segunda-feira, 10 de setembro de 2012

OCUPAR E NACIONALIZAR OS BANCOS!

Não se trata de uma plavra de ordem de algum movimento social radical. O título do artigo retrata a proposta defendida por Jean Ziegler, que é Vice-presidente do Conselho Consultivo de Direitos Humanos da ONU. Há muito tempo ele se dedica à compreensão crítica da miséria existente no mundo e à elaboração de propostas para seu enfrentamento e superação. Agora, no texto publicado no El Confidencial, dia 1º de setembro último, está expressa a seguinte conclusão:




“Vivemos numa ordem mundial criminosa e canibal, em que as pequenas oligarquias do capital financeiro decidem de forma ‘legal’ quem vai morrer de fome e quem não. Portanto, estes especuladores financieios devem ser julgados e condenados, reeditando uma espécie de Tribunal de Nüremberg”.

Há, então, uma ordem mundial criminosa e canibal, isto é, que se alimenta de sangue e carne humana. É criminosa, mas está assentada sobre leis que a justificam, mesmo quando decide quem vai morrer de fome. Nasce daí a dificuldade para que os especuladores financeiros sejam julgados e condenados: na "ordem atual" eles estão por cima, parecem pessoas de bem, ricos, criminosamente ricos.

Em que consiste o crime? Na decisão de deixar perto de uma quninta parte da humanidade passando fome ao lado da abundância da produção de alimentos. Na palavra dele, publicada em seu livro Destruição massiva. Geopolítica da Fome, recentemente lançado na Espanha,




“É inaceitável que num planeta com os recursos agroalimentares suficientes para alimentar o dobro da população mundial atual, haja quase uma quinta parte de seus habitantes sofrendo subalimentação”


 Outro articulista, J. Carlos de Assis, em texto publicado em Carta Maior no dia 9 último, intitulado BCE prepara mais uma etapa do genocídio na zona do Euro, afirma claramente: 


"Acaba de ser cumprida pelas mãos dos dirigentes do BCE (Banco Central Europeu) mais uma etapa do genocídio em curso na zona do euro pelo qual as grandes massas estão sendo calculadamente sacrificadas em favor de uma pequena elite de especuladores que se locupletaram com a desregulamentação financeira das últimas décadas. O programa de compra de títulos públicos anunciado pelo presidente do banco, Mario Draghi, é um acinte em face da crise social europeia. Tranquiliza os ricos sob condição de violentar os pobres."

De fato, a conivência dos governos com essa máfia de banqueiros, com essa oligarquia do capital financeiro é tão ou mais criminosa do que as decisões e ações deles. Afinal, os governantes foram eleitos pela cidadania para garantir os direitos de toda a população, cumprindo os preceitos da Constituição de cada país. Diante das pressões e ameaças dessa máfia, poderiam consultar a cidadania por meio de plebiscitos, definindo o que todos, inclusive e especialmente os banqueiros, deveriam obedecer, sob pena de serem submetidos a julgamento e condenados. Ao não agirem democraticamente, podem e devem ser julgados junto com os banqueiros, seus aliados.

Frente à existência dessa "ordem mundial criminosa e canibal", Ziegler propõe “Ocupar massivamente os bancos, nacionalizá-los e confiscar as arrogantes riquezas roubadas pelos especuladores financeiros”. 

A conclusão que se pode tirar é que, diante do sequestro da democracia por governos vendidos aos poucos banquiros, o julgamento deve ser feito diretamente pela população. Para isso, é fundamental o crescimento da capacidade de mobilização e de ação dos movmentos sociais, organizando a crescente massa de indignados. 




Presidente Dilma: o Brasil é exemplo de quê e para quem?

A fala da Presidente Dilma no dia 6 de setembro, véspera da independência do Brasil, festejada pelas elites, mas questionada fortemente pelo Grito dos Excluídos, me deixou impressionado. Afinal, segundo ela, tudo vai de vento em popa em nosso país porque já teriam sido afastadas as causas que o tem impedido de crescer segundo as taxas anuais previstas pelo governo, e até mesmo pelo tal "mercado". Agora, e como fruto das medidas governamentais, o crescimento será retomado, garantidamente em 2013.

