quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

COBRAR DOS RICOS É COBRAR DE POUCOS NO BRASIL

FALA-SE MUITO, NA MÍDIA, REPETIDA MIMETICAMENTE POR MUITAS PESSOAS, QUE O BRASIL É O "CAMPEÃO DOS IMPOSTOS". ISSO SÓ É VERDADE COM O SEGUINTE ACRÉSCIMO: SOBRE OS MAIS POBRES. É ISSO: O BRASIL É CAMPEÃO DE IMPOSTOS SOBRE OS MAIS POBRES. JÁ OS RICOS, O QUE REALMENTE SÃO RICOS, QUE NÃO PASSAM DE O 0,1% DA POPULAÇÃO, CONTAM COM 66% DE ISENÇÕES - E ISSO SOBRE A RENDA E RIQUEZA DECLARADA, SEM CONTAR, PORTANTO, COM A QUE ESCONDEM EM PARAÍSOS FISCAIS.

LEIA O ARTIGO PARA ENTENDER QUE QUANDO SE PROPÕE E EXIGE QUE OS RICOS PAGUEM MAIS, É PRATICAMENTE CERTO QUE VOCÊ NÃO ESTÁ INCLUÍDO, POIS O BRASIL É CAMPEÃO DA DESIGUALDADE.  


Quando cobramos dos mais ricos, não estamos falando de você
Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

