domingo, 27 de agosto de 2017

SERVIÇOS DE ÁGUA, ESGOTO: PRIVATIZADOS NO BRASIL, REESTATIZADOS NO MUNDO.

Sob a inspiração de Paris e Berlim, europeus também retomam serviços públicos que haviam sido privatizados




por Heloisa Villela, de Nova York
A DMAE (empresa de água e esgoto de Porto Alegre) é mais uma da lista de serviços públicos brasileiros que pode parar na mão da iniciativa privada.
Pela lógica dos tempos atuais, faz sentido.
A empresa é bem gerida, tem um desempenho exemplar e está prontinha para dar lucro a algum empresário.
“É uma das melhores empresas de água e saneamento do mundo”, diz o canadense David McDonald, fundador do Projeto de Serviços Municipais, uma rede de pesquisa que reúne acadêmicos de diversos países para analisar o desempenho das empresas públicas nos setores de eletricidade, saúde, água e saneamento básico — e estudar as consequências das privatizações nesses setores, especialmente na África, na Ásia e na América Latina.
No Brasil, discursos vindos de fora muitas vezes são adotados como símbolo da “modernidade”.
Por exemplo, o de que a administração privada de serviços públicos é mais “eficiente”.
Cabe perguntar: para quem?
O lobby dos privatistas é intenso e está por trás, por exemplo, da privatização da Cedae no Rio de Janeiro.
Mas David, estudioso do assunto, repete o que já disse ao Viomundo a professora Mildred Warner, da Universidade de Cornell: “Passados 30 anos das experiências com privatização, não existe prova alguma de que seja melhor”.
Ele abre uma exceção: a iniciativa privada consegue melhores resultados quando substitui um serviço público péssimo.
Na Europa, observa a reversão das privatizações. Paris é apenas um dos vários municípios franceses que tomaram de volta o serviço de distribuição de água na última década.
“A cidade economizou, imediatamente, 35 milhões de euros por ano”, diz David.
Ele não se preocupa apenas com o aspecto financeiro, mas também com questões sociais e ambientais.
Quando o serviço é público, fica bem mais fácil garantir que ele chegue às crianças e aos mais pobres, por exemplo.
O cuidado com o meio ambiente, em geral, é maior porque as empresas privadas tentam economizar de toda maneira e nessa sede de “otimizar” resultados, já provocaram desastres ecológicos que as prefeituras, depois, têm de enfrentar.
David compara Paris com Berlim. O prefeito parisiense tomou a iniciativa de estatizar o serviço para economizar e a população nem notou que a distribuição de água havia mudado de mãos.
O preço da água para os moradores de Paris foi reduzido e a cidade ainda usou parte do dinheiro economizado para subsidiar a água para regiões mais carentes e financiar projetos de solidariedade no Marrocos e na Palestina.
Já em Berlim, foi uma briga.
Os moradores se organizaram para forçar a prefeitura a municipalizar o serviço. Um referendo com grande participação popular devolveu o controle da água à cidade e encerrou as discussões.
Desde então, vários municípios da França, da Alemanha e de outros paises europeus seguiram pelo mesmo caminho.
Mas, segundo David, o país que lidera o processo de estatização desses serviços são os Estados Unidos e em geral a iniciativa é de políticos conservadores — quando se dão conta de que vão gastar menos.
Na África, o esforço do Banco Mundial em promover a privatização não deu muito certo. Muitas empresas desistiram de projetos porque a população não tem renda suficiente para gerar lucros.
David cita Kampala, em Uganda, como exemplo.
Como a privatização da água não deu certo, o Banco Mundial mudou de estratégia: forçou o governo a adotar uma administração mais empresarial do serviço.
“Essa é uma nova tendência: a corporatização, para forçar essas empresas públicas a operarem de forma bastante comercial”, diz ele.
Na África do Sul, por exemplo, a Rand Water é uma empresa pública que atua como corporação.
— Quando o apartheid terminou, havia muita pressão para privatizar a água e a eletricidade no país. O governo resistiu, mas adotou o modelo do Banco Mundial de dar cunho corporativo ao serviço. Por isso eles atuam em outros países do continente. Foi o que aconteceu em Acra, Gana. A Rand tentou administrar o serviço de água mas a população resistiu porque viu o processo como uma privatização, apesar da Rand ser uma empresa pública na África do Sul. Ela teve que deixar Gana por causa da pressão política. Os dirigentes da empresa também acharam que era difícil ganhar dinheiro em um país com tanta pobreza.
Na África do Sul, a discussão continua. Com o modelo comercial de gerenciamento, não existe subsídio para as regiões mais carentes e muitas pessoas sofrem cortes de água e luz porque não conseguem pagar as contas.
Por isso, David diz que hoje em dia não se trata de defender a empresa pública contra a privatização e sim discutir o modelo de gerenciamento: objetivos da operação e enfrentamento de problemas sociais e ecológicos, por exemplo.
Ele volta a Porto Alegre:
— O que a concessionária fez foi incluir as pessoas na tomada de decisões, levaram muito a sério a necessidade de assegurar que mulheres e crianças tenham acesso ao saneamento. É difícil colocar um preço nisso.
Então, fica a pergunta: se as pesquisas mostram que não existe vantagem na privatização e que administrar as empresas públicas como se fossem privadas não funciona, por que a insistência dos economistas do Banco Mundial com o modelo? Eles não leem as pesquisas, não se convencem com os próprios dados que coletam?
— Minha sensação é de que as pessoas do Banco Mundial estão comprometidas com uma visão ideológica segundo a qual o ser humano só pensa em si próprio e só se sente estimulado a fazer qualquer coisa se for ganhar dinheiro e que apenas a disciplina do mercado os obriga a ser eficientes.
As pesquisas contrariam a tese. Nos Estados Unidos, até políticos conservadores, de direita, descartam as diretrizes que o Banco Mundial impõe a meio mundo e estatizam os serviços de água, luz, esgoto e coleta de lixo quando se dão conta de que podem economizar dinheiro e melhorar a qualidade do serviço.
Ela publica na internet os estudos de caso.
Leia também:
https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/15e2433a932e96c0 

