quinta-feira, 17 de outubro de 2019

IBGE: DESIGUALDADE ENTRE RICOS E POBRES É A MAIS ALTA

 DADOS SÃO DA AMOSTRA POR DOMICÍLIO, DO IBGE. ESPERA-SE QUE AINDA CORRESPONDAM À REALIDADE, JÁ QUE MEMBROS DO GOVERNO E A PRESIDÊNCIA TENDEM A INTERFERIR NAS PESQUISAS, QUERENDO JUSTIFICAR SUAS POLÍTICAS.

DE TODA MANEIRA, QUE VERGONHA E QUE INJUSTIÇA! AFINAL, NÃO HÁ NENHUMA RAZÃO NATURAL NEM TÉCNICA QUE JUSTIFIQUE ISSO. TUDO É FRUTO DO CONTROLE DA POLÍTICA E DA ECONOMIA PELOS POUCOS MUITO RICOS. EM VEZ DE DEMOCRACIA, CONTINUAMOS COM GOVERNO DE POUCOS PARA POUCOS. E ESSES POUCOS CONTINUAM SABENDO USAR A RELIGIÃO EM SEU FAVOR.

 IHU, 17 de outubro de 2019

Desigualdade entre ricos e pobres é a mais alta registrada no Brasil

Em 2018, rendimento da fatia mais rica da população subiu 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Brasileiros que estão no 1% mais rico ganharam 33,8 vezes mais que o total dos 50% mais pobres.

A reportagem é publicada por Deutsche Welle, 16-10-2019.

O rendimento médio mensal real do 1% da fatia mais rica da população brasileira atingiu em 2018 o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres do país, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (16/10).

Segundo o instituto, os números mostram que a desigualdade de renda no pais alcançou patamar recorde dentro da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), iniciada em 2012.

O 1% da população mais rica – grupo que reúne apenas 2,1 milhões de cidadãos – teve rendimento médio mensal de 27.744 reais, enquanto os 50% mais pobres – mais de 100 milhões – só ganharam 820 reais por mês.

Os números da pesquisa indicam que os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos. Os 30% mais pobres do país, cerca de 60 milhões, tiveram seu rendimento médio mensal reduzido, em alguns casos em até 3,2%. Os 5% mais pobres – cerca de 10 milhões –, por exemplo, tiveram ganhos mensais de apenas 153 reais em 2018, contra 158 reais em 2017. Já o 1% mais rico viu seu rendimento aumentar 8,4%, de 25.593 para 27.744 reais, entre 2017 e 2018.

O PNADC informa que o rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que foi de 264,9 bilhões reais em 2017, alcançou 277,7 bilhões de reais em 2018. Os 10% da população com os menores rendimentos detinham 0,8% da massa, enquanto os 10% com os maiores rendimentos concentravam 43,1%.

De acordo com o IBGE, com base na série histórica, esse aumento da desigualdade coincidiu com uma diminuição do número de domicílios que contam com bolsa família: se em 2012 eram 15,9% em todo o país, em 2018 a proporção caiu para 13,7%.

O IBGE aponta ainda que o aumento da desigualdade em 2018 tem relação com a crise do mercado de trabalho: em 2018, 35,42 milhões de pessoas estavam no mercado informal, um recorde da série histórica do IBGE. Os novos dados revelam que o índice Gini – que mede a desigualdade numa escala de zero (igualdade) a um (grau máximo de desigualdade) – aumentou em todas as regiões brasileiras, chegando a 0,509, o maior índice desde 2012.

Segundo o IBGE, entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução do índice Gini do rendimento domiciliar per capita (de 0,540 para 0,524), mas ela foi revertida a partir de 2016, quando aumentou para 0,537, chegando a 0,545 em 2018.

A pesquisa enfatiza os contrastes regionais no país: o Sudeste, que concentra 40% da população nacional, apresenta uma massa de rendimentos de 143,7 bilhões de reais, maior do que todas as demais regiões somadas.

As regiões Norte e Nordeste apresentaram os menores valores de rendimento médio mensal real domiciliar per capita: 886 e 815 reais, respectivamente, enquanto o Sudeste registrou 1.639 reais, pouco mais do que o do dobro do Nordeste.

