segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

TAPAJÓS: AUDIÊNCIA PÚBLICA ALERTA SOBRE PERIGOS DAS HIDRELÉTRICAS

ESTOU ME CONVENCENDO QUE O CASAMENTO ENTRE GRANDES EMPRESAS INTERESSADAS COM AS OBRAS DAS HIDRELÉTRICAS NA AMAZÔNIA, JÁ DENUNCIADAS NA CORRUPÇÃO DE FUNCIONÁRIOS DA PETROBRAS, E O GOVERNO TEM COMO "JUIZ" O DEMÔNIO. SÓ ASSIM PARA ENTENDER COMO UM GOVERNO ELEITO POR QUEM DESEJAVA E CONTINUA DESEJANDO A PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS DECISÕES POLÍTICAS ABANDONE DESCARADAMENTE SEUS ELEITORES E FAÇA AS VONTADES DE QUEM SÓ BUSCA AUMENTAR SEUS LUCROS. 

DE FATO, SE POPULAÇÕES INDÍGENAS, RIBEIRINHOS, POVO DA AMAZÔNIA, PESQUISADORES, PASTORAIS E MINISTÉRIO PÚBLICO DEFENDEM COM SEGURANÇA QUE NÃO É CORRETO NEM NECESSÁRIO CONSTRUIR ESSE MONTÃO DE HIDRELÉTRICAS, SEJA PORQUE SE PODE E DEVE DIMINUIR OS GASTOS DE ENERGIA NA BUSCA DA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, SEJA PORQUE HÁ OUTRAS FONTES ABUNDANTES E QUE AGRIDEM QUASE NADA O AMBIENTE DA VIDA, COMO PODE CONTINUAR DIZENDO-SE DEMOCRÁTICO O GOVERNO QUE IMPÕE AS DECISÕES APENAS COM APOIO DE MEIA DÚZIA DE EMPRESÁRIOS E DE TÉCNICOS QUE ESTÃO MAIS A SEU SERVIÇO DO QUE DO BEM COMUM? 

TOTAL E INTEGRAL APOIO AOS PARTICIPANTES DA AUDIÊNCIA EM SANTARÉM! TOTAL CONDENAÇÃO DA AUSÊNCIA DE REPRESENTANTES DO GOVERNO FEDERAL NESTA AUDIÊNCIA!

Em Santarém, mais de 500 pessoas debatem usinas na bacia do Tapajós, mas governo não manda representante

Publicado em fevereiro 1, 2016 por Redação
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Hidrelétricas na bacia do rio Tapajós. Mapa: Agência Eletronorte

