quarta-feira, 30 de maio de 2018

OS CAMINHONEIROS EM GREVE DIMINUÍRAM AS EMISSÕES DE GASES ESTUFA!!!

BOA LEMBRANÇA, MARCOS. E BOA REFLEXÃO: PRECISAMOS, DE FATO E URGENTEMENTE, DIMINUIR A QUEIMA DE FONTES FÓSSEIS. É NECESSÁRIA MESMO UMA REVOLUÇÃO ECONÔMICA - UMA OUTRA ECONOMIA.

E VOCÊ INDICA UM DOS CAMINHOS: PRODUÇÃO DE ALIMENTOS COM AGROECOLOGIA, PERMACULTURA E AGROFLORESTA. 

Além das outras graves carências - combustível, alimentos, atendimento hospitalar, medicamentos essenciais, etc. - a greve também gerou uma carência positiva: a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) pelo Brasil!!!

Espero que em breve o INPE produza estatísticas demonstrando isto, e argumentando sobre a URGÊNCIA DA MUDANÇA DO PADRÃO DE CONSUMO E DE PRODUÇÃO, assim como DO PERFIL TECNOLÓGICO DA ECONOMIA BRASILEIRA, na perspectiva da SUSTENTABILIDADE DA VIDA NO PLANETA!!!

Outra lição trazida pela greve: todas as comunidades que trabalham com a produção de alimentos via AGROECOLOGIA, PERMACULTURA E AGROFLORESTA, incluindo as que têm hortas comunitárias ou domésticas não sofreram carência de alimentos durante a greve!!! É o caso de comunidades agroecológicas de Mulheres da Zone Oeste do Rio de Janeiro, de várias ecovilas espalhadas pelo Brasil, e de famílias de trabalhadores da agricultura familiar que atuam na perspectiva de aumentar sempre mais sua autonomia, segurança e soberania alimentar enquanto comunidades e redes solidárias.

Marcos

terça-feira, 29 de maio de 2018

INICIATIVAS POPULARES DE ENERGIA RENOVÁVEL NA PARAÍBA

VISTEM, VISTEM MESMO O SITE DO PROJETO SEMIÁRIDO SOLAR PARA CONHECER O QUE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDO DE FORMA POPULAR NO SERTÃO PARAIBANO.

BASTA ACESSAR O SITE  www. semiaridosolar.eco.br

MANIFESTO INTERNACIONAL PEDE A LIBERDADE DE LULA

Manifesto internacional pede a liberdade de Lula

Intelectuais como Noam Chomski, Angela Davis, Leonardo Padura, Thomas Piketty e Boaventura de Souza lideram manifesto denunciando a prisão política de Lula

https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/163ac1ef0ac5ee0b


Acesse a íntegra do documento através do link acima. Vale a pena pelo conteúdo e pela posição assumida por mais de 300 personalidades internacionais. 


CASA POPULAR NA LÓGICA DA FINACEIRIZAÇÃO


Raquel Rolnik: "A captura da política habitacional pela lógica financeira é perversa"


Rolnik recebeu a equipe do Brasil de Fato na USP, onde leciona - Créditos: José Eduardo Bernardes

Rolnik recebeu a equipe do Brasil de Fato na USP, onde leciona - Créditos: José Eduardo Bernardes



Arquiteta explicou ao Brasil de Fato a relação entre imóveis vazios, capital financeiro e especulação imobiliária

Por Rute Pina, no Brasil de Fato

O Brasil não tem uma política habitacional que centralize todas as complexidades e desafios do tema da moradia. Em vez disso, desde a década de 1960, o Estado promove apenas o financiamento habitacional. Quem faz a avaliação é a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik.

O resultado dessa visão, segundo Rolnik, é que o país não consegue atingir a camada da população que tem mais necessidade e urgência de moradia. "O governo se financeiriza. Todos os cálculos são feitos em cima das expectativas de rentabilidade", aponta a arquiteta.

Rolnik recebeu a equipe do Brasil de Fato na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo, onde leciona e coordena o projeto do LabCidade. Ela foi relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia e diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo entre 1989 e 1992.

