segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
ENERGIA SOLAR EM PROJETO POPULAR DE JUAZEIRO, BAHIA
PARA QUE VEJAM QUE É POSSÍVEL A PRODUÇÃO DE ENERGIA SOLAR COM DIMENSÃO SOCIAL, ASSISTAM O VÍDEO http://www.brasilsolair.com. br/projeto-juazeiro
EM JUAZEIRO, BAHIA, UM PROJETO DE ENERGIA SOLAR EM CONJUNTO POPULAR
PARA QUE SE VEJA QUE É POSSÍVEL A PRODUÇÃO DE ENERGIA SOLAR DESCENTRALIZADA, E QUE ELA TEM POTENCIAL DE COMPLEMENTAÇÃO DE RENDA PARA OS MAIS POBRES, VEJAM O VÍDEO ABAIXO E VISITEM O SITE DE BRASISOLAIR.
http://www.brasilsolair.com. br/projeto-juazeiro
http://www.brasilsolair.com.
ROLEZINHOS: QUANTOS SÁBADOS O IGUATEMI AGUENTARIA FECHADO?
ESTE EDITORIAL DA CARTA MAIOR NOS CONVIDA A REDESCOBRIR A FORÇA DAS PRÁTICAS DE CONTESTAÇÃO, SEJAM DE UMA PESSOA OU DE UM PEQUENO GRUPO SOCIAL. É O CASO DOS POBRES QUE ENTRAM EM SHOPPING CENTER: LEVARAM OS ADMINISTRADORES A ENTRAR NA JUSTIÇA E JUÍZES A CONCEDER DIREITOS DE PRÁTICAS PREVENTIVAS NEGADORAS DA IGUALDADE DE DIREITOS DAS PESSOAS, SEM QUALQUER DIFERENÇA POR MOTIVO DE RAÇA, RELIGIÃO, COR... OU SERÁ QUE A CONSTITUIÇÃO VALE MAIS PARA UNS DO QUE PARA OUTROS? OU SERÁ QUE A PROPRIEDADE É UM DIREITO QUE ESTÁ ACIMA DOS DEMAIS?
DE TODA MANEIRA, A DECISÃO DO IGUATEMI DE FECHAR AS PORTAS NUM DIA DE SÁBADO TEM SIDO BOA OPORTUNIDADE PARA A PERGUNTA E DESAFIO DO TÍTULO DO EDITORIAL.
18/01/2014t
por: Saul Leblon

O Museu Henry Ford, em Detroit, nos EUA, guarda inúmeras relíquias da história norte-americana sobre rodas.
O veículo no qual Kennedy foi baleado está lá.
Gigantescas locomotivas que desbravaram a expansão ferroviária do país no século XIX ilustram em toneladas de ferro e aço o sentido da expressão revolução metal-mecânica.
Perto delas os esqueléticos Fords-bigode que deram origem à indústria automobilística, de que Detroit foi a capital um dia, parecem moscas.
O museu abriga também um centenário ônibus da National City Lines, de número 2857, um GM com o número 1132, que fazia a linha da Cleveland Avenue na cidade de Montgomery, no Alabama, em 1 de dezembro de 1955.
A ocupação de um assento naquele ônibus mudaria a história dos direitos civis nos EUA promovendo um salto na luta pela igualdade entre negros e brancos no país.
O verdadeiro símbolo do episódio não é o velho GM, mas a costureira e ativista dos direitos dos negros, Rosa Park (1923-2005) que naquela noite se recusou a ceder o lugar a um branco.
Rosa tinha 40 quando desafiou a física do preconceito no Alabama dos anos 50, segundo a qual brancos e negros não poderiam usufruir coletivamente do mesmo espaço, ao mesmo tempo.
Rosa Parks viveria mais 50 anos para contar e recontar esse rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos , que transformaria o velho GM em um centro de peregrinação política.
O último presidente a sentar-se no mesmo banco do qual ela só saiu presa foi Barak Obama.
Em 2012 depois de alguns segundo em silencio no mesmo lugar, ele disse: ‘É preciso um gesto de coragem das pessoas comuns para mudar a história’.
Rosa Parks era uma pessoa comum até dizer basta a uma regra sagrada da supremacia branca nos EUA.
Em pleno boom de crescimento do pós-guerra, quando negros se integravam ao mercado de trabalho e de consumo norte-americano, eles não dispunham de espaço equivalente nem no plano político, nem nos espaços públicos, como o interior de um veículo de passageiros.
No Alabama os bancos da frente dos ônibus eram exclusivos dos brancos; os do fundo destinavam-se aos negros.
Detalhes evitavam o contato entre as peles de cores distintas: os negros compravam seu bilhete ingressando pela porta da frente, mas deveriam descer e embarcar pela do fundo.
À medida em que os assentos da frente se esgotavam os negros deveriam ceder seu lugar a um novo passageiro branco que embarcasse no trajeto.
Rosa Parks estava fisicamente exausta aquela noite e há muitos anos cansada da desigualdade que humilhava sua gente.
Ela recusou a ordem do motorista e não cedeu o lugar mesmo ameaçada. Sua prisão gerou um boicote maciço dos negros de Montgomery.
Durante longos meses eles que se recusaram a utilizar o transporte coletivo da cidade provocando atrasos nos locais de trabalho e prejuízos às empresas de transporte.
Milhões de panfletos explicativos seriam distribuídos diariamente; de forma pacífica, grupos de ativistas vasculhavam os pontos de ônibus da cidade para convencer negros a aderi ao boicote.
Quase um ano depois a lei da segregação dentro dos ônibus foi extinta.
Neste sábado, um dos shoppings mais luxuosos de SP , o Iguatemi JK, cerrou as portas para impedir que movimentos sociais fizessem ali um protesto contra a discriminação em relação aos pobres.
O Iguatemi foi um dos pioneiros a obter liminar na Justiça de SP autorizando seguranças a selecionar o ingresso de clientes para barrar a juventude dos rolezinhos - marcadamente composta de jovens da periferia, pretos, mestiços e pobres.
A memória dos acontecimentos de 57 anos atrás em Montgomery convida a perguntar :
- A exemplo das transportadoras racistas do Alabama, quantos sábados o Iguatemi aguentaria de portas cerradas, cercado por manifestações pacíficas e desidratado pela fuga de seus clientes tradicionais?
DE TODA MANEIRA, A DECISÃO DO IGUATEMI DE FECHAR AS PORTAS NUM DIA DE SÁBADO TEM SIDO BOA OPORTUNIDADE PARA A PERGUNTA E DESAFIO DO TÍTULO DO EDITORIAL.
18/01/2014t
Quantos sábados o Iguatemi aguentaria fechado?
Há 57 anos uma negra chamada Rosa Parks deu um rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos no transporte coletivo de Montgomey, nos EUA.
O Museu Henry Ford, em Detroit, nos EUA, guarda inúmeras relíquias da história norte-americana sobre rodas.
O veículo no qual Kennedy foi baleado está lá.
Gigantescas locomotivas que desbravaram a expansão ferroviária do país no século XIX ilustram em toneladas de ferro e aço o sentido da expressão revolução metal-mecânica.
Perto delas os esqueléticos Fords-bigode que deram origem à indústria automobilística, de que Detroit foi a capital um dia, parecem moscas.
O museu abriga também um centenário ônibus da National City Lines, de número 2857, um GM com o número 1132, que fazia a linha da Cleveland Avenue na cidade de Montgomery, no Alabama, em 1 de dezembro de 1955.
A ocupação de um assento naquele ônibus mudaria a história dos direitos civis nos EUA promovendo um salto na luta pela igualdade entre negros e brancos no país.
O verdadeiro símbolo do episódio não é o velho GM, mas a costureira e ativista dos direitos dos negros, Rosa Park (1923-2005) que naquela noite se recusou a ceder o lugar a um branco.
Rosa tinha 40 quando desafiou a física do preconceito no Alabama dos anos 50, segundo a qual brancos e negros não poderiam usufruir coletivamente do mesmo espaço, ao mesmo tempo.
Rosa Parks viveria mais 50 anos para contar e recontar esse rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos , que transformaria o velho GM em um centro de peregrinação política.
O último presidente a sentar-se no mesmo banco do qual ela só saiu presa foi Barak Obama.
Em 2012 depois de alguns segundo em silencio no mesmo lugar, ele disse: ‘É preciso um gesto de coragem das pessoas comuns para mudar a história’.
Rosa Parks era uma pessoa comum até dizer basta a uma regra sagrada da supremacia branca nos EUA.
Em pleno boom de crescimento do pós-guerra, quando negros se integravam ao mercado de trabalho e de consumo norte-americano, eles não dispunham de espaço equivalente nem no plano político, nem nos espaços públicos, como o interior de um veículo de passageiros.
No Alabama os bancos da frente dos ônibus eram exclusivos dos brancos; os do fundo destinavam-se aos negros.
Detalhes evitavam o contato entre as peles de cores distintas: os negros compravam seu bilhete ingressando pela porta da frente, mas deveriam descer e embarcar pela do fundo.
À medida em que os assentos da frente se esgotavam os negros deveriam ceder seu lugar a um novo passageiro branco que embarcasse no trajeto.
Rosa Parks estava fisicamente exausta aquela noite e há muitos anos cansada da desigualdade que humilhava sua gente.
Ela recusou a ordem do motorista e não cedeu o lugar mesmo ameaçada. Sua prisão gerou um boicote maciço dos negros de Montgomery.
Durante longos meses eles que se recusaram a utilizar o transporte coletivo da cidade provocando atrasos nos locais de trabalho e prejuízos às empresas de transporte.
Milhões de panfletos explicativos seriam distribuídos diariamente; de forma pacífica, grupos de ativistas vasculhavam os pontos de ônibus da cidade para convencer negros a aderi ao boicote.
Quase um ano depois a lei da segregação dentro dos ônibus foi extinta.
Neste sábado, um dos shoppings mais luxuosos de SP , o Iguatemi JK, cerrou as portas para impedir que movimentos sociais fizessem ali um protesto contra a discriminação em relação aos pobres.
O Iguatemi foi um dos pioneiros a obter liminar na Justiça de SP autorizando seguranças a selecionar o ingresso de clientes para barrar a juventude dos rolezinhos - marcadamente composta de jovens da periferia, pretos, mestiços e pobres.
