terça-feira, 19 de março de 2019

COSTA RICA DECRETA MORATÓRIA PETROLEIRA ATÉ 2050

E O BRASIL, QUANDO DARÁ UM PASSO NESTA DIREÇÃO?


Presidente Alvarado extiende moratoria petrolera hasta el año 2050

25 febrero, 2019

  • Medida se da un día después de la presentación oficial del Plan Nacional de Descarbonización.

  • Moratoria nacional, que regirá hasta el 31 de diciembre de 2050, prohíbe para la exploración y explotación de los depósitos de petróleo en el territorio nacional continental y marino.

  • Da continuidad al decreto emitido en la gestión de Abel Pacheco en 2002 y que fue prorrogado por las administraciones Chinchilla Miranda y Solís Rivera.



Un día después de dar a conocer oficialmente el Plan Nacional de Descarbonización, el Presidente de la República, Carlos Alvarado Quesada, y el Ministro de Ambiente y Energía, Carlos Manuel Rodríguez Echandi, firmaron el decreto ejecutivo Nº 41578 con el cual se extiende la moratoria a la explotación petrolera hasta el año 2050.

El decreto firmado este lunes en Casa Presidencial  dice textualmente:
Artículo 1. Refórmese el artículo 1° del Decreto 36693-MINAET del 01 de agosto de 2011:
Se declara una moratoria nacional hasta el 31 de diciembre de 2050 para la actividad que tenga el propósito de desarrollar la exploración y explotación de los depósitos de petróleo en el territorio nacional continental y marino“.

Durante la actividad, el Presidente Alvarado indicó que el “compromiso con las generaciones actuales y venideras pasa por mantener a nuestro país libre de actividades que puedan atentar contra nuestro equilibrio ecológico. De esta forma, con este decreto, no solo mantenemos sino que extendemos la protección que inició en el gobierno de don Abel Pacheco”.

Pacheco (2002-2006) decretó la primera moratoria al comenzar su administración cuando ocupaba la cartera de Ambiente y Energía el actual ministro Rodríguez Echandi. Posteriormente, el gobierno de Laura Chinchilla prorrogó la medida en 2011 y el de Luis Guillermo Solís la amplió del 25 de julio de 2014 al 15 de setiembre de 2021.

Al suscribir el nuevo acuerdo, el ministro Rodríguez resaltó el mensaje que se envía con esta medida, que va en línea con el compromiso de la Administración Alvarado Quesada de descarbonizar la economía.

“El país se ha propuesto sentar las bases de una nueva economía verde, promoviendo el uso y aprovechamiento sostenible de los recursos naturales en aras de cumplir con los compromisos adquiridos en la Agenda 2030 de Desarrollo y esta medida responde a eso”, señaló Rodríguez.
El presidente Alvarado explicó  que, con el fin de ser “congruentes con las metas que se han establecido desde el Gobierno, se hacía necesario extender la fecha establecida para la moratoria nacional para la actividad petrolera”.

“En el Plan Nacional de descarbonización 2018-2050, Costa Rica ha declarado su aspiración en ser una economía moderna, verde, libre de emisiones, resiliente e inclusiva, que requiere un balance entre la visión de largo plazo y acciones inmediatas para transitar hacia una economía que promueva el uso y aprovechamiento sostenible de los recursos naturales”, destaca el decreto.

https://presidencia.go.cr/comunicados/2019/02/presidente-alvarado-extiende-moratoria-petrolera-hasta-el-ano-2050/

segunda-feira, 18 de março de 2019

CARTA AO PAPA FRANCISCO: CONVOQUE UM CONFERÊNCIA DE BATIZADOS E BATIZADAS!

TEXTO CONVOCATÓRIO: QUE MAIS PESSOAS PEÇAM AO PAPA QUE CONVOQUE CONFERÊNCIAS DE BATIZADOS E BATIZADAS EM TODO MUNDO, POIS SÓ ELES PODEM MUDAR REALMENTE A IGREJA NO RUMO QUE DEUS DESEJA. O CLERICALISMO IMPEDE QUE OS QUE SE APROPRIARAM E USAM COMO PODER O SACERDÓCIO - QUE É UM BEM COMUM DA CADA UM/A E DE TODOS OS BATIZADOS/AS - CONSIGAM DAR OS PASSOS ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIOS.

IHU, 18 de março de 2019

Um padre se dirige ao papa, seu irmão no sacerdócio. E pede que o pontífice convoque conferências de batizados e batizadas em todo o mundo. Para que a barca da Igreja não afunde...

Publicamos aqui a carta aberta do padre francês Jean Casanave, da Diocese de Bayonne, França. O artigo foi publicado em Baptises.fr, 13-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Francisco,

Quem sou eu para me dirigir a ti (permito-me essa informalidade, porque é assim que me dirijo a Cristo na minha oração)? Eu sou um pecador como os outros. Mas, se ouso fazer isso, é porque fui ordenado padre apenas dois anos antes de ti e porque, consequentemente, tu és meu irmão no sacerdócio. Um irmão que desperta minha admiração, porque aceitaste conduzir a Igreja em um momento em que uma onda de escândalos faz pesar sobre todo o clero um manto de suspeita.
Francisco, olha para a França, filha mais velha da Igreja, como se dizia antigamente. Ela está doente. A Europa também. O sistema democrático tornou-se tão complexo e a sociedade está tão regulamentada que o cidadão se vê forçado a delegar cada vez mais todos os seus poderes a representantes encarregados de os exercer dentro do quadro do bem comum. Hoje em dia, ele se sente esquecido e vítima de um sistema que lhe escapa. Ele quer ser ouvido. Deseja retomar o poder que lhe compete, e faz com que se saiba disso. A reação é saudável, mesmo que pareça questionável em muitos pontos.

Olha para a Igreja! Tu sabes melhor do que eu, ela está doente. Nossa velha mãe, que atravessou tantos séculos, conservou, em sua frequentação da história dos homens, modos ultrapassados, títulos ridículos, ornamentos obsoletos, uma linguagem obscura. Poderíamos sorrir disso, como fazemos com as fotos amareladas de um velho álbum de família que folheamos. Ela percorreu tantos caminhos enlameados que sua pele está suja de terra. Mas essa sujeira não é insalubre. É a companheira inevitável da sua encarnação entre os seres humanos. É aquele barro que o Criador do livro de Gênesis amassou para fazer um ser à sua semelhança, embora terreno. Essa sujeira é desculpável; é o sinal de uma proximidade com os seres humanos que às vezes queimaram suas asas.

