sábado, 23 de janeiro de 2016

AUMENTO DA TEMPERATURA E A AMAZÔNIA

NÃO SE DEVE BRINCAR COM AS ENERGIAS DA TERRA, JÁ QUE OS DESEQUILÍBRIOS QUE PROVOCAMOS SE VOLTAM CONTRA NÓS. E ISSO VALE DEMAIS PARA A AMAZÔNIA, POIS SEM O PARQUE NACIONAL DO XINGU, POR EXEMPLO, A TEMPERATURA DA REGIÃO DO XINGU ESTARIA EM TORNO DE 6ºC MAIS ALTA!

DUAS MEDIDAS URGENTES: PRIORIZAR AS ENERGIAS QUE NÃO EMITEM GASES DE EFEITO ESTUFA PARA A ATMOSFERA E APRENDER A CONVIVER COM O BIOMA AMAZÔNIA. 

Pesquisador explica o aumento da temperatura global

A temperatura global continua aumentando, independente do acordo climático realizado em Paris, na COP 21, e da promessa dos governos de resolverem essa questão durante esse século, segundo dados do Met Office, o serviço meteorológico do governo britânico.
A reportagem foi publicada por EBC Rádios, 20-01-2016.
O Amazônia Brasileira conversou com o pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM),Paulo Moutinho.
A previsão da temperatura global, no ano de 2016, divulgada esse mês, pelo Met Office, mostrou que graças a um efeito do El Niño, que vem sendo chamado de “Godzilla”, somado aos efeitos das mudanças climáticas, a temperatura média global deve ser 0,84°C mais alta do que a média do período 1961-1990.
Caso seja confirmada essa previsão haverá o terceiro recorde histórico de temperatura máxima em três anos consecutivos, pois em 2014, a média da temperatura foi 0,61°C mais alta que no período 1961-1990, e em 2015, a média foi de um aumento de 0,72°C, em relação ao período citado, afirma o pesquisador.
De acordo Paulo Moutinho, essa questão do aumento da temperatura, está muito ligada a quantidade de poluentes, principalmente o gás carbônico que é emitido em excesso, por queima de combustível fóssil para a atmosfera, devido a atividade humana, causa uma série de alterações no planeta, porém há outra preocupação além do aumento em si: “essas alterações vem acontecendo não em escala de décadas e sim em escala de milênios. Nos últimos 150 mil anos, é normal a Terra ter esses ciclos de aumento e diminuição de temperaturas, mas a velocidade com que isso está acontecendo agora, é que está nos impressionando”.
Met Office divulgou que recordes como esses, provavelmente, não serão batidos anualmente. Entretanto, as mudanças causadas pelo acúmulo das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera podem potencializar alterações naturais do clima, como os El Niños e as variações em ciclos naturais dos oceanos, como a oscilação decadal do Pacífico e a oscilação multidecadal do Atlântico.
O pesquisador explica que esses fenômenos naturais alteram, ocasionalmente, a circulação marinha, que tem a capacidade de regular a temperatura global sem nenhum auxílio externo.
“Temos que buscar cada vez mais energias limpas, que não jogam poluentes oriundos da queima de combustíveis fósseis para a atmosfera, pois a emissão desses gases aprisionam o calor, e precisamos manter as florestas em pé”, sugere Paulo Moutinho.
E complementa: “as florestas são um grande ar-condicionado, mantendo a temperatura na região mais amena, e um grande regador, especialmente da agricultura da região e se derrubarmos as florestas, estaremos desligando esse ar-condicionado e retirando o regador. Segundo um estudo, na região do Xingu, se não fosse o Parque Indígena do Xingu, aquela região teria um aumento de 6° C a 7°C na temperatura, e isso seria um efeito do desmatamento”.
O aumento na temperatura, diminui a quantidade de chuvas, o que afeta a produção agrícola na região: “cada vez mais, manter as florestas, é um investimento econômico, principalmente, na agricultura, sendo uma garantia de produção”, explica Paulo Moutinho.
O pesquisador ressalta que a sociedade brasileira precisa, definitivamente, fazer uma escolha na Amazônia. “Espero que seja pelo caminho da sustentabilidade, que ela quebre os paradigmas de que para se crescer, é necessário que se estrague e para que se tenha um crescimento econômico, é necessário que se tenha um prejuízo socioambiental”.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ALERTA: ALTAS EMISSÕES DE METANO NAS HIDRELÉTRICAS DA AMAZÔNIA

AGORA PARECE QUE A MÍDIA ESTÁ LEVANDO A SÉRIO: A INFORMAÇÃO SAIU EM PUBLICAÇÕES ESTRANGEIRAS. ANTES DISSO, COM OS DADOS DO IMPA, NADA DE LEVAR A SÉRIO. DE TODA FORMA, MELHOR AGORA DO QUE NUNCA.

