segunda-feira, 26 de março de 2018

ENTIDADES CONTRA A LIBERAÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR NA AMAZÔNIA

Liberação de cana na Amazônia joga contra as florestas e o etanol brasileiro 
BRASÍLIA, 26 DE MARÇO DE 2018 - 

A onda de retrocessos socioambientais promovida pela bancada ruralista durante o governo Temer é tão grande que agora ameaça o próprio setor produtivo. O Senado deve votar, nesta terça-feira (27), um projeto de lei que autoriza o cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, proibido há oito anos. Se aprovado, o projeto será trágico para as florestas e também para a indústria de biocombustíveis do Brasil – que sofrerá um dano de imagem difícil de reparar num período crítico para o sucesso do etanol.

O Projeto de Lei do Senado nº 626/2011, do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), é antes de mais nada desnecessário para a indústria sucroalcooleira. O zoneamento da cana, aprovado por decreto em 2009, autoriza a expansão do cultivo em 70 milhões de hectares. Isso é dez vezes mais área do que a expansão projetada da lavoura até 2020. Portanto, não falta terra para plantar cana de forma sustentável.

Permitir o cultivo na Amazônia, mesmo que em áreas degradadas, significa acrescentar mais um motor ao desmatamento na região: a pecuária será empurrada para novas áreas para dar lugar à lavoura, estimulando a devastação onde hoje deveria haver aumento de produtividade. Toda a infraestrutura de processamento precisaria se instalar ali, o que aumenta a pressão sobre a floresta. Cria-se um problema onde hoje ele não existe, e sem nenhuma justificativa consistente.

Além do risco ambiental, a proposta também joga na lama a imagem dos biocombustíveis do Brasil. O zoneamento da cana, afinal, foi feito exatamente como resposta a ameaças de imposição de barreiras comerciais não-tarifárias às exportações de álcool do Brasil. Revertê-lo atesta a nossos compradores que o Brasil não é um país sério, já que é incapaz de manter uma salvaguarda ambiental num tema discutido com o setor e pacificado há quase uma década. Isso fez a União da Indústria Sucroalcooleira, a Unica, manifestar-se, em 2017, contrariamente à proposta.

Prejudicar a indústria dos biocombustíveis significa prejudicar também o clima. Além de ter sua meta no Acordo de Paris para o setor de energia baseada, entre outros, na produção sustentável do etanol, e viabilizada com a lei do RenovaBio, o Brasil também lidera esforços internacionais de desenvolvimento de biocombustíveis para a descarbonização rápida do setor de transportes. Essa liderança é ferida de morte pelo projeto de Flexa Ribeiro.

Já para nossos concorrentes, em especial os produtores de etanol de milho dos Estados Unidos, trata-se de uma grande notícia: o álcool brasileiro é mais barato e energeticamente muito mais eficiente, e tirá-lo de circulação é o sonho da concorrência – principalmente em tempos de escalada protecionista promovida pelo governo de Donald Trump.

O PLS 626/2011, pautado de surpresa no último dia 21, atende a alguns interesses privados e acaba beneficiando estrangeiros enquanto impõe graves ameaças à Amazônia e ao setor de biocombustíveis. Repudiamos qualquer tentativa de votá-lo em plenário. Em respeito aos interesses maiores do país, cabe ao presidente Michel Temer e ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, darem a esse projeto de lei o único destino aceitável: o arquivamento.

ASSINAM ESTA NOTA:
Amazon Watch
Amigos da Terra Amazônia Brasileira
Associação Alternativa Terrazul
Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi)
Associação de Proteção a Ecossistemas Costeiros (Aprec)
Centro de Ação Comunitária (Cedac) CI-Brasil
Conservação Internacional
Comissão Pró-Índio de São Paulo
Conselho Nacional das Populações Extrativistas - CNS
Ecoa - Ecologia e Ação
Engajamundo
Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Fundação SOS Mata Atlântica
Fundación Avina
Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia
Greenpeace
Rede GTA
Instituto BV-Rio
Idesam
Instituto Amazônia Solidária (IAMAS)
Instituto Centro de Vida (ICV)
Instituto ClimaInfo
Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia - Idesam
Instituto Ecoar
Instituto de Manejo Florestal e Certificação Agrícola (Imaflora)
Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé)
Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)
Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)
Instituto Socioambiental
IPAM Amazônia
Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais-UFMG
Mater Natura - Instituto de Estudos Ambientais
Observatório do Clima
Projeto Hospitais Saudáveis
Projeto Saúde e Alegria
Rede de Cooperação Amazônica (RCA)
Rede ODS Brasil
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)
SOS Pantanal
Uma Gota no Oceano
WRI Brasil
WWF-Brasil

CANA-DE-AÇÚCAR DA AMAZÔNIA: UMA AMEAÇA À FLORESTA

PRECISAMOS EVITAR QUE A CEGUEIRA DE SENADORES E DEPUTADOS FEDERAIS, PROVOCADA PELAS PROPOSTAS LOUCAS DO AGRONEGÓCIO, AUMENTE AS AMEAÇAS DE DESTRUIÇÃO DA AMAZÔNIA. NÃO PRECISAMOS DA CANA-DE-AÇÚCAR NA AMAZÔNIA, E NEM EM OUTROS BIOMAS, JÁ QUE O CAMINHO DO TRANSPORTE SERÁ EM BREVE TAMBÉM NO BRASIL O DOS MOTORES A ELETRICIDADE, E ELETRICIDADE PRODUZIDA ESPECIALMENTE COM OS RAIOS DO SUL, DISPONÍVEIS E MARAVILHOSOS EM TODAS AS REGIÕES. 

