segunda-feira, 23 de março de 2015

ENERGIA SOLAR: PRÁTICAS PARA DAR ÁGUA NA BOCA

SÓ PARA DAR ÁGUA NA BOCA DE QUEM VIVE NUM DOS PAÍSES COM MAIS ALTA E EFICAZ INSOLAÇÃO...

Incríveis projetos de energia solar pelo mundo - painéis solares na arquitetura.


Bairro solar Schlierberg


O bairro solar Schlierberg, em Friburgo, Alemanha, é capaz de produzir quatro vezes mais energia do que consome, provando que uma construção ecológica pode ser muito lucrativa.



O bairro é autossuficiente em energia e atinge isso através do seu projeto de energia solar, que utiliza painéis fotovoltaicos dispostos na direção correta. Parece uma estratégia simples, mas geralmente, os projetistas pensam nas instalações solares tardiamente, e dessa forma os painéis perdem parte de sua eficiência.

A vila, projetada pelo arquiteto alemão Rolf Disch, enfatiza a construção de casas e vilas que planejam as instalações solares desde o início do projeto, incorporando inteligentemente uma série de grandes painéis solares sobre os telhados. Os edifícios também foram construídos dentro das normas de arquitetura passiva, o que o permite produzir quatro vezes a quantidade de energia que consome.

O condomínio, com cerca de 11 mil m2, possui densidade média, tamanho balanceado, acessibilidade, espaços verdes e exposição solar.

Ao todo são 59 residências e um grande edifício comercial, chamado Solar Ship, que criam uma região habitável com o menor impacto ambiental possível. Nove das residências são apartamentos localizados na cobertura do edifício comercial. As residências multifamiliares possuem entre 75 e 162 m2.

Todas as casas são de madeira e construídas apenas com materiais de construção ecológicos. O conceito de cores foi desenvolvido por um artista de Berlim, Erich Wiesner.

As casas têm grande acesso ao aquecimento solar passivo e utilizam a luminosidade natural. Cada casa possui uma cobertura simples, com beirais largos, que permitem a presença do sol durante o inverno e protegem as casas durante o verão. Tecnologias avançadas como o isolamento a vácuo aumentam o desempenho térmico do sistema da construção.

As coberturas possuem sistemas de captação de água da chuva. A água é utilizada na irrigação de jardins e nas descargas de vasos sanitários. Os edifícios também utilizam lascas de madeiras para o aquecimento no inverno, diminuindo ainda mais o impacto no ambiente.

As instalações permanecem livres de carros, graças à garagem abaixo do edifício comercial, onde é organizado um sistema de compartilhamento de automóveis.



Alojamento alimentado por energia solar que abriga alpinistasAlpinistas da rota Gervasutti agora podem passar tranquilamente as noites em um módulo tubular sobre a borda da montanha Mt. Blanc, a quase 3.000 m de altitude, alimentado por energia solar.



Chamado de "Refúgio Gervasutti", a unidade de sobrevivência tem capacidade para 12 pessoas e foi projetada por arquitetos italianos da LEAPfactory, empresa especializada em alojamentos modulares para ambientes extremos.


O tubo, inteiramente pré-fabricado e levado ao local por helicópteros, foi construído a partir de materiais de alta qualidade, de impacto zero no ambiente em que foi instalado. Painéis solares no telhado produzem 2,5 kWh de energia solar, tornando-o completamente autossuficiente.

A parte externa da estrutura possui detalhes em vermelho para torná-la visível a longas distâncias. Beliches e armários de armazenamento ocupam a parte de trás do alojamento, enquanto uma sala com cozinha integrada e mesa de jantar completam o interior.

Uma grande janela dá aos privilegiados moradores uma ampla visão da bela paisagem dos alpes e um computador integrado fornece informações detalhadas sobre o clima.



Casa CANOPEA, a proposta vencedora do Solar Decathlon Europe 2012

O concurso Solar Decathlon Europe de 2012, patrocinado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos e pelo Laboratório Nacional de Energias Renováveis (NREL), premiou a Casa CANOPEA, da equipe francesa RHÔNE ALPES.


Coberto com painéis solares de 10,7 kW - que produzem energia mais que suficiente para seus dois pisos - este espaço verde também possui ventilação natural, um lugar para relaxar, e até mesmo uma lavanderia comum.


A ideia do projeto é criar "nanotorres" compostas por várias casas Canopea - empilhadas vertical e horizontalmente - gerando edifícios sustentáveis que podem responder à escassez de espaço urbano na França e no resto do mundo.

Organizadas por uma rede inteligente que monitora o aquecimento, resfriamento, a mobilidade, os serviços e redes sociais, estas "nanotowers" incluem jardins, espaços de armazenamento e um sistema de reciclagem, junto com um terraço ao ar livre que ajuda a prolongar o espaço interno. O projeto também ganhou o prêmio de acessibilidade, por permitir seu funcionamento para deficientes.

Estádio de Kaohsiung
Com jeitão futurístico, o estádio de Kaohsiung, em Taiwan, carrega o título de primeiro do mundo 100% movido a energia solar. Seu teto é recoberto por nada mais nada menos do que 8.844 placas solares, que fornecem energia suficiente para as 3,3 mil lâmpadas que iluminam o estádio e mais dois telões gigantes que transmitem os jogos.


O uso dessa fonte de energia renovável e limpa evita a emissão de 660 toneladas de CO2 na atmosfera anualmente. Em formato que remete a ferradura de um cavalo, a arena criada pela firma japonesa de arquitetura Toyo Ito foi construída para os Jogos Mundiais de 2009 e tem capacidade para 55 mil pessoas.