ATENÇÃO: HAVERÁ MENOS ÁGUA PARA A PRODUÇÃO DE ENERGIA E, ALÉM DISSO, AS HIDRELÉTRICAS DA AMAZÔNIA PRODUZIRÃO MAIS GASES DE EFEITO ESTUFA DO QUE AS TERMELÉTRICAS. 

PRECISAMOS AUMENTAR NOSSA LUTA. VISTEM O SITE ENERGIAPARAVIDA E REFORCEM A MOBILIZAÇÃO "NOSSA CASA SOLAR", SUBSCREVENDO A PETIÇÃO AO MINISTRO DE MINAS E ENERGIA. É URGENTE!


Comparar as emissões de gases de efeito estufa de uma usina hidrelétricas às de usinas termelétricas que queimam carvão ou gás pode parecer insensato. No entanto, um estudo publicado na revista científica americana Environmental Research Letters mostra que as emissões de seis das 18 hidrelétricas que o governo brasileiro ergueu recentemente, está erguendo ou pretende erguer na Amazônia poderão ser equivalentes aos de usinas que queimam combustíveis fósseis. A produção de gás metano, devido a decomposição de matéria orgânica submersa nos reservatórios das hidrelétricas, das usinas de Sinop, no Mato Grosso, e a de Cachoeira do Caí, no Pará, por exemplo, podem ultrapassar as emissões das usinas termelétricas de carvão. Desta forma, aos impactos destas grandes obras - na biodiversidade e no modo de vida da população - podem ser somados elevados níveis de emissão de gases de efeito estufa que agravam as mudanças climáticas. Se estes motivos não são suficientes para convencer o governo brasileiro de que não é uma boa ideia que 85% da potência hidráulica a ser agregada ao sistema elétrico brasileiro até 2022 venha de hidrelétricas na Amazônia, é válido lembrar que o aquecimento global reduzirá a oferta de energia no mundo e que a estiagem que tem limitado a produção de energia nas hidrelétricas brasileiras será comum nas próximas décadas. Ao invés de direcionar investimentos para estas grandes obras que trazem impactos socioambientais na Amazônia e que estão sujeitas à diminuição de vazão de rios e podem estar fadadas a gerar muito menos energia do que o previsto inicialmente, o Brasil pode escolher diversificar sua matriz energética apostando em outras renováveis como a energia solar e eólica, trazendo mais segurança para seu sistema elétrico com energia limpa.




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O FINANCIAMENTO BILIONÁRIO DOS CÉTICOS DO CLIMA

JÁ SE SABE DISSO, MAS AGORA UMA PESQUISA NOS DÁ MAIOR SEGURANÇA PARA DENUNCIAR QUEM ESTÁ POR TRÁS E FINANCIA COM RIOS DE DÓLARES OS QUE PROPAGAM DÚVIDAS SOBRE A MUDANÇA CLIMÁTICA. OS DIFERENTES TIPOS DE "CÉTICOS" TEM A VER, COM CERTEZA, COM A LENTIDÃO DAS DECISÕES NECESSÁRIAS PARA ENFRENTAR O QUE ESTÁ COLOCANDO EM RISCO A VIDA NA TERRA.

POR OUTRO LADO, TAMBÉM SERÁ BOM O LEVANTAMENTO DAS FONTES DE FINANCIAMENTO DAS ONGs E DO USO QUE FAZEM DO DINHEIRO RECOLHIDO. ESPERA-SE QUE SUA AÇÃO NÃO SE LIMITE À PROMOÇÃO DE INOVAÇÕES TÉCNICAS "NO TERRENO", MAS QUE ESTAS PRÁTICAS SIRVAM DE ARGUMENTO EM FAVOR DAS MUDANÇAS ESTRUTURAIS NECESSÁRIAS PARA ENFRENTAR AS CAUSAS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS.

