quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

CONSELHO INDIGENISTA DE RORAIMA: BOLSONARO NÃO PODE IR CONTRA A CONSTITUIÇÃO

BOLSONARO REPETE: ISSO É IMPORTANTE PARA DAR SEGURANÇA JURÍDICA NO CAMPO. E ELE NÃO VÊ QUE AS AMEAÇAS QUE FAZ AOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS CAUSAM INSEGURANÇA JURÍDICA AOS POVOS INDÍGENAS? OU ELE ACHA QUE SÓ AS MINERADORAS E SENHORES DO AGRONEGÓCIO TÊM DIREITOS RECONHECIDOS? 

NO CASO DOS INDÍGENAS, VALE LEMBRAR, SÃO DIREITOS ORIGINÁRIOS, ISTO É ANTERIORES AOS DIREITOS DOS QUE CHEGARAM DEPOIS DELES NO GRANDE TERRITÓRIO DENOMINADO BRASIL. E AO RECONHECER QUE SÃO DIREITOS ORIGINÁRIOS, NINGUÉM, NEM O CONGRESSO NACIONAL, PODE MEXER NELES, MUDAR SEU CARÁTER... 


Raposa Serra do Sol é um direito originário e constitucional dos povos indígenas de Roraima e do Brasil

O Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena de defesa dos direitos e interesses dos povos indígenas, representando 237 comunidades indígenas, aproximadamente 50 mil indígenas dos povos Wapichana, Macuxi, Patamona, Taurepang, Inagricó, Sapará, Yanomami, Wai-Wai, Ye`kuana, criada na década de 70 e de relevância local, regional, nacional e internacional, reafirma que a homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, em área contínua, é um direito originário e constitucional dos povos indígenas de Roraima e do Brasil, consagrado na Constituição Federal Brasileira de 1988.
Depois de um histórico de 32 anos de luta pela demarcação e homologação, um processo marcado por ameaças, destruições, violência e até mortes de indígenas, atos ainda impunes pela justiça brasileira, a terra indígena Raposa Serra do Sol, finalmente, foi reconhecida pelo Estado brasileiro através do Decreto homologatório de 15 de abril de 2005 e reafirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2009, como terra indígena originária pertencente aos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingaricó. Um reconhecimento não só aos povos indígenas de Roraima, mas do Brasil que ao longo dos séculos sofrem com invasões dos seus territórios tradicionais indígenas.
No próximo ano, 2019, a decisão completará 10 anos, razões em que os povos indígenas já organizam a celebração dos resultados ao longo desses anos, tais como a expansão da pecuária na região, chegando a 40 mil bovinos, conforme últimos dados da Agência de Defesa Agropecuária do Estado de Roraima (ADERR), a construção de Centros Regionais que subsidiam as ações de fortalecimento de desenvolvimento sustentável das comunidades indígenas, principalmente, o da produção agrícola que a cada ano cresce nas regiões, assim como as alternativas de geração de energia eólica, um projeto que aguarda recursos para ser consolidado, além de celebrar a identidade cultural, danças, cantos, pinturas, línguas e outras expressões culturais, fonte de vida e riqueza milenar dos povos indígenas.
Com base no processo histórico de demarcação e homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, um ato já efetivado pela Suprema Corte do país, é inadmissível que o caso ainda seja principal pauta do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), cuja única justificativa é o “desenvolvimento do estado de Roraima e do Brasil”, “exploração dos recursos naturais” e outras declarações absurdas que só contribui para a disseminação de preconceito, discriminação e ódio contra os povos indígenas.
Diante desta recente declaração, “intenção de rever a reserva Raposa Serra do Sol”, publicado hoje, 17/12, na imprensa nacional, uma declaração que afronta decisão do STF, o CIR também reafirma que Raposa Serra do Sol, não é uma “reserva”, e sim, uma terra indígena. É retrógrado achar que indígena em sua terra demarcada, não é integrado à sociedade. Pelo contrário, será indígena em qualquer contexto social, cultural e político do país.
Os povos indígenas de Roraima são pioneiros na formação específica. São professores, agentes indígenas de saúde, operadores indígenas em direito, agentes territoriais e ambientais e outros profissionais indígenas, a maior parte concentrados na terra indígena Raposa Serra do Sol, além de possuir uma escola específica e diferenciada, o Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFRSS), um campo de formação indígena na área da agropecuária, manejo ambiental e sustentável.
Por outro lado, cabe lembrar também e levar ao conhecimento do atual presidente, que o estado de Roraima novamente está no cenário nacional, como um dos Estados mais corruptos da federação brasileira, onde agentes públicos estão sendo presos acusados de desvio de recurso público bilionário. Um cenário que se alastra por todo o país, inclusive no próprio Executivo, onde os escândalos de corrupção e ilegalidades também tomam conta do cenário.
Se o atual presidente está realmente preocupado com o desenvolvimento de Roraima e do Brasil, precisa dar atenção às ações legislativas e executivas que há décadas vem deixando a população a mercê das injustiças e das ilegalidades. Ou seja, as alternativas para o desenvolvimento do Estado não estão na exploração mineral, construção de hidrelétrica, muito menos no arrendamento de terra, como tem sido dito por ele e políticos aliados, mas em uma gestão compromissada e justa com os anseios da população de Roraima e do Brasil.
Por fim, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena séria e comprometida com os povos indígenas de Roraima também não se intimidará com interpretações falsas e caluniosas vindo de setores anti-indígenas que tentam acabar como uma atuação que completará 50 anos em 2020.
Boa Vista, 17 de dezembro de 2018.
Conselho Indígena de Roraima – CIR
http://www.cir.org.br/site/?p=971 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

CLIMA: QUEM LEVARÁ A SÉRIO AS NOVAS REGRAS?