Quando cobramos dos mais ricos, não estamos falando de você

Foto: Reprodução 

Em novembro de 2017, escrevi um artigo em que fiz muitas críticas ao relatório do Banco Mundial sobre o Brasil. Um dos problemas que apontei foi a completa falta de sentido e a distorção causada pelo relatório quando se utilizava da composição de classes sociais do país. Não parecia racional, científico, muito menos honesto, atribuir o termo “privilégio” a pessoas que estivessem no 40% mais rico da população, por exemplo.
Pois bem, nas semanas que se seguiram, três trabalhos verdadeiramente científicos vieram à tona para acabar de vez com essa narrativa distorcida do Banco Mundial. Dois estudos realizados pela Oxfam e outro pelo World WealthandIncomeDatabase (WID) mostraram a realidade da divisão de classes no Brasil. E a conclusão é de que a desigualdade brasileira atingiu um nível tão alto que apenas uma parcela ínfima da população poderia ser considerada realmente rica.
Boa parte do relatório do Banco Mundial faz menção aos 40% mais ricos do país ou, às vezes, aos 20%. O Banco, porém, escolheu propositalmente não especificar tal extrato social, ignorando a heterogeneidade do mesmo. Fato é que não é preciso nenhuma renda estratosférica para um brasileiro se enquadrar nessas faixas sociais.
Segundo a Oxfam, basta uma renda familiar per capita de cerca de dois salários mínimos (algo em torno de R$ 1.800,00 por membro da família) para que um brasileiro figure entre os 20% mais ricos. Mesmo para estar entre os 10% mais ricos esta renda não precisa ser muito alta. Três salários mínimos per capita (ou R$ 2.800) já são suficientes para tanto.
Para se ter uma visão um pouco mais prática do que isso representa, imagine uma família constituída por um pai, uma mãe e um filho menor de idade. Imagine, agora, que este pai recebe um salário de R$ 4,5 mil mensais, mesmo valor recebido também pela mãe. Esta família soma uma renda total de R$ 9 mil mensais que, dividida entre seus três membros, representa uma renda familiar per capita de R$ 3 mil.
Ou seja, esta família está inserida no seleto grupo dos 10% mais ricos do país. Ainda assim, caso essas pessoas vivam em uma grande cidade como São Paulo, boa parte dessa renda já será consumida pelos gastos com moradia. Com uma média de R$ 34,38/m², São Paulo tem o valor de aluguel mais alto do país. Esta família certamente pode dispensar os alugueis de bairros de classe alta, como Vila Olímpia ou Itaim Bibi, onde essa média ultrapassa os R$ 65,00/m².
A família poderia escolher morar confortavelmente em um bairro de classe média com fácil acesso à transporte, como, por exemplo, Tucuruvi, onde um imóvel de 65m² e dois dormitórios pode ser alugado por um preço médio de R$ 1.321,00. Caso o imóvel seja um apartamento, o preço do condomínio poderia, facilmente, elevar tais gastos para cerca de R$ 2 mil mensais. Ou seja, esta família gastaria cerca de 22% de sua renda em habitação, algo até abaixo dos 30% usualmente recomendados.
Ressalte-se que, mesmo com uma renda digna de estar entre os 10% mais ricos do país, cogitou-se, aqui, apenas a hipótese dessa família escolher morar em um bairro de classe média sem, contudo, poder optar por comprar uma casa própria. Isso porque, segundo uma pesquisa realizada pela Exame no ano passado, com uma renda familiar de R$ 3 mil, esta família teria acesso, no máximo, ao financiamento de um imóvel de até R$ 90 mil.
Com um preço por metro quadrado cada vez mais distante da realidade brasileira, mesmo um bairro considerado não tão caro para o padrão paulistano como Tucuruvi já está muito além deste valor de financiamento. A não ser que escolha um imóvel na periferia da Grande São Paulo, onde estaria sujeita aos problemas de falta de apoio público recorrentes nessas regiões, como o transporte precário, esta família jamais poderia realizar o sonho da casa própria.
Desse modo, como chamar de elite quem sequer pode ser chamado de proprietário?
Não bastasse o alto custo da moradia em uma grande cidade, estima-se que esta família gaste, ainda, pelo menos 21% do seu orçamento em tributos. Somando à moradia, lá se vai metade do orçamento de R$ 9 mil desta família. Optando por serviços básicos privados como plano de saúde ou educação para seu filho, pouco sobrará para essa família poder dizer que é uma acumuladora de capital.
Não quero aqui, de maneira nenhuma, colocar esta família “fictícia” como a grande vítima do sistema de desigualdade brasileiro. Pelo contrário, quero demonstrar que para o brasileiro ter acesso a um mínimo de direitos básicos e fundamentais que a Constituição nos garante como cidadãos, é preciso estar, no mínimo, entre os 20% mais ricos do país. Note que, até agora, não citei qualquer privilégio. Falei sobre moradia digna, transporte público de qualidade, educação e saúde.
É importante frisar, porém, que pelo menos metade da população brasileira vive com menos de um salário mínimo, ou seja, com uma renda inferior à R$ 937,00. São pessoas que não têm acesso sequer ao mínimo, sequer aos mais básicos dos direitos que se possa imaginar.
Ainda assim, não se pode dizer que a diferença entre os “últimos colocados” dos 10% mais ricos (como a família fictícia) seja um abismo entre esses 50% mais pobres. Afinal, uma diferença de cerca de R$ 2.000, pareceria ser algo facilmente remediável com políticas públicas básicas e nada complexas.
Mas se entre a maior parte dos brasileiros não existe uma diferença de renda absurdamente grande, então onde estaria o problema?
Para chegar ao ponto central dessa questão, é necessário perceber que, à medida que se aproxima do topo da pirâmide social, a diferença de renda vai aumentando exponencialmente, aí sim formando um verdadeiro abismo.
Foi assim que a Oxfam chegou a conclusões estarrecedoras. Hoje, sabe-se, por exemplo, que os 6 homens mais ricos do país têm a mesma riqueza que a metade mais pobre do Brasil (cerca de 100 milhões de pessoas). Sabe-se, também, que os 5% mais ricos possuem a mesma fatia de renda que os outros 95% de brasileiros mais pobres (aqui incluída a família fictícia).
O mesmo estudo ainda mostra que apenas 1% do país tem uma renda acima de R$ 20 mil e, para se estar entre o seletíssimo grupo daqueles que a Oxfam considera “muito ricos”, o 0,1% mais rico do país, é preciso ter uma renda de pelo menos R$ 80 mil. Enquanto a diferença entre uma família que está no início dos 10% mais ricos do país e uma família que está na metade mais pobre do país é de cerca de R$ 2 mil mensais, ela se torna um abismo de dezenas de milhares de reais quando a comparação é com o topo da pirâmide.
Estes dados são confirmados pelos estudos publicados pelo WID, que colocaram o país como líder mundial em desigualdade, atrás até mesmo de países do Oriente Médio.
A pesquisa liderada por Piketty revelou que o 1% mais rico do país detém 27,8% da riqueza nacional. No Oriente Médio, conhecido de forma caricata por seus milionários, esse número é de 26,3%. Quando analisados os 10% mais ricos do Brasil, a concentração de riqueza se mantém, mas é um pouco menos impactante. Essa faixa possui 55% da renda nacional, número similar ao da Índia ou da África Subsaariana, por exemplo.
Vale dizer que desses 55%, pouco mais da metade pertence ao 1% mais rico, enquanto os outros 9% (aqui incluída nossa família fictícia) divide a outra metade. Também é importante lembrar que estes números podem ser ainda piores, já que a parcela mais rica da população, muitas vezes, esconde parte de seu patrimônio e renda em paraísos fiscais.
Tudo isso nos leva a pensar que uma política de distribuição de renda é mais do que urgente no Brasil.
Não parece proporcional, nem racional (pra não dizer que parece estúpido), afirmar que os 5% mais ricos do país realmente trabalhem o suficiente para “merecer” uma remuneração total que seja tão grande quanto a soma da remuneração dos 95% restantes.
E há uma série de mudanças estruturais que podem ser feitas para mudar esse quadro. Desde investimentos em áreas públicas básicas como a saúde e a educação até o combate às práticas rentistas e especulativas (logicamente acessíveis apenas aos que conseguem acumular capital para investir), valorizando práticas realmente produtivas e a força de trabalho.
Há, ainda, a óbvia questão tributária, já que este nosso sistema é altamente regressivo, ou seja, cobra mais impostos de pobres do que de ricos. Enquanto a classe média (entre 3 e 20 salários mínimos) tem uma média de apenas 17% de isenção de impostos, o 0,1% mais rico chega a ter uma isenção média de 66%.
O objetivo deste artigo, porém, não é esmiuçar as possíveis soluções para este problema, algo que poderá ser feito em outra oportunidade. O objetivo, aqui, é apenas pontuar uma questão que não parece clara, ainda, para o brasileiro em geral, que é a noção de classe. A Oxfam já demonstrou bem isso em sua pesquisa, ao comprovar que, independentemente de sua renda, o brasileiro não sabe dizer, com exatidão, a qual extrato social ele pertence e nem o que isso significa.
Quem luta contra a desigualdade deve compreender que mesmo uma renda familiar per capita de R$ 5 mil reais não está nem perto de representar um privilégio. A Oxfam não classificou à toa a classe média como o extrato que tem um rendimento entre 3 e 20 salários mínimos (ou seja, algo em torno de R$ 18.000).
Seria irracional classificar como elite uma parcela da população que, ainda que ganhe bem e tenha acesso a todos seus direitos básicos, não tenha a capacidade financeira de transformar seu patrimônio e seu capital em renda.
Por outro lado, o acesso a essas informações também é vital para que boa parte da classe média entenda que, quando se fala em uma política de tributação dos mais ricos, não estamos nos referindo a eles, mas a apenas cerca de 1% de todos os brasileiros.
Superadas essas distorções do debate, quem sabe poderemos, enfim, caminharmos juntos para a construção de um país mais igual?

