sábado, 6 de fevereiro de 2016

POBREZA E CLIMA SÃO UM PROBLEMA HUMANITÁRIO



‘Pobreza e clima são um problema humanitário’, diz diretor da ActionAid
Adriano Campolina alerta para ‘tragédias silenciosas’ em países pobres

POR RENATO GRANDELLE
06/02/2016 6:00 / atualizado 06/02/2016 7:35
Diretor-executivo da ActionAid, Adriano Campolina defende que o aquecimento global e a situação nas favelas estão interligados e destaca as crecentes “tragédias silenciosas”, que dizimam as populações pobres e forçam sua migração para locais onde não têm direitos reconhecidos.
Em janeiro, no encontro anual do Fórum Econômico Mundial, as mudanças climáticas foram apresentadas como uma das maiores ameaças ao planeta. A diplomacia internacional está finalmente se movimentando para lidar com este tema?

A diplomacia acordou meio devagar, ainda está preguiçosa. Já reconhece o aquecimento global como um problema, mas ainda não teve capacidade de fazer acordos suficientemente ambiciosos que promovam reações à altura. Atualmente, não temos armas para enfrentar este dilema da Humanidade.
Por que os pobres serão as primeiras vítimas das mudanças climáticas?
Porque são eles que ocupam os territórios mais vulneráveis aos eventos extremos, como a beira de rios, a encosta de morros, as áreas do semiárido com menor disponibilidade de água. Em todos os países do mundo, as melhores áreas para a agricultura e os terrenos mais seguros da cidade são ocupados por pessoas de maior poder aquisitivo. O Rio é um exemplo clássico. Nas favelas há uma gradação de pobreza. Quanto mais alta é uma casa, mais sujeita ela está ao deslizamento de terra, e mais miserável é aquela população.
O aquecimento global contribui para um ciclo vicioso que envolve pobreza e preconceito?
Sim. Em Bangladesh, por exemplo, o aumento do nível do mar fez diversas comunidades trocarem a atividade agrícola pela criação de camarão, e este trabalho foi assumido pelas mulheres, que tiveram problemas de pele devido à exposição à salinização excessiva. Os maridos, então, as rejeitavam. Além de mudanças na atividade econômica, o clima também pode forçar o deslocamento da população, aumentando a disputa por recursos. A sociedade fica desestruturada, aumenta a violência contra as mulheres, o casamento de adolescentes — todos expostos a um processo cada vez maior de discriminação.
Como podemos diferenciar o refugiado climático das populações que deixam sua terra por outros motivos?
A fuga da guerra é um caso óbvio. É maciça, quase imediata e pode ter características étnicas. Cem mil pessoas saíram dos conflitos no Burundi e foram para Tanzânia e Ruanda, por exemplo. No caso dos refugiados climáticos, a migração é a conta-gotas. Uma comunidade pode resistir à seca por alguns anos antes de deixar sua terra. É um movimento devagar a curto prazo, embora tenha um volume significativo. Os refugiados climáticos não rendem manchetes de jornal, não são uma multidão que cruza a fronteira de um dia para o outro. Não há uma resposta rápida dos governantes e a sociedade não mobiliza recursos. Esta população invisível deixa seu país miserável por uma situação ainda pior, porque não conta com a proteção do Estado e não tem seus direitos reconhecidos. Se não houver um forte combate às mudanças climáticas, acredito que este fenômeno será cada vez mais comum e acelerado.
É possível falar da pobreza sem debater o clima?
Não. Pobreza e clima estão interligados e são um problema humanitário. Um terremoto é visível e causa muita comoção, mas percebemos, nos últimos anos, a ampliação das emergências silenciosas. Por isso trabalhamos cada vez mais com medidas que contenham o choque climático, como o uso de variações de produtos agrícolas tolerantes à seca, métodos de uso e conservação do solo que tornem a exploração do campo menos sujeita ao excesso de precipitações, métodos de captação da água da chuva em telhados.
Como é a relação entre justiça social e aquecimento global no Brasil?
Estamos em um dos países mais desiguais do mundo. O nível de pobreza e injustiça social é secular. Mas o Brasil é uma das poucas nações que, nas últimas décadas, conseguiu aliar crescimento econômico e distribuição de renda. Demos alguns passos na direção correta. A sustentabilidade deixou de ser um discurso de meia dúzia de pessoas e transformou-se em um debate nacional. Nossa economia pode ser transformada a partir da matriz energética pouco poluente, da diversidade geográfica e da extensão territorial.
Que efeitos as mudanças climáticas podem trazer para o país?
As estatísticas da ONU mostram que a perda da safra de grãos pode chegar a R$ 7,4 bilhões em 2020 e até R$ 14 bilhões em 2070. Com a estiagem, diversas culturas teriam reduções na área de plantio, como o arroz, feijão e café. Os pequenos agricultores, que não têm dinheiro para comprar um aparelho de irrigação, serão as maiores vítimas. É um perigo para todo o país, porque os agricultores familiares são justamente aqueles que produzem a maior parte dos itens que compõem a cesta básica. Qualquer impacto em sua área de trabalho vai repercutir no preço e na alimentação de todos.
Estas populações serão beneficiadas pelo acordo contra as mudanças climáticas estabelecido no fim do ano passado em Paris?
Não acho que este documento percebeu a gravidade do problema. Foi importante ver que existe um consenso mundial, mas ele foi nivelado por baixo. Há um hiato entre a ambição e a realidade do acordo. Fala-se em conter o aquecimento global em até 2 graus Celsius, mas as metas apresentadas pelos países indicam que o aumento da temperatura pode atingir a marca de 3 graus Celsius. Também que não foram criados mecanismos legais para conferir o que cada país cumprirá.
Os países pobres terão financiamento para adaptar sua economia às mudanças climáticas?
Não, o acordo não foi justo. Os países ricos dizem no texto que não precisam compensar os danos sofridos pelas nações pobres. Assim, o financiamento, que é um ato de justiça e uma obrigação histórica, transforma-se quase numa ação de caridade. Um acordo só poderia ser bem-sucedido se houvesse um compromisso com aquela mulher excluída de Bangladesh. Isso não aconteceu.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A INJUSTIÇA FISCAL BRASILEIRA

