terça-feira, 24 de setembro de 2019

EMERGÊNCIA CLIMÁTICA: JOVENS DE TODO MUNDO, UNI-VOS!

REPITO, MAIS: BEM VINDOS, JOVENS E CRIANÇAS NA LUTA CONTRA A TRANSFORMAÇÃO DA TERRA EM "TERRA ESTUFA", EM ESPAÇO INABITÁVEL. NÓS, QUE TENTAMOS CONVENCER OS ADULTOS A DEIXAREM DE FALSAS PALAVRAS E FALSOS NEGÓCIOS PARA ENFRENTAREM O QUE JÁ ESTÁ DESEQUILIBRADO NO SISTEMA VIVO DA TERRA, CONFESSAMOS: NÃO CONSEGUIMOS! MAS NÃO ESTAMOS FRUSTRADOS E SEM ESPERANÇA. VCÊS SÃO HOJE A ESPERANÇA DA HUMANIDADE.

NÃO DESISTAM. CONTINUEM SUA MOBILIZAÇÃO. INCOMODEM OS ADULTOS, DE MODO TODO ESPECIAL OS GOVERNANTES E AS GRANDES EMPRESAS - QUE SÃO, SEM SOMBRA DE DÚVIDAS, AS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS PELO DESASTRE SOCIOAMBIENTAL QUE JÁ ESTÁ AFETANDO A VIDA DE MILHÕES, OU MELHOR, DE BILHÕES DE PESSOAS E DE OUTROS SERES VIVOS

IHU, 24 de setembro de 2019

Jovens de todo o mundo, uni-vos!


"O horizonte do apocalipse ecológico está estimado para 2050 e deve impactar fortemente a geração do milênio (“Millennials”). Os jovens que nasceram ao redor do ano 2000 e adiante estão sentindo que recebem uma herança ambiental de “Terra arrasada”. Se houver agravamento do aquecimento global rumo à “Terra estufa” e o prosseguimento do 1º evento de extermínio em massa das espécies – Ecocídio – haverá uma aniquilação da vida futura", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 23-09-2019.

Eis o artigo.

Greve Global pelo Clima. (Foto: Divulgação)

Jovens de todo o mundo, uni-vos! Este foi o mote que mobilizou mais de 4 milhões de pessoas, em mais de 163 países, em mais de 5 mil cidades, somente no dia 20 de setembro de 2019, contra a crise climática e ambiental. Outras passeatas ocorreram no fim de semana. A maior mobilização global da história foi liderada pela greve de estudantes e por jovens que não aceitam o rumo e o ritmo insustentável da economia internacional, seja aquela liderada pelo capitalismo neoliberal dos Estados Unidos ou pelo socialismo de mercado da China.

As novas gerações têm muito a perder com a crise climática provocada pelo crescimento exponencial das atividades antrópicas. Uma Terra quente, inóspita e inabitável tornará a vida no Planeta um inferno e significará a extinção do futuro para as crianças e adolescentes que assistem bestificados o agravamento das condições ambientais do Planeta. Karl Marx, na modernidade, pediu a união dos trabalhadores de todo o mundo contra a contradição central entre capital e trabalho. Agora, na pós-modernidade, os jovens se unem contra a contradição fundamental entre o capital antrópico e o capital natural (Alves, 2015).

A emergência climática se transformou na contradição principal da dialética ecossocial, capitaneando o protagonismo das ações locais e internacionais. As lutas atuais são muito mais geracionais e ambientais do que da dinâmica econômica das classes sociais. A maioria absoluta dos mais de 4 milhões pessoas nas ruas foi formada por jovens brancos de classe média, com forte presença de meninas e mulheres. Enquanto o proletariado encolhe em todo o mundo devido ao processo de desindustrialização e à 4ª Revolução Industrial, os jovens de todas as classes e “raças” do mundo buscam tomar o leme do destino ambiental.

Existe uma ameaça existencial. O horizonte do apocalipse ecológico está estimado para 2050 e deve impactar fortemente a geração do milênio (“Millennials”). Os jovens que nasceram ao redor do ano 2000 e adiante estão sentindo que recebem uma herança ambiental de “Terra arrasada”. Se houver agravamento do aquecimento global rumo à “Terra estufa” e o prosseguimento do 1º evento de extermínio em massa das espécies – Ecocídio – haverá uma aniquilação da vida futura, pois o ser humano depende da natureza e da convivência sincrônica com as demais formas de vida do Planeta.

O colapso ambiental pode atingir em cheio as novas gerações. Estudo do Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, um think-tank em Melbourne, Austrália (Barrie, 2019), descreve as mudanças climáticas como “uma ameaça existencial de médio prazo à civilização humana”. O documento argumenta que os “resultados extremamente sérios” das ameaças à segurança relacionadas ao clima são, com frequência, muito mais prováveis do que o convencionalmente assumido, mas quase impossível de quantificar porque “estão fora da experiência humana dos últimos milhares de anos”. Na atual trajetória, adverte o relatório: “os sistemas planetário e humano devem atingir um ‘ponto de não retorno’ até meados do século, no qual a perspectiva de uma Terra praticamente inabitável leva ao colapso das nações e da ordem internacional”.

