quarta-feira, 8 de abril de 2020

PAPA FRANCISCO: UM TEMPO DE GRANDE INCERTEZA

ESTÁ AQUI UM BELA LEITURA HUMANO-TEOLÓGICO-ESPIRITUAL DA PAIXÃO, CONDENAÇÃO À MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS NESSE TEMPO DE PANDEMIA. VERIFIQUEM SE TENHO OU NÃO RAZÃO DE ANUNCIAR ISSO EM RELAÇÃO AO QUE O PAPA FRANCISCO NOS DIA NESSA ENTREVISTA.

IHU - 08 Abril 2020

Em uma entrevista exclusiva ao The Tablet – a sua primeira para uma publicação britânica – o papa Francisco fala que essa extraordinária Quaresma e Tempo Pascal pode ser um momento de criatividade e conversão para a Igreja, para o mundo e para toda a criação.

Próximo ao final de março, sugeri ao papa Francisco que este poderia ser um bom momento para se dirigir ao mundo da língua inglesa: a pandemia que tanto afetou a Itália e a Espanha estava chegando ao Reino Unido, aos Estados Unidos e à Austrália. Sem compromisso com nada, ele me pediu para que lhe enviasse algumas questões. Eu escolhi seis temas, cada um com uma série de questões que ele poderia responder ou não, conforme ele quisesse. Uma semana depois, recebi o comunicado de que ele escreveu algumas reflexões em resposta às questões.

A entrevista é de Austen Ivereigh, autor da biografia do papa Francisco, intitulada, em português, "O Grande Reformador", publicada por The Tablet, 07-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A entrevista também é publicada por Commonweal, EUA, e pelo jornal ABC, Espanha.

 Eis a entrevista.

A primeira questão foi sobre como ele estava vivenciando a pandemia e o lockdown, ambos na residência Santa Marta e na administração do Vaticano (“a Cúria”), mais amplamente, tanto na prática quanto na espiritualidade.

A Cúria está tentando fazer o seu trabalho, e vive normalmente, se organizando em escalas, para que não estejam todos presentes ao mesmo tempo. Isso tem funcionado bem. Nós estamos aplicando as medidas recomendadas pelas autoridades de saúde. Aqui na residência Santa Marta nós temos duas escalas para as refeições, o que nos ajuda a amenizar o impacto. Todos trabalham em seus escritórios ou salas, usando a tecnologia. Todos estão trabalhando; não há infectados aqui.

Como eu estou vivendo a espiritualidade? Eu estou rezando mais, porque eu sinto que devo. E eu penso no povo. Isso é o que me preocupa: o povo. Pensando no povo , isso me faz bem, isso tira a preocupação de mim. Claro, eu tenho minhas áreas de egoísmo. Nas terças-feiras meu confessor vem, e cuido dessas coisas.

Eu penso nas minhas responsabilidades de agora e o que virá depois. O que será do meu serviço como bispo de Roma, como chefe da Igreja, depois disso? O depois já está começando a ser revelado como trágico e doloroso, é por isso que nós precisamos pensar sobre isso já. O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral vem trabalhando nisso, e está se reunindo comigo.

Minha maior preocupação – ao menos o que vem através da minha oração – é como acompanhar e estar próximo do povo de Deus. Mesmo que o streaming ao vivo da missa às 7h da manhã, celebrada todos os dias, seja apreciado e seguido por muitas pessoas, assim como a benção do dia 27 de março na Praça São Pedro. Mesmo que as atividades de caridade do escritório papal atendam aos doentes e aos famintos.
Eu estou vivendo este como um tempo de grande incerteza. Este é o tempo para inventar, para a criatividade.

Na segunda questão, eu referenciei uma novela do século XIX, muito querida pelo papa Francisco, a qual ele recentemente mencionou: I Promessi Sposi (Os noivos), de Alessandro Manzoni. A novela centra-se sobre a praga de Milão em 1630. Aqui estão vários personagens clericais: o covarde dom Abbondio, o cardeal Borromeo e o frei capuchinho que serve aos lazarentos, uma espécie de hospital de campanha, no qual os infectados estão rigorosamente longe da saúde. Sob a luz da novela, como o papa Francisco vê a missão da Igreja no contexto da covid-19?

O cardeal Federigo Borromeu realmente é um herói da praga de Milão. Em um dos capítulos, ele saúda a cidade, mas com a janela da carruagem fechada para proteger a si mesmo. Ele não se sai bem com o povo. O povo de Deus precisa do seu pastor próximo a eles, não superprotegendo a si mesmo. O povo de Deus necessita dos seus pastores fazendo autossacrifício, como os Capuchinhos, estando próximos.

A criatividade dos cristãos precisa mostrar novos horizontes, abrindo as janelas, abrindo a transcendência em direção a Deus e ao povo e criando novas formas de estar em casa. Não é fácil estar confinado na sua casa. O que me vem à mente é um verso de Eneida em meio à derrota: o conselho é não desistir, mas salvar a si mesmo para os tempos melhores, por isso relembrar o que aconteceu naqueles tempos nos ajudará. Cuidem-se para um futuro que virá. E lembrar no futuro o que aconteceu fará bem a você.

Cuide do agora, pelo bem de amanhã. Sempre criativamente, com uma criatividade simples, capaz de inventar algo novo a cada dia. Dentro de casa, isso não é difícil de descobrir, mas não fuja, não se refugie no escapismo, que neste momento não é útil para você.

Minha terceira questão foi sobre políticas governamentais em resposta à crise. Embora a quarentena da população seja um sinal de que alguns governos estão dispostos a sacrificar o bem-estar econômico em benefício das pessoas vulneráveis, sugeri que também estivesse expondo níveis de exclusão considerados normais e aceitáveis até agora.

É verdade que vários governos adotaram medidas exemplares para defender a população com base em prioridades claras. Mas estamos percebendo que todo o nosso pensamento, goste ou não, foi moldado em torno da economia. No mundo das finanças, parecia normal sacrificar [pessoas], praticar uma política da cultura descartável, do começo ao fim da vida. Estou pensando, por exemplo, na seleção pré-natal. Hoje em dia, é muito incomum conhecer pessoas com Síndrome de Down nas ruas; quando o tomógrafo os detecta, eles são descartados. É uma cultura de eutanásia, legal ou secreta, na qual os idosos estão recebendo medicamentos, mas só até certo ponto.

O que vem à mente é a encíclica Humanae Vitae do papa Paulo VI. A grande controvérsia da época era sobre a pílula [contraceptiva], mas o que as pessoas não percebiam era a força profética da encíclica, que previa o neo-malthusianismo que estava começando a acontecer em todo o mundo. Paulo VI soou o alarme sobre essa onda de neo-malthusianismo. Vemos isso na maneira como as pessoas são selecionadas de acordo com sua utilidade ou produtividade: a cultura do descarte.

Agora mesmo, os sem-teto continuam sem-teto. Uma foto apareceu no outro dia de um estacionamento em Las Vegas, onde eles foram colocados para a quarentena. E os hotéis estavam vazios. Mas os sem-teto não podem ir a um hotel. Essa é a cultura do descarte na prática.

Fiquei curioso para saber se o Papa viu a crise e a devastação econômica como uma chance de uma conversão ecológica, de reavaliar prioridades e estilos de vida. Perguntei-lhe concretamente se era possível ver no futuro uma economia que – para usar suas palavras – era mais “humana” e menos “líquida”.

Há uma expressão em espanhol: “Deus sempre perdoa, nós perdoamos as vezes, mas a natureza nunca perdoa”. Não respondemos às catástrofes parciais. Quem agora fala dos incêndios na Austrália, ou lembra que há 18 meses um barco poderia atravessar o Polo Norte porque todas as geleiras haviam derretido? Quem fala agora das inundações? Não sei se é a vingança da natureza, mas certamente são as respostas da natureza.