A memória dos acontecimentos de 57 anos atrás em Montgomery convida a perguntar :
- A exemplo das transportadoras racistas do Alabama, quantos sábados o Iguatemi aguentaria de portas cerradas, cercado por manifestações pacíficas e desidratado pela fuga de seus clientes tradicionais?
ROLEZINHOS: OS POBRES AFRONTANDO SUA INVISIBILIDADE
PARA PARTICIPAR COM SENSO CRÍTICO DO DEBATE ABERTO PELOS POBRES AO DECIDIREM ENTRAR NOS SHOPPING CENTER, VALE A PENA LER A ENTREVISTA QUE SEGUE.
São Paulo - A socióloga Valquíria Padilha não se surpreendeu com o fenômeno dos rolezinhos. Professora de Sociologia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade , na USP de Ribeirão Preto, ela lançou em 2006 um livro premonitório, “Shopping Center: a catedral das mercadorias” (Boitempo, 2006). Nele sublinha o papel segregacionista desses bunkers do consumo que, em sua opinião jamais serão democratizados. Autora também de outras obras que remetem diretamente à busca de identidade implícita na adesão da juventude pobre aos rolezinhos (são dela: “Tempo livre e capitalismo: um par imperfeito” (Alinea); “Dialética do lazer” (organizadora; Cortez) , Valquíria desabafa: a identificação de cidadania com consumo ‘é o fracasso da humanidade’. A seguir, trechos de sua entrevista a Carta Maior
Carta Maior: Shopping center -consumismo -desigualdade e exclusão urbana interligam-se há muito tempo nas grandes cidades brasileiras. Por que só agora a coisa explodiu na forma de rolezinhos?
Valquíria: Eu venho afirmando que os shopping centers são espaços privados travestidos de públicos desde que publiquei o meu livro “Shopping Center: a catedral das mercadorias” (Boitempo), em 2006. São espaços de compras que segregam, impedindo a entrada de quem não tem poder aquisitivo ou de quem não se adequa ao ambiente dos shoppings – seja pelo modo de se vestir ou pelo modo de agir. Recebi muitas críticas por afirmar isso. Agora estamos vendo as provas: pobres não devem compartilhar os shoppings centers com os ricos.
CM: O marketing da segurança dos shoppings traz a segregação no DNA?
Valquíria: Eles funcionam como os clubes privados, as escolas privadas, os hospitais privados: são bunkers onde as classes mais altas devem se sentir protegidas do mundo real que fica do lado de fora. Isso só é possível com a exclusão de todos aqueles que supostamente significam alguma ameaça, ou seja, que tragam a realidade do lado de fora – a desigualdade social - para essa ilha da fantasia. Shoppings são templos do consumo para poucos. Sempre foi assim no Brasil, desde os anos 1960-70 quando tivemos nossos primeiros shoppings.
CM- O problema não está só no Shopping...
Valquíria- Tudo isso ganha um contorno próprio quando analisamos a organização urbana de nossas cidades brasileiras - indubitavelmente pautada na segregação social e econômica: há os espaços de quem tem dinheiro e há os espaços de quem não tem. Quem não tem normalmente trabalha para os que têm. No caso dos shoppings, os vizinhos ou parentes dos jovens que fazem os chamados “rolezinhos” são os que têm os empregos mais precários: faxineiros e seguranças terceirizados. Como mão de obra barata, servem, sempre servem! O shopping é mais um dos espaços das cidades brasileiras reservados para o deleite das classes média e alta --servidas pelas ‘classes baixas’....
CM- Retomando, por que o protesto só acontece agora justamente quando se dá a emergência da chamada ‘classe média popular’?
Valquíria- O fato de supostamente uma parcela dos pobres brasileiros estarem aumentando seu poder de compra não significa que eles tenham adquirido o direito de compartilhar os mesmos espaços dos ricos. Eles não possuem o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamaria de “capital cultural”. Dito de outra forma, não basta ter mais dinheiro para ganhar o sentimento de pertença nos espaços dos ricos.
CM- Seria uma evolução natural, a exemplo dos protestos de junho de 2013, de quem não quer ser apenas um mercado de artigos populares e reivindica cidadania plena?
Valqíria - Pensar em acesso aos shopping centers como acesso à cidadania é um grande engano. Sobretudo se entendermos que ser cidadão, nos termos burgueses de nossa organização social, é ter direitos e não apenas deveres. Se pagamos impostos ao Estado, deveríamos ter acesso à uma vida digna, com trabalho, estudo, saúde, cultura, lazer de qualidade. Isso sim é ter cidadania. Mas, a sociedade de consumo – principalmente dos anos 1980 até hoje – nos ensinou a reduzir o conceito de cidadania à esfera do consumo. O cidadão hoje é o consumidor feliz. Isso é uma falácia enorme, um erro que direciona inclusive as ações do governo petista no Brasil. Os pobres passam a ter um pouco mais de renda, mas eles continuam não-cidadãos nos termos a que me refiro aqui.
Carta Maior - 18/01/2014
Saul LeblonRolezinhos: os pobres estão afrontando sua invisibilidade
Em 2006, a socióloga Valquíria Padilha lançou um livro premonitório sobre os rolezinhos, Shopping Center: a catedral das mercadorias (Boitempo, 2006).
São Paulo - A socióloga Valquíria Padilha não se surpreendeu com o fenômeno dos rolezinhos. Professora de Sociologia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade , na USP de Ribeirão Preto, ela lançou em 2006 um livro premonitório, “Shopping Center: a catedral das mercadorias” (Boitempo, 2006). Nele sublinha o papel segregacionista desses bunkers do consumo que, em sua opinião jamais serão democratizados. Autora também de outras obras que remetem diretamente à busca de identidade implícita na adesão da juventude pobre aos rolezinhos (são dela: “Tempo livre e capitalismo: um par imperfeito” (Alinea); “Dialética do lazer” (organizadora; Cortez) , Valquíria desabafa: a identificação de cidadania com consumo ‘é o fracasso da humanidade’. A seguir, trechos de sua entrevista a Carta Maior
Carta Maior: Shopping center -consumismo -desigualdade e exclusão urbana interligam-se há muito tempo nas grandes cidades brasileiras. Por que só agora a coisa explodiu na forma de rolezinhos?
CM: O marketing da segurança dos shoppings traz a segregação no DNA?
Valquíria: Eles funcionam como os clubes privados, as escolas privadas, os hospitais privados: são bunkers onde as classes mais altas devem se sentir protegidas do mundo real que fica do lado de fora. Isso só é possível com a exclusão de todos aqueles que supostamente significam alguma ameaça, ou seja, que tragam a realidade do lado de fora – a desigualdade social - para essa ilha da fantasia. Shoppings são templos do consumo para poucos. Sempre foi assim no Brasil, desde os anos 1960-70 quando tivemos nossos primeiros shoppings.
CM- O problema não está só no Shopping...
Valquíria- Tudo isso ganha um contorno próprio quando analisamos a organização urbana de nossas cidades brasileiras - indubitavelmente pautada na segregação social e econômica: há os espaços de quem tem dinheiro e há os espaços de quem não tem. Quem não tem normalmente trabalha para os que têm. No caso dos shoppings, os vizinhos ou parentes dos jovens que fazem os chamados “rolezinhos” são os que têm os empregos mais precários: faxineiros e seguranças terceirizados. Como mão de obra barata, servem, sempre servem! O shopping é mais um dos espaços das cidades brasileiras reservados para o deleite das classes média e alta --servidas pelas ‘classes baixas’....
CM- Retomando, por que o protesto só acontece agora justamente quando se dá a emergência da chamada ‘classe média popular’?
Valquíria- O fato de supostamente uma parcela dos pobres brasileiros estarem aumentando seu poder de compra não significa que eles tenham adquirido o direito de compartilhar os mesmos espaços dos ricos. Eles não possuem o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamaria de “capital cultural”. Dito de outra forma, não basta ter mais dinheiro para ganhar o sentimento de pertença nos espaços dos ricos.
CM- Seria uma evolução natural, a exemplo dos protestos de junho de 2013, de quem não quer ser apenas um mercado de artigos populares e reivindica cidadania plena?
Valqíria - Pensar em acesso aos shopping centers como acesso à cidadania é um grande engano. Sobretudo se entendermos que ser cidadão, nos termos burgueses de nossa organização social, é ter direitos e não apenas deveres. Se pagamos impostos ao Estado, deveríamos ter acesso à uma vida digna, com trabalho, estudo, saúde, cultura, lazer de qualidade. Isso sim é ter cidadania. Mas, a sociedade de consumo – principalmente dos anos 1980 até hoje – nos ensinou a reduzir o conceito de cidadania à esfera do consumo. O cidadão hoje é o consumidor feliz. Isso é uma falácia enorme, um erro que direciona inclusive as ações do governo petista no Brasil. Os pobres passam a ter um pouco mais de renda, mas eles continuam não-cidadãos nos termos a que me refiro aqui.
CM- Há uma confrontação simbólica desses limites em marcha ?
Valquíria - Os shoppings são símbolos de uma sociedade de consumo e de abundância de bens materiais. São símbolos da lógica do “compro, logo existo”. Forçar o acesso a esses espaços – que a periferia sabe que não lhe pertence - é um ato simbólico para dizer: “quando a gente vem aqui a gente incomoda os burguesinhos que historicamente nos desprezam”. Uma longa história de invisibilidade vivida pelos pobres no Brasil está vindo à tona com essas “invasões” dos shoppings centers. Os pobres nunca são verdadeiramente vistos ou ouvidos pelas autoridades públicas e pelos patrões. Esses movimentos chamados de “rolezinhos” são, na minha interpretação, uma tentativa de furar a barreira da invisibilidade a que esses jovens pobres estão sujeitos na nossa sociedade de classes.
CM - Generalizar a ‘receita shopping’ para as grandes metrópoles brasileiras é tão viável quanto estender aos postinhos de saúde o padrão do hospital Albert Einstein, em SP (um shopping da saúde). Estamos diante de uma contradição insolúvel: a propaganda adestra o imaginário social a exigir o melhor e agora barra quem aderiu ao sonho?