COP24 entrega regras claras, mas países precisam querer jogar

Nota do Observatório do Clima sobre os resultados da conferência de Katowice

KATOWICE, 16 DE DEZEMBRO DE 2018 -  A COP24, a conferência do clima de Katowice, adotou na noite deste sábado (15) uma de suas principais encomendas: um manual de instruções para os países botarem em prática o Acordo de Paris. Do ponto de vista do clima, porém, Katowice fracassou. Seu resultado deixou de capturar de forma adequada o senso de urgência comunicado claramente pela ciência sobre a ação contra o caos climático. Além disso, deixou nas mãos dos países qualquer decisão sobre o que fazer com essa informação. Regras claras, afinal, só funcionam se houver gente disposta a entrar em campo para jogar.
Com poucas exceções relevantes, os principais pontos da operacionalização do tratado do clima foram detalhados num conjunto de regulamentações. Katowice entregou o chamado mecanismo de transparência, que detalha como medir de forma comum os esforços nacionais, e regras sobre como atualizar as metas de cada país em ciclos de cinco anos. Também ficou marcada para 2020 a definição sobre a nova meta de financiamento climático – num reconhecimento de que os US$ 100 bilhões anuais prometidos para o período entre 2020 e 2025, para custear as ações nos países em desenvolvimento, são bem menos do que precisam as nações mais pobres e mais vulneráveis.
Mas o tratamento dado pela COP24 a um dos elementos mais críticos do Acordo, a ambição, foi altamente frustrante. Katowice teve seu início com a apresentação aos delegados do chocante SR15, o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) segundo o qual a humanidade tem apenas mais 12 anos para cortar emissões em 45% se quiser cumprir a meta de Paris de limitar o esquentamento da Terra a 1,5ºC neste século, e evitar consequências muito mais graves para pessoas, ecossistemas e a economia global.
O relatório fora encomendado pela própria COP em Paris, em 2015, mas nem todo mundo gostou da mensagem, especialmente os EUA e a Arábia Saudita. O texto final de Katowice, em vez de incorporar o SR15 como guia para o aumento da ambição, limita-se a “convidar” os países a fazer o que bem entenderem o recado do IPCC. O texto de Katowice também faz um aceno tímido aos resultados do chamado Diálogo Talanoa – a primeira rodada global, aberta, de conversas sobre soluções para a crise climática – ao também convidar os países a refletir sobre os subsídios de mais de 400 diálogos realizados ao redor do mundo.
Com esse resultado, caberá unicamente aos países decidir quando e se aumentarão sua ambição coletiva na janela estreita de oportunidade que existe entre agora e 2030 para não perder a meta de 1,5oC. Isso cria um risco para a meta. “Paris definiu um pacto para limitar o aquecimento global e para lidarmos com suas consequências. Katowice forneceu as balizas e os insumos para tirar o acordo do papel. Mas só a vontade política pode imprimir velocidade à ação climática no grau necessário”, diz Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. “O problema é que vontade política para fazer mais do que o que os países definiram em 2015 vem se mostrando um recurso escasso, só encontrado entre países pequenos e muito vulneráveis, e não entre aqueles que precisam liderar o processo, aqueles que emitiram e emitem a maior parte dos gases de efeito estufa”, continua.
Os negociadores brasileiros na Polônia, talvez a última delegação do país ainda comprometida com o processo multilateral da Convenção do Clima em muito tempo, agiram no geral de forma construtiva. Mas causaram o adiamento do final da COP por 24 horas ao tentar garantir, por motivos que não convenceram a ninguém, regras mais frouxas para a compra e venda de créditos de carbono. Caso prevalecesse a posição brasileira, havia o risco de, em determinados casos, tanto o comprador quanto o vendedor dos créditos poderem abater aquelas emissões da própria meta. O assunto, complexo e altamente polêmico, acabou tendo sua solução adiada para o ano que vem. Enquanto isso, as regras de Katowice proibiram explicitamente essa dupla contagem.
Diferentemente da delegação na COP, o governo eleito do Brasil fez papelões em série em Katowice. Ameaças ao meio ambiente e a quem cuida do meio ambiente já preocupavam a todos, uma vez que o Brasil provou ao mundo que era possível crescer economicamente e reduzir as emissões e a taxa de destruição florestal, servindo de modelo para vários outros países em desenvolvimento. Quando a COP começou, alguns dos assuntos mais comentados nos corredores da conferência eram a desistência do Brasil em sediar a COP25, em 2019, as ameaças do futuro presidente de tirar o país do pacto global pelo clima, usando argumentos completamente inconsistentes, e o convite a dois negacionistas para compor o seu gabinete, os futuros ministros de meio ambiente e de relações exteriores. A imagem do Brasil junto a parceiros climáticos e comerciais saiu mais suja que a fumaça das termelétricas a carvão de Katowice.
“O novo governo terá diante de si uma responsabilidade na agenda de clima. Retrocesso na agenda global ou doméstica de mudanças climáticas só contribui para piorar a situação dos brasileiros, que já pagam um preço altíssimo por um clima cada vez mais hostil. Nos últimos quatro anos, quase metade de nossas cidades sofreram com secas severas, enquanto mais de 30% tiveram graves alagamentos”, diz Rittl. “Além disso, o agronegócio que patrocinou sua campanha e que fez os ministros de Agricultura e Meio Ambiente, corre um sério risco de perder mercados se no rastro de suas commodities houver mais desmatamento, emissões ou desrespeito a direitos de povos indígenas”, concluiu.
Na abertura da COP24, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que os países que não entrarem na economia verde terão um futuro cinzento. O presidente Jair Bolsonaro faria bem em escutar a mensagem.



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FELICIDADES, PARA FRANCISCO!

MEUS VOTOS DE VIDA FELIZ AO PAPA FRANCISCO SE JUNTAM A TODAS E TODOS QUE TEIMAMOS, COM FORTE ESPERANÇA, NO CAMINHA DA CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES DE BEM VIVER.

Felicidades, Santidad
Felicidades, Papa Francisco, porque te haces querer y te queremos Felicidades, porque al mundo "nacióle un sol"
(José M. Vidal).- ¡Felicidades, Papa Francisco, obispo de Roma, Papa bueno, Papa de la primavera, Papa de los pobres, Papa jesuita-franciscano, Papa del aggioarnamento, Papa de la ternura y de la misericordia!

Felicidades por ser como eres
Por tu sonrisa
Por el don de tu palabra
Por tu coherencia vital
Por transmitir Evangelio
Por exhalar esperanza

Felicidades por tu forma de querer
Por tu manera de abrazar
Por la compasión que contagias
Por tu predilección por los enfermos
Por dedicar más tiempo a los "pequeños" que a los "grandes" de este mundo

Felicidades por lo que dices
Y por cómo lo dices
Por tus gestos tan expresivos
Por las imágenes con que renuevas nuestra fe
Por tu forma fresca y natural de relacionarte
Por ser el Papa de la normalidad

Felicidades por la ilusión que nos has vuelto a dar
Por el tsunami de esperanza
Por la oleada de entusiasmo
Por la capacidad de seducción que desprendes



Felicidades por esa Iglesia que quieres casa abierta y no aduana
Por recordarnos que seguir a Cristo da sentido a la vida
Y que el Reino está por encima de la Iglesia
Y que los obispos no pueden ser príncipes, sino servidores
Y que los curas tienen que oler a oveja
Y que los cristianos tenemos que sonreir siempre

Felicidades por el vuelco que estás dando a las anquilosadas estructuras eclesiales
Por descongelar el Concilio
Por recuperar la corresponsabilidad y la sinodalidad
Por poner el Evangelio antes que la doctrina
Por hacer ver a los curiales que no son señores, sino siervos
Por limpiar el Banco vaticano
Por reivindicar el papel de la mujer
Por acabar con el miedo de los teólogos
Y con el rigorismo doctrinal