O "PAI-NOSSO" E A CONJUNTURA BRASILEIRA

O “Pai-Nosso” e a conjuntura brasileira
Maurício Abdalla
No século I, na Palestina, o domínio romano extorquia os agricultores por meio de pesados impostos. Adicionalmente, na região camponesa da Galileia, o reinado perdulário de Herodes Antipas acrescentava outros tributos que sobrecarregavam ainda mais os que viviam da terra - que ainda tinham que pagar o imposto do Templo para os governantes judeus.
Como os impostos levavam a maior parte da colheita (principalmente nos períodos das grandes obras de Antipas), sobrava pouco para o sustento da família e para estoque para a próxima semeadura. Os agricultores eram, então, obrigados a recorrer a empréstimos. Os ricos proprietários de terra, que sustentavam o poder judaico e se aproveitavam de maneira submissa da dominação romana, passaram a ganhar ainda mais com os juros dos empréstimos e, principalmente, com o confisco das terras dos que não conseguiam saldar as pesadas dívidas. Esses eram os saduceus, que orbitavam o Templo, sede do poder judaico, e apresentavam-se como líderes religiosos e da tradição.
Um jovem líder daquela época, de origem camponesa (da Galileia), ao ensinar em público como se deve dirigir a Deus, disse: "Diga a Deus que perdoe as suas dívidas do mesmo jeito que você perdoa a de seus devedores..." Esse era Jesus.
Como essas palavras devem ter soado aos ouvidos religiosos dos saduceus, cuja riqueza sustentava-se e crescia justamente na cobrança, e não no perdão, das dívidas? Era como forçá-los a dizer "Deus, condene-nos".
Com isso, Jesus expressava também a condenação ao sistema que levava ao endividamento e ao consequente enriquecimento de uns à custa do empobrecimento de muitos. Não se preocupou em fazer referência ao “compromisso de honra” do tomador do empréstimo com o seu pagamento. Preferiu chamar à consciência para o sentido ético-social de uma cobrança que tinha em sua raiz original um sistema de dominação e injustiça. Tem coragem de pedir a Deus que faça com você a mesma coisa que você faz com os outros? Se não, algo está errado, independente das justificativas.
Traduzida na fórmula de oração católica do "Pai-Nosso" por "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" e mantida na tradição protestante como "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores", a oração de Jesus contém uma crítica social e econômica fulminante, inseparável da sua espiritualidade e só compreensível dentro de seu contexto.
O sentido original da oração foi um dos tantos fatores que levaram o jovem da Galileia a sofrer o castigo que os romanos reservavam aos contestadores da ordem: o assassinato político na cruz.
A retirada do contexto e o esvaziamento do sentido crítico das palavras de Jesus é a única coisa que permite que muitos sejam a favor da ordem atual e, paradoxalmente, se digam cristãos.
Com as riquezas do Brasil sendo entregues à rapina de banqueiros e empresários, o empobrecimento da população, a destruição do patrimônio e dos serviços públicos em nome de uma dívida não auditada, insolvível e fruto de um sistema injusto, onde você acha que Jesus estaria? No Facebook defendendo as privatizações, a destruição das leis trabalhistas e da previdência e o engessamento do orçamento primário em nome de uma ideologia liberal de comentadores de TV, ou com o chicote na mão liderando uma invasão ao Templo, chamando Herodes de raposa e dizendo que o diabo é a Legião (nome das tropas de ocupação romana)?
Pense nisso na próxima vez que for orar o “Pai-nosso”.


sábado, 26 de agosto de 2017

COMPENSAÇÕES: CRIAÇÃO DE LEIS PARA AUMENTAR A EXPLORAÇÃO DA TERRA E DOS POVOS

É UM HORROR E UMA VERGONHA VER COM QUE CINISMO SÃO MUDADAS LEIS PARA DAR APARÊNCIA LEGAL ÀS PRÁTICAS DE DESTRUIÇÃO DAS CHAMADAS COMPENSAÇÕES POR PERDA DE BIODIVERSIDADE. 

ENQUANTO ISSO, QUEM NÃO VÊ QUE OS EVENTOS EXTREMOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SE TORNAM CADA DIA MAIS DRAMÁTICOS? ESTAMOS NA SITUAÇÃO DENUNCIADA POR JESUS DE NAZARÉ: "SÃO CEGOS E GUIAS DE CEGOS"! HAVERÁ PORTO EM QUE SERÁ POSSÍVEL ANCORAR?

PRECISAMOS FAZER VALER O BOM SENSO, A ÉTICA, A DEMOCRACIA VERDADEIRA...