A Igreja está doente de um mal bem mais grave. Depois que o sopro do Espírito entrou na câmara alta de Pentecostes, os homens da Igreja – eu estava prestes a dizer “de aparato” – se esforçaram para canalizar esse vento divino em um labirinto, a ponto de ficar extenuado e às vezes pervertido. Deram-lhe um vocabulário específico, um código de boa conduta, um espaço sagrado do que pretendem deter a chave, definir as fronteiras e organizar a visita. E, como a invasão do sagrado é inversamente proporcional à perda da fé no Deus vivo, aqueles que se consideram seus proprietários e seus grandes sacerdotes viram seu prestígio crescer ainda mais.

Francisco, tu diagnosticaste esse mal. Tu o chamaste de “clericalismo”. Além disso, ele não é reservado ao clero e pode ser encontrado em muitas outras instituições humanas. Este abuso de poder é incomensurável com a sujeira contraída na passagem imprudente pelos desvios e atalhos. É uma torrente de imundície que se espalha sobre aqueles ministérios pervertidos. E isso é ainda mais intolerável porque toca pessoas vulneráveis.

Então, Francisco, tu que tens confiança no “Povo santo fiel de Deus”, pergunta-lhe se, por acaso, gostaria de se identificar mais com a comunidade dos Atos dos Apóstolos que compartilhava “com um só coração” o ensino, a palavra e o pão; pergunta-lhe se, por acaso, baseando-se nos conselhos de São Paulo, não desejaria repensar os ministérios da Igreja para confiá-los a homens e mulheres que se provaram à altura da condução da sua família e da sua profissão; pergunta-lhe se não preferiria se livrar um pouco de todos aqueles acessórios herdados dos séculos passados. É claro, eles tiveram a sua utilidade, mas se tornaram sufocantes e pesados. Além disso, muitas vezes impediram que o povo santo assumisse o seu papel, mantendo-o em um estado de infância protegida e prolongada.

Tu sabes, assim como eu, que o Mestre reprovava certas pessoas por imporem fardos que elas mesmas eram incapazes de carregar. Então, por favor, depois de ouvir os bispos, escuta os batizados e batizadas, aqueles que formam a “classe média da santidade”. Tu disseste que o Batismo era “a nossa primeira e fundamental consagração”, porque “ninguém foi batizado padre ou bispo”. Então, convoca uma conferência dos batizados e batizadas para cada continente. Dá-lhes a palavra sem intermediários, sem o filtro das “autoridades qualificadas”. Esse povo ainda fiel te dirá aquilo que é essencial preservar para que a barca não naufrague na ignomínia. Ele te dirá aquilo que deve ser jogado ao mar para aliviá-la, para que não seja engolida pelo seu próprio fardo.

Francisco, ajuda-nos a içar a vela, segura o leme, e que um novo vento nos leve para águas mais profundas...

Jean Casanave

http://www.ihu.unisinos.br/587517-carta-aberta-a-francisco-por-uma-conferencia-de-batizados-e-batizadas 

segunda-feira, 11 de março de 2019

COM VIDA AMEAÇADA, MÁRCIA TIBURI SE SENTE FORÇADA A DEIXAR O BRASIL

ESTAMOS NUM PAÍS EM QUE O DIREITO À VIDA É DEFINIDO PELAS MILÍCIAS ARMADAS? PARECE QUE SIM.

SENHORES JUÍZES DO STF, QUANDO TOMARÃO ALGUMA MEDIDA EM DEFESA DA VIDA, GARANTINDO QUE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL É ALGO SÉRIO E QUE AINDA VALE COMO GARANTIA DE DIREITOS? 

NOSSA SOLIDARIEDADE A MÁRCIA TIBURI, DESEJANDO QUE POSSA RETORNAR COM SEGURANÇA O MAIS BREVE POSSÍVEL.

Nina Lemos
11/03/2019 13h32



Marcia Tiburi não mora mais no Brasil. Desde dezembro do ano passado, a escritora, filósofa e ativista, que foi candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT, achou que o Brasil não era mais seguro para ela e para continuar fazendo seu trabalho de escritora e ativista.

"Eu não podia ir a uma padaria, recebia ameaças de morte, não dava para viver assim", diz a escritora, em entrevista exclusiva para o blog de Pittsburgh, onde faz uma residência literária. Na semana seguinte, mudaria com o marido para Paris.

Ela não pensa, por enquanto, em voltar a morar no Brasil. A escolha não foi uma simples vontade de morar fora. Marcia conta, com lágrimas nos olhos, que teve que sair por não se sentir segura, sofrer ameaças de morte e não poder mais ir na esquina.

"Eu amo o meu país, nunca pensei em sair do Brasil na minha vida, é muito triste e difícil ter que sair do meu país por não me sentir segura e não poder fazer mais o meu trabalho."

A escritora está lançando o livro "Delírio de Poder", que conta os bastidores de sua campanha para governadora pelo PT e ao mesmo tempo faz uma análise da conjuntura brasileira e das coisas que ela passou durante a campanha, como ser alvo de Fake News. "São crônicas e também reflexões, e, claro, uma chance de ver toda essa loucura que vivi sobre o ponto de vista teórico, da filosofia", conta. Leia abaixo trechos da entrevista.

No seu novo livro você narra sua campanha como Governadora do Rio de Janeiro. É um livro de bastidores ou de filosofia?

A minha vida é assim, escrevo a partir das experiências da minha vida que também se transformam em experiências de pesquisas. Para mim, ser filósofa é isso. Por isso, quando participei dessa campanha, fiquei muito atenta a tudo que acontecia. Estava muito curiosa, porque era tudo muito novo. Tive a chance de fazer uma avaliação teórica sobre o que significa uma mulher, estranha, que não era da política, nesse papel. Fiz uma reflexão grande sobre o papel da intrusa, que é como os homens interpretam. Inclusive, interpretam assim porque são muito raras as mulheres que estão na política. O livro chama "Delírio do Poder" porque vivemos uma campanha completamente louca. Eu queria contar o que era estar mergulhada nesse território de loucura.

Que tipo de loucura?