Pavilhão Endesa - Solar House 2.0
O Pavilhão Endesa, Solar House 2.0, fica de frente para o mar e sua estrutura angulada dá suporte a uma série de painéis fotovoltaicos que garantem o fornecimento de energia limpa ao empreendimento desenhado pelo IAAC (Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha) com apoio da companhia de energia Endesa.


Sem a tecnologia e um projeto arquitetônico eficiente o edifício consumiria em média 20 kWh enquanto com a tecnologia aplicada produz 100 kWh através de 150 metros quadrados de painéis fotovoltaicos apenas no telhado.


De acordo com o IAAC, o prédio merece o apelido de Solar House (Casa Solar) porque além de aproveitar a energia do sol, "é feita quase totalmente de madeira, que nasce a partir do sol".

O pavilhão inteiro foi construído em apenas um mês. O projeto foi todo pré-fabricado com cortes precisos de cada peça, por meio de um processo digital. Os módulos da fachada foram produzidos e montados na fábrica, aumentando ainda mais a eficiência da construção.

As peças principais, com os painéis fotovoltaicos, também funcionam como beirais para proteger o edifício contra a radiação solar nos meses quentes, ou permitir a entrada de radiação nos meses frios. Assim, no inverno as janelas recebem insolação, e no verão ficam sombreadas evitando o ganho de calor.


Ponte de Blackfriars
A histórica ponte de Blackfriars, construída em 1869, vai tornar-se no próximo ano na maior ponte solar do mundo. A ponte, que divide Londres junto ao famoso Tate Modern, está a receber uma cobertura de painéis fotovoltaicos, que irão abastecer 50% da energia necessária para eletrificar a estação homonima.

Ontem foram colocados 2.200 painéis fotovoltaicos, cerca de metade do total que está previsto instalar na centenária estação. Até ao final do ano o trabalho estará terminado, pelo que em 2013 os primeiros comboios começarão a circular sustentavelmente.


Ao todo serão 6.000 metros quadrados de teto solar - o maior do mundo até à data - que será capaz de produzir 900 mil kWh por ano. Segundo as estimativas da cidade, o projeto irá poupar perto de 511 toneladas de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

Desenhada e instalada pela Solarcentury, a engenharia solar do projeto utiliza módulos solares de alta eficiência produzidos pela Panasonic e terá iluminação natural. Finalmente, serão utilizados sistemas de captação de água da chuva.


Este projeto faz parte de um programa de mobilidade sustentável que levará comboios com mais composições no trajeto entre Bedford e Brighton, através do centro de Londres. Assim que esteja terminada, a estação receberá até 24 comboios por hora, que circularão pela capital britânica e poderão ser utilizados pelos seus cidadãos.

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A TÉCNICA DO AVESTRUZ NÃO ENFRENTA AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

É ASSIM, FAZENDO DE CONTA, QUE A MAIORIA ESTÁ DEIXANDO QUE O PLANETA CONTINUE SEU PROCESSO DE CONTAMINAÇÃO E DESEQUILÍBRIO. ATÉ QUANDO GOVERNOS E SOCIEDADE CIVIL ATRASARÃO O QUE JÁ DEVIA TER SIDO FEITO?

PARECE QUE NEM MESMO A COMPROVAÇÃO DO AUMENTO EXTRAORDINÁRIO DOS EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS SENSIBILIZAM OS GOVERNANTES PARA AGIREM RAPIDAMENTE. PREFEREM SEGUIR OS POUCOS "CIENTISTAS" QUE, COMO FALSOS PROFETAS, INSISTEM EM AFIRMAR QUE NÃO É NECESSÁRIA NENHUMA MUDANÇA NO CAMINHO ATUAL DE PROGRESSO - TORNANDO-SE CEGOS GUIADOS POR OUTROS CEGOS!

NÃO PERMITAMOS QUE A VIDA SEJA AINDA MAIS AMEAÇADA.  

