício de Pacala e Shevliakova simula três situações: o mundo de SSP1 sem nenhuma Amazônia,  o mundo de SSP1 e  SPP5 sem metade da Amazônia. 

Em termos de temperatura e chuva, qual o impacto disso sobre o Brasil e o mundo?

Os resultados

Os resultados são graves.

Se a Amazônia desaparece por completo, mesmo no cenário mais otimista de SSP1  – aquele em que o mundo consegue diminuir drasticamente a sua emissão de carbono – a temperatura média global sobe 0,25°C além do aumento já previsto no cenário SSP1, que é de 1,5° a 2,5°C. Apenas trinta anos nos separam de 2050. Se o modelo fosse rodado até 2100, teríamos provavelmente um aumento suplementar de meio grau.

Também é preciso ter em mente que se trata aqui de uma temperatura média, ou seja, obtida pela ponderação das variações de todos os recantos do planeta. Ocorre que as pessoas não moram em localidades médias, mas em lugares com características bem determinadas. O que importa, então, é a temperatura local. Para a região Amazônica, por exemplo, o modelo indica que a eliminação total da floresta leva a um acréscimo de até 2,5°C  àquele aumento de 1,5° a 2,5° já incorporado ao cenário SSP1. Ou seja, os termômetros marcariam até 4,5°C a mais, o que tornaria a vida praticamente inviável. Quase toda a América do Sul é afetada. Só parte da Patagônia e dos Andes se safam.

Em SSP5 – o modelo “vida-que-segue” no qual não modificamos nossos atuais padrões de emissão de gases –, a existência de apenas 50% da floresta amazônica  produz um quadro climático quase tão grave quanto o resultante de sua completa eliminação. Partes da região Norte experimentarão um aumento de temperatura semelhante, de 2,0 a 2,5 graus além além dos 4°C a 5°C já contratados no cenário SSP5 mesmo que a floresta ficasse de pé. Já o Centro-Oeste brasileiro terá de conviver com até 1 grau adicional nos termômetros.

No mapa acima, as áreas em vermelho são aquelas que terão maiores aumentos de temperatura em diferentes cenários: 1) O mundo com menos emissões de carbono (SSP1) e sem a Amazônia; 2) O mundo com menos emissões de carbono (SSP1) sem metade da Amazônia; 3) O mundo com a mesma quantidade de emissão de carbono (SSP5) sem metade da Amazônia. O mapa abaixo mostra as variações de precipitação nos mesmos cenários; as áreas em vermelho são aquelas com menor volume de chuvas


Igualmente desastrosa é a situação das chuvas. Se a Amazônia se vai, mesmo no cenário otimista de SSP1, o estado de Goiás, o norte de Mato Grosso, o norte da Bahia e boa parte do Sudeste brasileiro perdem de 0,6 a 1,8 milímetro de chuva por dia. No coração da floresta, a queda pode chegar a 2 milímetros, o que corresponde a quase 30% da precipitação anual. Na média brasileira, choverá menos 25% no país. 

Em escala global, no cenário SSP1 com desmate completo da floresta, ocorre um aumento acentuado de temperatura no meio-oeste americano, um aumento significativo ainda que mais brando na Europa e na Oceania, e um aumento agudo, de quase 2 graus, no Ártico. Isso significará degelo acelerado da calota polar e muito provavelmente uma mudança radical no regime dos ventos. A destruição da floresta provocará de uma só vez um aumento de trinta partes por milhão na concentração de dióxido de carbono na atmosfera, o que corresponde a quinze anos do que o mundo acumula no atual padrão de uso de combustíveis fósseis.

No mapa à esquerda, as áreas em vermelho terão o maior aumento de temperatura; no da direita, o vermelho indica as regiões com maior queda no volume de chuvas

As mudanças na precipitação pluvial ocorrerão essencialmente na América do Sul e na Indonésia, que também passará a sofrer de falta de chuva.

Sem a Amazônia, seria virtualmente impossível limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, como propõe o Acordo de Paris. O sofrimento maior, contudo, será nosso e dos nossos vizinhos. 

As consequências

A substituição da Amazônia por pastagens teria impacto direto sobre o abastecimento das usinas hidrelétricas, que têm participação preponderante na matriz energética brasileira. Num futuro com menos chuvas, rios escassearão e os fluxos hídricos se tornarão débeis, o que acarretará colapso sazonal na geração de energia.

A energia que as hidrelétricas deixariam de produzir teria que ser compensada com a exploração de outras fontes, conforme explicou à piauí um especialista em planejamento energético cujo contrato profissional não permite contatos com a imprensa. O país poderia optar por fontes renováveis como a solar ou eólica, mas é improvável que abrisse mão de construir novas usinas termelétricas que sujariam sua matriz energética e aumentariam suas emissões de gases do efeito estufa, realimentando a causa da deficiência hídrica.