Valquíria - O que sempre me entristeceu é ver essa crença generalizada de que pertencer ao shopping center é alcançar a boa vida. Essa é uma vitória da sociedade de consumo e um fracasso da humanidade. Os adultos, jovens e crianças de hoje foram totalmente cooptados pela crença alienada de que só é possível ser feliz assim. Discutir isso hoje é visto como ridículo, já que essa ideologia consumista transformou-se numa verdade absoluta. Propor discussões críticas da sociedade de consumo, da publicidade, do capitalismo ainda é ridicularizado pela mídia e pelos intelectuais de direita. Somos nós, os pensadores marxistas e de esquerda que devemos mostrar como esse desejo de um mundo mais justo e menos desigual deve ser elaborado para gerar ações definitivas no que diz respeito à igualdade social. Não é nada fácil. As classes dominantes são fortes, poderosas e violentas – sobretudo no Brasil. Os pobres terão que entender que consumindo as roupas de marca e os equipamentos eletrônicos dos ricos, eles não vão conquistar a liberdade ou a emancipação.
CM—Mas é essa aspiração que os move...
Valquiria - O desejo e a posse de mercadorias nos alienam a todos. No entanto, é óbvio que, num primeiro momento, esse impulso pode parecer revolucionário. Quando eu critico a segregação social dos shoppings centers não desejo como solução que esses espaços sejam democratizados, mesmo porque eu não acredito nisso. Desejo que esses espaços sejam eliminados.
CM- Como ?
Valquíria- Que sejam substituídos por parques, espaços de cultura, bibliotecas, cinemas, teatros, circos, escolas, tudo aberto a todos igualmente. Uma sociedade emancipada e verdadeiramente rica precisa disso, e não de shopping centers... Esse fenômeno dos “rolezinhos” não aconteceria na Finlândia ou na Dinamarca.
CM— Essa reciclagem dos shoppings em espaços culturais seria a utopia de um rolezinho ideal?
Valquíria - Qualquer solução que propomos na contramão da ordem vigente tem status de utopia, tamanha é a complexidade social. A publicidade é a espinha dorsal desse sistema. Ela é a maior descoberta e o maior trunfo da sociedade de consumo capitalista, pois consegue manipular os desejos, criar necessidades, reduzir sentimentos. E mais: ela atinge a todos da mesma forma: ricos e pobres, quem vive na cidade e quem vive no campo, crianças e adultos etc.
CM—Os rolezinhos tem fôlego para avançar nessa contestação?
Valquíria - Onde esses movimentos dos “rolezinhos” vão dar eu não sei dizer. Não sou otimista no sentido de imaginar que isso vai fazer com que nossa sociedade deixe de segregar e seja mais justa em curto ou médio prazo. Mas, acho que é um começo e a discussão que surge traz o tema da desigualdade social para a mesa.
Assim como os movimentos de junho de 2013, pode se somar a outras manifestações de insatisfação, provocando, pouco a pouco, novas formas de reflexão sobre o capitalismo e sobre nosso sistema político. Gosto de ver os pobres organizados para incomodar os ricos, forçando-os a enxergar uma realidade que eles insistem em negar ou que ridicularizam.
CM- Que resposta o urbanismo pode dar a essa revolta ainda bem comportada?
Valquíria - Na ordem do capital, não acredito em nenhuma resposta definitiva. Humanizar o capitalismo, ao menos, seria possível, mas não concordo que apenas oferecer mais políticas públicas de lazer e cultura nas periferias seja a solução, pois continua aí a segregação dos espaços urbanos, a cidade continua dividida entre espaços para pobres e espaços para ricos. Isso não é solução, é paliativo.
CM - A Justiça de SP concedeu a 6 shoppings da capital o direito de selecionar o acesso. É um novo degrau do antagonismo público -privado no país?
Valquíria - Os juízes que deram essas sentenças deveriam perder o direito de julgar se nosso país fosse sério e cumprisse a Constituição. É um absurdo autorizar o inautorizável. Um juiz não poderia permitir que um espaço aberto ao público pudesse segregar. Discriminação é ilegal. Racismo é crime inafiançável no Brasil. Esses juízes deveriam ser presos. Os donos desses shoppings também.
CM - É só no Brasil ou o padrão segregacionista se repete em shoppings de outros países também?
Valquíria - Em outros países não é assim. Eu morei na França e no Canadá e lá os shoppings são abertos a todos, porque eles respeitam a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Nos países em que há desigualdade social extrema, a segregação e a discriminação são mais evidentes. Os “rolezinhos” só estão causando tanto alvoroço porque somos um país de desiguais. Enquanto cada grupo fica na sua, com seus “irmãos” de classe e respeitam as fronteiras invisíveis e visíveis, não há conflitos. Os conflitos surgem quando uma das partes resolve confrontar as barreiras. Se não houvesse esse abismo entre pobres e ricos, não estaríamos discutindo isso, não é? Sugiro que se assista ao documentário ‘Hiato’, que conta como os movimentos de sem-teto e sem-terra organizaram uma visita a um shopping no Rio. É pedagógico.
Valquíria - Os shoppings são símbolos de uma sociedade de consumo e de abundância de bens materiais. São símbolos da lógica do “compro, logo existo”. Forçar o acesso a esses espaços – que a periferia sabe que não lhe pertence - é um ato simbólico para dizer: “quando a gente vem aqui a gente incomoda os burguesinhos que historicamente nos desprezam”. Uma longa história de invisibilidade vivida pelos pobres no Brasil está vindo à tona com essas “invasões” dos shoppings centers. Os pobres nunca são verdadeiramente vistos ou ouvidos pelas autoridades públicas e pelos patrões. Esses movimentos chamados de “rolezinhos” são, na minha interpretação, uma tentativa de furar a barreira da invisibilidade a que esses jovens pobres estão sujeitos na nossa sociedade de classes.
CM - Generalizar a ‘receita shopping’ para as grandes metrópoles brasileiras é tão viável quanto estender aos postinhos de saúde o padrão do hospital Albert Einstein, em SP (um shopping da saúde). Estamos diante de uma contradição insolúvel: a propaganda adestra o imaginário social a exigir o melhor e agora barra quem aderiu ao sonho?
Valquíria - O que sempre me entristeceu é ver essa crença generalizada de que pertencer ao shopping center é alcançar a boa vida. Essa é uma vitória da sociedade de consumo e um fracasso da humanidade. Os adultos, jovens e crianças de hoje foram totalmente cooptados pela crença alienada de que só é possível ser feliz assim. Discutir isso hoje é visto como ridículo, já que essa ideologia consumista transformou-se numa verdade absoluta. Propor discussões críticas da sociedade de consumo, da publicidade, do capitalismo ainda é ridicularizado pela mídia e pelos intelectuais de direita. Somos nós, os pensadores marxistas e de esquerda que devemos mostrar como esse desejo de um mundo mais justo e menos desigual deve ser elaborado para gerar ações definitivas no que diz respeito à igualdade social. Não é nada fácil. As classes dominantes são fortes, poderosas e violentas – sobretudo no Brasil. Os pobres terão que entender que consumindo as roupas de marca e os equipamentos eletrônicos dos ricos, eles não vão conquistar a liberdade ou a emancipação.
CM—Mas é essa aspiração que os move...
Valquiria - O desejo e a posse de mercadorias nos alienam a todos. No entanto, é óbvio que, num primeiro momento, esse impulso pode parecer revolucionário. Quando eu critico a segregação social dos shoppings centers não desejo como solução que esses espaços sejam democratizados, mesmo porque eu não acredito nisso. Desejo que esses espaços sejam eliminados.
CM- Como ?
Valquíria- Que sejam substituídos por parques, espaços de cultura, bibliotecas, cinemas, teatros, circos, escolas, tudo aberto a todos igualmente. Uma sociedade emancipada e verdadeiramente rica precisa disso, e não de shopping centers... Esse fenômeno dos “rolezinhos” não aconteceria na Finlândia ou na Dinamarca.
CM— Essa reciclagem dos shoppings em espaços culturais seria a utopia de um rolezinho ideal?
Valquíria - Qualquer solução que propomos na contramão da ordem vigente tem status de utopia, tamanha é a complexidade social. A publicidade é a espinha dorsal desse sistema. Ela é a maior descoberta e o maior trunfo da sociedade de consumo capitalista, pois consegue manipular os desejos, criar necessidades, reduzir sentimentos. E mais: ela atinge a todos da mesma forma: ricos e pobres, quem vive na cidade e quem vive no campo, crianças e adultos etc.
CM—Os rolezinhos tem fôlego para avançar nessa contestação?
Valquíria - Onde esses movimentos dos “rolezinhos” vão dar eu não sei dizer. Não sou otimista no sentido de imaginar que isso vai fazer com que nossa sociedade deixe de segregar e seja mais justa em curto ou médio prazo. Mas, acho que é um começo e a discussão que surge traz o tema da desigualdade social para a mesa.
Assim como os movimentos de junho de 2013, pode se somar a outras manifestações de insatisfação, provocando, pouco a pouco, novas formas de reflexão sobre o capitalismo e sobre nosso sistema político. Gosto de ver os pobres organizados para incomodar os ricos, forçando-os a enxergar uma realidade que eles insistem em negar ou que ridicularizam.
CM- Que resposta o urbanismo pode dar a essa revolta ainda bem comportada?
Valquíria - Na ordem do capital, não acredito em nenhuma resposta definitiva. Humanizar o capitalismo, ao menos, seria possível, mas não concordo que apenas oferecer mais políticas públicas de lazer e cultura nas periferias seja a solução, pois continua aí a segregação dos espaços urbanos, a cidade continua dividida entre espaços para pobres e espaços para ricos. Isso não é solução, é paliativo.
CM - A Justiça de SP concedeu a 6 shoppings da capital o direito de selecionar o acesso. É um novo degrau do antagonismo público -privado no país?
Valquíria - Os juízes que deram essas sentenças deveriam perder o direito de julgar se nosso país fosse sério e cumprisse a Constituição. É um absurdo autorizar o inautorizável. Um juiz não poderia permitir que um espaço aberto ao público pudesse segregar. Discriminação é ilegal. Racismo é crime inafiançável no Brasil. Esses juízes deveriam ser presos. Os donos desses shoppings também.
CM - É só no Brasil ou o padrão segregacionista se repete em shoppings de outros países também?