IHU, Quinta, 19 de março de 2015

A técnica do avestruz não detém a mudança climática

"O que está em jogo é nada menos do que a vida de nosso planeta. Mas o sistema governamental não está agindo com a urgência necessária", constata Roberto Saviofundador da agência de notícias IPS e editor do boletim Other News, em artigo publicado por  Envolverde/IPS17-03-2015.
Eis o artigo.
Está claro que não será atingida a meta de controlar a mudança climática. É preciso recordar, antes de tudo, que o objetivo de o aquecimento global não passar de dois graus centígrados antes de 2020 foi adotado em 2009 como fórmula de consenso pela 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, realizada em Copenhague.
Na comunidade científica muitos reclamam medidas imediatas, mas em favor do realismo político aceitou-se um objetivo pouco ambicioso. Resumindo, o acordo era deter o aumento do aquecimento global antes de 2020 e a partir desse ano dar início a um processo destinado a reverter gradualmente a mudança climática até níveis seguros, para ser concluído antes de 2050.
Entretanto, nos últimos quatro anos já foi registrado aumento de um grau na temperatura, e resta apenas outro grau até 2020. A Agência Europeia de Meio Ambiente, que publica um informe a cada cinco anos, alerta que a Europa precisa de “metas muito mais ambiciosas” para poder alcançar os objetivos declarados.
A União Europeia programou a redução de suas emissões de gases-estufa entre 80% e 90% antes de 2050. Em lugar de uma redução, a Alemanha registrou aumento de 20 milhões de toneladas de emissões de carbono entre 2012 e 2013. Para alcançar a meta, a Alemanha deveria reduzir anualmente as emissões em 3,5% nos próximos seis anos, um objetivo difícil, que aumentará os custos da energia e provocará reações no sentido de bloquear as medidas que possam ser prejudiciais à economia.
Precisamente, essa posição é a mesma do opositor Partido Republicano nos Estados Unidos: rechaçar toda proposta para preservar o ambiente.
Atualmente, os efeitos da mudança climática são evidentes, não só para os especialistas em clima. No ano passado, as pessoas deslocadas em razão de desastres climáticos, como furacões, deslizamentos, secas, inundações e incêndios florestais, chegaram ao alarmante número de 11 milhões.
Centro de Pesquisa sobre a Epidemiologia de Desastres, que registra desastres naturais há 110 anos, publicou um informe conjunto com o Instituto de Energia e Recursos, que comprova um aumento exponencial de aproximadamente 50 desastres naturais em 1975 para 525 em 2002.
Em 2011, o custo dos desastres naturais subiu às nuvens, chegando a US$ 350 bilhões. E entre 1900 e 2009, os desastres hidrometeorológicos aumentaram de 25 para 3.526. Segundo o informe, em conjunto, esses fenômenos e as situações geológicas e biológicas extremas aumentaram de 72 para 11.571 no mesmo período.
Não há dúvidas de como a atividade humana tem um impacto dramático no clima e, em geral, no planeta, o que afeta a vida das pessoas. As universidades de Chicago, Yale e Harvard calculam que na Índia os que vivem em áreas contaminadas perdem, em média, 3,2 anos de expectativa de vida. 
E, como sempre, o mundo avança por dois caminhos, desvinculados e opostos.
O principal debate é sobre a quantia a ser investida na mudança climática. A solicitação original foi de US$ 15 bilhões, mas os países industrializados a reduziram para US$ 10 bilhões, distribuídos ao longo de alguns anos entre os países em desenvolvimento que não têm que realizar investimentos. Até agora foram reunidos US$ 7,5 bilhões.
Na conferência de Copenhague os países ricos disseram que o investimento no Fundo Verde para o Clima chegará aos US$ 100 bilhões em 2020. As contribuições registravam apenas US$ 110 milhões em 2013.
Esse é o caminho para a redução das emissões fósseis. Vejamos o que os países ricos estão gastando nesse item.
O informe do britânico Instituto para o Desenvolvimento mostra que os governos do Grupo dos 20 (G-20) países industrializados e emergentes também está financiando com US$ 88 bilhões anuais a exploração de combustíveis fósseis, mediante fundos públicos, subsídios nacionais e investimentos das empresas estatais.
Os governos do G-20 gastam mais do que o dobro do que gastam as 20 maiores empresas privadas para encontrar novas reservas de petróleo, gás e carvão. Isso demonstra que, sem os investimentos públicos, o setor privado não poderia expandir a produção de combustíveis fósseis.
Agência Internacional de Energia estima que os governos do G-20 deveriam reorientar US$ 49 bilhões anuais – pouco mais da metade do que gastam para apoiar a exploração de combustíveis fósseis – para impulsionar o acesso universal à energia, substituindo o sistema atual, baseado em fontes de energia não renovável.
Como de costume, o sistema espalha declarações atraentes, mas às vezes faz o contrário.
O novo é que a campanha contra a mudança climática está perdendo força e credibilidade. É um fato que, nos Estados Unidos, os republicanos são financiados pelas grandes corporações de energia, que farão todo o possível para boicotar qualquer acordo que o presidente Barack Obama possa conseguir na definitiva Conferência das Partes sobre a Mudança Climática, em dezembro deste ano em Paris.
Até agora só alguns cientistas discordam das conclusões do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática, integrado por 2.200 especialistas, sobre a relação entre as atividades humanas e a deterioração climática. As posturas negativas dos poucos cientistas dissidentes obtêm eco desproporcional nos meios conservadores.
Mas agora se revela que um dos principais dissidentes, Willie Soon, é financiado pela indústria dos combustíveis fósseis. Na última década, Soon recebeu pelo menos US$ 409 mil da empresa norte-americana Southern Company Service, uma das maiores companhias de serviços públicos, com grandes investimentos em centrais elétricas alimentadas a carvão.
Os multimilionários norte-americanos Charles e David Koch, patrocinadores de organizações de extrema direita e que doarão ao partido Republicano US$ 980 milhões para as próximas eleições presidenciais, proporcionaram a Soon pelo menos US$ 230 mil por meio da Fundação Beneficente Charles G. Koch.
O que está em jogo é nada menos do que a vida de nosso planeta. Mas o sistema governamental não está agindo com a urgência necessária. Para alcançar os objetivos indicados pela comunidade científica faltam investimento muito maiores do que os atualmente disponíveis.
Esconder a cabeça, como o avestruz, não serve para evitar o desastre que se avizinha. 