Temos uma memória seletiva. Eu quero me debruçar sobre este ponto. Fiquei impressionado com a comemoração do septuagésimo aniversário do desembarque na Normandia, com a presença de pessoas dos mais altos níveis de cultura e política. Foi uma grande festa. É verdade que marcou o início do fim da ditadura, mas ninguém parecia se lembrar dos 10 mil jovens que permaneceram naquela praia.

Quando fui a Redipuglia, pelo centenário da Primeira Guerra Mundial, vi um belo monumento e nomes em uma pedra, mas foi isso. Eu chorei, pensando na frase de Bento XV: inutile strage (“massacre sem sentido”). O mesmo aconteceu comigo em Anzio no dia de Finados, pensando em todos os soldados norte-americanos enterrados lá, cada um deles com uma família e como qualquer um deles poderia ter sido eu.

Neste momento na Europa, quando começamos a ouvir discursos populistas e testemunhar decisões políticas desse tipo seletivo, é muito fácil lembrar os discursos de Hitler em 1933, que não eram tão diferentes dos discursos de alguns políticos europeus atualmente.

O que vem à mente é outro versículo de Virgílio: [forsan et haec olim] meminisse iubavit - “talvez um dia seja bom lembrar dessas coisas”]. Precisamos recuperar nossa memória porque a memória virá em nosso auxílio. Não é a primeira praga da humanidade, as outras tornaram-se meras anedotas. Nós precisamos lembrar de nossas raízes, de nossa tradição repleta de memórias. Nos exercícios espirituais de Santo Inácio, na Primeira Semana, bem como na “Contemplação para alcançar o Amor”, na quarta semana, são completamente lembrados. É uma conversão através da memória.

Essa crise está afetando a todos nós, ricos e pobres, e colocando em foco a hipocrisia. Estou preocupado com a hipocrisia de certas personalidades políticas que falam em enfrentar a crise, no problema da fome no mundo, mas que, entretanto, fabricam armas. Este é um momento para ser convertido a partir desse tipo de hipocrisia funcional. É hora de integridade. Ou somos coerentes com nossas crenças ou perdemos tudo.

Você me pergunta sobre conversão. Toda crise contém perigo e oportunidade: a oportunidade de sair do perigo. Hoje acredito que temos que diminuir nossa taxa de produção e consumo (Laudato Si’, 191) e aprender a entender e contemplar o mundo natural. Precisamos nos reconectar com nosso ambiente real. Esta é a oportunidade de conversão.

Sim, vejo sinais precoces de uma economia menos líquida, mais humana. Mas não vamos perder nossa memória depois que tudo isso tiver passado, não vamos arquivá-la e voltar para onde estávamos. Este é o momento de dar o passo decisivo, de passar do uso e mau uso da natureza para a contemplação. Perdemos a dimensão contemplativa; temos que recuperá-la neste momento.

E por falar em contemplação, gostaria de me debruçar sobre um ponto. Este é o momento de olhar para os pobres. Jesus diz que sempre teremos os pobres conosco, e é verdade. Eles são uma realidade que não podemos negar. Mas os pobres estão escondidos, porque a pobreza é tímida. Recentemente, em Roma, no meio da quarentena, um policial disse a um homem: “Você não pode estar na rua, vá para casa”. A resposta foi: “Não tenho casa. Eu moro na rua”. Descobrir o enorme número de pessoas que estão à margem... E não as vemos, porque a pobreza é tímida. Eles estão lá, mas nós não os vemos: eles se tornaram parte da paisagem; são coisas.

Santa Teresa de Calcutá os viu e teve a coragem de embarcar em uma jornada de conversão. “Ver os pobres” significa restaurar sua humanidade. Eles não são coisas, não são descartáveis; eles são pessoas. Não podemos nos contentar com uma política de bem-estar como a que temos para animais resgatados. Muitas vezes tratamos os pobres como animais resgatados. Não podemos nos contentar com uma política de bem-estar parcial.

Vou me atrever a oferecer alguns conselhos. Este é o momento de ir ao subterrâneo. Estou pensando no romance curto de Dostoiévski, Memórias do Subsolo. Os funcionários daquele hospital prisional ficaram tão acostumados que trataram seus pobres presos como coisas. E, vendo a forma em que tratava alguém que acabara de morrer, o que estava na cama ao lado lhes diz: “Basta! Ele também teve uma mãe!”. Precisamos dizer isso a nós mesmos com frequência: aquela pobre pessoa teve uma mãe que o criou com amor. Ao decorrer da vida não sabemos o que acontece. Mas é bom pensar no amor que ele recebeu pela esperança de sua mãe.

Nós desempoderamos os pobres. Não lhes damos o direito de sonhar com suas mães. Eles não sabem o que é carinho; muitos vivem das drogas. E vê-los pode nos ajudar a descobrir a piedade, as "pietás", que apontam para Deus e para o próximo.

Desçamos ao subterrâneo e passemos do mundo hiper-virtual e sem carne para o sofrimento da carne dos pobres. Esta é a conversão que temos que passar. E se não começarmos por aí, não haverá conversão.

Hoje estou pensando nos santos que moram ao lado. Eles são heróis: médicos, voluntários, irmãs religiosas, padres, lojistas – todos cumprindo seu dever para que a sociedade possa continuar funcionando. Quantos médicos e enfermeiros morreram! Quantas irmãs religiosas morreram! Todos servindo... O que me vem à mente é algo dito pelo alfaiate, na minha opinião, um dos personagens com maior integridade em Os noivos. Ele diz: “O Senhor não deixa seus milagres pela metade”. Se tomarmos consciência desse milagre dos santos da porta ao lado, se pudermos seguir seus rastros, o milagre terminará bem, para o bem de todos. Deus não deixa as coisas pela metade. Somos nós que fazemos isso.

O que estamos vivendo agora é um lugar de metanoia (conversão), e temos a chance de começar. Então, não vamos deixar escapar isso, e vamos seguir em frente.

Minha quinta questão é centrada nos efeitos da crise sobre a Igreja, e a necessidade de repensar nossas formas de operar. Ele vê emergir uma Igreja mais missionária, mais criativa, menos preocupada com as instituições, a partir disso? Estamos vendo uma nova forma de “Igreja nas casas”?

Menos apegado às instituições? Eu diria menos apegado a certas maneiras de pensar. Porque a Igreja é instituição. A tentação é sonhar com uma igreja desinstitucionalizada, uma igreja gnóstica sem instituições ou sujeita a instituições fixas, que seria uma igreja pelagiana. Quem faz a Igreja é o Espírito Santo, que não é gnóstico, nem pelagiano. É o Espírito Santo que institucionaliza a Igreja, de uma maneira alternativa e complementar, porque o Espírito Santo provoca desordem através dos carismas, mas daí a desordem cria harmonia.

Uma igreja que é livre não é uma igreja anárquica, porque a liberdade é um presente de Deus. Uma igreja institucional significa uma igreja institucionalizada pelo Espírito Santo.

Uma tensão entre desordem e harmonia: esta é a Igreja que deve sair da crise. Temos que aprender a viver em uma igreja que existe na tensão entre harmonia e desordem provocada pelo Espírito Santo. Se você me perguntar qual livro de teologia pode melhor ajudá-lo a entender isso, seriam os Atos dos Apóstolos. Lá você verá como o Espírito Santo desinstitucionaliza o que não é mais útil e institucionaliza o futuro da Igreja. Essa é a Igreja que precisa sair da crise.

Cerca de uma semana atrás, um bispo italiano, um tanto perturbado, me ligou. Ele andava pelos hospitais querendo dar absolvição àqueles dentro das enfermarias do corredor do hospital. Mas ele conversou com advogados canônicos que lhe disseram que não, que a absolvição só poderia ser dada em contato direto. “O que você acha, padre?”, me perguntou. Eu disse a ele: “Bispo, cumpra seu dever sacerdotal”. E o bispo disse “Grazie, ho capito” (“Obrigado, eu entendi”). Descobri depois que ele estava dando absolvição por todo lugar.