Mas é sobre a agricultura que os efeitos seriam mais duros. A piauí quis saber de Eduardo Assad, engenheiro agrícola que investiga o efeito das mudanças climáticas sobre o agronegócio brasileiro, o que representaria a queda de 25% na precipitação média apontada pelo modelo computacional. “Um desastre”, disse Assad, que não participou do estudo e trabalha na Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Vai faltar água, continuou o cientista, e com isso haverá mais veranicos e mais períodos secos durante a época de chuva, com impacto nas safras das commodities exportadas pelo Brasil. “Isso já está acontecendo, e tende a ficar cada vez mais forte.”

Estudos feitos pela equipe de Assad desde 2007 vêm mostrando que a soja, o milho e o café, nessa ordem, seriam os cultivos mais afetados pela diminuição das chuvas. “O problema da soja não será a temperatura elevada, mas sim a deficiência hídrica”, afirmou. O pesquisador apontou duas soluções para combater o problema. “A primeira é parar de desmatar e revegetar, para poder voltar a ter o ciclo hidrológico.” A segunda, continuou, é adotar sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta, que retêm a água no solo e minimizam o estrago.

Assad disse que os resultados do estudo se alinham com projeções feitas por outros grupos de pesquisa brasileiros. “Tem mais de quinze anos que estamos falando isso, mas a proposta do país hoje é derrubar o conhecimento científico. Esse povo fica negando que está havendo mudança climática e dizendo que desmatamento não tem problema nenhum”, disse o pesquisador. “Se continuarmos do jeito que está, teremos muitos problemas no médio prazo.”


João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial


https://piaui.folha.uol.com.br/o-mundo-sem-amazonia/ 

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

NO SÍNODO PARA A AMAZÔNIA

TENHO DISPONIBILIZADO AOS AMIGOS E AMIGAS OS ARTIGOS DE ROBERTO MALVEZZI, CONHECIDO COMO "GOGÓ". O TEXTO DE HOJE FOI ESCRITO EM ROMA, ITÁLIA, E DÁ CONTA DE QUE ELE, CONVIDADO COMO PERITO DO SÍNODO, FOI ACOMETIDO POR UM GRAVE INFARTO. ESTÁ EM RECUPERAÇÃO E DEVERÁ PARTICIPAR DA PARTE FINAL DO SÍNODO. BOA SAÚDE, AMIGO!

Roberto Malvezzi (Gogó)

Vim para o Sínodo para a Amazônia, em Roma. Cheguei aqui, na primeira reunião dos peritos sob a coordenação de Dom Cláudio Hummes, na casa dos jesuítas, sofri um infarto, dizem que o mais grave possível e só fui salvo pelo rápido atendimento. Fui levado a uma emergência do Vaticano e, diagnosticado o infarto, levado rapidamente ao hospital público Espírito Santo. Ali fui atendido, feito o cateterismo, salvo. Depois ainda peguei uma pneumonia, devidamente curada. Fiquei dez dias hospitalizado com todos os recursos de primeiro mundo. E ainda dizem que a saúde para funcionar tem que ser privada!
Nesse período recebi uma rede imensa de solidariedade e orações. Agradeço a todos e todas, a cada um e cada uma. Minha família foi avisada e nessa semana minha mulher e uma de nossas filhas chegaram a Roma. Já saí do hospital e agora estamos arranchados na casa que me hospeda durante o sínodo.
O Sínodo prossegue. Minha participação ficou restrita às orações e a rede de informações dos amigos e participantes. Essa semana fecha-se o ciclo dos debates, vem a síntese dos relatores e depois, na semana que vem, a leitura em plenária com as decisões votadas pelos padres sinodais.
Bom, como diziam os antigos, “vita brevis”, ou como diz Frei Betto, “a morte não manda aviso prévio”. Mas, Deus me quis vivo e, de alguma forma, tudo foi providencial. Muitos me mandaram a mesma linha de raciocínio: imaginou se estivesse nas comunidades do interior da Bahia, do Acre, do Amapá?
Semana que vem espero participar das sessões finais do Sínodo, ouvir a síntese, acompanhar as votações. Tenho a convicção absoluta que esse Sínodo, para o bem da Amazônia, da humanidade, da Terra e até da Igreja inserida, produzirá suas flores e seus frutos.
Laudato Si’.

