POR TER TIDO A GRAÇA DE PARTICIPAR DO ENCONTRO ORGANIZADO PELO CIMI EM 1974 EM MERURE E DE CONHECER Pe LUNKEMBEIN E SIMÃO, DECIDI DISPONIBILIZAR O ARTIGO DO Pe. PAULO SUESS QUE RECUPERA A HISTÓRIA DOS ANTECEDENTES DESSE DUPLO ASSASSINATO E DO SEU SIGNIFICADO PARA A PASTORAL INDIGENISTA. E PARA MINHA VIDA, DEVO ACRESCENTAR.
Transformação do Paradigma Missionário. O martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo (1976-2016)
Imagem: Missão Salesiana
“No martírio de Rodolfo e Simão se constitui uma aliança entre a Missão e os povos indígenas. Essa aliança paradigmática conseguiu transformar o binômio “conversão-civilização” em missão libertadora autodeterminada, “sinal de contradição”. A geração mais idosa dos salesianos tinha dificuldade com essa metamorfose, porque veio ao Brasil e aos territórios indígenas sem ter a possibilidade de reinterpretar o lema missionário de seu fundador: “Dá-me almas, fica com o resto”! Da busca de almas à inculturação na e assunção da cultura bororo era uma longa caminhada”, escreve Paulo Suess, assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, por ocasião do 40º ano do martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo, a ser celebrado no dia 15 de julho.
“Quarenta anos depois da chacina de Meruri, a “Igreja em saída” procura atribuir ao martírio de Simão e Rodolfo um significado mais universal através dos primeiros passos em direção de sua beatificação”, informa o teólogo.
Segundo Paulo Suess, “hoje, os missionários não são mais os protagonistas da causa indígena, como na época deLunkenbein. Para ocupar os territórios indígenas ou invadir as reservas, o grande capital não precisa mais matar os missionários fisicamente. Soube cooptar o conjunto dos três poderes e elimina, diretamente, as lideranças indígenas. Ajudicialização da causa indígena, que se estende não sobre esta ou aquela terra, mas sobre o país inteiro, veste a toga da legalidade para praticar a injustiça sistêmica em grande estilo”.
Eis o artigo.
O Papa Francisco recupera passo a passo o significado da catolicidade da Igreja que é ser universalmente um sinal de contradição. Ao mesmo tempo que ele rompe com muitos traços do provincialismo eclesiástico de inspiração eurocêntrica, fortalece as Igrejas locais e o princípio da sinodalidade. Essa atenção para o mundo local e para a diversidade nas microestruturas é um contraponto para a globalização uniformizada das mercadorias e da mídia de um sistema que não simplesmente explora e oprime, mas mata (cf. EG 53). Pela sua necessidade de crescimento e acumulação esse sistema matou também o missionário Lunkenbein e seu defensor, o Bororo Simão Cristino, e continua matando até hoje as lideranças indígenas.
1. Novo paradigma missionário
O Concílio Vaticano II (1962-1965) ajudou na reformulação do trabalho missionário junto aos povos indígenas e a todos os setores, vítimas de exploração, exclusão e desigualdade social. Na sua segunda vinda aoBrasil, em 1970, o missionário Rodolfo não veio mais para salvar as almas dos Bororo no interior de um projeto desenvolvimentista e assimilacionista, mas para propor o resgate de suas vidas e contribuir para a construção de uma perspectiva de esperança. Muitos jovens, leigos e religiosos, lutaram para colocar em prática esse novo paradigma da missão em suas Igrejas locais, Congregações e na construção dos rumos pastorais do próprio Cimi.
O Cimi, fundado em 23 de abril de 1972, aprendeu do magistério latino-americano pós-conciliar que a missão não pode servir a dois senhores. A geração dos jovens que foi para as aldeias indígenas recusou-se a viver o seguimento, engessado por virtudes secundárias da pequena burguesia como pontualidade, parcimônia, obediência e limpeza. Aceitaram essas virtudes secundárias somente a serviço de outras virtudes maiores como justiça, solidariedade, tolerância, simplicidade e despojamento em prol da vida ameaçada dos povos indígenas. Essa geração pós-conciliar contrariou os interesses do latifúndio, do grande capital e do modelo de desenvolvimento implantado no país.
Por não caber em sistemas uniformizados de competição e crescimento que visam lucro e poder, a causa indígena é um sinal de contradição e a história dos seus defensores é marcada por assassinatos ou, recentemente, por CPI´s para despistar a atenção da sociedade brasileira dos verdadeiros problemas.
2. Primeiros passos rumo à Missão
Rodolfo Lunkenbein (1939-1976), alemão de nascimento, salesiano por opção e, com a graça de Deus, mártir em terras indígenas, foi, pelas duas estadias em épocas diferentes no Brasil, um missionário pré e pós-conciliar. Nascera como filho de pequenos lavradores no dia 1º de abril de 1939, em Döringstadt, no sul da Alemanha. Depois de descobrir uma biografia de Dom Bosco, com 11 anos, queria estudar no internato salesiano de Bamberg. A família não tinha os recursos para custear o sonho do filho, que queria ser missionário. Finalmente, pela mediação do pároco, já com 14 anos de idade, em 1953, foi aceito no aspirantado de Buxheim, onde foi aluno do colégio Marianum de 1952 a 1958. Os que conheciam “Lunke”, como foi chamado pelos colegas da escola, o descrevem como um jovem alegre, aberto, piedoso.
Em 1958, o novo inspetor salesiano do Mato Grosso trouxe de sua terra natal, da Alemanha, um grupo de jovens missionários e seminaristas ao Brasil, entre os quais se encontrava Lunkenbein, que logo no ano seguinte fez seu noviciado em Pindamonhangaba (SP). Seguiram os estudos de filosofia e formação salesiana em Campo Grande (1960/1962). Entre 1963 e 1965 foi destinado para a Missão Salesiana de Meruri/MT, onde fez seus anos práticos como professor e educador com aulas para as crianças dos Bororo, dos fazendeiros e dos posseiros da região. Ainda encontrou tempo para mostrar suas habilidades para consertar motores e máquinas da missão, símbolos do progresso civilizatório e da missão desenvolvimentista.