Eu fui alvo de muitas fake news. Tinha fake news da direita, da esquerda. São muitas, mas uma das mais malucas é a de que eu estaria fazendo campanha para o Bolsonaro. Gente, olha o grau de delírio de quem inventou uma coisa dessas. Eu estava fazendo campanha para o Lula, para o Haddad, para o PT, mas na verdade estaria fazendo campanha para o Bolsonaro. Tem que ser muito louco! E tem outra, não é só a fake news, é também a desinformação. Por exemplo, pegavam um vídeo de uma palestra que eu dei, de um tema complexo, e recortavam, deixando a fala completamente fora de contexto.

Como foi o processo que fez com que você decidisse sair do Brasil?

Olha, a minha vida virou um inferno desde o episódio da radio Guaíba (Na ocasião, Marcia se recusou a participar de uma entrevista com Kim Kataguari, o vídeo da entrevista viralizou). Você não tem ideia da quantidade de ameaça de morte que eu recebi pela internet.

Mas ameaça de morte mesmo?

Claro, veja, eu amo meu país! Eu adoro o Brasil! Eu nunca pensei em sair de lá. Já tive chance de sair e nunca quis, porque adoro o Brasil. E é muito ruim a gente sair por causa disso (chora). Eu não podia ir mais na farmácia, no supermercado. Um dia eu caí na besteira de entrar no metrô em São Paulo. Fui atacada por um cara que gritava comigo: "eu tenho orgulho de ser fascista! Eu tenho orgulho de ser fascista". Foi muito assustador porque o sujeito caía no estereótipo mesmo de um fascista, fisicamente até. Mas o que eu acho um ponto importante é que meus eventos literários começaram a ser inviabilizados. Eu vivia indo a festivais, feiras de livros. Eu amava fazer isso. Desde aquela época, todos os meus eventos passaram a ter segurança. Teve coisas muito absurdas, brigas. Recebia uma mensagem: "quando você estiver lá, assinando o livro, eu vou estar lá e vou te matar." E na rua, durante a campanha, andei sempre de carro blindado.

As ameaças devem ter aumentado durante a campanha…

As pessoas do campo da segurança, policiais amigos, gente próxima, diziam "a gente vai te proteger, mas cuidado, não vá a certos lugares, se for em restaurantes, não senta na janela". E eu ficava com medo e não ia, claro. 

Quando você percebeu que era melhor sair do país?

Teve um momento em que o MBL fez uma página sobre um evento que eu ia fazer em Maringá, chamando pra uma manifestação. Queriam até proibir o evento. E foi muita gente lá para me apoiar em reação. Nesse dia estava todo mundo tão assustado que os organizadores providenciaram uma segurança armada, que revistou todas as mochilas e bolsas de todas as pessoas. Como que eu como escritora, vou viver em um lugar onde tem milíciais midiáticas, milícias armadas, milícias da maledicência me atacando, e também atacando o conforto e a segurança dos meus leitores? 

Como você materializou essa decisão?

Foi quando eu fui a Maringá e isso aconteceu. Achei que tinha se tornado inviável ser uma escritora no Brasil. Eu sou ameaçada, mas as pessoas também são. A vida da cultura se torna inviável porque as pessoas prometem assassinato. Isso é dado desde o Presidente da República e chega a todos. Isso autoriza as pessoas no imaginário. Tem uma fala da Meryl Streep interessante, num momento desses em que o Trump debocha de um jornalista que tem uma deficiência física, ela disse: "acho um absurdo o presidente fazer isso porque autoriza esse tipo de postura". O Bolsonaro e seus filhos fazem coisas parecidas. Eles autorizam todos a fazerem coisas horríveis.

Acha que tomou a decisão correta?

Quando recebi o convite para essa residência (Marcia passou três meses na universidade de Pittsburgh) eu realmente aceitei com gratidão. Vir para cá foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Por mim e pela minha militância também. Por que muita gente fora do Brasil não sabe o que está acontecendo e temos que falar. E vou começar. Dia 14, em Nova York, tenho um evento em nome da Marielle, depois vou para Paris, onde tenho um evento dia 26, sobre a proposta de uma rua chamada Marielle Franco, e queremos propor o mesmo em Nova York. Tem muita coisa para ser feita na militância internacional.

Como você acha que chegamos nesse ponto, de pessoas terem que deixar o país porque se sentem ameaçadas?

Nos meus livros falo sobre isso. Existe uma grande manipulação que não foi inventada em 2018. E não acho que isso tenha vindo com o WhatsApp, é de antes. Você vê, a perseguição ao pensamento critico, a matança dos jovens negros. Tudo isso culminou com a morte da Marielle Franco, que era tudo isso junto, ela era feminista, negra, lésbica, linda, generosa e também uma grande intellectual, a tese de mestrado dela é maravilhosa.

Por que você aceitou o convite para ser candidata a governadora?

Esse convite era inegável. Como voce vai negar um convite do Lula? O Lula, da cadeia, me mandou um prefácio para o meu livro. Que pessoa é essa? Eu não negaria isso ao Lula e muito menos ao PT, que é um partido que eu acredito que fez muito pelo Brasil. Mas ao mesmo tempo eu não preciso ser mártir.

Muitas pessoas te acusaram de não ser preparada para o cargo, por não ter experiência. Se via como governadora?

Claro que eu me via. Na hora que você assume uma candidatura dessa, isso é uma coisa seria. Eu sou uma pessoa responsável. Eu quando assumi, achei que poderia estar certo e que poderia dar certo, claro. Muita gente não acreditou, inclusive tive uma votação muito pequena.

Como você se preparou para o cargo?

Fiz uma espécie de pós graduação sobre o Rio de Janeiro, fui estudar. Sou aplicada. Eu sou obsessiva. Me dedico. Então estudei todos os problemas do Rio de Janeiro. Quando é para fazer, eu faço direito. Eu me preparei, claro. Se aceitei, tinha que levar a sério a possibilidade de que desse certo.

Quais são seus planos? Tem planos de voltar ao Brasil?