O índice Gini também apontou contrastea regionaia. No Norte, chegou a 0,551, seguido pelo Nordeste, 0,545, e Sudeste, 0,533. No Centro-Oeste, o resultado foi de 0,513. O menor valor foi registrado no Sul: 0,473. O estado com maior desigualdade foi o Sergipe, com 0,575. A menor disparidade entre ricos e pobres, 0,417, foi registrada em Santa Catarina.

http://www.ihu.unisinos.br/593560-desigualdade-entre-ricos-e-pobres-e-a-mais-alta-registrada-no-brasil 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

MULHER INDÍGENA TRAZ MENSAGEM DE ANCIÃOS PARA O PAPA FRANCISCO


IHU, 16 de outubro de 2019

Anitalia Pijachi, indígena da cidade amazônica de Leticia, na Colômbia, veio ao Sínodo dos Bispos para a Amazônia trazer uma mensagem dos anciões de seu povo para o Papa Francisco, um ancião da Igreja Católica.

A reportagem é de Barbara J. Fraser, publicada por Catholic News Service, 15-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Os primeiros europeus a chegarem na Amazônia eram “invasores”, disse ela. “Eles nunca pediram permissão da mãe natureza ou do povo que vivia lá. Impuseram a cruz e a Bíblia. Isso causou muito ressentimento”, e em alguns casos forçou povos nativos a fugir dos territórios.

Mas quando o papa, na sua visita em 2018 ao Peru, pediu que os povos amazônicos contassem à Igreja como esta deveria conversar com eles, “aí vimos ela pedir permissão”, disse Pijachi ao Catholic News Service.

Pijachi, membro da etnia Ocaina Huitoto e que não é católica, disse que, ao ouvir isso, repassou aos anciões do seu povo, que aprovaram a sua participação nos encontros pré-sinodais, na medida em que a Igreja respeitava as culturas indígenas.

“Os anciões disseram que primeiro a Igreja Católica e todas as igrejas devem nos reconhecer como tendo um direito à nossa própria cultura e costumes, à nossa própria espiritualidade”, acrescentou ela.

“As igrejas não devem se impor e mudar” estas crenças.

Para muitos povos indígenas, a evangelização significou um deslocamento dos territórios onde viviam para as comunidades administradas pela Igreja, conhecidas como reduções, bem como a perda do idioma e das tradições. “A dor”, disse ela, “ainda está viva presente”.

A cultura e a espiritualidade dos indígenas amazônicos permanecem fortes “na medida em que temos o nosso território, os nossos rios, os nossos lugares sagrados, alimento e sementes, os elementos dos nossos rituais”, disse Pijachi.

Ela diz enxergar o sínodo como uma oportunidade para conversar com “um grande amigo, um grande ancião, (o Papa) Francisco, que leva a nossa voz” a lugares onde ela não seria ouvida.

A destruição ambiental pela indústria extrativista por empresas madeireiras, mineradoras e petroleiras tem sido um tema recorrente no sínodo.

“Os que vêm para extrair (os recursos naturais) não moram aqui”, disse Pijachi. “Eles moram na Europa; vivem em mansões nas grandes cidades. O interesse deles está todo no dinheiro”.

O dano ao meio ambiente “é uma morte espiritual e uma morte cultural” para os índios, disse ela, acrescentando que algumas das ações e políticas que resultam em destruição são de católicos.

“A mesma pessoa que recebeu a primeira comunhão, que se casou na Igreja, é aquela que derruba a floresta, que não entende o respeito pela criação”, falou. “O mesmo que foi batizado, que foi ao confessionário, que recebeu a comunhão, que vai à missa aos domingos é o governador de um estado e não presta nenhuma atenção” à forma como as políticas públicas afetam o povo.

“Eu perguntei (aos bispos): ‘Isso é importante para os senhores?’”, disse. Pijachi discursou ao Sínodo dos Bispos no dia 9 de outubro.

Como índia, ela também convidou os líderes eclesiásticos a ouvirem as mulheres.
Nos primeiros dias do sínodo, quando ouviu os bispos se referirem à “santa mãe Igreja”, Pijachi lembrou-se da “maloca”, cabana comunitária espaçosa, geralmente arredondada, onde o seu povo se encontra para as ocasiões especiais.

