Os filhos da hipocrisia social, política e religiosa do Brasil
Por José de Souza Martins
Em dias recentes, indo ao velório de um amigo na catedral de São Paulo, vi mais uma vez as numerosas pessoas que, na noite excepcionalmente fria deste inverno, deitavam-se no chão da praça e na escadaria da igreja, agasalhando-se com trapos e jornais velhos, para mais uma noite de pesadelo. Uma senhora, com duas meninas pequenas, de uns 6 ou 7 anos, que levava um cobertor, tentava acomodá-las num dos degraus. No rosto de uma delas, lágrimas corriam, reluzentes à luz amarelada da lâmpada de um poste próximo. O silêncio de sua tristeza era ruidoso. O número de desabrigados era grande.
Na mesma hora, em outras praças, a alma desalmada do Brasil concentra todas as noites os filhos de sua hipocrisia social, política e religiosa sob marquises de prédios, pontes e viadutos. Ao pé da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, o da igreja do santo que fizera a opção preferencial pelos pobres, inúmeras pessoas tentam esconder-se da noite e da vida.
Sob o antigo minhocão Costa e Silva, hoje minhocão João Goulart, numerosos brasileiros da rua escondem a cabeça sob o cobertor maltratado, para apagar a luz do quarto sem paredes e abrigar-se ao som da sinfonia dodecafônica do ruído dos muitos veículos que trafegam pela avenida General Olímpio da Silveira, dia e noite.
Na praça Antônio Prado, antigo largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e do seu cemitério dos escravos, desfalecem nestas noites de hoje brancos e negros, jovens e velhos, cujo destino não influencia os índices da Bolsa. E não mobilizam os sábios e especialistas em altos e baixos das estatísticas econômicas. Nem os gestores da economia da iniquidade.
São brasileiros que se acomodam entre os sacos de lixo que serão recolhidos em algum momento da noite para a indústria da reciclagem das coisas inúteis. Ninguém passará para recolher e abrigar os humanos úteis que foram descartados e colocados à margem da sociedade e da história.
Notícia destes dias diz que na noite das ruas de São Paulo cresce o número de mulheres e de crianças, como as que vi naquela, que se albergam nas calçadas e praças do seu desamparo. São os seres humanos ameaçados em sua já precária humanidade, os sem futuro e sem destino. Não são simplesmente sem-teto. São os sem-tudo, os sem Brasil, os sem-pátria.
Os que a economia sem metas sociais reguladoras do lucro e da lucratividade tem empurrado para a situação de quem está aquém da dos cachorros de estimação. Cães de estimação, no Brasil, tem hoje assistência médica, hospital, hotel, boa comida e muito afago.
Não seria o caso de inscrever em nossa consciência social o reconhecimento desses mesmos direitos em favor dos humanos vitimados pelo descarte injusto que decorre da política econômica sem política social? Eles poderiam ter, assim, significativa ascensão social se conseguissem ter as mesmas condições de vida dos animais de estimação.
A proclamada mais rica cidade do Brasil só o é se fecharmos os olhos para a realidade. Unidade dos contrários e síntese anômala de desencontros, terra do acobertamento do que somos e no que não queremos nos reconhecer.
Mais de uma vez, observei entre os moradores de rua e de cemitérios da cidade de São Paulo indícios de uma organização social paralela, de sobrevivência em situação adversa e de crise. Uma sociedade de emergência, muito parecida com a que costuma ser constatada entre vítimas de situações de guerra e de ausência ou inoperância do Estado. Uma sociedade invisível, mas razoavelmente eficaz.
Nunca nos perguntamos como se arrumam essas pessoas quando precisam fazer uma necessidade fisiológica ou tomar algo equivalente a um banho. São acolhidas nos sanitários dos bares das áreas próximas e cumprem a regra não escrita de que devem deixá-los limpos depois do uso. Entre elas circula de boca em boca um verdadeiro guia de sobrevivência sobre os melhores banheiros públicos da cidade, que são os de determinados cemitérios. Sobre os restaurantes que servem refeições gratuitamente após o expediente normal. Sobre horários e estratégias para se chegar aos melhores túmulos ainda vagos e estratégias para neles se abrigar antes de ser descoberto.
A noite das ruas e praças dos miseráveis de nossas cidades é a noite de um imenso funeral. O funeral da civilidade, da justiça, do direito e, não percebem os que lucram com tudo isso e não sabem, do próprio capitalismo especulativo que nos domina sem capitalismo ser. Em suma, o funeral do capitalismo rentista, do lucro sem princípios. O funeral do liberalismo de botequim, o da liberdade de criar a miséria alheia e a degradação da vida do outro. O funeral da esperança e o funeral da pátria. O funeral do Brasil possível.
José de Souza Martins é sociólogo. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de Moleque de Fábrica (Ateliê Editorial).
Esses dias Lula reagiu ao fato da Transposição do São Francisco para a
Paraíba estar paralisada há vários meses. Ele atribuiu essa
responsabilidade ao governo Bolsonaro, chamando essa prática de
desumana. O atual governo não reagiu às acusações de Lula.
Nossos grupos sociais foram os primeiros a reagir à obra da
Transposição, logo que Lula tomou posse. Portanto, as primeiras reações a
Lula não vieram da direita brasileira, mas de quem comungava a ideia de
um outro país. Nossa proposta era incentivar a captação
da água de chuva e construir pequenas e médias adutoras para o meio
urbano, já que o desafio urbano é uma realidade no Nordeste atual,
particularmente no Semiárido. Já havia o Atlas do Nordeste, uma obra da
Agência Nacional de Águas, com propostas para cada
município da região, e nós, da sociedade civil, já tínhamos a proposta
da captação da água de chuva para beber e produzir através das cisternas
e um leque imenso de tecnologias sociais.
Todos sabemos, prevaleceu a grande obra da Transposição, mesmo que
depois os governos Lula e Dilma tenham financiado a captação da água de
chuva e também algumas adutoras médias e pequenas para os centros
urbanos. Acontece que todos os problemas que estavam
previstos em termos de manutenção e operacionalização da Transposição
estão acontecendo. Parece que se quer criar uma cortina de fumaça em
torno dos problemas reais da obra.
Em primeiro lugar, os canais e barragens sucessivas para elevação da água
apresentaram problemas de ordem técnica, com rupturas e vazamentos, o
que tem dificultado de forma grave o bombeamento contínuo das águas. Uma
dessas barragens no Eixo Leste em Cacimba Nova,
Pernambuco, teve problemas esse ano por sobrecarga e esse é o motivo
técnico alegado para paralisar o bombeamento. Acontece que um reparo
desse tipo leva tempo e outras barragens já tiveram problema como as de
Camalaú e Poções na Paraíba.
Dessa forma, só o Eixo Leste estava em pleno funcionamento, mas de forma
precária. A Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco, vinculada ao
Ministério das Ciências e Tecnologias, vem denunciando há tempos a pouca
água bombeada e, pior, a grande perca ao longo
do percurso. De uma média de 9m3/s bombeados, apenas 3m3/s
estavam chegando ao reservatório de Campina Grande. Temos dito nos
porões que construíram uma bomba atômica para matar um mosquito. Porém,
com a inauguração da obra, um pouco
de água estava chegando em Campina Grande e esse fato amenizava sua
funcionalidade.
Essas notícias, um tanto escondidas, vêm desde o começo do funcionamento
do Eixo Leste, mas se agravaram nesse ano. O próprio Ministério Público
da Paraíba recomendou a paralisação do bombeamento até que os problemas
estruturais de duas barragens fossem solucionados.
Essa é a razão fundamental da paralisação do bombeamento para a
Paraíba. O governo Bolsonaro não respondeu se tem interesse em reativar o
bombeamento, nem fala se o Eixo Norte um dia será devidamente
concluído. O problema de sua funcionalidade será tão grande
quanto o do Eixo Leste.
Acontece que nova notícia surgiu aqui pelo São Francisco, isto é, o
governo Bolsonaro pensa em privatizar a Transposição. Esse objetivo
também denunciamos há mais de dez anos, porque era uma proposta que já vinda
do governo de FHC por parte do Banco Mundial, isto
é, criar um “mercado de águas” no Nordeste Brasileiro. A ideia não
avançou naquele momento, mas aos poucos o mundo do capital vai impondo
seus interesses.
Então, se vier a privatização, o pior acontecerá. Os paraibanos, e todos
os estados receptores, perderão a autonomia de toda a água armazenada
em seus reservatórios, inclusive aquelas oriundas das chuvas, já que as
águas da Transposição se misturam com elas
e não há como distinguir o que vem das chuvas e o que vem da
Transposição. Então, provavelmente pagarão a água mais cara do mundo,
inclusive aquelas que antes eram uma dádiva da natureza.
A dúvida que resta é se alguma empresa capitalista vai se interessar por
essa obra, ainda mais se tiver que bancar sua manutenção. A não ser que
façam aquele velho subsídio cruzado, isto é, lucram com a venda da água
e põem a conta a pagar nas tarifas dos irrigantes,
indústria e, principalmente, nas tarifas domésticas.
Finalmente, continua o silêncio sobre o destino fatal do Velho Chico.