Na semana da Greve Global pelo Clima, cientistas franceses alertaram para a possibilidade do aumento da temperatura global atingir até 7º C até o fim do atual século, quando comparado ao período pré-industrial. Cerca de 100 pesquisadores e engenheiros franceses elaboraram modelos climáticos que preveem, no pior dos cenários, um aumento na temperatura média mundial até 2100 muito superior aos 4,8ºC previstos em 2014 pelo IPCC. No novo relatório do IPCC, previsto para 2021, o sexto desde 1990, o cenário deve ser muito mais grave do que o anterior.

Qualquer aquecimento acima de 2º C já trará consequências incontroláveis e mudanças sem precedentes. Temperaturas mais altas significa maior degelo e aumento do nível dos oceanos que vai afetar diretamente mais de 2 bilhões de pessoas que vivem em áreas costeiras, além de inundar muitas áreas produtoras de alimentos. Haverá uma acidificação das águas e dos solos, o que vai afetar a produção de comida e reduzir significativamente as safras. Haverá aumento das inundações em algumas regiões e das secas em outras. Os furacões, os ciclones e tufões serão mais frequentes, mais intensos e mais danosos. As ondas de calor serão mais letais. Os incêndios florestais serão mais amplos, o que agravará a emissão de gases de efeito estufa. O aquecimento global pode espalhar uma ‘praga bíblica’.

Segundo Roger Hallam, co-fundador da Extinction Rebellion, o mundo caminha para colapso social e ambiental e, devido à inação das elites internacionais, pode haver fome em massa e colapso geral da sociedade neste século. Ele diz que seis bilhões de pessoas poderão morrer como resultado das mudanças climáticas nas próximas décadas, como mostra artigo de William Rees (18/09/2019).

O Acordo Climático de Paris de 2015 prevê limitar o aquecimento global abaixo de 2º C, ou mesmo 1,5º C. O mundo não segue este caminho, pois os compromissos assumidos pela maioria dos países levariam a um aquecimento acima de 3º C. Neste sábado, dia 21 de setembro, teve início a Cúpula do Clima a ONU. O secretário-geral da ONU, António Guterres, convocou a cúpula em Nova York para pedir aos líderes mundiais que aumentem suas ambições de cortes nas emissões de gases de efeito estufa (GEE). O Brasil, que atravessou a contramão do movimento ambiental, nem foi incluído entre os países que terão direito a discursar.

O fato é que as emissões de GEE estão aumentando e as metas do Acordo de Paris ficam cada vez mais distantes. Greta Thunberg, depois de liderar as maiores manifestações internacionais pelo clima, será a grande estrela da Cúpula da ONU. Ela disse ao Congresso Americano: “vocês não estão fazendo o suficiente”. Isto vale para a governança global.

Ou seja, os líderes mundiais não estão fazendo nem o necessário e nem o suficiente para evitar uma catástrofe ambiental e climática. Os adultos, no curto e médio prazos estarão mortos, como disse Keynes. Mas as crianças e os jovens estarão na flor da idade em meados do século XXI e não querem viver num mundo apocalíptico e sem as bases ecológicas fornecidas pela Mãe Natureza. A juventude reclama o direito ao futuro sadio, próspero e sustentável.

Como diria o grande escritor francês, Victor Hugo: “Nada é mais poderoso do que uma ideia que chegou no tempo certo”. Há um ano, uma adolescente nórdica sentava sozinha em uma greve individual em frente ao Parlamento Sueco, em protesto quando a crise climática. Mas a luta contra o aquecimento global é uma causa global e, em pouco tempo, estudantes de todo o mundo saíram às ruas chamando a atenção para a “Emergência Climática” e transformando Greta Thunberg em uma liderança mais importante do que os políticos que conquistaram votos nas urnas. A desobediência civil conquistando mais legitimidade do que a democracia formal.

Greve Global pelo Clima. (Foto: Divulgação)

A Greve Global pelo Clima do dia 20 de setembro é apenas uma primeira grande mobilização e que já prenuncia atitudes e ações ainda mais firmes no futuro próximo. As primeiras gerações do século XXI serão as últimas que poderão salvar a estabilidade do clima e evitar um desastre inominável. Não é aceitável romper a estabilidade climática. Cabe mudar a forma como a humanidade lida com a natureza, eliminando a antropocêntrica e egoística dominação e exploração ecológica.

“Nós (os jovens) faremos eles nos ouvirem”, diz Greta Thunberg em discurso para uma multidão em Nova York, dia 20/09, hoje no Battery Park, em Nova York. Ela também disse que as novas gerações demandam um futuro sadio. Confira abaixo trechos do discurso:

Eis o discurso.

“De onde eu venho, as coisas são bem diferentes daqui, mas quando o assunto é emergência climática e as pessoas no poder, é igual. Na verdade, em todos os lugares em que eu estive, a situação é mais ou menos mesma. As pessoas no poder, suas lindas palavras, são as mesmas. O número de políticos e celebridades querendo tirar selfies, são os mesmos.

As promessas vazias são as mesmas. As mentiras são as mesmas, e a inação é a mesma. Não encontrei ninguém, que esteja no poder, que ouse dizer como [a situação] realmente é, porque não importa onde você está, até esse fardo eles deixam pra gente. Nós, adolescentes, nós, crianças.

Nesta segunda-feira, líderes mundiais estarão reunidos aqui, em Nova York, para o “United Nations Climate Action Summit”. Os olhos do mundo estarão voltados para eles. Eles têm a chance de provar que eles também estão unidos pela ciência. Eles têm a chance de tomar a liderança para provar que realmente nos ouvem.