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

http://justificando.com/2018/01/02/quando-cobramos-dos-mais-ricos-nao-estamos-falando-de-voce/?utm_campaign=newsletter_rd_-_03012018&utm_medium=email&utm_source=RD+Station 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

ARCEBISPO DE RECIFE: PARA NOMEAR DOM HELDER TEMER DEVE MUDAR SEU GOVERNO

MAIS UM PRONUNCIAMENTO SOBRE O ATO DE TEMER NOMEANDO DOM HELDER COMO PATRONO DOS DIREITOS HUMANOS. PODE? SÓ DE TEMER MUDAR TOTALMENTE A ORIENTAÇÃO POLÍTICA DE SEU GOVERNO. SEM ISSO, NÃO PASSA DE TENTATIVA DE ENGANAR O POVO, CADA DIA MAIS CASTIGADO COM RETIRADA DE DIREITOS.

LEIAM E DIVULGUEM. É UM BOM COMEÇO DE 2018.

Artigo do arcebispo: “Dom Helder Camara, patrono brasileiro dos Direitos Humanos”

               Dom Helder Camara, patrono brasileiro dos Direitos Humanos.

Nota de esclarecimento

“Felizes sereis quando os homens vos odiarem, expulsarem, insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do Homem. (…) pois era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. (…) Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois era assim que seus antepassados tratavam os falsos profetas” (Lc 6, 22- 23 e 26).