Bolsonaro quer privatizar também as Centrais Elétricas do São Francisco
(CHESF). A exigência inicial dos compradores é demitir 1700
trabalhadores. Pior, retoma a ideia de construir usinas
atômicas na região, começando por Itacuruba, Pernambuco. Faz-se um
silêncio mortal sobre as 362 barragens nas cabeceiras do Velho Chico,
quase 70% com rejeitos minerários. Dizem os estudiosos que basta romper a
de Paracatu, com resíduos minerários de ouro,
para matar o Velho Chico por 100 anos. Aquele ouro roubado num
aeroporto de São Paulo esses dias vinha exatamente da mina de Paracatu.
Não temos nenhuma alegria em ver tantos problemas nessa obra, como no
Velho Chico, afinal, é a água. Ainda bem que a sociedade civil manteve
sua proposta da captação de água de chuva para beber e produzir para as
famílias. Mas, a natureza dessa obra da Transposição
já indicava claramente seus desdobramentos e suas consequências. O
governo atual apenas agrava o que já era muito problemático. Enfim, como
se diz aqui pelo Nordeste, “pau que nasce torto, até a cinza é torta”.
É INCRÍVEL COMO ISSO NÃO PARA, E É FESTEJADO: COMO O DESEMPREGO ESTÁ ALTO, A INFLAÇÃO NÃO SOBE. PARA QUEM TEM SENTIMENTOS DE HUMANIDADE, ISSO NÃO É BLASFÊMIA? NA VERDADE, REVELA A QUE DEUS OS ESCRAVOS DA RIQUEZA SERVEM E LOUVAM
Desde 2015, patrimônio financeiro dos milionários subiu 45%, desemprego quase dobrou e salário estancou
O Itaú teve lucro recorde em 2018, 25 bilhões de reais, e anunciou
recentemente outra fortuna em ganhos no primeiro semestre, 13 bilhões.
Ao comentar o novo resultado, seu presidente, Cândido Bracher, disse
nunca ter visto o Brasil em situação macroeconômica “tão boa”. Motivo: o
desemprego está alto, daí que o País pode crescer sem que a inflação
suba junto.
Desde a adoção de uma política econômica neoliberal por sucessivos
governos de 2015 em diante, reforçada na dosagem por cada um dos que
vieram depois, bancos, banqueiros e seus clientes vips não têm
mesmo do que se queixar. Já os mais pobres, os trabalhadores, aqueles
cujo desemprego Bracher festeja, esses têm. Vagas somem, salários
estancam.
O retrato do avanço da concentração de renda pós-neoliberalismo pode ser
visto ao se comparar a evolução do mercado de trabalho com o dinheiro
aplicado em banco pelos mais ricos. O economista Fernando Nogueira da
Costa, da Unicamp e ex-diretor da Caixa Econômica Federal, apresentou
dados em 2 de agosto, no Conselho Federal de Economia (Cofecon), que
permitem a comparação.
Em 2015, os clientes de private banking, um serviço oferecido
pelos bancos só a ricaços, tinham 6,4 milhões de reais cada um, em
média, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos
Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Eram 109 mil pessoas. Em
maio de 2019, esse clube tinha crescido um pouco, 123 mil pessoas. Grana
per capita deles: 9,3 milhões.
Enquanto a riqueza dos milionários subia 45%, foi de 31% o
crescimento do patrimônio financeiro de um outro grupo de endinheirados
que Costa cataloga como “classe média alta”. Cada pessoa desse grupo,
3,1 milhões de pessoas ao todo, tinha 158 mil reais em média em bancos
em 2015, conforme a Anbima. Em maio, eram 4,2 milhões de pessoas e cada
uma tinha 208 mil.
Já a parcela que Costa define como “classe média baixa” viu sua
riqueza financeira recuar cerca de 20%. Em maio de 2015, as pessoas
desse grupo tinham em média 45 mil reais nos bancos, ainda de acordo a
Anbima. Eram 6,2 milhões de pessoas. Em maio, tinham 37 mil. O grupo
somava então 8 milhões de pessoas.
Para essa classe média baixa e os pobres em geral, a vida no neoliberalismo tem sido complicada.
A dificuldade começou quando Dilma Rousseff botou Joaquim Levy no
ministério da Fazenda, logo após ter sido reeleita em outubro de 2014.
Corte de gastos públicos e privatizações foram reforçados a partir de
maio de 2016 com Henrique Meirelles na Fazenda, na gestão Michel Temer. E
mais ainda com Paulo Guedes à frente da economia no governo Jair
Bolsonaro, iniciado em 2019.
A obra de Levy, Meirelles e Guedes é salário baixo e desemprego alto.
Em junho, último dado disponível do IBGE, a renda média dos
trabalhadores foi de 2.290 reais. Ao todo, há 93 milhões de
trabalhadores. Quando Levy entrou, a renda era de 2.274 reais. Quando
Meirelles assumiu, de 2.227 reais. Na entrada de Guedes, 2.321 reais. Em
cinco anos, o salário praticamente não saiu do lugar.
E o desemprego? Na chegada de Levy ao governo, era de 6,5%. Quando
Meirelles assumiu, estava em 11,2% (11,4 milhões de pessoas). Na
passagem do cargo para Guedes, era de 11,6% (12,2 milhões). Um semestre
depois, o “posto Ipiranga” entrega índice de 12% (12,8 milhões).
O número de pessoas que desistiu de procurar trabalho por achar que
não adianta nada, o chamado desalento, está em 4,9 milhões. No início da
política econômica neoliberal, era de 1,5 milhão..
Entre os mais pobres, a situação é ainda pior. São eles os
que mais sofrem, disse Nogueira da Costa no Cofecon, a destacar que a
análise de dados mais detalhados expõe mais nitidamente a desigualdade
brasileira – somos o 10o país de renda mais concentrada, segundo a ONU.
Enquanto o desemprego geral era de 12,3% em maio (a apresentação de
Costa tinha dados de maio), na classe E era de 30%. No início da
política econômica neoliberal, a desocupação na classe E era de 18%.
Costa bota dentro dessa classe pessoas com renda máxima de 1,1 mil.
Já nas classes B (de 7,2 mil a 11 mil) e A (acima de 11 mil), o
neoliberalismo não fez diferença empregatícia. Desde 2015, a desocupação
nessas duas classes oscila pelos 3,5%, o nível de maio. Praticamente
não mudou. E apesar disso, elas ficam mais endinheiradas, como se viu
nos dados sobre a riqueza financeira.
MARAVILHOSAS, ESSAS MULHERES! QUE ENCANTEM E ENVOLVAM NESSA MISSÃO MAIS E MAIS MULHERES, E QUE OS HOMENS REFORCEM SEU TRABALHO DIVINO.
ATENÇÃO: A TERRA ESTÁ PRECISANDO DE PESSOAS CARINHOSAS EM TODAS AS REGIÕES DO BRASIL, DA AMÉRICA DO SUL, DO MUNDO. QUEM SE CANDIDATA A CRIAR NOVOS GRUPOS DO MOVIMENTO DAS MULHERES YARANG?
OUTRAS PALAVRAS - 6 de agosto de 2019
A jornada das mulheres que reflorestam a Amazônia
No MT, a coleta de sementes é fundamental
para repor áreas devastadas do Xingu ao Araguaia. Encabeçada pelo
Movimento das Mulheres Yarang, atividade gera renda e resultou no
plantio de cerca de 1 milhão de árvores em dez anos
Publicado 05/08/2019 às 16:16 - Atualizado 06/08/2019 às 16:38
Nas
trilhas, unidas como formigas cortadeiras: o trabalho em conjunto é a
marca das mulheres Yarang, que coletam sementes para reflorestar a bacia
do rio Xingu.
Por Roberto Almeida, no ISA |Fotos: Carol Quintanilha | Vídeo: Fernanda Liguabe
Mulheres e jovens enfileiradas saem em caminhada da aldeia Arayó. A
tiracolo levam cestos, facões, beijus, água, crianças pequenas. O passo é
tranquilo, pressa para quê, mesmo com o sol de fim de maio torrando a
poeira da pista de pouso do pólo Pavuru, Território Indígena do Xingu
(MT).
A conversa entre elas é constante. O assunto: sementes.
Quais
vamos coletar? Onde? Uma trilha à esquerda e a mata se encerra, abrindo
frestas só para roças de mandioca, cercadas contra ataques de porcos do
mato. Por ali ficava a antiga aldeia Moygu, abandonada em 2011.
Pequizeiros enormes vibram com a brisa na luz da manhã.
Meio caminho andado e uma criança aponta para um pequeno buraco no
chão da trilha. Em um instante, ela traz, grande e potente, uma formiga
cortadeira que parece entorpecida entre seus dedos. Na língua Ikpeng,
uma Yarang.
Yarang
é símbolo e nome do movimento de mulheres Ikpeng que, há 10 anos,
coleta sementes para reflorestar as nascentes dos rio Xingu e Araguaia,
no Mato Grosso, e onde mais o branco tiver desmatado no Cerrado e na
Amazônia.
Adiante
em passo firme, formiga cortadeira devolvida ao chão, as Yarang buscam
nesse trecho específico de mata sementes de jatobá, leiteiro, carvoeiro,
cafezinho do pasto, mamoninha, lobeira e outras dezenas de espécies.
Em
parada repentina, todas se sentam no chão. Com as mãos ou com os
facões, começam a limpar a camada de folhas secas para descobrir
muricis-da-mata, quase invisíveis de tão pequeninos. A dinâmica muda.
