O economista americano
Jeremy Rifkin é um dos
pensadores
mais influentes da atualidade. Professor da escola de
negócios Wharton, da
Universidade da Pensilvânia,
Rifkin é conselheiro da União
Europeia e interlocutor frequente da chanceler alemã
Angela
Merkel.
Há alguns anos,
Rifkin se propôs a
demonstrar que era viável colocar as diversas fontes de
energia renovável no centro da matriz energética mundial.
O assunto evoluiu e foi transformado em livro,
A Terceira Revolução Industrial
[Makron Books], que chegou às livrarias brasileiras neste
mês.
No livro,
Rifkin prega que todos os
prédios - residenciais ou comerciais - podem ser
transformados em pequenas usinas de energia. “Se o Brasil
adotar esse modelo, pode ser a Arábia Saudita das energias
renováveis e um dos líderes do século XXI”, diz
Rifkin.
A entrevista é de
Roberta Paduan e
Daniel
Barros e está publicada na Revista
Exame,
26-06-2012.
Eis a entrevista.
O que o senhor chama de Terceira Revolução
Industrial?
Quando estudamos história, vemos que as grandes revoluções
econômicas acontecem quando há convergência de
transformações nas áreas de comunicações e de geração de
energia. No século XIX, saímos da prensa
manual
para a máquina a vapor e pudemos fazer impressões em massa
a preços baixos.
Isso possibilitou a criação de escolas na Europa e nas
Américas e a educação da força de
trabalho,
o que conduziu à Primeira Revolução Industrial. O
telefone, o rádio, a TV e o petróleo abriram caminho para
uma sociedade de consumo de massa, a Segunda Revolução
Industrial.
Movida pelos veículos automotores, essa fase agora está
chegando ao fim. Teremos de encontrar outras fontes de
energia, porque alcançamos o pico mundial da produção de
petróleo.
Toda vez que o preço do barril chegar a níveis como o de
julho de 2008, quando atingiu 147 dólares, todos os preços
vão subir, as pessoas vão deixar de consumir e o sistema
vai parar.
Isso acontece porque quase tudo é feito de petróleo:
celulares, fertilizantes, pesticidas, medicamentos,
materiais de construção, energia elétrica e combustíveis.
A produção de petróleo cresce, é verdade, mas a população
também aumenta, principalmente com a expansão do número de
consumidores de países emergentes, como é o caso do
Brasil.
E o que está substituindo o modelo da Segunda
Revolução Industrial?
As últimas décadas foram marcadas por uma profunda mudança
na área de comunicações, fruto do computador pessoal e da
internet. Hoje, há 2,3 bilhões de pessoas mandando os
próprios vídeos, fotos e textos para a rede. E o mais
incrível é que fizemos isso em 20 anos.
A internet é colaborativa e nela o poder não é mais
hierárquico. Ao mesmo tempo, estamos evoluindo no sentido
de ter uma geração de energia disseminada, feita no nível
do indivíduo. Essa é a grande transformação no campo da
energia.
Como é possível que as pessoas produzam energia
individualmente?
Primeiro, é importante lembrar que há energias renováveis
espalhadas por todo o mundo: solar, eólica, geotérmica, de
biomassa e das ondas. Se as fontes renováveis estão em
todo lugar, por que somente colhê-las em alguns poucos
pontos?
Por que não converter os 191 milhões de prédios espalhados
pelos países da
União Europeia em
miniusinas verdes, com painéis fotovoltaicos no teto,
aerogeradores na lateral e conversores de lixo em
biomassa? Os prédios são os principais consumidores de
energia elétrica e em emissões de gás carbônico.
Isso já acontece em algum lugar?
Alguns prédios novos na Europa geram mais
eletricidade do que usam, como é o caso de um complexo de
escritórios em Paris. Quando esse modelo se disseminar,
movimentará a economia francesa gerando milhões de
empregos.
A
Alemanha, que é o motor econômico da
Europa, já converteu 1 milhão de prédios em usinas
parciais.
Esse processo criou 370 000 empregos diretos. Hoje cerca
de 20% de sua matriz energética é de fontes renováveis. O
objetivo é chegar a 35% em 2020. O encaixe perfeito
ocorrerá quando for criada uma rede de distribuição que
permita o compartilhamento dessas energias por todos os
usuários. Mas não resta dúvida: a Europa já começou a
Terceira Revolução Industrial.
Como funciona essa rede?
É aí que a revolução nas comunicações converge com a
revolução na geração de energia. Já é possível digitalizar
a rede de energia - que é unidirecional - e transformá-la
em uma rede bidirecional, para que leve energia ao usuário
final, mas também receba a energia produzida por ele.
Quando milhões e milhões de prédios estiverem gerando
energia elétrica e estocando eletricidade - e já há meios
para isso -, poderão usar um software para vender o
excesso entre cidades ou países. A Alemanha já está
testando uma rede elétrica inteligente em seis regiões.
Pense que todas as grandes montadoras terão veículos
elétricos até 2015. No futuro, quando os prédios
funcionarem como miniusinas de energia, os carros
elétricos poderão ser abastecidos num desses edifícios que
geram e armazenam energia, ou seja, em qualquer rua de
qualquer cidade.
O senhor diz que devemos perseguir uma sociedade
de baixo carbono. Isso significa que devemos parar de
buscar petróleo?
Não. Precisaremos de petróleo para o que não temos
substitutos, como lubrificantes, alguns processos
químicos, produtos farmacêuticos, materiais de construção,
fibras sintéticas e uma série de outros produtos. Não
devemos é usar combustíveis fósseis para transporte e
geração de energia elétrica.
Como o Brasil deveria lidar com o petróleo do pré-sal?
O Brasil tem a chance de usar parte dos recursos do
petróleo para criar um modelo energético baseado em
eletricidade verde. Caso contrário, o país estará voltado
para o século passado. O Brasil pode ser a
Arábia
Saudita das energias renováveis. Tem mais
potencial de geração de energia renovável que qualquer
país do mundo.
Todo prédio brasileiro deveria ter painéis solares no teto
e nas paredes externas. Deveria haver geradores de energia
eólica por toda a costa. O Brasil pode liderar a Terceira
Revolução Industrial na América Latina, como a
Alemanha
está fazendo na Europa. Apostar apenas no
petróleo levaria o país a ser uma nação de segundo
escalão. Gostaria de conversar sobre isso com a presidente
Dilma Rousseff.
O que o senhor espera da Rio+20?
Creio que haverá boas discussões, mas a conclusão será que
é preciso haver um plano econômico. Metas de redução de
emissão de CO2 parecem uma punição. O que será visto com
cada vez mais força, inclusive no Rio de Janeiro, é a
discussão de um novo paradigma econômico.
Algo que trate de mudanças climáticas, das energias
renováveis, mas que amplie nossa visão sobre o problema.
Vale sempre ressaltar: a busca da eficiência energética
cria empregos e negócios em larga escala.
Como o senhor responde a quem considera seu plano
utópico?
As empresas e os governos com os quais trabalho não estão
interessados em utopia. Estamos tentando criar um novo
modelo econômico que seja viável, que nos liberte do
carbono, que movimente a economia, que gere empregos.
Sabemos que funciona porque estamos testando.
Daimler,
GM,
Toyota,
Bosch,
Siemens,
Cisco,
Philips e
IBM são empresas
utópicas? Elas estão fazendo exatamente o que estou
falando. Em breve teremos carros movidos a hidrogênio.
Isso é utopia?