Vocês acham que eles nos ouvem?

Nós faremos eles nos ouvirem! Porque isso é somente o começo. A mudança está vindo, eles gostando ou não.

Obrigada, novamente, a todos que estão aqui, todos que vieram”.
Greta Thunbert. (Foto: Divulgação)
Referências:
ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015
Chris Barrie. Can we think in new ways about the existential human security risks driven by the climate crisis? Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, Melbourne, 30/05/2019
William E. Rees. Yes, the Climate Crisis May Wipe out Six Billion People, TheTyee, 18/09/2019
Greta Thunbert, Nova York, 20/09/2019

http://www.ihu.unisinos.br/592818-jovens-de-todo-o-mundo-uni-vos

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

QUEIMADAS NO CERRADO SÃO MAIS INTENSAS NO MATOPIBA


Matopiba concentra mais da metade das queimadas no Cerrado

In Cerrado, De Olho no Ambiente, Em destaque, Principal, Últimas
 

Uma das principais fronteiras do agronegócio no Brasil, região também lidera casos no acumulado de 2019, com aumento de 44,5% dos incêndios em relação a 2018


Por Caio de Freitas Paes


Não é apenas a floresta amazônica que arde: o combalido Cerrado também sofre com um aumento alarmante das queimadas. O problema na Amazônia dominou as manchetes após o fatídico “dia do fogo”, em 10 de agosto, quando fazendeiros, grileiros e outros entusiastas iniciaram uma imensa queimada, combinada previamente, às margens da BR-163. Mas o aumento generalizado de incêndios em 2019 atinge diretamente o Cerrado.

Mesmo que seja mais adaptado ao fogo e esteja em plena estiagem, quando as chamas se alastram mais facilmente, o bioma passa por um acréscimo de 44,5% dos focos identificados em relação a 2018. Até 15 de setembro, foram 9,6 mil focos a mais que o mesmo período de 2018 — o bastante para superar os casos registrados em todo o ano anterior.

Uma das principais fronteiras do agronegócio do país, o Matopiba sofre com o avanço do fogo. Trata-se de uma área com 73 milhões de hectares, formada pelo estado do Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia. Onze dos vinte municípios mais incendiados em todo o Cerrado desde o “dia do fogo” ficam lá, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Se levarmos em conta o acumulado de 2019 até agora, o problema persiste, pois quatro dos cinco municípios mais atingidos estão no Matopiba: São Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão, no Tocantins; Balsas e Mirador, no Maranhão.

De acordo com o satélite de referência do projeto Queimadas, usado para compor a série temporal e permitir a análise de tendências, desde o início de 2019 houve por volta de 41 mil queimadas em todo o Cerrado, pouco mais de um terço do observado em todo o país. Em 2018, o problema tinha se amenizado em relação ao ano anterior: em 2017, a esta altura eram contabilizados mais de 50 mil focos. Já em 2019, com exceção do mês de maio, em todos os outros houve aumento na comparação com 2018 — o suficiente para que os casos registrados em 2019 superem o acumulado do ano anterior.

“Dizemos que o fogo, historicamente, é uma ferramenta usada para a abertura de áreas e empobrecimento do solo”, diz Mercedes Bustamante, professora do departamento de Ecologia na Universidade de Brasília (UnB). Ela conta que, no Cerrado, é comum a retirada do que há de madeira de qualidade por meio do “correntão”. “Depois, é colocado fogo no que resta”.

De 1970 para cá, estima-se que a savana brasileira já perdeu mais da metade de sua vegetação original, substituída gradativamente por pastagens e atividades agrícolas: mais de 10% da soja produzida no mundo sai dali. Sua conservação é essencial para todos: com 2 milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado dá origem a dois terços das bacias hidrográficas brasileiras, e por isso é considerado o berço das águas do país.

ÁREAS COM AGRONEGÓCIO E EXTRAÇÃO DE MADEIRA QUEIMAM MAIS


Fogo em Tocantins. (Foto: Segurança Pública/Governo do Tocantins)
Tanto na Amazônia quanto no Cerrado é muito comum que a queimada seja uma etapa seguinte ao desmatamento. O Matopiba se destaca em ambos os quesitos. De acordo com o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás, entre 2007 e 2015 a região perdeu mais de 25 mil km2 de suas matas nativas. Praticamente um estado de Alagoas destruído em oito anos.

Na janela temporal do “dia do fogo” — especificamente no mês que compreende sua véspera, 9 de agosto, até 9 de setembro –, um local de nome simbólico no Tocantins encabeça a lista das mais atingidas: Lagoa da Confusão. O município também ocupa o topo da lista dos mais incendiados no bioma na somatória do ano até o dia 9, com 1.122 focos identificados pelo satélite de referência do Inpe. Tamanho destaque se deve justamente ao mês relativo ao “dia do fogo”, quando 545 novos focos foram registrados.

No Brasil profundo, queimadas servem a muitos usos e senhores. Por vezes, a vegetação nativa torna-se um obstáculo aos pecuaristas e monocultores — que não poupam esforços para limpar áreas, plantando pastagem e soja em seu lugar. Não são os únicos favorecidos, pois grileiros ateiam fogo para expulsar indígenas, quilombolas, assentados e agricultores de suas terras. Sem contar os madeireiros que integram o comércio ilegal: eles usam o fogo para se livrar dos restos que deixam pelo caminho. Juntos, eles protagonizam hoje a crise das queimadas.