Agora é hora de coletar.
Mulheres, jovens e crianças conversam, riem, brincam, sob a sombra do
muricizeiro. Recolhem as frutinhas amarelas e agridoces, chupam a polpa
com caras contentes e põem as sementes nos cestos, com cuidado.
“O
movimento das mulheres é um conjunto”, reflete Koré Ikpeng, liderança
Yarang da aldeia Arayó. “Convidei todas as Yarang para coletar sementes,
tomamos banho cedo e viemos. Viemos para conversar, trocar ideias. É
uma atividade coletiva, de união das mulheres.”
“A
gente incentiva, ensina os conhecimentos sobre sementes para os
jovens”, continua. “E não é só as meninas que trabalham. Os meninos
também. Meus netos estão aí. A gente orienta, a gente convida, eles vão
aprendendo.”
Veloz como as formigas cortadeiras, o grupo termina a jornada com cestos cheios em menos de uma hora. Agora é hora de voltar.
Chega
ao fim mais uma coleta entre tantas que, ao longo de 10 anos,
totalizaram 3,2 toneladas de sementes florestais e geraram R$ 105 mil em
renda direta para as 65 mulheres participantes do Movimento das
Mulheres Yarang, parte da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX).
Trabalho duro de mulheres fortes que já resultou em um plantio aproximado de 1 milhão de árvores. Assista ao vídeo que conta essa história:
“Mulheres fortes, que honram seus compromissos”
Primeiro dia de festa, 24 de maio, e o tempo fecha rápido, com chuva
forte. Magaró Ikpeng, liderança Yarang da aldeia Moygu, explica: é a
chegada do espírito que acompanha as mulheres na coleta de sementes.
As comitivas Wauja, Kawaiweté, Matipu, todas do Território Indígena
do Xingu, e Xavante, da Terra Indígena Pimentel Barbosa (MT), são
recebidas pelo aguaceiro, bem como os coletores de sementes dos
assentamentos de Bordolândia, São Félix do Araguaia e Canabrava do Norte
(MT).
O mïnge (lê-se menhê), Casa dos Homens no centro da aldeia
Moygu, é ocupado pela força das Yarang, suas falas potentes e seus
cantos. Com microfone na mão, lideranças de dentro e fora do Território
Indígena do Xingu exaltam o jeito de trabalhar das mulheres, e a
franqueza para cumprir (ou não) a entrega prevista de sementes.
“A
gente é assim. Tem que combinar, tem que fazer, tem que entregar. Se a
gente encontrar dificuldade, a gente avisa. Quando não dá, não dá. O que
for de nosso alcance, vamos fazer ao máximo para cumprir com a nossa
palavra”, diz Makawa Ikpeng, liderança Yarang da aldeia Moygu.
“Gostamos
de falar sobre as sementes. A gente não espera ninguém falar para a
gente fazer. Nós, mulheres Ikpeng, somos de grupo. Somos um movimento.
Estamos em movimento”, complementa Koré Ikpeng. A entrada das mulheres Ikpeng na Casa dos Homens.
“O
fato é que são mulheres fortes, que honram seus compromissos”, explica
Bruna Dayanna Ferreira de Souza, diretora da Associação Rede de Sementes
do Xingu, que gere e comercializa as sementes coletadas pelo Movimento
das Mulheres Yarang.
Com Magaró, Makawa e Koré à frente, as Yarang são motivo de orgulho
na aldeia e fora dela, entre homens e mulheres. “Minhas filhas estão
coletando sementes para plantar e recuperar o que está destruído em
nosso território”, afirma o cacique Kampot Ikpeng. “Precisamos nos unir.
Hoje somos parentes, parceiros, e a floresta depende da gente”,
continua.
Watatakalu Yawalapiti, coordenadora do departamento de mulheres da
Associação Terra Indígena Xingu (Atix), reforça: “Seja com a
comercialização de sementes, artesanato, pimenta, sal de aguapé ou
pequi, o objetivo é o fortalecimento das mulheres”, reforça. Makawa Ikpeng celebra os 10 anos do movimento. No quadro, os dizeres: “As mulheres Yarang reflorestando o mundo”.
‘O nosso esforço está brotando’
Se
tem uma história que Magaró Ikpeng gosta de contar é sobre sua
participação na 3ª Expedição da Restauração Ecológica e da Rede de
Sementes, realizada em outubro de 2018.
Indígenas,
agricultores familiares, produtores rurais, pesquisadores,
representantes do governo, de empresas e de organizações do terceiro
setor percorreram mais de mil quilômetros no noroeste do Mato Grosso e
viram o caminho da sementes, desde a coleta até as áreas reflorestadas
em propriedades rurais da região.
Magaró esteve lá. Foi a primeira Yarang a deixar sua aldeia no
Território Indígena do Xingu para ver com os próprios olhos os
resultados do trabalho de suas companheiras de coleta. Antes, a ideia de
“plantar floresta” causava estranhamento. Agora, não mais.
“Nosso esforço todo está brotando”, resume a liderança Yarang. “Eles
reflorestam as nascentes dos rios. Fiquei emocionada ao ver o fruto do
trabalho. Preciso andar mais para conhecer tudo. A gente está coletando e
as pessoas estão plantando mesmo”, conta.
“Você
só vai valorizar a floresta se olhar para ela como algo bom. Se não
fizer sentido, não vai dar valor. A floresta oferece o abrigo, a roça, a
caça. Eu sonho em oferecer aos meus netos e netas o que eu tenho agora,
e que no futuro eles não percam essa riqueza”, continua Magaró.
A ideia de que “brancos destroem”, porém, continua firme. O trabalho
do Movimento das Mulheres Yarang é um respiro em meio à devastação que
corrói o que resta de floresta. Nos últimos 10 anos, mais de 1 milhão de hectares foram desmatados na bacia do rio Xingu.
Como
contraponto, a Associação Rede de Sementes do Xingu promoveu em mais de
10 anos a recuperação de quase seis mil hectares de áreas degradadas na
bacia do Xingu e Araguaia e outras regiões de Cerrado e Amazônia. Para
isso, foram utilizadas mais de 220 toneladas de sementes de 220 espécies
nativas.
As Yarang contribuem com esse trabalho desde o início. E querem fazer mais, com a ajuda dos homens e da juventude Ikpeng.
As formigas e os morcegos
Yarang, em Ikpeng, quer dizer formiga cortadeira. Rere
quer dizer morcego. A escolha do nome do movimento de mulheres ficou
entre estas duas opções até que Airé Ikpeng, liderança antiga da
comunidade, decidiu por adotar Yarang como nome oficial. Assim nasceu o
Movimento das Mulheres Yarang.
Os homens Ikpeng, porém, não quiseram ficar para trás e de pronto adotaram o morcego, ou Rere, para designar o próprio grupo, o grupo masculino.
Desde
então, os posicionamentos de formigas e morcegos, mulheres e homens
Ikpeng, parecem ser complementares na divisão do trabalho e nas decisões
conjuntas sobre o uso do dinheiro proveniente da venda de sementes
florestais.
Wakunapu Wauja, pajé da aldeia Moygu e marido de Magaró Ikpeng, explica como as decisões são tomadas em sua família.
“Quando
vem o pagamento, minha esposa pergunta o que podemos fazer com o
dinheiro. Eu digo que é ela quem deve decidir. Se deve comprar panelas,
rede, ou outras coisas. Ela entrega o dinheiro para meus filhos, porque
eles sabem usar o dinheiro para fazer as compras na cidade”, afirma.
Como pajé, Wakunapu desempenha ainda outro papel na coleta de sementes: a de guardião espiritual do trabalho das Yarang.
“As
árvores e as sementes têm espírito. Quando um grupo de coletoras vai
trabalhar, eu vou como guardião para conversar com os espíritos para
dizer que não queremos fazer mal a eles”, detalha o pajé. “Assim, os
espíritos permitem que a gente trabalhe com eles. Pedimos permissão. Por
isso, as mulheres que trabalham na coleta não ficam doentes”, explica.
Da mesma forma, Arinka Ikpeng, marido de Yawala Ikpeng, outra
coletora Yarang, diz que gosta de ajudar. Em suas saídas para caçar e
pescar, ele, conhecedor da mata, ajuda a identificar novas áreas de
coleta de sementes. “Tenho conhecimento da floresta, sei quando
acontecem a floração e frutificação. E gosto de ajudar a coletar”,
afirma.
Porém, quando os homens Ikpeng clamam alguma autoria na coleta de
sementes, as Yarang imediatamente se posicionam. “Os homens começaram o
trabalho [com as sementes], mas não têm habilidade para coletar e
beneficiar as sementes. Os homens não davam conta”, relembra Magaró.
Segundo
ela, todos os seus gastos com a renda das sementes são planejados em
família. E a maior parte vai para objetos de uso coletivo para aumentar a
produtividade. “Eu não compro coisa pequena”, diz. “Comprei um barco,
porque todo mundo pode aproveitar. A coleta é feita longe, e precisa ir
de barco.”
“Quando
tem floração das árvores, nós limpamos o entorno. Vou com o marido e já
mapeio os pontos de coleta. Assim, já sabemos onde vai cair a fruta e
vamos coletar”, relata.
