É NA NOVA ZELÂNDIA ESSA NOVIDADE INOVADORA, MAS VALE PERGUNTAR: ISSO NÃO SERIA POSSÍVEL NO BRASIL?
É CLARO QUE SIM. BASTA MEXER NAS ESTRUTURAS NEOESCRAVAGISTAS E NEOCOLONIAIS QUE APROFUNDAM A CONCENTRAÇÃO DA RIQUEZA E DA RENDA, E HAVERIA MAIS DO QUE CONDIÇÕES DE DAR PASSOS JÁ ANUNCIADOS PELO GOVERNO DA NOVA ZELÂNDIA...
QUANDO E COMO, É E SERÁ NOSSO DESAFIO.
Depois da pandemia, a semana de quatro dias
Cresce o debate sobre saídas
anticapitalistas para a crise. Depois de derrotar a covid-19,
primeira-ministra da Nova Zelândia vai adiante. Propõe, para reestimular
a economia sem ampliar a desigualdade, menos trabalho, com os mesmos
salários
OutrasPalavras, 04/06/2020
Por
Van Badham | Tradução de
Simone Paz | Imagem:
Sara Wong
Agora, a popularidade de Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, pelo Partido Trabalhista, é
estratosférica.
Com a confiança que a popularidade lhe trouxe, seu governo passou a se
posicionar mais nitidamente, promovendo ideias políticas que pareciam
inimagináveis apenas alguns meses atrás. Uma delas, discutida no mês
passado, encoraja o país a adotar uma semana de trabalho de quatro dias
úteis
A liderança de Ardern na Nova Zelândia, na crise do coronavírus,
fortaleceu o apoio consolidado graças ao manejo empático e impecável de
seu governo, durante o terrível
massacre da Mesquita de Christchurch, [realizado por um supremacista branco], no ano passado. Quando o coronavírus atacou, o
lockdown foi
implementado rapidamente, de forma draconiana e eficaz. Até o momento,
houve apenas 22 mortes pela doença no país. Hoje, enquanto o resto do
mundo depara-se um
número crescente de casos diários, nenhum novo caso foi registrado na Nova Zelândia há cerca de um mês [veja
estatísticas completas].
Um impressionante número de 92% dos neozelandeses elogia a política
de contenção da doença adotadas pelo governo. Segundo as últimas
enquetes, Ardern é a líder de governo mais popular, em mais de 100 anos
Com a iminente oportunidade de reestruturar a economia da Nova
Zelândia na reabertura pós-coronavírus, Ardern está explorando um
conjunto de políticas de ambição inusitada.
O turismo,
que foi o maior atingido com a crise, é o principal mercado de
exportação da Nova Zelândia, empregando 15% dos neozelandeses e
contribuindo para quase 6% do PIB; e foi no contexto de salvar esse
setor que Ardern sugeriu, em 13/5 — de maneira informal, numa
live no Facebook, desde a turística cidade de Rotorua — que
caso o país adote uma semana de trabalho de quatro dias, esse tempo extra de lazer permitiria que o mercado turístico nacional se expandisse, suprindo a retração atual.
A formulação foi cuidadosa. “Eu já ouvi muitas pessoas que sugerem
que deveríamos ter uma semana de trabalho de quatro dias. Mas, em última
análise, isso fica entre os empregadores e seus funcionários”, disse
Ardern.
Mesmo assim, a simples sugestão já
“empolga os neo-zelandeses”,
além de ter potencial de entusiasmar a “geração corona” [os jovens que
chegam à vida adulta junto com a pandeima], ao redor do mundo. Quando
Ardern explicou que “aprendemos muito sobre… [a flexibilidade] das
pessoas que trabalham de casa, da produtividade que pode surgir disso”,
ela estava falando de uma realidade material, vivenciada, sobre a maior
transformação física dos locais de trabalho na memória ocidental
No mundo todo, o distanciamento social não só resultou em números
recordes de pessoas trabalhando desde casa. Ele escalonou e rearranjou
turnos, reorganizando a distribuição da força de trabalho em torno de
sistemas de produção, distribuição e troca novos, e continuamente
improvisados, como ocorre devido à demanda em uma crise econômica e de
saúde. Economistas a consideram
a maior transformação da força de trabalho desde a Segunda Guerra Mundial
e, apesar do horror constante que significa administrar um vírus
invisível e letal, que ressalta todos esses rearranjos, para alguns
trabalhadores houve benefícios surpreendentes
Na intimidade das conversas de grupo, nas mídias sociais,
transparecem mais as confissões explícitas de muitos neozelandeses — com
um pouco de culpa — sobre o quanto, no fundo, estão gostando de seus
novos cronogramas e desse tempo obrigatório em casa. Quem é pai deve
estar achando um grande desafio os malabarismos que exigem conjugar a
educação em casa com seus compromissos laborais, mas muitos também
apreciam esse maior tempo com seus filhos
Uma cultura laboral que ainda gira, em tantos casos, em torno do
modelo do “chefe de família”
distancia os homens de responsabilidades domésticas. Agora, muitos
deles, ao conquistar proximidade, adquirem o sentido de um maior
envolvimento diário com seus filhos
As mulheres neozelandesas veem oportunidades reais de que empregos
pós-Covid-19 se realizem gerando flexibilidade real para cumprir os
compromissos de assistência e cuidados. Os que parecem estar se dando
melhor psicologicamente,
nestes tempos difíceis e extremos, são aqueles cujos dias agora incluem
fazer coisas pela comunidade, ou realizar mais atos de cuidado. Em
minha experiência pessoal, meu parceiro e eu estamos mais felizes
conosco e em nosso relacionamento, ao não ter mais o stress dos
deslocamentos e ao poder passar mais tempo juntos em casa
Uma semana universal de quatro dias em si não é uma panaceia para os
relacionamentos, ou para a frustração com os locais de trabalho — ou
mesmo para resgatar a economia. Mas Ardern sugere que ela seja
considerada, em meio a uma série de mudanças no mundo do trabalho que os
empregadores precisam aceitar. Se houver flexibilidade, alguns
trabalhadores poderão optar, na lógica da proposta, por mais jornadas
semanais, porém com menos horas diárias. Outros, ainda, estariam melhor
trabalhando em tempo integral em casa; e alguns seriam mais produtivos
com uma combinação de distintas condições.
Mas o que garantirá a revitalização das economias, um aumento na
produtividade e um equilíbrio efetivo na vida profissional dos
trabalhadores são os cenários gêmeos que a semana de quatro dias
inerentemente propõe.
O primeiro é ajustar as escalas salariais para fornecer o equivalente
a um salário digno com base em quatro dias de trabalho em tempo
integral. Isso permitiria amenizar os efeitos de uma economia
desacelerada e injetar mais dinheiro em mercados de consumo abalados. O
segundo, é um novo paradigma sobre o local de trabalho sugerido pelo
cardápio de ideias de Ardern. Este menu acaba com quatro décadas de
pregação neoliberal em favor de um tipo de “
flexibilidade” que favoreceu apenas os empresários. O modelo é substituído por outro, que implica
flexibilidade democrática, em
favor dos trabalhadores, famílias e comunidadesverdadeiramente
social-democrática que sirva, por meio dos trabalhadores, às famílias e
comunidades
Em meio a uma claque de líderes ocidentais que anseiam por “voltar à
normalidade” das coisas antes do vírus — muitos em em busca de
estratégias de “recuperação” que eliminem ainda mais direitos — a Nova
Zelândia mostra, bravamente, coragem de avançar. Não é de se admirar que
sua governante tenha se tornado tão popular.
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