quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

SÃO ROMERO DA AMÉRICA LATINA: PARA HUMANIZAR ESTE MUNDO

PARA QUE TODOS E TODAS CONHEÇAM UM POUCO MAIS DOM ROMERO, BISPO DE SAN SALVADOR, MORTO PELA DITADURA EM PLENA CELEBRAÇÃO DE MISSA, SEGUE A ENTREVISTA COM UM DE SUES AMIGOS E SEGUIDORES, JON SOBRINO.

''Espero que a beatificação de Romero sirva para humanizar este mundo.'' Entrevista com Jon Sobrino

O teólogo Jon Sobrino passou por Bilbao, na Espanha, a caminho de Bruxelas. Ele nasceu em Barcelona "por circunstâncias da guerra", mas seus pais viviam em Barrika, onde passou boa parte dos verões da sua infância. NomeadoVasco Universal por divulgar positivamente a imagem de Euskadi no exterior, ele também se sente, além de vasco, salvadorenho.
A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada no sítio Religión Digital, 17-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Ele viveu muito de perto os assassinatos de Dom Romero, de Ignacio Ellacuría e de tantos milhares de civis que perderam a vida naquela guerra que "se repete em muitos lugares hoje". Ele mostra a sua alegria pela decisão do papa de beatificar Romero, porque humaniza e "temos muita necessidade".
"Quando estou em Bilbao ou na Espanha me sinto aturdido, e há coisas que me deixam indignado como o quanto custo para contratar um jogador de futebol, por exemplo. No domingo, estive em San Mamés e gostei do campo, também do ambiente de animação. As pessoas cantavam em uníssono, mas eu gostaria que também se fizesse isso na fronteira de Melilla e fôssemos em grupo para cantar com eles. No mundo e na Igreja, precisamos de gente boa como Dom Romero e tantos outros e outras que morreram por dizer a verdade."
Eis a entrevista.
Quem foi Dom Romero?
Foi um homem dos pobres, homem do seu povo sofrido, homem de Deus. Condenou a idolatria da riqueza, que é como um fio de alta tensão que quem o toca se queima. Outra idolatria, no caso de El Salvador, era a doutrina da segurança nacional. E, por último, ele dizia que também podia idolatria a absolutização das organizações populares. Dom Romero falava de Deus de uma forma muito clara.
Passaram-se 35 anos, mas ainda continua sendo lembrada a sua última homilia na catedral.
São muito conhecidas suas últimas palavras, nas quais ele pedia que cessasse a repressão. Ele exigiu que os soldados deixassem de matar os seus irmãos. Ele recebeu um aplauso ensurdecedor, espontâneo, como quando o nosso time faz o gol.
Para que pode servir a beatificação de Dom Romero hoje em dia?
Se convocar muitos seres humanos, eu me alegro muito. Não porque seja uma coisa que funcione mecanicamente, como um pastel que eu como e gosto. Que seja algo que se embeba um pouco nas pessoas, sejam crentes ou não, e que possam ver que há uma realidade que é anti-Deus, que é antivida.
Alguns dias em Bilbao e depois o senhor se dirige para Bruxelas, continua "na luta".
Sim, depois de passar alguns dias de descanso na casa da minha irmã e escrever algumas coisas que me pediram, irei para a Bélgica para falar sobre Dom Romero. Depois, para Paris, para apresentar um livro. Como dizia o padre Arrupe, ser jesuíta é lutar pela fé e pela justiça, e seguimos nisso.
* * *

EXEMPLO DE CELEBRAÇÃO DO "ANO INTERNACIONAL DA LUZ"

ACOMPANHEM ESTA ENTREVISTA E VEJAM COMO PODEMOS DAR VELOCIDADE À ENTRADA DA ENERGIA SOLAR EM NOSSO PAÍS. SÓ ASSIM CELEBRAREMOS O ANO INTERNACIONAL DA LUZ, PROMOVIDO PELA ONU.

Falta de incentivo do Poder Público é maior entrave para popularização da energia solar. Entrevista especial com Getulio Hoffmann de Oliveira