3170 – Boletim do WRM
Aliança RECOs
Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras

“...Para entender a lógica em que se baseiam as “compensações”, sejam de biodiversidade, de carbono ou outras semelhantes, é importante ter sempre em conta o seguinte: o objetivo principal dos mecanismos de compensação é permitir que o modelo econômico dominante, dependente dos combustíveis fósseis, continue por mais tempo e se expanda. Sua adoção foi necessária para aparentar que, diante da atual crise social e ambiental, governos e empresas responsáveis ​​pelas crises atuais estão agindo rumo a um modelo mais “verde”. No entanto, essa cortina de fumaça cheia de discursos enganosos e compromissos vazios, na verdade, aprofunda cada vez mais essas crises...”

Destruo aqui e destruo lá: as compensações por perda de biodiversidade como dupla exploração
Por Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM)
Desta vez, o boletim do WRM trata de uma das estratégias centrais que as indústrias (principalmente as de mineração) vêm usando para conseguir se expandir no marco da chamada “economia verde”: a compensação por perda de biodiversidade. Consideramos que é importante alertar sobre o forte impulso empresarial que tenta que os governos relaxem suas leis ambientais e, portanto, aceitem certas atividades industriais em áreas anteriormente consideradas inviáveis. O único requisito é que se “compense” a perda da biodiversidade que será destruída com a implementação de atividade industrial. Esses projetos de compensação causam destruição, exploração e dominação em dois níveis: por um lado, nos territórios afetados por atividades industriais e, por outro, nos que são alvo de projetos de compensação. Estes últimos geralmente envolvem uma grave destruição social e cultural.

Para entender a lógica em que se baseiam as “compensações”, sejam de biodiversidade, de carbono ou outras semelhantes, é importante ter sempre em conta o seguinte: o objetivo principal dos mecanismos de compensação é permitir que o modelo econômico dominante, dependente dos combustíveis fósseis, continue por mais tempo e se expanda. Sua adoção foi necessária para aparentar que, diante da atual crise social e ambiental, governos e empresas responsáveis ​​pelas crises atuais estão agindo rumo a um modelo mais “verde”. No entanto, essa cortina de fumaça cheia de discursos enganosos e compromissos vazios, na verdade, aprofunda cada vez mais essas crises.

Considerar esse ponto nos permite entender por que os mecanismos de compensação não pretendem deter os fatores que estão causando a devastação de territórios e florestas. Pelo contrário, permitem ampliar as atividades destrutivas para áreas que até recentemente seria impensável que fossem entregues à exploração. É assim que as indústrias de mineração, petróleo, infraestrutura, plantações de monoculturas, mega-hidrelétricas, entre tantas outras, juntamente com os milhares de quilômetros de estradas de acesso, acampamentos de trabalhadores, poços de drenagem e outros impactos que a grande a maioria dessas indústrias acarreta, continuam expandindo suas operações e seus lucros. Não nos esqueçamos de que o modelo econômico dominante e a estruturalmente racista e patriarcal joga quase toda a sua destruição, sua ocupação e sua violência sobre as populações indígenas e camponesas, para continuar explorando, produzindo e, portanto, acumulando lucros.

As compensações também facilitam que essas indústrias, juntamente com seus aliados (sejam governos, ONGs de conservação ou outros), tenham acesso a cada vez mais terras. No final das contas, a compensação vem a ser uma luz verde para que a atividade destruidora continue nos marcos da lei – embora se venha a destruir uma área que anteriormente não poderia ser destruída, pelo menos de forma legal e/ou legítima. A única condição é que a biodiversidade destruída no local das operações seja recriada ou substituída em outro lugar. Para conseguir isso, o argumento básico é que a destruição em um lugar deve ser “equivalente” à suposta proteção ou (re)criação de outro, mas essa “equivalência” esconde importantes contradições e questões de poder, direitos territoriais, desigualdade, violência e história colonial.

Uma vez que o objetivo não é deter a destruição, e sim “compensá-la”, os projetos de compensação têm seu foco principal em terras de povos indígenas e outras comunidades tradicionais dependentes de florestas. Em muitos casos, é necessário que essas comunidades entreguem suas terras -ou o controle sobre elas- a projetos de compensação. Assim, o mecanismo de compensação gera destruição, exploração e dominação em dois níveis: por um lado, os territórios afetados por atividades de extração industrial /capitalistas e, por outro lado, os territórios que são alvos dos projetos de compensação. Estes últimos geralmente não envolvem destruição ambiental, já que supostamente devem proteger uma área a ser preservada, mas a experiência nos ensina que eles acarretam, sim, uma destruição social e cultural grave.

As “áreas de compensação” têm que estar sob algum tipo de ameaça, pelo menos no papel. Se não fosse assim, por que seria necessário um projeto para protegê-las? Portanto, quase todos esses projetos identificam as comunidades tradicionais como as principais ameaças à sua conservação. São impostas inúmeras restrições ao acesso, ao controle e aos direitos de uso comunitário das florestas que são convertidas em projetos de compensação. Seus defensores argumentam que a “conservação” só pode ser “bem sucedida” quando feita a partir da prática ocidental dominante, que tem suas raízes na colonização. Ou seja, na criação de parques cercados ou de “natureza sem gente”. A usurpação dos direitos de uso e controle territorial – e, portanto, de tradições, culturas e modos de vida – das comunidades que dependem da floresta é fundamentalmente racista e violento. (Veja mais sobre o Racismo Ambiental no Boletim 223, de abril de 2016).

Sendo assim, como funciona, na prática, a chamada compensação por perda de biodiversidade?