QUASE TODAS AS PESSOAS SABEM QUE PAGAM MUITO IMPOSTO OS MAIS POBRES E A CLASSE MÉDIA, MAS POUCOS SABEM QUE NÃO É VERDADE QUE O BRASIL É O PAÍS DOS IMPOSTOS. VALE LER O ARTIGO E PRESTAR ATENÇÃO AOS DADOS QUE MOSTRAM COMO PAÍSES MAIS RICOS E MAIS POBRES COBRAM TAXA MÉDIA MAIS ALTA DE IMPOSTOS DO QUE O BRASIL. E RECOLHEM MAIS IMPOSTOS DOS MAIS RICOS, AO CONTRÁRIO DO QUE POR AQUI. 

Notas críticas sobre a injustiça fiscal brasileira

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O mito: “temos a maior carga tributária do mundo”. Os fatos: sistema fiscal pune a maioria, mas é dócil com privilegiados. A afronta: ricos e empresas querem pagar ainda menos. Veja números e tabelas
Por Joana Rozowykwiat, no site do Inesc
De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Heritage Foundation, de 2014 e 2015, a carga tributária média mensal brasileira é a quinta mais baixa entre as 20 maiores economias do mundo e está longe de figurar como a mais elevada do planeta.
“Quando a gente avalia, na comparação com outros países, vemos que os cerca de 36% de carga tributária [em relação ao PIB] do Brasil está na média dos outros lugares. O problema é que temos aqui uma situação de injustiça fiscal que penaliza os pobres e a classe média”, diz Grazielle Custódio David, especialista em Orçamento Público e assessora do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).
Segundo ela, essa situação de desigualdade acontece basicamente por duas razões. Primeiro, porque grande parte da estrutura tributária do país está baseada em impostos indiretos, ou seja, que incidem sobre o consumo de bens e serviços e não sobre a renda e a propriedade.
“O problema de ter uma grande taxação de consumo é que, proporcionalmente, quem acaba pagando mais são os mais pobres. Por exemplo, se vai comprar arroz no supermercado, um pobre paga o mesmo imposto que um rico. Mas, quando a gente relaciona com o salário que aquela pessoa recebe, a proporção que o pobre paga é muito maior que a da pessoa rica. Isso configura uma situação de injustiça fiscal”, aponta Grazielle.
O outro entrave à justiça fiscal, diz Grazielle, está relacionado à forma de tributar a renda no país. “A gente tem uma situação em que a classe média, a faixa que recebe entre 20 e 40 salários mínimos, é a que paga mais imposto de renda hoje no Brasil. Já quem recebe, por exemplo, acima de 70 salários mínimos, praticamente não paga imposto”, compara.
No país, hoje, as rendas do trabalho são submetidas à cobrança de imposto de acordo com uma tabela progressiva com quatro tipos de alíquotas (7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%). Já nas rendas do capital o leão dá apenas uma mordiscadinha, uma vez que as rendas decorrentes da distribuição de lucros e dividendos são isentas de Imposto de Renda. E outras, como ganhos financeiros ou de capital, estão sujeitas a alíquotas exclusivas, inferiores àquelas cobradas sobre a renda do trabalho.
“Se a gente compara um assalariado que paga na alíquota máxima de 27% com alguém que recebe mais do que o limite do imposto de renda, há uma situação terrível. Porque a maioria deles [os mais ricos] recebe por lucros e dividendos e, quando a gente avalia quanto eles pagam em imposto de renda, normalmente chega em 6%. Olha a situação: um grupo, que é a classe média, paga 27,5% de IR. E quem ganha muito mais que este grupo paga muitas vezes só 6%, porque existe a isenção de cobrança do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos”, lamenta Grazielle.
Segundo dados da Receita Federal, em 2014, um grupo com cerca de 71 mil brasileiros ganhou quase R$ 200 bilhões sem pagar nada de Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF). Foram recursos recebidos, em sua maioria, como lucros e dividendos.
Essa isenção da tributação sobre lucros e dividendos foi instituída no país em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). “Entre todos os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), só o Brasil e a Estônia têm essa isenção. É uma vergonha, um vexame que o Brasil tenha aprovado uma lei como esta, que acaba punindo muitos de seus cidadãos, e beneficiando muito poucos”, critica Grazielle.
Os pesquisadores Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estimam que o governo poderia arrecadar mais de R$ 43 bilhões ao ano com a cobrança de imposto de 15% sobre lucros e dividendos recebidos por donos e acionistas de empresas.
Em um momento de ajuste fiscal, no qual o governo faz malabarismos para cortar gastos e aumentar a arrecadação, o valor seria mais que bem-vindo.
As manipulações da Fiesp
Os ricos brasileiros não têm mesmo do que se queixar. De acordo com Grazielle, o Brasil tem ainda um dos mais baixos impostos sobre patrimônio. “Hoje, no Brasil, a arrecadação com impostos sobre patrimônio está na faixa de 3%. A média mundial é entre 8 e 12%”, informa, apontando a falácia no argumento de quem cita a carga tributária como abusiva.
A assessora do Inesc criticou o discurso de combate aos tributos, que interessa, especialmente, aos super-ricos, sobre quem menos pesam os impostos. Ela aponta a Fiesp como grande representante desse grupo – em grande parte possuidor de empresas e recebedor de lucros e dividendos não tributados.
Para ela, a entidade mente e manipula informações, de forma a conseguir a adesão da população para suas campanhas pela redução da carga tributária. Ao propalarem desinformação, as iniciativas terminam conseguindo apoio entre as classes baixa e média, que de fato sentem no bolso o preço dos impostos.
“A Fiesp, através de sua atuação, inclusive de lobby com o Legislativo, grandes campanhas e articulação, representando os interesses dos super-ricos, tem formulado um discurso fácil de ser assimilado, porque as pessoas percebem uma carga pesada para elas e acatam esse discurso. Mas o problema é que eles [da Fiesp] contam uma mentira, ou uma verdade incompleta. Manipulam as informações, e o pobre e a classe média acabam sentindo, sim, o peso, porque todo o peso da carga tributária está sobre eles. Enquanto isso, os ricos praticamente não pagam imposto. É um discurso forjado, manipulador, para enganar a população”, acusa.
Para que serve o imposto
De acordo com Grazielle, a maior consequência deste tipo de campanha é que, ao insistir que a carga tributária é alta, distancia as pessoas de uma compreensão real sobre a importância dos impostos.
“A gente vai então ignorando o que determina uma carga tributária, que são as demandas sociais”, ressalta. Segundo ela, cria-se um quadro de contradição, em que as pessoas pleiteiam melhores serviços públicos, mas combatem a forma que o Estado tem de promovê-los.
“É isso que leva as pessoas para as ruas. É saúde, educação, segurança, promoção de direitos fundamentais, direitos humanos. E são essas demandas e necessidades sociais que vão determinar qual é a carga que um país tem que ter de tributos para garantir esse tipo de assistência à sua população. Se a gente quer que essas demandas sejam atendidas, os impostos são necessários. Agora, a forma como esse imposto vai ser cobrado da sociedade, aí é que entra a questão da justiça fiscal, que precisa melhorar no país”, diz.