Esta é a liberdade do Espírito no meio de uma crise, não uma Igreja fechada em instituições. Isso não significa que o direito canônico não seja importante: é, ajuda e, por favor, façamos bom uso dele, é para o nosso bem. Mas o cânone final diz que toda a lei canônica é para a salvação das almas, e é isso que abre a porta para sairmos em momentos de dificuldade para trazer o consolo de Deus.

Você me pergunta sobre uma “igreja local”. Temos que responder ao nosso confinamento com toda a nossa criatividade. Podemos ficar deprimidos e alienados – através da mídia que pode nos tirar da realidade – ou podemos ser criativos. Em casa, precisamos de uma criatividade apostólica, uma criatividade despida de tantas coisas inúteis, mas com um desejo de expressar nossa fé na comunidade, como povo de Deus. Então: estar preso, mas ansioso, com aquela memória que anseia e gera esperança – é isso que nos ajudará a escapar de nosso confinamento.

Por fim, pergunto ao papa Francisco como está sendo o chamado para viver essa Quaresma e Tempo Pascal extraordinários. Perguntei se ele tinha uma mensagem particular aos idosos que estão sofrendo com o auto-isolamento, para os jovens confinados, e para aqueles que encaram a pobreza como resultado da crise.

Você fala dos idosos isolados: solidão e distância. Quantos idosos existem cujos filhos não vão visitá-los em tempos normais! Lembro-me de Buenos Aires, quando visitava as casas de idosos, e perguntava: como está sua família? Bem, bem! Eles vêm? Sim, sempre! A enfermeira me chamava de lado e dizia que as crianças não as viam há seis meses. Solidão e abandono... distância.

No entanto, os idosos continuam a ser nossas raízes. E eles devem falar com os jovens. Essa tensão entre jovens e idosos deve sempre ser resolvida no encontro entre si. Porque o jovem é broto e folhagem, mas sem raízes, não pode dar frutos. Os idosos são as raízes. Hoje eu diria a eles: sei que sentem que a morte está próxima e tem medo, mas procure outro lugar, lembrem-se de seus filhos e não parem de sonhar. É isso que Deus pede de vocês: sonhar (Joel 3, 1).

O que eu diria aos jovens? Tenha a coragem de olhar para o futuro e ser profético. Que os sonhos dos velhos correspondam às suas profecias - também Joel 3, 1.

Aqueles que foram empobrecidos pela crise estão hoje desprovidos, que são adicionados como mais um número de desprovidos de todos os tempos, homens e mulheres cujo status é “desprovido”. Eles perderam tudo ou vão perder tudo. Que significado a miséria tem para mim, à luz do Evangelho? Significa entrar no mundo dos necessitados, entender que quem já teve, não o tem mais. O que eu peço às pessoas é que levem os idosos e os jovens sob suas asas, que levem a história para baixo, as pessoas carentes sob suas asas.

O que vem à mente agora é outro verso de Virgílio, no final do Livro 2 da Eneida, quando Enéias, após a derrota em Tróia, perdeu tudo. Dois caminhos estão diante dele: permanecer ali para chorar e acabar com sua vida, ou seguir o que estava em seu coração, subir a montanha e deixar a guerra para trás. É um verso bonito: Cessi, et sublato montem genitore petivi (“dei lugar ao destino e, carregando meu pai nos ombros, fui para a montanha”).

É isso que todos temos que fazer agora, hoje: levar conosco as raízes de nossas tradições e fazer o caminho, subir a montanha.

http://www.ihu.unisinos.br/597910-um-tempo-de-grande-incerteza-entrevista-com-o-papa-francisco 

O CORANAVÍRUS E A SAÚDE DO PLANETA TERRA

“O coronavírus está diretamente vinculado à saúde do planeta”. 

Entrevista com Juan Carlos del Olmo

IHU, 8 de abril de 2020

Durante 10 anos, Juan Carlos del Olmo realizou documentários sobre a natureza para a televisão, e desde muito jovem participou de organizações de meio ambiente. Hoje, como secretário geral da organização WWF Espanha, adverte-nos: “Temos que assumir de uma vez por todas que a saúde da humanidade depende diretamente da saúde do planeta”.

A WWF apresentou um relatório sobre a relação direta entre a destruição da natureza, a mudança climática e o aumento do risco de pandemias como a atual Covid-19. Após a crise de saúde, aguarda-nos a econômica, mas também a oportunidade de agir melhor. “Se permitirmos que a mudança climática continue avançando, perderemos muito mais que empregos, o risco brutal está em não agir, em deixar que as coisas sigam da mesma forma”.

A entrevista é de Ima Sanchís, publicada por La Vanguardia, 07-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Esta pandemia está relacionada com a saúde do planeta?

Sim. Mais de 70% das doenças humanas, nos últimos 40 anos, foram transmitidas por animais silvestres. Há casos muito conhecidos como a gripe aviária, o ebola, o HIV e a Covid-19.

Os vírus não respeitam fronteiras.

Em habitats bem conservados e com variedade de espécies, os vírus se distribuem, há espécies que bloqueiam sua dispersão e predadores que eliminam os doentes. A destruição dos ecossistemas, e sobretudo das matas tropicais, facilita a propagação de patógenos.

Como a destruição da biodiversidade influencia nas epidemias?

Quanto maior é a destruição de biodiversidade, mais risco de epidemias, porque altera as cadeias ecológicas e tróficas e reduz o controle natural estabelecido pela própria natureza.

Compreendo.

O coronavírus também está relacionado ao tráfico de espécies, um dos negócios mais lucrativos depois do tráfico de armas, de drogas e o tráfico de seres humanos. Estamos destruindo a natureza a um ritmo sem precedentes e com isso a biosfera, que é a rede essencial e interconectada criada pelos seres vivos.

A mudança climática tem alguma incidência nas pandemias?

Amplia as principais ameaças que afetam a biodiversidade e favorece a expansão de vírus e bactérias. Os insetos, por exemplo, chegam agora a lugares que antes não chegavam. É o caso na Espanha do mosquito tigre que transmite a dengue, uma doença tropical.

É verdade que as geleiras contêm vírus que a mudança climática pode liberar?

Sim, vírus de diferentes tipos que permanecem há séculos retidos. O derretimento de uma geleira na China poderia liberar 33 espécies de vírus, 28 deles desconhecidos para a ciência e com potencial de infecção em humanos. O solo do ártico está se descongelando, muitos vírus e bactérias que estavam presos ali começam a se mover, e ninguém sabe o que irá acontecer.

Como nos alimentamos também é importante?

Há dois motores que estão provocando a destruição do meio ambiente em nível planetário, o modelo energético e o modelo alimentar que precisa de muitíssimos recursos naturais. Dos recursos de água doce, 75% são dedicados à produção agrícola ou pecuária.

O consumo de carne continua crescendo.

Sim, de maneira exponencial, o que provoca entre outras coisas a destruição das matas tropicais para plantar soja para alimentar o gado e produzir carne rápida. A pecuária intensiva é um modelo suicida.

E como fazemos, se temos um mundo organizado em sentido contrário?

A maior parte do orçamento europeu é destinado à política agrária comunitária, mas a um modelo superintensivo. Certamente, caminhamos na direção contrária. Devemos entender de verdade que dependemos da natureza.

Agora ou nunca?

Há consenso entre todos os cientistas da ONU de que temos uma pequena janela de oportunidade de uma década para reverter a mudança climática, a perda de biodiversidade e evitar entrarmos na catástrofe, cheia de futuras pandemias.