Em primeiro lugar, as compensações por perda de biodiversidade devem ser capazes de medir e quantificar a “biodiversidade”. Devem-se estabelecer e categorizar os elementos que serão destruídos para depois ser recriados em outro lugar, ou garantir que a proteção de outro lugar tenha um equilíbrio “equivalente”. Claro que, ao reduzir a destruição de um território em um lugar específico, com uma história específica e muitas historias específicas, em um momento específico, a meras categorias e medições, não se fala na coexistência de povos, culturas, tradições, interconexões, entre muitos outros aspectos de florestas e territórios. O importante, sob essa lógica, é aquilo que se pode medir e, portanto, intercambiar ou substituir.

Os critérios de investimento dos bancos multilaterais – como bancos de desenvolvimento regional e o Banco Mundial – visam influenciar a legislação ambiental dos países. Além disso, a Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês), braço privado do Banco Mundial, mudou sua Norma de Desempenho No. 6 em 2012. Qualquer empresa que quiser ter acesso a um empréstimo da IFC e cujas atividades destruirão o que ela considera “habitat crítico” deve apresentar um plano estabelecendo que a biodiversidade destruída será compensada em outro lugar. Assim, seguindo as “regras” definidas pelo poder corporativo concentrado em instituições financeiras, cada vez mais governos, principalmente no Sul Global, flexibilizam suas leis ambientais para aceitar a viabilidade de certas operações antes consideradas inviáveis, desde que elas compensem a biodiversidade que será destruída ao se implementar o projeto.

Muitos dos projetos de compensação por perda de biodiversidade são apresentados como “projetos de conservação”, o que resultou em que as informações sobre estes projetos são escassas e inacessíveis. Nesses casos, as restrições ao uso da floresta que são impostas às comunidades também são enquadradas com argumentos de conservação. Esse é um problema muito grave. Na prática, oculta-se o fato de que, para impedir que uma comunidade faça agricultura de subsistência ou pratique caça ou pesca, na verdade, está se permitindo que uma empresa extraia petróleo ou que se construa uma megabarragem em áreas muitas vezes protegidas por sua biodiversidade. Mais uma vez, o modelo econômico dominante, reforçado pelo sistema de compensações, mostra seus atributos dominantes e racistas.

Pior ainda, em alguns casos, as empresas afirmam até mesmo “criar” “mais biodiversidade”, por exemplo, quando, além do projeto de compensação, implementam atividades complementares, como o plantio de árvores para “enriquecer a biodiversidade” da área. Eles chamam isso de ter um “impacto positivo líquido”. O resultado é que uma empresa de mineração – extremamente destrutiva – acaba divulgando que suas ações não só não têm impacto, mas também são positivas para o meio ambiente. As comunidades, por outro lado, são forçadas a mudar suas práticas, alguns membros da comunidade talvez possam se tornar guardas florestais – notificando se seus familiares e vizinhos estejam seguindo ou não as regras impostas pelo projetos de compensação - ou deixar seus territórios porque estes ficaram inviáveis ​​para a sobrevivência.

Em outras palavras, o mecanismo das compensações por perda de biodiversidade é uma estratégia para que as indústrias destruidoras de territórios possam se expandir ainda mais sem violar as leis. A vida diversificada que se destrói jamais poderá ser recriada ou substituída. Cada espaço, cada tempo e cada interconexão são únicos. Mecanismos como esses, que pretendem se converter em políticas nacionais e regionais, tratados internacionais e, no final das contas, no “status quo”, impõem uma visão de mundo baseada na dominação da vida do outro. Também é evidente que essa imposição não é casual, e sim violentamente racista.

Consequentemente, é fundamental solidarizar-se ativamente com as lutas em defesa dos territórios e, ao mesmo tempo, desmascarar esses mecanismos para conseguir romper com os paradigmas de dominação e abrir espaço não apenas para respeitar os muitos outros mundos existentes, mas também aprender com eles.

Disfrutem a leitura!

Boletim No 232 – Julho / Agosto  2017 

Faça o download do boletim em PDF   |     Assine o Boletim do WRM  
http://wrm.org.uy/pt/boletin/atual/ 



sexta-feira, 25 de agosto de 2017

COMO DEIXAR DE EMITIR CARBONO NA PRODUÇÃO DE ENERGIA

NOTÍCIA DIVULGADA PELO "CLIMATEMPO" INDICA QUE O BRASIL E O MUNDO, SE QUISER, PODE PRODUZIR A ENERGIA QUE PRECISA SEM USAR FONTES CARREGADAS DE CARBONO. NO CASO BRASILEIRO, O ESTUDO DIZ SER POSSÍVEL QUE 54% DA ENERGIA SEJA SOLAR, 32% EÓLICA, E SÓ 13% HÍDRICA.

TODO NOSSO PROBLEMA ESTÁ NO "QUERER". AS ELITES, SEMPRE PARTICIPANDO DE INTERESSES INTERNACIONAIS, NÃO QUEREM ESSA MUDANÇA DE JEITO ALGUM. E QUANDO NOSSO POVO CONFIOU A RESPONSABILIDADE DE GOVERNO NACIONAL A "ALGUÉM DO POVO", ESTE DEIXOU-SE ENCANTAR COM A QUANTIDADE DE PETRÓLEO ENCONTRADO NAS PROFUNDEZAS DO MAR. E ACHANDO QUE ISSO LEVARIA O BRASIL À MODERNIDADE... 