O financiamento bilionário dos céticos do clima

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Nos EUA, fundações e think-tanks conservadores recompensam, quase 1 bilhão de dólares ao ano, teóricos que negam mudanças climáticas
A investigação do sociólogo norte-americano Robert Brulle, citada há dias no Le Monde, foi publicada na última edição da revista Climatic Change. Brulle tem estudado a fundo o que chama de “contramovimento sobre as alterações climáticas” nas últimas décadas e identificou 91 organizações com intervenção sistemática no espaço público no sentido de promover o ceticismo sobre as alterações climáticas e impedir mudanças políticas que as combatam.
Entre 2003 e 2010, este investigador calcula que tenham sido injetados 900 milhões de dólares todos os anos por parte de 140 fundações filantrópicas conservadoras, incluindo muitas pertencentes às grandes famílias da indústria do petróleo, minas e do setor financeiro. Em primeiro plano, pelo menos até 2007, estavam as Fundações Koch e ExxonMobil.
Mas a partir daí as contribuições públicas destas organizações encontram-se dissimuladas no Donors Trust e Donors Capital, duas entidades com a mesma morada que passaram a agrupar os donativos daquelas fundações para os redistribuir depois sem a mesma transparência. Do ponto de vista dos investigadores, estas duas entidades “são uma caixa negra” envolta em secretismo, mas Brulle calcula que representava em 2003 cerca de 3% do total de doações a este contramovimento, disparando em 2009 para cerca de 25% do total.
“Este é um movimento político muito bem organizado que abarca diversas componentes, sem grande coordenação mas seguindo a mesma linha. Vemos organizações que se concentram no desenvolvimento de ideias, como os think tanks, grupos de media, publicidade, actividades educativas nas universidades”, explicou Robert Brulle em entrevista à estação pública norteamericana PBS.
Brulle situa este contramovimento na órbita do movimento conservador, ao qual se associou no fim dos anos 80 para se tornar num dos seus grandes temas já neste século.
Para Brulle, assistimos à combinação das fundações filantrópicas da indústria e dos conservadores. “O que eles fizeram foi tomar emprestadas muitas das estratégias e táticas usadas pela indústria tabaqueira para impedir a ação sobre os efeitos do tabagismo para a saúde”, acrescenta o sociólogo da Drexel University de Filadélfia. “Eles usam as mesmas organizações e as mesmas táticas para semear dúvidas sobre se as alterações climáticas serão um problema ambiental sério e verdadeiro”, tal como antes fizeram acerca da ligação entre o tabagismo e o cancro.
“Este movimento teve um verdadeiro impacto político e ecológico no fracasso da ação mundial nesta área. Não creio que tenha sido a única causa que nos impediu de agir, mas julgo que tem sido uma causa importante do atraso das ações para combater as alterações climáticas”, prossegue Robert Brulle.
Este estudo de Robert Brulle é a primeira de três partes de um trabalho mais ambicioso. O sociólogo quer estudar também o financiamento das organizações ecologistas e a seguir fazer a comparação entre os dois movimentos. Para já, Brulle diz que embora o movimento ecologista tenha uma capacidade maior de recolha de fundos do que os céticos das elterações climáticas, a diferença está na forma como gasta esse dinheiro.
Os ambientalistas “procuram gastar o dinheiro no desenvolvimento de soluções para as alterações climáticas, como apoiar a indústria de painéis solares na China, assegurar que toda a gente tem um forno solar na India para reduzir as emissões de CO2, e outras coisas do mesmo género. Raramente gastam dinheiro em processos políticos ou culturais”, que é o grande alvo das despesas do contramovimento dos céticos do clima.
Ou seja, a grande diferença encontrada por Brulle é que “enquanto um movimento realmente tenta desenvolver soluções tecnológicas no terreno, o outro está empenhado na ação política para atrasar qualquer tipo de ação…”.
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/o-financiamento-bilionario-dos-ceticos-do-clima/

sábado, 9 de janeiro de 2016

HERODES E O MENINO

DESEJO QUE O ARTIGO DE PEDRO DE OLIVEIRA NOS AJUDE A APRENDER, COMO ELE DESTACA, O QUE OS POVOS INDÍGENAS TENTAM HÁ QUINHENTOS ANOS: A VIVER EM PAZ COM ELES - ACOLHENDO SUA CRÍTICA AO SISTEMA CAPITALISTA, QUE INSTAURA A PROPRIEDADE E O LUCRO COMO DEUSES, E QUE, POR ISSO, NEGA VALOR À VIDA, MESMO A HUMANA, NEGANDO O DEUS DA VIDA. 