A maloca, segundo ela, “é a mulher, o ventre que reúne os filhos, o lugar de abundância”.

Embora muitos dos participantes no sínodo falaram da importância do trabalho pastoral realizado por mulheres, alguns permaneceram relutantes a conceder um papel mais amplo a elas, disse a indígena. Em parte, porque alguns bispos não entendem a realidade do ministério na Amazônia, acrescentou.

Um padre deve administrar o sacramento dos enfermos, por exemplo, mas onde não tem um padre, os pais vão pedir a uma irmã para que abençoe uma criança no leito de morte. Ela já viu irmãs telefonarem para um padre para dar a bênção por telefone.

“Acredito que é muito importante que o sínodo dar à mulher um lugar nas tomadas de decisão e autonomia para atuar”, falou.

“Lembrei os religiosos reunidos que não precisam ter medo de nós”, contou Pijachi. “A única forma que um homem pode vir à luz é se ele vem de uma mulher. Antes de ver a luz do dia, ele nasceu através da vagina de uma mulher”.

“Então por que, depois de eu lhe dar a vida, eu, que sou sua mãe, por que ele me rejeita e me manda para um canto?”, perguntou-se.

No relato da criação de seu povo, Pijachi contou aos bispos, “Deus pôs o homem e a mulher juntos no mundo (...) para caminhar juntos”. Se os dois não caminham em harmonia, um ancião indígena lhe explicou, “é como caminhar somente com uma perna”.

http://www.ihu.unisinos.br/593515-indigena-traz-mensagem-de-ancioes-para-o-papa-francisco 

GUERRA DO CACAU: GOVERNOS AO LADO DOS TRABALHADORES DO CAMPO

VALE TER NOTÍCIAS E COMPREENDER CRITICAMENTE O QUE ACONTECE COM O PROCESSO DE CULTIVO DO CACAU E DA PRODUÇÃO DO CHOCOLATE. É MUITO INTENSA A EXPLORAÇÃO DOS PRODUTORES DE CACAU, E POR ISSO É IMPORTANTE RECONHECER A LEGITIMIDADE E URGÊNCIA DAS MEDIDAS DESEJADAS POR GANA E COSTA DO MARFIM.

E NO BRASIL, COM QUEM FICAM OS LUCROS DA CADEIA DE PRODUÇÃO DO CHOCOLATE? SERÁ DIFERENTE DOS PAÍSES IRMÃOS DA ÁFRICA?

A guerra do cacau: Gana e Costa do Marfim aliados dos trabalhadores do campo contra a exploração de trader e grandes marcas (e a falsa sustentabilidade)


IHU, 16 de outubro de 219

É doce para todos, exceto para os agricultores que o cultivam. As favas de cacau, o ingrediente básico do chocolate, são uma fruta preciosa para a economia mundial, que construiu sobre esse produto um mercado de cerca de 50 bilhões de dólares por ano.

A reportagem é de Nicola Scevola, publicada por Business Insider Italia, 14-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pena que desses valores aos principais produtores - que são os pequenos agricultores que cultivam cacau na Costa do Marfim e no Gana, que juntos garantem mais de 60% do suprimento global de favas – apenas uma fração mínima chegue a seus bolsos.

Mapa à esquerda mostra a Costa do Marfim e mapa à direita indica a localização de Gana
(Fontes: Enciclopédia Global e Portal História e Geografia, respectivamente)

Mas a situação está prestes a mudar, com prováveis repercussões no custo final das barras de chocolate que acabam em nossas mesas.

Para superar a pobreza endêmica que atormenta seus trabalhadores do campo, pela primeira vez os dois países africanos uniram suas forças para impor preços mais justos aos grandes compradores que revendem as favas a marcas somo Nestlé, Ferrero, Mars, Mondelez e Hershey.

No início do verão, representantes de Gana e da Costa do Marfim tentaram impor um preço mínimo. Mas diante do muro oposto pelos compradores desistiram, optando por a adoção de um valor fixo de US$ 400 por tonelada a ser adicionado ao preço de mercado a partir da safra 2020/21.

Na intenção dos governos de Abidjan e Accra, o dinheiro assim acumulado será usado para criar um fundo para combater a pobreza dos agricultores locais, estabilizando as cotações do cacau e compensando eventuais quedas abaixo de um determinado limite.