Queridos irmãos e irmãs de nossa arquidiocese,

Todos nós fomos surpreendidos pela Lei n. 13581, de 26 de dezembro de 2017, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República Michel Temer. Declara Dom Helder Camara patrono brasileiro dos direitos humanos.
Todos os brasileiros conscientes e que amam a justiça e o direito concordam que Dom Helder é nosso patrono em toda a luta pacífica pela justiça, pela paz e pelos direitos humanos, tanto individuais, como coletivos das minorias fragilizadas pela sociedade dominante. No entanto, nos surpreendemos pela ambiguidade desse decreto, sentimento já expresso por amigos de Dom Helder, inclusive, Marcelo Barros que escreveu uma profética carta dirigida ao Dom da Paz. O texto dessa lei é sucinto e não explicita motivações, nem consequências. No entanto, nenhum ato dessa natureza é neutro ou sem repercussões.
Em seu tempo, o profeta Jeremias adverte os governantes do seu povo: “Sem responsabilidade, querem curar as feridas do meu povo dizendo apenas Paz, Paz, quando paz verdadeira não existe. Deveriam envergonhar-se, pois o que fizeram foi horrível, mas não se acanham, mesmo eles não sabem o que é ter vergonha” (Jer 8, 11- 12).
É nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos dar peso às palavras e exigir dos poderes públicos coerência em seus posicionamentos. Se a Política que deveria ser um exercício nobre do serviço ao bem comum está tão desacreditada é porque os políticos não primam pela coerência entre o seu falar e o seu agir.
O que significa essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e comprometeu todo o trabalho que vinha sendo feito na luta contra todo tipo de discriminações? Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988? E o que dizer da reforma da Previdência Social pela qual esse mesmo governo pressiona de formas ilícitas para vê-la aprovada?
Como arcebispo de Olinda e Recife, ministério que foi ocupado por Dom Helder Camara, sinto-me, em consciência, obrigado a declarar publicamente que esse decreto presidencial, para ser sincero e coerente, precisa ser acompanhado por outro modo de governar o país e de cuidar do que é público, principalmente do bem maior que é o povo, sobretudo os mais fragilizados.
Em nome de Deus, fonte de Amor e de Vida, conclamo os cristãos e todo o povo brasileiro a prosseguirmos a luta pacífica pela justiça e pela paz. Assim, como fez Dom Helder Camara, trabalharemos pelos Direitos Humanos a partir da defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, das minorias excluídas e de todo ser vivo.
O Espírito de Jesus que nasceu como pobre nos acompanhe e nos fortaleça nesse caminho,

Dom Antônio Fernando Saburido
Arcebispo de Olinda e Recife

sábado, 30 de dezembro de 2017

TEMER INSULTA A MEMÓRIA DE DOM HELDER

Roberto Malvezzi (Gogó)

Uma notícia estranha, que nem circula na grande mídia, afirma que Temer publica por decreto que D. Hélder Câmara é o patrono dos direitos humanos no Brasil. A iniciativa teria vindo do Congresso Nacional.

Muitas vezes não dá para distinguir se esse governo é estúpido, cínico, cruel, ou tudo isso e muito mais. Porém, quem tem uma unha de decência intelectual e ética sabe que a maioria desse Congresso e o governo Temer são antagônicos a tudo que D. Hélder foi e sempre defendeu.

Portanto, essa iniciativa só pode ser um insulto à Igreja Católica, já que grande parte do episcopado tem se oposto às crueldades dos mandarins de plantão. D. Hélder merece esse patronato, mas não pelas mãos desse governo.

Não sei a quem cabe recusar essa coisa. Talvez a CNBB ou mesmo o Vaticano através da Nunciatura. O certo é que, se a Igreja Católica do Brasil não reagir a essa ofensa, aqueles que conviveram com D. Hélder e todos os defensores dos direitos humanos, deveriam imediatamente se comunicarem com o Papa Francisco para alertá-lo sobre o insulto e cobrar dele uma posição diante desse cinismo.

Ou, então, só há uma possibilidade de aceitar esse patronato: que Temer revogue o congelamento dos investimentos em saúde e educação; revogue a reforma trabalhista que já joga mais gente no desemprego; revogue as privatizações, inclusive dos bens naturais como terra, água e petróleo; cancele qualquer tentativa de reformar a previdência; retome todas as políticas públicas canceladas como a captação da água de chuva no Nordeste, o Bolsa Família, etc.; principalmente arrume as malas e vá embora, deixando o povo brasileiro em paz.


DOM HELDER: PATRONO DOS DIREITOS HUMANOS, MAS NÃO OS DE TEMER!

FAÇO MINHAS SUAS PALAVRAS, MARCELO, E DESEJO QUE A REAÇÃO SEJA FORTE CONTRA ESSA OFENSA DO TEMER A DOM HELDER E A TODAS AS PESSOAS, AO PONTO DE GERAR CONSCIÊNCIA DO CINISMO COM QUE AS ELITES USAM O POVO E SEUS VERDADEIROS AMIGOS E DEFENSORES. E QUE ESTA CONSCIÊNCIA NOS LEVE A AGIR COM FIRMEZA EM 2018, ENFRENTANDO E DERROTANDO TUDO QUE ESSE GOVERNO ILEGÍTIMO TEM IMPOSTO DE SACRIFÍCIOS AO POVO COM APOIO DO CONGRESSO E DO JUDICIÁRIO.