PRESSIONE O SENADOR/A QUE AJUDOU A ELEGER EM FAVOR DA VIDA QUE A AMAZÔNIA GARANTE EM TODO O PAÍS E NA AMÉRICA DO SUL.

Cana-de-Açúcar da Amazônia: Uma Ameaça à Floresta


 26/03/2018 às 15:07

quinta-feira, 22 de março de 2018

ÁGUA: A DISPUTA DO SÉCULO RECRUDESCE

O TEXTO QUE SEGUE É A PRIMEIRA PARTE DE UM ESTUDO MAIOR ELABORADO POR RICARDO PETRELLA, QUE PARTICIPOU DO RECENTE FÓRUM SOCIAL MUNDIAL E DO FÓRUM ALTERNATIVO MUNDIAL DA ÁGUA, ENCERRADO HOJE, EM BRASÍLIA. VALE A PENA SEGUIR ESTA REFLEXÃO PROFUNDA SOBRE OS GRAVES MOTIVOS PARA "REPENSAR A ÁGUA".

Água: a disputa do século recrudesce

Um dos grandes defensores do direito universal ao abastecimento denuncia: privatização fracassou, ao excluir bilhões e multiplicar desastres ambientais. Porém, prossegue — movida por oligarquia global cuja soberba ameaça o planeta
Por Riccardo Petrella | Tradução: Inês Castilho

MAIS:Este texto continua. Aguarde, em breve, 
“Repensar a Água: 27 teses”, de Ricardo Petrella