Ninguém falava ainda de demarcação da terra dos Bororo, os mesmos Bororo que Claude Lévi-Strauss, 40 anos antes tinha visitado. O antropólogo ilustre dedica elogios generosos e críticas severas à Missão Salesiana da época. Elogios, por ter junto com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) conseguido acabar com os conflitos entre índios e colonos e por ter realizado “excelentes pesquisas etnográficas”. Críticas, ao chamar a atividade missionária dos discípulos de Dom Bosco “um empreendimento de extermínio metódico da cultura indígena”. Lévi-Strauss, que entre 1935 e 1939 era professor de sociologia na Universidade de São Paulo (USP), admite que esse extermínio não foi completo. Conta o antropólogo, que seu intérprete e principal informante na aldeia de Kejari, tempos antes tinha sido levado pelos missionários à Roma. Foi apresentado ao Papa por causa de suas habilidades bilíngues que demonstrariam o sucesso catequético da missão. Mas, depois do retorno à sua aldeia, conta o professor, o índio sofreu “uma crise espiritual, da qual se saiu reconquistado pelo velho ideal bororo: foi instalar-se em Kejari, onde desde há dez ou quinze anos, seguia uma vida exemplar de selvagem. Inteiramente nu, pintado de vermelho, com o nariz e o lábio inferior trespassados pela pequena barra e um adorno labial, o índio do Papa revelou-se como um maravilhoso professor de sociologia bororo” (Lévi-Strauss, p. 203). O antropólogo da França, pelo seu livro “Tristes Trópicos”, deu fama aos Bororo, o missionário da Alemanha ajudou na recuperação de seu território e deu a sua vida.
3. Contexto histórico de Meruri
Quando Lunkenbein chegou ao Brasil pela primeira vez, Meruri era uma missão com um grupo indígena Bororo reduzido, um internato com escola para meninos brancos das fazendas e das cidades próximas. Além dos Bororo, a Missão dava também assistência religiosa e social à população da região, pequenos agricultores e grandes fazendeiros, garimpeiros e criadores de gado. Rodolfo viu-se confrontado com uma longa história, múltiplas culturas, interesses de sobrevivência de uns e de enriquecimento ilícito de outros.
No fim do século 19, os salesianos foram chamados para reunir os numerosos grupos indígenas no interior do Mato Grosso. Era do interesse do Estado confinar os povos indígenas numa Missão para liberar os vastos territórios para a colonização. Em 1894, os salesianos chegaram em Cuiabá (MT), para atender e catequizar os indígenas que estavam abandonados e expostos à eliminação física e cultural. Um ano mais tarde, fundaram a primeira missão entre os Bororo, na Colônia Teresa Cristina, região do rio São Lourenço. Logo a Igreja local queria também ser beneficiada pelo trabalho apostólico dos missionários. “A meio século de sua chegada à região”, escreve o companheiro missionário de Rodolfo, o padre Gonçalo Alberto Ochoa Camargo, “a Missão Salesiana tinha sob sua responsabilidade grande parte das dioceses e paróquias da região, os seminários diocesanos, numerosos colégios (Cuiabá, Corumbá, Campo Grande, Goiânia), além dos internatos para atender à educação da população rural do interior” (Camargo, 1991, p. 340). Essas atividades reduziram a presença salesiana entre os povos indígenas. “A maior parte deles ficou no mesmo estado de antes, com a agravante de que, com o crescimento da população branca, as terras, onde os índios encontravam seus meios de subsistência, foram sendo ocupadas e eles cada vez mais dizimados e marginalizados” (ibid. p. 341).
A Missão Salesiana, que sofreu interrupções e revezes, não conseguiu evitar a eliminação de muitos grupos indígenaspelos migrantes que invadiram seus territórios. Em 1930, a Missão se transladou para Meruri e conseguiu que os Bororo depusessem as armas e aceitassem o convívio com os não indígenas, fato que ganhou elogios de Lévi-Strauss (cf. ibid. p. 341). Já que o etnocídio parecia inevitável, a missão salesiana procurou evitar o genocídio por uma política de integração dos índios na sociedade branca. Na época, as missões religiosas não apostavam num futuro próprio dos povos indígenas. Por conseguinte, a pastoral era pastoral rural, sem traços específicos de uma pastoral indigenista.Meruri estava a caminho de se tornar uma cidade mestiça com paróquia, escola, ambulatório, oficina mecânica e centro comercial. Nesses ambientes não se falava mais a língua bororo, como aconteceu com tantas cidades latino-americanas. Os Bororo de Meruri falavam português, eram escolarizados e profissionalizados. Era difícil neste emaranhado de relações sociais e interesses de uma história complexa sair de certa neutralidade pastoral e fazer uma opção pelos povos indígenas. O companheiro Camargo Ochoa descreve Rodolfo assim: “A ótima saúde, a grande força física – proporcional à sua estatura de 1,92 m – a inteligência prática, a humanidade, a alegria e a disposição para o serviço, eram as ferramentas que trazia” para seu trabalho missionário. Já nesta primeira estadia em Meruri, Rodolfo se tornou assistente do então diretor da Missão, Pe. Bruno Mariano (ibid. 339s).
4. Itinerário definitivo
Em 1965, terminado o estágio missionário de três anos em Meruri, Lunkenbein foi reenviado para a Alemanha. No ano em que o Vaticano II terminou, Rodolfo começou seus estudos teológicos no estudantado salesiano em Benediktbeuern. Concluídos os estudos, em 1969, foi ordenado sacerdote. Contam seus pais que Rodolfo vibrou com a renovação conciliar. Ao voltar ao Brasil e a Meruri, em 1970, escreve o padre Ochoa, encontra uma outra realidade. O Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín (1968) produziram as primeiras mudanças pastorais. Em Meruri havia começado um atendimento prioritário aos Bororo, a presença de famílias não indígenas perto da aldeia fora desmontada, a saúde, subsistência e cultura indígenas foram tratadas como prioridades (cf. CAMARGO, p. 43).
No início de 1974, Lunkenbein se tornou diretor da “Colônia Indígena de Meruri”. Os Bororo recebem com entusiasmo o novo diretor da Missão. Na Missa, um Bororo retira sua estola e troca por uma feita pelos indígenas, de penas de arara. Em outra ocasião introduzem Rodolfo, ritualmente, na tribo com o nome Okoge Ekureu, que significa, “Peixe Dourado” (ibid. 345).