Herodes e o menino
Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Nesse dia seis de janeiro, ao celebrar com a Folia de Reis a visita dos Magos ao menino que amedrontou Herodes, me veio o gosto amargo da derrota sofrida em Imbituba, há apenas uma semana: Herodes mandou degolar mais um menino. Com o requinte de crueldade de ser a criança atacada justamente onde nos sentimos maior segurança – o colo materno.
Se Vitor fosse branco e estivesse com a família em uma praça do Rio ou São Paulo, o crime hediondo estaria em todos os noticiários e provocaria repulsa maior do que as fotos de prisioneiros prestes a serem degolados por terroristas do Estado Islâmico. Mas Vitor é Kaingang e só foi morto porque índio não tem valor para a sociedade capitalista. Não se sabe até o momento de quem é a mão que passou o estilete mortal na garganta do menino. Sabemos, porém, quem são os mandantes do assassinato: grandes proprietários e proprietárias de terra que não respeitam o direito dos Povos Indígenas a terem seu próprio modo de produção e de consumo. Tal como o Herodes bíblico, eliminam até mesmo crianças que possam um dia ameaçar seu poder econômico.
Em outros tempos a Igreja católica não ficaria em silêncio diante de um crime como esse. A nota do CIMI seria acompanhada de uma nota dos bispos e repercutiria por dezenas de milhares de comunidades de base de todo o Brasil. Celebraríamos os Reis magos, com certeza, mas não deixaríamos em silêncio o crime cometido por Herodes apenas uma semana antes. Pediríamos perdão por não termos evitado, com uma legislação e uma educação corretas, o preconceito contra os povos indígenas e nos comprometeríamos com os Santos Reis a tomar outro rumo nos caminhos da história. O sofrimento daquela pequena família Kaingang ao ver seu filho caçula esvaindo-se em sangue deveria dar um sentido mais realista à celebração da Epífania: aprender com os Santos Reis da bela tradição popular, a ver naquela criança degolada o anúncio da Libertação dos Povos Indígenas.

Que neste ano da Misericórdia, ao passar pela porta do jubileu e entrarmos numa igreja, sejamos chamados à conversão e saiamos pela mesma porta para assumir a defesa da Vida das crianças Kaingang, Kayová, Mundurucu e de todos os outros povos que há quinhentos anos querem nos ensinar a viver em Paz com eles.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

MISSA PELO CURUMIM DEGOLADO

COMENTÁRIOS? SÓ OS QUE SERÃO FEITOS POR NOSSAS PRÁTICAS.