sábado, 21 de março de 2015

CRISE BRASIL: A FARRA ACABOU




CRISE BRASIL: A FARRA ACABOU
Frei Betto
       Na noite de domingo, 8/3, a presidente Dilma, em rede nacional de mídia, anunciou que a crise brasileira é grave.
      O país não apresenta perspectivas de crescimento em 2015. A inflação aumenta a cada mês e, o dólar, a cada dia. Não há investimentos à vista. Direitos sociais, como abono desemprego e pensão viuvez, sofreram cortes. Os juros voltam a subir. E a corrupção na maior empresa brasileira, a Petrobras, administrada pelo governo, deixa o PT acuado e aprofunda a crise política.
      A farra acabou. Foram 11 anos (2003-2014) de bonança: crescimento econômico; investimentos estrangeiros; inflação e câmbio sob controle; crédito facilitado; aumento real do salário mínimo; desemprego baixo.
      Graças aos programas sociais, 36 milhões de brasileiros saíram da miséria. As ruas se entupiram de veículos novos. Qualquer barraco de favela está equipado com TV em cores, geladeira, fogão, máquina de lavar (graças à desoneração da linha branca) e telefones celulares. E Dilma, na campanha presidencial de 2014, prometeu que nada disso mudaria.
      Agora, tudo muda. O novo lema do governo – “Brasil, Pátria Educadora” – foi anunciado em um dia e, no outro, R$ 14 bilhões foram cortados do orçamento da educação.
      Onde o governo errou? Errou ao adotar um populismo cosmético. Se você tem renda suficiente para pagar aluguel e sustentar a família, não pode oferecer aos filhos motos, carros e férias no exterior. A conta não fecha. Um dia a casa cai e o rombo terá que ser coberto, ainda que a família perca quase todos os bens.
      Quem não semeia não colhe. O governo quis colher onde não semeou. Em 12 anos, não promoveu nenhuma reforma de estrutura. Nem agrária, nem tributária, nem política.
      Isso me lembra o velho Araújo. Vargas, presidente, todo ano, a 21 de abril, mudava simbolicamente a capital do país para Ouro Preto. Araújo, que residia em casa maior que a sua conta bancária, ofereceu ao presidente, em sua passagem por Belo Horizonte, um banquete.
      Na mesa, tudo do bom e do melhor. O que não havia em Minas, veio do Rio e de São Paulo. Do banquete, a família guarda duas recordações: a feliz, a comilança regada a champanha francesa. A triste, a falência do velho Araújo.
      Havia alternativa para o PT? Sim, se não houvesse jogado a sua garantia de governabilidade nos braços do mercado e do Congresso; se tivesse promovido a reforma agrária, de modo a tornar o Brasil menos dependente da exportação de commodities e mais favorecido pelo mercado interno; se ousasse fazer a reforma tributária recomendada por Piketty, priorizando a produção e não a especulação; se houvesse, enfim, assegurado a governabilidade, prioritariamente, pelo apoio dos movimentos sociais, como fez Evo Morales na Bolívia.
      A crise econômica tende a se aprofundar. Já a política se arrastará até 2018, ano de eleições presidenciais. Se o governo não voltar a beber na sua fonte de origem – os movimentos sociais e as propostas originárias do PT – as forças conservadoras voltarão a ocupar o Planalto.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

PEPE MUJICA: É POSSÍVEL SER POLÍTICO E HUMANO

O RELATO QUE LEONARDO BOFF NOS PRESENTEIA DE SEU ENCONTRO COM PEPE MUJICA, QUE HÁ POUCO DEIXOU A PRESIDÊNCIA DO URUGUAI, SERVE COMO ALENTO EM NOSSO TEMPO DE POLÍTICOS E DE POLÍTICA EM PROFUNDA CRISE. E É UM DESAFIO: SE NÃO NOS LIBERTAMOS DA CULTURA DO CAPITAL, FUNDAMENTO DO CONSUMISMO E VAZIO EXISTENCIAL, PODE SER QUE NEM CHEGUEMOS EM TEMPO PARA REDEFINIR NOSSA RELAÇÃO ENTRE HUMANOS E COM A TERRA.

CARTA MAIOR - 19/03/2015 - Copyleft

Uma experiência de choque: o encontro com José Mujica

'Precisamos de uma cultura alternativa à cultura do capital. Ela não pode nos dar felicidade, pois, na ânsia de acumular, não nos sobra tempo para viver.'


Leonardo Boff
Gonzalo Viera Azpiroz / Flickr
Participando de um congreso iberoamericano sobre Medicina Familiar e Comunitária, realizado em Montevideo dos dias 18-22 de março, tive a oportunidade sempre desejada de um encontro com o ex-presidente do Uruguai José Mujica. Finalmente foi possível no dia 17 de março por volta das 16.00 horas. Tal encontro deu-se em sua Chácara, nos arredores da capital Montevideo.
 
Encontramos uma pessoa que vendo-a e ouvindo-a somos imediatamente remetidos a figuras clássicas do passado, como Leon Tolstoi, Maathma Gandhi e até com Francisco de Assis. Aí estava ele com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, com uma calça de esporte muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoierados como quem vem da faina da terra.
 
Vive numa casa humilde e ao lado, o velho fusca que não anda mais que 70 km a hora. Já lhe ofereceram um milhão de dólares por ele; rejeitou a ofera por respeito ao velho carro que diariamente o levava ao palácio presidencial e por consideração do amigo que lho havia dado de presente.
 
Rejeita que o considerem pobre. Diz: "não sou pobre, porque tenho  tudo o que preciso para viver; pobre não é não ter; é estar fora da comunidade; e eu não estou".
 
Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por treze anos e por um bom tempo dentro de um poço, coisa que lhe deixou sequelas até osdias de hoje. Mas nunca fala disso, nem mostra o mínimo ressentimento.Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis; mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e por e fazê-lo crescer.
 
Conversamos por mais de uma hora e meia. Começamos com a situação do Brasil e, em geral da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada aos corruptos e corruptores do caso penoso da Petrobrás. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.
 
Isso está ocorrendo no Norte da Africa e pode estar em curso também na América Latina e no Brasil. Sempre em articulação com os setores mais abastados e poderosos de dentro do país que temem mudanças sociais que lhes podem ameaçar os privilégios históricos.
 
Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema - vida e do sistema - Terra. Ai me dei conta do horizonte vasto de sua visão de mundo.
 
Enfatizava que a questão axial hoje não reside na preocupação pelo Uruguai, seu pais, nem por nosso continente latinoamericano, mas pelo destino de nosso planeta e do futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação como
espécie e tomar medidas salvadoras. Caso contrário, vamos ao encontro de uma
tragédia ecológico-social inimaginável.
 
O triste, comentava Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado, especialmente, das grandes potências econômicas,  não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta Terra, já que os problemas são planetários. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a
totalidade de nosso destino.
 