Estou morando em uma Universidade que abriga escritores em risco, tem mil atividades. Conhecendo a minha obra e a minha situação, me convidaram. Agora, vou para Paris porque meu marido que vai fazer um pós doutorado lá. Eu vou escrever e ele vai estudar. Me assumi cada vez mais como escritora, vivo disso. Tenho uma cidadania italiana, como metade do Rio Grande do Sul, mas gosto tanto do Brasil que eu nunca liguei para isso, nunca pensei que poderia usar. Agora, vai ser útil.
Voltar ao Brasil… eu não sei quando. Eu espero que o país se cure dessa doença. Não tenho planos de ir ao Brasil, não. Acho que não dá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/11/marcia-tiburi-conta-por-que-saiu-do-brasil-nao-era-mais-viavel/ 
Marcia Tiburi não mora mais no Brasil. Desde dezembro do ano passado, a escritora, filósofa e ativista, que foi candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT, achou que o Brasil não era mais seguro para ela e para continuar fazendo seu trabalho de escritora e ativista. "Eu não podia ir a uma padaria, recebia ameaças de morte, não dava para viver assim", diz a escritora, em entrevista exclusiva para o blog de Pittsburgh, onde faz uma residência literária. Na semana seguinte, mudaria com o marido para Paris. Veja também Estilista protesta em berlim contra Bolsonaro e como ignorar intolerância Nos dias atuais, famosos que saem do armário prestam um serviço público ... - Veja mais em https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/11/marcia-tiburi-conta-por-que-saiu-do-brasil-nao-era-mais-viavel/?cmpid=copiaecola

PRIVATIZAR É O IDEAL? VEJAM 884 CASOS DE REESTATIZAÇÃO

NÃO SE DÁ NOTÍCIAS DISSO. A DOMINAÇÃO SE MANTÉM ATRAVÉS DO REINO DA MENTIRA, DO MARKETING PAGO PELO CAPITAL FINANCEIRO, QUE VAI FAZENDO QUE MENTIRAS REPETIDAS COM CRIATIVIDADE VIREM VERDADES, GERANDO PROCESSOS DE ALIENAÇÃO CADA VEZ MAIS PROFUNDOS E QUASE UNIVERSAIS. 

PRECISAMOS CRIA NOVAS E MAIS EFICAZES OPORTUNIDADES DE CONHECER A REAL VERDADE, QUE RESPONSABILIZARÁ O CAPITAL PELAS AMEAÇAS À VIDA EXISTENTES NA TERRA? INCLUSIVE AS ENCHENTES DOS ÚLTIMOS DIAS EM SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO...

Privatizar é ideal? 884 serviços caros e ruins foram reestatizados no mundo

Juliana Elias
Do UOL, em São Paulo 07/03/2019

Desde 2000, ao menos 884 serviços foram reestatizados no mundo. A conta é do TNI (Transnational Institute), centro de estudos em democracia e sustentabilidade sediado na Holanda. As reestatizações  aconteceram com destaque em países centrais do capitalismo, como EUA e Alemanha.

Isso ocorreu porque as empresas privadas priorizavam o lucro e os serviços estavam caros e ruins, segundo o TNI. O TNI levantou dados entre 2000 e 2017. Foram registrados casos de serviços públicos essenciais que vão desde fornecimento de água e energia e coleta de lixo até programas habitacionais e funerárias.

"A nossa base de dados mostra que as reestatizações são uma tendência e estão crescendo", disse a geógrafa Lavinia Steinfort, coordenadora de projetos do TNI, em entrevista ao UOL. De acordo com ela, 83% dos casos mapeados aconteceram de 2009 em diante.

Término de contratos de concessão que não são renovados é a forma mais clássica de "desprivatização" que aparece entre os mais de 800 casos levantados.

Rompimento antecipado de contrato, como aconteceu com a PPP (Parceria Público-Privada) do metrô de Londres em 2010, e mesmo recompras milionárias de infraestruturas que haviam sido vendidas, como vêm fazendo diversas cidades alemãs com suas distribuidoras de energia, são outros tipos de reestatizações que também estão acontecendo.

O levantamento do TNI encontrou processos do gênero em 55 países em todo o globo. Alemanha, França, EUA, Canadá, Colômbia, Argentina, Turquia, Mauritânia, Uzbequistão e Índia são alguns deles.

Todos eles foram compilados no relatório "Reconquistando os serviços públicos", e uma parte também pode ser acompanhada pelo "Rastreador de remunicipalizações", mapa interativo do TNI com as reestatizações do setor de água (ambos em inglês).

Veja abaixo exemplos nos cinco países que lideram a lista e o número de reestatizações já registradas em cada um deles.

Alemanha - 348 reestatizações

O grosso dos processos na Alemanha aconteceu no setor de energia: dos 348 serviços que voltaram das mãos privadas para a estatal nas décadas de 2000 e 2010, 284 envolviam abastecimento de eletricidade, gás ou aquecimento. No geral, o governo havia vendido parte ou a totalidade das redes municipais para investidores privados entre a década de 1990 e início dos anos 2000, mas passou a comprá-las de volta de 2007 em diante.

Foi o caso de Hamburgo, onde a população decidiu em um referendo, em 2013, que queria a reestatização das redes locais de energia. A compra custou mais de 500 milhões de euros.

Em Berlim, por outro lado, o mesmo pleito foi a referendo também em 2013, mas perdeu: embora 80% dos votantes tenham optado pela recompra da distribuidora privatizada, menos de 25% dos eleitores foram às urnas, o que não completou o quórum mínimo exigido.

França - 152 reestatizações

A França foi uma espécie de estopim para os vários processos de reestatização que começaram a se espalhar pela Europa depois que Paris, em 2008, optou por não renovar a concessão dos serviços de água e esgoto da cidade.

Eles eram desde 1985 administrados por duas companhias privadas (a Suez e a Veolia) e passaram para a responsabilidade da Eau de Paris, companhia municipal criada para assumir o negócio e até hoje a responsável pelo tratamento de água da capital francesa.

Um estudo de 2013 da entidade de defesa dos consumidores UFC Que Choisir apontou que, consideradas as cidades francesas com mais de 100 mil habitantes, aquelas com as menores tarifas de água tinham gestão pública, enquanto as mais caras tinham, majoritariamente, administração privada.

De acordo com o TNI, 152 serviços já passaram de volta da gestão privada para a estatal na França, incluindo o saneamento de 106 cidades e o transporte público de 20 delas.

Estados Unidos - 67 reestatizações

Contratos de água e de energia são alguns dos que foram revertidos em cidades espalhadas por estados tão diversos quanto Flórida, Havaí, Minnesota, Texas, Nova York e Indiana.

Uma das primeiras a fazer algo do gênero, a cidade de Atlanta cancelou em 2003 a concessão de água feita em 1999. O contrato era previsto para durar até 2019, mas reclamações de falta de água e má qualidade o interromperam 16 anos antes. À época, a companhia argumentou que se deparou com uma rede bem mais antiga e custosa de se reparar do que o projetado no acordo.