Sexta, 08 de janeiro de 2016
Uma missa para o curumim degolado
Meia hora antes do horário previsto para a missa, duas beatas bufavam impacientes pela demora do padre. A poucos metros dali o indiozinho kaigangVitor Pinto, 2 anos, foi degolado. No sétimo dia depois do crime do penúltimo dia de 2015, a comunidade cristã resolveu homenageá-lo. No chão não havia flor ou vela, mas sangue. As beatas venceram o tédio percorrendo as marcas. Os sinais estão lá, sob a sombra da castanheira, em frente a rodoviária da cidade portuária de Imbituba, no sul de Santa Catarina. Dois bêbados que não sabiam do caso se uniram a elas. Aos poucos as pessoas surgiram, mais de cem. Meio-dia em ponto começou a missa. No mesmo horário que Vitor teve a garganta cortada, após ter os cabelos afagados pelo assassino.
A reportagem é de Aline Torres, publicada por El País, 07-01-2016.
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Inscrição em calçada lembra morte de criança indígena.
Foto: CIMI
Concluído o Pai Nosso, o padre Luciano dos Santos pediu licença para complementar a oração doPapa Francisco: “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”, e acrescentou “nenhuma etnia indígena sem suas terras demarcadas”.
Quando se discute no Congresso mudanças que podem por em xeque a demarcação de terras indígenas no Brasil, o padre recebeu aplausos tímidos dos Guarani, que vieram de aldeias próximas, solidários ao ato.
— Esse padre é índio, né?, perguntou uma mulher.
Foi aberto espaço. A cacique Guarani Kerexu Ixapyry, 35 anos, viajou 93 km para falar.
— Eu temia por esse momento. Os indígenas são vítimas da violência em todo o Brasil. Mas é preciso a tragédia para que nos ouçam. Somos tratados piores que animais. No Mato Grosso do Sul nosso povo está sendo exterminado. Em Santa Catarina somos vítimas de ameaças”, disse a líder, há quatro anos jurada de morte.
Os Guarani entoaram um canto a Nhanderú, deus solar, pela alma do curumim. O padre encerrou seu discurso pedindo aos fiéis que “vençam as diferenças”. “Basta de perseguição”, bradou. Em seguida fez a comunidade repetir três vezes uma expressão: “Somos paz”. Nesse momento, ativistas grafitavam no chão "Vitor Kaingang vive em nós".
Em busca do motivo
Antes que a população se dispersasse, Marina Oliveira, representante do CIMI (Conselho Indigenista Brasileiro), braço da Igreja Católica que milita na causa indígena, fez uma convocatória para irem à delegacia. Foram todos com intuito de entender o “real motivo” do assassino de Vitor.
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Oração pelo menino.
Foto: CIMI
O delegado Rafael Giordani foi cravejado pela curiosidade. No início calmo e depois irritado, ele foi respondendo cada questão. Até que um homem perguntou se a mãe de Vitor tinha reconhecido o suposto criminoso. O delegado disse que não. Mas a mulher, de longos cabelos pretos e voz trêmula, o interrompeu aos gritos: “É sim. É o menino que matou meu filho. Por que vocês querem soltar ele?”.
Era Sônia. Aos 27 anos, mãe de dois filhos, a indígena é a imagem do abandono. Vestia um camisetão rosa, saia azul comprida e havaianas verdes menores que os seus pés. A dor dos últimos dias causou tiques nervosos. As pálpebras e maçãs do rosto tremiam. Na pele há inúmeras feridas e alergias, o olho esquerdo não abre, e apesar de medir 1,5 metro, pesa mais de 80 quilos. O pai de VitorArcelino, 42 anos, ao contrário, tem pinta de pastor. Vestia sapatos pretos fechados, calça social cinza e camisa azul de mangas compridas. O casal é evangélico, apesar de adorar Tupã, deus do Trovão. O sincretismo religioso permitiu a sobrevivência dos Kaingang.
A família chegou atrasada, após 12 horas de viagem de Chapecó, no Oeste catarinense, até Imbituba. Vieram os pais do indiozinho e as lideranças da aldeia Condá, onde vivem, e onde Vitor foi enterrado. Como o umbigo tradicionalmente jogado no solo após o nascimento, o curumim voltou ao ventre da Mãe Terra.
Surpreso com a presença da família, o delegado passou a responder somente aos indígenas. A plateia ora vaiava, ora se excitava. “Se um indígena cortasse a garganta de uma criança branca o Brasil viria abaixo. Quero a mesma indignação pela morte do meu filho”, justificou Sônia.
Com o clamor, o delegado transformou o espetáculo em conversa privada. Na salinha da delegacia, Sônia eArcelino reconheceram os objetos encontrados com Matheus de Ávila Silveira, 23 anos. A mochila, a camiseta, os tênis e as luvas azuis e brancas. O jovem foi preso no 1° dia do ano e aguarda a conclusão do inquérito policial, que levará 30 dias, na Unidade Prisional Avançada de Imbituba, em isolamento. O delegado não tem dúvida sobre a autoria do crime e descreve o autor como “frio e debochado”.
Apesar dessa definição, agentes prisionais contam que Matheus arranca a própria pele, é nervoso. A autoflagelação também ocorria na delegacia de polícia, onde tentou suicídio por asfixia engolindo a espuma do colchão.
O rapaz integrava um grupo de satanistas. Segundo seu amigo Ramon, eram mal vistos na cidade praiana por gostarem de preto e fumarem maconha na praça. Na página do Facebook, Moxa Zombie postava imagens macabras e frases como Nictofilia “qualidade daquele que encontra conforto na escuridão”. No entanto, seu maior culto era às drogas. Não várias publicações exaltando pirações e bebedeiras. Como no dia que conta aos amigos “bebi tanto que mijei toda minha legging”. Apesar do perfil, Matheus não levantou suspeita.
O ataque
Sônia alimentava o indiozinho com colheradas de arroz – era apenas o que tinha naquele momento – quando viu um rapaz “simpático se aproximar”. “Ele veio calmamente. Era bem vestido, classe média. Afagou os cabelos do piá, sorriu. Quando ele olhou para cima para ver quem o tocava aconteceu o pior”, disseSônia.
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Pais de menino degolado mostram cartaz.
Foto: CIMI
Segundo Ronaldo Campos, 33 anos, dono da lanchonete da rodoviária, Matheus “pernoitou em um dos bancos no dia anterior e parecia inofensivo”. Foi Ronaldo e a auxiliar de limpeza, Marize, que estancaram o sangue do pescoço de Vitor enquanto a índia gritava por ajuda. “Não durou dois minutos. Se tivesse uma paramédico ao lado ele não teria sobrevivido, tamanha foi a violência”, disse Ronaldo.
O comerciante atendeu Vitor e sua família desde o dia que desembarcaram no município. “O menininho vinha a tarde inteira com o irmão mais velho, Jessé, buscar doces e geladinhos. Parecia uma formiguinha carregadeira”, contou.
Arcelino trabalhava em outra praia. Comia um salgado frito com refrigerante em um boteco quando ouviu na televisão “um índio foi morto na rodoviária de Imbituba”. Quando chegou no local do crime, viu os chinelos e brinquedos de Vitor espalhados no chão. Sônia não estava, eram quase 18h.
Antes de chegar à delegacia viu a mulher vagando de um lado para o outro, sozinha, na chuva. Ali soube o destino do seu "nenê": “Foi morto por um branco”, disse a mãe. Na rodoviária, sem abrigo ou apoio, permaneceram até a manhã seguinte.
Para o delegado, não se trata de crime étnico. Os kaingang discordam. “Esse menino não é louco. Se fosse, teria matado o primeiro que viu pela frente. Ele escolheu o Vitor, um bebê, no colo de uma indígena. Escolheu porque eram vulneráveis, assim são os índios do Brasil ”, disse a vice-cacique da CondáMárcia Rodrigues.