Ela avalia que o debate sobre a importância dos tributos não interessa à parcela mais rica da população – a mesma que faz críticas ao tamanho do Estado. “Esses super-ricos não têm muito interesse de que essas demandas sociais sejam atendidas para o coletivo, porque muitos deles, por exemplo, recorrem a um plano de saúde, a uma escola privada, muitos contratam segurança privada, e esquecem que a maioria da população não tem como recorrer a isso e necessita que o Estado garanta.”
Para ela, mais que um debate sobre ter mais ou menos impostos, é preciso redistribuir a carga já existente.
“Isso pode ser feito com a diminuição de impostos indiretos e com redistribuição do imposto de renda. A gente pode, por exemplo, criar mais faixas, com diferentes alíquotas, diminuindo a incidência do Imposto de Renda até os 40 salários mínimos, e aumentando a partir daí, desde que se revogue a lei que isenta de taxação os lucros e dividendos. Além disso, a gente pode trabalhar muito na questão dos impostos sobre patrimônio”, sugere.
A especialista em Orçamento Público defende que, com esta série de medidas, é possível aumentar a arrecadação – e, consequentemente, o orçamento público –, diminuir o peso da carga tributária sobre os mais pobres e a classe média e, ainda, atender melhor às demandas sociais e promover políticas públicas com melhor financiamento, o que acabaria por gerar melhor qualidade nos serviços.
Grandes fortunas
Outra medida que vem sendo discutida como forma de aumentar a justiça fiscal no país é a implantação do imposto sobre grandes fortunas, que está previsto na Constituição, mas precisa ser regulamentado. Grazielle, contudo, avalia que a medida enfrenta dificuldades para avançar.
“Uma grande resistência a esse tipo de taxação é de quem diz que vai haver fuga de capitais do país. Outra questão é que, quando se fala em imposto, significa que a União não pode compartilhar. Então existe uma resistência de estados e municípios para avançar nisso, se for em formato de imposto. Se fosse, por exemplo, no formato de uma taxa, ou outro formato de cobrança, talvez tivesse mais apoio de governadores e prefeitos”, avalia.
Segundo ela, nesse sentido, a adesão dos estados e municípios é maior à proposta de recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). “Como a CPMF é uma contribuição, ela pode ser compartilhada. Talvez por isso, o debate sobre a taxação de grandes fortunas perca um pouco de força”, explica.
Segundo ela, por causa da resistência que foi forjada na sociedade em relação a novos tributos, talvez seja melhor o governo trabalhar com as possibilidades que já existem, eliminando desonerações e aumentando a fiscalização e cobrança, de forma a recuperar recursos que estão na Dívida Ativa da União ou foram sonegados.
“Hoje as renúncias tributárias são altíssimas no Brasil, concedidas ao setor privado, sem que haja um controle adequado de qual retorno existe. Você desonera uma grande empresa, falando que ela vai garantir mais empregos, que vai melhorar a economia, mas não tem depois nenhum estudo que avalie se isso de fato aconteceu”, condena.
Ela lembra que a Dívida Ativa da União ultrapassa hoje R$ 1 trilhão. “Porque não investir na capacidade de fiscalização e cobrança dessas dívidas?”, questiona, acrescentando que outros R$ 500 bilhões anualmente se perdem na sonegação.
Grazielle cita ainda manobras feitas por grandes empresas, com o objetivo de pagar menos impostos. “A gente fez um estudo com a Vale, no qual foi possível observar a série de planejamentos tributários que eles fazem. Vendem, por exemplo, minério a preço muito abaixo do valor de mercado para países que são paraísos fiscais. Lá eles revendem e redistribuem para outros países, já com preço de mercado. Quando o minério sai daqui com preços baixos, eles já estão pagando menos impostos.
Chega no paraíso fiscal, não vão pagar imposto também. E, como vendem de lá com valor normal, então ganharam de novo. São manobras que tentam ficar dentro da lei, mas que acabam por sonegar, porque deixam de pagar os impostos devidos”, explicou.
De acordo com ela, de certa forma, há certos estímulos à sonegação no Brasil. “Sou uma empresa, tenho que pagar Cofins, por exemplo, e não pago. Pego esse dinheiro e invisto [no mercado financeiro]. O dinheiro fica rendendo juros. Depois de um tempo, vou para a Dívida Ativa, espero vir o Refis [programa de refinanciamento fiscal], aí negocio a dívida para pagar um valor ainda mais baixo do que eu devia. Quer dizer, ganho duas vezes, com os juros e pagando menos imposto”, exemplifica.
Além disso, a certeza da impunidade é algo que não ajuda a coibir os crimes fiscais, afirma. “No Brasil, pela lei, se depois você paga o que deve, o crime tributário deixa de existir. Não existe punição. Em outros países não existe essa revogação. Se a pessoa fez, além de ter que pagar o valor, muitas vezes com correção, ela ainda pode ser punida penalmente. A certeza da impunidade, a coisa do Zé Malandro, é que reforça a sonegação”, ressalta, defendendo que é preciso fortalecer as instâncias governamentais de fiscalização, controle e cobrança.
“A gente fica falando que em 2015 fizemos um orçamento deficitário de R$ 30 bi. Mas espera aí! A gente tem uma sonegação de R$ 500 bi, mais uma desoneração tributária de mais R$ 500 bi, mais uma dívida ativa de quase R$ 1,5 trilhão. Será que a gente tem um orçamento negativo de fato como nação ou poucas pessoas estão, aí, ficando com nosso dinheiro, deixando de pagar o que devem, e a gente sofrendo as consequências, sofrendo um ajuste fiscal?”, indaga.
Que reformas queremos?
Atualmente funciona no Legislativo uma Comissão Especial da Reforma Tributária, tema que deve estar muito em pauta este ano. Contaminado pelas meias verdades difundidas pela Fiesp, o debate deve refletir o cabo de guerra entre os interesses de super-ricos e trabalhadores, observa Grazielle.
“Se existe intenção de fazer a reforma tributária andar? Existe interesse dos dois lados, inclusive”, opina. De acordo com ela, um grupo dentro da Câmara, que tem entre seus integrantes o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB), tem a intenção de fazer uma reforma que promova redução da carga tributária. Enquanto isso, do outro lado, setores progressistas defendem a justiça fiscal.
“Há pressão dos dois lados para que a reforma tributária aconteça. Acho que esse é um ano em que se vai discutir muito isso. Agora, por qual desses dois caminhos nós vamos acabar trilhando é a grande incógnita. Nossa defesa é que seja o caminho de uma reforma tributária com justiça fiscal”, encerra.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ZICA, PRODUTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?