Mas o ponto alto da conversa, sobre o qual pretendo voltar, foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante, a cultura do capital.  De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e 'valores' vividos e proclamados pela cultura do capital. Esta aprisionou toda a humanidade com a idéia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem estar material sem fim. Esta cultura opõe ricos e pobres. E induz os pobres a buscarem ser como os ricos. Agiliza todos os meios para que se façam consumidores. Quanto mais são inseridos no consumo mais demandas fazem, porque o desejo induzido é ilimitado e nunca sacia o ser humano. A pretensa felicidade prometida se esvai numa grande insatisfação e vazio existencial.
 
A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade, porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentir inseridos na natureza. Essa cultura é anti-vida e anti-natureza, devastada pela voracidade produtivista e consumista.
 
Importa viver o que pensamos, caso contrário, pensamos como vivemos: a espiral infernal do consumo incessante. Impõe-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com toda a realidade. É difícil, constatava Mugica, construir as bases para esta cultura humanitária e amiga da vida. Mas temos que começar por nós mesmos.
 
Eu comentei: 'o Sr. nos oferece um vivo exemplo de que isso é possível e está no âmbito das virtualidades humanas'.
 
No final, abraçando-nos fortemente, lhe comentei: 'digo com sinceridade e com humildade: vejo que há duas pessoas no mundo que me inspiram e me dão esperança: o Papa Francisco e Pepe Mujica'. Nada disse. Olhou-me profundamente e vi que seus olhos se emudeceram de emoção.
 
Sai do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou naquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado um pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de amor.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A COMIDA E A TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO

MUITO IMPORTANTE ESTA A REFLEXÃO E PROVOCAÇÃO PARA PRÁTICAS COERENTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE MESA, COMIDA, ÁGUA E TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO. AFINAL, É AÍ QUE SE PODE TER PRÁTICAS EGOÍSTAS E PROVOCAR PROBLEMAS DE OBESIDADE; MAS É AÍ TAMBÉM QUE SE PODE DESCOBRIR PORQUE FALTA COMIDA PARA TANTOS MILHÕES DE PESSOAS QUANDO SE PRODUZ O SUFICIENTE PARA O DOBRO DAS PESSOAS QUE VIVEM NO PLANETA TERRA; E É AÍ QUE SE PODE TER CUIDADO DE SÓ COMER O NECESSÁRIO PARA VIVER COM QUALIDADE E DECIDIR QUE VALE A PENA EXIGIR AS MUDANÇAS QUE O MUNDO DEVE FAZER PARA QUE TODOS POSSAM ALIMENTAR-SE SEM AGREDIR A MÃE TERRA.

EM VISTA DISSO, VALE DEIXAR-SE INSPIRAR PELA ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA. O PAPA FRANCISCO MOSTRA COM PRÁTICAS COMO ELA É IMPORTANTE PARA SERMOS MAIS HUMANOS, MAIS SOLIDÁRIOS, MAIS CUIDADORES DO AMBIENTE, MAIS PROFÉTICOS...