No ano anterior, no dia 15 de novembro de 1973, na sétima reunião do Conselho Indigenista Missionario (Cimi), realizada na sede do “Instituto Anthropos do Brasil”, em Brasília, o “Peixe Dourado” tinha sido eleito Conselheiro do Cimi. Na mesma reunião, o verbita Pe. José Vicente Cesar foi eleito presidente e o dominicano D. Tomás Balduino vice-presidente do órgão. Através de cursos, reuniões, assembleias indígenas e missionárias, o Cimi se tornou uma escola permanente de qualificação dos missionários. Em plena ditadura militar (1964-1985) acabou a pastoral assimiladora da chamada “integração harmoniosa” na sociedade nacional e começou a pastoral libertadora com suas lutas pelademarcação dos territórios indígenas, pela preservação histórica de suas culturas e pela autodeterminação dos povos indígenas, visando um futuro do bem viver diferenciado da sociedade nacional. Pelo Estatuto do Índio (Lei 6001), promulgado em 19 de dezembro de 1973, o governo militar prometeu demarcar todas as terras indígenas no prazo de cinco anos.
Demarcadas as terras, a defesa das culturas e o protagonismo dos povos indígenas seria mais fácil. O não-cumprimento da promessa de demarcação das terras e o projeto desenvolvimentista com as estradas que rasgavam os territórios indígenas, abriram um profundo conflito entre a nova pastoral indigenista e o governo militar. Em condições de clandestinidade, o Cimi produziu um documento profético, datado no dia 25 de dezembro de 1973: “Y-Yuca-Pirama. O Índio: aquele que deve morrer”, que descreve a situação calamitosa da vida indígena no território nacional (cf. SUESS, p. 31-59). Muitas tarefas de vigilância, luta e cobrança esperavam a pastoral indigenista!
As Atas das reuniões do Conselho do Cimi fazem constantemente ouvir a voz de Rodolfo em defesa dos Bororo na luta pela demarcação de seu território. Logo nos dias 26 a 29 de agosto de 1974, Lunkenbein foi anfitrião de um primeiro Encontro de Estudos de Pastoral Indígena em Meruri, que aprofundou as linhas de ação do Cimi. Depois encontramos Rodolfo em Brasília e Cuiabá onde denuncia as constantes ameaças aos Bororo pelo fazendeiro João Marques de Oliveira (vulgo João Mineiro). Na Ata da 11ª reunião do Conselho do Cimi, dia 1º de março de 1975,Rodolfo e Eugênio Aidje, cacique bororo, comunicam novas perseguições por parte dos fazendeiros. “Continuam também as ameaças aos padres. Mas a união do povo Bororo e a esperança crescem igualmente dia a dia”, relata Rodolfo com certo otimismo. Em recente visita aos Bororo da área de Gomes Carneiro, em Rondonópolis, Rodolfo constatou o arrendamento de terras indígenas pela Funai aos fazendeiros “em troca da irrisória quantia de cinco vacas por cada cinco anos de arrendamento. E as vacas ficam não para os índios, mas para a Funai. [...] E a Igreja está ausente ali” (CIMI, Ata do 01.03.1973). Na 12ª reunião do Conselho, no dia 24 de abril de 1975, Rodolfo e Eugênio Bororo informam uma última vez aos conselheiros sobre a invasão de gado na roça dos indígenas e agressões contra a demarcação do território bororo.
Na véspera do início da demarcação da terra dos Bororo, dia 14 de julho de 1976, Rodolfo convidou a comunidade para celebrar uma Missa em ação de graças. Na homilia deixou entender que recebeu muitas ameaças, mas que estaria disposto a fazer qualquer sacrifício e até dar a própria vida para levar essa demarcação a um final feliz para os Bororo.
Na mesma noite da missa, João Mineiro juntou fazendeiros para combinar o ataque à Missão. No dia do assassinato, 15 de julho, pelas 10 horas da manhã, chega uma caravana de seis veículos com mais de 40 pessoas ao pátio da Missão. As cabeças da caravana estavam alcoolizadas, armados com revólveres e facas para impedir a demarcação. Trouxeram presos um dos três grupos de agrimensores, dois técnicos e quatro indígenas, com seu material de trabalho para a demarcação. Insultavam e agrediram fisicamente os padres Gonçalo Ochoa e depois Rodolfo, que às pressas foi chamado da roça onde estava trabalhando com os Bororo. João Mineiro mostra sua cruz gritando: “Olha aí, eu sou cristão! Olha aqui”, apontando para o seu filho. “Eu tenho um filho estudando para ser padre. Não seja ladrão, padre”! “Ladrão é você que veio aqui para morar em nossa terra”, replicou Genoveva Bororo, irmã de Simão Cristino. Este, ao socorrer o padre, logo seria exterminado tendo as entranhas rasgadas por uma faca. A mãe de ambos pegou uma bala bem no peito (cf. CIMI, Relatório de Genoveva). O “Peixe Dourado” estava cercado pelos que tinham jurado sua morte.
Eliminando o superior da Missão pensavam impedir a demarcação da terra e transferir os Bororo para uma outra região. Entre empurrões e insultos, Rodolfo tomou nota dos nomes dos presentes, procurou com calma explicar que as reivindicações deveriam ser dirigidas à Funai. Acompanhou o descarregamento do material dos agrimensores (cf. CIMI, Relato e Entrevista de Eugênio). Em determinado momento, João Mineiro puxou sua arma e deu o primeiro tiro no padre. Depois “o tal de Preto” (Manoel Borges da Silva), um cunhado de João Mineiro e outros atiraram. Depois de ser atingido por cinco balas, Rodolfo caiu morto no pátio da Missão. Quando o padre já estava caído, Genoveva puxou o irmão que já estava mortalmente ferido com uma facada nas costas. No caminho ao hospital, gritou: “Faz força para chegar ao hospital”. “Aí Simão começou a rezar. Fez sinal da cruz e rezou o ato de contrição e foi rezando sem parar até chegar no hospital”, onde faleceu, à tarde (cf. CIMI, Relatório de Genoveva). Outros quatro indígenas ficaram feridos. OBororo Simão Cristino era o pedreiro da aldeia e bom conhecedor dos remédios do mato. “Quando estava para morrer perguntou, se alguém tinha alguma coisa contra ele e que ele perdoava tudo” (CIMI, Eugênio Aidje).