Foto: Arquivo Pessoal
“Hoje, com 30 placas em duas unidades, estou gerando em torno de 900 kw ao mês. Eu fico satisfeito de poder ligar meu ar condicionado, minha televisão durante o dia, e saber que não estou pegando nada de ninguém. Apenas do sol”, comemora o metalúrgico
Enquanto no Brasil a crise hídrica chama a atenção para o futuro do abastecimento energético pelas hidrelétricas, a ONU celebra em 2015 o Ano Internacional da Luz. O foco é reconhecer a importância das tecnologias associadas à luminosidade, como é o caso da geração de energia solar fotovoltaica.
Se em países como a Alemanha, referência em energia solar, o uso deste tipo de tecnologia representa 20% da fonte de energia do País, no Brasil esta solução ainda está engatinhando. Em dezembro do ano passado, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) contratou diversos novos projetos para a implantação para a geração de energia solar, mas até então muito se dependia do empreendedorismo individual de quem queria fazer a diferença.
Este é o caso de Getulio Hoffmann de Oliveira, que relata em entrevista por telefone à IHU On-Line. Morador de Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, ele instalou em 2013 um conjunto de placas de energia solar e um alternador em sua casa, tornando-se o primeiro gaúcho a devolver o excedente de energia para a concessionária local, a AES Sul. Hoje já são 30 placas em sua propriedade, que produzem 900 kw por mês, e abastece um terreno onde fica a sua casa e outras duas onde moram seus filhos e netos.
Getúlio é um homem de modos simples, e que investiu no que acreditava. Ele afirma que em sua conta de luz paga apenas as taxas de administração local, mas reclama da falta de incentivo do Estado. Atualmente, o governo do RS cobra 25% de ICMS de toda a energia produzida e consumida no local. Estados como Tocantins já isentam esta cobrança, mas impostos sob a importação das placas solares continuam sendo empecilho para quem busca tal empreendimento.
“Esses dias vi no jornal que uma casa popular gasta, cerca de 100 kw por mês. Como cada placa solar gera em torno de 33 kw ao mês, com três já seria possível abastecer a casa toda durante o dia. E isso aumentando em apenas R$ 3 mil e poucos os gastos com da construção”, sugere. Em meio a comunidades do interior que ainda hoje não estão ligadas a rede de energia, Getúlio defende que apenas a informação vai ser capaz de sensibilizar as pessoas para as vantagens individuais e ambientais da geração de energia.
Getulio Hoffmann de Oliveira é metalúrgico aposentado e engajado no uso e divulgação da energia solar fotovoltaica.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que o levou a buscar a geração de sua própria energia? Você já trabalhava com atividades relacionadas a eletricidade?
Getulio H. de Oliveira – Eu sempre tive vontade de produzir energia elétrica para que o nosso ambiente ficasse agradecido. O primeiro passo foi pensando no meio ambiente, mesmo. Eu sou metalúrgico aposentado, mas na comunidade de Pixirica em Morrinhos do Sul (180 km de Porto Alegre), onde eu morava, a maioria das casas quem fez a ligação elétrica fui eu. Já na comunidade em que eu nasci, em Rio do Pinto – hoje o município de Itati, há 123 km da Capital – até hoje não se tem energia elétrica.
IHU On-Line – E acredita que foi a falta de luz em Rio do Pinto que te incentivou a pensar em alternativas para a eletricidade?
Getulio H. de Oliveira – Com certeza. Porque quando eu comecei a ficar com 12, 13 anos de idade, eu pensava no meu pai. Ele tinha colocado um moinho de moer milho que funcionava dia e noite na comunidade. Seria muito fácil colocar um dínamo ou um alternador nesse moinho, mas não as pessoas não tinham informação para isso. Não tinha alguém para ir a esta pequena comunidade e explicar o que poderia ser feito para, já na época, disponibilizar eletricidade para as casas. O lugar já poderia estar mais avançado, mas ainda há não há luz elétrica para as famílias.
IHU On-Line – Pensando na disseminação da informação, você costuma compartilhar com as pessoas o que é preciso para instalar seus próprios painéis solares?
Getulio H. de Oliveira – Muita gente me ligou e todos os dias, praticamente, alguém me aborda para conversar sobre isso. Quem tem muito interesse, mesmo, são os donos de supermercado – que gastam muita energia elétrica. São eles os mais interessados em fazer esse tipo de instalação hoje.
IHU On-Line – Qual o grande entrave que estas pessoas interessadas enfrentam?
Getulio H. de Oliveira – O preço. São produtos importados e as taxas de importação ainda são muito altas. É cerca de 60% para entrar no Brasil e mais 40% para entrar no estado. Hoje uma placa custa em torno de R$ 925, aqui no Rio Grande do Sul. É preciso além das placas um inversor – que vai modificar a energia e a ligar a rede com a mesma qualidade que a da AES Sul - e uma mão de obra especializada, um projeto de um engenheiro responsável. Na minha casa, contratamos uma empresa especializada que montou o projeto, e a mão de obra foi nossa, mas com acompanhamento. A minha foi a primeira residência gaúcha a ter a geração de energia, então ela teve que ser muito bem feita e caprichada para que servisse de modelo para outras pessoas.
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
IHU On-Line – A concessionária deu suporte ao projeto?
Getulio H. de Oliveira – Sim, eu fiquei até surpreso. A partir do momento em que meu projeto apareceu na ANEEL, eles passaram a o acompanhar de perto. Eles fizeram várias visitas aqui em casa; um engenheiro da AES Sul sempre dava entrevistas aqui em casa, e incentivava as pessoas a fazerem o mesmo, pois assim haveria mais água nas represas para se poder usar durante a noite.
IHU On-Line – Você vê interesse do poder público em incentivar essa tecnologia?
Getulio H. de Oliveira – Não. Uma das maiores barreiras, certamente, é o interesse do poder público. Esses dias vi no jornal que uma casa popular gasta, em média, 100 kw por mês. Como cada placa solar gera em torno de 33 kw ao mês, com três já seria possível abastecer a casa toda durante o dia. E isso aumentando em apenas R$ 3 mil e poucos os gastos com da construção.
Além disso, aqui no Rio Grande do Sul o governo cobra ICMS da energia de energia para uso em casa. Se eu dou 1 kw para a AES Sul, ela me devolve 1 kw na conta de luz. No entanto, quando esse kw volta, eu preciso pagar 25% de ICMS pela energia que eu produzi para gastar no mesmo local. Em alguns estados, como o Tocantins, não existe essa cobrança, mas aqui temos esse problema.
IHU On-Line – Em 2015, a ONU está celebrando o “Ano internacional da Luz”, que promove a geração de energia própria. O que você pensa que falta para esta tecnologia fazer mais parte do dia a dia das pessoas?
Getulio H. de Oliveira – Falta divulgação pelas rádios e canais de TV. E no caso dos Estados, como o Rio Grande do Sul, eliminar um pouco o ICMS. Não ser mais 25%, mas talvez 15% para quem produzir energia a ser gasta no mesmo lugar em que foi gerada. Só com esta medida, muitos donos de supermercado se animariam mais a implantar. Eu sei porque eles sempre vem falar comigo sobre isso.
IHU On-Line – Você acredita que esse empreendimento traz benefícios econômicos, ou as vantagens são mais na ordem da preservação ambiental?
Getulio H. de Oliveira – A cada ano que passa, a energia elétrica fica mais cara. E não sabemos como será nos próximos dois ou três anos. Por isso eu ainda acho que é lucrativo. Ano passado, trabalhei o ano todo sem pegar dinheiro emprestado. Hoje, com 30 placas em duas unidades, estou gerando em torno de 900 kw ao mês. A fatura da conta de luz vinha antes na ordem dos R$ 200 ou R$ 250. Atualmente vem perto de R$ 30 ou R$ 40, que representa o ICMS, a taxa da Concessionária e a taxa da Iluminação pública. No total, 356 kw já foram devolvidos a AES Sul, e a sobra da energia pretendo deixar com meus filhos e netos que moram no terreno. Eu fico satisfeito de poder ligar meu ar condicionado, minha televisão durante o dia, e saber que não estou pegando nada de ninguém. Apenas do sol.
(Andriolli Costa)