VALE DIALOGAR MUITO SOBRE ISSO, PARA DEFINIR CORRETAMENTE OS MELHORES CAMINHOS PARA UM BRASIL QUE AJUDE AO PLANETA EVITAR O AQUECIMENTO E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS.

COMO DESCARBONIZAR A ENERGIA NO MUNDO TODOUm grupo parrudo de pesquisadores escreveu um tolete de 202 páginas com o mapa do caminho para um mundo no qual toda a energia seja renovável, o que eles chamam de cenário WWS (wind, water and sunlight). O trabalho mostra que quanto antes se começar a transição, menor será o custo social, econômico e ambiental. Os diferentes cenários não contam com nenhuma tecnologia que não esteja atualmente disponível, mas variam a velocidade da transformação. 

O trabalho mapeia as transições em 169 países agrupados em 16 regiões, onde os BRICs, EUA, Canadá, Japão e Coréia do Sul são regiões em si. Como eles assumem que o transporte muda dos combustíveis fósseis para a eletricidade e o hidrogênio, todas as contas são feitas em função da capacidade de geração elétrica. No mundo WWS, a matriz brasileira seria bem menos hídrica (13%) e muito mais eólica (32%) e solar (54%), e sobra até um pouco para as marés e ondas (0,9%). Certamente uma matriz bem diferente da atual.

Reinaldo Lopes escreveu sobre o trabalho na Folha, incluindo comentários do pesquisador Roberto Schaeffer, da COPPE-UFRJ, e do especialista Ricardo Baitelo, do Greenpeace.



PARA QUEM QUER ORAR E GRITAR COM OS EXCLUÍDOS

O grito que se faz oração

Marcelo Barros

Em carta enviada a todos os bispos do Brasil, a presidência da CNBB convida os bispos a mobilizarem as suas dioceses em um "dia de oração e jejum pelo Brasil". E dizem claramente: "o dia sugerido é o 7 de setembro próximo". A carta é assinada pelo presidente, vice-presidente e secretário-geral da CNBB e se conclui com um modelo de oração já publicada por ocasião da recente festa do Corpo e Sangue de Cristo.
Todas as pessoas que buscam viver a espiritualidade compreendem que os pastores de uma Igreja cristã estimulem o povo de Deus à oração e, sem dúvida, todos estão de acordo que o Brasil atual precisa de oração. No entanto, é bom esclarecer: Oração é um termo genérico. Rezar é orar, mas o termo oração engloba um sentido bem mais amplo. Na Bíblia, o termo mais próximo do que chamamos de "oração" é tefillah que significa mais profundamente "serviço do coração".
No primeiro testamento e na espiritualidade judaica, a oração mais consagrada, que as pessoas costumam fazer diariamente, é o Shema Israel. Trata-se de uma oração inspirada no Deuteronômio (Dt 6, 4). Começa por "Escuta, Israel", o que é mais um chamado ao povo e não tanto uma palavra dirigida a Deus. Na Bíblia, o povo de Deus fez uma coleção de suas orações e juntou em um só Livro dos Salmos (Salmo quer dizer Louvor). Dos 150 salmos, a maioria junta, em uma só conversa, 1. a pessoa que ora, 2. a comunidade crente e 3. o povo.
Muitos salmos alternam na mesma oração versos dirigidos a Deus e palavras à comunidade, assim como também denúncias e acusações aos opressores. Treze salmos não são diretamente para Deus. São gritos dos oprimidos contra seus opressores (Vejam, por exemplo, o salmo 2, o salmo 13, o 52, o 73 e assim por diante).
Essa é a espiritualidade que os profetas bíblicos ensinam: nunca separar a oração do grito dos oprimidos. Quando os sacerdotes reduzem tudo ao culto, Deus fala pela boca dos profetas: "Eu rejeito as liturgias e festas de vocês. Tenho horror à fumaça dos incensos" (Is 1, 10 ss). "Eu detesto as festas que vocês fazem. As celebrações não me agradam se o direito e a justiça não escorrerem como água e se tornarem uma corrente poderosa" (Am 5, 21. 24).
Na volta do exílio da Babilônia, um discípulo do profeta Isaías resume isso em uma oração que diz: "Por causa de Sião, não me calarei. Por causa de Jerusalém (do povo), não ficarei quieto, até que a justiça surja como a aurora e a salvação brilhe como uma lâmpada. (...). Sobre tuas muralhas, Jerusalém, coloquei guardiães. Sentinelas para vigiá-las. Dia e noite, eles não se calarão. Vocês que estão lembrando as promessas do Senhor (vocês que rezam), não descansem e não deixem Deus descansar até que ele restaure o seu povo"(Is 62, 1. 6- 7).
Na realidade brasileira, parece que esses profetas de Deus que não se calam até que a justiça seja restaurada são os movimentos e pastorais sociais que vão às ruas no Grito dos Excluídos. É isso que aprendemos no evangelho de Jesus. Ele disse: "Não é a pessoa que diz: Senhor, Senhor, que entra no reino dos céus, mas quem faz a vontade do Pai" (Mt 7, 21). Não podemos resumir aqui tantas palavras de Jesus contra o modo de orar e a espiritualidade religiosa dos escribas e fariseus que desligavam a oração da justiça (Mt 6, 5. 7-8; Mc 12, 38- 40).
Diversas vezes, os evangelhos nos mostram Jesus em oração e em silêncio, durante as noites, como em vigília preparatória para descer da montanha e se inserir na missão de testemunhar o reino de Deus como prática de saúde, de integração social e de libertação para os oprimidos. 
A nossa oração não pode ser a um Deus tapa-buraco, cuja função seria preencher os problemas que não podemos ou não sabemos resolver. Deus não anda esquecido do Brasil e nem precisa que o lembremos de suas obrigações. Certamente, somos nós que não estamos cumprindo bem as nossas responsabilidades, como pessoas de justiça e solidariedade. Não seria sincero manifestar atitudes ambíguas em relação aos poderosos de plantão e depois pedir a Deus que venha corrigir os erros e maldades que os mesmos poderosos executam.
Não podemos propor oração, jejum e silêncio no dia 07 de setembro, sem deixar claro que é para preparar o Grito dos Excluídos. Caso contrário, seria desmoralizar a oração, voltando a fazer como os antigos sacerdotes e escribas do templo um tipo de oração que Jesus criticou. Propor oração sem compromisso social claro e como inserção no meio dos pobres e dos seus gritos por justiça é usar o nome de Deus como a tal bancada que se diz evangélica está fazendo no Congresso. Nesse 07 de setembro, nossa oração deve tomar a forma do 23º Grito dos/as Excluídos/as que tem como tema “Vida em primeiro lugar!” e como lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”.