A INTERROGAÇÃO É IMPORTANTE, E OS DADOS REFERIDO NESTE ARTIGO INDICA QUE A RESPOSTA É POSITIVA. E AJUDA ENTENDER MELHOR O BRASIL: É UM PAÍS EM QUE A TEMPERATURA MÉDIA AUMENTOU MAIS DO QUE EM OUTRAS REGIÕES DO PLANETA, E ISSO FAVORECE A MULTIPLICAÇÃO DO MOSQUITO TRANSMISSOR...

SE QUISERMOS ENFRENTAR TUDO QUE SE REFERE À SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA, VALE, É CLARO, DECRETAR E TORNAR EFICAZ A GUERRA CONTRA O MOSQUITO, MAS ISSO SERÁ INSUFICIENTE PARA EVITAR QUE APAREÇAM OUTRAS DOENÇAS FAVORECIDAS PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS. O QUE SE PRECISA CONSEGUIR É REVERTER O QUE TEM PROVOCADO AS MUDANÇAS DO CLIMA TERRESTRE. A COP 21, MESMO TENDO APROVADO UM DOCUMENTO IMPORTANTE, FICOU LONGE DAS URGÊNCIAS CAPAZES DE EVITAR QUE A VIDA SEJA CADA DIA MAIS AMEAÇADA. PRECISAMOS SER CORAJOSAMENTE TEIMOSOS E CRIATIVOS, BUSCANDO ALTERNATIVAS...

Zika, produto das mudanças climáticas?