Segundo o Banco Mundial, 55% dos agricultores da Costa do Marfim vivem com cerca de 1,15 € por dia, abaixo da linha de pobreza absoluta. E quase 80% dos lucros gerados pelo mercado de chocolate ficam nas mãos de quem transforma as favas e distribui os produtos finais, duas fases das quais o país está praticamente excluído.

Porém, embora a maioria dos produtores de chocolate tenha apoiado publicamente a iniciativa de Gana e Costa do Marfim, alguns traders responderam com desconfiança, prevendo que o novo imposto os levaria a fazer mais negócios com produtores sul-americanos, criando assim um excedente de oferta da África que poderia reduzir ainda mais os preços.

Os dois países responderam anunciando nos últimos dias a imposição de um teto limite à produção local de 2 milhões de toneladas a partir da próxima temporada. Para ter um termo de comparação, a Costa do Marfim estima fechar a produção deste ano em 2,2 milhões de toneladas de cacau. E a manobra parece ter valido a pena: os primeiros contratos para a venda da safra 2020/21, que incluem o imposto de US $ 400 por tonelada, já foram assinados.

Mas a guerra africana do chocolate não termina aí. Os dois vizinhos também dirigiram suas atenções às certificações que deveriam garantir a sustentabilidade dos produtos. Até hoje, em vez de depender de empresas externas, muitos produtores, como Mars e Nestlé, preferiam exibir marcas de sustentabilidade faça-você-mesmo, adotando programas voluntários que deveriam valorizar a lucratividade das plantações, garantindo benefícios às comunidades locais. Essas autocertificações são preciosas nos mercados ocidentais, cada vez mais atentos ao meio ambiente e à sustentabilidade dos produtos. Mas, de fato, não melhoraram a situação dos pequenos produtores das favas.

Segundo um relatório do ano passado, o nível de exploração do trabalho infantil nos dois países da África Ocidental está aumentando constantemente e hoje envolve 2,1 milhões de crianças.

A ponto de, nos últimos meses, dois senadores dos EUA terem pedido ao governo de Washington que proibisse as importações no mercado local chocolate produzidas pela exploração infantil, uma manobra que, se implementada, corre o risco de dobrar as economias dos produtores africanos.
Também por esse motivo, os governos de Accra e Abidjan decidiram tomar as rédeas da situação, impondo novos padrões e limitando a possibilidade das grandes marcas de autocertificarem seu chocolate como sustentável. Se depois isso realmente conseguir mudar para melhor a situação dos pequenos produtores de cacau, ainda precisa ser provado. O certo é que o cabo-de-guerra é acompanhado com interesse, inclusive pelas nações produtoras de café, outro setor que teria muito a aprender sobre como redistribuir para as bases parte dos ricos rendimentos do mercado global.

http://www.ihu.unisinos.br/593498-a-guerra-do-cacau-gana-e-costa-do-marfim-aliados-dos-trabalhadores-do-campo-contra-a-exploracao-de-trader-e-grandes-marcas-e-a-falsa-sustentabilidade 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

EQUADOR: É POSSÍVEL ENFRENTAR A EXTREMA DIREITA


É POSSÍVEL, COM UMA CONDIÇÃO: QUE HAJA MOBILIZAÇÃO FIRME E ORGANIZADA NAS RUAS. É UM ERRO FICAR SÓ NA LUTA CONGRESSUAL, DISTANTE DO POVO. 

QUANDO REAPRENDEREMOS?



OUTRAS PALAVRAS, 14 DE OUTUBRO DE 1019

Equador: bastidores e sentidos da notável vitória

Governo revoga decreto-símbolo do pacote imposto pelo FMI. Movimento indígena obtém conquista emblemática, mas parcial. Resultado revela: medidas neoliberais podem ser derrotadas – mas superar projeto exigirá mais esforço