Na ilha havaiana Kaua, em 2002, foram os moradores que formaram uma cooperativa (a Kauai Island Utility Cooperative) e compraram a companhia de energia da cidade, que estava à venda. A gestão é feita pela cooperativa sem fins lucrativos.

Reino Unido - 65 reestatizações

Um dos primeiros países do mundo a elaborar e testar contratos de PPPs, o Reino Unido foi também pioneiro em revisá-los: em 2010, a TfL (Transporte de Londres, em inglês), a agência pública de transportes, anunciou o rompimento da PPP para a expansão do metrô que tinha desde 2003.

A cidade pagou 310 milhões de libras para comprar de volta a parte da parceira privada, sob o argumento de que, sem a complexidade do contrato misto, teria mais agilidade e menos custos para dar continuidade ao projeto de melhorias e expansão no metrô londrino.

Os trilhos nacionais também sofreram vai-e-vem: privatizados nos anos de 1990, tiveram uma parte tomada de volta pelo governo em 2002, quando a companhia que arrematou a gestão da infraestrutura, a Railtrack, quebrou.

As viagens continuam sendo feitas por concessionárias privadas, mas são pivô de um acalorado debate nacional atualmente: segundo o jornal britânico Financial Times, as passagens custam, em média, 30% mais na rede britânica do que em outros países da Europa.

Espanha - 56 reestatizações

A distribuição de água também é um dos setores que está no foco das prefeituras na Espanha --especialmente depois que, em 2015, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha anulou a mega concessão da rede de saneamento da região metropolitana de Barcelona feita três anos antes.

Além de acusações de que o leilão não teria sido transparente, muitos moradores sentiram também o peso no bolso: um levantamento do Tribunal de Contas da Espanhamostrou que, em 2011, o custo médio por habitante da manutenção das redes de água geridas pela iniciativa privada era 21,7% mais caro que daquelas controladas diretamente pelo município.

Nas contagens do TNI, 27 cidades espanholas já haviam tomado de volta suas concessões de água em 2017. Energia, coleta de lixo e serviços que vão de habitação a funerárias são outros que também foram revistos por prefeituras do país.

"A IGREJA CATÓLICA ESTÁ DO LADO DOS INDÍGENAS"

É BOM QUE ISSO SEJA RECONHECIDO POR UM ANTROPÓLOGO. E QUE ELE DEIXE CLARO QUE OS POVOS INDÍGENAS ESTÃO SENDO MOLESTADOS POR IGREJAS FUNDAMENTALISTAS, QUE DESEJAM QUE OS ÍNDIOS DEIXEM DE SER POVOS, COM SUAS CULTURAS E DIFERENTES FORMAS DE VIDA.

TOMARA QUE TODOS OS CATÓLICOS E CATÓLICAS ASSUMAM, DE FATO, A POSIÇÃO DE ESTAR DO LADO DOS POVOS INDÍGENAS, SUPERADO OS FUNDAMENTALISMOS QUE CONFUNDEM A MUITOS DELES.

IHU, 11 de março de 2019

Falamos com Eduardo Viveiros de Castro, o antropólogo brasileiro que estudou o povo Araweté e que agora tem as suas fotografias na exposição Resgatar a Diversidade: Pensamento Ameríndio, em Guimarães [Portugal].

A entrevista é de Bruno Horta, publicada por Observador, 07-03-2019.

O ataque aos povos indígenas do Brasil representa um ataque ao ecossistema global e por isso não deve preocupar apenas os brasileiros, sustenta o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, de 67 anos, que passou longos períodos no interior do estado do Pará a estudar os Araweté, povo quase desconhecido até à década de 80.

Pioneiro do Pensamento Ameríndio, uma forma de “pensar a partir dos indígenas e não sobre os indígenas”, esteve a 23 de fevereiro em Guimarães para inaugurar uma exposição documental com fotografias que captou nos anos 70 e 80. E naquele dia deu uma conferência na Sociedade Martins Sarmento, organizada pelo Centro Internacional das Artes José de Guimarães, que até 9 de junho apresenta quatro exposições sob o mote “Resgatar a Diversidade: Pensamento Ameríndio”, incluindo a de Viveiros de Castro. O Observador conversou com ele.
Viveiros de Castro (Foto: Bruno Fuji | UFMG)

Eis a entrevista.

Quem são em 2019 os índios da Amazônia brasileira?

A realidade dos índios brasileiros é muito variada. Talvez seja um fato pouco conhecido: a maioria da população indígena brasileira não está na Amazônia, mas no sudeste, no sul e no nordeste. A maioria das terras indígenas, terras públicas das quais os índios têm direito exclusivo de usufruto, a maioria dessas terras, sim, fica na Amazônia. Não a maioria da população. Diz-se que as terras indígenas são muito extensas, que 13% do território nacional seria de terras indígenas.

Podemos chamar-lhes reservas?

O termo não é esse, são terras indígenas, parte de terras públicas, destinadas ao uso exclusivo dos povos que ali habitavam imemorialmente. Cerca de 13% do território. Ora, a população indígena é cerca de 1% da população brasileira. Comparativamente, 46% do nosso território está nas mãos de proprietários privados, que não são 1% da população. São bem menos que os indígenas e são proprietários de quase metade do território.
Imagem da exposição Resgatar a Diversidade: Pensamento Ameríndio (Foto: Paulo Pacheco | Observador)

Fala-se quase sempre da Amazônia quando se fala de índios. Pelo que acaba de dizer, os problemas destes povos não estarão aí, porque a maior parte vive fora da Amazônia.

Os problemas enfrentados pelos povos indígenas são muitos e variados, dependendo do lugar onde eles estão. Até certo ponto, a maior parte do problemas está na Amazônia, porque essas terras são hoje objeto da cobiça das grandes empresas agro-industriais e de extração, cujo objetivo político é o de privatizar o máximo possível de terras públicas brasileiras, incluindo terras indígenas, reservas ecológicas e áreas protegidas. As terras indígenas estão fora do mercado fundiário, capitalista, e por isso são consideradas um entrave ao progresso.

Essas atividades econômicas são a plantação de soja…

Sim e a criação de gado e extração de minério.

Por parte de empresas brasileiras ou multinacionais?