Na conversa, a arquiteta explicou a centralidade dos imóveis vazios para no circuito do capital financeiro e sua relação com a especulação imobiliária. "Funciona como garantia. É um ativo que mesmo não sendo usado, como está ali construído e não vai desaparecer, é capaz de alavancar empréstimo. Isso significa que, uma parte importante do espaço construído hoje, está servindo só para ser garantia e não para ser usado."

Abaixo, confira a entrevista da arquiteta na íntegra, em que ela fala também do conceito de déficit habitacional e da segregação social, econômica e racial das cidades.

Brasil de Fato: O desabamento do edifício que abrigava uma ocupação no centro de São Paulo evidencia déficit habitacional na cidade. Você poderia explicar o que significa este conceito?

Raquel Rolnik: Antes mesmo de discutir essa metodologia, está a seguinte pergunta: quantas casas e apartamentos precisam ser construídos para que as pessoas que hoje não têm casa própria possam ter? Essa é a questão que está historicamente por trás da política habitacional utilizada no país, desde do período do BNH [Banco Nacional da Habitação, em 1964], ou mesmo antes, no período getulista.

E, desde que o momento que temos uma política habitacional, ela é a construção de casas acessadas via crédito financeiro hipotecário.

A nossa crítica em relação a esse conceito é o pressuposto dele. Quem disse que as necessidades habitacionais dos brasileiros e brasileiras se resumem ao acesso a casa própria individual nova, construída por uma construtora ou por uma agência público-privada? Fazer isso nos impede de pensar outras alternativas de acesso à moradia.

E mais do que isso: muitas das pessoas hoje moram muito mal. Não exatamente em função das condições específicas da casa, mas dos bairros onde elas vivem. Uma parte importante das necessidades habitacionais dos brasileiros, brasileiras e dos imigrantes estrangeiros é urbanizar ou melhorar as condições de infraestrutura dos bairros existentes.

Esse cálculo me parece que está na raiz de um problema muito mais sério que é uma política de modelo e pensamento únicos. E que, pela natureza de crédito bancário à casa própria, nunca chega em quem precisa — que são as famílias, os indivíduos, as pessoas mais pobres, sem renda ou com renda totalmente informal, e que também acumulam muitas outras vulnerabilidades. Seguramente, um crédito financeiro e hipotecário, mesmo que subsidiado, não é a melhor solução.

No seu livro Guerra dos Lugares você fala de como a gente não conseguir romper, desde a criação do BNH, essa relação entre desenvolvimento urbano e a financeirização e os bancos — independente do governo que esteja do poder.  Por quê?

Nosso modelo histórico, na verdade, não é uma política habitacional, mas de financiamento habitacional. Ou seja, desde o começo, desde a criação do BNH, e principalmente no momento em BNH assume a gestão do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de todos os trabalhadores, a política habitacional é uma discussão de que condições vão ser utilizadas e como esse fundo vai ser utilizado para emprestar para construtoras ou indivíduos e famílias poderem comprar sua casa própria.   

Portanto, não se discute quais as formas de atendimento — quais as necessidades, que tipo de política se faz —, mas se trabalha no sentido do desenho do financiamento. Isso é uma captura total da política habitacional por uma lógica financeira e de um jeito muito perverso, a meu ver.

Se usa o fundo de garantia da aposentadoria dos próprios trabalhadores para financiar habitação no país. Com o seguinte pressuposto: como este fundo paga muito menos juros do que os bancos, então fica muito mais barato. Ou seja, a gente duplamente onera os trabalhadores.

Se a gente for olhar as necessidades habitacionais, quem mais precisa de política pública são faixas de renda que não se encaixam no conceito do financiamento e que só serão atendidas com políticas a fundo perdido — que, a meu ver, não deveriam ser políticas de casa própria.

Essa história atravessou governos petistas, tucanos, governos de todos os tipos. Esse modelo é o que estrutura a política habitacional e de desenvolvimento urbano. Há várias versões disso até chegar no Minha Casa Minha Vida, que é a novíssima versão desse mesmo modelo.