ASSASSINATO DE MENINO KAINGANG REVELA DESUMANIDADE ABSOLUTA

ATÉ ONDE CHEGOU A DESUMANIZAÇÃO EM NOSSA SOCIEDADE, QUE SE JULGA MODERNA, LIVRE E DEMOCRÁTICA? ATÉ ONDE QUEREM QUE SE CHEGUE OS PROMOTORES DO RACISMO E DO ÓDIO? O ASSASSINATO DE UMA CRIANÇA, E NAS CONDIÇÕES EM QUE FOI PRATICADO, DEVE SERVIR DE ADVERTÊNCIA EM RELAÇÃO AOS VALORES OU HÁ FALTA DE VALORES DA EDUCAÇÃO REALIZADA NAS FAMÍLIAS, NAS ESCOLAS E NA SOCIEDADE, DE MODO ESPECIAL PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. QUEM PODE SENTIR-SE INOCENTE? 

Brasil: Menino Kaingang, 2 anos, assassinado
03.01.2016

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O Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul, vem a público manifestar sua indignação com o cruel assassinato de Vítor Pinto, criança Kaingang de dois anos de idade. O crime ocorreu na rodoviária de Imbituba, município de Santa Catarina.

Vítor, um menino Kaingang de apenas dois anos, é assassinado enquanto era amamentado pela mãe

O Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul, vem a público manifestar sua indignação com o cruel assassinato de Vítor Pinto, criança Kaingang de dois anos de idade. O crime ocorreu na rodoviária de Imbituba, município de Santa Catarina.

Vitor estava sendo amamentado pela mãe, Sônia da Silva, quando um homem se aproximou, acariciou seu rosto e, com um estilete, o degolou. Enquanto a mãe e o pai - Arcelino Pinto - desesperados tentavam socorrer a criança, o assassino seguiu caminhando pela rodoviária até desaparecer.

Vítor faleceu em um local que a família Kaingang imaginava ser seguro. As rodoviárias são espaços frequentemente escolhidos pelos Kaingang para descansar, quando estes se deslocam das aldeias para buscar locais de comercialização de seus produtos. A família de Vítor é originária da Aldeia Kondá, localizada no município de Chapecó, Oeste de Santa Catarina. Vítor estava na rodoviária com os pais e outros dois irmãos, um de seis anos e outro de 12.

Trata-se de um crime brutal, um ato covarde, praticado contra uma criança indefesa, que denota a desumanidade e o ódio contra outro ser humano. Um tipo de crime que se sustenta no desejo de banir e exterminar os povos indígenas.