Por que isso deveria ser motivo de alegria para todos? É que, segundo a ideologia leberal capitalista, e muito mais a neoliberal, o crescimento da economia, medido pelo avanço percentual do PIB, automaticamente significará melhoria geral para a vida da população. Por isso, o anúncio de que haverá muitos recursos públicos para obras, de preferência em contratos de parcerias público-privadas, bem como o de que aumentarão as facilidades para o funcionamento das empresas, com redução de custos da folha de pagamento e redução dos juros, deveria ser acolhido como uma excelente notícia.

Acontece, porém, que esta é a visão e a promessa da ideologia neoliberal, pelo visto assumida pelo governo, mas nada garante que se torne realidade. É claro que há uma diferença, explicitada pela Presidente: estes incentivos e vantagens para o setor empresarial não afetarão os recursos destinados ao setor social, isto é, aos programas mantidos pelo governo em favor dos miseráveis. E este seria o motivo para outra notícia excelente: o modelo brasileiro de combinar crescimento econômico e distribuição de renda está sendo visto e saudado como um exemplo a ser seguido.

Acontece que essa realção entre crescimento econômico e melhoria das condições de vida da população está cada vez mais longe da realidade. O que acontece de fato é a concentração cada vez maior da riqueza e da renda em mãos e bolsos insaciáveis; isso se revela no fato de já existir quase dez vezes o PIB mundial na forma financeira; e que parte dessa riqueza, algo mais do que 30 trilhões de dólares, esteja em paraísos fiscais, fugindo de qualquer tributação e responsabilidade social. Entre nós, se revela nas taxas de lucro dos bancos e no símbolo maior desse processo: o avanço da riqueza de Eike Batista, que, a depender dele e da continuidade das políticas que favorecem a concetração, o fará o homem mais rico do planeta até 2016.

O que são, nesse mundo de bilhões e trilhões para poucos, os míseros bilhões destinados a mais de 40 milhões de pessoas por meio da Bolsa Família e de outras "bolsas" mais? Não passa de uma gota num oceano. Para quem não dispõe de quase nada para sobreviver, como fruto da marginalização de décadas ou séculos, qualquer coisa é muito importante, vital. Mas é algo insignificante no Orçamento da União, de modo especial quando comparado com o que é destinado aos que são donos dos títulos da dívida pública - em geral, os mesmos que receberão recursos para obras e que terão diminuídos os custos das folhas de pagamento - como pagamento de juros: algo em torno de 47 por cento!

O que acontece é que o Brasil depende da venda de produtos naturais, especialmente minérios e grãos, para gerar os dólares e créditos que evitam, por enquanto, que a crise geral do capitialismo o atinja de forma mais drástica. Só que a Europa e os Estados Unidos, junto com os demais países capitalistas "desenvolvidos", que são os grandes compradores desses produtos, estão de mal a pior em suas crises; e a China, que igualmente depende desse mercado, pode deixar de interessar-se pelas nossas commodities como tem feito no últimos anos.

Se a estratégia é aumentar o mercado interno, então não basta garantir os programas sociais do governo, nem aumentar realtivamente empregos inseguros e mal remunerados. Diminuir a folha de pagamento, descontando menos para a Previdência, por exemplo, pode ter consequencias sociais significativas, já que ganharão força as propostas, governamentais ou não, favoráveis a diminuir ainda mais as aposentadorias e a retardar a idade de acesso a este direito constitucional. Além disso, deixa mais frágil o orçamento geral da Seguiridade Social, mantendo a Saúde, a Assistência Social e o Seguro Desemprego mais sucateados e inseguros do que já estão. Não adianta distribuir com uma mão e favorecer a concentração com a outra e com todo o corpo. Isso dá um leve refresco para os mais empobrecidos, mas aumenta o fosso escandaloso e criminoso que separa os poucos ricos dos muitos miseráveis e pobres.