                      Recife, 29 de dezembro de 2017

Querido Dom Helder Camara,
                     
 Nesse Natal, a saudade bate como nunca. Dá-me uma vontade louca de conversar com você. Não tenho saudade dos anos 60, nos quais, pelas suas mãos, fui ordenado presbítero para o povo de Deus. Nem quereria voltar aos anos 70, quando tive a graça de ser seu secretário para assuntos ecumênicos. Na linha da espiritualidade de Natal, quero mesmo assumir a realidade do aqui e agora. Só tenho saudade é de ouvir sua voz e saber suas posições a respeito de algumas coisas que estão acontecendo.
Qualquer dia, lhe escrevo com notícias sobre a nossa querida arquidiocese. Agora, quero falar mesmo do Brasil. Hoje pela manhã, passando no aeroporto de São Paulo, por acaso, entro no email e leio uma mensagem do amigo Roberto Malvezzi (Gogó), contando que o governo Temer decretou que você, (acredite se quiser, você, Dom Helder Camara), é o patrono nacional dos Direitos Humanos. Depois, João Pedro completou a informação de que se tratava de uma proposta de um deputado chamado Arnaldo Jordy do PPS do Pará que tramita na Câmara desde 2015 e que agora o Temer resolveu sancionar. Sem deixar claro porque fazia isso e que sentido tinha essa homenagem repentina. Gostaria muito de que você pudesse se manifestar a respeito dessa iniciativa de um governo como esse que  o torna patrono nacional dos Direitos Humanos. Isso é uma honra ou é um insulto? Que Direitos são esses? E de quais humanos? Os que estão no governo e dele se beneficiam? Quais direitos humanos sobraram do congelamento de gastos do governo em educação e saúde? De que direitos humanos o governo pensa que você é patrono - os que ainda podem restar depois das regras e normas baixadas para aliviar a barra dos latifundiários e donos de empresas que praticam trabalho escravo em suas propriedades? Os direitos humanos do povo que sem votar perde todos os dias direitos adquiridos a suor e sangue na Constituição de 1988? Que direitos humanos terão os cadáveres dos pobres que morrem sem poder aposentar-se por causa da reforma pensada pelo governo Temer?
                     Vai ver que nesse Natal baixou o Espírito que anunciou a Maria a novidade da encarnação do Verbo e Temer pensou nos direitos humanos dos que votaram no governo Dilma e se arrependeu da traição que fez e do golpe que deu? Será que ele quer pedir ao Moro e ao Gilmar Mendes que leve em conta os direitos humanos de Lula e dos políticos do PT que eles tanto odeiam? O que será que está por trás dessa iniciativa do Temer?
                      Parece que os poderes no Brasil gostam de usar o seu nome quando precisam de limpar alguma barra suja. Em 2010, o Senado Federal aprovou um aumento de 60% para os salários dos senadores. A notícia repercutiu mal no Brasil. Poucos dias depois, o Senado aprovou conceder a comenda Dom Helder Camara para os Direitos Humanos a um bispo católico. No caso era Dom Edmilson Cruz, então bispo de Limoeiro do Norte, no Ceará. No céu, você ter sabido do que aconteceu. O bispo foi ao Senado e em discurso aberto rejeitou a comenda. Disse que seria incoerente se aceitasse aquela comenda dada pelo mesmo Congresso que legislava contra o povo e disse claro: "Quem age assim não é parlamentar. É para lamentar". 
Ainda nos anos 60, o governo militar resolveu conceder uma medalha da Paz a Dom Abade Basílio Penido e a dois bispos de Pernambuco (Dom Augusto - de Caruaru e Dom Milton de Garanhuns). Dom Abade tinha ainda um bom diálogo com generais do IV Exército. Mas, alguém o advertiu de que aquela homenagem era para manifestar que na Igreja nem todos tinham a linha "radical" de Dom Helder Camara, na época, já muito criticado. Dom Abade se sentiu muito tentado a receber, mas em contato com os dois bispos (mais tradicionais e até ingênuos), os três decidiram rejeitar e dizer por que. Não era normal eles serem homenageados em um momento como aquele e sem nenhuma referência ao arcebispo.
                    Lutero dizia que "Deus prefere o insulto de quem é justo do que o louvor de quem pratica injustiça". Você, Dom Helder, sempre agiu assim. Como iria aceitar tal homenagem? Mas, quem pode atualmente lhe representar para dizer claramente ao governo Temer e ao povo brasileiro porque você se sentiria constrangido em aceitar tal homenagem e que só a aceitaria se o governo mudasse totalmente o seu modo de conceber o p poder e a orientação que tem em sua gestão. Quem pode lhe representar?
Roberto Malvezzi escreveu que alguns bispos (não sei quais) já manifestaram o seu protesto contra essa medida. Talvez, haja um ou outro que pense: "Se a medida é justa e correta, pouco importa quem a faz e com que intenção. A medida é boa e deve ser apoiada". Parece que Jesus não pensou assim quando contestou o doutor da lei que o chamou de bom. "Por que me chamas de bom?". Em outras palavras: "Que direito você tem para me chamar de bom? Só Deus é bom" (Mc 10, 17 ss).
Talvez, o mais pedagógico fosse que todos os cidadãos brasileiros, incomodados ou mesmo agredidos por essa homenagem declarem que o governo não tem o direito de usar o nome Helder Camara para seus propósitos maquiavélicos e deletérios. Esperemos que o Instituto Dom Helder Camara (IDHEC) se manifeste, que a Escola de Fé e Política Dom Helder Camara se posicione, que a Agência de Notícias Dom Helder Camara da CNBB denuncie e que todos os movimentos sociais gritem contra essa medida e anulem qualquer tramoia que esse governo golpista e insensível aos pobres tenha planejado.
                  No Natal, celebramos os santos inocentes, crianças que, segundo a tradição, foram mortas por Herodes. Hoje, devemos ser santos lúcidos, críticos e atentos ao que ocorre no mundo. José Saramago critica São José pelo fato de que, quando avisado em sonhos de que Herodes iria matar as crianças de Belém, fugiu sem antes ter advertido aos vizinhos e protegido as outras famílias. Apesar de saber que essa história é um midrash narrativo e não um fato real, atualmente temos de ser mais cuidadosos e não deixar primeiro que os inocentes morram para depois fazê-los santos. Dom Helder, você sempre foi e é nosso patrono dos direitos humanos, mas não os do governo Temer e sim os das organizações sociais que nesse 2018 vão refazer várias de suas campanhas e vão mudar o Brasil. Inspire-nos nesse caminho e nos abençoe. Seu irmão menor Marcelo (o monge do qual vc fala que jovem lhe procurou em crise de vocação e que você aconselhou. Você fala dele em uma de suas vigílias em 1965, mas evita dizer meu nome para não me expor). Agora não há mais esse risco e podemos sim colocar o nome de todos nós na sua vigília pelo Brasil.
              Abençoe o seu filho Marcelo  ​

