Por que a velha mídia e os cientistas se mostram surpresos com o vazio de nossos reservatórios e com a maior seca dos últimos 91 anos?
Quando cheguei pela primeira vez no município de SINOP, Mato Grosso, me perguntei o que isso significava. Então, me disseram que era uma sigla: Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná. O próprio site da prefeitura diz que a cidade se originou na década de 70 do século passado, pela política de ocupação da Amazônia Legal pelo Regime Militar.
Quando estive lá, a cidade era uma serraria atrás da outra, mas também me disseram que já tinha diminuído o número, já que a madeira estava acabando. Então, viria a soja para ocupar os espaços desmatados. Depois viria o gado. Por fim, terras abandonadas, imprestáveis para qualquer uso. Números dizem que o agronegócio deixou para trás cerca de 80 milhões de hectares de terras imprestáveis no território brasileiro.
Mas, o que o pessoal do Paraná foi fazer em SINOP? Foi levar o modelo de desenvolvimento que eles aplicaram no próprio estado décadas atrás. E o modelo, que sempre foi predador, continua predador. É o modelo que sulistas e sudestinos espalham também no Oeste Baiano.
Agora, com o licenciamento ambiental pornograficamente liberado, a grilagem das terras públicas liberada, então o avanço sobre a Amazônia tende a se acelerar e devastar o bioma como nunca na história desse país. No último mês de abril o desmatamento foi de 810 km2, o maior da série dos últimos dez anos (Imazon).
Então, acontece uma seca nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Aí vem a mídia, a Agência Nacional de Águas etc., para dizerem que passamos pela maior seca dos últimos “91 anos”. Se você destrói a floresta amazônica, fundamental no ciclo das águas que abastece o Brasil pelos Rios Voadores, como você vai querer que continue chovendo no Sul e no Sudeste? É como matar as árvores dos ovos de ouro. E matam.
Os cientistas já alertaram que, nessa latitude, no Chile há o deserto do Atacama, na África o deserto da Namíbia e na Austrália o deserto Australiano. Mas, mistério, chove à cântaros no Centro-Oeste brasileiro, nas regiões Sul e Sudeste, chegando até Uruguai, Paraguai e Argentina. Hoje se fala que a Amazônia chega até à Patagônia.
Então, matemática simples, como ligar lâmpada e interruptor, se o agronegócio continuar destruindo a Amazônia como está fazendo, a região Sul do Brasil, incluindo o norte da Argentina, viram deserto como o é em outras latitudes da Terra.
É uma escolha. E esses homens que dominam o Brasil escolheram o pior cenário. Novas secas virão, sempre mais terríveis e o deserto aguarda a todos ali na frente.
Primeiro relatório a traçar uma
trajetória para zerar emissões em 2050 diz que mundo não pode aprovar
novos projetos de óleo, gás e carvão já em 2021
O documento mais importante da política econômica do século 21
foi publicado nesta semana pela IEA (Agência Internacional de Energia).
Num relatório de 224 páginas produzido
por dezenas de especialistas do mundo inteiro, a IEA traçou pela
primeira vez o mapa do caminho sobre como zerar emissões líquidas de
gases de efeito estufa em 2050. E avisa: a trilha é estreita e o abismo
é profundo.
Dois recados
principais do relatório deveriam estar causando crises de ansiedade em
planejadores de energia mundo afora. O primeiro é que quase metade das
reduções de emissões a serem obtidas daqui a 35 anos vem de tecnologias
que ainda não entraram no mercado – que estão em protótipo ou em fase
de demonstração. É o caso de baterias avançadas, sistemas de produção
de hidrogênio e captura de CO2 do ar.
O segundo
recado, não menos importante, é que nenhum projeto novo de extração de
combustíveis fósseis pode acontecer no planeta a partir de 2021. Você
leu certo: a Agência Internacional de Energia, fundada em 1974 para
ajudar a gerir estoques de petróleo, está dizendo que o óleo e o gás
remanescentes em jazidas conhecidas no mundo deve permanecer no subsolo
daqui para a frente. Será preciso combinar com países como o Brasil,
que está em plena febre de leilões de óleo e gás.