Valquíria - Em outros países não é assim. Eu morei na França e no Canadá e lá os shoppings são abertos a todos, porque eles respeitam a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Nos países em que há desigualdade social extrema, a segregação e a discriminação são mais evidentes. Os “rolezinhos” só estão causando tanto alvoroço porque somos um país de desiguais. Enquanto cada grupo fica na sua, com seus “irmãos” de classe e respeitam as fronteiras invisíveis e visíveis, não há conflitos. Os conflitos surgem quando uma das partes resolve confrontar as barreiras. Se não houvesse esse abismo entre pobres e ricos, não estaríamos discutindo isso, não é? Sugiro que se assista ao documentário ‘Hiato’, que conta como os movimentos de sem-teto e sem-terra organizaram uma visita a um shopping no Rio. É pedagógico.
http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg#t=36
Créditos da foto: Arquivo
sábado, 18 de janeiro de 2014
COPA DO MUNDO E O DIREITO DE ORGANIZAR MOBILIZAÇÕES
INÍCIO DE 2014, ANO DA COPA, É TEMPO PARA DECIDIR O QUE FAZER PARA NÃO DEIXAR QUE ELA SEJA UM EVENTO ELITISTA E MEIO PARA ELITIZAR AS CIDADES, SEM DÓ NEM PIEDADE DOS ATINGIDOS. VEJAM O QUE ESTÃO PENSANDO OS QUE SE MOBILIZARAM EM 2013, NA COPA DAS CONFEDERAÇÕES, E VEJAM COMO APOIAR SUAS INICIATIVAS.
A quem interessa blindar a Copa do Mundo?
A quem interessa blindar a Copa do Mundo?
17/01/2014 Classe em movimento, Conjuntura, Destaqu es
O início de 2014 já deu mostras que esse ano poderá ser uma continuação, em outro patamar qualitativo, dos protestos que ocorreram em 2013 no Brasil. O avanço do caos social das prisões brasileiras a partir do caso de Pedrinhas no Maranhão, a ofensiva reacionária frente aos “rolezinhos” nos shoppings do país mostram que está cada vez mais difícil para a classe dominante no Brasil esconder o aumento crescente da desigualdade social e da falta de políticas públicas, substituídas por medidas de repressão contra os pobres e a juventude brasileira, como também demonstrou o caso do metrô mangueira, no Rio de Janeiro.
Porém, uma das questões que mais chamou a atenção neste início de ano foi a ofensiva governista, em especial por parte do PT e PCdoB, na tentativa de criar o clima favorável à Copa do Mundo no Brasil, com um discurso ufanista, como já era previsível. Em menos de 15 dias a cúpula governista e os militantes desses partidos iniciaram uma série de reportagens, artigos, falas, ações dos Governos, além de postagens nas redes sociais, com as seguintes orientações:
a) Reforçar as medidas de repressão às possíveis manifestações, dando alta visibilidade a elas, com o objetivo de desmobilização;
b) Desqualificar as críticas às violações da Copa do Mundo, forjando o termo #VaiterCopa;
c) Encobrir os inúmeros problemas trazidos pela Copa do Mundo tentando criar um falso clima de que o país vai bem;
Um fato importante desta ofensiva foi a própria presidenta da República ir as redes sociais postar a hashtag #VaiterCopa, tentando fazer alusão à quem luta por direitos não ser um bom brasileiro, pois está sendo contra a tão sonhada Copa do Mundo no Brasil. É necessário desmentir tudo isso! Assim, neste texto, buscamos esclarecer e aprofundar algumas questões escamoteadas pelo governismo.
1 – Porque é importante a luta contra as violações da Copa do Mundo?
A Copa do Mundo não é um simples evento esportivo que terminará em julho de 2014. Na verdade, de esporte ela tem muito pouco. Ela, junto com as Olimpíadas e outros megaeventos e megaprojetos, têm como objetivo reforçar o avanço do domínio do capital sobre as cidades, transformando sua configuração, aumentando a segregação social e espacial, retroagindo sobre direitos adquiridos. Isso em nada menos do que as 12 principais metrópoles do país. Ou seja, a Copa é símbolo concreto do projeto de cidade-mercadoria proposto pelo grande Capital e implementado pelos governos em todas as esferas.
Enfrentar a Copa e suas violações de forma cotidiana significa, ao mesmo tempo, criar as bases para outro projeto de poder, de cidade e de nação. Não podemos parar de denunciar e atuar na construção de outra sociedade.
2 – Quais as violações estão ocorrendo?
Sendo um processo que avança sobre o direito à cidade, as violações não param de ocorrer. A mais visível de todas são as remoções forçadas que, ao longo destes anos ameaçaram cerca de 250 mil pessoas nas 12 cidades. Como recentemente visto no Morro da Mangueira, no RJ, em sua grande maioria os processos de remoções compulsórias não vêm acompanhados de nenhum projeto alternativo de moradia para as famílias atingidas, salvo em raríssimas exceções.
A Lei Geral da Copa e o processo de privatização dos espaços públicos têm ampliado a super-exploração, a perseguição e a repressão aos trabalhadores em geral, sobretudo aos informais – pequenos comerciantes, artistas de rua etc., nas regiões centrais das metrópoles e no entorno dos estádios. Os trabalhadores das obras são pressionados a trabalhar extra para que os governos e empresas cumpram os prazos determinados pela Fifa. Junto com isto, aumenta também a repressão à população de rua e o chamado processo de higienização social e gentrificação; garantindo os interesses dos especuladores imobiliários, de um lado, assim como o fortalecimento dos grandes monopólios, de outros.
Com a ausência de políticas públicas de prevenção, o aumento da exploração sexual e do trafico de seres humanos conforma outro legado negativo concreto trazido pela Copa. A despeito da pressão realizada pelos movimentos ligados ao direito de mulheres, crianças e adolescentes, os governos permaneceram inertes e, pelo contrário, fortalecem as grandes máfias com o discurso que vende a Copa como boa para o turismo e os negócios.
Questionar os gastos astronômicos, o superfaturamento e o hiper-endividamento do Estado frente ao aumento dos problemas sociais, é um direito e obrigação de cada cidadão. Transformar isto em protesto organizado é contribuir, de fato, para uma mudança de paradigmas. Devemos questionar não só os enormes gastos com as reformas e construção de novos estádios, mas o sentido mesmo da maior parte das obras, sobretudo as de mobilidade, que não visam garantir o direito de ir e vir da população.
O legado da segurança pública está em jogo. Enquanto os governos abusam das forças de repressão como sinônimo de segurança, a sociedade clama por políticas sociais inclusivas e que consolidam direitos. Enfrentar a criminalização do protesto é enfrentar a criminalização da pobreza e da juventude. É lutar, de fato, por outro modelo de sociedade, distinto da cidade-negócio e promovida pelos Governos em todas as suas esferas, sobretudo em âmbito Federal. Neste sentido, a luta contra o aumento do aparato repressivo e o recrudescimento do estado penal, abre um enorme espaço para a luta pela desmilitarização da polícia, que ganha cada vez mais força na sociedade brasileira.
Em meio a tudo isso, diversas leis que legitimam a repressão ao direito de manifestação seguem em curso. São as chamadas leis de exceção. Tratá-las como naturais, como “frutos da governabilidade” significa atacar o pouco que já agonizante democracia brasileira. A luta contra as leis de exceção e por outro modelo de segurança pública são, portanto, lutas centrais que vão no sentido do projeto de cidade que queremos construir.
3 – Intensificar a luta contra os legados negativos da Copa do Mundo no Brasil
Um argumento constante do campo governista é o de dizer que os protestos só surgem agora porque são interesses eleitoreiros, etc. Além de falaciosos, dado que a resistência às violações da Copa tiveram início ainda em 2009, o próprio governo, foi notificado inclusive pela Organização das Nações Unidas – ONU, sobre estas diversas violações.
Porém, é fato que se pararmos para “ver os jogos”, tais violações só tendem a crescer. Esta é a intenção por trás do discurso governamental, pois, como vimos acima, muita coisa está em jogo ainda. A luta por outro modelo de cidade e contra a retirada de direitos no contexto dos megaeventos é constante e só com o muito movimento popular é possível se pensar em conquistas reais antes, durante e depois da Copa do Mundo.
4 – Mas e sobre a imagem do Brasil?
Outro argumento usado pelo campo governista é que as mobilizações tendem a prejudicar a imagem do Brasil no exterior. De que agora é hora do “brasileiro se unir” em defesa de nossa seleção. Em postagens, a presidenta chegou a sugerir que quem ia pra rua torcia contra o Brasil. Lula também andou atacando recentemente os manifestantes críticos à realização do megaevento (veja vídeo: http://on.fb.me/1cxbwps).
Qualquer alusão com o uso político que a ditadura fez da Copa de 1970 não é mera coincidência. Os gastos em propaganda dos diversos níveis de governo, no sentido de esconder os problemas sociais brasileiros são alarmantes. Os discursos mentirosos e preconceituosos ainda mais. É uma pena que o PT, doze anos após seu primeiro governo, se veja usando dos mesmos artifícios do governo militar (repressão, mentira e ufanismo) para tentar destruir a liberdade, o pouco que resta da democracia e da soberania brasileira.
A melhor imagem que o Brasil pode mostrar é a de que os direitos à liberdade e à organização do povo brasileiro estão acima dos lucros dos grandes monopólios. O governo brasileiro está perdendo uma grande oportunidade de mostrar ao mundo que é possível realizar a Copa e as Olimpíadas sem abrir mão da soberania nacional, respeitando direitos civis e desconstruindo a mercantilização do esporte implementada pela Fifa e Comitê Olímpico Internacional.
5 – Da luta de resistência à criação de alternativas desde os de baixo
A luta de resistência contra o legado negativo da Copa do Mundo transformou-se, em diversos casos, na construção de projetos alternativos para a manutenção das comunidades, evitando assim as remoções forçadas, e reforçando as reivindicações por melhorias nas mesmas. Podemos citar como casos mais emblemáticos disso, a construção do projeto alternativo da Vila Autódromo (mais barato e eficiente que o projeto do Governo), o projeto alternativo da Favela da Paz, no bairro de Itaquera, em São Paulo, as alternativas técnicas e locacionais ao Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), em Fortaleza, construída pelos moradores das comunidades ameaçadas de remoção e contando com o apoio de setores das Universidades comprometidos com um projeto popular de cidade e de país. Em Natal, a luta da comunidade forçou um decreto municipal cancelando todas as remoções. Conquistas contra remoções, fruto da resistência também ocorreram em Cuiabá, Porto Alegre, Curitiba e outras cidades-sede.