A tragédia de Meruri não interrompeu o processo da demarcação da “Área Indígena Meruri”. A terra foi demarcada ainda em 1976, mas só onze anos mais tarde, em 11 de fevereiro de 1987, os 82 mil hectares, localizados nos Municípios General Carneiro e Barra do Garças (MT), foram definitivamente homologados pelo Decreto Presidencial n. 94.014. Em 1979,João Mineiro foi absolvido porque teria agido em legítima defesa e a vítima, o padre Rodolfo, foi acusado de ter atirado em primeiro lugar. Com exceção de Manuel Borges da Silva, “o Preto”, todos os participantes de chacina foram inocentados por falta de provas.
5. Mensagem da missão cumprida
A população de Meruri, que somava em 1905 ainda 217 indivíduos, em 1967 caiu para um mínimo de 87 pessoas (cf. Viertler, p. 139). Já em 1979 somaram, segundo Ochoa, 386 indivíduos, e até hoje dobraram esse índice populacional. OIBGE indica 657 Bororo para o ano 2010 na Terra Indígena de Meruri. O conjunto do povo bororo, que hoje vive em seis Terras Indígenas diferentes, no final do século 19 somava aproximadamente 10 mil pessoas. No início dos anos 70, com dados estatísticos de 1932, Darcy Ribeiro prognosticava aos Bororo reduzidos por perseguição dos não índios, por uma altíssima mortalidade infantil, por práticas abortivas, contraceptivos, infanticídio e o problema de alcoolismo, sua extinção (cf. RIBEIRO, p. 294; tb. TOLENTINO, p. 247ss). Na realidade aconteceu o contrário. A conversão pastoral iniciada pelo Vaticano II contribuiu para suspender o autoextermínio bororo.
No martírio de Rodolfo e Simão se constitui uma aliança entre a Missão e os povos indígenas. Essa aliança paradigmática conseguiu transformar o binômio “conversão-civilização” em missão libertadora autodeterminada, “sinal de contradição”. A geração mais idosa dos salesianos tinha dificuldade com essa metamorfose, porque veio ao Brasil e aos territórios indígenas sem ter a possibilidade de reinterpretar o lema missionário de seu fundador: “Dá-me almas, fica com o resto”! Da busca de almas à inculturação na e assunção da cultura bororo era uma longa caminhada.
Quarenta anos depois da chacina de Meruri, a “Igreja em saída” procura atribuir ao martírio de Simão e Rodolfo um significado mais universal através dos primeiros passos em direção de sua beatificação. Por ocasião da visita do padrePierluigi Cameroni, Postulador da Congregação Salesiana em Roma, entre os dias 25 de abril a 4 de maio de 2016, a Inspetoria Salesiana de Campo Grande, no dia 3 de maio 2016, apresentou ao Bispo de Barra do Garças, D. Protógenes Luft, a “Proposta de Abertura do Processo Diocesano de Reconhecimento do Martírio do P. Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo”. A solicitação foi favoravelmente acolhida por D. Protógenes e na Inspetoria, o P. João Bosco Maciel (Secretário Inspetorial) e o P. Paulo Eduardo Jácomo (Vice-Postulador no Brasil) foram nomeados, junto com o P. Cameroni, para darem prosseguimento à causa importante para um mundo muito carente de líderes que possam servir de exemplo para a juventude.
Hoje, os missionários não são mais os protagonistas da causa indígena, como na época de Lunkenbein. Para ocupar os territórios indígenas ou invadir as reservas, o grande capital não precisa mais matar os missionários fisicamente. Soube cooptar o conjunto dos três poderes e elimina, diretamente, as lideranças indígenas. A judicialização da causa indígena, que se estende não sobre esta ou aquela terra, mas sobre o país inteiro, veste a toga da legalidade para praticar a injustiça sistêmica em grande estilo. Nas cortes e nas delegacias, nos parlamentos e nos gabinetes vale o que sempre valeu: Pau que bate em Chico, não bate em Francisco.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
quarta-feira, 13 de julho de 2016
PAULO FREIRE, "FOME E SEDE"
EU FUI ALFABETIZADO PELA MINHA MÃE E REALFABETIZADO POR PAULO FREIRE. VEJAM O TESTEMUNHO DE ROBERTO MALVEZZI, E TENHAMOS CLAREZA DE QUE OS PERSONAGENS DO GOVERNO INTERINO NÃO PODEM MESMO GOSTAR DESTE MESTRE,
Paulo Freire, “fome e sede”.
Roberto Malvezzi (Gogó)
Nem no túmulo Paulo Freire deixará seus inimigos em paz. Eles o veem pela janela, pelas palavras, no vento, no sol, nos sonhos e pesadelos, inclusive o governo aí posto.
Não é sem razão. A leitura de mundo que ele tanto defendia é radicalmente diferente do letramento. Ler a sociedade brasileira, sua construção histórica, o papel das classes, de cada etnia, o significado da cor no Brasil, traz efetivamente desconforto para muitas pessoas, inclusive para cada um de nós.
Quando voltou do exílio, ele veio várias vezes aqui para a região de Juazeiro, a convite de D. José Rodrigues, até hoje considerado o “bispo dos excluídos”, ou “o profeta do Semiárido”. Passava semanas conosco, numa boa roda de conversa, como se fosse mesmo numa roda de bar. Não havia praticamente hora para acabar e ninguém queria sair dali. Um dia, cansado, ele disse: “agora vou sair. Quero ver também os passarinhos e as plantas”.
Hoje me sinto na obrigação de dar um testemunho pessoal.
Quando cheguei ao sertão – vínhamos em grupo -, janeiro de 1979, a paróquia de Campo Alegre de Lourdes nos colocava nas comunidades para “formar comunidades, fazer educação política e alfabetizar as crianças”. Então, na comunidade do Pajeú, durante uns 20 dias, eu tentava ensinar as crianças a ler pelas palavras geradoras “fome e sede”. Era a realidade do sertão daquele tempo. Hoje melhorou pelo menos 80%.