Felicidades por tu forma de vivir el ecumenismo y el diálogo interreligioso
Por poner al capitalismo deshumanizador en su sitio
Por colocar a la persona (especialmente a los más pobres) en el centro del sistema
Por exponerte a la ira de los poderosos de este mundo
Porque ya te llaman "marxista" y populista
Porque ya te tienen miedo
Porque los pobres tienen un abogado defensor

Felicidades porque no te tiembla el pulso
Porque sientes lo que dices y dices lo que sientes
Porque encarnas el Evangelio de la bondad
Porque dices las verdades del barquero
Porque no te arrugas ante nadie
Porque hueles a profeta

Felicidades porque nos arrastras al seguimiento de Jesús
Porque esponjas nuestro corazón
Porque haces que nos sintamos orgullosos de Cristo y de una Iglesia renacida

Felicidades, Papa Francisco, porque te haces querer y te queremos

Felicidades, porque al mundo "nacióle un sol"

https://www.periodistadigital.com/religion/vaticano/2018/12/17/felicidades-papa-francisco-iglesia-religion-dios-jesus-papa-vaticano.shtml 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

DEL MONTE CONDENADA POR MORTE DE TRABALHADOR POR CONTAMINAÇÃO

ISSO PRECISA SE MULTIPLICAR, COM CONDENAÇÕES DE EMPRESAS EM TODAS AS REGIÕES. TOMARA QUE MAIS PESSOAS PROCESSEM A DEL MONT.

QUANDO E COMO NOS LIVRAREMOS DOS VENENOS E DOS ENVENENADORES?

Reportagem
Multinacional é condenada por morte de trabalhador por agrotóxicos em fazenda de abacaxis

Em decisão inédita, viúva ganhou processo contra empresa norte-americana. Há dez anos, seu marido foi contaminado em fazenda da Del Monte no Ceará. Ela ainda não recebeu a indenização

13 de dezembro de 2018

Ana Aranha, Agência Pública/Repórter Brasil

Gerlene Silva dos Santos escolhe as menores frutas quando vai ao mercado em Limoeiro do Norte, Ceará. Quanto mais imperfeita, melhor. Os abacaxis agigantados, desses que chamam a atenção dos outros clientes, lhe trazem a memória do “olhar amarelado” do marido. Foi o primeiro de uma série de sintomas que tiraram a vida dele um mês depois ser internado no hospital universitário de Fortaleza, em novembro de 2008.
Lunaé Parracho/ Repórter Brasil
Gerlene perdeu o marido há dez anos e ainda não recebeu indenização. Ele trabalhava com agrotóxicos dentro da multinacional Del Monte

Segundo laudo médico, a causa da morte de Vanderlei Matos da Silva foi “hepatopatia grave de provável etiologia induzida por substâncias tóxicas”. “Traduzindo: “doença do fígado gerada por substâncias químicas”, explica Ada Pontes Aguiar, médica da Universidade Federal do Ceará que participou das investigações sobre a morte.

Vanderlei trabalhava com os agrotóxicos da multinacional norte-americana Del Monte Fresh Produce. A maior vendedora de abacaxis do mundo. Por mais de três anos, foi o responsável por estocar, pesar e transportar esses produtos dentro da fazenda da empresa, na região rural de Limoeiro do Norte, no Ceará.
As frutas cultivadas na Chapada do Apodi são vendidas em cidades de todo o Brasil, provavelmente já passaram pela sua mesa
As empresas que se instalaram na região são grandes exportadoras, algumas delas são as maiores produtoras de frutas do mundo

Dez anos depois, Gerlene ainda se abala ao narrar os sintomas de falência do corpo do marido. Sua respiração fica curta, as mãos tremem. Seu filho, hoje com 11 anos, não esconde a ansiedade. Faz mímicas para a mãe encerrar a entrevista, reclama de dor de cabeça.

Mas detalhar o quadro clínico de Vanderlei foi o que fez a história dele virar um marco. “O caso é icônico, foi a primeira vez que se conseguiu mostrar evidência científica, dentro de um processo judicial, ligando o agrotóxico ao desenvolvimento da doença que levou a morte de trabalhador”, afirma Ranielle Carolina de Sousa, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás, onde faz pesquisa de doutorado sobre a atuação do judiciário em conflitos envolvendo agrotóxicos.
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Agrotóxicos proibidos na Europa são campeões de vendas no Brasil

Com estudos indicando grave risco à saúde, Brasil usa agrotóxicos que foram proibidos na Europa. As empresas que vendem os químicos aqui são dos mesmos países que baniram as substâncias em seus territórios

Ao contrário de quando o trabalhador passa mal depois de uma contaminação intensa, são raros os casos em que a medicina demonstra o efeito do contato prolongado. A falta de produção científica é um dos grandes gargalos nessa área no Brasil, deixando milhares de trabalhadores rurais expostos a um impacto desconhecido.

Sousa explica que as pesquisas são produzidas a pedido da empresa interessada em usar a substância: um estudo que avalia os riscos da intoxicação. Mas esse estudo é feito em ambiente controlado, com apenas um ingrediente, cenário bem diferente da rotina nas fazendas.

Como funcionário do almoxarifado, Vanderlei tinha contato diário com diversos químicos. Eram 13 os agrotóxicos usados nessa fazenda em 2006, um ano antes da sua morte, quando a Del Monte entregou a lista à secretaria estadual do meio ambiente. “Ou seja, ele estava em contato com uma composição múltipla de agrotóxicos, não há estudo que preveja isso”, afirma Sousa. “Vanderlei é prova que essas pesquisas não dão conta da realidade”.

Foi justamente esse o ponto explorado pela Del Monte, que entrou com dois recursos na Justiça do Trabalho para negar a sua responsabilidade sobre a morte do trabalhador. O principal ponto da defesa era o argumento de que não havia evidência científica provando a relação de causa e efeito entre a doença de Vanderlei e sua atividade na empresa. Procurada diversas vezes pela reportagem, por email e telefone, a empresa optou por não responder as perguntas enviadas.
Investigação inédita

Para chegar ao laudo que levou à condenação da Del Monte, a equipe médica teve de descartar todas as outras possíveis causas para a falência do seu fígado. Foi um diagnóstico por exclusão. “Vanderlei era jovem, saudável e não bebia. Não havia outra explicação”, afirma a médica Aguiar. “Todos os outros diagnósticos foram descartados, só sobrou o agrotóxico”.

Para chegar à inédita sentença, que reconheceu a “existência do nexo causal entre a atividade exercida pelo obreiro e a patologia que causou sua morte”, foi preciso produzir uma ampla investigação médica. A equipe levantou o histórico de Vanderlei, seus hábitos pessoais e práticas no trabalho. Além de recuperar os exames e os diagnósticos que ele recebeu durante a internação.
Lunaé Parracho/ Repórter Brasil
Moradores das comunidades rurais esperam caminhão pipa com água de poços profundos das empresas, água que sai da torneira não é segura

Dificilmente a família de um trabalhador rural consegue mobilizar tantos esforços. O levantamento só foi possível porque, além de ser internado em um hospital universitário, Vanderlei passou a ser monitorado pelo núcleo Tramas, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará que se dedica a estudar os impactos dos agrotóxicos na região. O núcleo foi criado um ano antes da morte de Vanderlei, em 2006.