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Doença, antes muito restrita, espalha-se pelo mundo. No Brasil, foco principal, há coincidência impressionante entre multiplicação de seu vetor e aquecimento dos centros urbanos
Por Cíntya Feitosa, no Observatório do Clima
A incidência do zika vírus pode ficar tão comum quanto os casos de dengue no Brasil. E os próximos anos podem trazer novas doenças do tipo, por um fator muito simples: o Brasil está num lugar melhor de viver para o mosquito Aedes aegypti. A associação de mudanças climáticas globais, ilhas de calor urbanas, aumento da população e más condições de saneamento forma o combo perfeito para a proliferação da praga.
“O Aedes tomou conta do mundo”, diz o virologista Átila Iamarino, do Instituto de Biociências da USP. Ele explica que o inseto que ficou conhecido como “mosquito da dengue” pode portar diversos outros vírus aparentados com a dengue – os chamados flavivírus, que precisam de vetores como mosquitos e carrapatos. “Se o mosquito tem cada vez mais espaços para circular e está adaptado às cidades, o surgimento de outras doenças é questão de tempo”, alerta Iamarino.
O zika tem esse nome por causa de uma floresta homônima em Uganda, onde foi descoberto na década de 1940. Sua forma de chegada ao Brasil ainda não é consenso entre os pesquisadores. A hipótese mais aceita é que o vírus tenha aportado por aqui durante a Copa do Mundo, quando ocorreu grande circulação de estrangeiros no Brasil. A Copa aconteceu no inverno, período em que, em tese, a circulação de mosquitos no Centro-Sul do país cai devido ao frio. O vírus pode ter incubado na população de mosquitos nesse período, para começar a infectar humanos após o fim da estação seca.
“A dengue já está no país todo, e cresceu em grandes cidades onde antes era mais frio e agora as temperaturas são mais altas”, diz Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz. Ele afirma que, quanto mais calor, mais as doenças vão se espalhar. “O mosquito se reproduz mais rapidamente em locais de clima quente.” O pesquisador diz que a situação não deve ser controlada tão cedo e que a tendência do zika, assim como ocorreu com a dengue, é se espalhar pelo centro do Brasil.
O mapa abaixo ajuda a entender por quê. Ele mostra que a área de transmissão de dengue no Brasil mais do que triplicou apenas entre 2001 e 2011, de 2 milhões de quilômetros quadrados para 7 milhões de quilômetros quadrados. O número de pessoas em risco dobrou, de 80 milhões para 160 milhões.
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As áreas em vermelho-claro e laranja mostram o a expansão da dengue Brasil após 2001. (Fonte: “Expansão da área de transmissão da dengue no Brasil: o papel do clima e das cidades”, estudo de Christovam Barcellos e Rachel Lowe)
Dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, por sua vez, ajudam a explicar o mapa. A maior parte do Brasil esquentou mais do que a média mundial no último século. O Nordeste, o centro do país e partes da Amazônia aqueceram de 1,2ºC a 1,6ºC desde 1960, em média. O número de noites quentes cresceu no país inteiro. Em alguns lugares, as temperaturas mínimas subiram 1,4ºC por década. Temperatura mínima é um parâmetro importante para o mosquito, porque o Aedes precisa de calor e água – e uma série de noites frias pode ser a diferença entre uma nova geração de insetos nascer ou não.
De acordo com o Ministério da Saúde, já há registros do vírus zika em 19 das 27 unidades federativas do país. Ainda não há confirmação do número de casos. Já a dengue teve 1,6 milhão de registros em 2015, 62,2% deles na região Sudeste. O aumento do número de casos em relação a 2014 é de 178%. A febre chikungunya teve, em 2015, 20.661 registros, contra 3.657 no ano anterior.
Os Estados Unidos e países europeus já emitiram alerta, aconselhando seus cidadãos a evitar viagens ao Brasil e outros países da América do Sul, além da América Central, pelo risco de contágio. Já há ocorrência de casos no Reino Unido – importados da América do Sul, de acordo com a imprensa local –, Estados Unidos, Espanha, Itália, México, entre outros.
Um estudo publicado no periódico de saúde The Lancet alerta para o potencial de exportação da epidemia a partir do Brasil. A pesquisa mapeou os destinos finais dos 9,9 milhões de turistas estrangeiros que passaram por áreas de risco no país: 65% deles tinham como destino as Américas, 27% para a Europa e 5% para a Ásia. Os dados são alarmantes: cerca de 60% da população dos EUA, Itália e Argentina – alguns dos países com maior fluxo de turistas para o Brasil – vivem em áreas vulneráveis à transmissão sazonal da doença, considerando condições climáticas e ambientais favoráveis à proliferação do Aedes.
Até 2007, menos de 20 casos de zika eram conhecidos em todo o mundo, na África e na Ásia. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), entre novembro de 2015 e janeiro de 2016, a transmissão local do vírus, os chamados casos autóctones, foi detectada em 14 novos países e territórios.
Iamarino diz que mesmo que haja menos casos em países mais frios, oAedes albopictus, outro tipo do mosquito, é mais resistente a essas condições climáticas. O virologista fala sobre as viagens do Aedes pelo mundo neste vídeo didático em seu canal no YouTube, o Nerdologia:

Controle do mosquito
O consenso entre os pesquisadores ouvidos pelo Observatório do Clima é que a única forma de evitar epidemias é eliminar o mosquito. “O mosquito sempre foi portador dessas doenças. O problema é que ele se espalhou”, diz Margareth Capurro, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.
Em locais quentes e com condições sanitárias ruins – cidades secas em que há reservatórios domésticos de água para consumo, por exemplo –, o mosquito encontra o ambiente ideal para se reproduzir. Foi provavelmente o que aconteceu em São Paulo em 2014 e 2015, anos em que o número de casos de dengue foi alto mesmo com um verão muito seco, no qual a população estocou água. Mas a pesquisadora afirma que a adaptação do Aedes ao meio urbano tem facilitado a sua proliferação. “Eu já encontrei larva do mosquito em papel de bala em Porto Velho”, conta.
Capurro diz que o controle do Aedes no Brasil deve considerar todas as alternativas – campanhas educativas, eliminação de focos, controle biológico, fumacê, armadilhas simples para o mosquito, mosquitos transgênicos –, mas que não adianta começar no verão, quando o mosquito já está em grande quantidade. “Tem que pensar no combate ao Aedes como uma guerra e usar todo o arsenal.”

SÓ COM DEMOCRACIA SE PODE ENFRENTAR O PODER ECONÔMICO NEOLIBERAL

QUEM ESTIVER INTERESSADO ACOMPANHAR O DEBATE POLÍTICO QUE SE APROFUNDA NA EUROPA NA PERSPECTIVA DA ESQUERDA, SAINDO DA FATALIDADE DE CRESCIMENTO DOS MOVIMENTOS E PRÁTICAS FASCISTAS, GANHARÁ BOM MATERIAL AO VISITAR O LINK http://outraspalavras.net/capa/democracia-poder-e-soberania-na-europa/ E SABOREAR A ENTREVISTA COM O EX-MINISTRO DA ECONOMIA DA GRÉCIA VAROUFAKIS, NO TEMPO EM QUE O TENTOU EVITAR O ESTRANGULAMENTO DO SYRIZA.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

TAPAJÓS: AUDIÊNCIA PÚBLICA ALERTA SOBRE PERIGOS DAS HIDRELÉTRICAS

ESTOU ME CONVENCENDO QUE O CASAMENTO ENTRE GRANDES EMPRESAS INTERESSADAS COM AS OBRAS DAS HIDRELÉTRICAS NA AMAZÔNIA, JÁ DENUNCIADAS NA CORRUPÇÃO DE FUNCIONÁRIOS DA PETROBRAS, E O GOVERNO TEM COMO "JUIZ" O DEMÔNIO. SÓ ASSIM PARA ENTENDER COMO UM GOVERNO ELEITO POR QUEM DESEJAVA E CONTINUA DESEJANDO A PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS DECISÕES POLÍTICAS ABANDONE DESCARADAMENTE SEUS ELEITORES E FAÇA AS VONTADES DE QUEM SÓ BUSCA AUMENTAR SEUS LUCROS. 