Na trajetória
desenhada pela agência, o uso de combustíveis fósseis declina de quatro
quintos da matriz energética global hoje para um quinto em 2050. Dois
terços da energia mundial seriam fornecidos por renováveis. A
capacidade instalada de solar para isso precisaria chegar a 630 gigawatts por
ano até 2030. É quatro vezes o que o Brasil tem em todo o
seu sistema elétrico.
Devido a
ganhos de eficiência, o mundo chegaria a 2050 consumindo 8% menos
energia do que hoje, mas com uma economia duas vezes maior e 2 bilhões
de pessoas a mais no planeta.
A ver como o
documento será recepcionado em novembro na COP26, a conferência do
clima de Glasgow.
Se existe alguma virtude no atual governo é que ele é absolutamente transparente nos seus propósitos, ainda que seja uma perversa transparência. Como diz Jesus sobre os mercenários em uma de suas falas: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10,10).
Bolsonaro avisou na campanha que viria para destruir (voltar 50 anos na história) e que gostaria de ver mortos ao menos os 30 mil que a “ditadura torturou, mas não matou”. Esse propósito se materializa com os fatos, como os 400 mil mortos pela Covid19, mas também a fala expressa do ministro Paulo Guedes: “De acordo com o ministro, não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim ‘o avanço na medicina’ e ‘o direito à vida’ (Globo Economia). O ministro não tem pudores de dizer que a vida de muitas pessoas é um problema para a concepção que ele tem economia.
Para o ministro as únicas vidas que valem é a dos mercadores. O resto das vidas têm que ser sacrificadas no altar dos deuses do mercado. Pensadores como Jung Mo Sung e Franz Hincklammert já devassaram a alma sanguinária e sacrificial desses deuses. Mas, esses deuses têm uma característica pavorosa, isto é, são insaciáveis.
Mas, assim como Bolsonaro não fala sozinho, mas tem milhões de pessoas ainda sustentando suas práticas e seu discurso, Paulo Guedes também não fala sozinho. Ele é o ícone da “economia que mata” segundo o dizer do Papa Francisco: “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. (FRANCISCO, Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015).
Além de Guedes, agora a Câmara dos Deputados deleta a licença ambiental e quer instalar a grilagem aberta nas terras públicas. Bolsonaro não está só, ele é o ícone dessa direita extrema e implacável.
A mídia corporativa brasileira já nem fala em mercado, mas na Faria Lima. Além do personagem histórico, o que é a Faria Lima? Uma avenida em São Paulo, que junto com a Paulista, a Rebouças e a Nove de Julho fazem o quadrado dos Jardins na capital paulista. Isso quer dizer que Paulo Guedes representa uma avenida no Brasil, os mercadores da Faria Lima, onde estão estabelecidos os escritórios do mundo financeiro e as startups. É o Brasil pensado para uma avenida.
Podemos acusar Bolsonaro, Guedes e Sales de tudo, menos de que são enganosos em seus propósitos e em suas práticas. Eles são convictos no processo de destruição que promovem. Dizem abertamente a quem servem e o que fazem. E fazem.
Os cinco maiores bancos do país lucraram, apenas neste trimestre, R$ 23 bi, completamente livres de impostos. Seus patrimônios somados já ultrapassam o PIB brasileiro. Saída da crise requer regulamentação eficaz e tributação sobre o sistema financeiro
Publicado 11/05/2021 às 18:32 - Atualizado 11/05/2021 às 18:41
A cada nova divulgação dos resultados dos conglomerados que o integram, o sistema financeiro parece confirmar a crença, cada vez mais aceita, de que os mesmos vivem e atuam em um universo paralelo. É mesmo impressionante a sua capacidade de se manter à parte da desgraça toda que se abateu sobre a sociedade e sobre a economia brasileiras ao longo dessa terrível pandemia. As empresas do setor produtivo marcam índices inéditos de falências, o desemprego atinge recordes atrás de recordes, os indicadores de miséria avançam a cada dia, o Brasil volta ao mapa da fome e os lucros dos bancos não param de crescer.
É bem verdade que tal hegemonia arrasadora do financismo sobre todo o mundo real vem de muito longe. Não se trata de mais um fenômeno surgido na efervescência destruidora do coronavírus. Mas o fato concreto é que a crise atual, aprofundada pela doença desde março do ano passado, terminou por nos revelar, mais um vez, a natureza concentradora e desigual do nosso sistema econômico e social. Além dos recordes criminosos dos números de casos e mortes por covid, o período também deixou registradas as marcas daqueles que lucraram com o caos e o drama da tentativa desesperada da sobrevivência a que foi submetida a maioria da população.