Passava das nove e meia da noite, quando as multidões começaram a celebrar e bailar nas ruas de Quito ontem. Nas barricadas montadas para deter a selvageria da polícia e do exército, e nos bloqueios de ruas e estradas, espalhados em todo o país, os manifestantes se felicitavam. Recebiam, aqui e ali, o cumprimento de um soldado (veja foto abaixo). Minutos antes, em negociações transmitidas pela TV, por exigência do movimento indígena, a delegação do presidente Lênin Moreno aceitara o que ele havia dito ser impossível, desde que os protestos de rua começaram, em 2/10. O Decreto 883 – que elimina os subsídios à gasolina e provocou aumento de 123% nos preços dos combustível – seria revogado. Uma comissão de negociação, da qual participará o movimento indígena, discutirá alternativas. Até o momento, porém, as demais medidas ultracapitalistas impostas por Moreno e FMI continuam de pé.
No noite de 14/10, policial que participava da repressão confraterniza com manifestantes
A insólita negociação iniciada domingo à tarde foi o produto de um fim de semana de caos, confronto e incerteza absoluta – em Quito e outras cidades. A violência das forças de repressão, já muito grave nas duas últimas semanas, tornou-se mais crua. Ao todo, fala-se em sete a dez manifestantes mortos e 2100 feridos – alguns muito gravemente. Há ainda centenas de presos. Mas o fato novo foi a mobilização das periferias de Quito, os despossuídos de sempre, que se somaram aos protestos dos indígenas e da juventude e ampliaram o isolamento do governo e o caos urbano. (no vídeo abaixo, reportagem da Al Jazeera)
Em determinado momento, narra Decio Machado, do site Viento Sur, o cenário tornou-se incontrolável devido à infiltração, nos protestos, de grupos de saqueadores e provocadores, possivelmente estimulados pelo governo. Ao provocarem destruição indiscriminada, voltavam a população contra o movimento. Uma guarda indígena, formada pela Conaie – a confederação das nações originárias – agiu para combatê-los. Ainda assim, passaram a promover desordens de caráter suspeito em outros pontos de Quito. Chegaram a atear fogo à Controladoria Geral do Estado, onde correm processos contra políticos acusados de corrupção.
Por volta das 15h, o presidente Moreno decretou toque de recolher, aparentemente pressionado pelos militares. As dezenas de centros – escolas, universidades, equipamentos culturais e em especial a Casa da Cultura – em que os indígenas se abrigavam foram cercadas por soldados. A população voltou a intervir a partir das 20h, na forma de um enorme cacerolazo contra o governo. O ruído das panelas expressava a oposição que as armas queriam calar.
Esgotado, Moreno propôs o diálogo à Conaie. Os indígenas impuseram três condições – todas aceitas, num sinal de sua força. As negociações deveriam se realizar em “campo neutro” (ocorreram num complexo hoteleiro nos arredores de Quito). Seriam mediadas pelo escritório da ONU no Equador e pela conferência episcopal equatoriana (o que ocorreu). E deveriam ser transmitidas ao vivo, pelos meios de comunicação.
A partir das 18h, ministros do governo e representantes do movimento indígena sentaram-se frente a frente. A população assistiu a duas rodadas do diálogo. Lenin Moreno repetiu, de início, que não voltaria atrás. Em repetição do discurso paranoico que manteve nas últimas semanas, afirmou que os protestos eram orquestrados por seu antecessor, Rafael Correa. Ofereceu migalhas: parte da “economia” feita com o fim do subsídio aos combustíveis seria distribuída em programas sociais.
Foi contestado, na rodada seguinte, pelos representantes indígenas. Adoración Guamán, cientista social, escreve para o site CTXT: eles foram firmes e altivos; mostraram preparo político e conhecimento da situação econômica do país. Incluíram, entre suas exigências, a revelação do conteúdo completo do acordo com o FMI, mantido parcialmente em sigilo até agora. Lembraram a repressão e os mortos. Pediram a destituição dos ministros da Defesa e do Interior.
Num complexo hoteleiro nos arredores de Quito, a negociação: à esquerda, a bancada indígena
A tensão cresceu. Mas passada uma hora do embate, o representante da ONU propôs uma pausa de 15 minutos – e a transmissão só foi reiniciada cerca de duas horas depois às 21h40. Nesse momento, estava redigido o acordo que revogará o Decreto 883. Governo, indígenas, Nações Unidas e conferência episcopal redigirão juntos o novo ato governamental que o substituirá – mas cujo conteúdo não está claro. O movimento indígena começou a se desmobilizar e a voltar para suas bases. Não se falou, porém, sobre as demais medidas do pacote imposto pelo governo em 1º/10. Elas estabelecem vasta privatização e uma contrarreforma trabalhista fortemente regressiva, muito semelhante à adotada, no Brasil, pelo governo Temer.
Anunciada a revogação, começaram as celebrações. A vitória simbólica dos protestos é evidente. A popularidade de Moreno, já abaixo dos 20%, certamente cairá depois da quinzena de caos e do recuo. Seu poder de continuar empurrando medidas regressivas cairá.
Nas circunstâncias presentes, o acordo foi provavelmente o máximo que a revolta poderia obter. Decio Machado, em Viento Sur, informa que a liderança da Conaie evitou propor medidas como a antecipação das eleições. Talvez esteja insegura sobre o possível resultado; talvez, sobre seu próprio papel político.
Numa América do Sul sob intensa pressão da direita, sobressaem duas conclusões claras. O programa imposto pelas forças de direita é, além de devastador, impopular. Quando há disposição de denunciá-lo, as brechas para contestá-lo aparecem e se multiplicam. A lição serve particularmente ao Brasil.
No entanto, um vasto esforço é necessário para passar das vitórias custosas e muito parciais (os vinte centavos ou a revogação dos 883) para um projeto antineoliberal atualizado, que volte a sacudir a região – agora com a ambição de passar às reformas estruturais.