O MCMV conseguiu destravar esse financiamento. Ou seja, mandou os bancos colocarem todos os créditos que eles, em tese e por lei, deveriam usar para empréstimo habitacional. Colocando subsídios públicos do orçamento, junto com o crédito, conseguiu-se fazer com que renda um pouco mais baixa pudesse acessar também esse produto casa própria, ofertado pelo mercado e pelas construtoras privadas.

O problema é que isso significou uma superabundância de crédito habitacional, inclusive, subsidiado em muito pouco tempo. Mais de R$132 bilhões foram disponibilizados em créditos habitacionais.

E como a financeirização se relaciona com a especulação imobiliária?

O efeito disso sobre a cidade e sobre o preço da terra foi tremendo porque, claro, na hora que você tem tanto crédito solto na praça a competição entre os terrenos para ver quem é que vai receber os empreendimentos vai ficar enorme. Então, essa procura das incorporações, das entidades, das pessoas por terra e por imóvel fez subir o preço das terras e dos imóveis tremendamente, muito acima do aumento do preços dos salários que aconteceu também no Brasil, principalmente, entre 2005 e 2013.

Tem mais um elemento que nos ajuda a entender e articula a ideia da especulação imobiliária com a discussão da financeirização. Nesta era de hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo, o governo se financeiriza. Todos os cálculos são feitos em cima das expectativas de rentabilidade.

Neste circuito de hegemonia do capital financeiro, o espaço construído, seja o imóvel ou a terra, tem um papel fundamental no circuito financeiro porque funciona como garantia. É um ativo que mesmo não sendo usado, como está ali construído e não vai desaparecer,é capaz de alavancar empréstimo.

Isso significa que, uma parte importante do espaço construído hoje, está servindo só para ser garantia e não para ser usado. Ou seja, sua função e seu uso é muito mais de funcionar dentro do circuito financeiro do que propriamente abrigar usos e pessoas. Com um pequeno detalhe: esses espaços estão ocupando pedaços da cidade e impedindo que quem precisa do espaço para morar, trabalhar, instalar uma empresa.

Isso tem tido um efeito muito desastroso nas cidade e ajuda a gente entender essa coisa absurda de tanto imóvel vazio e tanta gente precisando ter onde morar.

Essa financeirização da política habitacional teve um efeito de segregação econômica e racial?

A desigualdade socioterritorial nas nossas cidades historicamente tem cor. Sempre a moradia dos mais pobres foi auto-produzida pelos próprios trabalhadores nas periferias, favelas, quebradas e ocupações deste país. A gente tem uma matriz da desigualdade socioterritorial, que já foi chamada de exclusão territorial e de espoliação urbana, que sempre foi carregada por uma marca racial.

O que o processo de financeirização hoje ou de hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo acrescenta? Oque é agravado neste processo da financeirização é justamente o fato de que a vacância, ou seja, o edifício, o espaço construído existir sem ser usado, pode ter um uso tão funcional para as finanças que isso vai ficando cada vez maior e mais intenso até para dentro do estado.

O governo do Estado, por exemplo, tem um parceiro privado na construção do metrô da linha amarela. Este parceiro espera ser remunerado com juros de seus investimentos com a entrada do dinheiro da tarifa do metrô. Mas tem um risco: E se não entrar toda essa tarifa no período do cálculo dessa rentabilidade? O setor privado não tem risco nenhum porque o estado criou um fundo garantidor, que são imóveis públicos vazios que estão funcionando ali para garantir o investimento privado em uma eventualidade do dinheiro das tarifas não entrarem. Ou seja, o próprio Estado também passa agir de forma financeirizada.

Tivemos alguns avanços em legislações, como o IPTU progressivo, em São Paulo, e o Estatuto das Cidades, no âmbito nacional. Por que, elas não têm o resultado esperado?

A luta social em torno do direito à cidade construiu uma pauta importante desde a constituição de 1988 e muito marcada pela existência de uma constituinte, de uma nova ordem legal e urbanística — que era uma pauta institucional, legal, regulatória. A ideia era que, aumentando as possibilidades de regulação do processo de desenvolvimento urbano, isso naturalmente poderia se transformar em um processo redistributivo e mais inclusivo

O problema é que essa regulação se confronta todo dia com um processo e um modelo de produção da cidade que não é feito para ser redistributivo. Cada implementação se transforma em um enorme embate e dificuldade de conseguir implementar isso na prática, por mais que exista um marco regulatório.