O
planejamento financeiro também está presente em outras famílias do
Movimento das Mulheres Yarang. “É um gasto planejado. A cada ano vamos
planejando uma meta. Se vai comprar tal coisa, quando chega o dinheiro a
gente compra o que combinou”, explica Makawa Ikpeng.
Suas
compras, por exemplo, foram desde um fogão até uma nova dentadura — com
manutenção — passando por uma bicicleta com carreta para transportar
produtos da roça até a aldeia.
Cantar, beneficiar, armazenar
Após
uma hora de coleta, com seus cestos cheios de sementes de
murici-da-mata, o destino final do grupo de coletoras lideradas por Koré
Ikpeng é a Casa de Sementes do Movimento das Mulheres Yarang, no pólo
Pavuru, entre as aldeias Arayó e Moygu.
Ali, elas usam uma peneira para terminar de beneficiar as sementes,
que serão secas ao sol e armazenadas até a chegada dos próximos pedidos
de produtores rurais.
Quando chegam os pedidos, as sementes são enviadas para que o plantio seja realizado com uma “muvuca” (saiba mais), técnica que consiste em uma mistura de sementes nativas e de adubação verde para a formação da estrutura da floresta.
Para
Koré Ikpeng, e para todos os outros 567 coletores que fazem parte da
Rede de Sementes do Xingu, a atividade só faz sentido com a união das
Yarang, dos povos indígenas, dos extrativistas, dos assentados e dos
coletores urbanos.
“Você
nunca vai encontrar Yarang sozinha. Estamos sempre juntas. Como vamos
ser Yarang e andar sozinhas? O nome diz tudo: é um movimento de
formigas. Como liderança acho muito importante essa união. Se eu for
coletar sozinha, fico triste”, afirma.
Depois
da festa de 10 anos do Movimento das Mulheres Yarang, com tanta gente
de fora abraçando esse trabalho, é difícil imaginar que algum dia as
Yarang andem sozinhas. Quem entende o valor da união e das florestas não
vai deixar.
O avanço do império da sede e as disputas geopolíticas pelos recursos hídricos
IHU - 6 de agosto de 2019
Por: Patricia Fachin
A crescente indisponibilidade física, econômica e social de água doce no mundo está transformando a sede “num dilema central” em vários países, diz o pesquisador Maurício Waldman à IHU On-Line. Autor do livro recém-lançado “Água: escassez e conflitos no império da sede” (São Paulo: Editora Kotev, 2019), ele explica que atualmente a oferta de água
já é inferior à demanda. “Apenas no século XX, a população mundial
cresceu 4,4 vezes. Mas o consumo de água expandiu 7,3 vezes”, informa.
Neste contexto, adverte, ciclos produtivos fundados em matrizes
hídrico-intensivas são insustentáveis porque, para “produzir um carro
médio, são necessários 400.000 litros de água. Um simples computador
pessoal de 24 kg emprega mais de dez vezes seu peso em matérias-primas,
22 kg de produtos químicos e 1,5 mil litros de água. Um chip
semicondutor gera um volume de restolhos equivalente a 100.000 vezes o
peso desse componente”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Waldman pontua que o “mundo moderno criou uma logística de abdução de água que não tem como dar certo”, porque as reservas hídricas estão concentradas somente em sete países: Brasil, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Índia, China e Congo. Essas nações, menciona, “têm sob sua tutela 40% da água da Terra”. Enquanto isso, compara, a expectativa é de que “no ano de 2040, grande parte do continente asiático viverá uma situação de estresse hídrico
físico extremamente elevado e, ademais, novas nações e regiões se
unirão ao conjunto de espaços dominados pelo fantasma das torneiras
secas”.
Waldman também chama atenção para os conflitos geopolíticos
que já estão ocorrendo por conta da disputa pelos recursos hídricos.
“Muitos dos assim considerados Estados-diretores, países que estão à
testa de uma esfera de influência, tais como a África do Sul, Israel, China e a Índia,
estão com os olhos voltados para a questão da água, essencial para que
assegurem uma logística que atenda suas demandas. Nações como a Turquia, que sob comando de Erdogan busca projetar um leque de ações próprias no Oriente Médio, tem na pauta da repressão aos curdos e das incursões no território sírio, o controle do curso superior dos rios Tigre e Eufrates”, afirma. Já na África, menciona, “Angola, embora diplomaticamente calcada numa política de boa vizinhança com os países da África Austral,
tem que levar em consideração as ambições sul-africanas pelas imensas
reversas de água doce do planalto central angolano, fator que induz esse
país a adotar uma agenda diplomática com a finalidade de garantir as
suas provisões de água, que, aliás, lhe confirmam uma posição-chave no
cone sul da África”. E conclui: “Estamos diante de um cenário de
disputas que descortinam um profundo acirramento das tensões
interestatais, tendo, como resultado direto, conflitos abertos entre povos, etnias e nações pela posse da água”.
Maurício Waldman (Foto: Arquivo Pessoal)
Maurício Waldman
é graduado em Sociologia e em Geografia Econômica pela Universidade de
São Paulo – USP, onde também cursou o mestrado em Antropologia e o
doutorado em Geografia. Suas pesquisas pós-doutorais concentram-se nas
áreas de Geociências, Relações Internacionais e Meio Ambiente.
Em 2011, Waldman participou como especialista no programa Água: O Mundo e um Recurso Precioso, produção especial da Rádio Nações Unidas (ONU), transmitido diretamente de Nova York. É autor de, entre outros livros, Lixo: cenários e desafios (Cortez Editora, 2010), Antropologia & Meio Ambiente (SENAC, 2006) e Ecologia e Lutas Sociais no Brasil (Contexto, 1992).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O seu novo livro tem por título “Água: escassez
e conflitos no império da sede”. O que é o império da sede e como ele
foi constituído?
Maurício Waldman - O império da sede
refere-se a um processo que irrompe no seio da ordem global,
caracterizado por sérios comprometimentos da seguridade hídrica das
populações, transformando a sede num dilema central, carência vivenciada
por amplo conjunto de grupos sociais, povos e nações. Esta dificuldade,
cadenciada pela crescente indisponibilidade física, econômica e social deágua doce, acirra na escala planetária o estresse hídrico, isto é, contexto no qual a oferta de água é inferior à demanda, situação que tem avançado de um modo que não tem precedentes na história humana.
IHU On-Line - Há muitos anos ambientalistas alertam para o
risco da escassez de água. Quais são os riscos reais de haver escassez
hídrica e em que partes do mundo isso já é uma realidade?
Maurício Waldman - Neste particular, importa rubricar que, a despeito das mobilizações dos ambientalistas, o entendimento da eclosão de uma crise hídrica é, em termos históricos, absolutamente recente. O Relatório Limites do Crescimento, elaborado pelo Clube de Roma e que foi alçado à notoriedade a partir dos anos 1970, não sublinhava nada muito claro a respeito de uma latente crise da água doce,
ao menos na forma como esta ganhou corpo nas últimas décadas. Era como
se o líquido fosse inesgotável. Aliás, eu mesmo me recordo que na
escola, na minha infância, os professores se referiam à água como um
“bem natural inesgotável”. A mais ver, tanto esta percepção é de data
recente, que mesmo a ONU criou o Dia Mundial da Água apenas em 1992, às vésperas da ECO-92.
Quanto à exiguidade galopante do líquido, seria imperioso registrar que
as águas de escoamento superficial, que de um modo ou de outro
persistem como o reservatório mais importante do líquido, constituem uma
ínfima fração das águas doces, tão só entre 0,014% e 0,015% dos
montantes hídricos do Planeta.
As águas de escoamento superficial,
constituem uma ínfima fração das águas doces, tão só entre 0,014% e
0,015% dos montantes hídricos do Planeta - Mauricio Waldman
Ainda assim, este insumo não tem sido alvo de políticas de
preservação. Os especialistas antecipam que, no ano de 2040, grande
parte do continente asiático viverá uma situação de estresse hídrico físico
extremamente elevado e, ademais, novas nações e regiões se unirão ao
conjunto de espaços dominados pelo fantasma das torneiras secas. Esta
relação incluiria os Estados Unidos, diversos países europeus, da Oceania e da América do Sul,
para os quais as águas doces não estão atualmente assenhoreadas do
predicado da rarefação. Em resumo, os prognósticos são apavorantes. O
que temos pela frente, caso não tomemos medidas urgentes, é uma espécie
de Blade Runner piorado.
IHU On-Line - De que forma o Antropoceno, como era geológica e ambiental, tem impactado os recursos hídricos?
Maurício Waldman - O Antropoceno,
que é como definimos o espaço artificializado pelas sociedades, começa a
surgir com a própria espécie humana, que paulatinamente vai
esculturando seu espaço de vida. Embora seja frequente a noção de que as
sociedades antigas “convivessem” com a natureza, mantendo um
“equilíbrio” com o meio natural, advirta-se que esta flexão imaginária
não é real. A parte os vínculos notórios com o ambiente natural,
nada nesta inferência permitiria advogar a existência de uma “idade de
ouro perdida”. Visão corriqueira na iconografia zelosamente cultivada
por um imaginário ecologista, esta concepção, no entanto, é falha no
plano histórico [1].