Em outro artigo comentarei análises que revelam porque são criminosas as práticas do capital financeiro, e porque será necessário levar às barras dos tribunais os que são responsáveis e beneficiários dele, abrindo caminhos para outro tipo de sociedade humana. As crises dos países centrais do capitalismo estão confirmando, com suas contradições, que nem a humanidade nem o planeta Terra têm mais condições de conviver com esta forma de civilização.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

MAIS UMA CONFIRMAÇÃO DO AQUECIMENTO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Muito boa a notícia que publico hoje. Não apenas por confirmar as pesquisas que sustentam cientificamente o processo de aquecimento provocado por atividades humanas. O mais importante é que um dos mais convictos e citados "céticos" mudou de posição a partir das conclusões de seus estudos científicos. Em outras palavras, a melhor maneira de contribuir com a humanidade é construir conhecimento através de procedimentos científicos, confirmando, modificando ou corrigindo conhecimentos anteriores de forma objetiva, com dados e procedimentos que outros podem confirmar, modificar ou corrigir.


Durante a Rio+20 os grandes meios de comunicação, e de modo especial a Rede Bandeirantes de TV, mas também a Globo, deram oportunidade exclusiva a "céticos" brasileiros, divulgando suas teorias de que não haveria aquecimento nenhum, de que os seres humanos seriam incapazes de mudar o clima e outras tantas afirmações apresentadas como "científicas". Serão realmente seriamente científicas? Terão como base pesquisas como as comandadas pelo físico Richard Muller? E agiriam como ele, no caso de constatarem, com estudos realmente científicos, que a realidade é diferente e contrária às sua convicções anteriores? Seriam capazes de mudar de posição, por fidelidade ao que os dados das pesquisas revelam?


Quero chamar atenção aos interesses ideológicos e de mercado presentes no uso dos que teimam em apresentar-se como "céticos", de modo especial transformando-os em "formadores de opinião". Busca-se evitar que as grandes empresas, responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa, sejam obrigadas a mudar suas tecnologias e suas fontes de energia, sua produção e imposição de consumo por meio da criação de "necessidades". Há fundos que pagam regiamente "cientistas", "formadores de opinião" e empresas de comunicação que se dispõem a propagar dúvidas sobre a realidade do aquecimento global e das mudanças climáticas provocadas por ele. 


Por isso tudo, é sempre importante perguntar-se, ao ouvir quem teima em ser "cético" e tem oportunidade de palavra em meios de comunicação, como aconteceu há pouco tempo no Programa do Jo, da Rede Globo, e  nas reportagens e debates da Rede Bandeirantes durante a Rio+20, e que escrevem carta aberta à presidente Dilma: quem os está patrocinando? Quanto estarão recebendo para isso?


Se alguém achar que estou indo longe demais, vá até uma locadora, leve para casa e assista ao filme-documentário Trabalho Interno, que apresenta depoimentos que ajudam a compreender por que economistas de renome, promovidos a formadores de opinião, afirmavam, com a maior segurança "científica", que os bancos e financeiras estadunidenses estavam com saúde ótima e mereciam total confiança dos consumidores exatamente um dia antes da quebra que aconteceu em 2008. Terão, entre outras tantas reflexões e denúncias, a notícia de quanto cresceu a conta bancária desses "economistas" exatamente neste mesmo dia.


30/07/2012 16:14:32

Maior cético climático se converte depois de estudo

Fabiano Ávila, do Instituto CarbonoBrasil

O físico norte-americano Richard Muller, fundador do projeto Temperatura da Superfície da Terra da Universidade de Berkeley (BEST), era um dos maiores críticos da teoria das mudanças climáticas, sendo sempre citado por outros cientistas céticos ou procurado por veículos de comunicação que precisavam de uma fonte para questionar o aquecimento global.

Pois este mesmo Richard Muller acaba de publicar um artigo no New York Times intitulado “A conversão de um cético das mudanças climáticas”, no qual diz ter mudado de ideia devido aos resultados de um estudo conduzido por ele próprio que comprovaria que não apenas o planeta está aquecendo, como também é possível responsabilizar as atividades humanas pelo fenômeno.