DE FATO, SE POPULAÇÕES INDÍGENAS, RIBEIRINHOS, POVO DA AMAZÔNIA, PESQUISADORES, PASTORAIS E MINISTÉRIO PÚBLICO DEFENDEM COM SEGURANÇA QUE NÃO É CORRETO NEM NECESSÁRIO CONSTRUIR ESSE MONTÃO DE HIDRELÉTRICAS, SEJA PORQUE SE PODE E DEVE DIMINUIR OS GASTOS DE ENERGIA NA BUSCA DA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, SEJA PORQUE HÁ OUTRAS FONTES ABUNDANTES E QUE AGRIDEM QUASE NADA O AMBIENTE DA VIDA, COMO PODE CONTINUAR DIZENDO-SE DEMOCRÁTICO O GOVERNO QUE IMPÕE AS DECISÕES APENAS COM APOIO DE MEIA DÚZIA DE EMPRESÁRIOS E DE TÉCNICOS QUE ESTÃO MAIS A SEU SERVIÇO DO QUE DO BEM COMUM? 

TOTAL E INTEGRAL APOIO AOS PARTICIPANTES DA AUDIÊNCIA EM SANTARÉM! TOTAL CONDENAÇÃO DA AUSÊNCIA DE REPRESENTANTES DO GOVERNO FEDERAL NESTA AUDIÊNCIA!

Em Santarém, mais de 500 pessoas debatem usinas na bacia do Tapajós, mas governo não manda representante

Publicado em fevereiro 1, 2016 por Redação
http://agencia.eletronorte.gov.br/site/wp-content/uploads/2014/09/S%C3%A3o-Luiz-do-Tapaj%C3%B3s-634x300.jpg
Hidrelétricas na bacia do rio Tapajós. Mapa: Agência Eletronorte