Somos a primeira geração consciente de que estamos nesse limite, e se não o revertermos, nossos filhos não poderão. Há uma grande oportunidade, é preciso dar uma guinada nesse modelo de desenvolvimento em que vivemos, baseado em uma relação muito depredadora da natureza.

Por um lado, dizem-nos fora os carros e, por outro, “socorro, a indústria está afundando!”

Vivemos em plena contradição, mas a indústria do automóvel, como toda a indústria, precisa se reconverter, não resta outra coisa, necessitamos de energias limpas.

E a perda de emprego?

A indústria inteligente se transformará com rapidez e será ponta de lança. As que não fizerem isso, desaparecerão. A luta para reconciliar o homem com a natureza oferece grandes oportunidades.

A crise sanitária paralisou a da mudança climática.

Graças à Covid-19, percebemos que não temos capacidade para abordar uma crise global, precisamos de organizações internacionais fortes e com políticas claras, e não governos de curto prazo, que não estão dispostos a tomar as medidas necessárias. Para sair do buraco, primeiro é preciso parar de cavar.

Devemos colocar o sistema de pernas para cima?

O novo Plano Marshall deve apoiar as indústrias que estão nesse rumo. O grande negócio do futuro da humanidade é proteger a natureza. O grande desafio da sociedade mundial é dar uma guinada nesse sistema econômico, e cabe a nossa geração.

Somos o problema e a solução.

A grande esperança é que cada vez há mais pessoas conectadas, trabalhando para proteger o meio ambiente, desde associações de moradores a agricultores, cientistas, empreendedores... E esse é o sistema imunitário que estamos criando entre todos, os anticorpos que a própria natureza está criando.

http://www.ihu.unisinos.br/597891-o-coronavirus-esta-diretamente-vinculado-a-saude-do-planeta-entrevista-com-juan-carlos-del-olmo 

PACTO PELA VIDA E PELO BRASIL


PRONUNCIAMENTO E CHAMAMENTO MAIS DO QUE NECESSÁRIO DAS GRANDES ENTIDADES DA SOCIEDADE CIVIL. É FUNDAMENTAL QUE CHEGUE AO MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE PESSOAS, COMUNIDADES, POVOS, MOVIMENTOS E ENTIDADES SOCIAIS, E QUE A CONTRIBUIÇÃO DE TODOS E TODAS CONSTRUA A UNIDADE NECESSÁRIA PARA ENFRENTAR A AMEAÇADORA REALIDADE EM QUE O PAÍS SE ENCONTRA, E PARA QUE SAIBAMOS SAIR DESSA CRISE MAIS HUMANIZADOS E COM NOVAS FORMAS DE CONVIVÊNCIA ENTRE AS PESSOAS E COM A MÃE TERRA.

QUE A MENSAGEM NOS LEVE A VIVER A VERDADEIRA GRAÇA DA PÁSCOA: A LIBERTAÇÃO DO TUDO QUE APOSTA NA MORTE E A PRÁTICA DO AMOR COMO CAMINHO PARA O AMADURECIMENTO DE NOSSA PERSONALIDADE E PARA A CONSTRUÇÃO DE SOCIEDADES DE BEM VIVER.




                PACTO PELA VIDA E PELO BRASIL

Cidadãos brasileiros, mulheres e homens de boa-vontade, mais uma vez, conclamamos a todos:
O Brasil vive uma grave crise – sanitária, econômica, social e política -- exigindo de todos, especialmente de governantes e representantes do povo, o exercício de uma cidadania guiada pelos princípios da solidariedade e da dignidade humana, assentada no diálogo maduro, corresponsável, na busca de soluções conjuntas para o bem comum, particularmente dos mais pobres e vulneráveis. O momento que estamos enfrentando clama pela união de toda a sociedade brasileira, para a qual nos dirigimos aqui. O desafio é imenso: a humanidade está sendo colocada à prova. A vida humana está em risco.

A pandemia do novo coronavírus se espalha pelo Brasil exigindo a disciplina do isolamento social, com a superação de medos e incertezas. O isolamento se impõe como único meio de desacelerar a transmissão do vírus e seu contágio, preservando a capacidade de ação dos sistemas de saúde e dando tempo para a implementação de políticas públicas de proteção social. Devemos, pois, repudiar discursos que desacreditem a eficácia dessa estratégia, colocando em risco a saúde e sobrevivência do povo brasileiro. Em contrapartida, devemos apoiar e seguir as orientações dos organismos nacionais de saúde, como o Ministério da Saúde, e dos internacionais, a começar pela Organização Mundial de Saúde - OMS.

Os países democráticos atingidos pelo COVID-19 estão construindo agendas e políticas para combatê-lo de maneira própria, segundo suas características, mas, todos, sem exceção, na colaboração estreita entre sociedade civil e classe política, entre agentes econômicos, pesquisadores e empreendedores, convencidos de que a conjugação de crise epidemiológica e crise econômica assume tal magnitude, que só um amplo diálogo pode levar à sua resolução. É hora de entrar em cena no Brasil o coro dos lúcidos, fazendo valer a opção por escolhas científicas, políticas e modelos sociais que coloquem o mundo e a nossa sociedade em um tempo, de fato, novo.

Nossa sociedade civil espera, e tem o direito de exigir, que o Governo Federal seja promotor desse diálogo, presidindo o processo de grandes e urgentes mudanças em harmonia com os poderes da República, ultrapassando a insensatez das provocações e dos personalismos, para se ater aos princípios e aos valores sacramentados na Constituição de 1988. Cabe lembrar que a árdua tarefa de combate à pandemia é dever de todos, com a participação de todos -- no caso do Governo Federal, em articulada cooperação com os governos dos Estados e Municípios e em conexão estreita com as
nossas instituições.

A hora é grave e clama por liderança ética, arrojada, humanística, que ecoe um pacto firmado por toda a sociedade, como compromisso e bússola para a superação da crise atual. Como em outras pandemias, sabemos que a atual só agravará o quadro de exclusão social no Brasil. Associada às precárias condições de saneamento, moradia, renda e acesso a serviços públicos, a histórica desigualdade em nosso país torna a pandemia do novo coronavírus ainda mais cruel para brasileiros submetidos a privações.

Por isso, hoje nos unimos para conclamar que todos os esforços, públicos e privados, sejam envidados para que ninguém seja deixado para trás nesta difícil travessia.

Não é justo jogar o ônus da imensa crise nos ombros dos mais pobres e dos trabalhadores. O princípio da dignidade humana impõe a todos e, sobretudo, ao Estado, o dever de dar absoluta prioridade às populações de rua, aos moradores de comunidades carentes, aos idosos, aos povos indígenas, à população prisional e aos demais grupos em situação de vulnerabilidade. Acrescente-se ao princípio da dignidade humana, o princípio da solidariedade – só assim iremos na direção de uma sociedade mais justa, sustentável e fraterna.

É fundamental que o Estado Brasileiro adote políticas claras para garantir a saúde do povo, bem como a saúde de uma economia que se volte para o desenvolvimento integral, preservando emprego, renda e trabalho. Em tempos de calamidade pública, tornam-se inadiáveis a atualização e ampliação do Bolsa Família; a rápida distribuição dos benefícios da Renda Básica Emergencial, já aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Executivo, bem como a sua extensão pelo tempo que for necessário para a superação dos riscos de saúde e sobrevivência da população mais pobre; a absorção de parte dos salários do setor produtivo pelo Estado; a ampliação de estímulos fiscais para doações filantrópicas ou assistenciais; a criação do imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição Federal e em análise no Congresso Nacional; a liberação antecipada dos precatórios; a capitalização de pequenas e médias empresas; o estímulo à inovação; o remanejamento de verbas públicas para a saúde e o controle epidemiológico; o aporte de recursos emergenciais para o setor de ciência & tecnologia no enfrentamento da pandemia; e o incremento geral da economia. São um conjunto
de soluções assertivas para salvaguardar a vida, sem paralisar a economia.