“Percebemos um enfraquecimento na fiscalização dos órgãos responsáveis, como o Ibama e as secretarias estaduais, e a precarização das brigadas do PrevFogo [do Ibama]“, afirma o padre Alex Venuncio, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Alto Araguaia. “É nessa época do ano que monitoramento e prevenção são mais necessários, porque o fogo se espalha mais facilmente”.

Venuncio estima que mais de 70% da região onde a CPT atua ali tenha sido destruída. Isso significa algo em torno de 81 mil km² quase o tamanho da Áustria. O projeto Queimadas, do Inpe, mostra que municípios nessa divisa entre Mato Grosso e Tocantins estão entre os mais atingidos do país. São lugares como Formoso do Araguaia (TO), Pium (TO), Ribeirão Cascalheira (MT) e São Félix do Araguaia (MT).

Campeã das queimadas no Cerrado, Lagoa da Confusão fica na zona de influência do arco do desmatamento, uma área de 500 mil km² que abrange do sudeste ao oeste do Pará, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. Além do intenso tráfico ilegal de madeira, ali há amplo domínio da pecuária e das monoculturas de soja em geral.

Em pleno Araguaia-Xingu, Lagoa da Confusão viveu um boom da agropecuária nos últimos anos. Dali até a Ilha do Bananal (TO), outro foco de conflitos fundiários, houve intensa expansão do agronegócio: em 2016, estimativas apontavam um rebanho de mais de 93 mil cabeças de gado em áreas onde a prática é proibida. A pecuária ganhou força com o sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai) e a fragilidade econômica dos indígenas dali, pressionados pelos fazendeiros a arrendar suas terras.

“Aqui existem conflitos fundiários históricos, e temos também uma ampla presença de assentados pela reforma agrária: há 70 assentamentos na prelazia [do Alto Araguaia]”, diz o coordenador da CPT. “Existe uma tensão constante e, em muitos casos, as chamas vêm de fora de assentamentos, áreas de proteção e reservas”.

O segundo município mais atingido no bioma no mês do “dia do fogo” é Mirador, no Maranhão, com 506 focos. Com um tamanho equivalente ao de Porto Rico, é um dos vinte pontos que contêm os maiores resquícios de Cerrado dentro do Matopiba. Parte considerável dessa vegetação nativa fica no Parque do Mirador, unidade de conservação estadual mais destruída no bioma nesse mesmo período. Entre 9 de agosto e 9 de setembro, houve pelo menos 312 focos dentro de seus 437 mil hectares.
Dois municípios próximos de Mirador figuram na lista dos mais atingidos: Barra do Corda, com 326 focos, e Fernando Falcão, com 206. Juntos, esses três locais se encontram em uma zona muito cobiçada por madeireiros e, por isso, há constantes invasões nas terras indígenas mais próximas. São as reservas Cana Brava/Guajajara e Kanela as mais afetadas por essas incursões clandestinas; na Terra Indígena Kanela, por exemplo, há um conflito latente desde março de 2018.

Com anuência do Instituto de Colonização e de Reforma Agrária (Incra) e da prefeitura de Fernando Falcão, a reativação de uma estrada que atravessa a reserva tem causado danos profundos sobre os povoados de Aldeia Velha e Escalvado. Há denúncias de desaparecimento e morte de pelos menos dois indígenas ali. Em abril, um grupo de não indígenas armados invadiu a área para remendar a estrada, após membros do povo Memortunré-kanela terem destruído uma ponte no caminho. É grande o temor de uma escalada do conflito, com risco de mais mortes em uma região marcada nas últimas décadas por massacres.

Na prática, as queimadas no Cerrado fazem parte de um ciclo de ocupação de áreas, degradação ambiental e desmatamento do que resta do bioma. “Muitas dessas regiões mais atingidas já são marcadas por conflitos fundiários”, diz Mercedes Bustamante. “Além disso, estamos em um período em que o fogo se espalha mais facilmente pelo Cerrado, favorecendo o seu uso criminoso”.

Com frequência, os incêndios são usados para afugentar moradores das áreas visadas, além de valorizar as terras – artimanha muito usada na Amazônia. Pelo choque de tantos interesses, há tensão entre povos indígenas, quilombolas e posseiros ou arrendatários. Em geral, o resultado é a destruição do que ainda resta de Cerrado no Matopiba.

TERRAS INDÍGENAS CONCENTRARAM MIL NOVOS FOCOS DE INCÊNDIO

Na savana brasileira vivem mais de oitenta grupos indígenas, como os Avá-canoeiro, Karajá, Krahô, Tapuia e Xavante. São eles, muitas vezes, os responsáveis pela preservação do que ainda resta do bioma. Desde 2010, o Cerrado perdeu pelo menos 80 mil km² de suas matas, o equivalente às áreas de Holanda e Suíça juntas.