sábado, 23 de dezembro de 2017

ENERGIA SOLAR NO CAMPO É VANTAJOSA

VALE A PENA USAR O PRONAF PARA INSTALAR ENERGIA FOTOVOLTAICA SOLAR. EM POUCO TEMPO SE PAGA O EMPRÉSTIMO, E AÍ É FESTA... E SE AMA A MÃE TERRA,

http://www.emater.tche.br/site/sistemas/images/banco_imagens/grandes/19819.jpgA energia solar com placas fotovoltaicas têm atraído o olhar e o investimento de produtores de Caibaté, nas Missões. Um novo investimento em energia solar via Pronaf Eco foi realizado no município, desta vez, pelo agricultor Adilson Ribas de Morais e sua família, que moram no Rincão dos Machado.
Adilson conta "que há dois anos sua família vinha pensando em investir em uma fonte de energia alternativa, porém era muito caro, agora com a possibilidade de financiamento com juros de 2,5% ao ano, ficou mais acessível". O investimento, segundo o agricultor, será destinado para abastecer a casa, a sala de ordenha e o sistema de irrigação, que abrange uma área de quatro hectares de grama Tifton.
Os painéis fotovoltaicos podem produzir energia por até 50 anos, com garantia de energia de pelo menos 25 anos. O excedente da energia produzida nos painéis pode ser armazenado em baterias ou injetado na rede elétrica convencional, sendo este último, o caso da propriedade da família. Nos meses em que a geração de energia elétrica é maior do que o consumo na propriedade ocorre um excedente que deve ser compensado em até 60 meses
Segunda a técnica em agropecuária da EMATER/RS-ASCAR, Tamires Scheis, "a energia solar é uma aposta da família, que também é participante do Programa de Gestão Sustentável da Agricultura Familiar que pretende baratear seus custos de produção, melhorando a gestão da propriedade rural".
Além de gerar renda e autonomia, tornar-se um produtor de energia renovável melhora a rede elétrica local e não impacta o meio ambiente. Fonte: EMATER RS
Segundo Valter Bianchini, oficial nacional de Programas da FAO, com juros de 2,5% ao ano, projeto como este é economicamente viável. Após três anos o valor economizado com a energia será superior ao valor pago anualmente pelo credito do Pronaf e em oito anos o financiamento será liquidado apenas com a receita da redução da conta de luz. 
http://boaspraticas.org.br/index.php/pt/informativo-fao-brasil.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CONIC: SOLIDARIEDADE AOS CAMPONESES/AS DESPEJADOS NO PARANÁ