A soja e o gado são na maioria de proprietários brasileiros, mas nesta fase do mundo saber o que é nacional ou não nacional é extremamente difícil. O modelo econômico que sustenta este interesse pelas terras públicas é um modelo de exportação para grandes centros capitalistas, como China, Europa e EUA. O Brasil está-se convertendo novamente num país de exportação de produtos primários, como foi no tempo da cana do açúcar, no ciclo do ouro e do café. Ou seja, uma colônia de produtos para transformação. Claro, agora é uma colônia “high tech”, não há escravatura explícita, nem tanta mão de obra humana.

Essa realidade estava a surgir no fim da década de 70, quando iniciou os seus primeiros trabalhos de campo como etnólogo?

Houve uma desindustrialização importante nos últimos 20 ou 30 anos, uma opção pelos recursos naturais do Brasil, mais do que pelos recursos industriais. Não houve propriamente montagem ou reforço de um parque industrial robusto. Isso levou a uma aceleração da devastação da natureza. Exportação de madeira, desmatamento para produção de monocultura de soja, de cana, de laranja. Há quem ache que ainda há muito mato para derrubar, muita terra para gastar. Acontece, que tudo tem um limite. O Brasil é grande, mas não é infinito. O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno, como se diz. Por este andar da carruagem, não demorará muito até que a floresta amazônica e o Cerrado Brasileiro, que é o Brasil central, uma savana que perdeu quase 70% da vegetação original, sejam tomados pelo negócio da soja e do gado, com uso intensivo de pesticidas proibidos na Europa e nos EUA, mas permitidos no Brasil. É o paraíso para grandes companhias como a Monsanto. Só este ano, com o novo governo, foram autorizados 29 pesticidas que eram proibidos no Brasil para uso na agricultura industrial.

Acha que os problemas dos indígenas do Brasil dizem respeito a todo o país e ao ecossistema global?

Sem dúvida. Os índios são hoje, juntamente com outras populações tradicionais – pescadores, camponeses, populações ribeirinhas –, aqueles cujo modo de vida protege o que ainda resta da conformação original da natureza no Brasil. Esses índios, 60% dos quais não moram na Amazônia, vivem em terras minúsculas e é aí que ainda existe alguma integridade ambiental. No caso da Amazônia, há imagens impressionantes que podemos ver no Google Earth: o parque indígena do Xingu, que fica em Mato Grosso, uma região hoje tomada pelos negócios agrários, está completamente devastado, inundado de pesticidas e fertilizantes químicos. O país está muito devastado.

O seu discurso, mais do que o de um cientista social, é o de um ecologista?

Diria que hoje não é possível ser cientista social apenas, porque a intervenção humana na natureza é de tal monta que a natureza e a cultura já não são departamentos estanques. A ação humana está acabando com as abelhas, com os recursos hídricos, está destruindo a Amazônia, que tem um papel na regulação do clima no mundo. Sabemos, por exemplo, que a floresta amazônica está perdendo umidade e se continuar ao ritmo atual vai começar a secar, ou seja, a tornar-se inflamável, ou seja, a poder ter incêndios de dimensão planetária. Um incêndio na floresta amazônica não é controlável. Temos visto incêndios nos EUA, em Portugal, na Grécia, na Austrália. São incêndios incontroláveis. Imagine na Amazônia.
Kuyawmá com a filmadora super-8, fotografado pelo antropólogo Viveiros de Castro

Disse na conferência em Guimarães que o governo de Bolsonaro declarou guerra aos indígenas, embora não tenha existido realmente qualquer declaração de guerra.

Se tivesse havido uma declaração oficial de guerra, Bolsonaro seria levado ao Tribunal Penal Internacional. Usei uma metáfora, no sentido em que o presidente em exercício declarou repetidas vezes, durante a campanha eleitoral, que não iria autorizar nem mais um centímetro de terra para os índios, que que iria rever as demarcações existentes, que os índios eram como animais num zoológico.

Ele disse: “E por que temos que mantê-los reclusos em reservas como se fossem animais em zoológico? O índio é um ser humano igualzinho a nós.”

Sim, mas isso é falso, porque as terras indígenas não impedem os índios de sair, impedem, sim, os brancos de entrar.

Bolsonaro também disse que os indígenas são alvo de manipulação de organizações não-governamentais. Como comenta?

São alvo de manipulação de organizações evangélicas fundamentalistas, que hoje estão no governo.

Para os leitores portugueses: áreas demarcadas são aquelas que os índios podem habitar, por determinação do governo federal, é isto?

São terras não alienáveis, indisponíveis, das quais os índios têm usufruto exclusivo, salvo para obras de relevante interesse nacional ou por questões de defesa nacional. São terras do Estado, de todos, os brancos não podem estabelecer-se com fazendas ou plantações, ainda que o façam ilegalmente. Os índios têm o usufruto, mas não as podem vender, retalhar, partilhar. Funcionam como uma reserva, não uma reserva indígena, mas uma reserva para o futuro, protegidas de transformação radical.

Que opinião tem sobre essas áreas demarcadas? É que, em rigor, até à chegada dos portugueses todo o território era dos índios.

Há uma componente importante de reparação histórica. Desde o primeiro alvará régio do Brasil, os índios foram reconhecidos como senhores originários da terra, o que não impediu que fossem pressionados para o interior do Brasil, exterminados na costa, deliberadamente por massacres ou por epidemias. Os que restaram, e não foram poucos – hoje, aliás, a população indígena está em crescimento – ficaram em terras que hoje não são propriamente concedidas pelo Estado, mas sim reconhecidas. O Estado reconhece um direito prévio dessas populações ao território que ocupam. É um modelo mais desejável do que termos um governo que de um momento para o outro declarasse arbitrariamente que as terras indígenas não existem ou que se tornariam terras devolutas.

A Constituição brasileira de 1988 não permitiria essa alteração.

Não, por vida do artigo 231. Este artigo, e outros, que estenderam direitos a vários segmentos da população, enfrenta o desagrado da direita no Brasil, dos grandes proprietários, que o veem como um entrave ao desenvolvimento livre das forças do mercado e do capital.

A esquerda brasileira também tem sido acusada ao longo dos anos de insensibilidade para com os indígenas. O governo Dilma foi particularmente criticado.