Nesse contexto, áreas de preservação garantidas pela Constituição, como as terras indígenas, tornam-se um empecilho para o avanço do agronegócio e de atividades extrativistas. Em 2019, essas áreas de proteção estão sob crescente risco por causa das queimadas: entre janeiro e agosto foram mais de 9 mil casos identificados em reservas no país, um aumento de quase 90% na comparação com o mesmo período em 2018. Especialistas defendem que há relação entre o problema e a postura do governo de Jair Bolsonaro, tido como conivente com aqueles que praticam crimes ambientais, como os incêndios florestais sem autorização.

No período relativo ao “dia do fogo”, a gigantesca Terra Indígena Kadiwéu foi a mais atingida: foram identificados 451 focos de incêndio em seus limites. A reserva é imensa, com quase 540 mil hectares — quase o tamanho da capital de Roraima, Boa Vista — no encontro com o Pantanal, no município de Porto Murtinho (MS), próximo de Corumbá e do Paraguai.


Incêndio na TI Kadiwéu. (Foto: Edemir Rodrigues/Subcom-MS)
Esta é uma das terras indígenas mais antigas do Brasil, com a primeira demarcação feita ainda na época de Dom Pedro II, graças à participação dos Kadiwéu — exímios cavaleiros e guerreiros — na Guerra do Paraguai. Hoje, a reserva abriga por volta de 1.700 indígenas da etnia junto a outros povos, como os Chamacoco, Kinikinau e Terena.

Graças à recorrência das queimadas, a reserva conta com duas brigadas de combate ao fogo mantidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com participação de indígenas nas equipes do PrevFogo. As condições, porém, são precárias. Há trinta profissionais ao todo, número muito inferior ao necessário para resguardar um território tão vasto como esse.

Além do mais, há intensa presença de pecuaristas na TI Kadiwéu desde os anos 50. Durante a ditadura, houve invasões em territórios históricos dos indígenas, inclusive com a anuência do antigo Serviço de Proteção ao Índio, o SPI. No início dos anos 80, a reserva viveu uma escalada nos conflitos entre posseiros e indígenas, com algo como 1.800 invasores vivendo dentro de seus limites à época.

Não à toa, hoje toda a região que a cerca é dominada pela pecuária. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, havia pelo menos 589 mil cabeças de gado em pouco mais de 1 milhão de hectares, ou seja, em uma área do tamanho do Líbano dentro de Porto Murtinho. Há graves problemas sociais ali, como casos recorrentes de trabalhadores encontrados em condições análogas à de escravos: entre 2013 e 2017, pelo menos 37 pessoas foram resgatadas e 76 autos de infração foram lavrados em Porto Murtinho e, ao lado, em Corumbá (MS).

Em pleno Matopiba, o Parque Indígena Araguaia foi a segunda reserva mais atingida desde o “dia do fogo”, com 373 focos de incêndio captados pelo satélite de referência. O território abrange três municípios no Tocantins (Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium) que estão na lista dos mais destruídos no Cerrado desde janeiro.

Essa mesma terra indígena encabeça a lista das mais atingidas no bioma desde o início do ano, com 1.376 focos contabilizados. É mais que o dobro do observado na segunda reserva mais afetada até agora, a TI Kadiwéu, com 605 focos registrados no compilado até o dia 9.

“As queimadas se alastram por muitos territórios indígenas onde atuamos, como no caso da TI Urubu Branco, habitada pelos Tapirapés”, diz o padre Alex Venuncio. “Ali, por exemplo, sabemos que as chamas vieram do norte, uma área com muitas fazendas de gado”.

Como se não bastassem os atuais incêndios, o problema tem se repetido nos últimos anos. Em 2017, as chamas tomaram o Parque Nacional do Araguaia, vizinho da terra indígena, quando a unidade de conservação perdeu pouco mais de 330 mil hectares. É como se o parque nacional tivesse perdido duas vezes a área da capital paulista, São Paulo, por causa das queimadas.

O Parque Indígena Araguaia abriga mais de 3.500 Avá-Canoeiro, Iny Karajá, Javaé e Tapirapé em pouco mais de 1.500 hectares, uma área equivalente ao município de São Caetano do Sul (SP). A reserva fica no entorno da Ilha do Bananal, no encontro entre Amazônia e Cerrado, e é cercada pelos Rios Araguaia e Javaés. Além da força da pecuária ali, há outros setores à espreita, como o da mineração.

Há ainda a importância ambiental deste território indígena. De acordo com pesquisas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), todo o entorno da Ilha do Bananal é um dos pontos mais vulneráveis ao aquecimento global no país. A derrubada de matas nativas acentua os efeitos das mudanças climáticas, principalmente quando dá lugar às pastagens e à cultura do gado — como no caso da reserva indígena no Araguaia.

“Se juntarmos o aumento da temperatura global aos efeitos locais do desmatamento, a tendência é que haja secas mais prolongadas e mais intensas – e isso não somente no Cerrado. É a cobertura vegetal que pode nos proteger desses efeitos, porque ela devolve água em forma de vapor à atmosfera mas, quando há desmatamento intenso e queima de áreas, isso fica comprometido”, explica a professora Mercedes Bustamante, da UnB.

A Terra Indígena Cana Brava/Guajajara completa a lista das três mais atingidas desde o “dia do fogo”, com 342 focos registrados. O local abriga 4.500 Guajajara, dispostos em 137 mil hectares –- praticamente o tamanho do município de Piracicaba (SP). Também no Matopiba, essa reserva fica na mesma região de Barra do Corda, Mirador e Fernando Falcão, o ponto mais destruído pelas chamas no Maranhão.