Para além da luta por moradia, a resistência às violações da Copa também tiveram resultado positivos em outras frentes. Em Belo Horizonte, após as jornadas de junho, os comerciantes da feira do Mineirinho ganharam o direito de voltar ao trabalho e recuperaram mais de 400 empregos perdidos em nome da Copa. As baianas estão garantindo seus direitos de volta em Salvador, direitos que foram destruídos em favor do McDonalds. Em Brasília, o GDF já está acuado na idéia de transformar o Mané Garrincha em um shopping center, apesar de ainda não ter desistido da privatizar o estádio, mesmo depois de torrar R$1,8 bilhões na mais cara das obras. No Rio de Janeiro, após muita luta, o Governo Cabral foi obrigado a cancelar a destruição do Museu do Índio, do Estádio de Atletismo Célio de Barros, do Parque Aquático Julio de Lamare e da Escola Municipal Friedenreich. Todos, no projeto inicial da privatização do Maracanã, virariam um estacionamento. O governo desistiu também da privatização do Maracanã após a bela campanha: “O Maraca é nosso!”.
Mas nem só de resistência vive a luta contra a Copa da Fifa. Outra iniciativa muito rica tem sido a construção de cartografias sociais, que surgem a partir da necessidade das comunidades fazerem frente aos mapas frios apresentados pelos governos que, invariavelmente, escondem o que existe de vida nessas comunidades, os laços afetivos, os lugares de lazer e os símbolos de luta etc., apresentando somente a infra-estrutura, negligenciando ou mesmo ignorando partes importantes das comunidades. No processo de criação dessas “cartografias insurgentes”, no qual as comunidades dão as coordenadas, assim como de projetos alternativos, os moradores têm a oportunidade de conhecerem melhor a sua própria realidade, fortalecendo a identidade comunitária, elevando o nível de consciência e de pertencimento ao local. O resultado do processo de construção desses também servem de instrumento na luta de contra-informação nos processo de negociação com os governos. As próprias jornadas de junho, alimentadas pela crítica da Copa, trouxeram um novo patamar para a luta social no Brasil e no mundo.
A nosso ver, não restam dúvidas de que tais alternativas produzidas pelos próprios moradores das comunidades ameaçadas de remoção colocam o processo de luta em outro patamar qualitativo, saindo de uma luta de mera resistência e fazendo-os partir para uma contra-ofensiva. São experiências de processos organizativos autogeridos que apontam, em linhas gerais, para um modelo de produção do espaço urbano desde os de baixo. Constituem-se também como os ensaios de um modo outro de fazer luta e de produzir o espaço banal. Este é o legado que a luta contra as violações da copa pode trazer. Este legado é muito maior que aqueles que tentam ser vendido pelos governos.
6 – E se não tiver Copa?
Se vai ou não ter Copa, nós não sabemos, contudo, consideramos legítima a palavra de ordem “Não vai ter Copa!”, surgida no calor das ruas durante as manifestações do ano passado. Seria uma demonstração extraordinária que o Brasil daria ao mundo, caso as manifestações tomassem uma proporção tal que a Copa fosse adiada ou mesmo cancelada. Contudo, o mais importante disso é muito mais o processo pelo qual o país está passando para receber o megaevento, do que o seu resultado final. Quando imaginaríamos que em pleno jogo do Brasil, durante a Copa das Confederações, haveria mais gente se manifestando fora do estádio Castelão, em Fortaleza, do que torcendo dentro do mesmo? Quem imaginava que o povo brasileiro iria se insurgir contra a realização do principal evento de futebol do mundo, “contra” a nossa “paixão nacional”? Quem ousa subestimar a capacidade de compreensão do povo quando seus direitos são violados? O governismo aposta na desmobilização e no ufanismo, nós apostamos na auto-organização popular. Após a realização no Brasil, a Copa do Mundo e as Olimpíadas nunca mais serão as mesmas!
A Copa, enquanto evento esportivo, enquanto jogo de futebol entre seleções nacionais, poderia ocorrer hoje, assim como poderia ocorrer desde o dia da escolha do Brasil como país-sede. Afinal, o que não faltam aqui são estádios, locais para treinamento, hotéis luxuosos e com segurança para as seleções. Além disso, o Brasil conta com grande experiência na organização de megaeventos esportivos, recebemos todo ano a Fórmula 1, que conta com patrocinadores tão influentes quanto a FIFA e recentemente os Jogos Panamericanos, pra citar apenas dois exemplos. Portanto, não seria necessário todo esse investimento financeiro para a realização dos jogos em nosso país.
Contudo, é preciso compreender que a Copa do Mundo e Olimpíadas não são meramente megaeventos esportivos, por isso ocorrem tantos problemas relacionados a elas. Tudo o que está sendo feito até agora, conforme demostramos, são obras e projetos pra avançar na cidade de exceção, aproveitam-se do amor que o povo brasileiro tem pelo futebol para avançar no que alguns chamam de “democracia direta do capital”. Permanece atual a frase proferida pelo saudoso Sócrates, ídolo da seleção brasileira: “Basta o amor pelo esporte para hipnotizar desavisados!”. Somos contra este modelo de Copa pois é um modelo que exclui e segrega, um modelo burguês. Por isso, mais do que nunca é preciso difundir o questionamento: Copa pra quem?
As mobilizações têm que ocorrer. Pior que não ter copa, seria o povo não ter direito a voz por medo, repressão policial ou por se acomodar frente às mentiras expostas na mídia diariamente.
7 – A luta contra o legado negativo da Copa está na ordem do dia!
Diversas iniciativas de organização popular têm ocorrido desde que o Brasil foi escolhido como país-sede da Copa e das Olimpíadas. Uma delas foi a criação, em todas as 12 cidades-sede, dos Comitês Populares da Copa, que juntos formaram a Articulação Nacional dos Comitês Populares (ANCOP). Os Comitês Populares têm sido, a partir do final de 2009, um instrumento fundamental na contraposição ao oba-oba que os governos, Fifa e mídia tentam fazem em torno da Copa e das Olimpíadas. Os ensaios insurgêntes de junho de 2013 demonstraram que essa tentativa de transformar o Brasil num grande circo dos megaeventos esportivos é, na verdade, um pretexto ótimo para a burguesia implementar o seu projeto está sendo em vão. Não à toa que os governos e a Fifa foram dois dos principais alvos dos manifestantes daquele mês histórico de 2013. Precisamos consolidar esse processo no decorrer deste primeiro semestre de 2014! É tarefa de todas(os) fazer com que 2014 siga os passos e fortaleça ainda mais as lutas de 2013, neste sentido, será necessário nos voltarmos fortemente para o trabalho de base, afinal, não está dado que as manifestações de julho de 2014 vão repetir ou mesmo ser ainda mais fortes que as de junho de 2013.
Até o dia 20 de janeiro podemos ajudar a eleger a Fifa a pior corporação do mundo na votação mundial organizada pelo Public Eyes Awards (http://bit.ly/votefifa), o que já seria um ótimo passo para mostrarmos que ela não é bem vinda no Brasil e, assim, já irmos criando o clima favorável às mobilizações. Também dentro do calendário de mobilização para o semestre, a atividade mais importante e que contará com enorme esforço da ANCOP será a realização do Encontro Internacional dos Atingidos por Megaeventos e Megaprojetos, que deve acontecer na segunda quinzena de abril, em Belo Horizonte. Além disso, para os moradores das cidades-sede da Copa, os Comitês Populares podem ser um espaço prioritário de atuação da militância, com intuito de fortalecer a luta contra as violações, contra o modelo excludente de cidade e de trabalhar por uma Copa de Mundo de muitas mobilizações!!
Mais informações:
(Por André Lima e Francisco Carneiro, militantes dos Comitês Populares da Copa de Fortaleza e Brasília, respectivamente, e da Insurgência)
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
QUEM É QUEM NO CONFLITO DE HUMAITÁ
MESMO UM POUCO LONGA, A REPORTAGEM A SEGUIR É NECESSÁRIA PARA QUEM DESEJA COMPREENDER CRITICAMENTE COMO SE DÃO OS CONFLITOS COM POVOS INDÍGENAS, COM OS TENHARIM, NO CASO. RICA EM INFORMAÇÕES DOS DIFERENTES GRUPOS ENVOLVIDOS, AJUDA A PERCEBER COMO CONTINUAM SENDO ALIMENTADOS OS PRECONCEITOS E O RACISMO CONTRA OS INDÍGENAS EM NOSSO PAÍS, E COMO O ESTADO POUCO OU NADA FAZ PARA CONTROLAR OS NOVOS E VELHOS DESTRUIDORES DA AMAZÔNIA.
Como ruralistas,
madeireiros e comerciantes atiçaram a população contra indígenas num rincão
amazônico, provocando destruição e instalando estado de apartheid
– 13 DE JANEIRO DE 2014
Reportagem de Alceu
Castilho, em A Pública
Cena 1. Terra
Indígena Tenharim, km 123 da Rodovia Transamazônica, sul do Amazonas. 27 de
dezembro de 2013. De um lado da ponte sobre o Rio Marmelos, de Manicoré para
Humaitá, centenas de homens, 50 deles armados. Do lado de Humaitá, 100
guerreiros da etnia Tenharim, 50 de cada lado da estrada. Também armados.
Zelito Tenharim, funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai), está no
grupo que liga do orelhão para o ministro Gilberto Carvalho, da
Secretaria-Geral da Presidência da República. O ministro da Justiça, José
Eduardo Cardozo, e a presidente da Funai também participam da conversa. E
ouvem, ao fundo, os gritos da multidão. Todos ouvem a exigência do cacique Léo
Tenharim: a Polícia Federal deve ser mandada para o local em meia hora, “senão
vai ter derramamento de sangue”. Naquele momento, o grupo liderado por
comerciantes, madeireiros e pecuaristas de Apuí e do distrito de Santo Antônio
do Matupi avançava sobre a ponte e queimava os postos de pedágio em Terra
Indígena. Quando chega a PF, dispersam. Os Tenharim assistem à cena. Os mais
velhos somem para o meio da mata. “Quando viram aqueles homens de preto acharam
que era o fim do mundo”, conta Zelito, rememorando o episódio. Mulheres e
crianças também fogem. Nove ficam perdidos: três mães, com três crianças de
colo, duas crianças de 2 anos e um menino de 10 anos, Laudinei Tenharim. Dias
depois são resgatados, traumatizados, com febre e ferimentos. Na sexta-feira, 3
de janeiro, sete famílias ainda estavam no meio do mato.