Quando ele adoeceu, havia uma equipe pesquisando justamente a contaminação dos trabalhadores no cultivo do abacaxi na região. A pesquisa colheu exames de funcionários das grandes empresas e visitou as instalações da Del Monte. Do total de pesquisados, 48% apresentaram alterações hepáticas. Ou seja, quase a metade dos exames de sangue dos trabalhadores indicaram alguma anormalidade para as funções do fígado.

Desde então, foram vários os estudos que apontaram para a contaminação dos trabalhadores do local, assim como do ar e das águas que abastecem a região. Em 2009, o órgão estadual de gestão de recursos hídricos encontrou agrotóxicos em 60% das amostras. No ano seguinte, pesquisa da universidade federal encontrou químicos em 100% das amostras colhidas, cada uma delas com de 3 a 10 ingredientes ativos diferentes.

Hoje, quem pode, compra água mineral. Não só nas comunidades rurais que rodeiam as plantações, mas também na cidade de Limoeiro do Norte. “Não tome água na casa das pessoas”, foi uma das tristes recomendações que ouvimos ao visitar o local.

Como muitos, Gerlene conhece os riscos de beber da torneira – ela tem apenas um filtro em casa, mas que não dá conta dos agrotóxicos. A viúva não pode comprar água mineral todos os dias. “É colocar na mão de Deus e beber a água que tem, que a gente não vai morrer de sede. Nem de fome”, ela diz, lembrando que gostaria de poder comprar alimentos sem agrotóxicos para o seu filho.
Placas alertam para a contaminação da água que fica na reserva que abastece as comunidades rurais
Em Limoeiro do Norte, são muitas as lojas que vendem e entregam água mineral. Quem pode compra

Devido aos anos em que conviveu com o marido, Gerlene desenvolveu uma rara consciência crítica sobre os riscos dos alimentos “mais perfeitos”. Como todos os funcionários da empresa, as vezes Vanderlei ganhava as frutas cultivadas ali. Levava para casa, mas não deixava a esposa comer, muito menos o filho de um ano. Preferia que a fruta fosse jogada fora. “Só eu sei o que tem aí dentro”, lembra a viúva sobre a resposta do marido quando ela questionava porque desperdiçar um abacaxi tão bonito. “Era grande, bem grande mesmo”, ela ressalta, braços estendidos para desenhar o tamanho da fruta.

Por isso, hoje a viúva prefere escolher as menores frutas no mercado – sob protestos do filho. Ela não pode investir na compra de produtos orgânicos. Embora tenha ganhado o caso na justiça, Gerlene ainda não recebeu a indenização da Del Monte.
Do sertão para o mundo

Cravada no sertão do Ceará, a Chapada do Apodi tem solo generoso em nutrientes. A riqueza local, somada a um farto programa de isenções fiscais e à construção de um canal de irrigação, foram os fatores que atraíram grandes exportadoras ao local, entre elas a norte-americana Del Monte.

É muito provável que as frutas plantadas no local já tenham passado pela sua mesa, pois são enviadas para mercados de diversas cidades do país. As maiores e mais perfeitas vão para a Europa e Estados Unidos.
Lunaé Parracho/ Repórter Brasil
Fruta do conde seca no pé, região sofre com a falta de chuvas há sete anos

Em seu site, a multinacional apresenta o portfólio: são 15 fazendas e sete mil trabalhadores produzindo frutas e legumes para consumo em mais de 100 países. Mas a logística não funcionou para amparar a família do funcionário doente, que teve de ser internado na capital. Com o marido a 5 horas de distância, Gerlene tinha que se adaptar às caronas da empresa. “Eles levavam na hora que tinha alguém indo fazer serviço em Fortaleza”, ela diz.

Ainda amamentando o filho, e sem saber que perderia Vanderlei tão rápido, foram poucas as vezes que ela conseguiu se encaixar no esquema. Um detalhe na logística da multinacional, um arrependimento para a vida da viúva.

O número de empregos criados na região também foi explorado pela defesa da Del Monte no processo movido por Gerlene. “É um argumento que não tem nada a ver com a questão”, afirma Francisco Cláudio Silva, advogado do caso. “Na minha visão, é quase uma chantagem com a sociedade. Como se uma coisa justificasse a outra”.

O argumento parece “tosco”, nas palavras do advogado, mas pode surtir efeito. Embora veneno seja o nome popular para agrotóxicos na região, o assunto é tabu. Tanto na cidade de Limoeiro do Norte quanto nas comunidades rurais, as portas se fecham quando se introduz o tema. A reportagem conversou com diversos trabalhadores e familiares, que abrem a porta e falam sobre diversos temas, mas fecham o semblante quando o assunto é agrotóxicos.
Na comunidade de Tomé, os trabalhadores têm medo de falar sobre agrotóxicos. As empresas estão cortando postos
A água que abastece as comunidades vem por canais que passam dentro das fazendas, onde ocorre a contaminação por agrotóxicos

Vivendo um período de seca há sete anos, as empresas de fruticultura estão cortando postos. Quem já foi demitido teme nunca mais conseguir uma vaga. Quem está empregado não quer estar no lugar do demitido. Não é um bom momento para reivindicações.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

https://apublica.org/2018/12/multinacional-e-condenada-por-morte-de-trabalhador-por-agrotoxicos-em-fazenda-de-abacaxis/

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

ANÁLISE DA CONJUNTRA: NOVO ENSAIO


IHU - 13 de dezembro de 2018

Pedro de Oliveira

"O pensamento de direita conquistou espaço na sociedade com importante contribuição das religiões cristãs de vertente fundamentalista (incluída a católico-romana). Em sua versão vulgar ele traz o criacionismo, justifica o racismo e o patriarcado e outros sistemas de exclusão; em sua versão erudita ele justifica a liberdade individual como fundamento da lei natural que não pode ser mudada pelo Estado. Na versão teológica ele separa corpo e alma e se volta unicamente pela salvação desta (por meio de rituais), deixando as realidades materiais sob o domínio do mercado."

A análise é de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, ex-professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

Eis o artigo.

Nota prévia

Análise de conjuntura não é o mesmo que análise dos acontecimentos, porque supõe o prévio conhecimento – sempre hipotético – da estrutura que fornece a lógica dos processos históricos. Sem uma definição do que é estrutural, não é possível avaliar o impacto dos acontecimentos nas bases de um conjunto social. Por isso a análise de conjuntura deve situar os fatos (visíveis) no plano das estruturas (invisíveis). É o que tento fazer aqui, para decifrar o sentido profundo dos resultados das eleições deste ano.