A extração ilegal de madeira é intensa ali, e a presença de invasores por conta da prática traz alto risco aos indígenas. Historicamente, a região é ocupada pelos Guajajara e nos últimos anos foi palco de assassinatos de lideranças desse e de outros povos. Em 2016, num período de apenas três meses, foram seis mortos em diferentes aldeias. Houve requintes de crueldade em alguns dos homicídios, com sinais de tortura nas vítimas — em geral, envolvidas na luta por demarcação de terras e retirada de invasores das áreas reivindicadas por indígenas.

Foto principal: incêndio no Cerrado. (Foto: Agência Fapesp)


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COMO A ESTÔNIA CONCRETIZOU O PASSE LIVRE, COM TARIFA ZERO



Como a Estônia concretizou o passe livre

Tallinn, primeira capital a adotar a Tarifa Zero, desmonta tese conservadora e registra aumento de aprovação do serviço. Democratização do transporte público também reduziu emissões de poluentes — e é apoiada por 90% da população



Allan Alaküla, autor do texto abaixo, é um dos convidados para o seminário internacional Transporte como direito e políticas de passe livre em debate, que acontece entre os dias 16 e 18 de setembro em Niterói-RJ.

Por Allan Alaküla, no Progressive Post | Tradução: Simone Paz

Em julho de 2018, a Estônia virou o primeiro país com transporte público gratuito, onde 11 de 15 condados oferecem serviço de ônibus sem tarifa, para todos. A decisão teve como base a experiência positiva na capital, Tallinn, onde o transporte público é gratuito para seus residentes desde 2013.

Entretanto, acabar radicalmente com todas as tarifas no transporte público pode parecer, de um ponto de vista fiscal, que se tratava apenas de aumentar o subsídio de aproximadamente 80% para 100% no tráfego de ônibus rurais, e de 75% para 95% no transporte público municipal de Tallinn. De fato, nosso transporte público já contava com um subsídio que cobria bem mais do que a metade dos custos antes de se tornar “gratuito”. É o caso da maioria das redes de transporte público no continente europeu. E seria assim, certamente, se incluíssemos no cálculo não somente os custos diretos de funcionamento, mas também o investimento nas frotas de transporte público e sua infraestrutura.

O sucesso dessa ideia na em Tallinn foi assombrosa: antes da implementação, houve críticas de que o transporte gratuito discriminaria aqueles que não usam o transporte público e que a qualidade dos serviços diminuiria muito com a diminuição da capacidade, o aumento do vandalismo e de viagens “de passeio” de jovens e moradores de rua. Mas, uma vez implementada a tarifa zero, essas reclamações foram esquecidas: hoje em dia, o transporte público é reconhecido como um serviço público gratuito — comparável, de certa forma, à iluminação das ruas. De 2013 em diante, os índices de satisfação na qualidade do transporte público melhoraram em todas as categorias questionadas (pontualidade, limpeza, segurança, etc). As pesquisas atuais sobre satisfação dos usuários, no que se refere a serviços públicos, indica 90% de apoio ao transporte público grátis em Tallinn.

O modelo econômico em Tallinn baseia-se em estimular as pessoas que vivem cidade, mas têm sua residência fiscal cadastrada em outro lugar, a fazerem o registro oficial na capital, relocando, assim, seus impostos de renda ao orçamento da cidade. As estimativas oficiais indicam que o número de residentes subiu, desde 2012, de 416 mil a 453 mil pessoas. Pelas estimativas mais conservadoras, a cidade passou a ganhar, a cada ano, 30 milhões de euros a mais, graças aos impostos dos novos residentes oficiais. A perda anual de receita por não vender mais passagens de transporte público foi de 12 milhões de euros.

Tallinn não foi a criadora da ideia da tarifa zero: na verdade, aprendemos muito com os múltiplos exemplos que já existiam globalmente. Porém, após a ideia ter sido implementada, Tallinn virou, sem dúvidas, a maior cidade e a primeira capital, entre outras 100 cidades do mundo com transporte público gratuito. A experiência de Tallinn encorajou e inspirou outros a seguirem o exemplo, e, desde então, Tallinn tem sido muito ativa na rede internacional de cidades, pesquisadores e movimentos de cidadãos pelo transporte público gratuito.

No debate global, existe a afirmação de que para melhorar o transporte público, todos os outros fatores são importantes, menos o preço da passagem. Porém, uma pesquisa feita pelo Eurobarometer, em 2014, perguntava aos cidadãos quais medidas poderiam melhorar os deslocamentos nas cidades: “um transporte público com preços mais baixos” foi a resposta mais comum — dada por 59% dos europeus. “Transporte público de melhor qualidade” vinha apenas em segundo lugar, com 56%. E a acessibilidade (em termos financeiros) era a questão mais importante nos Estados-membros mais ricos: na Suécia, foi o caso de 79% dos que responderam (na Dinamarca, 75%; na Holanda, 73%; e na Alemanha, 73%).