Ao longo da presente semana foram divulgados os balanços dos resultados econômico-financeiros dos bancos para o primeiro trimestre de 2021. Para a surpresa generalizada de quem não acompanha esse movimento de perto e na rotina, os números exibem um setor que parece não estar nem aí para crise. O comércio tem perdido muito terreno, em especial os pequenos negócios. Os serviços foram afetados de forma brutal, com o encerramento de empresas e suas atividades. O setor industrial também vem perdendo capacidade, sofrendo falências e demitindo seus trabalhadores. Um dos poucos espaços econômicos que não foram tão afetados negativamente agrupam as empresas de atividades exportadoras, em especial aquelas vinculadas ao agronegócio.
O poder do financismo
Pois os bancos apresentaram balanços dignos de provocarem aquela reação que o dito popular chama de “vergonha alheia”. Senão, vejamos. Os 5 maiores conglomerados do setor incluem os 2 maiores bancos comerciais estatais federais. Assim, o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (CEF) figuram nessa lista, ao lado do Itaú-Unibanco, do Bradesco e do Santander. A tabela abaixo exibe os lucros de tais empresas apurados entre janeiro e março deste ano, bem como os valores relativos à mesma variável para igual período do ano passado.
5 Maiores Bancos – Lucro líquido – R$ bilhões
1º Trimestre 2020 e 2021
2020
2021
% crescimento
Itaú
3,91
6,4
64%
BB
3,4
4,91
44%
Bradesco
3,75
6,52
74%
Caixa
3
1,5
-50%
Santander
3,85
4,01
4%
Total
17,91
23,34
30%
Como se pode perceber, o quadro expõe com a crueza e a frieza dos números o retrato da espoliação. Apenas 5 instituições apresentaram um lucro líquido superior a R$ 23 bilhões em apenas 3 meses do presente ano. Além do valor bilionário do ganho apurado, chama atenção o crescimento observado em relação ao 2020. Como se sabe, os efeitos sociais, econômicos e sanitários da pandemia no Brasil só começaram a se fazer sentir de forma mais efetiva a partir do final de março. Assim, o primeiro trimestre de 2020 poderia ser considerado como um período “normal”. E mesmo assim, o lucro apurado 12 meses depois, o período mais dramático da covid-19, apresentou um crescimento nada desprezível. O lucro dos 5 maiores elevou-se em 30% ao longo do período.
Caso deixemos à parte o resultado da CEF e do Santander, os números são ainda mais impressionantes. A primeira teve redução do lucro (o que não significa prejuízo) e o crescimento dos ganhos do segundo foi relativamente e pequeno. Porém, Bradesco e Itaú alcançaram elevação de 74% e 64%, respectivamente. E esse desempenho não foi característico apenas da banca privada, uma vez que o BB cresceu 44% durante a pandemia. Vale observar que tais valores bilionários, quando transferidos a seus acionistas sob a forma de lucros e dividendos, estão isentos do recolhimento de imposto de renda. Uma loucura!
Gigantes e poderosos
No entanto, o crescimento do lucro apurado no primeiro trimestre de 2021 não reflete o ocorrido ao longo de todo o exercício de 2020. A tabela abaixo exibe os valores dos lucros anuais obtidos em 2020 e 2019. Assim, percebe-se uma queda dos valores dos ganhos dos 5 maiores bancos, ainda que os valores permanecem sendo bilionariamente elevados. No agregado dos maiores, percebe-se uma redução de 26% nos lucros anuais auferidos, caindo de R$ 107 bi para “apenas” R$ 79 bi. A incógnita permanece relativamente ao que deverá ocorrer ao longo dos 12 meses do presente ano na comparação com o anterior. Caso o desempenho do primeiro trimestre siga como tendência, é bem possível que 2021 apresente uma recuperação das diminuições observadas em 2020.