Distingo três planos estruturais: o sistema de vida da Terra, o sistema-mundo com seu modo de produção e consumo capitalista, e o sistema (social, político, cultural e econômico) brasileiro. É claro que nos interessa especificamente o último sistema, mas não podemos esquecer que ele está subordinadamente integrado nos dois outros. Por isso, farei breve menção das mudanças conjunturais em cada um deles. Na conclusão indico algumas implicações práticas para quem se identifica com as lutas das classes trabalhadoras, dos povos originários e dos grupos socialmente discriminados.

1. O sistema de vida Terra

Tornaram-se frequentes os sinais de mudanças estruturais no sistema Terra. Ao abrir a reunião da COP-24, em Katowice, Polônia, disse o secretário-geral da ONU: “Estamos em apuros. Estamos em grandes apuros com as mudanças climáticas”. Porque ele tem uma visão global, sabe avaliar o significado de uma catástrofe climático-ambiental. E sabe que ela poderá acontecer ainda antes de 2050, caso não sejam tomadas as medidas recomendadas pela comunidade científica internacional – medidas que as megacorporações não aceitam porque prejudicam seus lucros. A situação se agrava porque os Estados nacionais dão mais prioridade aos lucros das empresas do que ao equilíbrio climático e ecológico. O caso do presidente dos EUA é emblemático, mas muitos outros governantes se submetem às megacorporações embora se declarem defensores do meio ambiente.

Ainda não nos habituamos a entender a questão ambiental como uma questão política, e isso reduz muito nosso campo de visão. É preciso ampliar nossas categorias de pensamento para incluir a Terra – ou, pelo menos, sua comunidade de vida – como sujeito da história, e não mais como coisa. Ela está sofrendo e esse sofrimento atinge a espécie humana, embora as categorias científicas de que disponho não consigam desvendar essa conexão. Tudo se passa como se espécie homo sapiens esteja a pressentir sua extinção e por isso dá vazão a comportamentos irracionais como ódio aos semelhantes, voracidade do consumo, aceitação da pós-verdade, refúgio no mundo virtual e outras práticas que destroem a tessitura social. No polo oposto, esse mesmo pressentimento favorece a emergência de uma outra consciência na relação com a Terra, a qual começa a ser percebida como sujeito de direitos e ser vivo do qual a espécie humana faz parte. Essa consciência se expressou na Carta da Terra, publicada em 2000 e desde então tem se expandido por toda parte, inclusive recuperando concepções ancestrais de povos originários como o Sumak Kawsay (Bem-Viver).

Atenção: Essa realidade de âmbito planetário precisa ser seriamente considerada não só porque ela pode ajudar a explicar fenômenos aparentemente absurdos, como porque ainda é possível ao menos amenizar a catástrofe ambiental que se anuncia. No mínimo, ela precisa ser considerada como um obstáculo intransponível ao crescimento econômico de médio e longo prazo. Isso inclui o projeto chinês da nova rota da seda, que prevê investimento de US$5 trilhões até 2049, poderá fracassar se desconsiderar os estragos advindos da catástrofe ambiental.

2. O sistema-mundo do capitalismo

Seu polo dinâmico está passando dos EUA para a China (ou Chíndia?) e essa transição é marcada pela (1) financeirização do capital e (2) clima de guerra. A crise de 2008 ainda não terminou e a situação econômica mundial continuará conturbada enquanto o dólar US for a moeda das transações internacionais. Esse conflito econômico entre as potências emergentes e as decadentes já adquiriu a forma de guerra: atualmente são guerras localizadas, étnicas, contra drogas ou terrorismo, mas podem tornar-se guerra direta entre as grandes potências. A China provavelmente será vencedora e modelará outra forma de capitalismo – a economia verde – conquistando a hegemonia mundial no século 21.
Nesse contexto, o Brasil do novo governo se alinhará subservientemente com o provável perdedor (EUA).

Atenção: Essa inserção do Brasil como parceiro subalterno dos EUA decorre da crise de 2008: a classe dominante rompeu o pacto de não-agressão oferecido pelo PT e trocou o projeto desenvolvimentista dos governos Lula e Dilma pela política de Temer e Bolsonaro de subordinação ao governo dos EUA. Ela é determinante na explicação do golpe de 2016 e da vitória eleitoral da direita. Por sua posição geopolítica e econômica, o Brasil é um país chave na América do Sul, onde só falta dobrar a Bolívia e a Venezuela aos interesses estadunidenses.

3. O sistema Brasil

O resultado das eleições deixou evidente a mudança na correlação de forças entre as classes sociais. A classe dominante (composta por cerca de 40 mil famílias que se beneficiam da financeirização do capital, o que não impede de também controlar o processo produtivo) aproveitou-se do descontentamento popular manifestado em 2013 para romper o pacto de não-agressão proposto pelo PT de Lula (em nome das classes trabalhadoras). Desde então recorre à agressividade para eliminar – ou ao menos afastar do campo político – os grupos por meio dos quais as classes trabalhadoras e setores subalternos se expressam ou se organizam (como o PT e seus aliados, Movimentos como MST, MTST, Indígenas, negros, mulheres, LGBT e outros), ou que as apoiam (como setores de Igrejas, universidades, intelectualidade etc). Talvez caiba o rótulo de fascista a essa proposta por não ceder espaço à luta de classes dentro da institucionalidade democrática, mas visar a eliminação das classes trabalhadoras enquanto agente político.

Atenção: Essa mudança da conjuntura tem forte incidência estrutural porque afeta diretamente a correlação de forças da luta de classes. A classe dominante – com seus distintos setores (financeiro, agronegócio, minerador, industrial, comercial) – optou por submeter-se às grandes corporações transnacionais, abandonando o projeto nacional-desenvolvimentista proposto pelo PT em 2002 como base do pacto que baseou os governos petistas. Pelo menos temporariamente, a classe dominante conseguiu a adesão das classes médias e os votos da massa popular. Para isso conta com a habitual colaboração da mídia e o apoio das Igrejas neopentecostais e de setores conservadores das Igrejas Evangélicas e Católica. Embora seu ideário político-social dependa de pensadores do quilate de Olavo Carvalho, isso parece bastar para conquistar a adesão da grande massa de insatisfeitos com o sistema atual, que atiça o desejo de consumo mas não o satisfaz.

O resultado foi a derrota das classes trabalhadoras. Em três anos de luta suas forças foram exauridas. Mas não se acabaram.

(1) No campo político, contam ainda com uma bancada relativamente forte na Câmara (se for feito um bom arco de alianças, ela será suficiente para evitar aprovação de PECs), alguns senadores e governos estaduais.

(2) No campo social, os Movimentos Sociais organizados e os Povos Indígenas dão mostras de resiliência, bem como o que resta dos sindicatos.