Os humanos da antiguidade alteraram o ambiente e, embora de certa
forma não comprometessem os ciclos maiores da natureza, chegaram a
intervir de modo a levar diversas civilizações para desastres ambientais
de larga proporção, tal como aconteceu na Ilha de Páscoa e com o complexo cultural Maia na América Central.
Por outro lado, estas intervenções pautavam uma margem de manobra
ecológica, permitindo que também, em vários casos, o meio natural
pudesse se revitalizar e reconquistar sua proeminência: os chamados retornos da natureza
[2]. Isto significa que a dignidade das águas, ainda que se ressentindo
de impactos pontualmente desastrosos, não foi afetada em quantidade e
qualidade. Todavia, não é esta a performance da Modernidade na gestão das águas doces.
HU On-Line - No que o mundo moderno difere, no que diz respeito à água, das sociedades antigas?
Maurício Waldman - Particularmente, diferem no que se refere às exações do líquido. O mundo moderno criou uma logística de abdução de água que não tem como dar certo, em especial se lembrarmos que as reservas hídricas são, do ponto de vista da geografia física, volumetricamente as mesmas e que apenas sete países (Brasil, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Índia, China e Congo) têm sob sua tutela 40% da água da Terra. Neste panorama estruturalmente crítico, as exações hídricas são imensas. Vale lembrar que apenas no século XX, a população mundial cresceu 4,4 vezes. Mas, o consumo de água expandiu 7,3 vezes. As requisições dos ciclos produtivos, fundados em matrizes hídrico-intensivas, são insustentáveis.
Para produzir um carro médio, são
necessários 400.000 litros de água. Um simples computador pessoal de 2,4
kg emprega mais de dez vezes seu peso em matérias-primas, 22 kg de
produtos químicos e 1,5 mil litros de água - Maurício Waldman
Para produzir um carro médio, são necessários 400.000 litros de água.
Um simples computador pessoal de 2,4 kg emprega mais de dez vezes seu
peso em matérias-primas, 22 kg de produtos químicos e 1,5 mil litros de
água. Um chip semicondutor gera um volume de restolhos equivalente a
100.000 vezes o peso desse componente. Logo, não se trata apenas da água
incorporada nos produtos [3], mas de igual modo, dos impactos
resultantes do revolvimento do solo, processamento das matérias-primas e
da geração de energia, atividades que, devido ao seu reconhecido
potencial poluente, têm pavimentado não só a globalização da sede, mas em paralelo, uma mundialização das águas inseguras.
IHU On-Line - O que seriam as águas inseguras?
Maurício Waldman - É a água de má qualidade e
que oferece perigo em curto, médio ou em longo prazo para a saúde das
populações e o meio ambiente. Entendo, por sinal, que muitas narrativas
relacionadas à água passam ao largo da problematização da qualidade do
líquido que sai da torneira. Fala-se muito em “garantir acesso à água”,
em “água para todos”, “universalização do abastecimento” e assim por
diante. Mas é preciso atentar para a qualificação do que é rotulado como
“água potável”, que em muitos casos seria, quando muito, uma “água bebível”.
A título de exemplo, a Environmental Protection Agency - EPA, órgão ambiental do governo estadunidense, estabelecia dez parâmetros para a qualidade da água
oferecida à população em 1925. Todavia, passou a operar com 20
parâmetros em 1974, 130 no ano 2000 e acredita-se que os indicadores
serão 220 no ano que vem. O que isto quer dizer? Que a poluição dos corpos d’água
cresceu logaritmicamente e, nesta perspectiva, pouco adianta ampliar a
agenda de critérios técnicos para a potabilidade. O fato é que numa
escala planetária as águas estão sendo atormentadas por toda sorte de
agravos, e pouco se faz para o problema retroagir. De acordo com a ONU, em 2018, em torno de 80% das águas residuárias do Planeta não recebiam nenhum tratamento.
Um chip semicondutor gera um volume de restolhos equivalente a 100.000 vezes o peso desse componente - Maurício Waldman
IHU On-Line - Por que a sede deixou de ser um problema apenas
de regiões carentes deste recurso e se transformou em um problema das
metrópoles?
Maurício Waldman - Entenda-se que o crescimento urbano mundial
é desmesurado e se desenvolve sem qualquer planejamento, principalmente
na periferia da ordem global. Assim, a irrupção de megacidades
disfuncionais ocupadas por multidões de pobres desassistidas pelo poder
público foi um passo. Confira-se que levantamentos datados dos anos
1980, divulgados por órgãos da ONU, antecipavam que por
volta do ano 2000, quando metade dos seis bilhões de humanos estaria
concentrada nas áreas urbanas, dois bilhões residiriam em metrópoles
situadas nos países periféricos e um bilhão, nas dos países centrais,
que é exatamente o que ocorreu [4]. Esta dinâmica, diga-se de passagem,
também alastrou-se no Brasil, sendo sua emanação mais acabada a Macrometrópole Paulista - MMP. Com papel-chave na territorialidade nacional, em 2018 a MMP cobria 20% da área do Estado deSão Paulo, abrigava 174 municípios e 33.650.000 habitantes. Nesta mancha urbana, problemática devido à insuficiência de recursos hídricos locais,
a rarefação da água decorreu tanto de fatores climatológicos e
hidrológicos, quanto de implacáveis achaques ambientais, apoiados numa
das pontas na vexaminosa gestão da água e falhas de infraestrutura, e na
outra, firmada na urbanização desordenada e na blindagem do solo
urbano, induzindo alterações meteorológicas que impactaram a
megametrópole, tendo por notação cabal alterações drásticas no perfil
pluviométrico e, por extensão, no avanço do império da sede [5].
IHU On-Line - Quais são as disputas e conflitos envolvidos em torno dos recursos hídricos?
Maurício Waldman - As disputas ocorrem em múltiplas vertentes e segmentos da sociedade e da economia, tanto aqui no Brasil como em todo o mundo. Hoje, o consumo de água é seis vezes superior ao que era cem anos atrás, sendo que relatórios da ONU preveem a intensificação das requisições de água numa ordem entre 20% e 50% a mais até 2050. Existe também notória desigualdade na utilização do líquido:
12% dos humanos mais ricos consomem 85% da água disponibilizada para
consumo. Uma criança dos países afluentes tem à sua disposição cerca de
30 a 50 vezes mais água do que a de um país pobre. É primordial frisar
que as conflagrações recrudescem basicamente em razão da rarefação do
líquido, transformando o acesso à água num problema de segurança, que cada vez mais interfere nos rumos do sistema global.
12% dos humanos mais ricos consomem 85%
da água disponibilizada para consumo. Uma criança dos países afluentes
tem à sua disposição cerca de 30 a 50 vezes mais água do que a de um
país pobre - Maurício Waldman
Água na pauta da segurança nacional
Nos Estados Unidos, no rescaldo dos ataques de 11 de Setembro, a água
passou a ter destaque na pauta de segurança nacional desse país. As
autoridades passaram a priorizar a proteção das hidrovias e dos
suprimentos de água potável como item relevante para a seguridade
norte-americana. Recorde-se que o interesse da Casa Branca pelo líquido não se restringe aos corpos d’água dos Estados Unidos.
Endossando uma ótica geopolítica, a água hoje desponta como um nexo
central, induzindo a gestação de narrativas legitimadoras de ações de intervenção com o objetivo de assegurar os interesses norte-americanos. Assim, na própria mídia dos Estados Unidos encontramos declarações do staff político e de peritos em relações internacionais que não permitem duvidar da importância do quesito água na pauta da política externa de Washington.
Na voz destes especialistas, os Estados Unidos, na condição de potência
mais poderosa do mundo, têm interesse direto em colocar a segurança hídrica global
no topo de sua agenda de política externa e de forjar um papel de
liderança nessa área, pressupondo uma abordagem para a crise hídrica
global como modo de poupar o país de fracassos no exterior.
Mundo de olho na água
Muitos dos assim considerados Estados-diretores, países que estão à testa de uma esfera de influência, tais como a África do Sul, Israel, China e a Índia, estão com os olhos voltados para a questão da água, essencial para que assegurem uma logística que atenda suas demandas. Nações como a Turquia, que sob comando de Erdogan busca projetar um leque de ações próprias no Oriente Médio, tem na pauta da repressão aos curdos e das incursões no território sírio, o controle do curso superior dos rios Tigre e Eufrates. Angola, por sua vez, embora diplomaticamente calcada numa política de boa vizinhança com os países da África Austral,
tem que levar em consideração as ambições sul-africanas pelas imensas
reversas de água doce do planalto central angolano, fator que induz esse
país a adotar uma agenda diplomática com a finalidade de garantir as
suas provisões de água, que, aliás, lhe confirmam uma posição-chave no cone sul daÁfrica
[6]. Em resumo, estamos diante de um cenário de disputas que
descortinam um profundo acirramento das tensões interestatais, tendo,
como resultado direto, conflitos abertos entre povos, etnias e nações
pela posse da água.
IHU On-Line - Então teremos guerras pela água?