Cena 2. Agência do Banco do
Brasil de Humaitá. Primeiro dia útil de 2014. À frente do repórter da Pública,
na fila de hora e meia para o caixa, dois pecuaristas, pai e filho, ambos de
chapéu de palha. O pai com corrente de ouro na camiseta semiaberta, relógio de
ouro, pulseira de ouro. Na ponta da corrente, Jesus Cristo. Chega um amigo e
senta ao lado do pai. Eles conversam, sem se preocupar em baixar o tom de voz,
sobre o assunto que domina a cidade naqueles dias: os indígenas, ou “índios”,
como dizem. “Você pode matar uns dois ou três”, raciocina o amigo. “Mas
cinquenta?” Ele continua: “Joga o carro em um, em outro, mas e aí?” Depois
passam a falar de negócios. O pecuarista conta, com orgulho, que somente entre
o Natal e o Ano Novo vendeu mil arrobas de boi. Em outro grupo, um comerciante,
um amigo e um policial rodoviário federal. O comerciante conta que participou
do confronto com a polícia, na noite de Natal. Mas recuou após o primeiro tiro
de borracha. O policial observa que bala de borracha mata. O amigo expressa a
teoria de que os americanos “mataram os índios deles e vêm aqui defender os
nossos”. O comerciante acha que os incêndios ateados no fim do ano – em prédios
e carros indígenas – valeram a pena. O amigo contesta: “Valia se eles não
pisassem mais aqui em Humaitá”.
Cena 3. No dia do Natal,
desde as 8 horas da manhã, um carro de som do Xexéu, dono da boate Xexelândia,
passa conclamando os moradores a fazer protesto. Não se trata mais de exigir
investigações policiais, como querem os parentes de Luciano Ferreira Freire,
Stef Pinheiro e Aldeney Ribeiro Salvador, desaparecidos na região no dia 16
de dezembro; todos ali já elegeram “os índios” como culpados. A
balsa que liga a Avenida Transamazônica à Rodovia Transamazônica, atravessando
o Rio Madeira, é o ponto de encontro dos manifestantes desde a véspera, quando
os moradores bloquearam o acesso à balsa. Comerciantes do município bancam
pizza, cachorro-quente, transporte. Lá estão também os parentes dos
desaparecidos. As mulheres passam mal: a mãe de Luciano, a mulher de Aldeney.
Uma, com hipertensão. Outra, com princípio de infarto. No fim da tarde os
manifestantes percorrem a cidade gritando: “Vamos queimar”. “Vamos queimar os
carros dos índios”. As viaturas e ambulâncias deixam o local. Perto da balsa,
Luzineide Freire, irmã de Luciano, se vê sozinha de repente. Contrária às
depredações, ela ouve os gritos daqueles que estão ali perto, em frente da
Funasa, queimando a Sede da Secretaria Especial de Saúde Indígena. Depois,
contaria: “Parecia filme”.
Cena 4. No dia 2 de
janeiro, e somente naquela quinta-feira, as famílias de Luciano, Aldeney e Stef
recebem um pedido dos policiais federais: eles querem roupas usadas dos desaparecidos
para que os cachorros possam farejar as pistas. Dezoito dias após a notícia do
sumiço. “Dezoito dias!”, exclama Luzineide Freire, irmã de Luciano. A avó de
Luciano, que o criou, já tinha lavado quase tudo – por sorte uma camiseta do
Corinthians escapou do tanque. “É um descaso total, uma lentidão muito grande”,
diz a irmã. Os parentes sentem-se isolados, sem apoio. Luzineide e sua mãe
saíram de Porto Velho com as roupas do corpo. E ficaram dependendo da ajuda de
amigos. “A gente está a ver navios”, define ela. “E o dia não espera, passa
rápido”.
Cena 5. O ano de 2014
começa e a entrada da sede da Funai, em Humaitá, continua sob escombros. Um
funcionário trabalha como porteiro de ninguém, em meio aos vidros e pedaços de
carro. À frente, os dez veículos da fundação destruídos, queimados no início da
noite de Natal. Nas carrocerias, restaram apenas os botijões de gás para contar
a história. Os vizinhos contam que o momento mais tenso foi quando houve
explosões, em meio aos coquetéis molotov e os tanques de gasolina dos carros
destruídos. “Não tinha como não chorar”, conta Claudinei, morador da casa ao
lado. “Queriam invadir por aqui”, completa Maria, sua mulher, em pânico por
causa das crianças. Ao lado da Funai, no estacionamento, uma voadeira e três motos:
todas queimadas. Diante do cordão formado pelos policiais, os manifestantes
atiravam pedras e rojões e jogavam as garrafas com gasolina nos carros. O
comandante do 54º Batalhão de Infantaria da Selva mandou fechar os postos de
combustível para deter os incêndios. Motoqueiros, porém, ofereciam o que tinha
em seus tanques. Um caminhão-pipa do Exército estava por ali. “Mas não tinha
como chegar”, lembra Claudinei. O prédio se salvou, mas os funcionários da
Funai tiveram de fugir para Porto Velho. A perícia? A perícia ainda não foi
feita. O local do crime ainda não foi isolado.
Cena 6. Na frente da
sede da Funasa, em plena Avenida Transamazônica, uma Hilux queimada, continua
no local. Na mesma noite de Natal, os incendiários saíram da sede da Funai e
passaram na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai). Dona Nirla Belfort dos
Santos, vizinha da Casai, conta que quase queimaram o imóvel.“Tinha um que
dizia: ‘Toca fogo’”. Diante dos apelos dos vizinhos, desistiram. Mas seguiram
adiante para incendiar a sede da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai),
que fica no mesmo terreno da Funasa. O prédio está em ruínas. “Uma amiga ia
fazer cirurgia, não pode”, conta Naiara Santos, de 24 anos, Tenharim. “Os
exames foram queimados. Há pessoas com câncer, sem atendimento”. Ao fundo do
terreno, mais três carros queimados. Perto do muro, um carro da Funasa com um
vidro quebrado e uma inscrição na lateral, feita com o dedo na poeira: “Índio”.
O local do crime também não foi isolado para perícia. Na orla, no Terminal Hidroviário
de Humaitá, mais um alvo: o barco N/M Kagwahiwa, responsável pelo atendimento
às comunidades ribeirinhas. Queimado.
Cena 7. Diante do caos, o
comandante do 54º Batalhão de Infantaria da Selva, tenente-coronel Antonio
Prado, decide abrigar os 115 indígenas – a maioria Tenharim – que estavam na
cidade nesse período de Natal. O comandante recebe uma ligação de um general,
que avisa: “Não toque em um fio de cabelo dos índios”. Manifestantes
revoltam-se com a proteção dada pelo coronel. Querem capturar sua mulher. Para
protegê-la, cem soldados do Exército vigiam a Vila Militar, onde moram as
famílias dos militares. Ficam deitados no chão. Os moradores da vila ficam uma
semana sem poder sair de casa. No quartel, uma das três Tenharim grávidas dá à
luz, em pleno Natal.
Cena 8. Na véspera do
Réveillon, o prefeito Dedei Lôbo cancela os festejos na orla do Rio Madeira,
que forma, junto com a Avenida Transamazônica, o cinturão básico que delineia a
cidade de Humaitá. Por mensagens pelo celular e pelo Facebook, os moradores
articulam uma invasão: “Às 17 horas, queimar a prefeitura”. “A cidade todinha
tava sabendo”, contam os humaitenses. Note-se que, neste caso, os fatos nada
têm a ver com questão indígena. Os policiais rodam freneticamente pela cidade e
vigiam as entradas. Em especial a que vem de Porto Velho e a que sai para a
Transamazônica, por uma balsa. Na beira do Rio Madeira, no início da noite, a
prefeitura não foi queimada, e os policiais ainda estão lá. Bem do lado do rio,
uma pequena fogueira. Ao lado, uma placa: “Perigo. Alta tensão”.
Cena 9. Cerca de 500
pessoas, com a maioria absoluta de mulheres e muitas crianças, participam do
ato anual pela paz em Humaitá, promovido pela igreja católica, no dia 1º de
janeiro. Os locutores apresentam dados sobre violência e pedem justiça e
eficiência nas investigações. “Queremos paz, não a guerra”, diz o locutor.
“Queremos nossos maridos vivos”, “Queremos igualdade para todos”, ecoam as
faixas na caminhada com a presença dos parentes dos desaparecidos. Ao lado da
praça Dom Miguel D’Aversa, entre a Câmara Municipal e a Igreja de Nossa Senhora
da Imaculada Conceição, de frente para o Rio Madeira, o bispo Francisco Merkel
faz o discurso final. “A ocupação da Amazônia teve mortes, estupros e muito
sofrimento”, diz o bispo. Passado um tempo, veio “o pedágio, o confronto”. E dá
o recado: “Não podemos fazer justiça. A justiça é um monopólio do Estado. O que
temos é o direito de cobrar o Estado, a União, os estados, os municípios, o
judiciário, a polícia, para que cumpram suas funções. O problema deste país é
que não cumprimos as funções que nos competem. Um clima de injustiça não gera
paz”.
A Pública passou
uma semana em Humaitá – uma cidade onde nem os Tenharim, nem os Parintintin,
nem os Jihaui podem pisar, sob pena de serem espancados e mortos. Não apenas
por comerciantes e pecuaristas, mas por moradores que, como eles, vivem na
pobreza. Por trás dessas cenas de insurreição, detonada pela suspeita de que os
indígenas seriam os responsáveis pelo desaparecimento dos três brancos, a Pública descobriu
uma teia de conflitos e contradições que desembocou, primeiro, na
culpabilização dos indígenas, antes de qualquer investigação séria – cobrada
por eles e pelos parentes dos desaparecidos. Em segundo lugar, na violência. No
rastro dessa desastrosa história em que a versão dos indígenas quase sempre é
ignorada, deparou com diversos – e antagônicos – pontos de vista. Em todos eles
há uma denúncia em comum: a omissão do Estado.