https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/equador-bastidores-e-sentidos-da-notavel-vitoria/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=14_10_por_tras_do_iphone_o_estado_e_os_militares_equador_os_bastidores_da_notavel_vitoria_em_sp_uma_cupula_ultraconservadora_o_iraque_em_chamas_de_novo&utm_term=2019-10-14 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

DIA DE SÃO JOÃO XXIII

JOÃO XXIII, JÁ SANTO PARA O POVO DE SEU TEMPO, SURPREENDEU O MUNDO COM A CONVOCAÇÃO DO CONCÍLIO VATICANO II, E COM ISSO CONTRIBUIU PARA ABRIR NOVOS TEMPOS PARA A IGREJA E PARA O MUNDO. PAPA FRANCISCO TEM NELE, COM CERTEZA, UMA DE SUAS FONTES DE INSPIRAÇÃO.

IHU
11 Outubro 2019

Hoje, dia de São João XXIII, republicamos uma nota em que recordamos o 'discurso à lua' proferido na noite do dia 11 de outubro de 1962. Neste dia iniciava o Concílio Vaticano II.

Além da nota, reproduzimos o vídeo gravado pela RAI, do histórico discurso proferido de improviso, como lembrava o seu secretário particular, Loris Capovilla.

Também reproduzimos o vídeo do discurso, de improviso, de João XXIII, no natal de 1958, poucos meses depois da sua eleição, por ocasião da visita ao Cárcere Regina Coeli, de Roma.
O relato é do vaticanista e ex-vice- diretor do jornal L'Osservatore Romano, Gian Franco Svidercoschi, em artigo publicado na revista Jesus, de janeiro de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Eis o texto.

É uma emoção que volta continuamente, sistematicamente, há 50 anos. Toda vez que eu ouço a voz de João XXIII, enquanto pronunciava o seu "discurso à lua", logo sinto um calafrio que percorre toda a minha coluna. E o meu coração entra em fibrilação...
A aventura do Concílio tinha diante de si a estrada já traçada. E eu entendi que, se a Igreja estava mudando, a minha vida, e não apenas a profissional, também seria diferente.
Aquela manhã de 11 de outubro de 1962, para mim, havia sido massacrante. Eu trabalhava como "vaticanista" para uma agência de notícias, a Ansa. E eu tive que "telefonar" para a redação, quase ao vivo, toda a cerimônia de abertura do Concílio Vaticano II. Uma experiência que nunca vou esquecer. Havia sido tudo tão extraordinário. Tudo no sinal da novidade, uma incrível novidade.

Primeiro, na Praça de São Pedro, aquela interminável fila de mitras brancas, de rostos negros e amarelos, das mais diversas raças e línguas, onde se espelhava também visivelmente a universalidade do catolicismo. Depois, na basílica, os observadores das Igrejas cristãs, os ex-hereges, os ex-irmãos-que-erraram-ao-não-voltar-ao-redil. E os muitos chefes de Estado e de governo, mas desta vez apenas como convidados, e não mais como acontecia quando o poder temporal condicionava os Concílios e a liberdade da Igreja. Por fim, o discurso do Papa Roncalli. Um discurso aberto, corajoso, iluminador: a crítica aos "profetas da desgraça", a distinção entre o depositum fidei e a sua formulação, o "remédio da misericórdia" em vez das condenações e dos anátemas de antigamente.