Três razões para repensar a água:
1. A mercantilização, monetização e privatização da água e dos serviços hídricos: danos e falhas
Sob a vaga “triunfante” da chamada “terceira revolução industrial” (tecnologias da informação e da comunicação, biotecnologia, novos materiais, transportes e energias renováveis) e da globalização desregulada que emerge da economia capitalista de mercado, todas as formas de vida foram mercantilizadas noss últimos 50 anos, e tudo o que um dia foi considerado como serviço público essencial para a vida e o viver juntos, sob a responsabilidade coletiva das comunidades humanas, foi privatizado e submetido às “regras” dos mercados financeiros mundiais cada vez mais alienados da economia real.
TEXTO-MEIO
O valor de todos os bens foi definido principalmente em relação ao seu valor mercantil. Os recursos naturais foram reduzidos unicamente a fontes de extração, até seu esgotamento, para a riqueza financeira dos mais fortes, dos mais competitivos. Tambem os bens construídos pelos seres humanos – tais como conhecimento, habitação, saúde, educação, segurança da existência e do futuro, foram monetizados, financeirizados, privatizados. Em 1980 a Corte Suprema dos Estados Unidos legalizou, pela primeira vez na história da humanidade, a privatização da vida para obtenção de lucro (patenteamento da vida) – um escândalo – incluindo a herança genética dos seres humanos, para não mencionar as espécies vivas de animais, plantas e micróbios. Pela Diretiva 98/44 / CE, a União Europeia seguiu o exemplo em 1998.
O monopólio predador da vida não poupou a água e os serviços hídricos do longo ciclo da água. As autoridades públicas “nacionais”, que ainda têm o poder formal da regulação legislativa, política, judiciária e de sanção em todos os domínios da água (doce e salgada), delegaram “a gestão dos recursos hídricos” a empresas privadas, muitas vezes grandes grupos industriais-industriais multinacionais como Suez, Vivendi, Thames Water, Águas de Barcelona…). Pior, também impuseram uma concepção de água estritamente econômica, utilitarista e mercantil, consagrada em 1993 pelo Banco Mundial em seu documento-bíblia da política da água denominado “Integrated Water Resources Management”. Essas teses são fundados sobre o princípio (dogmático) de que a água deve ser considerada essencialmente como um bem econômico, submetido às “regras” da rivalidade e da exclusão. Daí a imposição da obrigação de, para ter acesso à água e aos serviços hídricos, pagar um preço de mercado, segundo o princípio “a água financia a água”: o financiamento da infraestrutura e dos serviços hídricos é obrigatoriamente asseguradopelo pagamento de uma conta pelos consumidores, como para todos os outros bens de controle privadoSegundo essas teses, os usuários dos serviços hídricos não são cidadãos que têm direitos, mas consumidores que têm necessidades, das quais se pode tirar vantagem. Assim nossas sociedades abandonaram a visão da água enquanto um bem comum público e jogaram às urtigas o reconhecimento do direito universal à água potável e ao saneamento ainda assim consagrado em 28 de julho de 2010 por uma resolução da Assembleia Geral da ONU. Isso mostra o respeito que têm os Estados pelas decisões da ONU.
Vendidas como signos da nova era da globalização planetária de alta intensidade tecnocientífica, a mercantilização da água (e da natureza) e a privatização dos serviços hídricos são reveladas em suas grandes falhas: depois de quarenta anos conduzidos em nome dos dogmas do capitalismo mundial (selvagem e “renano”), nem os seres humanos, nem o mundo da água (rios com lençóis freáticos, lagos com zonas úmidas, água potável com águas minerais naturais) saem ganhandoAs devastações ambientais e humanas são consideráveis. Estima-se que o número de pessoas sem acesso à água em bases regulares e contínuas, na quantidade e qualidade essenciais para a vida, é próximo a quatro bilhões (uma violação inaceitável do direito à vida).  rarefação crescente da água própria para uso humano em razão dos fenômenos persistentes da poluição e da contaminação de todos os corpos hídricos. A água permanece na raiz de muitos conflitos locais como parte de uma nova conquista global pela água, liderada abertamente pela Nestlé, Danone, Coca-Cola, PepsiCola, assim como pelas empresas extrativistas (petroleiras, mineradoras…), químicas e farmacêuticas, de informática e outros grandes consumidores de água de boa qualidade. É outro fracasso do projeto do preço a pagar (as tarifas aumentam em todo o mundo) e da gestão “transparente” e “participativa” (as empresas com ações em bolsas não sabem o que essas palavras significam).
Mesmo os ingleses – que estiveram entre os mais convictos promotores da água mercadoria e rentável para o capital privado – começam a falar em remunicipalização e em tornar novamente público o recurso água. A corrida pelo “ouro branco” resulta em um claro fracasso. Mas os custos humanos, sociais e financeiros não foram pagos, e não são ainda hoje, pelos grupos que impuseram a mercantilização e privatização – mas pelas próprias vítimas (os povos indígenas, os camponeses, os estratos sociais empobrecidos das cidades, subúrbios e favelas, crianças menores de seis anos, mulheres, minorias excluídas …).
Não podemos continuar no caminho dos fracassos, dos conflitos, das desigualdades, das exclusões, dos predadores.
2. Os fundamentos do “viver juntos” questionados: o Estado, o público, o bem comum, a segurança coletiva, a democracia. O que é a humanidade?
A segunda razão que nos obriga a “repensar a água” reside no fato de que o período mencionado colocou igualmente em evidência as profundas mudanças ocorridas na concepção e papel do Estado (e dentro dele, as comunidades locais: município, províncias regiões…) e dos poderes públicos em geral. O Estado atual não é mais, ou é cada vez menos, o Estado de direito e dos direitos. Os governos nacionais demoliram em quase toda parte o Estado de bem-estar, o Estado de seguridade social generalizada. A segurança de que os Estados ainda se sentem investidos foi reduzida à segurança militar (contra os inimigos estrangeiros) e de proteção da propriedade privada dos bens e pessoas abastadas (pensemos em “gated cities” ou “cidades trancadas”). A segurança ambiental e a justiça ambiental protegendo o bom estado ecológico dos bens e serviços naturais essenciais e insubstituíveis para a vida, assim como a convivência entre grupos sociais, comunidades humanas e povos ainda são conceitos e práticas a ser concretizadas.