Condenados pelo preconceito, indígenas vivem apartheid
Antonio Mendes
Leal, o Seu Tonico, 67 anos, era amigo de Ivan Tenharim, o cacique de 45 anos
que caiu da moto e morreu, no dia 3 de dezembro. Conhecia-o desde que ele tinha
15 anos. “Era um cara muito bom, nunca vi ninguém falar dele”. No hotel de Seu
Tonico, na Rodovia Transamazônica, Ivan pagava R$ 30,00 para ficar com a
família, no quarto com duas camas e armador de redes. Quando ia sozinho, o que
era mais raro, pagava R$ 15,00.
Em geral o cacique
ia uma vez por mês a Humaitá, para compras e para resolver documentação. Por
exemplo, no cartório, para registrar nascimentos. A morte do cacique Ivan
Tenharim foi um momento-chave nos conflitos do fim de ano. Parte dos indígenas
levantou a hipótese de que não teria sido um acidente, o que foi repercutido
pelo então coordenador da Funai na região, Ivã Bocchini, que seria exonerado no
início de janeiro. Esse fato acabou sendo visto pela população de Humaitá como
motivo – uma suposta vingança – para o desaparecimento dos três brancos.
Bocchini e os outros funcionários da Funai tiveram de se refugiar em Porto
Velho.
Seu Tonico chamava
a mãe de Ivan Tenharim de comadre. “Ela gosta muito de mim”, ele conta. Diante
dos acontecimentos do fim de ano, porém, recusa-se a receber novamente
indígenas em seu hotel. “Prefiro perda total a tê-los aqui”. Ele atribui o
desaparecimento dos três brancos aos indígenas e diz que os Tenharim eram bons
“até o pedágio”, cobrado daqueles que atravessam a Terra Indígena. “Aí vieram
os moleques para estudar aqui, beber, fumar droga”, diz. Ao lado do ex-vereador
Cícero Pedro dos Santos, o Cição, conta histórias sucessivas de “abusos” em
relação ao pedágio. Segundo ele, as outras etnias não causariam problema
nenhum. “De toda maneira, sendo índio eu não quero aqui. Nunca”.
O pedágio se tornou
central na narrativa sobre os Tenharim. Mesmo Dom Francisco Merkel, o bispo de
Humaitá, considera a cobrança central para a origem do confronto. Difícil achar
um morador favorável à cobrança do que os Tenharim definem como compensação. Um
deles fez questão de entregar à reportagem um recibo de um Toyota, com carimbo
dos indígenas. “Cem reais”, revolta-se. “Cem reais!” O madeireiro Nelson
Vanazzi considera o frete da Transamazônica “o mais caro do Brasil”. “Os
madeireiros do 180 estão a cada dia com mais prejuízo”, afirma.
No momento, Humaitá
vive um apartheid. Após ficarem presos no quartel, nos dias que seguiram ao
Natal, os Tenharim voltaram antes do Ano Novo para a Terra Indígena. Não podem
retornar a Humaitá, mesmo que trabalhem na prefeitura. Não podem comprar
alimentos ou remédios. A hostilidade da maioria dos moradores ouvidos ocorre no
plural, em relação a todos os indígenas, não apenas aos que acusam de algum
crime.
A dor dos
parentes
Do lado dos
parentes dos desaparecidos, mais dor. A casa da avó de um deles, o vendedor
Luciano, virou uma espécie de QG dos parentes, em Humaitá. Lá estão a mãe e a
irmã dele, Luzimar e Luzineide, de Porto Velho. E lá passam o dia outros
parentes, como Célia Leal, mulher de Aldeney. O terceiro desaparecido, Stef, é
de Apuí, um município vizinho.
Muito chocadas, as
mulheres não falam muito. Ficam atentas às notícias e procuram dar força umas
às outras. Com os boatos, se acostumaram. (Houve várias notícias falsas sobre o
encontro de corpos esquartejados, “esquartejados vivos”, e assim por diante.)
Luzimar e Luzineide
contam que só na quinta-feira, dia 2, receberam uma visita do prefeito. A
pedido dos parentes. “Só hoje”, repetia Luzineide. Ele levou uma psicóloga e uma
assistente social. Luzineide: “Hoje”. No mesmo dia em que a Polícia Federal foi
pegar as roupas usadas para o trabalho dos cães. “Hoje”.
Luciano é descrito
pelas duas como um homem tranquilo, caseiro. Ele fez 30 anos na véspera de
Natal. A mãe mostra-se mais atordoada. E emocionada: “Meu coração diz que o
filho está vivo”. Alguém fala dos índios. Ela reage balançando a cabeça e
fazendo um barulho com os lábios: “Não posso nem ouvir a palavra índio, brrr”.
Embora critique o que considera proteção excessiva aos indígenas, a irmã de
Luciano, Luzineide se posiciona contra os protestos violentos – e incendiários
– do fim de ano. “Morte não se paga com morte. Para isso tem a justiça. Quero
que eles paguem. Só isso. O que queremos é paz”.
Célia aponta
Aldeney, gerente da Eletrobrás, como um romântico, um namorado à moda antiga.
“Homens choram de saudade dele, os cunhados choram”, conta Célia. Aldeney mora
em Humaitá, mas tem casa no “180”, o distrito de Santo Antônio de Matupi, e
todo fim de semana viaja para ficar com ela. Devota de Nossa Senhora Aparecida,
Célia diz que conversa com Deus para ganhar força. Por isso, a passeata
promovida pela Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no dia 1º, lhe
fez bem. “A gente se viu só”, diz.
“Tem que matar um por um”
Sobre a noite de
Natal, parece haver um consenso em Humaitá: teriam matado os indígenas se eles
estivessem na rua. “Tem de matar um por um”, afirmava uma motoqueira, no dia
30, em um bar perto da balsa. Também são muitos os que justificam os incêndios
contra bens públicos relacionados aos indígenas. “Achei que foi bem empregado
terem feito isso aí”, diz Seu Tonico, sobre os incêndios. “Moleques andavam
tudo noiados aí, de carro novo”. Boa parte dos moradores de Humaitá se refere
ao quebra-quebra com naturalidade, minimizando a violência. Para eles, se
tratou de uma forma de “chamar a atenção” das autoridades.
Essa expressão foi
uma das mais utilizadas no período em que a Pública esteve no
município. Mais comum que ela, só as frases sobre os “privilégios e regalias”
que seriam desfrutados pelos indígenas. Do discurso não fazem parte as muitas
outras ilegalidades em que a região é pródiga: crimes ambientais, grilagem,
matanças e perseguições.
Em um hotel lotado
de policiais, a reportagem foi procurada por um indígena que acabara de ser
expulso de casa. Não quis dar o nome, por segurança. “Queriam queimar minha
casa”, contou. Esse Tenharim nunca morou na aldeia. E mesmo assim sofre
retaliações. Na porta do hotel, de moto, um rapaz de camiseta branca nos encarava.
Diante de um olhar interrogativo, saiu, deu uma volta. Dali a pouco passava
novamente. E nos olhava com ódio.
Mesmo entre os que
pensam de outra forma, os preconceitos contra os indígenas se revelam
facilmente. “Se não deixarem voltar [para Humaitá] é uma ignorância”, afirma
Raimundo Nonato do Nascimento, vizinho da sede da Funai. Em seguida, acrescenta
que conhece “índios que trabalham”, reproduzindo o discurso da “preguiça”, que
estigmatiza os indígenas.
Em terra tenharim, o clamor é por investigação policial
Um dos únicos a não
fazer nenhum senão em relação aos indígenas foi o taxista que levou a
reportagem à Terra Indígena Tenharim Marmelos. “Estão no direito deles”, repetiu
várias vezes durante o percurso. Ali, a Públicafoi recebida por um
grupo de 20 indígenas, na manhã da quinta-feira, dia 3 de janeiro.
Ao ouvirem do
repórter as declarações de Seu Tonico, de que não aceitará mais indígenas em
seu hotel, os Tenharim ficaram em silêncio. Com os olhares fixos, chocados.
Aquele era o lugar onde eles ficavam em Humaitá. Não disfarçaram a decepção e
não souberam o que dizer. Mas falaram sobre os desaparecimentos, negando
qualquer responsabilidade.
Mais do que isso:
“Por que a Polícia Federal não abre outras linhas de investigação?”, perguntava
o cacique Ivanildo Tenharim. Ao contrário dos moradores de Humaitá, que os
acusam sem exigir provas, eles querem uma apuração mais ampla dos
desaparecimentos. “A PF está focada na aldeia e não mexe com os principais”,
dizem. “Com certeza quem fez isso está achando graça”.
Até o momento, nem
imprensa nem a polícia aventam a possibilidade de outra linha de investigação.
E os Tenharim apresentam outras hipóteses que mereceriam a atenção dos
investigadores. Falam de homens suspeitos que utilizam a Rodovia do Estanho,
que liga a Transamazônica a Machadinho D’Oeste, em Rondônia, e segue para o
Mato Grosso. A rodovia começa logo após a Terra Indígena, no quilômetro 150 –
muito perto de onde policiais localizaram um carro queimado que acreditam ser
dos desaparecidos. “É uma via de concentração de fugitivos”, afirmam. Eles
contam que esses homens teriam uma base em Santo Antônio do Matupi, no distrito
de Manicoré, mais conhecido como “180” – já que fica nesse quilômetro da
Transamazônica. Eles e muitas pessoas em Humaitá chamam o “180” de “vila dos
sem-lei”. É a terra de madeireiros, dos pecuaristas, símbolo da fronteira
agropecuária do sul do Amazonas.
Os Tenharim também
reivindicam segurança na reserva; segurança para os indígenas que residem em
Humaitá; segurança para quem vai temporariamente para a cidade; um Grupo de
Trabalho que aja para solucionar o problema. Doze servidores precisam voltar ao
trabalho – entre eles o próprio Ivanildo, coordenador de Educação Escolar
Indígena de Humaitá. “Estamos preocupados com o trabalho, não com o emprego”,
diz ele. “Temos prazos que podemos perder”.