Pesquisadores, líderes indígenas, beiradeiros, procuradores da República e movimentos sociais debateram por mais de seis horas os problemas dos projetos de barragens na região. Pelo governo federal, foram convidados mas não participaram representantes do Ministério de Minas e Energia, Ibama, Funai, Eletrobras e ICMBio
Os projetos do governo para barragens na bacia do Tapajós mobilizaram a cidade de Santarém, no oeste do Pará, durante mais de seis horas de audiência pública realizada nesta sexta-feira, 29 de janeiro, na sede da Associação Comercial da cidade. Promovida pelo Ministério Público Federal (MPF), a audiência atraiu mais de 500 pessoas para ouvir pesquisadores, lideranças indígenas, procuradores da República e lideranças ribeirinhas que trataram dos inúmeros riscos e falhas dos projetos, que impactam com gravidade um dos corredores ecológicos mais importantes da Amazônia e também uma das áreas de ocupação humana mais antiga, milenar, na região.
Era tanta gente que logo no começo um grupo que não conseguiu entrar no auditório provocou um pequeno tumulto na tentativa de cancelar ou mudar a audiência de local. Mesmo assim, com atraso de cerca de uma hora, os debates transcorreram normalmente. Foram convidados representantes de vários órgãos do governo envolvidos nos projetos de barragens, mas ninguém compareceu. “De nove empresas interessadas na construção de São Luiz do Tapajós, oito são empreiteiras investigadas na operação Lava Jato”, disse o procurador Camões Boaventura ao iniciar sua explanação sobre as irregularidades até agora encontradas pelo MPF nos projetos de barragens no Tapajós.
Ao todo, são 43 barragens de vários tamanhos, projetadas pelo governo para o Tapajós e seus três afluentes, Teles Pires, Juruena e Jamanxim. Algumas, no Teles Pires e no Juruena, já estão em construção. No Tapajós, o governo anunciou que vai licenciar ainda em 2016 a usina de São Luiz do Tapajós, que alaga uma terra indígena Munduruku e algumas comunidades ribeirinhas. O projeto já enfrenta pelo menos quatro menos processos judiciais. Um deles, por não ter respeitado o direito de consulta prévia, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já tem decisão do Superior Tribunal de Justiça que obriga o governo a fazer a consulta. Mesmo tendo anunciado o licenciamento para os próximos meses, o governo não tomou nenhuma providência para consultar os povos afetados.
“Queremos ser consultados”, disse Ageu Pereira, liderança da comunidade ribeirinha Montanha e Mangabal. No Tapajós, os ribeirinhos se chamam beiradeiros. Como o nome indica, a beira do rio é essencial para seu modo de vida. Se as usinas forem construídas, eles deixarão de ser beiradeiros. A pesquisadora Camila Jericó-Daminello estimou em mais de R$ 1 bilhão as perdas das comunidades ribeirinhas só em produtos florestais e pesqueiros dos quais hoje se sustentam, em caso de construção da usina.
Outra comunidade beiradeira que vive há séculos no Tapajós e deve sumir do mapa com as barragens é Pimental. “Nós já somos impactados desde agora, pelo desrespeito. Os pesquisadores de barragem chegam na nossa terra e querem fazer estudos à força. Se não queremos, eles chamam a Força Nacional para nos obrigar. Vocês não imaginam como é doído”, disse José Odair Cak, liderança do Pimental.
Além do uso de força contra a população afetada já no período de estudos de impacto e da absoluta ausência da consulta prévia obrigatória, a população da região questiona a necessidade das usinas, já que entendem que a energia gerada não vai beneficiar a população amazônica. Um dos debatedores, o professor Célio Bermann, da Universidade de São Paulo (USP), foi categórico: “eu afirmo agora que o Brasil não precisa de usinas no Tapajós”, sendo longamente aplaudido.
“Vivemos numa civilização elétrica. É verdade que precisamos de energia elétrica. Mas a hidroeletricidade não é a única opção. O nosso país tem as maiores tarifas de energia elétrica do mundo, com 70% da geração vindo de hidrelétricas. Então é preciso se pensar seriamente se essa opção é mesmo correta”, disse Bermann. “Cada usina é apresentada pelo governo como uma solução para a ameaça de apagão. Não é verdade. Até porque o apagão é muito mais causado pela falta de manutenção da rede elétrica brasileira do que pela falta de usinas. Existem alternativas e elas não incluem grandes usinas na Amazônia. Só que o Ministério Público e os pesquisadores não são considerados pelo governo no planejamento elétrico. Isso precisa mudar”.
Ricardo Baitelo, do Greenpeace, também reivindicou durante a audiência que a sociedade possa participar do planejamento elétrico e apresentou modelagens em que o Brasil aumenta significativamente a energia instalada sem a construção de nenhuma barragem na Amazônia, com diversificação da matriz energética e investimento em eficiência. “Com isso, é sim possível ao Brasil estocar vento”, disse Baitelo.
Mesmo com tantas alternativas apresentadas, o pesquisador Phillip Fearnside, um dos maiores especialistas em barragens tropicais, fez um alerta sombrio de que os planos verdadeiros do governo preveem um total de 69 grandes barragens na Amazônia, do porte de São Luiz do Tapajós ou da usina Teles Pires, alagando um total de 10 milhões de hectares.
Os maiores interessados, os povos que vivem nos rios e nas florestas da região, parecem ter entendimento profundo das consequências desse modelo. O cacique-geral do povo Munduruku explicou com economia de palavras. “Não só Munduruku vai sofrer, vai sofrer o mundo todo. Nós estamos defendendo o povo brasileiro”, disse, sobre a resistência contra as usinas. Pesquisadores que falaram durante a audiência concordaram com o cacique: danos na região do Tapajós podem prejudicar não só a região amazônica, como o Brasil inteiro e ter impactos mundiais, já que a Amazônia funciona como um regulador mundial do clima, assegurando a umidade em São Paulo, por exemplo. Sem a floresta, pesquisas apontam, a maior cidade brasileira seria um deserto.
E a floresta está severamente ameaçada pelos projetos. Segundo Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que usou as taxas de desmatamento provocadas por Belo Monte para projetar o desmatamento que as usinas causarão no Tapajós, aponta potencial de perda de mais de 3,2 milhões de hectares de florestas na área.
Metilmercúrio – Uma das apresentações que teve mais impacto sobre o público foi do médico Erik Jennings, que apontou o risco de uma catástrofe na saúde humana na região, por causa do potencial das usinas se transformarem em verdadeiras fábricas de metilmercúrio, que é extremamente tóxico e causa danos ao sistema nervoso central, além de malformações fetais. “O solo amazônico é rico em mercúrio, na forma inerte, mas com a formação de lagos de usinas, esse mercúrio assume a forma tóxica e passa a ser absorvido pelos peixes, principal fonte de alimentação da população em toda a região”.
Jennings mencionou uma pesquisa feita com mulheres de cabelos longos na região da instalação da usina de Balbina, no Amazonas. A partir do comprimento dos cabelos e medindo a concentração de mercúrio ao longo dos fios, os pesquisadores conseguiram provar que quando a usina foi instalada houve uma explosão na concentração de mercúrio nos organismos das mulheres.
“Por que não se trata desse tema nos estudos? Temos uma falsa sensação de não envenenamento na Amazônia. Em Minamata (região no Japão onde houve graves casos de contaminação por mercúrio) foram precisos 24 anos para se reconhecer a contaminação, porque os efeitos do mercúrio têm um ciclo longo para se manifestar. Não podemos esperar que isso ocorra na Amazônia”, disse o médico. Os estudos da usina chegaram a descartar o risco de contaminação por mercúrio, mas fizeram exames na água e não nos peixes, que é por onde o mercúrio é absorvido pelas pessoas.
Patrimônio arqueológico – A ocupação humana no Tapajós, milenar, foi destacada pelos professores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Bruna Rocha e Raoni Valle. Bruna mostrou como é antigo o discurso governamental de que a Amazônia é uma floresta virgem. Mostrou exemplos da ditadura militar e uma fala bem mais recente, do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que disse acreditar que as usinas do Tapajós não teriam impactos porque não moram pessoas na região.
“A arqueologia mostra que a região do Tapajós é povoada milenarmente. Sítios arqueológicos mostram ocupação humana datada dos séculos 800 a 900 d.C., em áreas que serão destruídas pelas usinas”, disse Bruna Rocha. Raoni Valle, que vem desenvolvendo uma pesquisa junto com os índios Munduruku, reivindicou a importância de se proteger os locais sagrados como ação fundamental para assegurar a sobrevivência física e cultural dos povos indígenas, de acordo com resolução da Organização das Nações Unidas (ONU).
“A expropriação do território dessas populações é a expropriação da memória delas, porque as memórias estão nos locais sagrados, nas paisagens do Tapajós. Destruir essa região é destruir a identidade dessas pessoas que estão nele enraizadas há tantos séculos”, disse Bruna Rocha.
Belo Monte – A usina hidrelétrica de Belo Monte, quase concluída no rio Xingu, a cerca de mil quilômetros de Santarém, também foi assunto da audiência pública. A procuradora da República Thais Santi, que atua no MPF em Altamira, fez uma fala de alerta sobre a situação que vivem os moradores do Xingu. “A obra de Belo Monte foi aceita com promessa e o compromisso do Estado com a região. Depois das promessas, o Estado foi embora e quem assume a concessão é uma empresa que além de não ter conhecimento da região deliberadamente descumpriu sua obrigações. Condicionante é obrigação. É requisito de viabilidade da obra. Não se permitam acreditar em falsas promessas”, pediu.
Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental (ISA), enumerou inúmeras condicionantes descumpridas de Belo Monte. “Eles fizeram a maior obra de engenharia do mundo e até agora não foram capazes de colocar um único hospital para funcionar em Altamira. É puro descaso”, afirmou. “No Xingu, a Funai está quase fechando as portas. Nunca houve escritório do Ibama na região de Belo Monte. O Estado abandonou aquela população”, disse Thais Santi.
Documentos citados na audiência pública ou relacionados a eles
Fonte: Ministério Público Federal no Pará
in EcoDebate, 01/02/2016