CARTA PÚBLICA DA FRENTE POR UMA NOVA POLÍTICA ENERGÉTICA PARA O BRASIL

O FÓRUM MUDANÇAS CLIMÁTICAS E JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL É ENTIDADE MEMBRO DESTA FRENTE, E ASSUME O CONTEÚDO DESSA CARTA, APROVADA NA RECENTE PLENÁRIA NACIONAL


CARTA PÚBLICA

A Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil vem por meio desta carta chamar a atenção das autoridades e da sociedade em geral para os problemas e oportunidades que envolvem a nossa matriz energética atualmente.

Neste momento o povo brasileiro começa a experimentar uma mudança positiva com a instalação da mini e micro geração de energia elétrica conectada à rede, em especial através da fonte solar, que gera benefícios para as famílias e impactos positivos para a economia e para a produtividade. Ao mesmo tempo, entretanto, identificamos o risco de retrocesso no planejamento e na expansão do sistema elétrico.

A própria mini e micro geração solar distribuída sofre ameaças (às quais nos opomos) com a atual revisão da resolução normativa nº 482 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que pode reduzir sua atratividade, enquanto o planejamento de grandes obras do setor elétrico avança sem o devido processo de consulta à sociedade e às populações atingidas. E agora o governo está avaliando a construção de usinas nucleares no Nordeste e de grandes hidrelétricas na Amazônia, replicando um modelo que já se mostrou nocivo do ponto de vista da justiça social e da responsabilidade socioambiental.

O plano de construir grandes hidrelétricas nos rios Tapajós e Trombetas, no Pará, e no rio Branco, em Roraima, e ainda centenas de usinas menores em vários estados do país, ameaçam não apenas a Amazônia, mas todos os biomas do Brasil, especialmente o Pantanal, cada vez mais impactado pela construção de barragens. Entendemos que o Brasil não necessita mais destes grandes projetos com elevados impactos sociais, econômicos e ambientais porque, atualmente, diversas fontes de energia já se encontram maduras, com preços competitivos e eficácia comprovada. Ao invés de construir novas hidrelétricas e usinas nucleares é hora de avançar na instalação de fontes de energia com menores danos socioambientais e maiores benefícios sociais.

É também preocupante a ampliação do uso de combustíveis fósseis nas usinas termelétricas e aumento da exploração de petróleo em regiões sensíveis. A perspectiva de exploração de petróleo nas bacias dos rios Solimões, Amazonas e sua foz, coloca em risco as florestas, os rios e vastas regiões de nosso litoral. Consideramos grave que estes projetos avancem sem que os povos indígenas e comunidades tradicionais dessas áreas participem do processo de planejamento e decisão sobre a implantação destes projetos, desrespeitando o direito à consulta livre, prévia e informada garantido na legislação brasileira.

O governo federal pretende construir um grande parque nuclear, às margens do rio São Francisco, em Itacuruba (PE), também sem a participação/consulta pública adequada as sociedades locais. O Brasil não precisa de novas usinas nucleares para produzir eletricidade, porque o país pode ter segurança energética com uso integrado de outras fontes de energia. Neste momento o mais adequado seria planejar o descomissionamento das usinas de Angra 1 e 2, e interromper a construção de Angra 3, um projeto caro, envolto em corrupção, com Plano de Emergência falho, e que não contempla as medidas emergenciais obrigatórias após a tragédia de Fukushima, no Japão.

A exploração do Uranio, em Caetité (BA), tem aumentado o número de casos de câncer nos moradores, fato comprovado por diversas pesquisas. É extremamente injusto que o Nordeste, região mais rica do país em energia do sol e do vento, e que já convive com o impacto de grandes projetos hidrelétricos, térmicos e eólicos, seja também o local escolhido para conviver com os riscos da expansão da energia nuclear no Brasil.

Afirmamos também que a logística dos transportes tem potencial para alcançar um modelo mais sustentável do ponto de vista econômico e ambiental, reduzindo progressivamente sua emissão de poluentes, estimulando a interação dos modais e o uso de ferrovias para transporte de cargas e passageiros, e adotando medidas de mobilidade urbana e de ampliação do transporte público de qualidade.

É inspirador avançar neste debate no momento em que a comunidade sul-americana acompanha com esperança a realização do Sínodo da Amazônia, no Vaticano, que discute as graves mazelas que assolam a região, como o desmatamento, as queimadas, a poluição e a pobreza, mas também as oportunidades de promover um modelo de desenvolvimento na Amazônia que respeite a sua diversidade natural e valorize a sabedoria dos seus povos.

Nosso país apresenta todas as qualidades para ser uma potência na área da produção energética renovável, que pode ser expandida de modo democrático e participativo, com geração de empregos e oportunidades para toda a sua população, e consolidando sua posição de nação responsável e engajada na busca por um futuro sustentável para o planeta.

Brasília (DF), 10 de outubro 2019.