Os governos do PT [Partidos dos Trabalhadores] mostravam-se certamente menos ferozes no processo de agressão aos direitos indígenas, mas governaram sempre em coligação com forças da direita e sempre compartilharam com o grande capital uma certa concessão de desenvolvimento econômico que em certo sentido não era diferente dessa que hoje está a ser projetada de maneira mais violenta e grotesca. Os governos PT não foram bons para os índios, mas comparados com o atual, com o que este promete ser, foram incomparavelmente melhores.

Uma sondagem publicada em janeiro indicava que 60% dos inquiridos eram contra a redução de áreas demarcadas. A população parece não concordar com as intenções do atual governo.

Se se fizer uma sondagem sobre se os brasileiros são racistas, talvez 99% respondam que não são. Tendo a pensar que essa sondagem reflete o sentimento dessa parte da população, dois terços, porque os índios têm no Brasil uma imagem positiva, exceto junto daqueles que estão interessados na exploração das terras.

Quem defende os interesses dos indígenas junto dos poderes públicos?

O Estado tem a Fundação Nacional do Índio (Funai), que é responsável por defender os direitos, tanto contra particulares como contra o próprio Estado. É como um Ministério Público.
Originalmente, a Funai fazia a demarcação de terras, tomava conta da saúde e da educação indígena, mas foi perdendo ao longo de vários governos as atribuições e responsabilidades. Agora, com este governo, está a perder a responsabilidade principal, que era o estudo e a demarcação de territórios indígenas. A Funai tem sido desmantelada, passou para o Ministério da Agricultura, que está alinhado com os interesses dos agronegócios. Foi castrada, desmantelada. Agora está também dependente de um ministério bizarro, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.
Visitante da exposição de Viveiros de Castro (Foto: Paulo Pacheco | Observador)

A titular dessa pasta, Damares Regina Alves, foi acusada de ter raptado uma criança indígena.

Terá sido uma adoção informal, mas é muito difícil provar o rapto, se existiu. O que se dá é que esta ministra pertence a uma igreja evangélica fundamentalista, que tem associação com missionários evangélicos que querem “desindianizar” os índios e convertê-los ao cristianismo. Não apenas ao conteúdo espiritual cristão, mas ao modo de vida ocidental. Isso passa pela demonização dos costumes tradicionais, a tentativa de proibir o xamanismo e os rituais. Esses missionários têm uma origem norte-americana, do sul, de origem batista. De acordo com informações de várias fontes, eles retiram crianças indígenas e entregam-nas para adoção, para depois as treinarem como futuras missionárias.

Qual tem sido o papel da Igreja Católica?

A Igreja Católica mudou radicalmente a sua atitude. Chegou ao Brasil com o objetivo de converter os índios e isso mudou com o tempo. Hoje, claramente, já não faz esse tipo de missão proselitista. E na verdade, com o papa Francisco, a Igreja Católica está hoje na oposição a Bolsonaro. O papa tem feito declarações sobre a defesa do meio ambiente e dos povos indígenas, na encíclica Laudato Si'. A Igreja Católica é hoje certamente uma força positiva e está do lado dos indígenas.

Fale-nos brevemente da exposição fotográfica que está agora em Guimarães. Os etnólogos fazem muitas vezes registros fotográficos, mas neste caso parecem imagens mais artísticas.

Há muitos que usam a fotografia como auxiliar do trabalho etnográfico, sim; no meu caso, foi puro prazer estético. O meu trabalho não passava por uma análise visual da cultura deles, era muito mais ligado à palavra. As fotos foram tiradas nas horas vagas, nas minhas e nas deles, para meu prazer, e nunca tencionei mostrá-las. Foram os curadores [Eduardo Sterzi e Veronica Stigger] que ao verem algumas fotos nos livros que escrevi – colocava apenas algumas, a título de ilustração –, os curadores, que não me conheciam antes, propuseram fazer uma exposição. Hesitei, achei que não era fotógrafo, que não era artista, mas quando mexeram no material havia partes a que eu próprio não tinha prestado atenção. Aceitei. Disse: “Podem fazer, mas não vou interferir, tratem-me como um artista morto, tratem as imagens como quiserem.”

O que é que estas imagens nos mostram?

É inevitável que os povos indígenas absorvam elementos da cultura material e espiritual da sociedade envolvente e dominante. Isso está lá. É uma contingência à qual todos estamos submetidos. Os brasileiros e os portugueses também usam calças americanas e iPhones e nem por isso deixam de ser brasileiros e portugueses. O mundo está transformado num grande aeroporto. Isso afeta os índios, claro, mas enquanto tiverem garantida a relação com a terra, terão uma capacidade de decidir o que absorvem ou rejeitam, o que não aconteceria se fossem desterritorializados e atirados para as periferias das cidades, para serem mão de obra informal e não qualificada.

Essa relação com a terra parece hoje quase inexistente para os ocidentais.

Eles sentem que pertencem à terra e não que a terra lhes pertence. O proprietário tem uma relação extrínseca com a terra, usa e abusa, tem ali uma mercadoria. Para os índios, a terra é um lugar de pertença e acho que muita gente se sente assim em relação ao seu país.

http://www.ihu.unisinos.br/587267-eduardo-viveiros-de-castro-a-igreja-catolica-esta-do-lado-dos-indigenas 

ISA EM FESTA COM A MANGUEIRA E SEU "HISTÓRIA PARA NINAR GENTE GRANDE"

ALEGRIA MERECIDA, A DA MANGUEIRA, EM PRIMEIRO LUGAR, E A DO ISA, PELO RECONHECIMENTO DE SEU TRABALHO. PARABÉNS!