No fundo, os mesmos bloqueios que impediram historicamente o acesso à terra e à moradia para quem mais precisa operam, na cidade, para impedir que instrumentos que ampliem o acesso à terra e à moradia também sejam implementados.

É absolutamente necessário não apenas implementar esse instrumento mas lutar com todas as forças políticas no sentido de constituir mais força política para uma pauta inclusiva. O que estamos vendo na prática é o contrário. Cada vez mais, nesta destruição de um imaginário social redistributivo como um todo que vivemos no país, essa ideia de que a questão da igualdade, da justiça territorial, da redistribuição não são mais valores que têm que orientar a cidade. O que tem que orientar a cidade é a competição, produção de mais valor, empreendedorismo — valores que estão, na verdade, enfraquecendo cada vez mais essa pauta regulatória, que vai sendo flexibilizada.

Uma das conquistas importantes no campo regulatório, por exemplo, foi ter Zonas Especiais de Interesse Social [ZEIS] demarcadas no território, reconhecendo a existência de territórios populares e declarando que estes têm que fazer parte das cidades.

Ora, o que aconteceu com a pauta das Zonas Especiais de Interesse Social? O próprio governo não respeita e retira e remove pessoas que moram em uma ZEIS para fazer outra coisa lá, sem levar em consideração o próprio marco regulatório. Vou dar dois exemplos: o Templo de Salomão foi construído em um lugar que estava destinado à moradia popular. Outro exemplo é a parceria público-privada do Hospital Pérola Byington, na região dos Campos Elíseos. Quando isso foi contestado, a Procuradoria do Estado disse que isso era uma interpretação da lei.

Estamos falando de um processo grave de constituição e não reconhecimento desta própria regulação que só vai ganhar força se essa regulação tiver legitimidade. Se tivermos por trás dela uma quantidade suficiente de cidadãos e cidadãs que a compreendam e a defendam.

Edição: Katarine Flor

NOSSOS TERRITÓRIOS SÃO NOSSA PELE, NOSSO AR, NOSSA VIDA

É ASSIM QUE TODOS E TODAS DEVERÍAMOS VIVER, CONVIVER: COM BEM VIVER. TEMOS MUITO CAMINHO PARA CHEGAR LÁ. MAS PRECISAMOS CHEGAR...

CARTA DO I CONVERSATÓRIO DE MULHERES 

Agricultoras familiares, agroextrativistas, ribeirinhas, indígenas, pescadoras, quilombolas e trabalhadoras urbanas, nos reunimos no I CONVERSATÓRIO DE MULHERES para dialogar sobre temas relacionados aos nossos territórios e nossas vidas. Antes de tudo, reiteramos que a floresta, os rios, lagos e igarapés, os recursos madeireiros e toda a rica biodiversidade que compõem o nosso território são elementos constituintes de nossa própria existência, permeiam nossos sentidos de vida, nossas realidades e imaginários, nossa materialidade cotidiana e nossa sagrada ancestralidade.

Entretanto, nossa vida está ameaçada pela expansão de projetos desenvolvimentistas em nossa região que têm expropriado e violado nossos territórios e nossos direitos socioterritoriais. Por isso, DENUNCIAMOS a mineração por grandes empresas; a construção de complexos hidrelétricos; a financeirização da natureza; o monocultivo da soja e toda a estrutura logística para o escoamento de grãos como portos, hidrovias e ferrovias; o uso de agrotóxico na sojicultura que contamina todo o ecossistema hídrico, envenena as plantações agroecológicas de agricultoras familiares, põe em risco nossa segurança alimentar, provoca intoxicações e doenças cancerígenas na população, mata pequenas animais, e instiga conflitos em nossa convivência comunitária .