IHU - Sexta, 13 de março de 2015

Comida e espiritualidade franciscana. Na mesa se muda o mundo

Em direção à Expo 2015, em Milão. Intitula-se Comida que nutre. Para uma vida sã e santa a carta que o ministro geral dos Frades Menores Conventuais endereçou a aproximadamente quatro mil franciscanos em vista da agora próxima Expo de Milão, encontro que pretende enfocar a questão referente ao alimento para todos em relação à sensibilidade do planeta. O documento, redigido em quatro idiomas – italiano, inglês, espanhol e polaco – será publicado integralmente na revista “Vita Consacrata”.
O jornal L’ Osservatore Romano, 11-03-2015, publica trechos da carta. A tradução é de Benno Dischinger.
A gente considera os franciscanos como pessoas frugais, também à mesa e, sobretudo irmãos universais atentos às necessidades de todos, em particular dos pobres. Estamos nós na altura desta fama? Podemos, de qualquer forma, repensar de modo criativo os nossos estilos de vida, de alimentação, os critérios com que usamos os bens da terra? A idealidade que nos impele a querer mudar o mundo começa por gestos simples e cotidianos, compartilhados e fraternos, assumidos como sinais da bênção que Deus concede a nós e através de nós ao mundo inteiro.
Esta minha carta quer ser a primeira de uma série dedicada à solidariedade e aos estilos de vida. Não só para testemunhar ao mundo que a seqüela profética transforma a existência abrindo-a ao dom de si, mas também para que entre nós, em todos os níveis – frade, convento, província, circunscrição, ordem – haja a devida atenção às necessidades dos mais “pequenos”, indivíduos e coletividade.
Mas, na história da humanidade, jamais se produziu tanta comida como nos nossos dias e jamais, como hoje, os problemas em relação à comida tem sido tão críticos: enquanto mais de 800 milhões de pessoas ainda padecem de fome, em torno de 1,5 bilhões de pessoas tem sobrepeso e destes mais de 500 milhões sofrem de obesidade. A fome e a obesidade globais – às quais absolutamente não se pretende atribuir iguais dramaticidades – são, no entanto, sintomas de um único problema, de uma relação negada e negativa com o alimento, de privação ou de supervaloração do mesmo. Refletir sobre a complexidade destes entrelaçamentos impede colocar a nós mesmos do lado da solução do problema, que estaria em outro lugar, distante ou limitado a alguns Países ou situações marginais.
A ocasião para uma reflexão deste gênero é oferecida por um evento internacional, qual seja a Expo de Milão 2015, de título sugestivo: Nutrir o Planeta, Energia para a Vida. O evento, que se desenvolverá de 1° de maio a 31 de outubro de 2015, pretende enfocar as importantes questões do alimento e da nutrição para todos, em relação com a sustentabilidade do planeta. Na dupla perspectiva da Food security, vale dizer, do acesso de todos ao alimento e à água necessários para a própria necessidade, de modo a afastar e sanar definitivamente a chaga da fome no mundo.
Nutrir-se e nutrir são dois gestos que realizam a estrutura da vida e em sua repetição garantem a sua subsistência. Embora as estruturas nos tenham subtraído deste sentido profundo, o alimento é o que nos arranca da morte, revelando-nos a limitação da existência humana, o fato de sermos criaturas necessitadas e dependentes.
O alimento, depois, não nutre somente o corpo, mas consolida e custodia as relações, as enriquece e qualifica. Também para isto o pão jamais é apenas pão, mas requer a boa ou enferma relação com nós entretemos com o mundo, as coisas, os outros próximos e distantes, com nosso corpo e do outro.
Nutrir-se e nutrir exprime uma separação das épocas, segundo a densidade do significado e de importância que estas têm em relação à vida pessoal e comunitária. Há as refeições cotidianas, as festivas e as épocas de jejum que consistem numa privação temporária do alimento ou numa diminuição no modo de assumir o mesmo.
Se o alimento é festa, em abundância e quase em excesso, é uma intensificação da oferta de alimentos e de bebidas que tem como objetivo o “fazer festa”, o jejum direciona à verdadeira nutrição, aquela fraterna e espiritual, enquanto normalmente a comida é realidade cotidiana cuja realidade está em percebê-la, - muito ou pouco que seja, - como dom.
Em todas as nossas comunidades, antes de sentar-se à mesa, o guardião entoa uma prece à qual todos se unem. Trata-se, em geral, de uma prece breve, também porque o momento da mesa comum é, em muitos lugares, precedido pela récita do meio-dia ou das vésperas. Não é, todavia, supervalorizada a importância desta oração antes das refeições, que tem a função de por em ato, acima de tudo, um saudar – embora momentâneo – distância do alimento já presente e ainda não compartilhado.
Através do distanciamento da bênção é simbolicamente superada toda atividade, toda gula, toda agressividade: isso, de fato, conecta a Deus e aos irmãos a realidade do alimento, lendo sua proveniência (de Deus, precisamente) e seu destino (para todos os presentes, mas não só) junto à bondade: “De fato, toda criação de Deus é boa é nada é refutado quando é tomado com ânimo grato, já que isso é tornado santo pela palavra de Deus e da prece” (1 Timóteo, 4,4-5). O alimento é assim identificado na sua qualidade profunda de dom totalmente positivo recebido e a re-doar, do qual a gente não pode apropriar-se em detrimento dos outros.
Orientando-nos além da ingratidão, aquela superficialidade que nos faz considerar quanto recebemos como devido; além da auto-suficiência, que nos ilude de nos bastarmos a nós mesmos; mas também além da indiferença que neutraliza o outro já que julga sua presença demasiado pesada e, ao limite, competitiva.
“Ele dá a comida a todo vivente, porque o seu amor é para sempre”. Assim Salmo 136, 25 descreve o cuidado de Deus com toda criatura, não só a humana. Todo vivente tem direito de receber a sua parte de comida, e o próprio Deus está empenhado para que a nenhum falte o necessário. Não por nada o milagre mais contado nos Evangelhos – por bem seis vezes – é aquele da multiplicação dos pães, segundo o qual Jesus oferece comida ao povo faminto. Hoje o pão para todos, a comida necessária ao sustento garantido para cada ser humano, ainda não é realidade.
No nosso mundo a tragédia da fome é infelizmente de casa, para a qual “um dos desafios mais sérios da humanidade é a trágica condição na qual ainda vivem milhões de famintos e mal nutridos” (Papa Francisco, mensagem para a jornada mundial da alimentação, 16 de outubro de 2013). Permanece sendo de atualidade a parábola do rico epulão (cf. Lucas, 16, 19-31) que “vestia roupas de púrpura e de linho finíssimo, e cada dia se entregava a lautos banquetes”.
inclusão social, a qualidade das relações, o reconhecimento da par dignidade e dos mesmos direitos é o fim último da solidariedade e do compartilhamento dos bens. Se não se resolverem os problemas dos pobres – sustenta o Papa Francisco – não se poderão resolver os problemas do mundo, antes, mais ainda, nenhum problema global poderá ser realmente resolvido (cf. Evangelii gaudium, n. 202). Como? Com uma “Igreja pobre para os pobres”, é a resposta dos cristãos junto com o Papa Francisco: e, se o segundo aspecto – para os pobres – foi sempre praticado com grande generosidade, o primeiro – Igreja pobre – foi até hoje pouco considerado, tanto teologicamente como pastoralmente.
Para os franciscanos vale a mesma perspectiva, no sentido que seja superada a leitura da pobreza entendida somente como virtude pessoal, para recuperar o fundamental gancho cristológico e sua explicitação eclesial (cf. Lumen Gentium, n. 8), assim como a sua carga de humanização pessoal, em vista da solidariedade com cada irmão.

ALERTA DE UM AMIGO DOS POVOS INDÍGENAS À PRESIDENTE DILMA

IDENTIFICO-ME COM OS SENTIMENTOS E COM O ALERTA À PRESIDENTE DILMA EXPRESSOS POR EGÍDIO, UM AMIGO DOS POVOS INDÍGENAS COM QUEM TIVE A ALEGRIA DE COMPARTILHAR A MISSÃO DESDE OS ANOS 1970. DE FATO, COMO EXPLICAR HOJE AOS QUE SÃO MAIS NOVOS QUE A POLÍTICA INDIGENISTA ATUAL É, EM MUITAS DIMENSÕES, PIOR QUE A DOS GOVERNOS OLIGÁRQUICOS E ATÉ DO PERÍODO DA DITADURA? COMO VERÃO ESSE TEMPO POLÍTICO DO BRASIL NO FUTURO OS QUE PESQUISAREM A POLÍTICA INDIGENISTA?