sábado, 14 de fevereiro de 2015

PETIÇÃO AO MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA: INCENTIVE A ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA

VALE A PENA APOIAR VIA AVAAZ ESTA PETIÇÃO AO MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA EM FAVOR DA ENERGIA ELÉTRICA SOLAR. ENTREM NO ENDEREÇO https://secure.avaaz.org/po/petition/Ministerio_de_Minas_e_Energia_Incentivar_a_utilizacao_da_Energia_Solar_Fotovoltaica_no_Brasil/?tZSTdjb
E SUBSCREVAM A PETIÇÃO.

Ministério de Minas e Energia : Incentivar a utilização da Energia Solar Fotovoltaica no Brasil

Esta petição está esperando pela aprovação da Comunidade da Avaaz.
Ministério de Minas e Energia : Incentivar a utilização da Energia Solar Fotovoltaica no Brasil

Por que isto é importante

Finalidade: Prover necessidades de Energia Elétrica sem ter que usar recursos naturais poluentes e não renováveis e:
- Redução do impacto ambiental e redução da poluição do ar;
- Não emite dióxido de carbono para a atmosfera, por não exigir qualquer tipo de combustão, evitando assim o processo de aquecimento global resultante do efeito estufa, agora temos a maior concentração deste gás a partir da últimos 160.000 anos atrás;
- Não contribui para a formação da chuva ácida;
- Não resulta na formação de óxidos de nitrogênio;
- Não necessita de sofisticadas medidas de segurança como por exemplo em relação à energia nuclear; exemplo "Acidente nuclear de Chernobil e Fukushima"
- Não impacta bruscamente numa região como as hidrelétricas; exemplo "Usina Hidrelétrica de Belo Monte"
- Não exige complexo tratamento de resíduos tóxicos;
- Contribui para o desenvolvimento econômico regional;
- Incentivar a criação de empregos, pois esta forma de geração de energia exige o trabalho de manipulação do homem e criação de indústrias para fabricação e manutenção dos equipamentos, bem como as empresas prestadoras de serviço no projeto, instalação e manutenção dos equipamentos.
- Implantar painéis fotovoltaicos "Usina Solar Fotovoltaica" nos lagos das hidrelétricas onde toda a infraestrutura de transmissão já é existente.
- Ser um complemento aos sistemas geradores de eletricidade atuais.
- Fazer com que a população produza sua própria energia elétrica e forneça o excedente a distribuidora local evitando assim a sobrecarga do sistema elétrico e o apagão.

- Vídeo Energias Limpas e Renováveis
https://www.youtube.com/watch?v=sa667YNW4fM 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

GOVERNO FEDERAL ANUNCIA INCENTIVOS À ENERGIA SOLAR DESCENTRALIZADA

VEJAM O QUE O MINISTRO DE MINAS E ENERGIA DECLAROU NO CANAL LIVRE, DA BAND. PRECISAMOS TOMAR INICIATIVAS E CHECAR SE TEREMOS MUDANÇAS IMPORTANTES MESMO NA POLÍTICA ENERGÉTICA.

PROGRAMA CANAL LIVRE - BAND
Segunda-Feira, 9 de Fevereiro de 2015
No último bloco, o ministro de Minas e Energia conta que será lançado um programa de financiamento para aliviar a conta de energia do consumidor e produzir energia renovável para a rede de distribuição.


ESCÂNDALO E CRIME: UMA "VENEZA PAULISTA"!

ESSE NÃO É MESMO UM PAÍS SÉRIO. COMO ENTENDER QUE TENHA SIDO CONSTRUÍDO SEM LICENÇAS E TENHA SIDO, POUCO DEPOIS, LEGALIZADA ESTA "VENEZA" COM USO PRIVADO DE ÁGUAS DO PRINCIPAL RIO QUE ABASTECE CAMPINAS, EM SÃO PAULO? SÓ MESMO RECONHECENDO O PODER LEGISLATIVO E EXECUTIVO DO DINHEIRO...

LEIAM A MATÉRIA. SE CONSEGUIREM, FIQUEM INDIFERENTES, SEM REVOLTA, E DAQUELAS RADICAIS. O BRASIL PRECISA MESMO É DE UMA RADICALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA, OU, SEM ELA, DE AÇÕES DIRETAS DOS CIDADÃOS CONTRA OS PRIVILÉGIOS E PRIVILEGIADOS. E UM DOS PASSOS PARA ISSO É A DECISÃO DE ESPALHAR ESTA NOTÍCIA PARA O MUNDO, SE TIVERMOS MEIOS E OPORTUNIDADE... NÃO DEIXEM DE FAZER A SUA PARTE.