(3) No campo do pensamento, a maior parte da população universitária resiste à proposta fascista; as CEBs e Pastorais sociais, bem como um número crescente de bispos católicos e pastores, embora minoritários, não deixam morrer o Cristianismo da Libertação; os e as artistas animam a resistência popular, e seria possível elencar ainda outras forças.

(4) No campo econômico as pequenas unidades de economia solidária e cooperativas populares sobrevivem, mesmo à margem da economia formal.

Conclusão: implicações práticas

1. Há um problema estratégico. Hoje chegam inúmeros apelos à resistência: resistir à prisão do Lula, aos ataques a Territórios indígenas e quilombolas e assentamentos de trabalhadores rurais, à política de privatizações, à reforma de previdência, à redução da maioridade penal, ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado, à escola sem partido, aos ataques a defensores e defensoras dos Direitos Humanos, à comunidade LGBT e tantas outras medidas que se anunciam. Não é possível, contudo, atuar em todas frentes de combate a que somos convocados e é muito triste abandonar companheiros nas mãos dos inimigos. A sabedoria reside em lidar com tantas frentes, reunir forças e fazer um trabalho bem articulado e formativo. Essa sabedoria é importantíssima nos dias de hoje. Para isso, há que restaurar as forças.

2. Restaurar as forças é fundamental. É preciso buscar refúgio onde se possa trocar ideias, rever serenamente os próprios erros e acertos sem acusar terceiros. Esse retiro não é perda de tempo. É fazer um recuo estratégico, onde seja possível fazer o processo de formação política e tecer novos laços de solidariedade. Embora esse recuo possa deixar espaço para o avanço das hordas adversárias, suas desavenças internas (que já são evidentes) tendem a desgasta-las em pouco tempo. Assim, ao voltar à luta seremos muito mais fortes do que hoje (e elas mais fracas).

É claro que há demandas tão graves ou urgentes que nos obrigam a sair do retiro e retornar ao confronto direto. Mas nesse caso o lado mais fraco só tem chance de vitória se estiver na defensiva. Sabe-se que as forças de quem se defende se multiplicam por dez, desde que sua defesa seja sólida e não se aventure à luta em campo aberto. Talvez seja o caso da reforma da Previdência, de privatizações que violem a Constituição, a proteção a defensores dos Direitos Humanos e a preservação da Amazônia (que tem forte apoio internacional).

3. Voltar às bases é dedicar-se ao trabalho direto, pessoal, para fazer conscientização e organização. Bases são os grupos de solidariedade pessoal (família, vizinhança, igreja, de amizade, de trabalho, associação por afinidade e outros) onde as relações pessoais se revestem de laços afetivos (e não necessariamente grupos populares). A esses grupos devemos nos voltar, agora, cada qual para aquele/s onde é bem recebido ou recebida, sempre dando prioridade aos grupos formados por gente pobre, vulnerável ou jovem. Trata-se de ir a essas bases para retomar o trabalho de educação política, isto é, de conscientização e de organização, sabendo que ele exige capacitação e que leva tempo.
4. Exercer (ou reconquistar) a hegemonia intelectual e cultural é a missão dos e das intelectuais vinculadas/os às classes trabalhadoras. Essa missão foi bem desempenhada ao longo do século 20, quando os valores democráticos, igualitários e libertários se difundiram por todo Ocidente) deixando envergonhadas as pessoas que dele divergiam (tradicionalistas, racistas etc). A vitória do capitalismo na guerra fria, porém, favoreceu o pensamento de direita, que propõe a desigualdade como fator de progresso, e vê nas elites o resultado da ordem natural.

Esse pensamento de direita conquistou espaço na sociedade com importante contribuição das religiões cristãs de vertente fundamentalista (incluída a católico-romana). Em sua versão vulgar ele traz o criacionismo, justifica o racismo e o patriarcado e outros sistemas de exclusão; em sua versão erudita ele justifica a liberdade individual como fundamento da lei natural que não pode ser mudada pelo Estado. Na versão teológica ele separa corpo e alma e se volta unicamente pela salvação desta (por meio de rituais), deixando as realidades materiais sob o domínio do mercado. Esse pensamento se difunde como defesa da família, da vida e dos valores tradicionais ameaçados pelo marxismo cultural que é apontado como o grande inimigo da civilização ocidental cristã: não tendo conseguido derrota-la pela economia (fim do socialismo soviético), quer derrota-la destruindo as bases morais da família.

Embora esse pensamento tenha uma argumentação rasa e mal fundamentada, ganha adeptos recorrendo às emoções: medo do diferente, medo da liberdade feminina, busca de segurança no passado idealizado, orgulho de ser pobre mas honrado etc. Após sua aparente derrota para a modernidade, ele volta à tona de forma agressiva atacando quem defende um pensamento libertador ou libertário.

Contra ele três medidas são recomendadas: (1) não repassar as mensagens que falam de seus avanços e abusos, (2) não se curvar diante das intimidações e ameaças, mas seguir em frente, e (3) sempre que possível rebater os argumentos e esclarecer as ideias, mas ignorar os ataques pessoais.

http://www.ihu.unisinos.br/585464-analise-de-conjuntura-novo-ensaio

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

PADER AMARO: MARCADO PARA MORRER


Marcado para morrer, Padre Amaro resiste na luta pelo direito à terra no Pará

Religioso passou mais de 90 dias preso após perseguição de fazendeiros e madeireiros