O ALERTA É CLARO: DILMA, ANDAR COM OS INIMIGOS DOS POVOS INDÍGENAS E DE TODOS OS POBRES, DEIXANDO DE LADO OS QUE VOTARAM EM VOCÊ, CONFIANDO QUE CUMPRIRIA AS PROMESSAS, É MUITO PERIGOSO! ELES PODEM DAR UM TOMBO EM VOCÊ, MESMO PORQUE, PARA ELES, DEMOCRACIA SÓ SERVE E DEVE SER UTILIZADA QUANDO GARANTE SEUS INTERESSES. É SÓ ISSO QUE BUSCAM COM SUAS MOBILIZAÇÕES GOLPISTAS E FAVORÁVEIS A POLÍTICAS FASCISTAS E RACISTAS.

CUIDADO: SE VOCÊ SACRIFICA OS POBRES E FAVORECE OS RICOS DO CAPITAL FINANCEIRO, SERÁ DIFÍCIL OU ATÉ IMPOSSÍVEL OS POBRES DEFENDEREM SEU GOVERNO - QUE, NA VERDADE, É DELES, POIS FORAM ELES QUE CONFIARAM A RESPONSABILIDADE DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA PARA VOCÊ! 

MEU ALERTA À PRESIDENTA DILMA.

Estimada Presidenta Dilma,

Entre 1967 e 1985 andei pelo Brasil “soprando as cinzas” de povos já considerados extintos, buscando animar o fogo escondido sob as cinzas da crueldade histórica e da violência então em curso, pela Ditadura Militar contra os remanescentes povos indígenas brasileiros. Em 1969 criei a OPAN-Operação Amazônia Nativa e em 1972 ajudei a criar o CIMI-Conselho Indigenista Missionário, organizações que até hoje fortalecem a causa destes povos. Considero-me também um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores aqui no Norte, em especial, nos municípios de Itacoatiara e Presidente Figueiredo, onde resido. Colaborei na redação do documento que contém as linhas do PT sobre política indigenista, aprovado, por unanimidade, na primeira assembleia nacional do Partido em 1980. Gostaria que lesse estas linhas de ação do Partido e comparasse com o que está sendo aplicado pelo seu Governo hoje.

Assim, desde 1963, venho-me dedicando a causa destes remanescentes indígenas cuja sobrevivência era, então, considerada uma “causa perdida”. E a Ditadura Militar já destinava, previamente, as suas terras à latifundiários e mineradores que até hoje estão de olho grande sobre as mesmas. Assim as terras dos kiña ou Waimiri-Atroari, daqui, em cuja cercania moro, já haviam sido destinadas a 14 empresas de mineração.

Colaborei também na organização das primeiras assembleias indígenas do país, assembleias que mudaram a rota da política genocida, montada pelos governos, desde os tempos do Brasil Colônia para o extermínio desses povos. Convivi com eles e de passagem pelas cidades dava notícias da sua situação à professores e alunos de universidades, à comunidades e aos jornais. E enquanto você sofria nas prisões da Ditadura a solidão e a tortura, no interior do país eu sofria a censura e a perseguição dos mesmos militares. O CIMI do qual fui o primeiro secretário executivo sofreu represálias pela Ditadura Militar como até hoje continua odiado pelos ditadores modernos instalados no agronegócio, nas mineradoras e na bancada ruralista.

Mas, eis que a partir de 1974 esses povos indígenas começam a se organizar. Mais e mais apoios começam a surgir por todo o Brasil e aqueles povos pobres, os mais pobres do país, cujas terras eram objeto de invasões de grandes projetos do Governo Federal, de grilagem da parte de mineradoras e fazendeiros e cuja sobrevivência era considerada uma “causa perdida”, começam a aparecer insistentes nos jornais e acabaram sendo os primeiros a balançar a Ditadura Militar.

Recordo-me que na virada do ano de 1978-79, a CNBB convidou o líder indígena Daniel Matenho Cabixi, para participar da Assembleia do CELAM em Puebla/México. Os ditadores, por certo já temendo a força indígena, não lhe deram o visto de saída do País.

Em 1980 quando do IV Tribunal Russell sobre os Direitos dos povos Indígenas das Américas, em Rotterdam quis repetir a determinação impedindo a saída do cacique Mario Juruna Xavante, escolhido para presidir aquele Tribunal. Pela primeira vez foi derrotada pela pressão nacional e internacional. Durante a realização do Tribunal os militares ditadores foram forçados a ceder e tive a honra de receber o cacique Juruna no Aeroporto de Amsterdam e acompanhá-lo até o local da realização do Tribunal, onde ainda chegou a tempo para presidir a sessão de encerramento.

É possível que você nunca tenha tido a experiência de sentir a força que estas populações humildes, sem armas e sem voz, encerram, achando, por isso, que só os poderosos, os donos das empresas e os políticos lhe possam dar governabilidade. Tudo bem, com eles você chegará ao fim do seu governo, mas de que forma? Com certeza, frustrada e derrotada nos ideais que a levaram a sofrer prisão e torturas, e mais humilhada do que se tivesse governado apenas um dia ao lado dos perseguidos e oprimidos por esses poderosos que agora a dominam e a encurralam. Pois não foram certamente os indígenas os autores do “panelaço”, durante a sua fala ao povo brasileiro e nem da recente parada nacional dos caminhoneiros, como não foram os Mapuche do Chile que organizaram em 1973 a greve dos caminhoneiros que derrubou o Governo Allende.