Em “Veneza Paulista” não haverá racionamento
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Num caso emblemático de desigualdade hídrica, condomínio fechado desvia águas de rio, com autorização do governo estadual, para tentar imitar cidade italiana 
Por Laura Capriglione, do Coletivo Conta D’Água
Você anda chateado com a perspectiva de viver o tal do rodízio de cinco dias a seco para apenas dois com água? Anda procurando, sôfrego, tutoriais no Youtube sobre como construir sua cisterna caseira? Na geladeira da sua casa, ao lado dos tradicionais ímãs com os telefones da pizzaria, da lavanderia e do petshop, agora já tem um de caminhão-pipa? Seus dias de angústia acabaram!
Bem pertinho, a 70 km de São Paulo, você poderá se tornar o feliz proprietário de uma casa com água à vontade — água até dizer chega. Na verdade, trata-se de um rio inteiro, desviado de seu curso normal só para o bem-estar e lazer dos moradores. E tudo com a segurança de um condomínio fechado, vigiado 24 horas por dia por câmeras de monitoramento.
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Cenas bucólicas da Veneza Paulista. Pedalinhos e pontes marcam o cenário das ilhas artificiais. Fotos: Mídia NINJA
Trata-se do Condomínio Ribeirão do Vale, situado em Bom Jesus dos Perdõesna beira da rodovia Dom Pedro I. Ali, 200 casas, 95% das quais equipadas com piscinas, desfrutam o privilégio de ter um rio de águas límpidas passando pelo quintal. Moradores usam pedalinhos –sim, pedalinhos! — para visitar os vizinhos. Pontes românticas ligam os quarteirões ilhados.
Que lindo!
E pensar que, enquanto uns se viram com pedalinhos, piscinas e um rio para chamar de seu, quase no centro de São Paulo milhares de pessoas se veem completamente à mercê dos caprichos da Sabesp, ligando e desligando a água quando lhe dá na telha.
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Contraste hídrico entre a Veneza Paulista e a Favela da Vila Mariana. Fotos: Sintaema (acima) e Hélio Mello/ Projeto Xingu (abaixo).
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O repórter e fotógrafo Hélio Carlos Mello, do Projeto Xingu e do Conta D’Água, testemunhou, por exemplo, o que acontece com a favela da rua Doutor Mario Cardim, na Vila Mariana. As quinhentas famílias e mais de 2.000 moradores empilhados em barracos tentando preservar alguma dignidade diante das precárias condições de saneamento e superpovoamento do local…
Noventa por cento das casas não têm caixa d’água e, portanto, quando a torneira fica seca é a vida que seca.
Quem ali tem dinheiro para comprar água mineral ou contratar caminhão-pipa a R$ 1.200 a carga de 15.000 litros?
A ironia cruel é que também a favela da Vila Mariana convive diariamente com um rio, no caso o córrego do Sapateiro, que foi aterrado e passa bem embaixo do chão. Em alguns barracos ainda dá para ouvir o som da água subterrânea correndo. Mas fica nisso.
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Moradora da Favela na Vila Mariana aguarda chegada da água da Sabesp. Foto: Hélio Mello / Projeto Xingu
Diariamente, os moradores da favela Mario Cardim se apressam em fazer as atividades domésticas de lavar roupas e panelas, ao mesmo tempo em que põem a comida no fogo. Tudo muito rápido, antes que a torneira seque novamente.
Mas não pensemos nisso. E voltemos rapidamente para o Condomínio Ribeirão do Vale, injustamente apelidado de Veneza Paulista. É injusto porque o condomínio tem vantagens notáveis sobre o original vêneto/italiano. Por exemplo, moradores da versão brasileira podem pescar em seus quintais peixes nativos, como tilápias, pacus, curimbatás, bagres. Também se encontram ali espécies alienígenas, como os matrinxãs, que foram trazidos da bacia amazônica especialmente para o local.
Veneza perde!
Foto: Mídia NINJA
Os repórteres da Conta D’Água visitaram o condomínio para ver como funciona esse paraíso. Entraram na área privada a pretexto de comprar um imóvel. Havia dois, anunciados pela internet.
Logo no primeiro, depararam-se com o morador na casa vizinha, senhor Luís, que explicou: o condomínio mantém três moinhos em funcionamento permanente a fim de oxigenar a água e manter os peixes saudáveis por mais tempo.
Pescador sortudo, ele se vangloriava da peixada de curimbatá na brasa que fizera na véspera. “Aqui é um oásis no meio da seca”.
O oásis, no caso, custa caro: R$ 330.000, que é o preço de um imóvel assim anunciado: “4 dormitórios, 3 wc, sala, cozinha, varanda com churrasqueira, piscina, rio com pedalinho”.
Vista aérea do condomínio, na beira da Rodovia Dom Pedro I. Foto: Sintaema
Vista aérea do condomínio, na beira da Rodovia Dom Pedro I. Foto: Sintaema
A ducha de água fria, contudo, o próprio corretor encarregou-se de jogar nos ansiosos compradores que éramos nós. É que as casas do local não têm escritura definitiva. Mas apenas uma tal “escritura de direitos possessórios”. Ou seja, R$ 330.000 a menos no bolso, o comprador será apenas um “posseiro”, sem direito a registro definitivo do imóvel.
Mas, o corretor avisa, “não tem perigo, não”. “O próprio ex-prefeito de Bom Jesus dos Perdões, Calé Riginik, do PSDB, é o morador até hoje da casa 10 do condomínio. Você acha que o ex-prefeito compraria um imóvel aqui se houvesse o mínimo risco de perdê-lo?” Imagine o leitor se em vez do prefeito e de gente como nós, fingindo ter R$ 330.000, “cash”, se não haveria risco de uma violenta “ação de reintegração de posse”, como aconteceu no tristemente famoso caso Pinheirinho.
Sistema de segurança do condomínio e o que restou do Rio Atibaia, ao fundo. Foto: Mídia NINJA
Sistema de segurança do condomínio e o que restou do Rio Atibaia, ao fundo. Foto: Mídia NINJA
Em uma entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo” realizada em 2010, o então secretário de obras de Bom Jesus dos Perdões, Gerson Coli, admitiu que o condomínio foi instalado sobre o leito do ribeirão Cachoeirinha, “sem licenças dos órgãos devidos (como a Cetesb)”.
No dia 4 de novembro de 2011, entretanto, veio a redenção diretamente do Departamento de Águas e Energia Elétrica da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado de São Paulo, sendo governador o Geraldo Alckmin (PSDB).
“Fica a Sociedade de Amigos Marinas do Atibaia autorizada a utilizar recursos hídricos no Condomínio Ribeirão do Vale, para fins de lazer e paisagismo”. O despacho informa ainda que a água do ribeirão da Cachoeirinha pode ser captada à razão de 97,42 m³/hora, durante as 24 horas do dia, todos os dias e meses do ano.
Dá um total de 97.420 litros captados por hora. Ou 2.338.080 litros por dia. Ou 70 milhões de litros por mês. Ou 840 milhões de litros por ano.
Faça chuva ou faça sol, a água do Ribeirão da Cachoeirinha, água limpa que vem do alto da serra, será desviada por entre os canais artificiais que atravessam o condomínio, para só então ser lançada no Rio Atibaia, que abastece 95% de Campinas (SP), e precisa ser frequentemente socorrido por água do Sistema Cantareira (esse falido), já que se encontra em níveis críticos.
As palavras “crise” e “falência” estabeleceram nos dias atuais uma terrível parceria com as palavras rio, represa, abastecimento e sistema hídrico. E pensar que a palavra “Atibaia”, que dá nome ao rio que recebe as águas do condomínio, veio do tupi, significando rio manso, de águas tranquilas, abundantes, agradáveis ao paladar, “manancial de água saudável”.
É triste.
Plantação de eucaliptos às margens de reservatório de água no interior de São Paulo. Foto: Mídia NINJA
Plantação de eucaliptos às margens de reservatório de água no interior de São Paulo. Foto: Mídia NINJA
Em volta da tal Veneza Paulista, nas beiras dos rios, mais da metade da mata nativa já foi convertida em plantações de Eucalyptos urophylla, destinadas à produção de lenha e carvão, fonte energética para alimentar os fornos das pizzarias e padarias da Região Metropolitana de São Paulo.
O resultado dessa devastação toda, que acaba em pizza, tem sido a redução espetacular e veloz do total de chuvas na região. Em apenas vinte anos (de 1985 a 2005), o total de precipitações pluviométricas ali caiu de 1.800 mm por ano para uma média de 1.200 mm por ano.
Quando tudo acabar, entretanto, se comprarmos nosso chalé no condomínio, poderemos dizer, como num filme: “Nós sempre teremos Veneza…”
Mas cadê a graça de viver assim?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SINDICATOS ALEMÃES APOIAM NOVO GOVERNO GREGO