“Nossos resultados mostram que a temperatura média na superfície sólida da Terra subiu 1,5ºC em 250 anos, sendo que 0,9ºC se deu apenas nos últimos 50 anos. Mais do que isso, é muito provável que essencialmente todo esse aumento foi resultado das emissões humanas de gases do efeito estufa”, escreveu Muller.
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores da Universidade de Berkeley analisaram mais de 14 milhões de medições de temperatura de 44,455 locais do globo iniciadas em 1753.

Bem mais abrangentes e rigorosos que os métodos adotados por entidades como a NASA e o Met Office, os procedimentos dos cientistas de Berkeley foram inteiramente automatizados, justamente para evitar erros humanos ou manipulações. Apesar disso, o BEST chegou às mesmas conclusões de estudos anteriores realizados por estas instituições que já confirmavam o aquecimento global.

“Não estávamos esperando por isso, mas como cientistas é nosso dever aceitar os resultados e mudar nossa postura”, afirmou Muller.

O estudo do BEST ainda não foi publicado em um periódico cientifico, ou seja, não foi avaliado por outros pesquisadores. Porém, pode ser acessado gratuitamente no portal do projeto.
Michael Mann, um dos principais nomes por trás da teoria do aquecimento global, formulador do gráfico ‘taco de hockey’, que demonstra o aumento acelerado das temperaturas nas últimas décadas, recebeu bem a ‘conversão’ de Muller.

“Congratulo Muller e seus colegas por agirem conforme bons cientistas e aceitarem seguir o que suas próprias análises demonstraram, sem se preocupar com as possíveis repercussões políticas das conclusões”, escreveu Mann em uma rede social.

“É com certa satisfação e ironia que recebemos um estudo financiado pelos irmãos Koch – os maiores apoiadores da negação das mudanças climáticas e da desinformação do planeta – demonstrando o que cientistas já vêm afirmando com confiança por quase duas décadas: que o globo está aquecendo e que esse aumento das temperaturas só pode ser explicado pela maior concentração de gases do efeito estufa na atmosfera devido às ações humanas”, completou o pesquisador.

Mann está se referindo a Fundação de Caridade Charles G Koch, fundada pelo magnata da indústria do carvão, que investiu US$ 150 mil no estudo do BEST e que, com certeza, esperava um resultado bem diferente.
De acordo com Muller, o futuro das temperaturas é continuar a subir. “A taxa de aquecimento deve seguir constante, com o planeta aquecendo 1,5ºC nos próximos 50 anos, ou um pouco menos que isso se considerarmos os oceanos. Mas se a China continuar a crescer rapidamente (na média de 10% ao ano pelos próximos 20 anos) e continuar a usar vastas quantidades de carvão (somando um novo gigawatt ao ano), então esse mesmo aquecimento se dará em menos de 20 anos”, escreveu Muller.

“Espero que a análise de Berkeley ajude no debate científico do aquecimento global e de suas causas humanas. 

Então virá a parte difícil: concordar no espectro político e diplomático sobre o que pode e deve ser feito”, concluiu.

(Instituto CarbonoBrasil)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ADIRA E REFORCE A CAMPANHA DO CACIQUE RAONI

Trata-se, mais uma vez, de uma campanha contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Os povos do Xingu não a aceitam porque coloca em risco seu rio, sua vida, suas culturas.

Além do mais, quem não sabe que existem alternativas para produzir a energia que o Brasil precisa? Basta lembrar do sol, dos ventos, do movimento natural constante das ondas do mar... E vale a pena perguntar-se: por que não se faz revisão técnica das hidrelétricas existentes, ganhando produtividade? De toda forma, é bom refletir criticamente: para que tanta energia? Para favorecer mineradoras, que exploram riquezas naturais sem deixar nada em nosso país? Para produzir tantas coisas que não são necessárias para nossa vida e que contaminam a Terra?