Todos esses projetos são implementados por empresas nacionais e transnacionais que pregam o falso desenvolvimento, contaminam e destroem nossos bens comuns, expulsam nossas populações de seus territórios e causam desastrosos danos aos nossos modos de vidas. São projetos que integram o sistema capitalista, caracterizado como patriarcal e racista. Por isso, os danos recaem de forma mais direta na vida das mulheres, especialmente das agricultoras familiares, agroextrativistas, ribeirinhas, indígenas, pescadoras e quilombolas, acirrando desigualdades e violências ao nosso território, ao nosso corpo e à nossa liberdade.

Mas, não estamos inertes a essas violações. Por conta disso, ANUNCIAMOS que somos mulheres de uma diversidade identitária que estamos organizadas e articuladas em associações, redes e fóruns, desde o nível local até o internacional. Nossos modos de vida são a mais genuína resistência ao avanço da ganância do capital e a prova de que um outro modelo civilizatório é possível e real: o bem viver. Um modelo que garante não somente a nossa existência, mas também contribui decisivamente para o equilíbrio ambiental do planeta, favorecendo a qualidade de vida das presentes e futuras gerações.

Assim, nossos rios são veias de vida, abastecimento hídrico e alimentar, além de espaços de lazer e entretenimento comunitário. Nossas florestas são celeiros geradores de alimentos, bem como de saúde - nossas ervas, óleos, sementes, folhas e cipós que curam nossos males do corpo e da alma. Nossos saberes populares são fontes de conhecimentos vitais para a manutenção da nossa qualidade de vida. Nossa agricultura é agroecológica - em nossos quintais produtivos manuseamos a mãe terra com carinho, cultivamos comida sem veneno, e comercializamos alimentos saudáveis nas feiras, abastecendo as mesas das famílias com comida livre de agrotóxicos. Nosso artesanato, nossas biojoias e a prática do ecoturismo comunitário também contribuem para a geração de renda das nossas famílias e dinamiza a economia local e regional.

Em suma, ANUNCIAMOS que nossos territórios são nossa pele, nosso ar, nossa vida. Portanto, não comportam cultivo de grãos de morte. Ao contrário, só cabe aqui a semeadura da RESISTÊNCIA. Por isso, reafirmamos nosso compromisso de seguir firmes na luta, convocando as mulheres do Pará, do Brasil, da Pan-Amazônia e do mundo inteiro a estabelecer uma profunda e radical aliança em prol do nosso bem viver, da liberdade do nosso corpo e dos nossos territórios.

Santarém (Pa), 25 de maio de 2018.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

OS SENTIDOS DO TREZE DE MAIO, 130 ANOS DEPOIS

PRECISAMOS MESMO APROFUNDAR O CONHECIMENTO DA HISTÓRIA E PERDER A VERGONHA DE FAZER CRÍTICA E AUTOCRÍTICA. O BRASIL FOI E CONTINUA MARCADO PELA PRÁTICA DA ESCRAVIDÃO. COMO ROMPEREMOS O GRILHÕES IDEOLÓGICOS E POLÍTICOS PARA CONSTRUIR UM PAÍS COM MENOS OU SEM DESIGUALDADE?