É MOTIVO DE ESPERANÇA ESTA MANIFESTAÇÃO DOS SINDICATOS DA ALEMANHA COM ADESÃO DE DIRIGENTES SINDICAIS DE OUTROS PAÍSES EUROPEUS. SIGNIFICA QUE O NOVO GOVERNO E O POVO QUE O ELEGEU NÃO ESTÃO SOZINHOS NA CRÍTICA AO SISTEMA NEOLIBERAL IMPOSTO E NA EXIGÊNCIA DE QUE É PRECISO MUDAR. E MUDAR NÃO SÓ NA ECONOMIA E NAS RELAÇÕES DE DEPENDÊNCIA, MAS MUDAR NA DIREÇÃO DA VERDADEIRA DEMOCRACIA, SOMENTE POSSÍVEL QUANDO OS TRABALHO DE TODOS PRODUZ CONDIÇÕES DE VIDA DIGNA PARA TODAS AS PESSOAS.

POR OUTRO LADO, A OPÇÃO POLÍTICA GREGA NOS INDICA QUE É POSSÍVEL, SIM, ENFRENTAR OS DESASTRES SOCIAIS IMPOSTOS PELO NEOLIBERALISMO, QUE SE APROFUNDA TAMBÉM EM NOSSO PAÍS. BASTA CRIAR MEDIAÇÕES MAIS CONFIÁVEIS PARA CANALIZAR A VONTADE DOS "DE BAIXO", DOS EMPOBRECIDOS E EXCLUÍDOS PELOS QUE NÃO SE CANSAM NUNCA DE CONCENTRAR RIQUEZA.  

CARTA MAIOR -11/02/2015 - Copyleft

Sindicatos alemães lançam manifesto de apoio à Grécia

os representantes dos maiores e mais representativos sindicatos alemães, repudiaram 'qualquer tentativa de chantagem' sobre o povo grego.


Esquerda.net
International Monetary Fund / Flickr
No documento, os dirigentes sindicais defendem que “a viragem política na Grécia é uma oportunidade, não só para esse país em crise, mas também para uma reavaliação e revisão fundamentais da política económica e social da UE”.
 
“Voltamos a sublinhar a crítica já expressa noutras ocasiões pelos sindicatos: desde o início, as condições exigidas à Grécia no âmbito do programa de assistência financeira não mereceram a etiqueta 'reforma'. Os milhares de milhões de euros que têm sido canalizados para a Grécia têm sido utilizados principalmente para estabilizar o setor financeiro. Ao mesmo tempo, o país tem sido mergulhado numa recessão profunda por cortes brutais nas despesas do governo que, ao mesmo tempo, transformaram a Grécia no país mais endividado de toda a UE”, referem os signatários.
 
Segundo os representantes dos maiores e mais representativos sindicatos alemães, as consequências estão à vista, estando o país mergulhado numa “crise social e humanitária sem precedentes na Europa”.