Ressalte-se aqui a importância do Sistema Único de Saúde - SUS, mais uma vez confirmada, com seus milhares de agentes arriscando as próprias vidas na linha de frente do combate à pandemia. É necessário e inadiável um aumento significativo do orçamento para o setor: o SUS é o instrumento que temos para garantir acesso universal a ações e serviços para recuperação, proteção e promoção da saúde.

Em face da expansão da pandemia e de suas consequências, é imperioso que a condução da coisa pública seja pautada pela mais absoluta transparência, apoiada na melhor ciência e condicionada pelos princípios fundamentais da dignidade humana e da proteção da vida. Reconhecemos que a saúde das pessoas e a capacidade produtiva do país são fundamentais para o bem-estar de todos. Mas propugnamos, uma vez mais, a primazia do trabalho sobre o capital, do humano sobre o financeiro, da solidariedade sobre a competição.

É urgente a formação deste Pacto pela Vida e pelo Brasil. Que ele seja abraçado por toda a sociedade brasileira em sua diversidade, sua criatividade e sua potência vital. E que ele fortaleça a nossa democracia, mantendo-nos irredutivelmente unidos. Não deixaremos que nos roubem a esperança de um futuro melhor.

Dia Mundial da Saúde, 7 de abril de 2020

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil - CNBB

Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB

José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo 
Evaristo Arns - Comissão Arns

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências - ABC

Paulo Jeronimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa - ABI

Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
– SBPC

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O CORONAVÍRUS E O NEOLIBERALISMO


Ivo Lesbaupin

3 de março de 2020

 A epidemia do coronavírus pegou a todos de surpresa. Começou em fins de dezembro na China e, a partir daí, foi se espalhando para todos os países. Em apenas três meses, os casos se multiplicaram e ocorreram muitas mortes, primeiramente na própria China, depois, em outros países, como a Itália, a Espanha, os EUA.

Vírus e extinção de espécies

Certamente, este vírus que está se difundindo não veio do nada. Os cientistas têm repetido incansavelmente que o modo como temos tratado a natureza, explorando-a de todas as formas, sem respeitar seus limites, está produzindo o desaparecimento de espécies numa velocidade nunca vista anteriormente: segundo artigo publicado na revista Science, “o desaparecimento da  biodiversidade global é, atualmente, mil vezes mais veloz do que se ele acontecesse naturalmente, sem o impacto do homem. É uma taxa muito maior do que a estimada anteriormente, em 1995, quando estava em cem vezes”[1] (isto é, há pouco mais de vinte anos).

A destruição da biodiversidade aumenta o risco de uma epidemia. “Se desmatamos e urbanizamos, os animais selvagens perdem seu habitat e isso promove seu contato com animais domésticos e humanos”, resume o pesquisador e ecologista da saúde Serge Morand. O fato de vírus que até agora permaneciam em morcegos na Ásia chegarem aos seres humanos é novo e está diretamente ligado à sua perda de habitat, o que os aproxima dos animais domésticos[2].

O enfrentamento da epidemia e o neoliberalismo

Depois de um período de incerteza sobre como lidar com o vírus, firmou-se a convicção internacional de que seria preciso uma “economia de guerra” para enfrentá-la. Medidas duras foram baixadas por inúmeros países para confinar as pessoas em suas moradias e evitar a aceleração do contágio.
Houve, porém, uma consequência não prevista: esta pandemia revelou que a política econômica neoliberal, aquela que dominou o mundo nos últimos 40 anos, louvada e exaltada por quase todas as faculdades de economia como sendo a única possível, foi um desastre.

As políticas neoliberais, de redução do Estado ao mínimo, de diminuição dos gastos públicos – em saúde, educação, habitação, transporte e outros -, de privatização das empresas estatais e dos serviços públicos, assim como a adesão ao “mercado” como parâmetro e solução para tudo, tiveram consequências nefastas para a grande maioria das populações. Elas só beneficiaram os mais ricos (no máximo, os 10% do topo da pirâmide). Segundo Joseph Stiglitz, nos EUA, “95% de todos os ganhos de renda desde 2009 foram para o 1% mais rico. Estatísticas recentes demonstram que a renda mediana nos EUA não cresceu em quase um quarto do século. O homem norte-americano típico ganha menos do que ganhava há 45 anos, se considerada a inflação (…)”[3]. Com Trump, a desigualdade só piorou.

A necessidade de coordenação de esforços para enfrentar uma epidemia exige um Estado com condições de atender às necessidades da população. Exige um sistema de saúde público, universal (mesmo onde haja também um sistema privado), que seja forte, estruturado, com capacidade de operar as medidas emergenciais a serem tomadas. Exige um sistema de proteção social devidamente montado para reduzir a vulnerabilidade das pessoas.

Ora, as políticas neoliberais implementadas nestas quatro décadas fizeram exatamente o oposto. Reduziram recursos para a saúde. No caso do Brasil, foi mais grave: aprovaram em 2016 (governo Temer) uma lei que reduz, a cada ano, nos próximos 20 anos, os recursos para saúde, educação, assistência social. De modo que, desde então, mais de 40 mil leitos hospitalares foram desativados. Inúmeros profissionais de saúde foram dispensados: médicos/as, enfermeiros/as, auxiliares. Programas de saúde tiveram redução de recursos ou foram interrompidos.

Além disso, foi aprovada uma Reforma Trabalhista que reduziu ou suprimiu direitos trabalhistas que existiam há mais de oitenta anos. O resultado foi um aumento enorme do desemprego e do subemprego, com redução dos salários: hoje, 80% dos trabalhadores brasileiros são pobres e vivem com renda de até 1.700 reais[4]. 

No governo Bolsonaro, foi aprovada uma Reforma da Previdência que diminuiu o valor das aposentadorias e pensões da grande maioria da população, principalmente para os que ganham menos.

Então, a pandemia chega ao Brasil num momento em que há forte desemprego e muitos trabalhadores na informalidade (são 38,4 milhões sem direitos garantidos) e uma enorme quantidade de pessoas vivendo em favelas e periferias, onde o acesso aos serviços públicos é precário. Aqui, será muito mais difícil combater o vírus, manter as pessoas em casa. Profissionais de saúde – enfermeiros/as, médicos/as -, hospitais, não dispõem ainda da proteção e dos equipamentos que deveriam ter para tratar dos contaminados. No mundo, o grupo profissional que teve um dos níveis de contaminação maior foi justamente o do setor de saúde, por causa da insuficiência de meios para se protegerem eficazmente.

E o governo brasileiro está liberando recursos a conta-gotas, ao contrário do que estão fazendo outros países para sustentar a renda dos mais pobres, dos trabalhadores e as micro, pequenas e médias empresas. O governo toma medidas, prioritariamente, para defender os grandes bancos e empresas. O presidente está entre os raros governantes[5] do mundo a recusar as medidas necessárias e recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para enfrentar a pandemia.

Pior que isso: o governo está aproveitando a situação excepcional criada pelo coronavirus para tomar medidas econômicas em favor dos empresários e contra os trabalhadores, tornando estes mais vulneráveis na crise. Como bem havia analisado Naomi Klein em seu livro “A Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo do desastre”, a situação extraordinária – em que a sociedade está abalada e insegura, com dificuldade de reação organizada – é usada contra a maioria.

No entanto, não faltam recursos no Brasil para enfrentar a crise atual. Vejam.

Brasil. Orçamento federal executado (pago) em 2019 = R$ 2,711 trilhões
Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida (https://auditoriacidada.org.br/wp-content/uploads/2020/02/Orc%CC%A7amento-2019-versao-final.pdf).

O maior gasto público do Brasil não é a Previdência, como dizem muitos: é a dívida pública (externa e interna). Como se vê no gráfico acima, em 2019, quase 40% do orçamento foi para pagar os juros e as amortizações da dívida.