Os objetivos do transporte público gratuito combinam simultaneamente aspectos sociais, econômicos e ambientais. Em cidades maiores, o meio ambiente deve ser a principal prioridade; porém, oferecer transporte público gratuito se refere também ao problema dos trabalhadores pobres, universalmente.
O aumento da pressão sobre pautas ambientais e o crescente abismo entre ricos e pobres devem pressionar os formuladores de políticas a considerar, globalmente, o transporte público gratuito — não apenas nas áreas urbanas, mas também no interior, que é menos povoado. Estônia e sua capital servem de exemplo mundial, como um farol, para aqueles que se interessarem em implementar a tarifa zero.

https://outraspalavras.net/cidadesemtranse/como-a-estonia-concretizou-o-passe-livre/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=18_9_marielle_vive_contra_a_logica_do_condominio_paulo_guedes_pego_na_mentira_dois_caminhos_para_as_novas_ciencias_para_nao_temer_o_transporte_publico_gratuito&utm_term=2019-09-18 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

AMAZÔNIA: ALVO ESTRATÉGICO DO CAPITALISMO


Pedro A. Ribeiro de Oliveira [1]

Os incêndios florestais do mês de agosto representaram um sinal de alarme: a principal reserva ecológica da Terra sendo consumida pelas bordas, sem que o governo brasileiro tomasse providências. Declarações estapafúrdias do Presidente da República deixam transparecer que esse desastre não é fruto de descaso com a Amazônia e seus povos, mas um evento inserido no processo global de apropriação privada de bens-comuns: água, minérios, biodiversidade e terras para a agropecuária.
Na Análise de conjuntura publicada em http://fepolitica.org.br/pedro-ribeiro/analise-de-conjuntura-em-tempos-de-guerra/ e reproduzida pelo IHU em 01/05/2019 usei o conceito de guerra de 4ª geração ou guerra híbrida – aquela que emprega estrategicamente a informação como arma de combate a um poder definido como “hostil” – para explicar o impeachment de Dilma como fruto da aliança entre corporações petroleiras e financeiras dos EUA e os muito ricos brasileiros. A queda daquele governo definido como “hostil” abriu as portas ao capitalismo ultraliberal, com as privatizações na área do petróleo, e em seguida a radicalização anarcocapitalista de Bolsonaro-Paulo Guedes, que visa suprimir todo constrangimento imposto pelo Estado republicano e democrático ao mercado. Devo reconhecer, porém, que me surpreende a improvisação na execução desse projeto, pois o governo de Dilma Rousseff já vinha buscando a integração da Amazônia ao sistema capitalista e bastaria implementá-lo sem truculência para em médio prazo fazer da Amazônia grande fonte de lucros para o capital, sem o risco de uma catástrofe ambiental. Vejamos então mais de perto o que está em curso hoje no Brasil, tendo presente que aqui está apenas uma parte do bioma amazônico.
O desmantelamento da FUNAI e a nomeação de Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente foram um recado de que seriam suspensos os entraves fiscais e administrativos à exploração das chamadas riquezas naturais. Para bom entendedor, meia-palavra basta: se não há fiscalização nem repressão, a apropriação privada de bens-comuns os transforma em mercadorias valiosas. Afrouxada a fiscalização, especuladores, madeireiros, garimpeiros, grileiros e outros transgressores sentem-se liberados para invadir territórios indígenas, reservas ambientais ou promoverem queimadas em suas terras e terras vizinhas.
Outro passo, em continuidade com iniciativas ensaiadas durante o governo Temer será a privatização – ao menos parcial – de reservas ambientais, especialmente aquelas que se mostrem ricas em reservas minerais ou com potencial para a biotecnologia. Paralelamente, abrir concessões para exploração mineral em territórios de povos originários, mesmo que ameace sua sobrevivência enquanto povos. Passo de grande crueldade, que esperamos não venha a ser dado, seria a extinção de Povos Isolados, seja por estrangulamento ambiental, seja por massacre, porque um território não habitado não teria motivo legal para ser preservado.
Enfim, o passo decisivo será o favorecimento à implantação de grandes empresas em toda a Amazônia, especialmente em territórios de Povos Originários, com o estímulo a seus chefes para se tornarem empresários. Combinando-se tal incentivo com a atração de grandes capitais do Exterior, em pouco tempo a Amazônia estaria loteada entre empresas capitalistas. Com sede no Brasil, é claro, mas com grande aporte de capitais externos.
Esse exercício de futurologia tem por base a doutrina do choque, formulada por Naomi Klein (https://jornalggn.com.br/sociedade/a-doutrina-do-choque-de-naomi-klein/): desastres – naturais ou provocados – interessam ao mercado capitalista porque ele se apresenta como o remédio mais eficaz para sua recuperação social e econômica. O raciocínio é de tipo “já que a floresta está queimada, vamos aproveitar a terra para produzir de modo mais moderno”. Para legitimá-lo bastaria uma eficiente campanha de informações pela grande mídia e pelas redes virtuais em favor do “desenvolvimento sustentável” de Povos Originários que se transformem em gerentes da produção mineral ou agropecuária em seus territórios.
Seria esta uma guerra de 4ª geração entre o capitalismo globalizado e os defensores e defensoras da Amazônia. Nela não há invasão armada, como nas guerras do passado, nem agentes infiltrados entre Povos Originários para declarar sua independência e formar uma nação soberana, como parecem temer nossos militares. Ao contrário, as grandes empresas seriam formadas com todo apoio do governo brasileiro e de suas Forças Armadas, garantindo a propriedade privada. E o aumento da exportação de commodities seria a melhor prova do acerto dessa política de crescimento econômico anarcocapitalista.
Contra esse projeto alinham-se diferentes organizações de defesa dos Direitos Ambientais e Humanos, hoje contando com a decidida participação do Papa Francisco, cuja intuição de fazer da Amazônia tema do próximo sínodo da Igreja Católica revelou-se genial. À primeira vista, o capital financeiro em busca de aplicação segura é disparadamente mais forte do que essa parcela da Humanidade que não abre mão de sua humanidade e de sua solidariedade com a Terra e seus Povos; um olhar atento, porém, revela que a força dos fracos é bem maior do que parece.
Primeiramente, é preciso considerar que os segredos da guerra de 4ª geração começam a ser desvendados e seus instrumentos em breve poderão ser utilizados também pelos grupos que defendem a Ecologia Integral e os Povos da Amazônia. As redes informáticas da internet, que até pouco tempo estavam inteiramente a serviço das grandes corporações, começam a ser usadas também no sentido oposto: em lugar da propaganda baseada no manejo de emoções, elas podem ser veículo de informações que têm ao mesmo tempo fundamento real e apelo simbólico, como são as mensagens emitidas por pessoas de grande autoridade moral. Nesse embate, a probabilidade de vitória da verdade sobre a propaganda não é mero desejo piedoso.
Finalmente, é preciso considerar que a ameaça à Amazônia traz à tona duas forças sociais de forte poder mobilizador: Povos Originários e a juventude. A primeira já está na cena política há pelo menos quatro décadas, mas agora vem ganhando vulto a coordenação entre diferentes Povos, inclusive do Exterior. Novidade é a mobilização da juventude, agora puxada pela adolescente sueca Greta Thunberg. Seu apelo aos adultos é contundente: “assumam sua responsabilidade! Adolescentes somos nós, não vocês!”. É preciso levar em conta a força moral desses dois novos atores no cenário político, sobretudo num conflito de informações, quando a credibilidade de quem fala é crucial.
Se esta análise é correta, estamos diante de uma nova batalha da guerra de 4ª geração entre as grandes corporações mundiais e a parcela do Humanidade que se define como responsável pela vida da Terra e se coloca em defesa dos seus Direitos. Dessa batalha pode resultar uma novidade inesperada, muito bem formulada por uma pesquisadora nativa da Amazônia:
Não internacionalizar a Amazônia: amazonizar o mundo
8 de setembro de 2019