Depois das três grandes Cúpulas da Terra (Rio, Joanesburgo, Rio) e as 23 COPs (Conferência das Partes da Convenção do Clima) da ONU sobre as mudanças climáticas, devemos nos interrogar sobre a perda substancial do sentido que nossas sociedades dão à vida, ao conjunto da comunidade global da vida. Onde está a sacralidade da vida, a sacralidade da água? Nesses últimos anos, as justificadas críticas à abordagem antropocêntrica do mundo e da vida permitiram promover uma visão mais holística e real da vida, ecocêntrica, pós-industrialista, e desenvolver novas teorias sobre os habitantes da terra e os sujeitos titulares de direitos. Movimentos “mundiais” desenvolveram-se em favor dos “direitos da natureza”, dos direitos dos animais, das plantas, das espécies microbianas, da integridade dos genomas… Assim, é importante considerar muito positivamente a pertinência da decisão tomada pelo parlamento neozelandês em 2017 de reconhecer o rio Whanganui como uma entidade viva, com status de “personalidade jurídica”, e que o mesmo reconhecimento tenha sido atribuído depois de alguns dias na Índia a dois rios, o Ganges e a Yamuna, onde os hindus praticam regularmente suas purificações, qualificados de “entidades vivas com o status de pessoa jurídica” pela alta corte do estado de Uttarakhand no Himalaia.
Qual o sentido a ser atribuido ao conceito de “habitantes da Terra”? Hoje, os que dominam não pensam que todos têm o direito de habitar a Terra. Basta observar o tratamento dos imigrantes, os chamados “refugiados econômicos”. Em que medida e como a globalização real da condição humana, no quadro de grandes interdependências e complexificação da vida na Terra, muda as visões que se tem dos “bens coumns da humanidade”, de “bens comuns publicos mundiais”?
Que significa hoje concretamente, para bilhões de pessoas, falar de “bem comum da humanidade?” O que realmente entendemos, para além da retórica, quando a ONU fala de “nosso futuro comum” e quando, mesmo o Forum Social Mundial fala de bens comuns, de “direitos da humanidade”? Quais são as relações diretas entre “direitos humanos universais” e “bens comuns”, “direitos da humanidade” e “direitos da natureza” e “bens comuns públicos mundiais”?
Qual é, nesse quadro, o sentido que damos ao Estado: que Estado queremos para o século 21? Um Estado que se situa na continuidade com a centralidade atribuida até o presente aos Estados soberanos “nacionais” no quadro de um multilateralismo inter-estatal em escala mundial? Em alternativa, um mundo fundado sobre a auto-organização política das comunidades humanas ou, por outro lado, a auto-organização de grupos espontâneos entre portadores de interesses (os “stakeholders”), caros ao mundo da economia capitalista? Nessa última hipótese, o que seria da democracia, uma vez os que dominam a estão jogando no lixo e continuam a substituí-la pela noção e a prática da “governança”, em que os atores chave são os portadores de interesse? Podemos confiar o governo da água em nível local até o nível mundial/planetário aos jogos de concorrência e às alianças oportunistas entre os stakeholders?
Para além disso, as questões da água levantam sérias interrogações sobre o sentido do conceito de público, pois as tendências atuais vão na direção de um enfraquecimento estrutural do conceito de público estatal para favorecer o desenvolvimento do papel do público não-estatal. A água enquanto bem (e serviço) comum público pertenceria a quais “esferas” do público? Se sabemos o que pode ser um público estatal local e nacional, quem poderia dizer o que poderia significarum público estatal no plano mundial/planetárioNão podemos deixar essas questões para o jogo do mercado e das finanças. O mundo necessita definir regras comuns. É preciso “repensar a água”, conceber e praticar um novo contrato social mundial da água.
3. Finalmente, as rupturas sociais, o agravamento das grandes desigualdades diante do direito à vida, em todos os níveis. Não podemos mais fingir que tudo é “natural”.
A terceira “razão” tem uma elevada probabilidade de ser a mais convincente. Diante da amplitude dos desastres climáticos em curso e previsíveis no horizonte de 2050, tomamos consciência de que a água será a principal vítima desses desastres. Tudo indica que, mesmo se forem respeitados os compromissos (modestos) assumidos em Paris na COP21 por ações fortes e coordenadas em plano mundial, o planeta não será poupado pela intensificação em frequência e gravidade dos fenômenos ditos extremos (inundações e secas). Estes irão impactar os regimes da água em todas as regiões do mundo, provocando grandes devastações sobre a quantidade e a qualidade disponível e acessível de água própria para uso humano. Todo o mundo prevê uma intensificação dos processos de rarefação da água.
Os grupos dominantes sofrerão menos com as devastações que as populações de regiões já confrontadas com a penúria de água e a má qualidade das águas. Por isso, as soluções propostas pelos que dominam são concebidas sobretudo em função de suas aspirações, necessidades e interesses. Face à rarefação, pretende-se reduzir a segurança hídrica à segurança de suas atividades econômicas, de sua riqueza e de seu bem-estar. Os acionistas da Coca-Cola estão muito inquietos por uma situação de crescente carência global de água! Segundo os que dominam, as opções “confiáveis” que eles impuseram nos últimos anos são unicamente em favor de duas estratégias: a estratégia de resilência (aumentar a capacidade das populações de reduzir os efeitos mais catastróficos das perturbações climáticas e da água), e a estratégia de adaptação (dar a si mesmo os meios para viver bem numa situação em que a temperatura média da atmosfera terrestre subirá 2ºC).
Não é necessário ser um especialista na matéria para compreender que resolução e adaptação serão acessíveis sobretudo aos grupos sociais já favorecidos, poderosos, possuidores dos recursos financeiros colossais necessários para realizar as duas estratégias. Considere comparar o provável futuro dos habitantes dos Países Baixos e os de Bangladesh em 2050. E por essa razão, os dominantes continuam a impor uma “gestão” desigual e injusta da vida e da água, enquanto proclamam sua fé no “desenvolvimento sustentável”, dissociando a água de todas as considerações relacionadas aos direitos da e à vida, à justiça social, à boa convivência, à democracia participativa.
* * *
O que, afinal, é repensar a água?
Para nós, repensar a água é liberar o futuro da humanidade e da comunidade global da vida de desigualdades e injustiças atuais em face dos direitos; a vida; libertar a humanidade das guerras pela água tantas vezes antecipadas como inevitáveis pelos que dominam e seus intelectuais; libertar o futuro da vida da dominação predatória dos velhos e novos “senhores da água” já em ação em todo o mundo; libertar este mundo do roubo da vida representado pelo empobrecimento e exclusão; libertar a força criativa da utopia da prisão em que o pragmatismo, o realismo e o cinismo dos atuais dominantes a encerraram.
Repensar a água” é recomeçar a abrir novos horizontes, é construir outros futuros para a humanidade de todos os habitantes da Terra.