terça-feira, 22 de agosto de 2017

ACOLHER OS MIGRANTES, INSISTE O PAPA FRANCISCO

COMO SEI QUE TODAS AS PESSOAS AMIGAS QUE ACESSAM O BLOG ESTÃO CARREGADAS DE "BOA VONTADE", POR MOTIVOS CRISTÃOS OU OUTROS, A CARTA DO PAPA FRANCISCO ESTÁ ENDEREÇADA A TODOS NÓS. JUNTO COM O FAZER POLÍTICO E HUMANO NO ACOLHIMENTO E CUIDADO COM OS MIGRANTES, CERTAMENTE PRECISAMOS CONTINUAR FIRMES NA BUSCA E CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO EM CAIBAM TODAS AS PESSOAS, POVOS, CULTURAS, RELIGIÕES. UM MUNDO QUE SEJA PÓS-CAPITALISTA, PORQUE ESSE SISTEMA É PARA POUCOS E MATA OS QUE ELE MESMO DEIXA PARA TRÁS.  


Mensagem do Papa para o Dia do Migrante e do Refugiado: acolher, proteger, promover e integrar

 
O Vaticano divulgou nesta segunda (21) a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, a ser celebrado em 14 de janeiro de 2018. São quatro dimensões temáticas da celebração: os verbos acolher, proteger, promover e integrar. Grupos conservadores imediatamente levantaram-se contra a mensagem papal. O texto, belo e assertivo, busca apresentar de maneira resumida as posturas que se esperam dos governos e dos povos no acolhimento aos que chegam expulsos de seus países de origem, num triste “sinal dos tempos” do novo século. Francisco deseja que os países atuem com generosidade e priorizem a segurança pessoal dos refugiados à nacional -no final, a íntegra da mensagem.
Acolher – segundo o Papa, esta dimensão significa “oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino” com medidas concretas como a concessão rápida de vistos humanitários que garantam “a reunificação familiar” ou a abertura de corredores humanitários “para os refugiados mais vulneráveis”.
Proteger – Francisco enumerou uma série de ações de proteção que devem ser estimuladas: assistência consular adequada, “direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal”, acesso equitativo à justiça, “a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima”. Na dimensão da proteção, o Papa ressaltou o direito dos refugiados ao trabalho, ao “acesso aos meios de telecomunicação”, a liberdade de movimento no país de destino e uma série de ações em defesa das crianças.
Promover – para o Papa, é preciso garantir aos migrantes e refugiados a liberdade religiosa e a liberdade de exercício profissional, com a facilitação das certificações obtidas nos países de origem. Um tema-chave para Francisco na esfera da promoção é a promoção da “reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos”. Atenção e apoio mais dedicados devem ser reservados aos refugiados e migrantes portadores de deficiência.
Integrar – nesta dimensão, uma das formulações mais avançadas do Papa, para quem a integração dos refugiados e migrantes às sociedades que os acolhem não pode ser confundida com assimilação. “Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural”, escreveu.
Poucas horas depois da divulgação do texto, as vozes conservadora já começaram a acusar o Papa. Um dos arautos do conservadorismo, o vaticanista italiano Marco Tosatti, logo acusou Francisco de ser contra a “a Europa e o Ocidente” –se quiser leia a íntegra do artigo no blog Stilum Curiae. A lógica do texto é a que impera na lógica conservadora, levada ao limite com Trump: os migrantes e refugiados são inimigos disfarçados de “coitadinhos”. Tosatti, num texto carregado de acusações e ironias, afirmou que o Papa indica “soluções ótimas e desejáveis ​​em um mundo idílico e utópico”. O Ocidente está em guerra, é o subtexto do artigo de Tosatti. Por isso, falar em integração e acolhimento é equivalente a traição. Para o colunista, o escândalo com a mensagem do Papa é ainda maior pelo fato de ela ser divulgada logo depois dos atentados de Barcelona e Turku (Finlândia). Para os conservadores, é tempo de Guerra Santa, e este Francisco, como o primeiro, insiste em falar de paz –eles odeiam o Francisco atual como odiaram o primeiro, e depois tentaram assimilá-lo e domesticá-lo.
[Mauro Lopes]
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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2018