A Polícia Militar da região deu por desvendado o fato em poucos minutos. Prendeu, num bairro pobre, um presidiário, que usufruía do benefício do indulto de Natal e Ano Novo. Aparentemente tudo estava solucionado. Mas na delegacia da Polícia Civil de Imbituba o delegado ouviu o pai e a mãe de Vítor, e ainda outra testemunha, um taxista que estava no local na hora do crime. O homem indicado pela Polícia Militar como autor do assassinato não foi reconhecido pelas três testemunhas.

Informações colhidas na delegacia por um advogado que acompanhou a família Kaingang dão conta de que esse cruel assassinato pode estar relacionado a ações de grupos neonazistas ou de outras correntes segregacionistas, que difundem o ódio e protagonizam a violência contra índios, negros, pobres, homossexuais e mulheres.

O Conselho Indigenista Missionário manifesta preocupação com o clima de intolerância que se propaga, na região sul do país, contra os povos indígenas. Um racismo - às vezes velado, às vezes explícito - é difundido através de meios de comunicação de massa e em redes sociais. Ocorrem, com certa frequência, manifestações públicas de parlamentares ligados ao latifúndio e ao agronegócio contrários aos direitos dos povos indígenas e que incitam a população contra estes povos.  Em todo o país registram-se casos de violência e de intolerância contra indígenas e quilombolas, manifestadas concretamente nas perseguições, nas práticas de discriminação, na expulsão e no assassinato de indígenas. Nestes últimos dias pelo menos cinco indígenas foram assassinados no Maranhão, Tocantins, Paraná e Santa Catarina.

O Conselho Indigenista Missionário espera que esse crime hediondo seja efetivamente investigado e que, não se cometam erros ao tentar dar uma resposta imediata à sociedade, imputando a um inocente crime que não praticou.

Chapecó, SC, 31 de dezembro de 2015.

Conselho Indigenista Missionário - Regional Sul

A TERRA SÓ DEVE SER DESTINADA A QUEM PRODUZ ALIMENTOS SAUDÁVEIS

DEPOIS DE UM PERÍODO DE RECUPERAÇÃO DE ENERGIAS, ESTOU VOLTANDO A DISPONIBILIZAR NOTÍCIAS E TEXTOS DE REFLEXÃO CRÍTICA QUE AJUDEM AO AVANÇO DA DEMOCRACIA COM JUSTIÇA EM TODAS AS DIMENSÕES DA VIDA.

ESTÁ SENDO BOM  RECOMEÇAR COM ESTA NOTA DO MST SOBRE NOTÍCIA DIVULGADA PELO FANTÁSTICO SOBRE OCUPAÇÃO IRREGULAR DE LOTES DE REFORMA AGRÁRIA. VALE A PENA APOIAR AS PROPOSTAS ELENCADAS, JÁ QUE ELAS VISAM ESTIMULAR A VIGILÂNCIA DOS ÓRGÃOS EM RELAÇÃO AOS DIVERSOS TIPOS DE OCUPAÇÃO E GRILAGENS, BEM COMO AO USO DE "LARANJAS", COBRANDO AÇÕES NO SENTIDO DE QUE TODA A TERRA SEJA DESTINADA A QUEM REALMENTE PRODUZ ALIMENTOS SAUDÁVEIS. E SUGEREM TAMBÉM QUE A GLOBO SEJA DE FATO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO, ABANDONANDO SE VIÉS DE CLASSE AO DAR NOTÍCIAS... 



NOTA DO MST SOBRE A OCUPAÇÃO IRREGULAR DE LOTES NA REFORMA AGRARIA
Ontem, 3 de janeiro, o programa de televisão Fantástico,  da     GLOBO,  denunciou a posse e a venda irregular de lotes da Reforma Agraria.

A reportagem utilizou como base a investigação e o relatório finalizado pela CGU (Controladoria Geral da União), envolvendo casos desde o ano de 2000.