No documento, é assinalado que “o novo governo grego está a ser desafiado a elaborar os seus próprios planos de reconstrução e desenvolvimento, que têm de tornar-se parte de um 'Plano Europeu de Investimento', tal como tem sido exigido pelos sindicatos, e de criar as condições em que esses planos podem dar frutos”.A vitória do Syriza é “um veredicto devastador sobre esta política fracassada”, referem.
 
Os sindicalistas defendem ainda que devem ser promovidas “negociações sérias com o novo governo grego”, repudiando “qualquer tentativa de chantagem”.
 
“A rejeição nas urnas daqueles que foram responsáveis pela política aplicada na Grécia até então é uma decisão democrática que deve ser respeitada a nível europeu”, frisam, adiantando que quem defende que a mudança de política só é possível se a Grécia sair da união monetária europeia está a dizer que “as instituições europeias são incompatíveis com as decisões democráticas tomadas nos Estados membros”.
 
“O défict democrático a nível europeu, várias vezes lamentado, mas ainda não superado, não deve ser ainda mais firmemente entrincheirado, restringindo a democracia nos Estados membros”, afirmam, salientando que “a agitação política na Grécia deve ser transformada numa oportunidade para estabelecer uma Europa democrática e social”.

O documento é ainda subscrito por vários secretários gerais de sindicatos de outros países, entre os quais Erich Foglar, da Federação Austríaca de Sindicatos, Joan Carles Gallego, da CCOO de Catalunha, Ulrich Eckelmann, da industiAll - European Trade Union, e Paul Rechsteiner, da Federação Suíça de Sindicatos.Entre os primeiros subscritores do manifesto de apoio ao povo grego constam, por exemplo, Reiner Hoffmann, secretário geral da DGB - a maior central sindical alemã -, Frank Bsirske, secretário geral do ver.di - sindicato nacional dos trabalhadores dos serviços, Robert Feiger, presidente do IG-BAU, Alexander Kirchner, Presidente do Sindicato dos Ferroviários, Michaela Rosenberger, secretária geral do NGG, Marlis Tepe, secretária geral da GEW, Michael Vassiliadis, secretário geral do IG BCE e Detlef Wetzel, secretário geral do IG Metall.

AGROTÓXICOS E AGROECOLOGIA: PARADIGMAS DIFERENTES EM DISPUTA

EM TEMPOS ABSURDOS DE KÁTIA ABREU MINISTRA DA AGRICULTURA, VALE A PENA TER INFORMAÇÕES SOBRE OS RISCOS QUE CORREMOS E SOBRE A DISPUTA EXISTENTE EM RELAÇÃO À PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, POIS ISSO AJUDA A FUNDAMENTAR UMA POLÍTICA ESSENCIAL PARA O BRASIL QUE QUEREMOS.

HU - 11/02/2015 

Agrotóxicos e agroecologia: uma questão técnica? Não! Paradigmas diferentes em disputa

Entrevista especial com Fernando Carneiro, biólogo da Associação de Saúde Coletiva - Abrasco.


Patricia Fachin e Andriolli Costa, do IHU Online
InfoEscola
A nova composição do Congresso Nacional e a chegada de Kátia Abreuao Ministério da Agricultura estão deixando alguns pesquisadores da área da saúde e do meio ambiente, “preocupadíssimos”. Entre eles, Fernando Carneiro, da Associação de Saúde Coletiva - Abrasco, que atualmente coordena o GT de Saúde e Meio Ambiente da instituição. Segundo ele, as recentes mudanças no quadro político indicam que “as perspectivas de uma desregulamentação na legislação dos agrotóxicos são enormes”. 

Entre as alterações prováveis, ele menciona a possibilidade de “que se quebre todo o marco regulatório para favorecer a entrada de agrotóxicos no Brasil” e “de que se retire o papel da Anvisa e do Ibama para concentrá-los no Ministério da Agricultura, que já tem o comando do agronegócio”.

Na avaliação do pesquisador, a nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura “é uma escolha parecida com a que Lula fez quando escolheu seu primeiro ministro, Roberto Rodrigues. A diferença é que Kátia Abreu é uma liderança com um trânsito político e ela tem projetos que passam desde a privatização da Embrapa, como a negação da reforma agrária como pauta para o país”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line via Skype, diretamente da Universidade de Coimbra, em Portugal, Carneiro também comenta as reações de resistência da sociedade civil ao uso de agrotóxicos no país. De acordo com ele, “a resistência mais organizada está se dando através da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e pela Vida, que foi lançada no Dia Mundial da Saúde há três anos, e reúne mais de 200 entidades. Trata-se de uma resistência interessante, uma grande novidade, porque além de reunir movimentos sociais, reúne ONGs e órgãos de Estado como a Fiocruz e o Incra. Essa é uma grande força em termos de uma grande campanha da sociedade civil”.
 
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Existe resistência da sociedade civil aos agrotóxicos? Ela é representativa? 


Fernando Carneiro –
 Existe uma resistência que é histórica do movimento de agriculturaalternativa, que foi bastante representativa nos anos 1980, e que gerou a lei de agrotóxico do Brasil, considerada moderna para os parâmetros atuais. A resistência mais organizada está se dando através da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e pela Vida, que foi lançada no Dia Mundial da Saúde há três anos, e reúne mais de 200 entidades. Trata-se de uma resistência interessante, uma grande novidade, porque além de reunir movimentos sociais, reúne ONGs e órgãos de Estado como a Fiocruz e o Incra. Essa é uma grande novidade em termos de uma grande campanha da sociedade civil.

IHU On-Line - Por que, mesmo com tal resistência, o país permanece líder no consumo de agrotóxicos?