Os sentidos do Treze de Maio, 130 anos depois

– 12 DE MAIO DE 2018
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Brasil recebeu ao menos um terço de todos os africanos escravizados. Além disso,  naturalizou a escravidão e radicalizou o racismo, diz Lilia Schwarcz, que lança novo livro sobre o tema
Entrevista a Júlia Dias Carneiro, na BBC Brasil
Sancionada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, a lei que aboliu a escravidão após mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil “saiu muito curta, muito pequena, muito conservadora”, descreve Lilia Moritz Schwarcz. Em entrevista à BBC Brasil, a historiadora diz que as consequências dessa virada de página abrupta, sem políticas para incluir os ex-escravos à sociedade, são sofridas até hoje.
“O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural”, considera Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros livros, de O Espetáculo das RaçasAs Barbas do ImperadorRacismo no BrasilBrasil: uma biografia.
Como parte dos eventos para marcar os 130 anos da abolição, Schwarcz lança nesta sexta-feira (11/05) o Dicionário da Escravidão e Liberdade – 50 textos críticos (Companhia das Letras), em coautoria com o historiador Flávio dos Santos Gomes. Schwarcz é também co-curadora da exposição Histórias Afro-Atlânticas, que será aberta no Masp e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, no fim de junho.
“Estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar”, afirma.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
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Lilia: “Não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural”
Na sua visão, nesses 130 anos desde a abolição, no que o país avançou e no que está parado?
Não há motivo algum para celebrar. O Brasil foi o ultimo país do Ocidente a abolir a escravidão. Às vezes as pessoas falam que foi o último das Américas, mas não. De fato, era chamado na época de ‘retardão’. Tardou demais. As estatísticas oscilam, mas indicam que o país teria recebido entre 38% a 44% da quantidade absoluta de africanos obrigados a deixar o continente. E teve escravos em todo o seu território, diferente dos EUA, por exemplo, que no Sul tinha um modelo semelhante ao nosso, mas no norte tinha outro modelo econômico.
Quando veio a Lei Áurea, em 1888, ela saiu muito curtinha, muito pequena, muito conservadora. “Não há mais escravos no Brasil, revogam-se as posições em contrário”. Corria no plenário uma série de propostas, algumas ainda mais conservadoras, outras mais progressistas.
Como esses grupos mais conservadores reagiram à abolição?
A queda imediata do Império (é resultado da reação desses grupos). A Lei Áurea foi a lei mais popular do Império e a última. Como não se previram indenizações, os grandes produtores de café, até então vinculados ao Império, se bandearam para as fileiras dos republicanos.
A abolição foi um processo de luta da sociedade brasileira. Não foi uma lei. Não foi um presente da princesa (Isabel), como romanticamente se diz. Muitos setores de classe média e de profissionais liberais aderiram à causa abolicionista, que vira suprapartidária na década de 1880. É importante destacar sobretudo a atuação dos escravizados, dos negros, dos libertos, que pressionaram muito o tempo todo, seja por insurreições, seja por rebeliões coletivas, rebeliões individuais, suicídios, envenenamentos.
O que o Estado fez foi retardar a Lei Áurea a um tal limite que ela acabou custando a própria vida do Império no Brasil. Um ano e meio após a abolição da escravidão, o Império acabou.
Qual foi o simbolismo da lei no momento em que foi assinada?
A assinatura do documento foi um ritual caprichadíssimo. Para se ter uma ideia, foram criados tipos novos para a composição da Lei Áurea. O pai do (escritor) Lima Barreto, João Henriques, participou de um grupo de tipógrafos que estavam emocionados com a lei, e compuseram tipos novos para o documento, assinado pela princesa com uma caneta valiosíssima. Todo o ritual teve muito apelo popular. A famosa foto da época (de uma multidão reunida do lado de fora do Paço Imperial, no Centro do Rio, para a assinatura da lei), mostra que a população compareceu, e é possível reconhecer bandeiras de irmandades negras que foram comemorar a abolição.
O ritual tinha tudo para encantar, e encantou. Tanto que mais tarde vimos a população liberta conformar a Guarda Negra, que era contra a República e a favor do Império. Hoje, muita gente pode achar isso uma grande contradição. Não é. Na época, a compreensão era que o Império tinha garantido o final da escravidão, e ninguém sabia o que viria com a República. Havia muito medo de projetos de reescravização. Estava tudo muito instável, nebuloso.
Hoje, sabemos que o ritual era parte da estratégia de dom Pedro 2º, que não estava no país, para garantir o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel. A ideia era que a lei tornaria Isabel tão popular que impediria os projetos republicanos e garantiria a sucessão e manutenção do regime monárquico. O que não aconteceu. Mas o ritual foi realizado com grande pompa e circunstância, com o objetivo de fazer emocionar, e de fato emocionou.
Quais eram os principais vícios da lei?
A lei simplesmente abolia. Dizia que a partir desta data não há mais escravos no Brasil. Ponto final.
A República, que viria um ano e meio depois, tentaria colocar uma pedra no tema da escravidão. Como se tivesse ficado morto no passado junto com o Império. Temos um hino da República, aquele que canta “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. E há uma estrofe que diz: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”. Ou seja, um ano e meio depois, (os republicanos) afirmavam não acreditar mais (que tivesse havido escravidão). Era um processo de amnésia nacional.