5 Maiores Bancos – Lucro líquido – R$ bilhões
2019 e 2020
2019
2020
% crescimento
Itaú
27
19
-30%
BB
18
14
-22%
Bradesco
26
19
-27%
Caixa
21
13
-38%
Santander
15
14
-7%
Total
107
79
-26%
De todas as maneiras, o desempenho das instituições financeiras guarda uma relação direta com suas respectivas dimensões. Assim, ainda que tenha ocorrido uma diminuição relativa dos lucros entre 2019 e 2020, o fato relevante é que o patrimônio dos bancos não cessou de crescer. A tabela abaixo nos oferece esse panorama. A média dos 5 maiores apresentou uma elevação de seus ativos da ordem de 17%, saindo de agregado de R$ 6,7 trilhões em 2019 para R$ 7,9 tri em 2020. Esse valor, a título comparativo, é maior do que o próprio Produto Interno Bruto (PIB) apurado para o mesmo ano no Brasil, que foi de R$ 7,4 tri.
Apesar de representarem variáveis de dimensões distintas, a relação entre o patrimônio dos 5 maiores bancos e o PIB jamais havia demonstrado a superioridade dos ativos da banca. Para tanto contribuiu o processo recessivo observado no país desde 2015, onde o desempenho do Produto ficou comprometido ou reduzido. Mas também colaborou o crescimento ininterrupto dos lucros e do patrimônio dos bancos. De qualquer forma, o fato reforça o argumento do crescimento desproporcional do poder do financismo, seja em termos econômicos, seja em termos políticos e institucionais.
Em um momento onde a maior parte dos países e a sociedade brasileira começam a discutir os rumos a serem adotados pelos atores globais no chamado período pós-pandemia, é essencial que sejam redefinidos os limites de atuação do sistema financeiro. Por um lado, para que haja maior eficácia nos mecanismos públicos de sua regulamentação, em direção oposta ao projeto de lei recentemente aprovado pelo Congresso Nacional, que pretende conferir independência ao Banco Central. De outro lado, por uma legislação que seja mais progressiva no sentido da tributação dos bancos, com o objetivo de forçá-los a oferecer uma maior contribuição para o desenvolvimento brasileiro.
Sucesso de documentário que expõe sem concessões a indústria da pesca sugere: cresce o incômodo com o capitalismo verde e a mídia suave. Muitos querem conhecer, além dos problemas, suas causas – e as formas de enfrentá-las
Publicado 27/04/2021 às 19:20 - Atualizado 27/04/2021 às 20:17
Por George Monbiot |Tradução: Simone Paz
Quando a BBC fez um filme sobre a crise dos oceanos, ela conseguiu, de algum jeito, evitar dar nome à maior causa dessa destruição ecológica: a indústria pesqueira. A única sequência significativa sobre a pesca no Blue Planet II, de 2017, era uma comovente história sobre como os barcos de arenque noruegueses eram gentis com as orcas. Assim, não se apresentava a pesca industrial como a maior ameaça à vida marinha, e sim como sua salvadora.
Isso é equivalente a fazer um filme sobre o colapso climático sem revelar o papel das empresas de combustíveis fósseis. Ops! Calma, que a BBC também fez isso, em 2006. Seu documentário “The Truth About Climate Change” mencionava as empresas de combustíveis fósseis apenas como parte da solução, porque uma delas vinha fazendo experiências com captura e armazenamento de carbono. Esses filmes não passam de um desabafo sobre um problema mal definido, seguido da sugestão de que deveríamos “fazer algo”, mas sem oferecer nenhuma pista do que poderia ser esse “algo”.
Eles também são sintomas de uma doença que aflige grande parte da mídia, a maior parte do tempo: a aversão a enfrentar o poder. Embora a BBC tenha feito depois alguns filmes melhores, eles ainda tendem a nos alienar dos ataques comerciais maciços que sofremos em nossos sistemas de suporte à vida, e a nos direcionar para as questões que eu chamo de “besteiras do micro-consumo” (MCB), como os canudos de plástico e os cotonetes. Vejo o MCB como uma atividade de deslocamento: um substituto para confrontar o poder econômico. Longe de salvar o planeta, ela nos distrai e despista dos problemas sistêmicos, prejudicando a ação efetiva.