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Padre Amaro apoia a luta pela preservação das florestas e do uso sustentável da terra / CPT
No Brasil, um homem está marcado para morrer porque acredita nos ideais de igualdade, amor e respeito entre as pessoas. Por esses motivos, Padre Amaro ficou preso mais de 90 dias e vive sob ameaça de assassinato na região de Anapu, no Pará, no médio Xingu, região Norte do Brasil.
Padre José Amaro Lopes de Souza é um religioso que defende a divisão das terras para a agricultura familiar e a preservação das florestas como um contraponto ao processo exploratório dos grandes latifúndios de plantação de soja e de pasto para o gado, produzindo apenas para a exportação e o aumento das fortunas dos fazendeiros, como explica o próprio Padre.
Desde meados dos anos 1990, quando conheceu a missionária americana Dorothy Stang, uma das principais lideranças da luta pela terra para os camponeses e a preservação da floresta, padre Amaro atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em um conflito constante com fazendeiros e madeireiros. Dorothy, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2005 aos 73 anos com seis tiros disparados por pistoleiros contratados por fazendeiros da região. Sua cabeça valia R$ 50 mil na época; a de Amaro R$ 25 mil.
Em 2018, padre Amaro foi acusado e preso num processo considerado controverso. A denúncia contra o padre foi feita por fazendeiros da região, e é considerada por muitos uma perseguição política para impedir a luta pela reforma agrária no município em que atua. Padre Amaro foi declarado inimigo de fazendeiros e madeireiros por ser uma das maiores liderança na luta pela terra em Anapu.
O religioso ficou em uma pequena cela no presídio de Altamira, entre 27 de março e 29 de julho. Mesmo atrás das grades, as ameaças continuaram e, segundo o padre, os latifundiários estavam esperando o pretexto de uma rebelião na cadeia para encomendar a sua morte.
Neste período, dois habeas corpus foram negados pela Justiça do Estado e o religioso só foi solto, como medida provisória, quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto estava preso, padre Amaro viu em uma pequena televisão as notícias da prisão do ex-presidente Lula, no dia 7 de abril, também sem provas. “Eu chorei. Eu sabia que era uma liderança popular sendo presa, dentro do esquema do golpe, para que não pudesse concorrer às eleições presidenciais”, relembra o padre.
Nos 13 anos entre a morte da missionária e a prisão do padre sem provas, o conflito por terra no Pará agravou. “A ordem é limpar tudo. Queimar e passar por cima de tudo, plantação, escola e pessoas”, disse.
Neste cenário, que tem a tendência de piorar com a ultra-direita no governo federal, padre Amaro ensina que é o momento de se unir nas lutas populares e resistir.
Padre Amaro esteve em São Paulo no dia 5 de dezembro para receber um prêmio da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, pela sua luta em defesa das comunidades camponesas, e falou com o Brasil de Fato. No evento, foi lançado o livro Direitos Humanos no Brasil 2018.  A vereadora Marielle Franco, assassinada no início do ano e cujo crime ainda não foi solucionado, também foi homenageada.
Brasil de Fato: Qual é a origem da disputa pela terra no Pará?
Padre Amaro: As terras são terras públicas da União. No processo de colonização da Transamazônica, foi criada uma área de PIC [Projetos Integrados de Colonização] que abrange seis quilômetros a partir da faixa onde iriam viver os trabalhadores. Depois iriam ser separadas as grandes áreas. Foram feitas licitações e se, em cinco anos, o licitante não cumprisse o contrato, as terras voltariam para a União. Foi o que aconteceu.
Muitos fazendeiros do Sul do país compraram essas terras, onde já tinha a ocupação de trabalhadores. Com os projetos de desenvolvimento da região, como Belo Monte, muitos trabalhadores foram para a região. Quando os fazendeiros chegaram, ele tiraram os trabalhadores a pontapés, matando e queimando.
Como é a dinâmica de trabalho dos agricultores que foram trabalhar na região e estavam lá antes dos fazendeiros?
Você tem lotes de dez alqueires e só pode desmatar 20%. Os 80% é da reserva [mata nativa]. Os pequenos agricultores preservam a floresta. Já os grandes fazendeiros consideram isso um atraso para o desenvolvimento da região. Porque o que eles querem é derrubar e jogar pasto para criar muito gado.
E para onde vai essa produção de carne de gado?
Para exportação. O pequeno produz o cacau, o milho, a mandioca, o arroz, a pimenta do reino. E algumas fazendas usam um pedacinho para criar uma vaca de leite. Ele tem aquela terra para trabalhar a vida toda. Já o grande [fazendeiro] quer aquela terra para explorar e não fica renda nenhuma ali no município. Vai toda para fora.
E como se dá a expulsão dos agricultores da terra?
Eles querem tirar e eles tiram. Para nós, no Norte, parece que é um Estado sem lei. A impunidade mata e desmata. Eles dizem que vão limpar a área. E para limpar a área vale tudo. Matando, queimando, derrubando casa. Mesmo se a ação está na Justiça, eles nem esperam a tramitação final e vão agindo pela força. Eles têm poder, contratam pistoleiros, têm dinheiro. Eles passam por cima do pequeno e da pequena como se fossem coisas que não existem.
Como é a atuação da CPT na região e quais as acusações contra vocês?
A Comissão Pastoral da Terra dá assessoria aos trabalhadores e trabalhadoras. A CPT tem advogados, a gente ensina, encaminha os agricultores para a Defensoria Pública ou o Ministério Público Federal. Com isso, eles [os fazendeiros] têm raiva. Eles dizem que a gente incita o que eles chamam de “invasão”, mas é ocupação de terras públicas.
Como era sua amizade com a missionária Dorothy Stang?
Conheci ela em 1989, em Belém. Ela convidou alguns jovens para fazer uma missão na área e nós fomos. O bispo aceitou a gente e começamos a trabalhar e a estudar em Belém. Em 1998, eu fui ordenado padre em Anapu (PA). Em dezembro de 1998, o bispo elevou para a categoria de paróquia e eu fiquei ali. Tive a graça de trabalhar com a Dorothy por 15 anos. Quando a conheci, ela já fazia parte da CPT.
E qual era a principal luta de Dorothy?
A luta dela é que com a técnica você pudesse trabalhar na área de uma forma sustentável. Para criar os filhos e netos em harmonia com a terra e a natureza. Como tudo estava sendo devorado [pelos fazendeiros], ela entrou com a criação de dois PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável), que ficaram conhecidos como PDS Virola-Jatobá e PDS Esperança. Isso gerou uma raiva no meio dos fazendeiros e alguns setores dos madeireiros. Para calar e acabar com os PDS, eles mataram a Dorothy. Criaram um consórcio e mandaram matar no dia 12 de fevereiro de 2005.