CONIC: sobre os despejos de camponeses/sas no Paraná e outros estados
“Se saio para o campo, eis os feridos pela espada;
se entro na cidade, eis as vítimas da fome;
até os profetas e sacerdotes atravessam a terra e não compreendem!” (Is 14:18)
Foi com indignação e assombro que assistimos, durante a reunião de diretoria, realizada no dia 19 de dezembro, ao vídeo da ação de despejo realizada contra camponeses e camponesas do município de Pinhão, estado do Paraná.
O despejo das famílias é consequência do cumprimento de uma reintegração de posse em favor da empresa pertencente à família Zattar.
As imagens das pessoas tendo suas casas derrubadas por máquinas, sem ao menos conseguirem retirar seus pertences, são chocantes. Assim como chocam as imagens da destruição do Posto de Saúde e da Igreja da comunidade.
Estas ações têm sido recorrentes, assim como o assassinato de lideranças camponesas em diferentes regiões de nosso país. A chacina de Pau D’Arco é o símbolo maior, neste ano, dos impactos de um modelo agrícola baseado na concentração de terra. 
Tal como o despejo de Pinhão, há despejos ocorrendo em Marabá, no Pará, e também Palma Sola, em Santa Catarina.
Estas ações não são fatos isolados. Elas são consequência do império do mercado que financeiriza a terra e não leva em consideração a vida, a história, a espiritualidade e a cultura dos povos. Diante dos interesses do mercado, a vida das pessoas é secundária e descartável. 
Como Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, repudiamos a ação realizada em Pinhão. Oremos pelas famílias que foram despejadas!
Das autoridades competentes, exigimos medidas cabíveis para reverter a decisão que impede estas famílias de permanecerem em seu território. 
Às igrejas locais, pedimos que mobilizem a solidariedade e que sejam voz profética. 
Expressamos nosso apoio e compromisso com as demais comunidades que sofrem a pressão dos grandes grupos agrários para deixarem suas terras. 
Que nesse tempo de Natal, cristãos e cristãs possam colocar-se no lugar das famílias despejadas e das que ainda podem perder suas terras. Sentir a dor do outro e solidarizar-se com a pessoa próxima, a exemplo do Bom Samaritano (Lc 10:30-37), é o que de mais próximo podemos experimentar do sentido do Natal.
Que o Deus da paz, revelado na manjedoura em Belém, rompa o gelo de nossos corações. A paz apenas será concreta se os direitos humanos forem respeitados em sua plenitude. 
CONIC - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

Foto: Reprodução / Central Cultura de Comunicação

Pa. Romi Márcia Bencke
Secretaria Geral
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

FREI SÉRGIO: GREVE DE FOME CAMPONESA

OBRIGADO, SÉRGIO, POR MAIS ESTE TESTEMUNHO. E PELA RICA REFLEXÃO. E PELA RIQUEZA ESPIRITUAL E POLÍTICA DE SEU GESTO E DE TODAS E TODOS QUE, EM NOSSO NOME E A NOSSO FAVOR, PASSARAM FOME DIAS PARA EVITAR QUE MILHÕES PASSEM FOME TODA A VIDA.