[1] Nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

FILME SOBRE AGROECOLOGIA DO MST SERÁ EXIBIDO NA ONU

PARABÉNS, CAMPONESES DO MST! E QUE SEJAM DADOS PASSOS RÁPIDOS E EFICAZES PARA DERROTAR O SISTEMA ENVENENADOR DO AGRONEGÓCIO, MELHORANDO A SAÚDE DA TERRA E DE TODOS OS SERES VIVOS, ENTE ELES NÓS, HUMANOS.

IHU - 12 de setembro de 2019

FILME DO MST SERÁ EXIBIDO NA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU


Curta-metragem "O que é agroecologia?", sobre trabalho em assentamento, com mais de 50 mil visualizações em 19 dias, venceu concurso das Nações Unidas.

A reportagem é publicada por Brasil de Fato, 11-09-2019.

Com mais de 50 mil visualizações em 19 dias de competição o curta-metragem O Que é Agroecologia (https://youtu.be/5svhDXrauLk), produzido por Rafael Forsetto e Kiane Assis – que mostra o trabalho de agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na zona rural de Lapa (PR) – venceu a categoria “alimentação e saúde humana” do Global Youth Video Challenge, das Nações Unidas.
Agora, a obra será exibida durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) fará o discurso de abertura no próximo dia 24, em Nova York, nos Estados Unidos.

Os diretores Rafael Forsetto e Kiane Assis agradeceram aos que assistiram o filme durante a disputa final do concurso e consideraram “uma vitória coletiva”.

“Agora vamos levar a agroecologia e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ao palco mundial e mostrar as alternativas sustentáveis que existem à agricultura convencional! Agroecologia não é apenas agricultura, ela É CULTURA!”, diz o texto. O filme também terá exibição na Conferência de Mudanças Climáticas da ONU (COP 25) em dezembro no Chile.

No assentamento Contestado, a produção de alimentos sem agrotóxicos, por meio de sistemas agrícolas que utilizam todos os recursos naturais sem desmatar, ajudam a colocar comida saudável na mesa dos trabalhadores da região sem contaminar a terra, a água e a saúde de quem planta e de quem come.

A educação de qualidade é respaldada pela Escola Latino Americana de Agroecologia. Construída junto à Via Campesina, a instituição recebe estudantes da América Latina e do Caribe e colabora na difusão de modelos de produção alternativos ao agronegócio. Em parceria com o Instituto Federal do Paraná (IFPR), a escola criada em 2005 já formou três turmas de tecnólogos.

“Eles serão obrigados a prestar atenção ao trabalho que o MST vem fazendo, à relevância do movimento nesse âmbito da agroecologia, e terão que admitir que há alternativas à agricultura agressiva, dependente de agrotóxico. E essa frente vem sendo liderada pelo MST, que é tão demonizado no governo Bolsonaro”, disse ao Brasil de Fato o diretor Forsetto.

http://www.ihu.unisinos.br/592527-filme-sobre-mst-sera-exibido-na-assembleia-geral-da-onu-bolsonaro-estara-presente