Pesquisadores, líderes indígenas, beiradeiros, procuradores da República e movimentos sociais debateram por mais de seis horas os problemas dos projetos de barragens na região. Pelo governo federal, foram convidados mas não participaram representantes do Ministério de Minas e Energia, Ibama, Funai, Eletrobras e ICMBio
Os projetos do governo para barragens na bacia do Tapajós mobilizaram a cidade de Santarém, no oeste do Pará, durante mais de seis horas de audiência pública realizada nesta sexta-feira, 29 de janeiro, na sede da Associação Comercial da cidade. Promovida pelo Ministério Público Federal (MPF), a audiência atraiu mais de 500 pessoas para ouvir pesquisadores, lideranças indígenas, procuradores da República e lideranças ribeirinhas que trataram dos inúmeros riscos e falhas dos projetos, que impactam com gravidade um dos corredores ecológicos mais importantes da Amazônia e também uma das áreas de ocupação humana mais antiga, milenar, na região.
Era tanta gente que logo no começo um grupo que não conseguiu entrar no auditório provocou um pequeno tumulto na tentativa de cancelar ou mudar a audiência de local. Mesmo assim, com atraso de cerca de uma hora, os debates transcorreram normalmente. Foram convidados representantes de vários órgãos do governo envolvidos nos projetos de barragens, mas ninguém compareceu. “De nove empresas interessadas na construção de São Luiz do Tapajós, oito são empreiteiras investigadas na operação Lava Jato”, disse o procurador Camões Boaventura ao iniciar sua explanação sobre as irregularidades até agora encontradas pelo MPF nos projetos de barragens no Tapajós.
Ao todo, são 43 barragens de vários tamanhos, projetadas pelo governo para o Tapajós e seus três afluentes, Teles Pires, Juruena e Jamanxim. Algumas, no Teles Pires e no Juruena, já estão em construção. No Tapajós, o governo anunciou que vai licenciar ainda em 2016 a usina de São Luiz do Tapajós, que alaga uma terra indígena Munduruku e algumas comunidades ribeirinhas. O projeto já enfrenta pelo menos quatro menos processos judiciais. Um deles, por não ter respeitado o direito de consulta prévia, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já tem decisão do Superior Tribunal de Justiça que obriga o governo a fazer a consulta. Mesmo tendo anunciado o licenciamento para os próximos meses, o governo não tomou nenhuma providência para consultar os povos afetados.
“Queremos ser consultados”, disse Ageu Pereira, liderança da comunidade ribeirinha Montanha e Mangabal. No Tapajós, os ribeirinhos se chamam beiradeiros. Como o nome indica, a beira do rio é essencial para seu modo de vida. Se as usinas forem construídas, eles deixarão de ser beiradeiros. A pesquisadora Camila Jericó-Daminello estimou em mais de R$ 1 bilhão as perdas das comunidades ribeirinhas só em produtos florestais e pesqueiros dos quais hoje se sustentam, em caso de construção da usina.
Outra comunidade beiradeira que vive há séculos no Tapajós e deve sumir do mapa com as barragens é Pimental. “Nós já somos impactados desde agora, pelo desrespeito. Os pesquisadores de barragem chegam na nossa terra e querem fazer estudos à força. Se não queremos, eles chamam a Força Nacional para nos obrigar. Vocês não imaginam como é doído”, disse José Odair Cak, liderança do Pimental.
Além do uso de força contra a população afetada já no período de estudos de impacto e da absoluta ausência da consulta prévia obrigatória, a população da região questiona a necessidade das usinas, já que entendem que a energia gerada não vai beneficiar a população amazônica. Um dos debatedores, o professor Célio Bermann, da Universidade de São Paulo (USP), foi categórico: “eu afirmo agora que o Brasil não precisa de usinas no Tapajós”, sendo longamente aplaudido.
“Vivemos numa civilização elétrica. É verdade que precisamos de energia elétrica. Mas a hidroeletricidade não é a única opção. O nosso país tem as maiores tarifas de energia elétrica do mundo, com 70% da geração vindo de hidrelétricas. Então é preciso se pensar seriamente se essa opção é mesmo correta”, disse Bermann. “Cada usina é apresentada pelo governo como uma solução para a ameaça de apagão. Não é verdade. Até porque o apagão é muito mais causado pela falta de manutenção da rede elétrica brasileira do que pela falta de usinas. Existem alternativas e elas não incluem grandes usinas na Amazônia. Só que o Ministério Público e os pesquisadores não são considerados pelo governo no planejamento elétrico. Isso precisa mudar”.
Ricardo Baitelo, do Greenpeace, também reivindicou durante a audiência que a sociedade possa participar do planejamento elétrico e apresentou modelagens em que o Brasil aumenta significativamente a energia instalada sem a construção de nenhuma barragem na Amazônia, com diversificação da matriz energética e investimento em eficiência. “Com isso, é sim possível ao Brasil estocar vento”, disse Baitelo.
Mesmo com tantas alternativas apresentadas, o pesquisador Phillip Fearnside, um dos maiores especialistas em barragens tropicais, fez um alerta sombrio de que os planos verdadeiros do governo preveem um total de 69 grandes barragens na Amazônia, do porte de São Luiz do Tapajós ou da usina Teles Pires, alagando um total de 10 milhões de hectares.
Os maiores interessados, os povos que vivem nos rios e nas florestas da região, parecem ter entendimento profundo das consequências desse modelo. O cacique-geral do povo Munduruku explicou com economia de palavras. “Não só Munduruku vai sofrer, vai sofrer o mundo todo. Nós estamos defendendo o povo brasileiro”, disse, sobre a resistência contra as usinas. Pesquisadores que falaram durante a audiência concordaram com o cacique: danos na região do Tapajós podem prejudicar não só a região amazônica, como o Brasil inteiro e ter impactos mundiais, já que a Amazônia funciona como um regulador mundial do clima, assegurando a umidade em São Paulo, por exemplo. Sem a floresta, pesquisas apontam, a maior cidade brasileira seria um deserto.
E a floresta está severamente ameaçada pelos projetos. Segundo Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que usou as taxas de desmatamento provocadas por Belo Monte para projetar o desmatamento que as usinas causarão no Tapajós, aponta potencial de perda de mais de 3,2 milhões de hectares de florestas na área.
Metilmercúrio – Uma das apresentações que teve mais impacto sobre o público foi do médico Erik Jennings, que apontou o risco de uma catástrofe na saúde humana na região, por causa do potencial das usinas se transformarem em verdadeiras fábricas de metilmercúrio, que é extremamente tóxico e causa danos ao sistema nervoso central, além de malformações fetais. “O solo amazônico é rico em mercúrio, na forma inerte, mas com a formação de lagos de usinas, esse mercúrio assume a forma tóxica e passa a ser absorvido pelos peixes, principal fonte de alimentação da população em toda a região”.
Jennings mencionou uma pesquisa feita com mulheres de cabelos longos na região da instalação da usina de Balbina, no Amazonas. A partir do comprimento dos cabelos e medindo a concentração de mercúrio ao longo dos fios, os pesquisadores conseguiram provar que quando a usina foi instalada houve uma explosão na concentração de mercúrio nos organismos das mulheres.
“Por que não se trata desse tema nos estudos? Temos uma falsa sensação de não envenenamento na Amazônia. Em Minamata (região no Japão onde houve graves casos de contaminação por mercúrio) foram precisos 24 anos para se reconhecer a contaminação, porque os efeitos do mercúrio têm um ciclo longo para se manifestar. Não podemos esperar que isso ocorra na Amazônia”, disse o médico. Os estudos da usina chegaram a descartar o risco de contaminação por mercúrio, mas fizeram exames na água e não nos peixes, que é por onde o mercúrio é absorvido pelas pessoas.
Patrimônio arqueológico – A ocupação humana no Tapajós, milenar, foi destacada pelos professores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Bruna Rocha e Raoni Valle. Bruna mostrou como é antigo o discurso governamental de que a Amazônia é uma floresta virgem. Mostrou exemplos da ditadura militar e uma fala bem mais recente, do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que disse acreditar que as usinas do Tapajós não teriam impactos porque não moram pessoas na região.
“A arqueologia mostra que a região do Tapajós é povoada milenarmente. Sítios arqueológicos mostram ocupação humana datada dos séculos 800 a 900 d.C., em áreas que serão destruídas pelas usinas”, disse Bruna Rocha. Raoni Valle, que vem desenvolvendo uma pesquisa junto com os índios Munduruku, reivindicou a importância de se proteger os locais sagrados como ação fundamental para assegurar a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas, de acordo com resolução da Organização das Nações Unidas (ONU).
“A expropriação do território dessas populações é a expropriação da memória delas, porque as memórias estão nos locais sagrados, nas paisagens do Tapajós. Destruir essa região é destruir a identidade dessas pessoas que estão nele enraizadas há tantos séculos”, disse Bruna Rocha.
Belo Monte – A usina hidrelétrica de Belo Monte, quase concluída no rio Xingu, a cerca de mil quilômetros de Santarém, também foi assunto da audiência pública. A procuradora da República Thais Santi, que atua no MPF em Altamira, fez uma fala de alerta sobre a situação que vivem os moradores do Xingu. “A obra de Belo Monte foi aceita com promessa e o compromisso do Estado com a região. Depois das promessas, o Estado foi embora e quem assume a concessão é uma empresa que além de não ter conhecimento da região deliberadamente descumpriu sua obrigações. Condicionante é obrigação. É requisito de viabilidade da obra. Não se permitam acreditar em falsas promessas”, pediu.
Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental (ISA), enumerou inúmeras condicionantes descumpridas de Belo Monte. “Eles fizeram a maior obra de engenharia do mundo e até agora não foram capazes de colocar um único hospital para funcionar em Altamira. É puro descaso”, afirmou. “No Xingu, a Funai está quase fechando as portas. Nunca houve escritório do Ibama na região de Belo Monte. O Estado abandonou aquela população”, disse Thais Santi.
Documentos citados na audiência pública ou relacionados a eles
Fonte: Ministério Público Federal no Pará
in EcoDebate, 01/02/2016

http://www.ecodebate.com.br/2016/02/01/em-santarem-mais-de-500-pessoas-debatem-usinas-na-bacia-do-tapajos-mas-governo-nao-manda-representante/

LUZES E TREVAS

Tivemos notícias de luzes e de trevas nesta semana.