https://outraspalavras.net/capa/agua-a-disputa-do-seculo-recrudesce/ 

terça-feira, 20 de março de 2018

LANÇADO O MOVIMENTO POR "COMUNIDADES INTERNACIONAIS LAUDATO SI"

DEPOIS DE LER O RELATO DE CARLO PETRINI SOBRE O TELEFONEMA QUE RECEBEU DO PAPA FRANCISCO, SEMPRE ESPEREI PELOS FRUTOS DESTA PARCERIA SURPREENDENTE: VEIA À LUA A ENCÍCLICA LAUDATO SI, E AGORA PETRINI LANÇA ESTE NOVO MOVIMENTO DE COMUNIDADES QUE ASSUMEM A CORRETA RELAÇÃO ENTRE CUIDADO DO AMBIENTE E LIBERTAÇÃO DOS EMPOBRECIDOS. 

VALE A PENA CONHECER E ACOLHER A PROPOSTA. 

Uma nova aliança que vai além das ideologias, transversal e não confessional, nascida da fraternidade entre as pessoas, quer sejam religiosas ou não, e do amor pela casa comum. Esses são os alicerces em que se baseiam as Comunidades Internacionais Laudato si’, que o fundador e presidente do Slow FoodCarlo Petrini, e o bispo da Igreja de Rieti, na ItáliaDom Domenico Pompili, apresentaram na última sexta-feira, 16, em Roma. Neste momento, há cerca de dez na Itália (em Roma e no Piemonte) e no exterior (em ParisSão Paulo, no Brasil, e na Argentina), mas mais de 30 já estão começando a dar seus primeiros passos.
A reportagem é de Elisa Virgillitto, publicada no jornal Il Manifesto, 17-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O objetivo é duplo. Por um lado, o futuro do nosso planeta, que, de acordo com os dois promotores, é buscado trabalhando sobre a informação, a educação, contra o desperdício e a poluição, as boas práticas e a partilha de intenções. “Não há dúvida de que a referência mais forte, do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista de uma economia diferente, é, nos últimos anos, a encíclica Laudato si’ do Papa Francisco: por isso, pensamos em nos referir a ela”, explicou Carlo Petrini.
Mas há também um aspecto concreto, que é a contribuição para a regeneração dos territórios atingidos pelo terremoto na Itália central: “Nossa terra está ferida, a reconstrução não é suficiente. Somente com as relações e com as propostas ecossustentáveis é que se poderá fazer renascer, regenerar, precisamente, as cidades, os burgos, a economia, a cultura. Por isso, graças à solidariedade de todas as pessoas de boa vontade que queiram fazer parte das Comunidades Laudato si’, realizaremos em Amatrice um centro de estudos internacional chamado Casa Futuro – Centro de Estudos Laudato si’, capaz de hospedar jovens para estágios, escolas de verão, caminhos de reflexão e intercâmbio, eventos dedicados à agregação e à formação. O centro de estudos nascerá em um lugar-símbolo para este território, lá onde havia a Casa de Acolhida Pe. Minozzi, um dos edifícios infelizmente destruídos pelo terremoto”, contou Dom Domenico Pompili.
“A grande revolução da segunda encíclica do Papa Francisco foi unir pobreza e ambiente, justiça social e saúde da Terra, trabalho pelos últimos e trabalho para defender os recursos do planeta”, afirmou o historiador do pensamento econômico Luigino Bruni.
Mas tudo é inútil se não for guiado pelo motor que impulsiona a cada um de nós: “A paixão, o prazer de se envolver, o amor pelos próprios valores”, afirmou Petrini, que, nos anos 1980, liberando a mobilização através do prazer (gastronômico mas não só), arrastou a esquerda, na Itália e no exterior, rumo a um movimento internacional que, hoje, com o Slow Food e as comunidades de Terra Madre, está presente em 170 países.
Dom Pompili, retomando o tema central da encíclica, sublinhou que “a provocação da Laudato si’, ainda não totalmente recebida, está na ideia de que a visão ecológica do ambiente implica uma relação em vários vetores com a Criação, com as pessoas e com Deus, isto é, uma visão holística”. Estamos na definição dos princípios de uma ecologia integral, segundo a qual, como afirma o texto do Papa Francisco, “não há ecologia sem justiça e não pode haver equidade em um ambiente degradado”. Uma mensagem que as comunidades traduzirão em ações concretas: eventos, conferências, laboratórios, cursos, publicações, intercâmbios e iniciativas locais, chamando todos a um novo protagonismo sobre as questões ambientais.
As comunidades poderão se formar a partir de experiências já existentes (associações, paróquias, grupos esportivos...) ou se organizar para esse fim. São realidades associativas “leves”, não têm estatutos, mas se pede a simples adoção de algumas diretrizes. É importante comunicar a própria adesão ao endereço eletrônico info@comunitalaudatosi.org para receber atualizações, newsletters e suporte. Mais detalhes acesse aqui.
http://www.ihu.unisinos.br/577106-movimento-slow-food-lanca-o-projeto-laudato-si