A premissa central do neoliberalismo é poder deslocar o locus da tomada de decisão: das decisões coletivas democráticas para o indivíduo, utilizando o “mercado”. Em vez de usarmos a política para mudar e melhorar o mundo, podemos fazer isso por meio de nossas compras. Se os neoliberais acreditassem pelo menos em metade desse absurdo, eles nos garantiriam o máximo de conhecimento possível, para que pudéssemos exercer uma tomada de decisão eficaz nessa grande democracia do consumo. Em vez disso, a mídia nos mantém num estado de ignorância quase total sobre os impactos de nosso consumo.
Mas uma de nossas bolhas de ignorância acaba de ser furada. Com baixo orçamento, o primeiro filme de Ali Tabrizi e Lucy Tabrizi conseguiu realizar algo em que os gigantes da mídia repetidamente fracassaram: confrontar o poder diretamente. Seu filme Seaspiracy tornou-se um grande sucesso na Netflix em vários países, incluindo o Reino Unido (revelo: contribuí para a pesquisa da obra). Finalmente as pessoas começaram a prestar atenção para o surpreendente fato de que, quando imensas redes são arrastadas sobre o fundo do mar, ou quando se estendem linhas de anzóis com 45 quilômetros de comprimento, ou perseguimos implacavelmente espécies em declínio, estamos interferindo e abalando a vida do oceano.
O filme engana-se em algumas questões. Ele cita um artigo desatualizado sobre a data prevista para o colapso global da pesca. Dois de seus dados sobre capturas acidentais estão incorretos. Ele confunde o carbono armazenado pelas formas de vida com o carbono armazenado na água do mar. Mas o sentido da obra é correto: a pesca industrial, um assunto lamentavelmente negligenciado pela mídia e por grupos conservacionistas, está levando muitas populações de vida selvagem e ecossistemas do planeta ao colapso. Os grandes navios pesqueiros, de nações poderosas, ameaçam privar populações locais de sua subsistência. Muitas “reservas marinhas” são uma farsa total, pois a pesca industrial ainda é permitida dentro delas. Na UE, a intensidade da pesca de arrastão nas chamadas áreas protegidas é maior do que nos locais desprotegidos. “Frutos do mar sustentáveis” muitas vezes não são nada disso. A pesca comercial é a maior causa de morte e declínio de animais marinhos. Também pode ser extremamente cruel com os humanos: escravidão e outras formas graves de exploração do trabalho acontecem aos montes.
De acordo com a última avaliação da FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, apenas 6,2% das populações mundiais de peixes marinhos não são “totalmente pescadas”, nem pescadas em excesso, e ainda assim este percentual continua a diminuir. “Totalmente pescados” significa que os peixes estão sendo capturados em seu “máximo rendimento sustentável”, ou seja, no limite para não acabar com o estoque.
Este é um objetivo central na gestão da indústria da pesca. Mas do ponto de vista do ecologista, muitas vezes, ainda significa uma exploração excessiva. Como o trabalho do Professor Callum Roberts demonstra, as populações de peixes e outros animais marinhos eram muito maiores antes do início da pesca industrial, e o estado do fundo do mar, em muitas áreas, era totalmente diferente. Mesmo uma pesca “bem administrada”, com rendimentos máximos, impede a restauração de ecossistemas ricos e abundantes.
No entanto, sei que os detalhes também importam e, embora todos os filmes — assim como todo jornalismo, e toda ciência — cometam erros, devemos nos ater aos fatos. Então, por que os especialistas em indústria pesqueira que hoje reclamam sobre os erros no Seaspiracy não apontaram as deturpações e omissões muito mais graves no Blue Planet II e no Blue Planet Live (a série de 2019, da BBC)?
O Blue Planet Live levou essa “distração”, esse desvio, a um nível totalmente novo. Embora seu foco fosse principalmente o plástico, ele não mencionava a indústria de plásticos. Era como se o plástico, o colapso climático e a pressão pesqueira tivessem se materializado no ar, do nada. Enquanto desviava de interesses poderosos, a maioria das soluções propostas eram pequenos curativos tecnológicos: resgatar focas órfãs, semear corais, remover anzóis da boca de tubarões. Algumas de suas afirmações não só eram erradas, mas hilárias. Por exemplo, afirmava que poderíamos “livrar nossos oceanos do plástico” limpando as praias.