O país gasta pelo menos 350 bilhões de reais por ano com os juros da dívida pública. Quem recebe estes juros está no topo da sociedade. Se a nossa taxa de juros (taxa Selic) fosse mais baixa, como o é em vários países do mundo, os gastos em juros seriam fortemente reduzidos[6].

O Brasil hoje abre mão pelo menos de 400 bilhões de reais por ano em isenções fiscais (favorecimentos para grandes empresas).

O Brasil perde 500 bilhões por ano em sonegação fiscal (e, hoje, temos tecnologia que nos permite localizar os sonegadores)[7].

Ao somarmos
350 bilhões (juros),
400 bilhões (isenções fiscais),
500 bilhões (sonegação),

temos 1 trilhão e 250 bilhões de reais – por ano – que poderiam e deveriam ser usados em políticas públicas (saúde, educação, transporte, renda cidadã, etc.) e que hoje só servem a ricos e empresários/banqueiros/rentistas.

Portanto, temos recursos, sim, para pagar uma renda cidadã de um salário mínimo a cada pessoa (somos 210 milhões de habitantes) e apoio para micro, pequenas e médias empresas.

E temos como obter mais recursos para enfrentar a situação excepcional que estamos vivendo: aplicar o imposto sobre grandes fortunas – que está na nossa Constituição, mas nunca foi usado. Este imposto geraria recursos para a sociedade e não atingiria em nada o nível de vida dos bilionários.

No nosso sistema tributário, desde 1996, os investidores não pagam imposto sobre “lucros e dividendos”, isto é, exatamente sobre aquilo em que eles mais ganham. Além do Brasil, só um outro país tem um sistema semelhante: a Estônia. O trabalhador paga imposto sobre o salário, o pobre paga imposto sobre o que consome, o milionário é privilegiado: não paga imposto sobre seus lucros e dividendos. E há uma outra injustiça flagrante na tributação: o imposto sobre propriedades rurais.
Num país que tem uma das maiores concentrações de propriedade da terra do mundo, os grandes proprietários pagam uma quantia irrisória de imposto: são outros privilegiados[8].

Resumindo: recursos não faltam. Temos meios para fazer frente à epidemia, para comprar equipamentos para a saúde, respiradores para as UTIs, para construir novos leitos, com hospitais de campanha ou ampliando áreas ociosas dos hospitais existentes, contratando médicos/as, enfermeiros/as, auxiliares. Nosso Sistema Único de Saúde (SUS) poderia ser um dos melhores do mundo – havendo vontade política para isso.

Temos universidades públicas de excelente qualidade, nas quais há centros de pesquisa reconhecidos, temos instituições de pesquisa que também produzem soros e vacinas (o Instituto Butantã, a Fiocruz), temos órgãos de âmbito nacional de fomento à pesquisa (CAPES, CNPq). E, como vimos acima, temos recursos – que podem ser investidos em pesquisa e desenvolvimento, em apoio a projetos, em bolsas para estudantes e para pesquisadores. No entanto, sendo um governo ultraliberal, o que ele tem feito até o momento é reduzir estes recursos e cortar bolsas. Nunca as universidades, a educação pública e a pesquisa científica foram tão desprezados como no governo atual.

Esta epidemia está chegando num momento em que nossas políticas públicas estavam em baixa, o SUS estava sucateado, com redução de leitos hospitalares, e havia diminuição do apoio à pesquisa e à universidade como um todo.

Mas é possível dar a volta por cima. É possível construir unidades em pouco tempo. É possível empresas produzirem os bens de que necessitamos urgentemente: isto é o que se chama “economia de guerra”. Podemos produzir ventiladores de UTI, máscaras cirúrgicas, roupas de proteção, camas, colchões e tantas outras coisas, além de investir nas instituições, centros e projetos de pesquisa, assim como conceder bolsas. Se o governante de um país democrático pode exigir que empresas automobilísticas fabriquem ventiladores mecânicos para UTIs, por que não cobrar de empresas brasileiras a fabricação de máscaras cirúrgicas, em vez de esperar a chegada de máscaras importadas?[9]

Solidariedade. A sociedade, as pessoas, muitas, por todo o Brasil, saíram de seu conforto e estão organizando ajuda para os mais vulneráveis, arrecadando alimentos, roupas, produtos de higiene, cestas básicas, fazendo “vaquinhas”, de modo a garantir a sua sobrevivência. Atuando intensamente, mesmo em quarentena.

Quem tem que sair de sua letargia agora é o governo, mobilizando-se para prover o necessário para a saúde,  para garantir a produção dos equipamentos (universidades, fábricas) e para sustentar as pessoas vulneráveis e os salários dos trabalhadores que estão ou ficaram desempregados pela crise. Para apoiar os estados e os municípios.

Se há uma consequência a ser tirada desta pandemia – que está longe de acabar -, é que o “Estado mínimo” do neoliberalismo é um Estado só para a camada mais alta, um Estado no qual os recursos públicos – recolhidos de toda a população – deixam de ser utilizados para a maioria e são transferidos para os de cima.

O Estado de que necessitamos é um Estado que garanta proteção social a todos/as e pratique uma economia voltada para a vida e não para o lucro (de poucos).

Como certeiramente afirmou o Papa Francisco há poucos anos, referindo-se à economia neoliberal, “esta economia mata”[10]. A economia de que necessitamos é voltada à satisfação das necessidades de todos/as, à efetivação de seus direitos, numa relação harmoniosa com a natureza. Não é voltada para a produção incessante e o consumo crescente, mas tem como objetivo o “bem viver”. Porque sabe que a Terra, da qual dependemos para nossa vida, tem de ser respeitada (por isso chamada pelos povos andinos de Mãe Terra, Pachamama).

[1] Apud Amelia Gonzalez, 30/05/2014 (http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/cientistas-da-science-afirmam-que-extincao-das-especies-e-mil-vezes-mais-veloz.html).
[2] Cf. http://www.rfi.fr/br/mundo/20200402-coronav%C3%ADrus-crise-sanit%C3%A1ria-deve-provocar-reflex%C3%A3o-estrutural-sobre-sobreviv%C3%AAncia-humana
[3] Joseph Stiglitz, 15/10/2013 (https://operamundi.uol.com.br/opiniao/31824/um-novo-retrato-da-desigualdade-global).
[4] “É preciso pensar em medidas que não são usuais, porque a situação não é usual”. Entrevista especial com Waldir Quadros (http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/597222-e-preciso-pensar-em-medidas-que-nao-sao-usuais-porque-a-situacao-nao-e-usual-entrevista-especial-com-waldir-quadros).
[5] São quatro: Turcomenistão, Bielorússia, Nicarágua e Brasil (O Globo, 01/04/2020).
[6] Japão, Portugal, China, Grécia, Polônia, Estados Unidos, para dar apenas alguns exemplos, têm taxas reais de juros abaixo de zero. Os EUA acabam de reduzir sua taxa de juros (nominal): está entre 0 e 0,25%. A do Brasil está em 3,75%.
[7] Cf. entrevistas do professor Eduardo Fagnani, em 22/04/2019 (http://www.ihu.unisinos.br/588411-reforma-tributaria-como-alternativa-a-reforma-da-previdencia-entrevista-especial-com-eduardo-fagnani%22) e à Carta Capital (https://www.youtube.com/watch?v=e7j_izWR6fY).
[8] O Imposto Territorial Rural no país arrecadou R$ 1,5 bilhão em 2018, o que representou 0,1% da receita tributária da União “Como comparação, só o IPTU da cidade de São Paulo rendeu R$ 9,94 bilhões em 2018.” (https://www.gazetadopovo.com.br/agronegocio/novo-iptu-do-campo-poderia-arrecadar-ate-10-vezes-mais-aponta-estudo-5kmk4oqkt3sk3sa51rsrnp3py/
[9] “O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou nesta sexta-feira (27/03) que Ford e GM passem a produzir respiradores artificiais imediatamente, como ajuda para o combate à pandemia do coronavírus (https://g1.globo.com/carros/noticia/2020/03/27/donald-trump-exige-que-ford-e-gm-produzam-respiradores-nos-eua.ghtml).
[10] “Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata” (Evangelii Gaudium, 2013, par. 53).