Maurício Waldman - Na realidade, devemos em primeiro lugar assinalar que os conflitos pela posse dos corpos líquidos são de longa data. Não é à toa que a palavra rivalidade é justamente oriunda do latim “rivus”, que significa rio. Em segundo lugar, a despeito da antiguidade dos conflitos pelo líquido,
é notória a tendência das contendas pela água em assumir feições cada
vez mais belicosas no mundo contemporâneo. Vale lembrar que a mídia
corporativa registrou, já em 1995, uma cortante máxima apregoada por Ismail Serageldin, que então, era o vice-presidente do Banco Mundial. Disse ele: “Se as guerras desse século foram lutas pela posse do petróleo, as guerras do próximo século terão a água no centro das disputas”.
Conflitos pelos recursos hídricos
Muitos conflitos que ocorreram tiveram no controle dos recursos hídricos
uma motivação essencial. Contudo, muitas reportagens não trabalham as
causas mais profundas das conflagrações, detendo-se nas motivações e
aspectos de ordem étnica, religiosa, nacional e social, que, no plano da
percepção, seriam mais cênicos. Neste sentido, um ponto que nunca é
citado a respeito da Guerra dos Seis Dias, de 1967, entre Israel e os países fronteiriços, foi o anúncio de planos dos governos árabes, meses antes de o conflito estalar, de desviar águas do rio Jordão,
um dos raros cursos d’água com fluxo permanente naquela parte do
Planeta. Indo direto ao ponto, tramava-se secar as torneiras de Israel
como parte de um objetivo em riscar o país do mapa político da região.
Logo, a única alternativa era partir para o combate ou morrer de sede
[7]. Certo é, os desdobramentos políticos posteriores a este conflito,
em especial envolvendo os palestinos, conquistaram maior notoriedade.
Mas nada disso nega o papel essencial da água para a eclosão desta
guerra, assim como explica a resiliência do estado permanente de
belicosidade entre israelenses e sírios.
Apenas sete países (Brasil, Estados
Unidos, Canadá, Rússia, Índia, China e Congo) têm sob sua tutela 40% da
água da Terra - Maurício Waldman
IHU On-Line - Mas se Israel tem priorizado a dessalinização, por que as águas de rios e lagos persistem como foco de conflitos?
Maurício Waldman - Apesar de Israel ter desenvolvido notáveis padrões de eficiência hídrica e, hoje em dia, calçar o abastecimento em centrais de dessalinização,
acontece que as águas de rios, lagos e aquíferos permanecem altamente
estratégicas. Afinal, bombardeios cirúrgicos podem colocar fora de
operação a água que abastece o país. Pode-se bombardear e arruinar uma usina de dessalinização,
mas não é possível fazer o mesmo com rios ou águas subterrâneas. Assim,
visando garantir uma retaguarda para sua seguridade hídrica, Israel não abre mão, por exemplo, dos mananciais das Colinas de Golan, conquistadas da Síria na guerra de 1967. Objetivamente, no Oriente Médio
e em várias partes do globo, uma inquietante geopolítica da água doce é
que está dando as cartas. Em paralelo, sublinhe-se que a problemática
do acesso à água é determinante para muitos conflitos internos noutros
países da região.
A Síria e o Iêmen, ambos assediados por insidioso estresse hídrico, seriam exemplos notórios desta situação. Na Síria,
nos anos anteriores a 2011, quando eclodiu a guerra civil que prossegue
até hoje, 8% da população, cerca de 1.500.000 pessoas, em especial
camponeses e pastores pobres, deixaram suas terras, seguindo para os
centros urbanos. Com isso, agravou-se a situação social nas cidades,
vitaminando a efervescência política que se desdobrou no confronto
armado contra o regime de Bashar Al-Hassad.
Quanto ao Iêmen, trata-se de um dos países mais secos do Planeta. Sana,
a capital, tornou-se, na voz de muitos especialistas, a primeira sede
de governo sem água do mundo. O pior é saber que estes conflitos
potencializam a escassez hídrica, pois os grupos em
oposição não hesitam em lançar mão de táticas truculentas como o
envenenamento da água e o bloqueio das redes de distribuição para forçar
a rendição das facções adversárias.
Para arrematar, encontram-se no Oriente Médio duas outras áreas críticas em termos de acesso à água: o Estado da Palestina, onde Gaza
é um caso ostensivo de déficit hídrico estrutural, o mais alto do
Planeta, em vista de que, das águas locais, 96% são consideradas
impróprias para o consumo.
Ademais, temos o seríssimo conflito que opõe
nos territórios ocupados a população palestina aos assentamentos ilegais
construídos por sucessivos governos de Israel, sítios
que se apropriam das águas subterrâneas em absoluto desrespeito às
normas internacionais. À vista deste último caso, entenda-se que mesmo
Israel, detentor de um padrão de gestão ímpar no interior do seu
território, não está dissociado de problemas relacionados à carência física de água [8].
Crise mundial
Nos dias de hoje, um bilhão de pessoas, cerca de 13% da humanidade, vive, ou tenta sobreviver, com menos de 50 litros de água por dia, volume que corresponde à água de dessedentação diária de uma cabeça de gado bovino. Contudo, em 2050, de acordo com a ONU, antecipa-se que mais de 37% dos 11,2 bilhões de humanos
não poderão contar nem mesmo com este volume ínfimo do líquido [9].
Consequentemente, num panorama como este, é inevitável que os conflitos
se tornem cada vez mais acirrados. Ao mesmo tempo, entenda-se que o
problema não pode ser avaliado unicamente em termos de métricas da
rarefação das águas doces.
Concretamente, existem problemas de gestão, independentemente do volume de água disponível.
Note-se, para exemplificar, que o Brasil,
país que tem sob sua guarda 12% das reservas hídricas do globo, nem
mesmo de posse deste formidável acervo hídrico consegue atender a demanda de água da população. Tanto assim que em 2017 as torneiras roncaram em Brasília e em Fortaleza, apenas para citar dois casos mais recentes. Neste ínterim, Maceió vivenciou enchentes em proporções verdadeiramente diluvianas. Note-se que esta última cidade é capital de Alagoas,
ou seja, é um núcleo urbano nordestino, o que, em termos do chamado
senso comum, excluiria a ocorrência de fenômenos deste tipo. Logo,
existe uma significativa parcela de responsabilidade na questão da falta d’água no país, colocando em xeque as formas de governança hídrica, particularmente por parte dos órgãos do Estado [10].
IHU On-Line - Quais são os problemas que o senhor evidencia na gestão e distribuição da água no Brasil?
Maurício Waldman - O que se tem é uma realidade altamente vexatória se lembrarmos que Pero Vaz de Caminha, responsável pelo documento que muitos classificam como sendo a “certidão de nascimento” do Brasil, nos definia como “País das Muitas Águas”
[11], fato que, em princípio, colocaria para correr o fantasma das
torneiras secas. A não ser, é claro, pela absoluta ausência de
compromisso público das autoridades. Sublinhe-se o escandaloso nível de perda de água tratada
na rede pública de abastecimento, que de acordo com diversos estudos
somaria pelo menos uma terça parte do total do líquido injetado na rede
de distribuição. Este patamar de desperdício, inaceitável em si mesmo, é
ainda mais escabroso quando se sabe que metrópoles como Chicago perdem 2% na rede urbana de distribuição; Amsterdam perde 3%; Frankfurt, 3,3%; Tóquio, 3,6% e Barcelona, 6%. Mesmo metrópoles disfuncionais como Pequim e Mumbai
apresentam percentuais menores de perdas do que a média nacional,
respectivamente 12,5% e 13,6% [12]. Para piorar, ocorre um desmazelo
flagrante, também de responsabilidade do aparato de Estado, no tocante à
qualidade das águas.
IHU On-Line - Qual é o quadro qualitativo das águas nacionais hoje?
Maurício Waldman - Para simplificar, é péssimo. Acumulando várias décadas de políticas omissivas no tratamento das águas servidas, hoje em dia, apenas três países da América Latina, conjunto de nações que não prima por políticas hídricas de excelência, possuem um quadro de saneamento pior que o brasileiro: Haiti, Nicarágua e Belize. No meio rural latino-americano, apenas dois países, o Haiti e o Peru,
possuem população atendida por serviços de saneamento em níveis
inferiores aos do Brasil. Além da poluição por esgotos, o país ainda
enfrenta seríssimos problemas decorrentes da ausência de políticas
sérias, justas e decentes visando à preservação dos corpos líquidos.
Apenas três países da América Latina,
conjunto de nações que não prima por políticas hídricas de excelência,
possuem um quadro de saneamento pior que o brasileiro: Haiti, Nicarágua e
Belize - Maurício Waldman
Fala-se muito do esgotamento sanitário urbano e,
infelizmente, poucos recordam o impacto da criação dos rebanhos. Para
exemplificar, e tomando por base cálculos do engenheiro Dirceu D'Alkmin Telles pelos quais o dejeto suíno é cem vezes mais poluente que o excremento humano, a região Oeste de Santa Catarina,
ao concentrar criadouros com 3.000.000 de porcos, impactaria o meio
natural no tocante ao estrume, tanto quanto 300 milhões de pessoas,
total que corresponderia à população dos Estados Unidos em 2010, calculada, nessa data, em 310 milhões de cidadãos. Quanto à agricultura, teríamos os impactos provocados pelos agrotóxicos, todos de extrema gravidade.
IHU On-Line - No que os agrotóxicos agravam a qualidade das águas doces?