Passaram-se quase 40 anos daqueles dias. Então, abastecendo o carro num posto de gasolina de Casa Nova, uma mulher desceu de uma vã e veio diretamente na minha direção. Ela disse: “você é o Gogó”. Respondi: “sim”. Ela continuou: “você me reconhece? ” Eu respondi que lembrava dela, mas não me recordava de onde. Então ela disse: “você me alfabetizou quando eu era criança lá no Pajeú. Eu sou uma das gêmeas”.
Então, me recordei dela criança instantaneamente. Univitelinas, ela e a irmã estavam todos os dias nas aulas.
Confesso que a surpresa foi total. Eu não acreditava que aqueles poucos dias eram suficientes para iniciar alguém nas primeiras letras. Mas, não era só o que ela queria dizer, e concluiu: “estou fazendo faculdade em Petrolina e tudo começou com aquelas primeiras letras”.
O Brasil e o mundo devem muito a Paulo Freire, talvez acima de qualquer imaginação. O Papa Francisco disse à viúva dele que já leu “Pedagogia do Oprimido”. Paulo Freire será sempre um fantasma a assombrar aqueles que querem perpetuar sociedades opressivas. Aprender a ler o mundo é sempre um perigo.
O que o governo Temer quer fazer com a pessoa de Paulo Freire é do tamanho da própria insignificância.
terça-feira, 12 de julho de 2016
ENERGIA NUCLEAR: "ANGRA 3 É UM ESCÂNDALO POR SI SÓ"
MAIS UM MOTIVO DE HUMILHAÇÃO INTERNACIONAL: A DECISÃO DE LEVAR ADIANTE UM PROJETO DE ENERGIA NUCLEAR DOS ANOS 80, TOCADO POR EMPRESAS E FUNCIONÁRIOS CORRUPTOS!
QUANDO NOS LIVRAREMOS DO PODER POLÍTICO DE EMPRESAS QUE SÓ VISAM SEUS INTERESSES, E DE FUNCIONÁRIOS QUE SÓ VISAM SEU ENRIQUECIMENTO?
QUANDO NOS LIVRAREMOS DA IRRESPONSABILIDADE DE DEIXAR O SOL E OS VENTOS DE LADO PARA PRODUZIR ENERGIA NUCLEAR?
O POVO TEM DIREITO A UMA INFORMAÇÃO VERDADEIRA E DE SER CONSULTADO SE QUER OU NÃO UMA ENERGIA TÃO AMEAÇADORA PARA AS PESSOAS E TODOS OS SERES VIVOS DA MÃE TERRA.
QUANDO NOS LIVRAREMOS DO PODER POLÍTICO DE EMPRESAS QUE SÓ VISAM SEUS INTERESSES, E DE FUNCIONÁRIOS QUE SÓ VISAM SEU ENRIQUECIMENTO?
QUANDO NOS LIVRAREMOS DA IRRESPONSABILIDADE DE DEIXAR O SOL E OS VENTOS DE LADO PARA PRODUZIR ENERGIA NUCLEAR?
O POVO TEM DIREITO A UMA INFORMAÇÃO VERDADEIRA E DE SER CONSULTADO SE QUER OU NÃO UMA ENERGIA TÃO AMEAÇADORA PARA AS PESSOAS E TODOS OS SERES VIVOS DA MÃE TERRA.
"Angra 3 é um escândalo por si só"
A deputada Sylvia Kotting-Uhl, do Partido Verde alemão, afirma que as suspeitas levantadas na construção da usina brasileira são uma evidência das fraudes que envolvem a energia nuclear como um todo.
Na última quarta-feira (6/7), a Eletronuclear foi mais uma vez alvo de operação da Polícia Federal que apura o pagamento de propina envolvendo a construção da Usina de Angra 3.
O principal alvo foi o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da subsidiária e considerado o
Ele é acusado de cobrar 12 milhões de reais em propinas, soma equivalente a 1% do dos contratos da empreiteira Andrade Gutierrez para tocar as obras da usina de Angra 3. Seu sucessor, Pedro Diniz Figueiredo, foi alvo de um mandado de condução coercitiva e acabou sendo afastado da presidência da Eletronuclear por suspeita de interferir em investigações internas da empresa."pai do programa nuclear brasileiro", que acabou sendo preso mais uma vez neste novo desdobramento da Lava Jato.
Angra 3 começou a ser construída nos anos 80, e teve as obras retomadas em 2008. O projeto da usina é fruto do acordo bilateral entre a Alemanha e o Brasil firmado em 1975, que previa a construção conjunta de oito centrais. O projeto avançou pouco nas décadas seguintes e desde 1990 vem sendo prorrogado sucessivamente a a cada cinco anos. A última extensão do acordo ocorreu no final de 2014 passado apesar das críticas de vários políticos da Alemanha - país que pretende abandonar o uso da energia nuclear até 2022.
Em entrevista à Deutsche Welle, a deputada do Partido Verde lemão Sylvia Kotting-Uhl, umas das autoras da moção que tentou denunciar o acordo em 2014, afirma que as suspeitas levantadas na construção da usina são uma "evidência das fraudes que envolvem a energia nuclear" e que o caso pode ajudar no combate a uma nova prorrogação em 2019.
Pergunta: Esse escândalo de corrupção reforça a ideia de que a continuação do tratado nuclear entre Alemanha e Brasil foi um erro?
Kotting-Uhl: Sim, de fato. Acima de tudo, esse escândalo é mais uma evidência de que sempre vão existir fraudes e trapaças envolvendo a energia nuclear. A perda financeira é até o menor dos problemas. Particularmente perigoso e grave é que essas fraudes são sempre feitas às custas da segurança. Foi assim em Fukushima e assim é na Europa. Essa é um das muitas razões que mostram por que a energia nuclear não pode ser segura, e que seu uso é irresponsável.
O acordo foi prorrogado mais uma vez em 2014, por mais cinco anos. Os deputados alemães que se opõem estão planejando lutar novamente contra a revogação em 2019?
Nós, os verdes, sempre vamos intervir. Em vez de um tratado pró-nuclear, precisamos de uma parceria para a oferta de energia renovável, que nao seja perigosa pra os seres humanos e ao meio-ambiente.