Para a CGU, há 76 mil lotes ocupados irregularmente nos processos de assentamentos da Reforma Agraria - cerca de 8% do total. Do total 38 mil foram usurpados por  funcionários públicos, em casos que envolvem até mesmo um delegado da Policia Federal e um Procurador Geral do estado do Acre. Há lotes em nome de  8.519 menores de idade, uma pratica que revela a manipulação para aumentar o tamanho da área de uma mesma família, acima do modulo rural permitido pela lei. Não faltam casos de empresários, precisamente  7.872, que burlaram a lei de Reforma Agrária para acumular terras.  E, há,  ainda, 271 casos de políticos que se apropiaram indevidamente de terras que deveriam ser destinadas à Reforma Agraria para o assentamento de  famílias de sem-terras.
Sobre essas denuncias o MST esclarece ao povo brasileiro:

a)     Parabenizamos a iniciativa da CGU (Controladoria Geral da União) pela coragem de investigar e denunciar as irregularidades no programa de Reforma Agrária, muitas cometidas com a conivência de alguns  funcionários públicos corruptos. Uma prática que se perpetua em todos os governos, inclusive os da ditadura militar e que devem ser permanentemente coibidas.

b)    Da mesma forma, é saudável e imprescindível  a decisão da atual diretoria do INCRA em retomar todos os lotes e redistribui-los às famílias acampadas de  trabalhadores  rurais sem terras. Esperamos que o faça imediatamente e não com a costumeira letargia causada por entraves políticos e jurídicos.

c)     O MST defende titulação dos lotes da Reforma  Agrária como  Concessão Real de Uso,  com direito a hereditariedade, como está previsto na Constituição Federal.  Essa modalidade de titulação impediria o comercio da compra e venda dos lotes destinados à Reforma Agrária. É necessário que o governo tenha a coragem de adotar esse instituto constitucional imediatamente.

d)    O MST, tendo conhecimento de casos de irregularidades nos assentamentos, como os denunciados pelo relatório da CGU, apresenta-os  às autoridades e cobra providencias imediatas para assegurar que a terra esteja em mãos de que nela trabalha e produz alimentos.  

Propomos, ainda, à CGU:

a) Que faça um levantamento minucioso sobre as terras publicas distribuídas, quando não griladas, por grandes fazendeiros e empresários, em projetos de colonização ou de regularização fundiária, especialmente na região amazônica.    Estas propriedades deveriam respeitar a função social da terra (CF/1988).

b) Que faça um levantamento sobre as propriedades rurais compradas  por brasileiros laranjas de empresas estrangerias, para burlar a lei.   Recentemente o MST ocupou uma fazenda  1.400 ha, em São Lourenço/RS, de uma empresa chinesa, acobertada por esta pratica de usar testas-de-ferro. Até hoje nenhuma medida concreta foi adotada pelo governo.  Há dezenas de casos de usinas de açúcar/álcool falidas, com imensas áreas de terras agrícolas,  compradas pelo capital estrangeiro, sendo desnacionalizadas e burlando a lei. 

c) Que faça um levantamento sobre todos os projetos de perímetros irrigados, na região nordeste, sob a coordenação do  Ministério da Integração/Dnocs. São corriqueiras as denuncias, nessas regiões, que existem mais de 80 mil lotes   vagos ou ocupados irregularmente por empresários. Comprovadas as irregularidades, exigimos que esses lotes irrigados sejam imediatamente distribuídos para o assentamento das famílias de trabalhadores rurais sem terras acampadas na região.
d) Que retome a imediatamente a posse das terras  pertencentes à União que foram irregularmente apropriadas e usadas pela  empresa CUTRALE,  no município de Iaras/SP.

e)   Que a  Procuradorias Geral  dos estados, e outros órgãos competentes, investiguem a distribuição de terras publicas estaduais, em especial nos estados da Amazônia Legal, aonde tem ocorrido denuncias sistemáticas de distribuição dessas terras apenas à já latifundiários, políticos e empresários. 

Por último, será salutar à democracia brasileira se o jornalismo da Rede Globo se despir do seu partidarismo político, de viés sempre anti-social e anti-nacional, e contemplar em suas reportagens os casos irregularidades envolvendo os grandes proprietários rurais, o agonegócio e, até mesmo, os casos de sonegação fiscal, que não se restringem ao mundo rural.

O MST  apoia e contribuirá com as autoridades para que todas as injustiças e irregularidades cometidas sejam investigadas e, sendo comprovadas, sejam punidas.  Na questão da Reforma Agrária, continuaremos lutando para que as terras brasileiras sejam destinadas ao assentamento das famílias de trabalhadores rurais para, prioritariamente, produzir alimentos saudáveis. 

São Paulo, 4 de janeiro de 2016
Direção nacional do MST