Quais foram as consequências imediatas desta abolição sem salvaguardas?
O (momento) pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão dessas populações (de ex-escravos). Eu me refiro a terra, educação, saúde, habitação, todos os problemas estruturais.
Mas isso não quer dizer que a gente só deva culpar o passado. O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural.
As gerações pós-Holocausto viveram o choque com a barbaridade e os horrores da Alemanha nazista. Você acha que no Brasil pós-escravidão houve um senso de choque posterior, uma percepção de que o país perpetrou barbaridades?
Aqui no Brasil, não. Você teve essa percepção em outros lugares. E existem alguns memoriais espalhados pelo mundo que falam do que foi a escravidão, como o memorial da abolição em Nantes, na França.
No Brasil, qual foi o suposto? Que a escravidão era a lei. Era legal. E durante muito tempo foi naturalizada. A ideia da naturalização é terrível. Sempre se mostrou uma escravidão muito benéfica. Basta vermos as imagens que passam a ideia de uma escravidão ordeira, tranquila. Como se isso fosse possível, em um sistema que pressupõe a posse de um homem por outro.
Só muito recentemente é que foi se colocando em pauta a dimensão da chacina, e o fato de a escravidão mercantil da era moderna ter produzido a maior diáspora vista no mundo depois de Roma.
Até o movimento negro contestar a data de 13 de maio, a data era uma data cívica. Era celebrada. Era despolitizada. Atualmente, estamos politizando essa data e deixando bem claro que é preciso lembrar para não esquecer. Mas não é possível celebrar.
Ganha força um movimento de cobrança por essa dívida histórica?
Eu penso que sim. O movimento internacional por cotas e políticas de ação afirmativa é uma tentativa de cobrar essa dívida histórica. Essa discussão começa no Brasil tarde, no fim dos anos 1970, e demora para pegar.
Os dados do censo vêm mostrando como o país é profundamente desigual. Quando comparamos marcadores sociais da diferença, como classe e raça, vemos que raça é sempre um agravante.
Estamos matando uma geração de negros e negras no Brasil. Sabemos que os negros têm menos acesso a educação. Têm menos acesso a saúde. Têm menos acesso a transporte. Morrem antes. São dados radicais que estamos recriando. Eu acho que ações desse tipo (as cotas raciais) são importantes porque há momentos em que é preciso desigualar para depois igualar. Não se pode falar em uma meritocracia universal num país tão desigual como o Brasil.
A eleição da Marielle Franco no Rio foi um exemplo da força que movimentos em prol da igualdade racial e de gênero vêm ganhando. Como você compara a força desses movimentos hoje com o que acontecia na sua juventude?
A minha geração viu o crescimento dos direitos civis, do direito à diferença na universalidade, e se orgulhou muito dessas novas conquistas. Acho que, no Brasil e no mundo, nós acreditamos que essas conquistas democráticas estavam de alguma maneira asseguradas.
O que estamos vendo agora é um momento claro de crise e recessão democrática, colocando em risco essas conquistas.
A morte da Marielle representa muito esse momento. Depois de 30 anos de conquistas democráticas, começamos a ver que direitos não são conquistados para sempre.
É absolutamente simbólico que sua morte tenha ocorrido bem no ano dos 130 anos da abolição. A Marielle usou das franjas do sistema. Ela se formou na Maré, entrou na PUC por política de cotas, fez valer o seu mérito, virou uma das vereadoras mais votadas no Rio por sua pauta de inclusão racial e de gênero. Sua morte ainda sem respostas é outro escândalo da nossa democracia.
No livro Brasil: Uma Biografia, você e a historiadora Heloisa Starling dizem que o país é uma obra ainda em aberto, e questionam se conseguiria consolidar a república e a democracia. Recentemente, a perspectiva ficou mais pessimista?
Quando terminamos o livro, estávamos encantadas, Heloisa e eu, com as passeatas de 2013, com as manifestações, com a ideia de um Brasil mais plural, mais vigilante. Acho que todos ficamos. O que não notamos era que existiam dois grupos que desfilavam na avenida (nos protestos de 2013). Sabíamos, mas depois ficou mais claro. Um que queria esse Brasil diferente, mais plural, mais inclusivo, mais variado; e outro que também queria um Brasil diferente, mas que, de alguma maneira, estava colocando tudo na conta de Dilma Rousseff e de um partido. Um Brasil que queria não pluralidade, mas de fato eliminar o adversário.
Ideologias políticas à parte, acho que o impeachment da presidente Dilma abriu a tampa da democracia no Brasil e deu lugar para a política de ódios, de intolerância. A temperatura política acabou derretendo as nossas instituições. Quando escrevemos Brasil: Uma Biografia, Heloisa e eu dizíamos que a democracia estava forte porque as instituições estavam consolidadas, mas a república ia muito mal. Agora vemos que tanto a república como a democracia vão muito mal, com as instituições muito enfraquecidas e o descrédito da política e dos partidos. Vivemos um momento que pede muita vigilância.
Nessa atual conjuntura, como você vê o cenário para as eleições deste ano?
Quem diz que sabe, mente. Não vejo nenhum sinal agora que permita comentar como vai ser a composição dos partidos, quem vai se apresentar de fato. Há muitos sinais para ficar em alerta. É preciso aguardar.