http://iserassessoria.org.br/o-coronavirus-e-o-neoliberalismoivo-lesbaupin/ 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

"PAI NOSSO"... TAMBÉM HOJE


IHU - 31 de março de 2020

José Antonio Pagola

“Nosso primeiro desejo nestes momentos dolorosos para toda a humanidade é que o teu nome de Pai seja reconhecido e respeitado. Que ninguém o despreze, prejudicando os teus filhos e filhas.”
O artigo é do teólogo e padre espanhol José Antonio Pagola, em artigo publicado em Settimana News, 29-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A oração do Pai-Nosso é uma oração curta. A única que Jesus deixou de herança aos seus discípulos. É uma oração estranha. Todos os cristãos a rezam, mas ela não fala de Cristo. Ela é rezada em todas as igrejas, mas nenhuma igreja é mencionada. Os católicos a proferem na missa dominical, mas ela não diz nada sobre nenhuma religião.
Como diz J. D. Crossan, é “uma oração revolucionária que proclama uma nova visão da história. Trata-se de um manifesto radical e de um hino de esperança em uma linguagem dirigida a toda a terra”.

“Pai nosso, que estais nos céus”

Tu és nosso Pai, e isso lembra que somos todos teus filhos e filhas. Estás no céu, porque és de todos. Não estás ligado a nenhum templo nem a algum lugar sagrado da terra.
Não pertences a um povo nem a uma raça privilegiada. Não é propriedade de nenhuma religião. Não és só dos bons. Todos podemos te invocar como Pai.

“Santificado seja o vosso nome”

É o nosso primeiro desejo nestes momentos dolorosos para toda a humanidade. Que o teu nome de Pai seja reconhecido e respeitado. Que ninguém o despreze, prejudicando os teus filhos e filhas.
Que não percamos a nossa confiança em ti. Que sejam expulsos os nomes de todos os deuses e ídolos que nos desumanizam. O dinheiro que nos divide e não nos permite ser irmãos, a violência que alimenta as nossas guerras, o poder que nos leva a desprezar os fracos.

“Venha a nós o vosso reino”

Se tu reinares entre nós, a justiça, a igualdade e a paz reinarão na terra. Poderemos enfrentar juntos os problemas do planeta. Unidos como irmãos e irmãs, venceremos as pandemias que podem afligir a humanidade.
Que os ricos não reinem sobre os pobres; que os povos poderosos não abusem dos fracos; que os homens não dominem sobre as mulheres. Venha o teu reino e reine sobre a terra a fraternidade.

“Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”

Que seja feita a tua vontade, e não a nossa. O coronavírus nos faz descobrir que, na terra, tudo está incompleto, vivemos tudo pela metade. Não queremos aprender que nós, seres humanos, somos frágeis e vulneráveis, que não podemos alcançar aqui a plenitude à qual, do fundo do nosso ser, todos nós ansiamos.
Pai, só podemos confiar na tua bondade insondável. Então, que não seja feito o que nós queremos, movidos pelo egoísmo, pelo consumismo e pelo nosso bem-estar. Seja feito o que tu queres, porque sempre buscarás o bem de todos.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

Que nestes momentos tão duros para toda a humanidade a ninguém falte o pão. Não te pedimos dinheiro, não queremos riquezas para acumular, mas sim o pão cotidiano para todos.
Que esta pandemia do coronavírus nos recorde para sempre que a primeira coisa de tudo é a vida: que os famintos possam comer; que os pobres parem de chorar; que os migrantes e os refugiados sejam acolhidos por nós, para que possam sobreviver e ter uma casa.

“Perdoai-nos as nossas ofensas”

Pai, perdoa as nossas ofensas: a nossa indiferença, a nossa incredulidade, a nossa resistência em confiar em ti. Ao longo destes anos, mudamos muito por dentro. Nós nos tornamos mais críticos, mas também menos consistentes. Mais indiferentes a tudo o que não seja o nosso bem-estar, mas mais vulneráveis do que nunca diante de qualquer crise.
Não nos é fácil crer, mas também nos é difícil não crer em nada. Queremos viver esta dura experiência como irmãos e irmãs.

“Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”

Nestes momentos em que vivemos assustados, descobrindo a impotência que todos sentimos diante deste limite inevitável da morte, também nós queremos nos perdoar reciprocamente, uns aos outros.
Não queremos alimentar nem rejeições nem ressentimentos contra ninguém. Queremos viver esta dura experiência como irmãos e irmãs.

“E não nos deixeis cair em tentação”

Somos fracos e limitados. Estamos experimentando isso agora mais do que nunca. Estamos sempre expostos a tomar decisões e a cometer erros que podem arruinar a nossa vida e a dos outros. Por isso, não nos deixes cair na tentação de te esquecer e de te rejeitar, Pai. Desperta em nós a confiança na tua bondade.
Precisamos de ti mais do que nunca. Tu podes abrir estradas para nos encontrar em cada um de nós: crentes e não crentes, ateus ou agnósticos. Que todos possamos sentir a força silenciosa, mas eficaz, no nosso íntimo.

“Mas livrai-nos do mal”

Somos responsáveis pelos nossos erros, mas também vítimas. O mal e a injustiça não estão apenas nas nossas pessoas. Estão também nas estruturas e nas instituições, nas políticas e nas religiões. Por isso, terminamos a nossa oração com um grito: Pai, livra-nos do mal! Um dia, esta felicidade plena, à qual todos ansiamos, se tornará realidade.
As horas alegres e felizes que desfrutamos na terra e também as experiências amargas e dolorosas que vivemos; o amor, a justiça e a solidariedade que semeamos; e também os erros e as obtusidades que cometemos... Tudo será transformado na felicidade plena.
Não haverá nem morte nem dor. Ninguém ficará triste, ninguém precisará chorar. Um texto cristão, escrito em uma das primeiras comunidades, coloca na boca de Deus estas palavras: “Para quem tiver sede, eu darei gratuitamente da fonte” (Ap 21,6). “Gratuitamente”, isto é, não pelos nossos méritos; “para quem tiver sede da vida”, e quem não tem sede da vida eterna?
Cada um deve decidir como quer viver e como quer morrer. Eu creio e confio que o mistério último da realidade, que alguns de nós chamamos “Deus”, outros “Energia”, outros “Transcendente” e outros “nada”, é um Mistério de Bondade, no qual todos encontraremos a Plenitude da nossa existência.

Amém.

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597638-pai-nosso-tambem-hoje-artigo-de-jose-antonio-pagola

QUAL A DIFERENÇA ENTRE O AMOR CRISTÃO, ATEU OU COMUNISTA?

NEM PARA DEUS, ROBERTO. O PROBLEMA MAIOR É O DOS CRISTÃOS, PORQUE SE NÃO AMAM, SABENDO QUE O NOVO MANDAMENTO DE JESUS DE NAZARÉ É "AMAI-VOS UNS AO OUTROS COMO EU VOS AMEI" E NINGUÉM AMA MAIS DO QUE QUEM DOA A VIDA PELAS PESSOAS QUE AMA, QUE EXPLICAÇÃO DARÃO AO SENHOR?