Fany e Beto Ricardo

ISA, 11 de março de 2019


Arte: Rodrigo Araujo
"Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento / Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado / Mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato" (trecho do samba-enredo da Mangueira, História pra ninar gente grande)
A Mangueira foi consagrada a grande campeã do carnaval do Rio de Janeiro na última quarta-feira (06/03). Seu samba-enredo História pra ninar gente grande levou para a avenida as histórias de lutas silenciadas de indígenas, negras e negros no Brasil e de heróis esquecidos que representam grande parte da população brasileira. Assista aqui o desfile.
Ficamos felizes e orgulhosos ao saber que o livro Povos Indígenas no Brasil (PIB), editado pelo ISA, é uma das referências bibliográficas do samba-enredo nota 10 da Mangueira. O livro, que está em sua 12ª edição (lançada em 2017), é parte de uma série iniciada em 1980 pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) e continuada pelo ISA a partir de 1994. O que começou como um resumo de notícias organizado por temas tornou-se, ao longo de quase 40 anos, a principal referência sobre povos indígenas publicada no Brasil. Compre o livro Povos Indígenas no Brasil aqui.
"Fiquei muito feliz com o uso do nosso livro para fazer o samba-enredo da Mangueira. Quem usa o PIB geralmente são antropólogos, pesquisadores, quem trabalha com políticas públicas, escolas. Nunca tinha sido uma escola de samba, né? O uso do livro pela Mangueira ganha importância especialmente nesse momento do Brasil."  (Fany Ricardo)

Uma vitória como essa inspira nosso trabalho por justiça social e por um Brasil que valorize sua diversidade de povos. Estamos em festa, com nossos corações em verde e rosa!

domingo, 3 de março de 2019

O SÍNODO PAN-AMAZÔNICO

Roberto Malvezzi (Gogó) *
“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Esse é o lema do Sínodo Pan-Amazônico que acontecerá em outubro de 2019, em Roma. Sínodo vem do grego e quer dizer “caminhar juntos”. Para entender o papel desse Sínodo, é preciso entender um pouco a história da Amazônia.

A Amazônia, do ponto de vista da história natural, surgiu há 70 milhões de anos, com o soerguimento dos Andes. Antes os rios amazônicos desaguavam no Pacífico. Depois as águas percorreram outros caminhos para desaguar no Atlântico. Porém, seu rosto atual só vai ficar definido a partir do término da última era glacial, há 12 mil anos. Então, a região que era um misto de savanas, caatingas e áreas de refúgio de floresta densa, torna-se o imenso bioma que hoje existe.

Do ponto de vista social-histórico, o tratado de Tordesilhas, em 1492, entre Espanhóis e Portugueses, já delimitava que as terras a Leste seriam de Portugal e as do Oeste pertenceriam aos Espanhóis. A ocupação foi lenta e somente no Tratado de Madrid, em 1750, ficou acordado que as terras pertenceriam a quem as ocupasse efetivamente. Então, basicamente nasce aí a geografia entre as terras portuguesas e espanholas no continente. Os processos libertários da América Latina a partir de 1808 vão dar a reconfiguração geopolítica que perdura até hoje.

A Igreja Católica está presente na Amazônia desde o período colonial e praticamente chegou junto com portugueses e espanhóis.

Então, em Outubro acontecerá o Sínodo da Igreja Católica para a Pan-Amazônia. Faço alguns esclarecimentos sobre o Sínodo, já que faço parte como “olho de fora” do núcleo de assessoria da REPAM-Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica), que colabora de forma decisiva na preparação do Sínodo.

Primeiro, em 2014 foi criada a Rede Eclesial Pan-Amazônica. Os fundadores são o Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM), Conferência dos Religiosos da América Latina e Caribe (CLAR), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas. Já havia iniciativas anteriores nessa linha, porém, mais na dimensão episcopal. A REPAM abrange as bases da igreja e outros setores da sociedade interessados numa Igreja em Rede e na Ecologia Integral.

Essa criação deriva da posição do episcopado Latino-americano, definida no documento de Aparecida, que entende que “Jesus nos fala a partir da Amazônia”, isto é, seus povos e toda a exuberância da criação. É o princípio evangélico dos “sinais do tempo”.

A REPAM abrange o Brasil e os demais oito países nos quais há o bioma Amazônia: Bolívia, Equador, Colômbia, Peru, Venezuela, República da Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Essa última não é um país, mas um território francês no continente da América do Sul. O propósito é criar uma Igreja em Rede, de povos, instituições, igrejas, que defendam os povos e a natureza amazônica.
O Papa Francisco, que foi um dos redatores do documento de Aparecida, decidiu convocar um Sínodo para toda Igreja da Amazônia, mas que é um Sínodo da Igreja Universal. Por isso, além de aproximadamente 140 bispos da Amazônia, haverá mais pessoas de outros lugares do mundo.

A REPAM não é o único grupo a preparar o Sínodo, mas cumpre um papel destacado por decisão de Roma. O próprio Francisco esteve em Puerto Maldonado, Peru, exclusivamente para ouvir os povos originários. Ele disse que ali começava o Sínodo. Ouvir quem nunca foi ouvido, talvez seja esse o elemento mais incomodante para muitos setores da sociedade.

Como preparação para o Sínodo, sobretudo a REPAM-Brasil, realizou uma série de seminários pelos mais diversos pontos da Amazônia, dialogando a realidade local com a encíclica Laudato Sí, do Papa Francisco. Só no Brasil foram feitos 16 seminários regionais e um 17º nacional. Porém, outros países também realizaram intensamente esses debates, reunindo povos indígenas, ribeirinhos, universidades, comunidades eclesiais, pessoas de outras religiões, enfim, todos que se preocupam com uma ecologia integral.

Posteriormente chegou de Roma um questionário para colher as mais diversas opiniões dos povos sobre a Igreja que queremos e o que fazer para uma Ecologia Integral. A síntese desse questionário está em andamento e será enviado a Roma. Foi formada uma equipe de preparação do Sínodo com 20 pessoas do América do Sul e mais um grupo de Roma. Com esse material nas mãos – as dioceses também tiveram que fazer suas consultas -, será elaborado o texto base do Sínodo em Roma.

No fundo, Francisco quer fazer da Amazônia uma referência para a Igreja Universal e também para a defesa da Casa Comum, a Terra. A impressão que ele passa é essa: o que acontecer com a Amazônia, acontecerá com o planeta Terra; o que acontecer com a Igreja da Amazônia, acontecerá com a Igreja Universal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBOFF, Leonardo. Concluir a refundação ou prolongar a dependência. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018
PALACIOS, Marco (Coordinador). Las independencias hispanoamericanas – Interpretaciones 200 años después. Bogotá: Grupo Editorial Norma, 2009.
PORTO-GONÇALVES, C. Walter. AMAZÔNIA ENCRUZILHADA CIVILIZATÓRIA – Tensões Territoriais em Curso. IPDRS / CIDES – UMSA, La Paz, Bolívia, 2018.

* Roberto Malvezzi (Gogó)
Formação: Bacharelado em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais.
Membro da Equipe de Assessoria da REPAM-Brasil
 
http://www.agrocultures.org/o-sinodo-pan-amazonico-por-roberto-malvezzi/