Eu percebi no ar que era o fim de uma época. Mas como amadureceria a nova estação que estava apenas brotando? Naquele momento, nem mesmo o papa, que a havia inaugurado, um papa de 77 anos, mas habitado pelo Espírito, podia imaginar. Além disso, havia sinais contraditórios. Um rito faustoso, de outros tempos, e que se desenvolvia em lugares fechados, nos "sagrados recintos", portanto, longe do povo comum e da história. E os acréscimos – preocupados em reafirmar a continuidade com o passado – que o pontífice teve que introduzir no seu discurso oficial sob pressão da Cúria Romana conservadora.

E eis por que o Vaticano II – para mim – começou realmente apenas à noite. Começou com aquelas palavras improvisadas que João XXIII dirigiu à multidão na praça. Palavras simples, transparente, afetuosas, as mesmas palavras das pessoas, da existência cotidiana, feita de alegrias e de dores, de pequenas grandes coisas, palavras que, ao invés, a Igreja por muito tempo não havia mais usado.

Pois bem, pronunciando-as de novo, Roncalli pôs fim ao longo e penoso isolamento da hierarquia eclesiástica do povo, dos seus problemas, da sua vida. Isto é, a Igreja começou novamente a caminhar ao lado dos homens e das mulheres de todo o mundo.

Naquele ponto, a aventura do Concílio finalmente podia partir, tinha diante de si a estrada já traçada. E eu também (eu tinha 26 anos), tendo voltado para casa, fiz uma carícia no meu filho. E entendi que, se a Igreja estava mudando, a minha vida, e não apenas a profissional, também seria diferente.
* * *
Assista abaixo ao Discurso à lua, de João XXIII:

https://youtu.be/BsPOplQzwps

http://www.ihu.unisinos.br/517156-a-caricia-que-mudou-o-mundo

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

INDÍGENAS, CIMI, ONU DEBATERÃO EM ROMA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA

É ASSIM, COM ATIVIDADES, DEBATES E ENCAMINHAMENTOS PELOS PARTICIPANTES DO SÍNODO DA AMAZÔNIA, E FORA DESSE ESPAÇO, EM ROMA, QUE A AMAZÔNIA ESTÁ SENDO APRESENTADA AO MUNDO, CLAMANDO A UNIÃO DE FORÇAS PARA SALVAR A SUA VIDA E DE SEUS POVOS.

Sínodo: Indígenas, ONU e Cimi debaterão violações de direitos e demarcação de terras indígenas

Evento simultâneo ao Sínodo, que acontece em Roma, debaterá na próxima segunda-feira (07) a realidade brasileira de violência contra os povos indígenas, seus direitos e territórios

 
Nesta segunda-feira (07) evento organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) levará ao Vaticano a conjuntura do Brasil e a paralisação nas demarcações de terras indígenas. A mesa “Povos indígenas e luta pela terra: desafios, ameaças e resistências”, que acontece simultânea ao Sínodo da Amazônia, contará com a presença da relatora especial das Nações Unidas para direito dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, do presidente do Cimi e bispo sinodal, dom Roque Paloschi, dos indígenas Adriano Karipuna (RO) e Jair Maraguá (AM) e Marline Dassoler, do secretariado nacional do Cimi.

O Instrumentum Laboris (IL) do Sínodo sublinhou a demarcação dos territórios indígenas e o reconhecimento do seu direito à terra como um elemento central para o debate da vida na Pan-Amazônia. No evento, panelistas farão a ponte entre o que se debate na reunião sinodal e as violências sofridas pelos povos no Brasil. Dom Roque Paloschi, presidente do Cimi e um dos bispos presentes no Sínodo, trará à mesa os primeiros diálogos ocorrentes na assembleia que se estende até o dia 27. “Nós não queremos mais uma Igreja colonial, mas companheira e de escuta”, pontuou Dom Paloschi durante a Assembleia do Cimi, ocorrida em setembro.