JACARTA, NA INDONÉSIA, ESTÁ AFUNDANDO

A NOTÍCIA É UM ALETA: A RETIRADA DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS SEM O CUIDADO DE SALVAR A SUA REPOSIÇÃO PODE, SIM, PROVOCAR O AFUNAMENTO DESTA GRANDE CIDADE.

E NO BRASIL, QUAIS CIDADES ESTÃO AFUNDANDO, SEM QUE QUE PRESTE ATENÇÃO A ISSO?

"Jacarta pode se tornar uma terra inabitável", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate,19-03-2018.

Eis o artigo.

Indonésia é o quarto país do mundo em termos demográficos (população de 264 milhões de habitantes em 2017) e, no ano passado, ultrapassou o Brasil em tamanho do Produto Interno Bruto (PIB de US$ 3,257 trilhões em 2017 contra US$ 3,216 trilhões do Brasil) ocupando a oitava posição no ranking das maiores economias, quando medido pelo poder de paridade de compra (ppp), do FMI. Enquanto o Brasil vive a sua segunda década perdida, a economia da Indonésia cresce mais de 5% ao ano e tem dado inveja aos desenvolvimentistas brasileiros.
Fonte: EcoDebate
A capital Jacarta, com cerca de 9 milhões de habitantes (em uma região metropolitana de quase 30 milhões de pessoas) é uma cidade dinâmica mas que está, literalmente, naufragando. Enquanto Brasília, no Planalto Central do Brasil, está atolada em um mar de lama e o Rio de Janeiro está em luto constante contra a corrupção e a violência, Jacarta afunda a cada dia e pode ficar rapidamente debaixo d’água. Algumas zonas da região norte estão afundando mais de 25 milímetros por ano, um ritmo bem mais acelerado do que o verificado na cidade de Veneza (2 milímetros/ano).
Reportagem do jornal New York Times mostra que o problema é agravado pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas (aumento das tempestades, furacões, tufões, etc.), mas tem características próprias. De fato, Jacarta está afundando mais rápido do que qualquer outra grande cidade do planeta, mais rápido, mesmo, do que as mudanças climáticas que estão elevando o mar de Java. A principal causa são os poços ilegais e a drenagem dos aquíferos subterrâneos sobre os quais a cidade se espalha.
Os aquíferos não estão sendo reabastecidos, apesar das fortes chuvas e da abundância de rios, porque mais de 97% de Jacarta agora é coberta por concreto e asfalto. Campos abertos que absorviam a água da chuva foram pavimentados. As margens dos manguezais que ajudavam a aliviar os rios e os canais inchados durante as monções foram ocupados pelas favelas e torres de apartamentos. Resultado: cerca de 40% de Jacarta já está abaixo do nível do mar.
aquecimento global acaba exacerbando dezenas de outros males. E no caso de Jacarta, existe um tsunami de problemas pelo desenvolvimento desenfreado, falta de planejamento quase total, falta completa de saneamento básico, uma rede limitada de água potável confiável e encanada, edifícios que se afundam, ar poluído e alguns dos piores engarrafamentos do mundo. A desconfiança do governo é uma realidade nacional e a corrupção generalizada não fica atrás daquilo que foi mostrado na operação Lava-Jato do Brasil. Os conflitos entre extremistas islâmicos e indonésios seculares, muçulmanos e etnia chinesa bloquearam o progresso, ajudaram a derrubar líderes reformistas e complicaram tudo, enquanto a cidade afunda.
Os hidrólogos dizem que a cidade tem apenas uma década para deter seu naufrágio. Se não puder, o norte de Jacarta, com seus milhões de moradores, acabará subaquática, juntamente com grande parte da economia da nação.
A população vive alarmada diante das inundações catastróficas durante as monções. O governo aposta no projeto “Grande Garuda”, ou Programa de Desenvolvimento Integrado das Costas, que consiste na construção de uma barreira gigante e de um reservatório de água. O projeto inclui a construção de um muro com cerca de 32 quilômetros de extensão e uma estrutura de 17 ilhas artificiais, sendo que o reservatório servirá para armazenar a água das chuvas. Uma lagoa artificial ficará inserida numa nova cidade costeira com áreas residenciais, de negócios e de lazer, que corresponderá a mais investimentos na capital. Apesar dos benefícios esperados com a estrutura, o projeto – que é liderado por um consórcio holandês – tem dado também origem a várias críticas por parte de ativistas e cientistas, especialmente em decorrência dos problemas ambientais deste projeto megalômano.
Diversos ambientalistas criticam a construção de diques e consideram que a melhor abordagem seria devolver parte de Jacarta do Norte para a natureza. A ideia seria reintroduzir manguezais e rejuvenescer algumas das dezenas de reservatórios que faziam parte da velho Jacarta. Os administradores da capital da Indonésia olham para o exemplo de Tóquio e miram o replanejamento da cidade.
Mas as medidas adotadas até aqui são poucas e tardias. Será muito difícil resolver os problemas já existentes em Jacarta e ainda enfrentar a elevação  do nível dos oceanos e as mudanças climáticas que vão fazer esta região tropical ficar extremamente vulnerável à instabilidade dos ventos, à fúria das águas e às ondas letais de calor. Jacarta pode se tornar uma terra inabitável.
Referência:
MICHAEL KIMMELMAN. Jakarta Is Sinking So Fast, It Could End Up Underwater, NYT, 21/12/2017.
http://www.ihu.unisinos.br/577135-jacarta-esta-afundando-e-pode-ficar-rapidamente-debaixo-d-agua