Se você deseja um Brasil diferente, com outro tipo de economia e outras relações com a Terra, subscreva a campanha do cacique Raoni clicando no seguinte link:
[url=http://www.raoni.com/firma-peticion-contra-belo-monte.php]Por favor firma la petición de Raoni contra el proyecto de la represa Belo Monte[/url]

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PRÉDIOS E CASAS: USINAS DE ENERGIA

Ao ler a entrevista com Jeremy Rifkin, você verá o motivo para criarmos uma pressão sobre os responsáveis pela politica energética brasileira: se nosso país assumir as potencialidades de fontes de energia de cada região, e se a produção for descentralizada e, a partir daí, interconectada - ao contrário do sistema atual, centralizado e interconectado -, terá energia de sobra para as necessidades. E, por outro lado, é preciso sempre insistir que é urgente rever o uso da energia produzida, priorizando o que é, de fato, necessidade.


Boa leitura!


IHU - Quarta, 27 de junho de 2012

A Terceira Revolução Industrial.

Entrevista com Jeremy Rifkin

O economista americano Jeremy Rifkin é um dos pensadores mais influentes da atualidade. Professor da escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, Rifkin é conselheiro da União Europeia e interlocutor frequente da chanceler alemã Angela Merkel.

Há alguns anos, Rifkin se propôs a demonstrar que era viável colocar as diversas fontes de energia renovável no centro da matriz energética mundial. O assunto evoluiu e foi transformado em livro, A Terceira Revolução Industrial [Makron Books], que chegou às livrarias brasileiras neste mês.

No livro, Rifkin prega que todos os prédios - residenciais ou comerciais - podem ser transformados em pequenas usinas de energia. “Se o Brasil adotar esse modelo, pode ser a Arábia Saudita das energias renováveis e um dos líderes do século XXI”, diz Rifkin.

A entrevista é de Roberta Paduan e Daniel Barros e está publicada na Revista Exame, 26-06-2012.

Eis a entrevista.

O que o senhor chama de Terceira Revolução Industrial?

Quando estudamos história, vemos que as grandes revoluções econômicas acontecem quando há convergência de transformações nas áreas de comunicações e de geração de energia. No século XIX, saímos da prensa manual para a máquina a vapor e pudemos fazer impressões em massa a preços baixos.

Isso possibilitou a criação de escolas na Europa e nas Américas e a educação da força de trabalho, o que conduziu à Primeira Revolução Industrial. O telefone, o rádio, a TV e o petróleo abriram caminho para uma sociedade de consumo de massa, a Segunda Revolução Industrial.

Movida pelos veículos automotores, essa fase agora está chegando ao fim. Teremos de encontrar outras fontes de energia, porque alcançamos o pico mundial da produção de petróleo.

Toda vez que o preço do barril chegar a níveis como o de julho de 2008, quando atingiu 147 dólares, todos os preços vão subir, as pessoas vão deixar de consumir e o sistema vai parar.

Isso acontece porque quase tudo é feito de petróleo: celulares, fertilizantes, pesticidas, medicamentos, materiais de construção, energia elétrica e combustíveis. A produção de petróleo cresce, é verdade, mas a população também aumenta, principalmente com a expansão do número de consumidores de países emergentes, como é o caso do Brasil.

E o que está substituindo o modelo da Segunda Revolução Industrial?

As últimas décadas foram marcadas por uma profunda mudança na área de comunicações, fruto do computador pessoal e da internet. Hoje, há 2,3 bilhões de pessoas mandando os próprios vídeos, fotos e textos para a rede. E o mais incrível é que fizemos isso em 20 anos.

A internet é colaborativa e nela o poder não é mais hierárquico. Ao mesmo tempo, estamos evoluindo no sentido de ter uma geração de energia disseminada, feita no nível do indivíduo. Essa é a grande transformação no campo da energia.
Como é possível que as pessoas produzam energia individualmente?

Primeiro, é importante lembrar que há energias renováveis espalhadas por todo o mundo: solar, eólica, geotérmica, de biomassa e das ondas. Se as fontes renováveis estão em todo lugar, por que somente colhê-las em alguns poucos pontos?