Maurício Waldman - Em primeiro lugar, sublinhe-se que os agrotóxicos, brandamente carimbados como “defensivos agrícolas”
pelo marketing da indústria química, reportam a princípios ativos que,
em alguns casos, foram o princípio ativo para a produção de gases
tóxicos utilizados em diversas guerras e nos campos de extermínio
nazistas. O problema é que estes produtos químicos, cuja utilização se
expandiu no meio rural brasileiro de um modo impressionante, imiscuem-se
cedo ou tarde, ou mais cedo do que se pensa, às massas líquidas e, por
essa via, chegam à mesa dos brasileiros. Por exemplo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa
detectou que quase 30% dos principais alimentos que compõem a cesta de
consumo básica nacional apresentam irregularidades quanto aos agrotóxicos. A mesma agência, em análise feita no biênio 2011-2012, encontrou níveis elevados de resíduos agrotóxicos
em um terço das frutas, vegetais e hortaliças. Para piorar, um em cada
três itens avaliados apresentava ingredientes ativos não autorizados,
que chegam ao país através do comércio irregular e clandestino de
biocidas. Em grau variável, causam intoxicações, distúrbios
neurológicos, anomalias e disrupções genéticas, propiciadas por um
coquetel de princípios ativos mutagênicos, cancerígenos e iatrogênicos,
presentes na formulação destes produtos.
Consumo de Agrotóxicos e Afins no Brasil
no período 2000-2014 em toneladas de ingredientes ativos (Fonte:
Levantamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis - IBAMA -, a partir da consolidação de dados
fornecidos pelas empresas do setor
IHU On-Line - O que deve ser feito para solucionar este problema?
Maurício Waldman - Cabe aqui a nota que, indiscutivelmente, algo tem que ser feito. No Brasil, o segmento agropecuário absorve 78,3% da água
consumida no país, ou seja, é o maior usuário do líquido, bem mais do
que o uso residencial, calculado em 11,1% do total. Isto significa que a
qualidade da água nacional está enormemente balizada pelo que acontece no campo. Ao mesmo tempo, sabe-se que, embora o Brasil corresponda a 4% do mercado global de commodities agrícolas, responde por 20% do mercado mundial de agrotóxicos. Os números impõem que há algo de profundamente errado nisto tudo.
No Brasil, o segmento agropecuário
absorve 78,3% da água consumida no país, ou seja, é o maior usuário do
líquido, bem mais do que o uso residencial, calculado em 11,1% do total
- Maurício Waldman
Um estudo minucioso da professora Larissa Mies Bombardi,
do Laboratório de Geografia Agrária da USP, demonstra que os níveis de
biocidas nos alimentos são estratosféricos. Para citar unicamente o caso
de um dos agrotóxicos, o glifosato,
herbicida sistêmico de amplo espectro e dessecante de culturas, sabe-se
de efeitos desreguladores endócrinos nas células hepáticas humanas,
existindo também laudos que o relacionam à infertilidade e câncer de
mama. Considerado como um biocida sobre o qual recairia muita cautela no
uso, ainda assim, na comparação de Limite Máximo de Resíduos - LMR entre o Brasil e a União Europeia,
o café consumido no país apresenta concentração 10 vezes superior ao
mesmo produto comercializado na Europa. Para a cana-de-açúcar, esta
proporção é 20 vezes mais alta. Na água potável consumida nas cidades, a lei brasileira permite que o glifosato
esteja presente numa proporção 5.000 vezes superior ao permitido para a
água europeia de consumo urbano. Deste modo, cabe, antes de tudo, fazer
valer um rígido controle da utilização destes insumos químicos, até
mesmo para garantir a presença brasileira no mercado agrícola internacional.
IHU On-Line - Israel sempre é mencionado como um exemplo no
que diz respeito à gestão da água. O que caracteriza a gestão hídrica
feita no país e de que modo esse modelo poderia ser aplicado no Brasil?
Maurício Waldman -Israel é um país extremamente diferente do Brasil. Embora muitos comparem Israel ao Nordeste, esta aferição não confere. O geógrafo pernambucano Manuel Correia de Andrade identificou no município de Cabaceiras, na Paraíba, o sítio mais seco do Brasil. Lá chove em média 259 mm por ano, precipitação dez vezes superior à maior parte de Israel. Caso em Israel chovesse na mesma proporção que no Nordeste, todos naquele país festejariam a fartura de água soltando caramuru. Indo direto ao ponto, 65% de Israel são desertos, e não regiões semiáridas como no Nordeste.
Apenas 2% da superfície do país são massas líquidas. Contudo, Israel
faz uso inteligente de cada gota de água disponível. Telavive recicla
98% das águas residuárias, um recorde mundial, e os métodos de irrigação
com know how israelense são afamados pela eficiência técnica.
Israel exporta tâmaras consideradas as melhores do mundo, produzidas na
tórrida depressão desértica do Aravá, onde nem camelo aguenta a secura do clima. Nesta declinação, o sistema de gestão de Israel até poderia ser levado em consideração pelo Brasil, mas não as matrizes de fornecimento de água.
Um país que é senhor de 12% das águas do
Planeta precisaria recorrer a usinas de dessalinização? Isto não faz
nenhum sentido - Maurício Waldman
Como um país que é senhor de 12% das águas do Planeta precisaria recorrer a usinas de dessalinização? Isto não faz nenhum sentido. Poucos meses atrás, técnicos do Mekorot, que é o sistema do aqueduto nacional de Israel, estiveram no Brasil e declararam o óbvio: não adianta produzir água e distribuí-la por uma rede que não tem manutenção e desperdiça água
na proporção que comentei. Isto seria como injetar água em mangueira
furada. Fica então uma dica de lição de casa para as autoridades:
consertem primeiramente a rede, levem a sério a função para a qual foram
escolhidos, e só depois proponham sistemas milionários de captação de água doce [13].
IHU On-Line - O senhor declarou recentemente que o sistema
moderno de produção de mercadorias é hídrico-intensivo e consome muita
água. Quais são suas críticas a esse sistema e o que seria uma
alternativa a ele? É possível produzir os mesmos produtos com menos
água?
Maurício Waldman - Iniciando a resposta pela última indagação, é possível sim produzir os mesmos bens de que necessitamos requisitando menos água, gerando menos lixo e solicitando menos energia [14]. Ademais, não é necessário pautar técnicas ultramodernas para obtermos tais resultados. O Padre Cícero,
que não era técnico, nem formado em nenhuma especialidade acadêmica, já
sabia disso apenas sopesando a sabedoria popular camponesa [15]. É
igualmente imprescindível enfatizar que os ganhos em eficiência hídrica
possuem limites objetivos e, a partir de certo ponto, fica evidente que
seria necessário, mais do que alterar a tecnologia, mudar radicalmente
os hábitos culturais de consumo.
Nada melhor para exemplificar o que acabei de dizer do que avaliarmos a questão do consumo de carne bovina. Os cálculos de pegada hídrica, que dizem respeito ao volume de água exigido para produzirmos determinado bem, esclarecem que a proteína bovina é a mais impactante de todas no segmento pecuário. As planilhas da Agência Nacional de Águas - ANA
indicam que os rebanhos bovinos são responsáveis, no país, pelo consumo
de 88% da água destinada para a criação pecuária.
Cálculos mais
minuciosos demonstram que para produzir 1 kg de carne de boi, retiramos
16.000 litros de água do meio natural. Isto quando o produto é
proveniente da criação com elevado conteúdo técnico, qual seja, com
eficiência hídrica de excelência. Pois bem, pensando-se uma conta d’água do boi
[16], estes 16.000 litros incorporados a um quilo de proteína bovina
seriam suficientes para uma pessoa tomar banho de ducha durante um ano e
dois meses e banho de imersão ao longo de 107 dias. Na ponta do lápis,
economizamos mais água restringindo o consumo de carne vermelha
do que deixando de tomar banho durante meses. Logo, eficientizar o uso
do líquido tem limites objetivos. Os padrões de consumo precisam mudar,
pois estes são incompatíveis com o futuro da humanidade. Não tem planeta
que dê conta dos padrões usuais de utilização de água.
Embora o Brasil corresponda a 4% do
mercado global de commodities agrícolas, responde por 20% do mercado
mundial de agrotóxicos. Os números impõem que há algo de profundamente
errado nisto tudo - Maurício Waldman
IHU On-Line - O que significa então falar em gestão sustentável das águas doces?
Maurício Waldman - Significa rever em profundidade o
estilo de vida moderno e, em paralelo, encetar ações concretas em prol
da preservação dos recursos hídricos, em quantidade e também conforme
comentei, em favor da saúde das águas doces, detendo especial atenção para os fluxos de escoamento superficial [17]. Não adianta apologizar a exploração dos aquíferos
quando não existem ou não são acatadas as normas de uso e ocupação do
solo, seja no meio urbano, seja no meio rural. Mesmo o icônico Aquífero Guarani,
que segundo estudos concentra um volume equivalente a 90,2% das águas
de superfície da Terra, está sendo poluído pelo chorume dos lixões e
pelos agrotóxicos. Igor Shiklomanov, famoso
especialista russo em recursos hídricos, repete o óbvio em vários
estudos, inclusive nos que foram encomendados pela ONU: os aquíferos
demoram em média 2.500 anos para renovar suas águas; os lagos precisam
de 17 anos; quanto aos rios, apenas 16 dias em média. As águas dos rios estão ao nosso alcance, podem ser depuradas com maior facilidade e, para tanto, podemos contar com os ciclos da natureza.