Então, por que esse silêncio todo? Talvez porque alguns cientistas da pesca, como apontou o grande biólogo Ransom Myers, tenham se identificado com a indústria da qual depende seu sustento. Embora pareçam contentes com as distorções ultrajantes que favorecem a a pesca industrial, ficam furiosos com erros muito menores que a desfavorecem.
Me parece que o problema é simbolizado por duas palavras com as quais eu sempre me deparo em artigos científicos e oficiais: “subpescado” e “subexplorado”. Estes são os termos que os cientistas da pesca usam para as populações que não são “totalmente pescadas”. As palavras que as pessoas usam expõem a maneira como pensam — e que palavras poderosas, iluminadoras e horríveis são essas! Elas parecem pertencer a outra época, quando acreditávamos na doutrina do domínio: os humanos têm o dever sagrado de conquistar e explorar a Terra. Eu suspeito que algumas pessoas estejam furiosas porque o Seaspiracy não expõe apenas negligência, mas toda uma visão de mundo.
É hora de olharmos para os oceanos sob outra luz: tratar os peixes não como frutos do mar, mas como animais selvagens; ver suas sociedades não como estoques, mas como populações; e suas redes alimentares marinhas não como pescarias, mas como ecossistemas. É hora de vermos sua existência como uma maravilha da natureza, ao invés de uma oportunidade para a exploração. É hora de redefinirmos nossa relação com o planeta azul.
Se teu deus é opressor, tu terás uma espiritualidade opressora e vais procurar uma comunidade religiosa de opressores;
Se teu deus é violento, tu terás uma espiritualidade violenta e tua comunidade religiosa será de pessoas violentas;
Se teu deus é egóico, ou egoísta, tua espiritualidade será egóica, e até egoísta, e tua comunidade religiosa será egóica e egoísta;
Se teu deus é o dinheiro, tua espiritualidade será argentária, e tua comunidade só falará do demônio e do dízimo para encher as burras dos chefes religiosos;
Se teu deus é dos ricos e poderosos, tua espiritualidade será indiferente aos pobres e descartados, e tua comunidade será indiferente ao sofrimento das pessoas, inclusive da morte por Covid19;
Se teu deus está acima de tudo e de todos, tua espiritualidade te fará sentir-te melhor e acima de tudo e de todos, e tua comunidade vai se considerar acima de tudo e de todos;
Se teu deus é justo e solidário, tua espiritualidade será justa e solidária, e tu participarás de uma comunidade onde as pessoas tentam ser justas e solidárias;
Se teu deus é misericordioso, tua espiritualidade será misericordiosa, não julgarás, não condenarás, e tua comunidade será inclusiva e aberta à toda a humanidade e à toda criatura;
Se teu deus é amor, tua espiritualidade será amorosa com todas as pessoas e com toda a obra criada por Deus, respeitarás cada pessoa humana e cada criatura e tua comunidade de pertença será amorosa com todas as criaturas;
Se teu deus é um demônio, tua espiritualidade será demoníaca e tua comunidade será seguidora de tudo e todos que professam e difundem o mal;
Se teu deus é o amor, a justiça, a misericórdia, a solidariedade, a paz, então tu serás um seguidor de Jesus de Nazaré.
sexta-feira, 9 de abril de 2021
MINHA AUSÊNCIA NESTE BLOG FOI PROVOCADO POR PROBLEMA DE SAÚDE QUE ME AFASTOU DE QUALQUER ATIVIDADE POR UM MÊS.
RETOMO, CONTUDO, CHAMANDO ATENÇÃO A ESSE BOM ARTIGO. ELE INDICA COMO O NEOLIBERALISMO, AINDA IMPERANTE NO BRASIL, JÁ ESTÁ SENDO ABANDONADO E CONSIDERADO UMA IDEIA MALDITA, NA VERDADE INDICADOR DA VITÓRIA DO 0,1% NA ATUAL LUTA DE CLASSES, COMO FALOU UM DE SEUS INTEGRANTES.
LEIA, REFLITA E VEJA COMO PODEMOS E DEVEMOS COLOCAR ISSO EM DEBATE ANTES DAS ELEIÇÕES DE 2022, PARA QUE ALGUM PARTIDO OU COLIGAÇÃO APRESENTE À CIDADANIA A POSSIBILIDADE DE APOIAR A SAÍDA DA PRÁTICA DESSA IDEIA MALDITA - PELO MENOS SEGUINDO O EXEMPLO DOS ESTADOS UNIDOS!