IBGE: PARA CADA REAL GERADO, SEIS LITROS DE ÁGUA SÃO CONSUMIDOS

MAIS DADOS QUE CONFIRMAM QUAIS OS SETORES DA ECONOMIA SÃO OS REAIS RESPONSÁVEIS PELO CONSUMO DE ÁGUA NO BRASIL. SERÁ PRECISO MAIS E MAIS IDEOLOGIA, E AIS E MAIS GRANDE MÍDIA, PARA IR REPETINDO QUE "VOCÊ", "EU", "NOS" DO CONSUMO DAS FAMÍLIAS SERÍAMOS OS RESPONSÁVEIS PELAS CRISES QUE SE APROFUNDAM!

TORNEMOS DE CONHECIMENTO PÚBLICO UNIVERSAL OS REAIS CONSUMIDORES DE NOSSA ÁGUA!

IHU, 20/03/2018
Para cada R$ 1 gerado pela economia brasileira, em 2015, foram consumidos, em média, seis litros de água. Em função de atividades como a irrigação, o setor agropecuário foi o que teve a maior demanda hídrica na geração de renda: 91,58 litros de água para cada Real produzido. Nas Indústrias de transformação e construção, o consumo proporcional foi de 3,72 litros/R$ e nas Indústrias extrativas, 2,54 litros/R$.
A reportagem é de Mônica Marli, publicada por IBGE e reproduzida por EcoDebate, 19-03-2018.
Em termos de consumo total desse recurso, o volume chegou a 30,6 bilhões de m³ no Brasil, nesse mesmo período. As atividades econômicas que registraram maior consumo foram a Agriculturapecuáriaprodução florestalpesca e aquicultura (com 77,6% do total); indústria de transformação e construção (11,3%); e Água e esgoto (7,4%).
Essas informações são da publicação Contas Econômicas Ambientais da água(CEAA), divulgada hoje pelo IBGE. Entre outros indicadores, o estudo, inédito no Brasil, mostrou também como foram o uso e os gastos com a água das famílias, principais responsáveis pelo uso de água de distribuição.
De 2013 para 2015, houve uma queda de 4,3% no uso de água de distribuição das Famílias e um aumento de 8,8% nos gastos. Em 2015, o uso de água per capita das famílias foi de 108,4 litros/dia e o custo médio de volume de água utilizada foi de R$ 2,35/m.

Sobre as Contas da Água

As Contas Econômicas Ambientais da Água fazem um balanço entre a disponibilidade (quantitativa e qualitativa) de água e a demanda dos setores da economia, unificando em um mesmo sistema a parte monetária e o meio ambiente.
“Estudos como esse abastecem de informações os governantes, as universidades e a sociedade civil para que todos possam pensar em como usar de forma eficiente a água. Porque esse bem natural, dependendo do uso, pode se extinguir”, comenta o analista da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Michel Lapip.
CEAA está alinhada a uma metodologia internacional desenvolvida pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas. E o Brasil foi um dos primeiros países a realizar esse projeto.
“A nossa intenção é continuar desenvolvendo as contas da água e também partir para outras contas ambientais. Vamos começar a olhar as contas de energia, de florestas e dos ecossistemas”, comenta a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.
As Contas Econômicas Ambientais da Água são o resultado de uma cooperação entre o IBGE, a Agência Nacional de Águas (ANA) e a Secretaria de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente do Ministério do Meio Ambiente (SRHQ/MMA), com o apoio técnico da Secretaria de Biodiversidade (SBIO) do MMA e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.
http://www.ihu.unisinos.br/577137-e-revela-que-economia-brasileira-consome-6-litros-de-agua-para-cada-r-1-produzido

OS MARTÍRIOS DE HOJE E A CRUZ DE JESUS

ASSUMO COM MARCELO ESTA BELA REFLEXÃO E MENSAGEM. E ASSUMO DAR CONTINUIDADE À MISSÃO DESTES MÁRTIRES EM TUDO QUE FOR POSSÍVEL.