IHU On-Line - Quais são suas propostas para permitir e viabilizar o acesso amplo, justo e equitativo à água?
Maurício Waldman - Não diria que as propostas são minhas. O que defendo na minha produção intelectual tem respaldo em centenas de papers,
relatórios e documentos, assim como na experiência concreta das
populações. Recordaria como particularmente importante a contribuição de
Wangari Maathai, ambientalista queniana que foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz de 2004, o primeiro concedido a uma mulher africana e a um ativista ecológico [18]. Devemos a Wangari a proposta da Grande Muralha Verde da África, plano de reflorestamento esverdeando o continente de ponta a ponta, um cinturão verde a conter o avanço do Saara,
restaurando terras degradadas, gerando renda com a regeneração
ecológica, incentivando a agricultura e promovendo a volta das chuvas e
da umidade, contando, para sua efetivação, com o trabalho entusiástico
de milhões de camponesas pobres.
Para comentar apenas a respeito do trecho do Níger da Muralha Verde, esse país ampliou a fronteira agrícola
em cinco milhões de hectares, protegidos por 200 milhões de árvores.
Estima-se que esta conquista proporcionou um adicional de 500.000
toneladas de cereais/ano, suficientes para alimentar 2,5 milhões de
pessoas. O investimento, inferior a US$ 20 por hectare recuperado, é um
tapa na cara de caros projetos financiados por bancos estrangeiros, que
muitas vezes se esvaem no labirinto burocrático e são roubados por
agentes do Estado.
As mudanças são possíveis e podem se tornar realidade a partir dos
esforços diretos da sociedade. A força básica da transformação decorre
dos procedimentos concretos das pessoas, com ou sem ONGs, com ou sem
Estado. Boas propostas e agendas de boas práticas ecológicas reclamam
cidadãos em movimento, assumindo a parte que lhes cabe na dinâmica geral
das mudanças. É assim que a transformação pode começar. De preferência
agora mesmo.
PODEMOS, E ATÉ DEVEMOS, NÃO GOSTAR DA INGLATERRA POR CAUSA DE OUTRAS PRÁTICAS, COMO A COLONIZAÇÃO E O IMPERIALISMO, POR EXEMPLO - E ISSO NÃO É POUCO -, MAS SEU SISTEMA DE SAÚDE CONTINUA UM EXEMPLO, E SOBREVIVE ÀS CRISES ECONÔMICAS E AOS EMBATES POLÍTICOS. SERVE, POR ISSO, COMO PARÁBOLA DO QUE É POSSÍVEL EM OUTROS PAÍSES...
Quando os britânicos já não suportam mais a imagem de si mesmos que é devolvida pelo espelho do Brexit —
um país dividido, paralisado politicamente, remoendo seus preconceitos e
desencantado com seus dirigentes—, ele voltam o olhar para a
instituição que ainda sustenta o sentimento de unidade e orgulho: o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), que acabaria, na ideia geral, por inspirar o SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro, fundado em 1988.
Na cerimônia inaugural dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, James Bond levou a rainha ElizabethII de helicóptero até dentro do estádio, e as Spice Girls ressuscitaram, com seu reencontro, o espírito de otimismo que invadiu a era da Cool Britannia de Tony Blair.
Mas foi uma estranha coreografia, em que dezenas de enfermeiras e
médicos empurravam macas com pacientes conectados a frascos de soro, que
desatou a emoção de milhões de britânicos que viram o espetáculo.
“Todo mundo, rico ou pobre, mulher ou criança, poderá usar este
serviço. Não se cobrará por nada, salvo algumas exceções. Não se exigirá
nenhum tipo de seguro. Mas não se trata de uma instituição de caridade.
Todos vocês estão pagando, como contribuintes, e servirá para acabar
com as preocupações econômicas em tempos de doença.”
Milhões de panfletos com esse texto foram distribuídos em 1948 para explicar em que consistia o recém-criado NHS,
contribuindo para infundir nos cidadãos um duplo sentimento de
pertencimento e posse. Pertencimento a um país capaz de reinventar-se
depois de uma guerra mundial que o tinha deixado exausto, de superar a
desigualdade social da era vitoriana e oferecer ao mundo um exemplo
prático do tão reclamado Estado do bem-estar.
E posse de uma rede de assistência que não era um ato de generosidade
outorgado de cima para baixo, e sim o fruto de um esforço coletivo,
conquistado no braço após décadas de luta dos movimentos de esquerda. E
de cuja virtude todos se apropriaram. Ricos e pobres. Conservadores e trabalhistas.
“Apenas três anos depois de o NHS ser fundado, o novo Governo conservador de Churchill
enfrentou uma escolha: voltar aos velhos argumentos do debate ou
aceitar a legitimidade do que havia sido criado e continuar a
melhorá-lo. Escolheram a segundo opção. E hoje, graças a essa vontade de
consenso, sentimos orgulho por uma instituição que serve para unir o
nosso país”, disse Theresa May em seu último discurso como primeira-ministra.
Qualquer político no ReinoUnido está consciente de que flertar com a ideia de introduzir um elemento de gestão privada no NHS
equivale a dar um tiro no pé. No debate britânico, o único modo de
abordar a instituição é para prometer melhoras ou defendê-la. Por isso
fez tanto sucesso o ônibus da infâmia, promovido por BorisJohnson, que durante a campanha do referendo do Brexit em 2016 estampava em suas laterais a promessa de, em caso de rompimento com a UE,
recuperar para a melhoria da saúde 350 milhões de libras (1,65 bilhão
de reais) por semana que estariam sendo destinados às instituições
comunitárias. Ou, por isso também, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, sugeriu em sua recente visita de Estado ao Reino Unido – numa resposta que era claramente improvisada e mal informada – que o NHS
estaria na mesa de negociação em um eventual futuro tratado comercial
bilateral, não houve político que não rejeitasse a proposta.
A ideia de colocar o serviço público para concorrer em pé de igualdade com os planos de saúde deixou muita gente de cabelo em pé. Porque uma das razões do orgulho com que se defende o NHS
é que os britânicos comparam seu sistema de saúde ao que existe do
outro lado do Atlântico, sem parar para pensar que logo ali, na Europa
continental, também existe uma cobertura universal e gratuita que tem
pouco a invejar à do ReinoUnido.
“Os ingleses sentem orgulho de todas as suas façanhas. Elogiam o que
fizeram bem e se esquecem do que fizeram mal. O sistema sanitário da Espanha, por exemplo, é maravilhoso, mas nós não temos essa tendência a promovê-lo”, diz NataliaZárate, uma espanhola especialista em neurogastroenterologia que trabalha há 10 anos no NHS
e ocupa cargos de responsabilidade no sistema. “Mas é inegável que
foram pioneiros em criar um serviço de saúde universal e gratuito.
Como o
que a Espanha tem, embora nesse caso muito depois e inspirado no daqui.
Um país que tinha um passado com um sistema de classes muito marcado
entrou num acordo para criar um serviço que atendesse às pessoas sem
recursos. A classe médica, que tinha grandes privilégios, aceitou
renunciar a eles para beneficiar a toda a sociedade. E isso é um marco
que merece ser celebrado. Mas, ao mesmo tempo, desconhecem o que se faz
fora”, afirma.
Trabalhadores estrangeiros
Quase 20% do pessoal que trabalha no NHS provêm de fora do Reino Unido. Não só dos países da UE, também dos da Commonwealth,
o que um dia foram os domínios do Império britânico. As enfermeiras e
enfermeiros espanhóis são especialmente apreciados por seu
profissionalismo. E um Brexit descontrolado poderia
causar uma tragédia para um sistema que conhece internamente suas
carências e se esforça, com maior ou menor sucesso, para superá-las. “No
ano passado eles comemoraram o 70º aniversário [do NHS]. Um monte de
gente veio ao meu hospital para celebrar.
Quando as pessoas se curam de
uma doença grave, continuam colaborando como voluntários para o centro”,
conta BorjaTejero, um especialista
em medicina interna que há três anos trabalha na zona sul de Londres.
“Aqui a crítica é mais construtiva. Tentam ser positivos. Há muito
orgulho por seu trabalho, e ofertas constantes. Se você está capacitado
para fazer algo, vão permitir que você faça. Você se sente integrado
desde o primeiro momento, e não param de lhe repetir os valores com os
quais a instituição foi criada: acesso imediato para todos, honestidade,
o paciente acima de tudo”, explica.
O NHS, entretanto, sofre dos mesmos problemas que os
sistemas de muitos outros países: envelhecimento da população e aumento
da população imigrante, por exemplo. E olha de esguelha para as
soluções adotadas em outras partes, mas com uma ponta de receio frente a
qualquer mudança que altere uma instituição sagrada aos olhos da
população. “Um instrumento de redistribuição social mais que um serviço,
o qual, como todos, às vezes precisa de melhoras. E se não atendermos
essa necessidade, acabamos deteriorando a justiça social que se busca,
porque acabamos colocando a instituição acima de seus objetivos”,
queixava-se recentemente Stephen Dorrell, ex-ministro de Saúde, do Partido Conservador. O medo subjacente nas últimas décadas de austeridade e escassez foi justamente de que o NHS pudesse acabar morrendo de sucesso.