Adriano Karipuna, liderança do povo Karipuna em Rondônia, Brasil, antecipa o que estará em sua fala: “Nosso território tem sofrido constante invasão de grileiros que retiram madeira e loteiam as terras indígenas já demarcada. São invasões que ocorrem com autorização do Estado brasileiro”. O que aponta a liderança Karipuna é uma política orquestrada para “transformar a Amazônia em terra sem lei, livre para a destruição em massa”, afirma o indígena. Em 2018 foram registrados 109 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio”, enquanto em 2017 haviam sido registrados 96 casos. Nos nove primeiros meses de 2019, dados parciais e preliminares do Cimi contabilizam 160 casos do tipo em terras indígenas do Brasil.

Jair Maraguá traz as realidades dos povos que enfrentas as pressões de garimpeiros. “O rio é nossa fonte de vida. Tomamos água, nos banhamos, comemos o peixe. Infelizmente hoje o que vem junto com nosso alimento é o mercúrio e o cianeto”, lamenta a liderança ao relatar a intoxicação por substâncias usadas na extração de minérios. “As ameaças que sofremos devido ao garimpo coloca nossa vida em risco”.

Com território em fase de demarcação desde 2001, o representante vindo do Amazonas reforça a posição de Adriano Karipuna: A não demarcação das terras indígenas intensifica as ameaças. “Vivemos um governo que diz que não irá demarcar. Além de desrespeitar a Constituição Federal, ele legitima a violência com os povos. A demarcação é o primeiro passo para o respeito aos nossos direitos”, sustenta Jair Maraguá.

O Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2018 divulgado pelo Cimi em setembro denuncia o substancial aumento da grilagem, do roubo de madeira, do garimpo, das invasões e até mesmo da implantação de loteamentos em seus territórios tradicionais. Adriano Karipuna e Jair Maraguá trazem ao Sínodo e as esferas internacionais práticas que colocam em risco a própria sobrevivência de diversas comunidades indígenas no Brasil.

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Evento simultâneo ao Sínodo: Povos indígenas e luta pela terra: desafios, ameaças e resistências
Data e horário: 07 de outubro, segunda feira, 19h30
Local: Roma, Itália, Centro Internacional Juvenil San Lorenzo

Contato:
Guilherme Cavalli – em Roma
+353 83 175 83 85

Adi Spezia
61 99641-6256

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

PAPA CONSAGRA SÍNODO A SÃO FRANCISCO JUNTO COM INDÍGENAS

Fwd: compartilhando fotos


Querida(o) Ivo,
Hoje no Jardim do Vaticano, tive a honra de assessorar o primeiríssimo evento do Papa Francisco pelo Tempo da Criação. 
Foi incrível. Muito especial.
Juntos, o papa e líderes da Igreja e de comunidades indígenas plantaram uma árvore que vai viver nos jardins do Vaticano. O papa escolheu esse dia por ser a Solenidade de São Francisco que encerra o Tempo da Criação. 
Esse momento vai permanecer sempre comigo. Foi o dia mais especial da minha jornada com o MCGC até hoje.
Durante a cerimônia, eu vi a Igreja se posicionando ao lado dos povos indígenas. Eu ouvi o cantar dos pássaros e o soar do vento pelas árvores. Acima de tudo, eu senti o Espírito Santo guiando a Igreja adiante.
Eu queria compartilhar algumas fotos desse evento com você. Você é uma parte extremamente importante deste movimento, e apesar de não ter estado conosco fisicamente, meus pensamentos voltavam sempre à minha gratidão por tudo que construímos juntos. 

Durante o evento, o Papa Francisco consagrou a São Francisco de Assis o próximo sínodo sobre a Amazônia. A árvore que foi plantada é uma azinheira, conhecida por ter estado no centro de uma das famosas conversas de São Francisco com a natureza. Estes lindos gestos ressaltam que os vulneráveis e toda a criação estão no centro do sínodo da Amazônia, que começa no domingo. 
Vamos compartilhar mais sobre esse grande momento da Igreja nas próximas semanas, mas por enquanto quero simplesmente te agradecer por estar nesta jornada conosco.
Em solidariedade,
Tomás Insua
Diretor Executivo, MCG