 [14 de janeiro de 2018]
“Acolher, proteger, promover e integrar
os migrantes e os refugiados”
Queridos irmãos e irmãs!
«O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque foste estrangeiro na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Lv 19, 34).
Repetidas vezes, durante estes meus primeiros anos de pontificado, expressei especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza. Trata-se, sem dúvida, dum «sinal dos tempos» que, desde a minha visita a Lampedusa em 8 de julho de 2013, tenho procurado ler sob a luz do Espírito Santo. Quando instituí o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, quis que houvesse nele uma Secção especial (colocada temporariamente sob a minha guia direta) que expressasse a solicitude da Igreja para com os migrantes, os desalojados, os refugiados e as vítimas de tráfico humano.
Cada forasteiro que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época (cf. Mt 25, 35.43). O Senhor confia ao amor materno da Igreja cada ser humano forçado a deixar a sua pátria à procura dum futuro melhor.[1] Esta solicitude deve expressar-se, de maneira concreta, nas várias etapas da experiência migratória: desde a partida e a travessia até à chegada e ao regresso. Trata-se de uma grande responsabilidade que a Igreja deseja partilhar com todos os crentes e os homens e mulheres de boa vontade, que são chamados a dar resposta aos numerosos desafios colocados pelas migrações contemporâneas com generosidade, prontidão, sabedoria e clarividência, cada qual segundo as suas possibilidades.
A este respeito, desejo reafirmar que «a nossa resposta comum poderia articular-se à volta de quatro verbos fundados sobre os princípios da doutrina da Igreja: acolher, proteger, promover e integrar».[2]
Considerando o cenário atual, acolher significa, antes de tudo, oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino. Neste sentido, é desejável um empenho concreto para se incrementar e simplificar a concessão de vistos humanitários e para a reunificação familiar. Ao mesmo tempo, espero que um número maior de países adote programas de patrocínio privado e comunitário e abra corredores humanitários para os refugiados mais vulneráveis. Além disso, seria conveniente prever vistos temporários especiais para as pessoas que, escapando dos conflitos, se refugiam nos países vizinhos. As expulsões coletivas e arbitrárias de migrantes e refugiados não constituem uma solução idônea, sobretudo quando são feitas para países que não podem garantir o respeito da dignidade e dos direitos fundamentais.[3] Volto a sublinhar a importância de oferecer a migrantes e refugiados um primeiro alojamento adequado e decente. «Os programas de acolhimento difundido, já iniciados em várias partes, parecem facilitar o encontro pessoal, permitir uma melhor qualidade dos serviços e oferecer maiores garantias de bom êxito».[4] O princípio da centralidade da pessoa humana, sustentado com firmeza pelo meu amado predecessor Bento XVI,[5]obriga-nos a antepor sempre a segurança pessoal à nacional. Em consequência, é necessário formar adequadamente o pessoal responsável pelos controlos de fronteira. A condição de migrantes, requerentes de asilo e refugiados exige que lhes sejam garantidos a segurança pessoal e o acesso aos serviços básicos. Em nome da dignidade fundamental de cada pessoa, esforcemo-nos por preferir outras alternativas à detenção para quantos entrem no território nacional sem estar autorizados.[6]
O segundo verbo, proteger, conjuga-se numa ampla série de ações em defesa dos direitos e da dignidade dos migrantes e refugiados, independentemente da sua situação migratória.[7] Esta proteção começa na própria pátria, consistindo na oferta de informações certas e verificadas antes da partida e na sua salvaguarda das práticas de recrutamento ilegal.[8] Tal proteção deveria continuar, na medida do possível, na terra de imigração, assegurando aos migrantes uma assistência consular adequada, o direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal, um acesso equitativo à justiça, a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima. Se as capacidades e competências dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados forem devidamente reconhecidas e valorizadas, constituem verdadeiramente uma mais-valia para as comunidades que os recebem.[9] Por isso, espero que, no respeito da sua dignidade, lhes seja concedida a liberdade de movimento no país de acolhimento, a possibilidade de trabalhar e o acesso aos meios de telecomunicação. Para as pessoas que decidam regressar ao seu país, sublinho a conveniência de desenvolver programas de reintegração laboral e social. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança oferece uma base jurídica universal para a proteção dos menores migrantes. É necessário evitar-lhes qualquer forma de detenção por motivo da sua situação migratória, ao mesmo tempo em que lhes deve ser assegurado o acesso regular à instrução primária e secundária. Da mesma forma, é preciso garantir-lhes a permanência regular ao chegarem à maioridade e a possibilidade de continuarem os seus estudos. Para os menores não acompanhados ou separados da sua família, é importante prever programas de custódia temporária ou acolhimento.[10] No respeito pelo direito universal a uma nacionalidade, esta deve ser reconhecida e devidamente certificada a todos os meninos e meninas no momento do seu nascimento. A situação de apátrida, em que às vezes acabam por se encontrar migrantes e refugiados, pode ser facilmente evitada através duma «legislação sobre a cidadania que esteja em conformidade com os princípios fundamentais do direito internacional».[11] A situação migratória não deveria limitar o acesso aos sistemas de assistência sanitária nacional e de previdência social, nem à transferência das respetivas contribuições em caso de repatriamento.