Na favela Babilônia, do Rio de Janeiro, foi inaugurada a produção de energia solar nos dois primeiros telhados, porque a Associação dos Moradores e nova cooperativa RevoluSolar desejam que todas as casas consigam instalar painéis em seus telhados, para enfrentar o aumento do custo das contas de energia e para criar de novas oportunidades de trabalho e de renda.

Já nos municípios paraibanos próximos de Pombal, avança a luta pela produção de energia solar nas casas do povo com a aprovação de um projeto, por parte da entidade da igreja católica alemã Misereor, que tornará possível a instalação de muitos painéis solares, junto com treinamento de eletricistas e de técnicos de manutenção.

É fonte de luz também o livro “O Bem Viver – Uma oportunidade para pensar novos mundos”, do cientista social e político equatoriano Alberto Acosta. Precisamos das luzes que vêm das práticas dos povos indígenas para ir criando jeitos de viver em sociedade e de relacionar com a Terra que nos livrem das práticas do capitalismo neoliberal.

Por outro lado, a treva mais assustadora foi denunciada pela OXFAM no Fórum Econômico Mundial: as 62 pessoas mais ricas têm em suas mãos riqueza igual ao que 3 bilhões e seiscentos milhões pessoas mais pobres dividem entres si para sobreviver! Se não houver mudanças, em pouco tempo quase tudo será abocanhado por algumas pessoas. Podemos aceitar isso? E os governos, porque não cobram desses poucos o que falta para uma vida digna de todas as pessoas?

Por fim, novas trevas vêm de Caitité, na Bahia. Estudos comprovaram que mais pessoas e animais estão perigo por usarem água contaminada pelo urânio extraído para usar nas usinas nucleares e nas bombas atômicas. Não se deveria deixar o urânio no solo, e preferir fontes mais limpas e seguras de energia?

Na luta entre as trevas e a luz, que todos nos juntemos no time das luzes.

                       Ivo Poletto, do FMCJS

[VER a gravação para Rádio em www.fmclimaticas.org.br] 

O PROTAGONISMO DOS EXCLUÍDOS

O PROTAGONISMO DOS EXCLUÍDOS
Frei Betto
      Todo esse fluxo migratório que o papa Francisco chama de Terceira Guerra Mundial é fruto do que Europa e EUA plantaram na Ásia, África e Oriente Médio. Foram séculos de colonialismo brutal. E quem garante que, hoje,  os drones que atiram bombas no Afeganistão e na Síria como chuva abundante, não ceifam a vida de inúmeros civis inocentes?
      Devemos esperar que o camponês, ao ver a propriedade agrícola da sua família ser destruída por um drone, e matar seu avô, pai e irmão, e o bebê de sua irmã, se refugie agradecido no Ocidente?
      “A paz só virá como fruto da justiça”, dizia o profeta Isaías, sete séculos antes de Cristo. Ou seja, jamais virá como mero equilíbrio de forças.
      Por que razão os donos do Ocidente (a Europa Ocidental e os EUA) estenderam, durante décadas, tapete vermelho para as famílias (Bashar) al-Assad, da Síria; Hussein, do Iraque; Kadafi, da Líbia; e, de repente, todas foram jogadas no lixo da história? A resposta está na evolução do comércio de petróleo.
      Política é muito importante. Mas nem todos devem ser políticos. É preciso ter vocação e, de preferência, decência também. Porém, em qualquer atividade fazemos política. Tomamos posição em um mundo desigual. Não existe neutralidade. Em tudo ajudamos a manter ou a transformar a realidade; dominar ou mudar; oprimir ou libertar. Essa foi a postura de Jesus.
      Quando me perguntam por que me envolvo com política, por via pastoral ou dos movimentos sociais (pois nunca me filiei a partido político), respondo: porque sou discípulo de um prisioneiro político.
      Jesus não morreu doente na cama. Morreu como Vladimir Herzog: preso, torturado, julgado por dois poderes políticos, e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.
      Por que foi condenado, se era tão espiritualizado, tão santo? Ora, que tipo de fé temos hoje que não questiona essa desordem estabelecida? Condenaram-no pela mesma razão que você, leitor, seria, de maneira preconceituosa, se começar a dizer que o mundo não tem saída fora do socialismo.
      Mas o socialismo foi derrotado, e você ainda é socialista? Haverá futuro para a humanidade sem a partilha dos bens da natureza e do trabalho humano?
      Ora, dentro do reino de César, Jesus de Nazaré anunciava um Reino de Deus! Para ele, o Reino de Deus ficava na frente, no futuro histórico. Anunciar um Reino de Deus no reino de César era alta subversão.
      Jesus não veio fundar uma Igreja ou uma religião. Veio nos trazer as sementes de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. E que resumiu na expressão própria da época (Reino de Deus), que hoje quase nada significa para nós (ainda mais na América Latina, que não tem nenhum reino). Ele veio trazer as sementes do projeto de um  mundo como Deus quer. Basta ler as Bem-aventuranças (que explico em Oito vias para ser feliz, editora Planeta) e o Sermão da montanha - um mundo de partilha, como na chamada multiplicação dos pães.
       Na Declaração Universal dos Direitos Humanos são merecedores de direitos aqueles que têm certo nível de vida. Para Jesus, ao contrário, a pessoa pode ser cega, coxa, hanseniana, excluída - ela é templo vivo de Deus, dotada de ontológica sacralidade! Eis a radical defesa dos direitos humanos.
      O marxismo europeu, por exemplo, graças ao qual a modernidade avançou em termos de inclusão social, nunca defendeu os direitos indígenas, como fez o marxista peruano Mariátegui. Até se entende a razão, pois é uma filosofia, um método criado na Europa, onde quase não havia índios. Mas também nunca defendeu o protagonismo dos moradores de rua, chamados de lúmpem proletariado. Ou seja, seriam os beneficiários de um futuro projeto socialista ou comunista, mas não protagonistas.
      A diferença é que, para Jesus, todos são chamados a serem protagonistas. Ou como conclamou o papa Francisco aos jovens, no Rio, em 2013: “Sejam revolucionários, vão contra a corrente!”
Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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