quinta-feira, 27 de julho de 2017

HÁ VIDA NOVA NA IGREJA ANIMADA PELO PAPA FRANCISCO

BELA REFLEXÃO E BOA NOTÍCIA EM RELAÇÃO À CELEBRAÇÃO DO DIA 30 EM VOLTA REDONDA. SINTAM-SE CONVIDADOS/AS A ENTRAR NESSA TAMBÉM, MESMO SE NO ESSENCIAL: NO AMOR LIBERTADOR, QUE É A MENSAGEM CENTRAL DE JESUS DE NAZARÉ. É BOM RECORDAR, MAS DEVE SER PARA VIVER, RENOVAR PRÁTICAS LIBERTADORAS.

Francisco acendeu a chama; e a Igreja-pipoca!

Publicado em 26 de julho de 2017
 
Celebração durante a 40ª Romaria da Terra e das Águas, em Bom Jesus da Lapa (BA), organizada pelas CEBs, CPT e movimentos populares organizados em várias dioceses baianas, com mais de 6 mil romeiras e romeiros, entre 7 e 9 de julho. Foto de Thomas Bauer/ CPT Bahia.
Não gosto de pipoca. E, por isso, sou visto como um estranho em minha família. Já me acostumei com os olhares de incompreensão toda vez que “não, obrigado, não gosto mesmo de pipoca”. Não sei, parece-me sem gosto, a textura é estranha. Não sei. Vai ver que é algum trauma da infância. Entretanto, mesmo não gostando de comer, sinto-me maravilhado toda vez que se faz pipoca em casa –e isso acontece muitas vezes por semana!
É um pequeno milagre.
No começo, não há nada, só o fogo aceso. Então uma pipoca estoura. Depois outra, mais uma, outra mais e de um instante para outro é uma profusão de múltiplas explosões. Quando se abre a panela, o que era um fundinho de grãos amarelos tornou-se uma abundância transbordante. É assim –finalmente- com a Igreja sob a liderança de Francisco.
Em 2013, Bergoglio acendeu a chama sob a panela com muitos grãos de aparência inerte, adormecidos, imóveis. Grãos mantidos guardados, trancados no armário por muito tempo. Então o calor começou a fazer efeito. Como cantou Caetano, tem pipocado aqui, ali, além. Pipoca, pipoca, até que a manhã começou a desanoitecer.
E temos de novo a Igreja-pipoca!
A ideia me veio imediatamente à cabeça quando recebi a notícia de que no próximo domingo (30) haverá missa e festa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.  Às 17h, padre Natanael de Moraes irá presidir a celebração em homenagem a seus 51 anos de sacerdócio. Ele estará de volta à cidade 47 anos depois de ser preso e barbaramente torturado durante a ditadura militar. Padre Natanael, agora no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG) era, na virada dos anos 1960/70, religioso verbita, diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda e um dos líderes católicos ao redor de dom Waldyr Calheiros (1923-2013), bispo de Volta Redonda e Barra do Piraí.
Dom Waldyr (à direita), num dos inúmeros depoimentos a que foi convocado pelos militares durante a ditadura
Dom Waldyr foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas que reuniu 40 padres e bispos durante o Concílio Vaticano II: todos assumiram o compromisso de uma vida pobre com os pobres. Ao lado de dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e outros formou a linha de frente da Igreja Católica contra a ditadura e protagonista da Teologia da Libertação.
Ambos, dom Waldyr e padre Natanael, conheceram no final dos anos 60 Estrella Bohadana, uma jovem de 19 anos, militante da Política Operária (Polop) na resistência à ditadura. O sacerdote e Estrella reencontraram-se em 1970 nas salas de tortura do antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindado, em Barra Mansa/RJ. Foram submetidos a torturas brutais, de todo tipo.
O sereno e firme depoimento de Estrella à Comissão da Verdade de Volta Redonda é pungente, um grito aos céus. A brutalidade e o sadismo marcaram a ditadura no Brasil, com apoio de segmentos do catolicismo conservador no país. Ela morreu em maio de 2015, carregando por anos as sequelas das torturas selvagens. No seu relato, o registro de que a Igreja estava, em Volta Redonda, no lugar certo: ao lado dos jovens, com os pobres, nas prisões, flagelada nos centros de tortura. Assista, emocione-se:
Padre Natanael e Estrella (postumamente) receberão no domingo a medalha dom Waldyr Calheiros de Direitos Humanos.
Domingo em Volta Redonda será dia de fazer memória da Igreja-pipoca. Não se trata de saudade, que evoca nostalgia de um tempo ou pessoas que perdemos. Fazer memória como atualização de experiências fundantes da Igreja, como a grande MEMÓRIA que se faz a cada Celebração Eucarística, atualização viva da experiência do Manso e Humilde com as primeiras comunidades, alimentar o seguimento de sua missão. Fazer memória, estourar pipoca.
Durante 35 anos, sob João Paulo II e Bento XVI o milho esteve trancado em armários, a sete chaves.
Sim, houve resistência nesses anos todos. Pipocou na CPT (Comissão Pastoral da Terra), no Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e outras frentes pastorais; pipocou em pequenas comunidades nas periferias e nos campos, escondidas, buscando escapar do trancamento nos armários escuros e fechados do Vaticano e sua mão longa em tantos cúmplices na hierarquia clerical.
Mas agora há fogo sob o milho-pipoca. Francisco acendeu a chama! E como esquenta! Começa a pipocar na CNBB. Os milhos estouram de novos nas periferias, em novas redes como a Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica), nos sinais de um vigor renovado das Comunidades Eclesiais de Base, na reorganização ecumênica dos teólogos e teólogas ao redor da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião), nas ordens e congregações religiosas, em múltiplas iniciativas.
A Igreja pipoca novamente.
[Mauro Lopes]

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