Os martírios de hoje e a cruz de Jesus
Marcelo Barros
No Brasil, em uma semana, tivemos o martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite da 4a feira, 14, no centro do Rio de Janeiro, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, mataram o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará.
Vivemos em tempo de martírio. Defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida significa correr riscos e enfrentar a morte. Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus que, nas suas liturgias, as Igrejas celebram.
Não deixa de ser estranho: as Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, ao menos nos dias atuais, quem parece estar realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Na América Latina, dos anos 60 até os anos 90, milhares de pessoas deram a vida por causa da justiça, em meio às lutas sociais. Dessas, muitas se proclamavam cristãs. No dia 24 de março, celebramos a memória do martírio do bispo Oscar Romero, assassinado em El Salvador, no momento em que celebrava a ceia de Jesus. Nos anos mais recentes, esse tipo de martírio continuou ocorrendo e acontece até hoje. Diariamente, há pessoas que morrem como vítimas da injustiças estruturais que dominam o mundo e esse continente. São mártires. No entanto, parece que, atualmente, o martírio está acontecendo mais fora dos ambientes eclesiais. Isso não diminui em nada o mérito e a santidade desses irmãos e irmãs que, mesmo sem terem vinculação com a fé religiosa, dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Conforme o evangelho, Jesus afirmava que pertence a Deus não quem confessa o seu nome e sim quem realiza a sua vontade que é de justiça e vida para todos.
Lamentável é que as Igrejas celebram e pregam a doação da vida, mas ainda parecem distantes dessa consagração que tantas pessoas sem falar em Deus, vivem no dia a dia da vida, nas periferias urbanas, na luta das mulheres negras, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas e dos rios.  Do mesmo modo, é estranho que os irmãos e irmãs que, por causa de sua fé, nas últimas décadas, deram a vida pelo povo e pela justiça, muitas vezes, não contaram com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja. Mesmo Dom Oscar Romero não era bem compreendido por outros bispos e pelo Vaticano. Isso nos faz perguntar por que a Igreja que celebra a paixão de Jesus tem tanta dificuldade em se solidarizar e se inserir no martírio real que o povo sofre a cada dia, martírio que, na época de Jesus, se concretizou na cruz na qual o nosso mestre e Senhor deu a sua vida. Em primeiro lugar, essa interpelação toca no mais profundo de cada um de nós. Fere o meu coração como uma espada de dor e que chama a conversão minha e da nossa Igreja. Eu mesmo, nós, o que estamos fazendo? Será que esse distanciamento da vida real das lutas do povo, por parte de muitos eclesiásticos, vem do fato de que a teologia oficial das Igrejas ainda compreende a cruz e a morte de Jesus como um sacrifício religioso oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados? Geralmente, todos aceitam que a Páscoa do primeiro testamento foi de conteúdo claramente social e político (a libertação dos hebreus do Egito). No entanto, interpretam a Páscoa de Jesus no plano meramente espiritualista. Cristo é visto como o servo sofredor de Deus que, como dizia o profeta Isaías, tomou sobre si as nossas faltas e morreu por nossos pecados. É o Cordeiro de Deus, cordeiro da nova Páscoa que, por sua morte, nos liberta espiritualmente.
Até hoje, na maioria das Igrejas, padres e pastores ligam o motor automático e, a cada ano, repetem o mesmo discurso. No entanto, atualmente, essa forma de interpretar a fé corre o risco de apresentar Deus como uma divindade cruel que, para se reconciliar com o mundo, precisa da morte do seu próprio Filho. Além disso, essa teologia separa a morte de Jesus de tantas outras mortes violentas, a cada dia, ocorridas pela justiça e pela libertação. Se a morte de Jesus foi o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade nada tem a ver com as cruzes nossas de cada dia.
É preciso superar esse modo de compreender a fé e a Páscoa. Apesar dos evangelhos lhe emprestarem palavras que podem ser compreendidas no sentido sacrificial, parece que nem o próprio Jesus, inserido na cultura e religião hebraicas, pensava assim.  A cruz era o suplício que os romanos reservavam para os escravos rebeldes e prisioneiros políticos que lutavam contra a ordem do Império. Com essa acusação, referendada pelas autoridades religiosas, ligadas ao poder político que dominava aquela região, Jesus foi condenado a morrer na cruz.
A morte de Marielle, Anderson  e Pedro, assim como a de Oscar Romero e de tantos outros/as nos desafiam a compreender e celebrar a memória da morte de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada. No 6º Encontro Intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Cremos na ressurreição. Por isso, através da continuidade da luta, podemos, hoje,  dizer: Viva Marielle, Anderson, Pedro e todas as testemunhas do mesmo projeto pascal de Jesus.