Zelito Tenharim,
funcionário da Funai, reivindica a liberação de recursos para que a Coordenação
Regional do Madeira – cuja sede foi destruída no Natal – volte a funcionar. Ele
exige a segurança dos funcionários públicos e dos indígenas. “Que priorizem esta
situação que estamos passando”.
Também há pessoas
em tratamento que precisam ir ao médico todo mês. Caso dos hipertensos, como a
mãe de Domá Tenharim. “Não tem ninguém para medir a pressão dela”, diz ele. Os
indígenas estão usando medicamentos tradicionais, “mas o efeito é muito lento”.
Mesmo antes dos atentados aos prédios faltavam medicamentos, principalmente de
média e alta complexidade. Por isso, em relação aos casos mais complexos, os
Tenharim já resolveram: querem ser atendidos apenas em Porto Velho.
O cacique Aurélio
Tenharim faz questão de assinalar que não é por medo que estão deixando de ir a
Humaitá. “Estamos dando um tempo. A gente não quer confronto nem tragédia”. Por
isso eles pedem que os órgãos que trabalham com a população indígena atendam na
aldeia.
Pedágio ou compensação ambiental?
Ivanildo conta que
a Secretaria Especial de Saúde Indígena fez um levantamento, antes da
destruição de sua sede, e constatou que há muita desnutrição, entre crianças e
idosos. No dia da visita da reportagem à aldeia as crianças comiam milho e
mandioca. Dias depois Aurélio disse que já tinha acabado a carne de caça e
pesca.
Das 14 escolas, só
duas são de alvenaria. Três são de madeira. O resto funciona em casas, cedidas
pela comunidade. Estudante de Pedagogia na Universidade Federal do Amazonas,
Ivanildo quer a produção de material didático específico. Mas são necessários
técnicos. “Hoje os indígenas que têm escolaridade conseguem por esforço
individual, não por apoio do governo”.
Diante desse quadro
de abandono, os indígenas tomam suas próprias providências como a cobrança do
“pedágio”, que consideram um termo inadequado. “Para nós é cobrança de
compensação pelo usufruto da TI Tenharim”, define o cacique Aurélio Tenharim.
Ele diz que a cobrança, distribuída por todas as famílias, não veio para
enriquecê-los, mas para mitigar os problemas trazidos pela Transamazônica: “Ela
trouxe matança, doença, prostituição, escravos, invasão; é um imposto ambiental
e social”.
Segundo ele, um
levantamento do impacto social desde a abertura da rodovia foi feito e entregue
pelos Tenharim ao Ministério Público Federal no Amazonas e à Funai. “Está
documentado que isso foi analisado e proposto para o governo. Não tivemos
resposta”, conta.
Os Tenharim já
anunciaram que vão reconstruir os postos e recomeçar as cobranças em fevereiro.
Enquanto isso, em Humaitá, o comerciante Fernando Pereira de Maria afirma que
se o governo não tirar o pedágio vai ter de manter policiamento. “Senão vai ter
enfrentamento”, afirma. Fernando é dono do restaurante Na Brasa, na avenida
Transamazônica, um dos únicos da cidade. Como tal, acaba reunindo personagens
centrais dos conflitos em Humaitá. Por ali costumavam comer Luciano, Aldeney e
Stef, os três desaparecidos. E também o cacique Ivan Tenharim.
Dando nomes aos bois
Os Tenharim dão
nomes aos que incitaram a violência em Humaitá. Comerciantes, madeireiros,
políticos. Entre eles Adimilson Nogueira (DEM), prefeito de Apuí, o
vice-prefeito de Humaitá, Herivânio Freitas (PTN), e três vereadores de
Humaitá, Manicoré e Apuí. Entre os empresários, mencionam donos de supermercado
e donos de hotéis. No caso do 180, a “vila dos sem-lei”, os Tenharim apontam
Eduardo Gervásio, líder dos produtores rurais. “Ele chamou a população do 180
para invadir a aldeia”, denunciam. “O pessoal já vinha anunciando há dois dias
que ia queimar”, conta Zelito Tenharim. De imediato a gente ligou para a
presidência (da Funai). Mas a proteção demorou muito. Pensamos: será que isso
vai acontecer mesmo? E deu no que deu”.
Zelito e Aurélio
Tenharim contam detalhes sobre a ligação para o ministro Gilberto Carvalho, da
Secretaria-Geral da Presidência, e sobre conversa telefônica naquele dia 27 de
dezembro, com a participação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da
presidente interina da Funai, Maria Augusta Assirati. “Todos eles ouviram o
cacique Léo dizer: ‘Se as autoridades não se posicionarem, vai haver
derramamento de sangue”.
A primeira a ser
contatada, naquele dia, foi a Secretaria Especial de Direitos Humanos, que
funciona durante 24 horas. Os manifestantes, vindos de Santo Antônio do Matupi
e de Apuí, chegaram às 10 horas do dia 27. “As casas pegavam fogo e o povo
gritava na estrada”, relatam. Os guerreiros receberam a seguinte instrução:
“Não atirem enquanto eles não atirarem”. Ninguém atirou.
Os indígenas
observam que são chamados de bandidos e sequestradores pelos brancos de
Humaitá, “mas em nenhum momento, mesmo eles invadindo patrimônio público
utilizado pelos indígenas, a gente revidou”. E destacam: “Apenas ficamos na
aldeia. Porque a gente tem controle da comunidade”.
As fotos reunidas
pelos Tenharim da destruição da sede da Funai mostram pessoas mascaradas, ou
com o rosto coberto por capacetes. Segundo os indígenas, são principalmente
jagunços, contratados pelos comerciantes e fazendeiros. Também dizem que os
donos de supermercado deram R$ 1.000 para cada um dos homens que lideraram os
incêndios em Humaitá. “Eles que fizeram aquele estrago na Funai, no Sesai, no
barco e aqui na estrada”, afirmam. “O resto da população ficava assistindo,
fazendo número”.
Aurélio Tenharim é
incisivo a respeito: “Foram contratados. Não é uma versão, são fatos”. Eles
dizem que ficaram sabendo do pagamento aos jagunços por uma pessoa que foi
chamada para fazer o serviço e se recusou. “Quase foi linchado por isso”,
contam os Tenharim. “E o pessoal que gosta de indígenas contou que viram
arrecadar”.
Um nome desponta
como um dos mais mencionados entre os que incitaram a violência: o empresário
conhecido como Neguinho dos Cachorros, dono de açougue e dono da Agroboi. A
reportagem o procurou na Agroboi, em Santo Antônio do Matupi, mas ele não
estava.
Na cidade, a versão
é a de que não havia ninguém de fora durante os incêndios, que eram pessoas de
Humaitá, conhecidas. Os Tenharim também apontam um segurança de banco entre os
agressores. Uma foto mostra esse homem sendo imobilizado pela polícia. A
Polícia Federal também investiga os líderes da rebelião. Ao contrário da
investigação sobre os desaparecimentos, ela está sendo feita em silêncio. Até
agora não chegou aos jornais.
Macondo é aqui
Em meio a fatos
concretos, como o pedágio, e o desaparecimento de três pessoas, Humaitá virou
uma espécie de Macondo, em meio ao milagre da multiplicação de boatos. A cidade
imaginária do colombiano Gabriel García Márquez move-se a partir do fatalismo.
Como ninguém aventa
a possibilidade de que não tenham sido os indígenas os responsáveis pelos três
desaparecimentos, eles são retratados como vilões. E os moradores repetem as
mesmas frases, as mesmas histórias sobre eles. Que andam de Hilux. Que são
ricos. Que não pegam fila de banco nem de hospital. Que queimam todos os corpos
das pessoas que matam.
O boato mais
popular era o dos pajés. Que um pajé tinha informado que um carro preto
atropelara Ivan Tenharim. E por isso os Tenharim tinham matado as pessoas do
primeiro carro preto que viram. O repórter comenta com a advogada Altanira
Ulchoa, amiga dos parentes dos desaparecidos, que não há pajés entre eles. Ela
retruca: “Têm pajés, sim. O Seu Ramos disse que tem pajé lá e que se chama
Sadam”. Ela fala com ênfase, arregalando os olhos. E não está brincando:
realmente acredita que haveria um pajé chamado Sadam.
Aos boatos se soma
a desinformação. E um sentimento de inveja em relação ao que seriam
“privilégios” e “regalias” dos indígenas. As duas palavras são muito citadas.
Na saída de um cartório, um ex-advogado da prefeitura fez questão de falar das
tais regalias: “usam brinquinhos, caminhonetes”. “Se misturaram muito”. Outro
morador criticou o uso de piercing.Uma crítica muito recorrente é ao fato de
eles dizerem, segundo os brancos, que “são federais”. Ou seja, que só a Polícia
Federal poderia prendê-los.
Os Tenharim
respondem com um misto de indignação e sarcasmo a algumas das acusações. “Onde
é que tem um Hilux?”, perguntava Aurélio Tenharim na sexta-feira, 3 de janeiro.
Ele teve uma Saveiro queimada. “Os índios que possuem carro têm porque
trabalham com eles. Um dos Tenharim mostrou a casa sem cobertura. “Não tenho
dinheiro para comprar um Eternit, imagina Hilux”, disse Moisés Tenharim.
Em setembro, o
procurador Julio José Araujo Junior, do Ministério Público Federal, informava
sobre as “péssimas condições de conservação” da Casa de Saúde Indígena,
“oferecendo riscos de contaminação e desconforto aos pacientes em tratamento”,
sendo urgente nova estrutura de acomodação “para garantir condições dignas de
internação e eficiência nos tratamentos”. O mesmo Ministério Público proibiu,
após o Natal, a veiculação de conteúdo racista nos sites e blogs da região.
Eles se tornaram uma central de boatos – e de propagação do ódio contra
indígenas. No limite da incitação à violência.
Na sede da rádio
comunitária, a FM 104, comandada pelo madeireiro Nelson Vanazzi, a Polícia
Federal entrou e inquiriu o locutor. Para a indignação de Vanazzi, que acusou
os policiais de truculência.
A SEGUNDA PARTE DESTA REPORTAGEM SERÁ
PUBLICADA AMANHÃ
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