Greve de Fome Camponesa
Frei Sérgio Antônio Görgen ofm *
Participei entre os dias 5 e 14 de dezembro de 2017, durante 10 dias, de uma Greve de Fome em Brasília, dentro da Câmara dos Deputados, deflagrada pelo Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA, contra a desdita Reforma Previdenciária proposta pelo governo Michel Temer. Iniciamos em três pessoas. Fiz companhia às camponesas Josineide, do Piauí e Leila Denise, de Rondônia. No dia 11 de dezembro aderiram mais três camponesas, Rosa, do Rio Grande do Sul, Simoneide, do Piauí e Rosângela, de Roraima, esta, dirigente nacional do Movimento de Mulheres Camponesas - MMC.
Descrevo aqui algumas impressões e algumas conclusões de cunho pessoal sobre este acontecimento.
               Antes de mais nada, foi uma Greve de Fome protagonizada por mulheres. Pelo que conheço da história de outras Greves de Fome, é caso novo na história. Duas mulheres participaram desde o início e três se somaram ao longo do período. Talvez como sinal de que as mais atingidas por esta legislação sejam de fato as mulheres. Mas pode ser também que um novo protagonismo histórico esteja brotando nas classes populares brasileiras com muita força: o protagonismo feminino.
Durante os dez dias dentro da Câmara dos Deputados, irrompeu como força comovedora e mobilizadora a bravura, a coragem e a serenidade das cinco camponesas, com destaque às duas que completaram 10 dias sem ingerir alimentos sólidos.
Também impressionou o testemunho silencioso e ao mesmo tempo eloquente: as que produzem o alimento que vai à mesa de tantos privando-se dele para chamar a atenção dos que se locupletam pessoalmente vendendo direitos dos pobres e as riquezas da Nação.
A força moral de uma Greve de Fome se afirma e se justifica – para quem a faz e para a sociedade - pela justeza de sua causa. É um ato extremo para situações extremas, quando outros métodos de persuasão já não fazem o efeito desejado para sanar uma injustiça flagrante de amplas consequências. Por isto afirmávamos: “ decidimos passar fome por alguns dias para evitar que milhões passem fome uma vida inteira”.
Representávamos, portanto, os que produzem os alimentos e as riquezas do país, através de seu suado esforço e trabalho e correm o risco de passar fome, na fase mais difícil da vida, na fase em que as forças lhe faltam para ganhar o pão com as próprias mãos, na velhice. Nós nos alimentávamos disciplinadamente de água e soro e as massas camponesas, operárias, pessoas sensíveis de todos os matizes, de todas as categorias dos que vivem do trabalho, nos alimentavam com solidariedade e força espiritual.
A Greve de Fome foi aos poucos se transformando num símbolo contra os que vivem da renda do dinheiro e enchem a pança e refestelam-se em lautos banquetes regados a vinhos finos e caros de reservas antigas. Foi o poder do povo contra o poder do dinheiro.
Um momento de grande densidade espiritual foi a presença amiga, solidária, humilde e firme de Dom Sérgio Rocha, Cardeal de Brasília e Presidente da CNBB. Fortaleceu-nos e estimulou. Foi uma presença de Fé e humanidade e de fé na humanidade.
Permitam-me compartilhar que para mim, pessoalmente, uma Greve de Fome é também um jejum espiritual. E neste tive muito presente uma passagem do Evangelho de Lucas onde Jesus faz conta a história do Bom Samaritano. Diz Jesus no relato de Lucas, que um homem foi assaltado, espoliado, ferido e deixado gemendo à beira do caminho. Passou por ali um Sacerdote, viu e foi adiante. Os sacerdotes eram considerados o grupo social mais importante na sociedade judaica da época. Por ali passou também um Levita, pessoa de alta consideração social. Viu e passou adiante. Por fim passou um Samaritano, um desclassificado para os judeus daquele tempo, viu, sentiu compaixão, achegou-se, cuidou dos ferimentos, levantou-o e ajudou-o a chegar até o povoado mais próximo para que pudesse se recuperar.
Confesso que já me senti tantas vezes como aquele sacerdote ou como o levita da história. Algumas vezes tentei ser como o samaritano. Mas nunca antes havia me colocado no lugar do espoliado e excluído deixado caído à beira da estrada.
Pois foi assim que me senti inúmeras vezes nos corredores da Câmara dos Deputados.
Milhares de samaritanos de perto e de longe nos estenderam a mão solidária.
Mas muitos passavam, viam e seguiam adiante, quase sempre virando o rosto na direção contrária de onde estávamos.
Pensava comigo que se fizessem isto somente ali, conosco, compreendê-los-ia. Afinal, representávamos também uma posição política, talvez contrária a deles. Mas me fica a forte impressão de que agem da mesma forma diante da dor e do sofrimento de milhões e milhões de brasileiros, pobres e desempregados, despojados e ameaçados em seus direitos. E o fazem da pior maneira: através de leis e políticas que os atingem, despojam e jogam na exclusão.
No relato de Lucas, porém, o sacerdote e o levita assim agiram como geste espontâneo, por pura insensibilidade humana. Na Câmara dos Deputados a insensibilidade é remunerada e muitos viram o rosto a soldo dos que lucrarão com a espoliação dos pobres.
Concluindo, gostaria de ressaltar que gestos simbólicos podem ser importantes. Mas a verdadeira esperança de mudanças profundas no Brasil só virão com a organização popular e com o povo tomando as ruas. A indignação nas redes sociais é importante, mas insuficiente. Trabalho de base e formação continuam insubstituíveis e nos darão musculatura para tomar as ruas de forma organizada e firme e apontar horizontes de esperança para o povo brasileiro.

·        Frade Franciscano, militante do MPA e autor do livro “Trincheiras da Resistência Camponesa”.