terça-feira, 15 de maio de 2018

CRISTÃO SE ALIMENTA DO EVANGELHO, NÃO DE AUTOAJUDA

Roberto Malvezzi (Gogó)

Não leio livrinhos de autoajuda, muito menos esses escritos por padres e pastores. Tenho um evangelho para ler, com sua boa-nova e suas cruzes. Assim é a vida, assim é o Deus dos vivos e não um Deus de mortos (Lucas 20,38). De resto, somente bons livros, tantas vezes difíceis, mas que ajudam a entender o mundo.

Na vida tudo acontece simultaneamente. Nesse momento, enquanto escrevo, outros estudam para aprender a escrever, outros permanecerão analfabetos. Enquanto alguns estão doentes, outros fazem festa. Enquanto alguns se alegram, outros se entristecem. Enquanto alguns comem, outros passam fome. Enquanto alguns viajam, outros estão presos. Enquanto alguns nascem, outros morrem.

Por isso, é preciso rir com quem ri e chorar com quem chora (Romanos 12,15). Não há vida só de risos, não é possível excluir as agruras e cruzes de nossas vidas. É possível que Deus nos ajude a carrega-las, afinal, aprendemos que sua cruz é leve e seu peso suave (Mateus 11,30). A cruz de Deus não é desumana e cruel como as do capitalismo, que impõe jornadas de trabalho acima da capacidade humana, a um salário indigno dos animais. Ainda mais, temos que ajudar as pessoas a carregar suas cruzes, até porque também precisamos que outros nos ajudem a   carregar as nossas (Gálatas 6,2).

Princípio moral é o evangélico, isto é, “a quem muito foi dado, muito será cobrado” (Lucas 12,48). Portanto, a quem pouco foi dado, pouco será cobrado. A quem nada foi dado, nada será cobrado. Deus se curva diante da situação de cada um, não há princípios gerais iguais para todos e todas como se não houvesse diferença entre a situação de um e de outro. Não é relativismo moral, é justiça.

Não passo correntes para frente, não aceito ameaças caso não passe, não pago boletos recebidos por correio caso não seja pedido, mesmo que seja em nome de santos, de causas nobres ou mesmo de Igrejas. Faço minhas contribuições conscientemente.

Não vou à missas de cura e libertação, a sessões de descarrego e exorcismos, a outras magias que inseriram no cardápio de missas e cultos. Toda missa é de libertação, ou não é missa.

Em tempos de manipulações religiosas, de gente que se enriquece em nome de Deus, de pressões sobre as consciências frágeis, é melhor nos atermos à essência do Evangelho: “amarás a teu Deus de todo teu coração, com todas as tuas forças e com toda tua alma. Amarás a teu próximo como ti mesmo” (Lucas 10,26-27). “Cultivar e guardar a criação” (Gênesis 2,15).

Nesse tripé bíblico escapamos dos mercenários, do cativeiro das magias e dos mágicos religiosos de nosso tempo.