Qual a diferença entre o amor cristão, ateu ou comunista?
Roberto Malvezzi (Gogó)
Quando em outubro passado fiquei hospitalizado durante dez dias em Roma - 8 dias na UTI - fui atendido com muito carinho por enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas, serviço de alimentação, pelo capelão que nos levava eucaristia todos os dias, pelos visitantes que estavam no Sínodo para a Amazônia – eu fui para o Sínodo e adoeci -, depois por meus familiares. Um padre, secretário do Sínodo, me visitava duas vezes todos os dias e me repassava a informação de meu estado de saúde.
Não sei ali quem era cristão, quem era ateu, quem era comunista, ou se ali não havia nenhum deles. Eu estava num estado de total impotência, dependia dessas pessoas cem por cento.
Lembro muito hoje daqueles profissionais da medicina que me atendiam, juntamente com outros homes e mulheres que estavam na UTI – sim, lá é todo mundo junto -, certos dias com clara aparência de exaustão pelos serviços de dia e noite.
Hoje vejo médicos cubanos indo para a Itália ajudar no trabalho esgotante do setor de saúde daquele país e cuidar de seus enfermos. Vejo que um Padre italiano cedeu seu aparelho respiratório para alguém mais jovem sobreviver e ele morreu por falta do ventilador mecânico. Quando seu caixão passou pelas ruas, foi aplaudido das janelas pelo povo, devido ao seu gesto supremo de amor. Vejo que médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, estão exaustos, adoecendo, morrendo para poder cuidar da população.
Enquanto isso, no Brasil, seres humanos dizem que é preciso que o povo morra mesmo, que a morte dos idosos é insignificante, que a agenda econômica deve se sobrepor à agenda humanitária da vida. Muitos se dizem cristãos, frequentam igrejas, são moralistas com os “pecadores”, no entanto é impossível ver neles qualquer gesto que se pareça com o amor.
Claro, há a reação extraordinária de governadores, sobretudo do Nordeste, tapando o vácuo político do governo federal e criando políticas paralelas para poder contribuir com a população de seus estados. Na TV Bahia, uma reportagem conjunta do governador com o prefeito de Salvador sobre o que fazer nesse momento para evitar a catástrofe, me pareceu diferente de tudo que tenho visto na política baiana em 40 anos. 
Sim, para quem está em estado de dependência absoluta, como eu estava em Roma, que diferença faz se o gesto solidário e de amor vem de alguém comunista, alguém ateu ou alguém cristão?

terça-feira, 31 de março de 2020

ESPERANÇA. RESITÊNCIA E SOLIDARIEDADE DIANTE DA COVID´19


ACOLHAMOS E TORNEMOS NOSSAS AS REFLEXÕES E ORIENTAÇÕES DA CÁRITAS BRASILEIRA.

Esperança, resistência e solidariedade diante da COVID´19

Para quem vive o mandamento do amor Cáritas,
sempre é tempo de cuidar.
(Texto Base CF 2020 nº 122)

Neste tempo de incertezas, diante do apelo mundial de ficar em casa e cuidar se, no s, Cáritas Brasileira, queremos trazer uma palavra de esperança e de solidariedade. Todas as pessoas esta o em risco, mas na o podemos esquecer que, antes da pandemia, muitos irma os e irma s ja se encontravam em situaça o de extrema vulnerabilidade social. Falamos de migrantes e refugiados em todas as partes do mundo, de modo particular, aquelas pessoas que esta o chegando no Brasil. Estamos falando das populaço es em situaça o de rua para quem o apelo “fique em casa” pode ate parecer um insulto. Estamos falando de catadores e catadoras que ja vivem em situaça o degradante ha tempos. Sa o milhares de pessoas e, mesmo assim, invisí veis. Sa o seres humanos que, para o sistema econo mico capitalismo neoliberal, na o contam.

Na o podemos nos calar perante a irresponsabilidade de agentes públicos, do Governo Federal, de empresários e de formadores de opinião que minimizam a pandemia por estarem mais preocupados com seus lucros e seu poder do que com a vida das pessoas. Na o podemos compactuar com leituras fundamentalistas da Palavra de Deus que interpretam os fatos como castigo divino. E preciso ter consciência crítica e voltar a atenção para o que diz a ciência, a partir dos sinais que o planeta Terra já expressa: aquecimento global, mudanças climáticas, desertificação, variações nos ciclos das águas... São desequilíbrios que causam várias consequências na vida.

Neste momento, e fundamental na o entrar em pânico, na o ceder a tentação do desânimo e da desesperança. Mais do que nunca, a Rede Cáritas e a sociedade brasileira são chamadas a praticar a solidariedade transformadora, que esclarece, acolhe, conforta e caminha junto com os mais vulneráveis e empobrecidos. Na o se trata apenas de ficar em casa, mas ser presença segura e solidária junto a quem mais necessita, cuidando do corpo, da sau de mental e do equilíbrio espiritual. Sairemos dessa situação mais fortes e conscientes. Em sua mensagem, o Presidente da Caritas Internacional, Cardeal Tagle diz o seguinte: “De uma emergência que atinge todas as pessoas (pandemia) esperamos ver uma emergência pandêmica de cura, compaixão e amor. Uma crise de emergência que surge inesperadamente só pode ser enfrentada com uma idêntica ‘erupção’ de esperança. A difusão pandêmica de um vírus deve produzir um ‘contágio’ pandêmico de caridade”.

Precisamos reinventar, usar criatividade, aprender de experiências que ja esta o sendo feitas, formar uma corrente de solidariedade em que a informação correta seja um dos remédios mais eficazes. Para isso, incentivamos:

EM RELAÇÃO À REDE CÁRITAS
 Adoção de medidas de segurança e proteção, evitando viagens, reuniões de massa, aplicando os protocolos e normas das entidades de saúde e da Organização Mundial de Saúde.
 Oferecer orientações de segurança para agentes liberados e voluntários,
especialmente para quem trabalha no campo com migrantes, catadores e
população de rua.
 Identificação rápida das emergências e busca de ações integradas com as
entidades e organizações parceiras.
 Criar grupos de reflexão, de diálogo, trocas de informação e solidariedade, por
meio das plataformas digitais.
 Criar um canal de diálogo com a imprensa, especialmente, as redes católicas
para promover a unidade e fortalecer os cuidados.
 Oferecer roteiros de celebrações em família e momentos orantes que animem a
esperança e o compromisso na defesa da vida.

EM RELAÇÃO AO PODER PÚBLICO
 Pressionar governos municipais e estaduais, através de moções e abaixo
assinados virtuais, a adotarem medidas emergenciais para o atendimento da
população que for contaminada.
 Monitorar os serviços ofertados pela gestão municipal e estadual, com
participação cidadã responsável.
 Pressionar os poderes executivo, legislativo e judiciário para adotarem medidas
de proteção dos direitos trabalhistas frente à crise econômica que se instaura; e
a incidência na renda básica de emergência para quem não tem salário
garantido, contemplando trabalhadores informais, cuidadoras e domésticas.
 Exigir que o Poder Executivo Federal a liberação imediata dos recursos
contingenciados para a Assistência Social; e a imediata revogação da PEC 95,
que criou o teto de investimentos em políticas públicas.

EM RELAÇÃO ÀS POPULAÇÕES MAIS VULNERÁVEIS
 Diálogo e ação solidária com o Movimento de População em Situação de Rua,
com atenção aos migrantes.
 Sensibilização permanente da população sobre os cuidados com a saúde e as
possíveis ações solidárias.
 Manter diálogo permanente com profissionais da saúde e contribuir no cuidado
das populações mais vulneráveis.
 Apoiar campanhas de doação de alimentos não perecíveis e itens de higiene
pessoal, respeitando as orientações de cuidados dos órgãos públicos de saúde.
 Dar a orientação e o suporte necessário a pessoas e a grupos que saem às ruas
para doar alimentos, álcool em gel, máscaras e roupas.

Como discípulas e discípulos missionários de Cristo, possamos produzir frutos na
caridade, para a vida do mundo. E que a Ma e Aparecida nos ajude a caminhar sempre
na esperança da libertação.

Brasília, 30 de março de 2020

Presidência da Cáritas Brasileira