O escândalo envolvendo propina na usina nuclear pode fornecer novos argumentos para denunciar o acordo?
Penso que sim. Eu acho que todo o projeto é um escândalo por si só - como a construção de uma usina nuclear pode continuar depois do acidente de Fukushima. Ainda mais de um modelo de usina tão ultrapassado, ruim e perigoso, que deixou de ser construído na Alemanha há mais de 20 anos. É um jogo irresponsável e de alto risco! Angra 3 é semelhante à antiga usina alemã de Grafenrheinfeld, que foi fechada um ano trás porque não queríamos mais encarar esse risco
segunda-feira, 11 de julho de 2016
BRASIL: LIBERAL E LIBERTINO EM RELAÇÃO A VENENOS
SE FOSSE POSSÍVEL QUE OS EFEITOS CANCERÍGENOS DESTES VENENOS QUE AS EMPRESAS QUEREM LIBERAR SÓ AFETASSEM OS DONOS E COLABORADORES DELAS - ENTRE ELES OS "TÉCNICOS" DA ANVISA ET CATERVA -, TUDO BEM, UMA VEZ QUE A DECISÃO É DELES.
MAS COMO AFETAM TODO MUNDO E TODA A NATUREZA, PRECISAMOS DEIXAR QUE A INDIGNAÇÃO TOME CONTA DE NOSSA VONTADE E INSPIRE AÇÕES DE REVOLTA CONTRA TANTA IRRESPONSABILIDADE E DESEJO DE MATAR, BEM COMO CONTRA TANTA CONIVÊNCIA POLÍTICA DE GOVERNANTES QUE DECIDEM SEM CONSULTAR SEU POVO QUE EMPRESAS LUCREM COM PRODUTOS QUE MATAM.
http://www. contraosagrotoxicos.org/index. php/noticias/41-agrotoxicos/ 631-diario-oficial-venenoso- 10-novas-solicitacoes-de- registro-de-agrotoxicos- publicadas-hoje
O Diário Oficial da União, ultimamente portador das piores notícias do país, teve uma edição venenosa no dia de hoje. A Coordenação Geral de Agrotóxicos do MAPA publicou hoje o pedido de registro de 10 agrotóxicos. Em todos eles, os ingredientes ativos já são registrados, e por isso foram pedidos os registros por equivalência, que têm trâmite mais rápido, regulamentado pelo Decreto 4074/02. Os pedidos de registro feitos hoje são:
MAS COMO AFETAM TODO MUNDO E TODA A NATUREZA, PRECISAMOS DEIXAR QUE A INDIGNAÇÃO TOME CONTA DE NOSSA VONTADE E INSPIRE AÇÕES DE REVOLTA CONTRA TANTA IRRESPONSABILIDADE E DESEJO DE MATAR, BEM COMO CONTRA TANTA CONIVÊNCIA POLÍTICA DE GOVERNANTES QUE DECIDEM SEM CONSULTAR SEU POVO QUE EMPRESAS LUCREM COM PRODUTOS QUE MATAM.
http://www.
Diário Oficial Venenoso - 10 novas solicitações de registro de agrotóxicos publicadas hoje
- Publicado: 11 Julho 2016
| Ingrediente Ativo | Empresa | Comentário |
| 2,4-D | AllierBrasil | O 2,4-D é um herbicida que foi desenvolvido durante o programa da guerra química e biológica na segunda Guerra Mundial (1939-1945), sendo também utilizado na guerra do Vietnã (1954-1975), fazendo parte, juntamente com o herbicida 2,4,5-T e o pentaclorofenol, de um composto conhecido como agente laranja, que foi utilizado como desfolhante das florestas vietnamitas. Desde então o 2,4-D vem sendo utilizado no controle seletivo de ervas daninhas, principalmente em pastagens. Na reavaliação do produto, em andamento, a Anvisa já indicou que não há problema algum no agrotóxicos, contrariando consequências fartamente documentadas como alteração genética capaz de desencadear o câncer, alterações do sistema hormonal, má-formação fetal e toxicidade neurológica. |
| Iprodiona | Nortox | Causa problemas reprodutivos e de desenvolvimento, bem como problemas no trato respiratório. Fonte: PPDB |
| Bifentrina | Adama Brasil | Causa problemas reprodutivos e de desenvolvimento, possivelmente cancerígeno, e suspeito de ser desruptor endócrino. |
| Paraquate | Adama Brasil | Proibido na União Europeia, este agrotóxicos também já deveria estar banido do Brasil. Entretanto, a Anvisa numa decisão surpreendente, contrariou seu próprio laudo técnico e indicou a manutenção do agrotóxicos no mercado. A decisão final ainda não foi publicada. |
| Piriprofixem | ALTA | Larvicida usado para controle do mosquito Aedes Aegipty, ficou no centro da polêmica quando médicos argentinoslevantaram suspeita de relação deste agrotóxico com os casos de microcefalia. |
| Dicamba | Gilmore | A Monsanto já está registrando transgênicos resistentes ao Glifosato, 2,4-D e Dicamba por conta da alta taxa de resistência de plantas ao glifosato. Mais aqui. |
| Picloram | GIlmore e Lemma Consultoria (Importação) | Conhecido popularmente como Tordon, este herbicida também chegou a ser testado na guerra do Vietnã como agente desfoliante. Consta na lista dos "Bad Actors" da Pesticide Action Network, e consta na lista de disruptores endócrinos da União Europeia. |
| TIametoxam | Sycrom | Neonecotinóide, está na mira das organizações sociais no mundo inteiro por estarem relacionados à mortandade em massa de abelhas. |
| Diflufenicam | Bayer | -- |
SOLIDARIEDADE ÀS AMIGAS E AMIGOS DAS MULHERES ASSASSINADAS EM HONDURAS
A ECONOMIA DE MERCADO CAPITALISTA É UM SISTEMA QUE MATA. DE MUITAS FORMAS. NO CASO DE BERTA CÁSSERES E, AGORA, LESBIA YANETH, COM O USO DE BALAS MORTÍFERAS.