O assassinato da missionária teve a mesma motivação do plano de difamação contra o senhor e que acabou em prisão. Como foi isso?
Eu estava em casa. O padre Bento que estava vindo de outra cidade me pediu para ir buscá-lo no terminal. Levantei, deixei o portão aberto e fui para o terminal. Quando cheguei tinha seis viaturas atrás de mim. E falaram que tinha um mandado de prisão contra mim. Eu disse que queria ler antes lá na minha casa. Entrei no carro, não fui algemado, e lá disseram que queriam arma, dinheiro, celular e o computador do CPT. Eu li a acusação e tinha coisas terríveis. Foi rápido. Me trouxeram para Altamira e fizeram os procedimentos e me levaram para o centro de detenção. Fiquei 92 dias lá.
Como foi a sua soltura? Teve dois pedidos de habeas corpus negados?
As duas vezes que pediram para a Justiça do Estado negaram. Na terceira, que foi lá no Supremo, foi concedido.
No período em que o senhor estava preso no Pará também prenderam o ex-presidente  Lula. Como foi a sua reação?
A minha reação foi terrível. A gente sabe da inocência de Lula. Sabe que foi golpe. Prenderam ele para que não pudesse concorrer à Presidência, para que não pudesse fazer mais nada pelos pobres. O golpe primeiro foi contra a Dilma e depois contra ele. Na celazinha, tinha uma televisão, quando eu vi aquilo, não fiz outra coisa a não ser chorar. Mais um companheiro que estava sendo preso injustamente. Foi uma dor muito forte no meu coração.
A prisão injusta e essa perseguição contra o senhor gera uma sensação de medo na região?
Não só na região, mas a toda entidade que luta por terra e por direitos. Uma das acusações é que eu não faço outra coisa senão defender bandido. Mas são trabalhadores e trabalhadoras rurais. Se eu fiz algum mal, esse mal foi tentar colocar o alimento na boca do trabalhador e trabalhadora e ajudar ele a conquistar um pedacinho de terra.
Após o golpe de 2016, da luta pela terra ficou mais acirrada. Notou alguma mudança no Judiciário também?
A situação política mudou. Em algumas glebas o pessoal está lá há mais de 20 anos e que agora, depois do golpe e da eleição deste moço [Jair Bolsonaro] que vai assumir a presidência, já teve audiência preliminar, já teve vistoria e o juiz já marcou de ir lá de novo. A gente fica muito preocupado com isso. Lá já foi queimada escola. Impediram de chegar energia elétrica. Não deixaram fazer uma estrada.
O senhor pediu algum tipo de proteção da Justiça após a morte da Dorothy?
Quando a Dorothy foi morta mandaram chamar a gente, os presidentes de sindicatos, os trabalhadores e fizeram várias reuniões. Nós percebemos que era para fazer a proteção de testemunha só para o padre e as irmãs. A gente não aceitou porque a gente não aceitava este tipo de segurança se o nosso povo continuasse inseguro. Era muito cômodo um padre, as irmãs e algumas lideranças ter segurança enquanto todo uma região estava insegura.
Edição: Luiz Felipe Albuquerque

OS "COLETES AMARELOS" E O FATALISMO DE CERTA ESQUERDA


BOA ADVERTÊNCIA, PORQUE PROVAVELMENTE TEREMOS NOVAMENTE NO BRASIL EXPLOSÕES SEMELHANTES ÀS DOS FRANCESES. E TUDO INDICA QUE OS PARTICIPANTES ESTÃO CADA DIA MAIS PERTO DA CONSCIÊNCIA DE QUE O "SISTEMA" OS EXCLUI, E SÓ PODERÃO VIVER SE FORÇAREM MUDANÇAS SISTÊMICAS. SENDO ASSIM, QUAL O LUGAR DE QUEM SE IDENTIFICA E MILITA COMO ESQUERDA, QUE DEVE TER COMO VALOR E META CENTRAL A BUSCA DE IGUALDADE E A JUSTIÇA SOCIAL, TRIBUTÁRIA, AMBIENTAL?

Os “coletes amarelos” e o fatalismo de certa esquerda

Há quem espere a chegada de movimentos limpinhos, corretos ideologicamente — e portanto torça o nariz diante do que parece “impuro”. Estes jamais dialogarão com as revoltas deste século

Por Rodrigo Nunes

Esses tempos me disseram, “você é muito otimista”. Foi um choque para mim, porque nunca fui otimista na vida, pelo contrário. Mas realmente sou muito resistente à ideia de que “não há nada que se possa fazer”. E isso por motivos filosóficos que me parecem sólidos. Primeiro, porque eu acredito num universo não-determinista, probabilístico, e portanto tecnicamente falando sempre se pode fazer algo (por menores que sejam as chances de sucesso ou mais ínfimo que seja o impacto). Segundo, porque a máxima de comportamento que se extrai de “não há nada que se possa fazer” é “não façamos nada” –– o que não apenas me repele por si só (eu estou vivo, diabos, eu quero fazer alguma coisa), mas me parece, num universo probabilístico, a conclusão errada. Para mim, “não há nada que se possa fazer” significa sempre “não há nada que se possa fazer com as forças que temos agora”, logo a máxima correta é sempre “aumentemos nossa capacidade de agir”.

Lembrei disso agora vendo os especialistas de sempre passearem todo seu conhecimento e experiência para dizer que a única coisa em que o movimento dos Gilets Jaunes na França pode dar é necessariamente uma vitória da extrema direita. Deixemos de lado o fato de que, num universo probabilístico, “necessariamente” tem um significado estritamente estatístico. A questão que me bate é: qual é a máxima de comportamento que as pessoas acham que a esquerda francesa deveria adotar neste momento? “Vamos ficar em casa, criticar muito nas redes sociais, apoiar mais ou menos discretamente as forças policiais, e antagonizar este movimento o máximo possível”? Ora, se estamos num universo probabilístico, e o que se quer evitar é que o movimento se consolide como uma base social da extrema direita, qual máxima de comportamento tem mais probabilidade de produzir exatamente aquele resultado que se gostaria de evitar: esta, ou “vamos para a rua ouvir, participar, jogar nossas ideias e participar do esforço de dar forma ao que está acontecendo”? Não faz mais sentido, portanto, adotar a segunda máxima, por maiores que achemos que são os riscos ou menores que estimemos as chances de sucesso?

Sério, eu não estou nem falando de ter diferenças de diagnóstico; eu literalmente não consigo compreender o raciocínio de quem age dessa forma.

Historicamente, momentos de crise da direita tendiam a ser bons para a esquerda e vice-versa. As explosões que estamos vendo no mundo atualmente são algo distinto. Ao mesmo tempo que são sintomas de uma crise profunda do neoliberalismo –– que sangra legitimidade desde 2008 e se manifesta cada vez mais como incapaz de satisfazer as necessidades de mais que uma pequena parcela da população ––, elas ocorrem num momento de crise da esquerda –– seja pela dissolução de sua base social histórica e instituições (sobretudo nos países capitalistas centrais), seja pelos limites que suas organizações encontraram (melancolia nostálgica incluída), seja porque ela se comprometeu com diversos pilares do consenso “centrista” neoliberal e hoje aparece como guardiã da mesma ordem que as pessoas sentem que não lhes serve mais.

Por outro lado, é quase seguro que vêm mais revoltas por aí. Mesmo os países ricos estão vivendo uma crise de reprodução social, com cada vez mais gente abaixo da linha de miséria; a crise ambiental só vai piorar (e, com ela, aumento da migração, crises de abastecimento etc.); a crise de legitimidade do sistema político não vai se resolver tão cedo; e há sinais de que uma recessão mundial maior que a do final da última década pode estar a caminho.

A conjunção destes dois fatores indica que as revoltas serão em vários aspectos antissistêmicas mas dificilmente serão iniciadas ou lideradas pela esquerda. Ou a esquerda aceita que elas não serão bonitas, limpinhas, com atestado de idoneidade ideológica, e assume que não vai poder chegar já sentando na janela e terá que lidar com uma série de elementos confusos ou diretamente problemáticos se quiser influir no rumo das coisas –– ou só sobrará a ela essa demofobia tão arrogante quanto impotente. E demofobia de esquerda –– esse troço que era para ser uma contradição em termos, mas infelizmente não é –– é a coisa mais triste que tem.

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