Promover significa, essencialmente, empenhar-se por que todos os migrantes e refugiados, bem como as comunidades que os acolhem, tenham condições para se realizar como pessoas em todas as dimensões que compõem a humanidade querida pelo Criador.[12] Dentre tais dimensões, seja reconhecido o justo valor à dimensão religiosa, garantindo a todos os estrangeiros presentes no território a liberdade de profissão e prática da religião. Muitos migrantes e refugiados possuem competências que devem ser devidamente certificadas e avaliadas. Visto «o trabalho humano, pela sua natureza, estar destinado a unir os povos»,[13] encorajo a que se faça tudo o possível para se promover a integração sócio-laboral dos migrantes e refugiados, garantindo a todos – incluindo os requerentes de asilo – a possibilidade de trabalhar, percursos de formação linguística e de cidadania ativa e uma informação adequada nas suas línguas originais. No caso de menores migrantes, o seu envolvimento em atividades laborais precisa ser regulamentado de modo a que se evitem abusos e ameaças ao seu crescimento normal. Em 2006, Bento XVI sublinhava como a família, no contexto migratório, é «lugar e recurso da cultura da vida e fator de integração de valores».[14] A sua integridade deve ser sempre promovida, favorecendo a reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos. No caso de migrantes, requerentes de asilo e refugiados portadores de deficiência, deve ser assegurada maior atenção e apoio. Embora considerando dignos de louvor os esforços feitos até agora por muitos países em termos de cooperação internacional e assistência humanitária, espero que, na distribuição das respetivas ajudas, se considerem as necessidades (como, por exemplo, de assistência médica e social e de educação) dos países em vias de desenvolvimento que acolhem fluxos enormes de refugiados e migrantes e de igual modo se incluam, entre os beneficiários, as comunidades locais em situação de privação material e vulnerabilidade.[15]
O último verbo, integrar, situa-se no plano das oportunidades de enriquecimento intercultural geradas pela presença de migrantes e refugiados. A integração não é «uma assimilação, que leva a suprimir ou a esquecer a própria identidade cultural. O contato com o outro leva sobretudo a descobrir o seu “segredo”, a abrir-se para ele, a fim de acolher os seus aspetos válidos e contribuir assim para um maior conhecimento de cada um. Trata-se de um processo prolongado que tem em vista formar sociedades e culturas, tornando-as cada vez mais um reflexo das dádivas multiformes de Deus aos homens».[16] Este processo pode ser acelerado pela oferta de cidadania, independentemente de requisitos econômicos e linguísticos, e por percursos de regularização extraordinária para migrantes que possuam uma longa permanência no país. Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural, documentando e difundindo as «boas práticas» de integração e desenvolvendo programas tendentes a preparar as comunidades locais para os processos de integração. Tenho a peito sublinhar o caso especial dos estrangeiros forçados a deixar o país de imigração por causa de crises humanitárias. Estas pessoas necessitam que lhes seja assegurada uma assistência adequada para o repatriamento e programas de reintegração laboral na sua pátria.
De acordo com a sua tradição pastoral, a Igreja está disponível para se comprometer, em primeira pessoa, na realização de todas as iniciativas propostas acima, mas, para se obter os resultados esperados, é indispensável a contribuição da comunidade política e da sociedade civil, cada qual segundo as próprias responsabilidades.
Durante a Cimeira das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque em 19 de setembro de 2016, os líderes mundiais expressaram claramente a vontade de se empenhar a favor dos migrantes e refugiados para salvar as suas vidas e proteger os seus direitos, compartilhando tal responsabilidade a nível global. Com este objetivo, os Estados comprometeram-se a redigir e aprovar até ao final de 2018 dois acordos globais (Global Compacts), um dedicado aos refugiados e outro referente aos migrantes.
Queridos irmãos e irmãs, à luz destes processos já iniciados, os próximos meses constituem uma oportunidade privilegiada para apresentar e apoiar as ações concretas nas quais quis conjugar os quatro verbos. Por isso, convido-vos a aproveitar as várias ocasiões possíveis para partilhar esta mensagem com todos os atores políticos e sociais envolvidos – ou interessados em participar – no processo que levará à aprovação dos dois acordos globais.
Neste dia 15 de agosto, celebramos a solenidade da Assunção de Maria Santíssima ao Céu. A Mãe de Deus experimentou pessoalmente a dureza do exílio (cf. Mt 2, 13-15), acompanhou amorosamente o caminho do Filho até ao Calvário e agora partilha eternamente da sua glória. À sua materna intercessão confiamos as esperanças de todos os migrantes e refugiados do mundo e as aspirações das comunidades que os acolhem, para que todos, no cumprimento do supremo mandamento divino, aprendamos a amar o outro, o estrangeiro, como a nós mesmos.
Vaticano, 15 de agosto de 2017
Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria
FRANCISCO
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[1] Cf. Pio XII, Constituição apostólica Exsul Familia, Titulus Primus, I.
[3] Cf. Intervenção do Representante Permanente da Santa Sé na CIII Sessão do Conselho da OIM (26 de novembro de 2013).
[5] Cf. Carta encíclica Caritas in veritate, 47.
[6] Cf. Intervenção do Observador Permanente da Santa Sé na XX Sessão do Conselho dos Direitos Humanos (22 de junho de 2012).
[7] Cf. Bento XVI, Carta encíclica Caritas in veritate, 62.
[12] Cf. Paulo VI, Carta encíclica Populorum progressio, 14.
[13] João Paulo II, Carta encíclica Centesimus annus, 27.
http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/08/21/mensagem-do-papa-para-o-dia-do-migrante-e-do-refugiado-acolher-proteger-promover-e-integrar/#more-1989