MAS O GOVERNO E O JUDICIÁRIO - NA VERDADE, TODOS OS MEMBROS DA ELITE DOMINANTE - SÃO IGUALMENTE CRIMINOSOS, COMPROMETIDOS COM A MINORIA QUE EXIGE E IMPÕE A BALA QUE TUDO E TODOS SIRVAM AOS SEUS INTERESSES.
COM A TEIMOSIA DAS E DOS SEGUIDORES DE BERTA E LESBIA, AINDA RAIARÁ O DIA DA JUSTIÇA, DA IGUALDADE E DA PAZ!
MAS O GOVERNO E O JUDICIÁRIO - NA VERDADE, TODOS OS MEMBROS DA ELITE DOMINANTE - SÃO IGUALMENTE CRIMINOSOS, COMPROMETIDOS COM A MINORIA QUE EXIGE E IMPÕE A BALA QUE TUDO E TODOS SIRVAM AOS SEUS INTERESSES.
COM A TEIMOSIA DAS E DOS SEGUIDORES DE BERTA E LESBIA, AINDA RAIARÁ O DIA DA JUSTIÇA, DA IGUALDADE E DA PAZ!
“...Ao assassinar essas mulheres, os que as combatem acreditam que conseguiram abater o inimigo. Só se enganam os medíocres, já que será no sangue derramado que o estímulo e a coragem destas mártires nos fará reagir com mais e mais força....”
Lesbia Yaneth e Berta Cáceres: o retrato da coragem das mulheres ambientalistas
Por Amyra El Khalili*
Quando penso que deveríamos encerrar o Movimento Mulheres pela P@Z!, alguma coisa estupidamente absurda acontece. Digo estupidamente absurda, mas não menos surpreendente. Nesta semana, 8 de julho, nossas redes comunicaram o assassinato de mais uma ativista em Honduras, a companheira de Berta Cáceres, Lesbia Yaneth, membro do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh). Berta Cáceres foi assassinada há quatro meses e quatro dias antes. Nem a enxurrada de protestos deflagrados mundialmente contra seu violento assassinato, e de outros companheiros e companheiras, foi suficiente para estancar ou sequer inibir a onda de violência contra mulheres e homens que lutam em defesa do meio ambiente e dos direitos humanos.
Na linha de frente, há mulheres inconformadas com as agressões ambientais, o roubo de terras, a expulsão de populações e minorias que dão o peito à bala para tentar frustradamente impedir o avanço da virulenta guerra motivada pela ganância política e financeira sobre os bens comuns, classificados militarmente como “recursos naturais estratégicos”. A razão é o modelo econômico do mundo em que vivemos, altamente consumidor de água, energia, minérios e biodiversidade. Para explorar esses bens e deles se apropriar, é necessário ter o controle territorial, ou seja, manter a lógica da ganância, ou recorrer à definição militar de “recurso estratégico” para justificar “coisas estupidamente absurdas”.
Para o Copinh, a morte de Lesbia Yaneth é um feminicídio político, que busca calar as vozes das mulheres que, com coragem e bravura, defendem seus direitos contra o sistema patriarcal, racista e capitalista, que se aproxima cada vez mais da destruição do nosso planeta.
De fato, desde que as guerras foram empreendidas pela espécie humana, o sectarismo, a perseguição religiosa, racial e étnica tem sido o meio de obter poder de uns sobre os outros. No entanto, o que não se discutia abertamente ou se admitia é que o sucesso desta empreitada se dá pelo domínio, pela humilhação, pelo constrangimento e o massacre de mulheres, principalmente das que lideram as frentes de combate e que adquiriram, pela dura experiência de sobreviver nesse ambiente de guerrilha, uma articulação politizada e a capacidade de organizar grupos e convencer milhares e milhares a engrossar as trincheiras da resistência.
Ao assassinar essas mulheres, os que as combatem acreditam que conseguiram abater o inimigo. Só se enganam os medíocres, já que será no sangue derramado que o estímulo e a coragem destas mártires nos fará reagir com mais e mais força.
Se eles comemoram esta suposta vitória, a nossa será a de vê-los estremecer diante da nossa revolta, mobilizando a opinião pública para expor seus projetos de miséria e genocídio.
É por essas e tantas outras coisas que não conseguimos encerrar essa rede internacional de mulheres e homens que sonham com a paz e fazem deste sonho a sua razão de viver.
Graças aos que imortalizaram Lesbia Yaneth, Berta Cáceres e tantas outras companheiras, elas também VIVEM!
Referência:
Honduras. Assassinada outra líder ambiental. Era companheira de Berta Cáceres. http://port.pravda.ru/mundo/ 08-07-2016/41319-honduras_ lider-0/. Acesso em: 8 jul. 2016. Publicado em: 8 jul. 2016.
Amyra El Khalili é fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
UM ATLAS DE NOSSA AGRICULTURA ENVENENADA
E AGORA, SENHORES DO AGRONEGÓCIO, AINDA CONTINUARÃO AFIRMANDO SUA INOCÊNCIA E SEUS MÉRITOS POR AJUDAR O PAÍS COM EXPORTAÇÕES? PARA O QUE SERVEM OS DÓLARES GANHOS? COM CERTEZA NÃO PARA APOIAR QUEM É ENVENENADO, QUEM SOFRE DE CÂNCER...
QUANDO CONQUISTAREMOS POLÍTICA PÚBLICA QUE VALORIZE PRIORITARIAMENTE A AGROECOLOGIA, O ALIMENTO NATURAL, FONTE DE SAÚDE?
QUANDO CONQUISTAREMOS POLÍTICA PÚBLICA QUE VALORIZE PRIORITARIAMENTE A AGROECOLOGIA, O ALIMENTO NATURAL, FONTE DE SAÚDE?
Um Atlas de nossa agricultura envenenada
POR
JOÃO PERES
OUTRAS PALAVRAS – 02/07/2016CATEGORIAS: BRASIL, DESTAQUES, MEIO AMBIENTE, POLÍTICAS
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Professora da USP produz primeira série de mapas sobre uso, abuso e tragédias relacionadas aos agrotóxicos no Brasil. Dados demonstram: alternativa é rever modelo baseado no agronegócio
Por João Peres, da equipe De Olho nos Ruralistas
–
De Olho nos Ruralistas
Projeto de programa de TV pela internet e site.