Fernando Carneiro –
 Existe uma escolha por parte dos últimos governos, principalmente dos federais, pela opção do agronegócio. Na medida em que prioriza que a balança comercial seja equilibrada pela exportação de commodities, o governo acaba fazendo uma opção pela reprimarização da economia. Isso aconteceu e vem crescendo desde o final do governo Fernando Henrique, governo Lula e Dilma. 

Esse é um processo muito perigoso, porque há uma desindustrialização e um incentivo a commodities minerais e agrícolas, que têm um valor muito menor na relação de trocas do comércio internacional. Então, o Brasil ficou dependente desse modelo, que é baseado no grande uso de insumos químicos. A própria monocultura é um sistema desequilibrado, que exige muito agrotóxico. Mas muitas pessoas estão ganhando com a implantação desse modelo. Como você pode ver, a presidente da Confederação Nacional da Agricultura hoje é a Ministra da Agricultura. Isso demonstra que pessoas ligadas ao agronegócio já controlam o aparelho do Estado, financiamentos, e aí fica uma luta entre Davi e Golias.

IHU On-Line – Como compreender a escolha de Dilma pelo nome de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura?


Fernando Carneiro –
 É uma escolha parecida com a que Lula fez quando escolheu seu primeiro ministro, Roberto Rodrigues. A diferença é que Kátia Abreu é uma liderança com um trânsito político e ela tem projetos que passam desde a privatização da Embrapa, como a negação da reforma agrária como pauta para o país. À medida que temos uma ministra que tem colunas em jornais, ela passa a ter uma capacidade de influência maior do que tinha o ministro anterior, que também era ligado ao mesmo setor.
Nos últimos anos a agricultura no Brasil tem sido atrelada ao agronegócio, mas agora chegou ao poder a representante mais poderosa do agronegócio no Brasil.

IHU On-Line - Ainda há falta de informação sobre os danos causados pelos agrotóxicos, que levam a uma maior disposição a aceitar os riscos de seu uso tanto por produtores quanto por consumidores? Como as campanhas agem para resistir ao agrotóxico?


Fernando Carneiro –
 Circula pouca informação sobre os riscos que os agrotóxicos podem causar. O máximo que já vi na televisão foram orientações sobre lavar as frutas e verduras antes de consumi-las. Mas sabemos que existem agrotóxicos que são sistêmicos e somente a lavagem dos vegetais não é suficiente para eliminar as substâncias tóxicas.

Não há, em contrapartida, por parte do Estado brasileiro, um investimento em campanhas de informação. Quando chega o carnaval, há uma série de campanhas sobre os riscos da Aids, mas nunca existiu uma campanha sobre os riscos do uso de alimentos contaminados por agrotóxicos pelo Ministério da Saúde.

A novidade para este ano é o lançamento de uma cartilha informativa sobre os riscos dos agrotóxicos. Acabei de participar da revisão técnica dessa cartilha do Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos. Esse programa faz parte do Plano Nacional de Agroecologia e quem está conduzindo a elaboração da cartilha é a Articulação Nacional de Agroecologia. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco e a Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz também estão apoiando esse processo de divulgação da cartilha, que será amplamente distribuída no país.

IHU On-Line – A cartilha será divulgada para toda a população, ou inicialmente entre os agricultores?   


Fernando Carneiro –
 Inicialmente a tiragem é da ordem de dez mil cartilhas, e o público inicial serão os agricultores, mas acreditamos que posteriormente ela possa ser distribuída para os profissionais de saúde. À medida que conseguirmos mais apoio, pretendemos ampliar a distribuição.

IHU On-Line – Por que o governo, e especialmente a Anvisa, demoram e resistem tanto para banir substâncias que já são proibidos em outros países?

Fernando Carneiro –
 Essa situação deixa qualquer cientista indignado. As patentes recebem um registro que é eterno, e mesmo quando começa a se levantar evidências de que os agrotóxicos podem causar danos à saúde, as empresas criam dificuldades para dificultar o processo de reavaliação dos produtos que a Anvisa faz. Quando a Anvisa proíbe o uso de alguma substância, as empresas entram na Justiça contra o órgão, ou seja, judicializam os processos, o que os torna ainda mais morosos. Essa tem sido a postura das empresas, o que tem dificultado o trabalho de órgãos como a Anvisa.

Para você ter uma ideia, depois que a Anvisa proíbe o uso de agrotóxicos, o órgão ainda tem de dar um tempo para as empresas acabarem com o estoque dos produtos no Brasil. Isso é contrassenso: se o agrotóxico ser proibido, como é possível permitir que ele ainda seja utilizado no país durante um tempo?

IHU On-Line - Recentemente você declarou que a produção ecológica tem condições de alimentar a população com qualidade. Ao afirmar isso, quer dizer também em quantidade? Em termos de produtividade, o sistema convencional poderia ser plenamente substituído pelo agroecológico?


Fernando Carneiro –
 Atualmente os eventos nacionais da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) reúnem anualmente mais de 4000 pesquisadores que mostram as evidências da capacidade produtiva da agroecologia. Na verdade estamos falando de uma mudança de paradigma, e não apenas de uma questão técnica, ou seja, estamos falando de uma mudança de modelo que não só não usa veneno, como também distribui melhor a renda e, portanto, promove a equidade social. Se fizermos uma análise como um todo, a agroecologia acaba sendo mais eficiente, porque o agronegócio, para funcionar, precisa, de fato, de financiamentos públicos, e usa uma quantidade enorme de insumos que são responsáveis por 30 ou 40% dos gastos da produção.