Os últimos suspiros de uma ideia maldita
Debate econômico brasileiro tornou-se
anacrônico ao extremo, mostra o leilão dos aeroportos. Mas este atraso
não persistirá, pois apoia-se num projeto mortibundo — o neoliberalismo fiscal. Basta olhar para a Ásia e os próprios Estados Unidos
Publicado 08/04/2021 às 17:33 - Atualizado 09/04/2021 às 07:16
Por Antonio Martins | Imagem: Frans Fanken, Alegoria da Morte do Rico (séc. XVII, detalhe)
“Os Estados, assim
como as famílias, podem gastar apenas o que arrecadam. As tentativas
de burlar esta regra recebem punição justa e dolorosa dos
mercados”. Durante quatro décadas, esta metáfora infantil e
insustentável dominou o debate econômico no Ocidente. Por acreditar
nela, o ministro Tarcísio Delgado, da infraestrutura sentiu-se
herói, na tarde de quarta-feira (7/4), ao bater
o martelo no leilão que concedeu 22 aeroportos públicos a
grandes grupos financeiros, arrecadando míseros R$ 3,3 bilhões.
Outro ministro, Paulo Guedes, chegou
a afirmar que as privatizações são indispensáveis para pagar
o auxílio emergencial e combater a pandemia. Por isso, o leilão
prosseguirá
até 10/4.. Entregará mais quatro portos e um trecho da ferrovia
leste-oeste. Para tentar associá-lo a algo contemporâneo, o governo
deu-lhe nome que remete à moda. Chama-o de “Infra Week”…
Mas na terra do
Consenso de Washington, a bossa agora é outra. Em 31 de março, Joe
Biden anunciou um novo mega-plano de investimentos públicos, de 2,3
trilhões de dólares –
3903 vezes maior que
as moedas esmoladas por Tarcísio. Financiará um gigantesco plano de
renovação da infraestrutura (com
ênfase na transição para
energias limpas e na redução
das emissões de CO²) e de
investimentos em ciência e
tecnologia. Gerará milhões (sim,
você leu milhões) de
empregos não-precarizados (“union
jobs”). Está associado a
uma lei (PRO
Act, acrônimo em inglês de
Proteção do Direito de Organização) que restitui
inúmeros direitos
trabalhistas e sindicais erodidos pelo neoliberalismo.
E
tudo isso é apenas parte de
um programa maior. Começou com um primeiro pacote de US$ 1,9
trilhão, anunciado logo nos primeiros dias do governo de Biden, para
socorrer as famílias (com cheques de US$ 1,6 mil, ou R$ 8,9 mil); os
municípios (condados, nos EUA) e estados endividados; as pequenas e
médias empresas. E deverá evoluir, nas próximas semanas, para um
terceiro estímulo, mais cerca de US$ 1 trilhão, agora destinado a
restaurar os serviços de cuidado,como
creches e atenção a idosos. Os segundo
e terceiro projetos ainda
precisarão
de aprovação do Congresso, mas
o conjunto da obra já está
provocando uma reviravolta política. Mesmo num país até há pouco
hiperpolarizado, o primeiro pacote teve apoio
de 69% da população. O Partido Repúblicano, que o rechaçou
por cacoete ideológico, sofreu forte desgaste. Ninguém mais fala em
Donald Trump nos Estados
Unidos, nota
o repórter Guga Chacra.
Por que Guedes e Tarcísio mendigam trocados, se os Estados podem
criar moeda nacional fartamente, emitindo dinheiro ou títulos de sua
dívida? E quando a nova onda chegará ao Brasil? A primeira pergunta
convida a lembrar que a Economia jamais foi uma ciência exata. O
neoliberalismo fiscal triunfou por décadas porque atendia aos interesses
de uma classe emergente – a oligarquia financeira – e porque esta
sentia-se empoderada para impor seus interesses. “Há uma luta de
classes, e a minha está vencendo”, disse
o mega-especulador Warren Buffett, em 2014. O reinado absoluto do 0,1%
apoiou-se em dois fracassos: a crise do Estado de Bem-Estar Social e da
social democracia, no início dos anos 1970; e o colapso do socialismo
soviético, quase vinte anos depois. Os muito ricos, que haviam sido
obrigados a muitas concessões no pós-II Guerra, sentiram que era hora de
sua vingança.