Newsletters diárias sobre alimentação, ambiente, conflitos agrários e o agronegócio.
Financiamento coletivo: Para conhecer e ajudar a viabilizar o projeto — que tem apoio de Outras Palavras –, clique aqui.–
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Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.
Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.
Além disso, Larissa leva em conta os registros do ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.
Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.
Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livroGeografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:
– Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo? – indaga a professora, em entrevista nesta quarta-feira (28/06) aoDe Olho nos Ruralistas.
O papel do agronegócio
Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.
A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias.
Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações. Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do país. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.
O veneno está na cidade
A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.
“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade.”
No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.
Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece.” Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração.
MS: ÍNDIOS SÃO HOSTILIZADOS E PERSEGUIDOS
É MOTIVO DE REVOLTA PROFUNDA O QUE ESTÁ FAZENDO AOS POVOS GUARANI E KAIOWÁ! QUANDO A JUSTIÇA DARÁ O AR DA GRAÇA?
TODO O APOIO ÀS DECISÕES DO CONSELHO ATY GUASU, TANTO EM RELAÇÃO À RETOMADA DOS SEUS TERRITÓRIOS, COMO EM RELAÇÃO ÀS RESPOSTAS A SEREM DADAS ÀS AGRESSÕES E VIOLÊNCIAS.
Índios que ocupam fazendas em Caarapó (Foto: Helio de Freitas)
TODO O APOIO ÀS DECISÕES DO CONSELHO ATY GUASU, TANTO EM RELAÇÃO À RETOMADA DOS SEUS TERRITÓRIOS, COMO EM RELAÇÃO ÀS RESPOSTAS A SEREM DADAS ÀS AGRESSÕES E VIOLÊNCIAS.
05/07/2016 12:21
Índios são hostilizados e perseguidos após ocupação, denuncia Aty Guasu
Em carta divulgada pelo Cimi, conselho promete união dos povos indígenas da região para pressionar governo a demarcar territórios
Helio de Freitas, de Dourados
Índios estariam sendo hostilizados e perseguidos na cidade de Caarapó, a 283 km de Campo Grande, após a ocupação de propriedades vizinhas à reserva Tey Kuê, no mês passado. A denúncia foi feita pelo Conselho Aty Guasu, em carta divulgada no site do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).No sábado (2), representantes das comunidades indígenas da região sul se reuniram na fazenda Yvu, onde os índios foram atacados a tiros por fazendeiros e seguranças, no dia 14 de junho, para exigir das autoridades a punição dos autores do assassinato do agente de saúde Clodiodi de Souza, 26, e dos ferimentos em outros seis guarani-kaiowá.
“O que vemos hoje é uma manobra política do Sindicato Rural e da Associação Comercial de Caarapó em tentar convencer os pequenos proprietários e as pessoas que trabalhavam nas fazendas, colocando-as contra os indígenas, que têm sido hostilizados e perseguidos na cidade”, afirma trecho da carta.
Durante o encontro, o Conselho da Aty Guasu prometeu lutar junto com a comunidade para a demarcação das áreas incluídas no decreto de identificação o território “DouradosAmambaipeguá I”, publicado no dia 13 de maio deste ano pela Funai. O decreto engloba 65 mil hectares e atinge Caarapó, Amambai e Laguna Carapã.
“Nós do conselho estamos juntos nesta luta e que se for preciso vamos unificar todos os territórios guarani e Kaiowá para garantir a demarcação do Dourados-Amambaipeguá. O conselho da Aty Guasu e todos os kaiowá e os guarani agradecem e reconhecem a luta de vocês da região de Caarapó e pela disposição de vocês em encarar a morte para defender a vida de nossas futuras gerações”, afirma a carta.
Sem recuo – Com críticas pesadas aos ruralistas, a quem responsabiliza diretamente pelo desfecho em Caarapó e em Antonio João, no ano passado, o Aty Guasu manda um recado para a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul e para os Sindicatos Rurais: apesar de vocês serem assassinos e continuarem atacando nossos Tekoha, não daremos nenhum passo atrás na luta pelas nossas terras que foram roubadas e que cada um que cair morto por vocês será um motivo a mais para que nossa luta se fortaleça. A cada tiro um novo passo, a cada cova aberta, nova terra retomada. Garantimos isso”.
Dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, os índios cobraram a punição dos responsáveis pelo ataque do dia 14 em Caarapó: “Frente a este massacre covarde nós exigimos Punição Imediata aos assassinos que são amplamente conhecidos e reconhecidos. Agradecemos o esforço do MPF para fazer justiça, porém, lamentamos profundamente a inércia dos outros setores. Vocês não podem ficar parados frente a tantas provas, vídeos e registros. Isto é mais que omissão, é participação e aceitação do crime de genocídio”.
Ameaças – Na carta, o Aty Guasu também afirma que não aceitará a prisão de índios da aldeia Tey Kuê, que são acusados de tentativa de homicídio, roubo e dano ao patrimônio pelo ataque a três policiais militares, também no dia 14 passado. Os policiais foram espancados e tiveram as armas e coletes levados pelos índios. A viatura foi queimada, assim como um caminhão que fazia serviço em uma das fazendas ocupadas.
“Não aceitaremos que nenhuma das lideranças indígenas de Tey kuê e de qualquer um dos acampamentos de retomada seja presa. Nós não matamos ninguém, apesar da dor coletiva de todas as famílias pelo ataque e o assassinato de Clodiodi. Se por acaso acontecer [prisões de índios], saibam que entenderemos isso como uma declaração de deboche e guerra contra nosso povo. Se esta perseguição acontecer, teremos então que desacreditar no Estado por completo e retomar nossos territórios por nossas próprias mãos”, afirmam os índios.
Ainda na carta, o Aty Guasu promete paralisar todas as rodovias do Estado e “declarar guerra” ao governo caso haja prisões de índios. “Aqui um pai perdeu um filho, nós perdemos um importante parente e nosso solo tradicional foi manchado novamente de sangue. Se um apenas for levado todos nós, de todas as tekoha, iremos nos levantar, queimaremos os canaviais, destruiremos as plantações, mataremos os bois e retiraremos as usinas e as rodovias que ainda estão dentro de nossos tekoha nos explorando”.
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