Além do mais os povos indígenas vivem o socialismo. E o PT não é um partido socialista? Não estão eles abrindo caminho ao socialismo que o PT está buscando? Por que, então, este desrespeito aos seus direitos e abandono quando os favorecidos diretos são os maiores inimigos do socialismo? Tudo isto é ininteligível neste seu governo, e intolerável.

Finalmente, muito maior e mais grave do que nós sofremos durante a Ditadura Militar, foi o sofrimento dos povos indígenas neste mesmo período, pois atingia não apenas adultos, mas a todo o povo igualmente. O mesmo PARASAR que bombardeou os guerrilheiros do Araguaia nos anos 70, no mesmo período, bombardeou aldeias Waimiri-Atroari. Daí a minha pergunta: Por que não aliviar de uma vez o sofrimento destes povos? Sofrimento que continua igual? Por quê?

Casa da Cultura do Urubuí – 10 de março de 15.

Egydio Schwade


RETOMADA DA MOBILIZAÇÃO PELA REFORMA POLÍTICA


 SEM  MOBILIZAÇÃO POPULAR NÃO TEREMOS REFORMA DO SISTEMA POLITICO

NOTA PÚBLICA

Nas manifestações de junho de 2013, o tema da Reforma Política voltou com força: diante da descrença nas instituições representativas, ficou evidente para a maioria que o sistema político atual não serve. Em agosto do mesmo ano, formou-se a "Coalizão por uma Reforma Política Democrática e Eleições Limpas", reunindo a OAB, a CNBB, a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, o MCCE,  a CUT, a UNE, o MST, CONTAG e à qual vieram unir-se depois inúmeras outras entidades e movimentos. A Coalizão divulgou um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, nos moldes do “ficha limpa”, passou a colher assinaturas para levar o PL à votação no Congresso.

Pouco depois, uma articulação de movimentos sociais e entidades da sociedade civil lançou uma campanha em favor de uma Constituinte exclusiva e soberana do sistema político. Nos meses seguintes, a campanha se organizou e promoveu atividades de debate e formação por todo o país para difundir o plebiscito popular. Este foi realizado na Semana da Pátria de 2014 e conseguiu 7 milhões e meio de  votos favoráveis.

Os elementos centrais do  Projeto de Lei de Iniciativa Popular são quatro:  fim do financiamento empresarial privado de campanhas eleitorais e de partidos políticos, fortalecimento da votação em programas partidários, paridade de  sexo e  fortalecimento da democracia direta.

O financiamento privado das campanhas é  a fonte primeira da corrupção no país,  distorce o voto, fazendo com que o poder econômico se sobreponha aos interesses dos cidadãos/ãs eleitores/as. Os escândalos de corrupção que eclodem de tempos em tempos revelam a cada vez o quanto a influência dos grandes grupos econômicos desvia a atuação da maioria dos políticos eleitos em favor de interesses privados. Alem disso o financiamento privado é antidemocrático, pois cria desigualdades nas disputas eleitorais.

Em outubro de 2013 a OAB deu entrada no Supremo Tribunal Federal a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade afirmando a inconstitucionalidade do financiamento de partidos políticos e campanhas eleitorais por empresas (ADI 4650). Até o início de 2014, vários ministros já haviam votado e o placar da votação dava 6 a 1 em favor da inconstitucionalidade: sendo onze os ministros, a maioria do STF já estava definida. Foi neste momento, abril de 2014, que o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo e, desde então, não o devolveu ao Supremo. Com isso, até hoje a votação não terminou.

Enquanto isso, no Congresso, um grupo de parlamentares começou a articular uma manobra para impedir que esta mudança no financiamento de campanhas ocorresse. A chamada PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 352, apelidada de PEC dos corruptores,  pretende, entre outras coisas, tornar constitucional o financiamento privado. 
Se ela for aprovada, torna inútil o final da votação no STF, mesmo que seja público e notório que a maioria do Supremo considera inconstitucional este financiamento.
Estamos diante do sério risco de aprovação de uma Emenda Constitucional que representará um grave retrocesso para a democracia. O caminho para impedir que seja aprovada esta PEC e que crie condições para a aprovação da Reforma do Sistema Político que nós queremos é a mobilização popular.

Diante desta conjuntura, a Plataforma dos Movimentos sociais pela reforma do sistema político reafirma  a sua convicção da necessidade da  uma profunda reforma do sistema político, que vá alem da reforma das regras eleitorais, por mais importante que seja.  
Apoiamos e participamos ativamente das duas grandes campanhas coordenadas pela sociedade civil: iniciativa popular pela  reforma política democrática e eleições limpas e o Plebiscito pela constituinte exclusiva e soberana do sistema político.

Conclamamos todos e todas que queiram realmente mudar as formas de se fazer e pensar a política no Brasil a participar das atividades previstas no próximo período:

1.     Semana de mobilização pela reforma política democrática que será realizada de 20 a 29 de março, centrada na mobilização para a coleta de assinaturas da Iniciativa Popular. Ver: www.reformapoliticademocratica.org.br

2.     Mobilizações pela convocação do plebiscito oficial pela constituinte exclusiva e soberana do sistema político. Ver  www.plebiscitoconstituinte.org.br

3.     Campanha Devolve Gilmar, desenvolvida através de petições online:


Só com mobilização e participação popular vamos conquistar uma  verdadeira reforma do sistema político.

Plataforma dos movimentos sociais pela reforma do sistema político

Brasília, 09 de março de 2015.

Anexo formulário para a coleta de assinaturas da  Iniciativa Popular pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas. 

https://mail.google.com/mail/u/0/?ui=2&ik=817d759d7c&view=att&th=14c103903eb1984e&attid=0.2&disp=inline&safe=1&zw