Quarenta anos
depois, dois fatores estão reembaralhando as cartas. O primeiro é o
avanço da China e a ameaça à ordem eurocêntrica. No Ocidente, a
desigualdade agradou aos bilionários mas achatou o poder de consumo
das maiorias. Levou a economias estagnadas e à grande crise de 2008.
Porém, o Consenso de Washington nunca seduziu a Ásia. Os chineses
abriram-se a relações capitalistas e a empresas estrangeiras, mas
nunca permitiram que nem umas, nem outras, controlassem sua economia.
O mesmo ocorreu com o Vietnã, a Coreia do Sul ou Taiwan, por
exemplo. A diferença de resultados é brutal e vai muito além dos
números do PIB. Escancara-se, por exemplo, quando se observam os
efeitos da pandemia de covid. Ao contrário do Ocidente, onde imperou
a “liberdade” do poder econômico, os governos asiáticos
coordenaram lockdowns rigorosos, eficazes e relativamente
breves. O gráfico abaixo, que compara os números acumulados de
mortes por milhão de habitantes expõe o contraste abismal das
consequências.
Número
de mortes acumuladas desde o início da pandemia, por milhão de
habitantes. O índice de óbitos da Coreia do Sul é 50 vezes menor que o
da Espanha; o da China, 500 vezes menor que o doe EUA; e o do Vietnã, 4
mil vezes menor que o do Brasil e 5 mil vezes menor que o do Reino Unido
ou da Itália (Fonte: “Our World in Data”, 7/4/2020)
E os novos ares –
chegarão ao Brasil? A experiência histórica também ensina muito a
respeito. Biden, um membro da ala conservadora do Partido Democrata,
não tirou da cartola sua heterodoxia atual, nem a importou
diretamente de Pequim. Ela é fruto de uma instigante construção
política coletiva, cujos expoentes visíveis são Jeremy Corbyn,
Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Em 2015, Corbyn, então
líder do Partido Trabalhista britânico, notou que, embora
sustentassem a fábula que equipara os Estados às famílias, os
governos e os bancos centrais do Ocidente imprimiam, havia anos,
montanhas de dólares para socorrer o sistema financeiro em crise. Se
isso era possível, indagou
ele, o que impedia a emissão de dinheiro para os serviços
públicos, obrigados à penúria e decadência? Nos EUA, Sanders
baseou suas duas campanhas eleitorais em propostas que estabeleciam a
supremacia do Comum e desafiavam a oligarquia financeira. Falou na
Saúde e Universidade gratuitas para todos e no cancelamento das
dívidas estudantis. Partiu de uma posição marginal no Partido
Democrata para quase obter a candidatura à Casa Branca.
Ocasio-Cortez ampliou e aprofundou as propostas do senador ao lançar,
em 2018, a ideia do Green
New Deal. E a mobilização prossegue. Num texto
publicado há uma semana, o Sunrise Movement – um dos grupos que
compõem uma nova esquerda nos EUA, comemora os programas de Bidenm
mas aponta suas insuficiências. Mais importante: convoca a manter o
governo sob pressão, para evitar que a ousadia atual de Biden seja
neutralizada pelas artimanhas do sistema político.
Parecem fatos e
ideias de outro planeta, num Brasil afundado em pandemia e
pandemônio. Talvez, aqui as elites sejam especialmente poderosas.
Talvez, os partidos de esquerda tenham esquecido a formulação e o
debate programáticos e se voltado quase exclusivamente a uma disputa
institucional inférti. Epur si muove! O
leilão da infraestrutura é um episódio tão anacrônico que nem
Bolsonaro, nem Paulo Guedes, participaram dele na
quarta-feira. A mídia, antes
entusiasta das privatizações, desta vez quase as escondeu. No
momento, governo e sua base
parlamentar engalfinham-se numa disputa patética e sem fim em torno
do Orçamento – exatamente por terem-no concebido com base no conto
da carochinha neoliberal.
Breve, o Brasil se
verá como as nações que acordam na ressaca de uma guerra
devastadora. Será preciso fazer o luto e começar a reconstrução.
Então surgirá a brecha para os novos ventos.