Por que não converter os 191 milhões de prédios espalhados pelos países da União Europeia em miniusinas verdes, com painéis fotovoltaicos no teto, aerogeradores na lateral e conversores de lixo em biomassa? Os prédios são os principais consumidores de energia elétrica e em emissões de gás carbônico.

Isso já acontece em algum lugar?

Alguns prédios novos na Europa geram mais eletricidade do que usam, como é o caso de um complexo de escritórios em Paris. Quando esse modelo se disseminar, movimentará a economia francesa gerando milhões de empregos. A Alemanha, que é o motor econômico da Europa, já converteu 1 milhão de prédios em usinas parciais.

Esse processo criou 370 000 empregos diretos. Hoje cerca de 20% de sua matriz energética é de fontes renováveis. O objetivo é chegar a 35% em 2020. O encaixe perfeito ocorrerá quando for criada uma rede de distribuição que permita o compartilhamento dessas energias por todos os usuários. Mas não resta dúvida: a Europa já começou a Terceira Revolução Industrial.

Como funciona essa rede?

É aí que a revolução nas comunicações converge com a revolução na geração de energia. Já é possível digitalizar a rede de energia - que é unidirecional - e transformá-la em uma rede bidirecional, para que leve energia ao usuário final, mas também receba a energia produzida por ele.

Quando milhões e milhões de prédios estiverem gerando energia elétrica e estocando eletricidade - e já há meios para isso -, poderão usar um software para vender o excesso entre cidades ou países. A Alemanha já está testando uma rede elétrica inteligente em seis regiões.

Pense que todas as grandes montadoras terão veículos elétricos até 2015. No futuro, quando os prédios funcionarem como miniusinas de energia, os carros elétricos poderão ser abastecidos num desses edifícios que geram e armazenam energia, ou seja, em qualquer rua de qualquer cidade.

O senhor diz que devemos perseguir uma sociedade de baixo carbono. Isso significa que devemos parar de buscar petróleo?

Não. Precisaremos de petróleo para o que não temos substitutos, como lubrificantes, alguns processos químicos, produtos farmacêuticos, materiais de construção, fibras sintéticas e uma série de outros produtos. Não devemos é usar combustíveis fósseis para transporte e geração de energia elétrica.

Como o Brasil deveria lidar com o petróleo do pré-sal?


O Brasil tem a chance de usar parte dos recursos do petróleo para criar um modelo energético baseado em eletricidade verde. Caso contrário, o país estará voltado para o século passado. O Brasil pode ser a Arábia Saudita das energias renováveis. Tem mais potencial de geração de energia renovável que qualquer país do mundo.

Todo prédio brasileiro deveria ter painéis solares no teto e nas paredes externas. Deveria haver geradores de energia eólica por toda a costa. O Brasil pode liderar a Terceira Revolução Industrial na América Latina, como a Alemanha está fazendo na Europa. Apostar apenas no petróleo levaria o país a ser uma nação de segundo escalão. Gostaria de conversar sobre isso com a presidente Dilma Rousseff.

O que o senhor espera da Rio+20?

Creio que haverá boas discussões, mas a conclusão será que é preciso haver um plano econômico. Metas de redução de emissão de CO2 parecem uma punição. O que será visto com cada vez mais força, inclusive no Rio de Janeiro, é a discussão de um novo paradigma econômico.

Algo que trate de mudanças climáticas, das energias renováveis, mas que amplie nossa visão sobre o problema. Vale sempre ressaltar: a busca da eficiência energética cria empregos e negócios em larga escala.

Como o senhor responde a quem considera seu plano utópico?

As empresas e os governos com os quais trabalho não estão interessados em utopia. Estamos tentando criar um novo modelo econômico que seja viável, que nos liberte do carbono, que movimente a economia, que gere empregos.

Sabemos que funciona porque estamos testando. Daimler, GM, Toyota, Bosch, Siemens, Cisco, Philips e IBM são empresas utópicas? Elas estão fazendo exatamente o que estou falando. Em breve teremos carros movidos a hidrogênio. Isso é utopia?