Agora, imagina um modelo de agricultura que elimine esse gasto de 40% com agrotóxicos. Há relatórios da ONU para a alimentação que mostram isso. Outro exemplo que nos ajuda a entender essa questão em termos estatísticos é o censo agropecuário do IBGE, que indica que a agricultura familiar já é responsável por alimentar 70% dos brasileiros. Isso demonstra que a produção de alimentos não está associada à produção em larga escala. Tanto que a produção brasileira em larga escala tem servido para alimentar animais na China e nos EUA. Existe aí um discurso falacioso do agronegócio de que eles produzem alimentos para acabar com a fome. Isso é mentira.

IHU On-Line - Frequentemente vinculamos o uso de agrotóxicos aos grandes latifúndios, mas os pequenos produtores também são grandes utilizadores destes produtos, o que se reflete na dificuldade de uma produção agroecológica devidamente certificada. O que falta para que o uso de tais produtos seja minimizado em favor de tecnologias sociais?


Fernando Carneiro –
 Imagina um Brasil em que o que se investe no agronegócio via Embrapa, fosse investido para desenvolver técnicas para a agroecologia. Imagina um Brasil que ao invés de 150 bilhões para a produção do agronegócio, destinasse esse valor para a agricultura agroecológica. Isso implicaria numa mudança radical dessa situação. Então, o que precisa é uma mudança política. 

IHU On-Line - Nos supermercados, consumidores costumam dizer que não optam por alimentos da agricultura ecológica por serem mais caros. O valor agregado de uma produção agroecológica ainda não é percebido?


Fernando Carneiro –
 Existe um nicho de mercado, que é bastante elitizado, que está presente em grandes redes de supermercados, que faz com que os alimentos orgânicos sejam muito caros. Por isso a nossa recomendação é de que as pessoas procurem as feiras agroecológicas, como as da reforma agrária, e comprem diretamente dos produtores. O Instituto de Defesa dos Direitos do Consumidor – IDEC tem, em seu site, um mapa das feiras agroecológicas do Brasil, no qual o cidadão pode descobrir onde tem uma feira mais próxima da sua casa.

IHU On-Line - Como evitar que o discurso agroecológico, que é essencial, não seja dominado pelo marketing verde – justificando preços muito acima da expectativa para o consumidor final?  


Fernando Carneiro –
 Esse é um risco: a economia verde. Estamos num sistema capitalista que tenta aproveitar todas as chances para lucrar. Muitas empresas de agrotóxicos já estão se preparando para um novo momento e estão diversificando suas linhas de produção para produzir produtos de controle biológico. Então, é importante que esse processo esteja presente nas discussões dos movimentos sociais com a sociedade e a academia para buscar desenvolver tecnologias que ajudem no empoderamento dos produtores e na situação econômica deles, e não criar formas de deixá-los mais dependentes.

O que as grandes empresas criam são tecnologias que fazem com as pessoas fiquem mais dependentes delas. Essa é a grande armadilha da lógica da economia verde. Temos de romper com essa lógica e fazer uma mudança do modelo. Ao invés de concentrar renda e tecnologia, temos de buscar um modelo de agricultura que distribua renda e que faça com que as tecnologias sejam acessíveis. Esse é o caminho para sair do impasse da economia verde.

IHU On-Line - Quais as culturas em que há maior uso de agrotóxicos? 


Fernando Carneiro –
 Nos últimos levantamentos do Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos e Alimentos da Anvisa, a cultura que tem sido campeã no uso de agrotóxico é o pimentão, que teve quase 90% de contaminação. Estimula-se que as pessoas comam mais frutas e verduras para evitar o câncer, mas frutas e verduras contaminadas também podem ser fatores de risco para o câncer. Então, esse modelo deixa uma encruzilhada para as populações. 

Também tem as culturas históricas, como morango, mamão, tomate, que sempre têm níveis elevados de agrotóxico, que vão variando de ano para ano, com os cuidados que são tomados. Esses dados da Anvisa têm uma alta repercussão no país e inclusive o preço desses produtos acaba sendo reduzido por conta dos dados.

IHU On-Line – Como a legislação que rege os agrotóxicos tende a ser conduzida a partir de agora, com Katia Abreu no Ministério da Agricultura?


Fernando Carneiro –
 Nós estamos preocupadíssimos. Com o atual Congresso que tomo posse nesta semana, as perspectivas de uma desregulamentação na legislação são enormes. Ou seja, é possível que se quebre todo o marco regulatório para favorecer a entrada de agrotóxicos no Brasil. Existem mais de 17 propostas nesta direção e com a nova configuração do Congresso, nos próximos anos, essa questão será um grande desafio para a sociedade. 

O próprio presidente da Câmara já é um grande lobista que tem diversos interesses. Infelizmente os prognósticos não são bons: a tendência é de que se retire o papel da Anvisae do Ibama para concentrá-los no Ministério da Agricultura, que já tem o comando do agronegócio. São propostas desse nível que poderão renascer.

Atualmente, para uma empresa conseguir um registro de liberação de um determinado agrotóxico, os três órgãos devem avaliar o produto: o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente e a Anvisa. 

Mas provavelmente vão querer criar uma agência ou uma comissão como a CTNBio – a qual já foi até batizada de CTNAgro -, para que a liberação dos agrotóxicos possa ser feita como é feita a liberação dos transgênicos atualmente, ou seja, concentrada num único órgão. Como você sabe, a CTNBio é um órgão que em toda a sua história, nunca negou a produção e comercialização de transgênicos.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Fernando Carneiro -
 A novidade é que vamos lançar neste ano o dossiê da Abrasco sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde na forma de livro, com um capítulo de atualização. Esse trabalho envolveu mais de 30 cientistas e movimentos sociais que atuam na temática. Esse será um marco de resistência aos agrotóxicos neste ano por parte da Ciência brasileira.

Esse será um ano em que a sociedade como um todo tem de estar mobilizada, atenta e pronta para pressionar o Estado para que ele cumpra seu papel de proteger o direito à saúde e ao meio ambiente.