http://www.ecodebate.com.br/2016/02/01/em-santarem-mais-de-500-pessoas-debatem-usinas-na-bacia-do-tapajos-mas-governo-nao-manda-representante/

LUZES E TREVAS

Tivemos notícias de luzes e de trevas nesta semana.

Na favela Babilônia, do Rio de Janeiro, foi inaugurada a produção de energia solar nos dois primeiros telhados, porque a Associação dos Moradores e nova cooperativa RevoluSolar desejam que todas as casas consigam instalar painéis em seus telhados, para enfrentar o aumento do custo das contas de energia e para criar de novas oportunidades de trabalho e de renda.

Já nos municípios paraibanos próximos de Pombal, avança a luta pela produção de energia solar nas casas do povo com a aprovação de um projeto, por parte da entidade da igreja católica alemã Misereor, que tornará possível a instalação de muitos painéis solares, junto com treinamento de eletricistas e de técnicos de manutenção.

É fonte de luz também o livro “O Bem Viver – Uma oportunidade para pensar novos mundos”, do cientista social e político equatoriano Alberto Acosta. Precisamos das luzes que vêm das práticas dos povos indígenas para ir criando jeitos de viver em sociedade e de relacionar com a Terra que nos livrem das práticas do capitalismo neoliberal.

Por outro lado, a treva mais assustadora foi denunciada pela OXFAM no Fórum Econômico Mundial: as 62 pessoas mais ricas têm em suas mãos riqueza igual ao que 3 bilhões e seiscentos milhões pessoas mais pobres dividem entres si para sobreviver! Se não houver mudanças, em pouco tempo quase tudo será abocanhado por algumas pessoas. Podemos aceitar isso? E os governos, porque não cobram desses poucos o que falta para uma vida digna de todas as pessoas?

Por fim, novas trevas vêm de Caitité, na Bahia. Estudos comprovaram que mais pessoas e animais estão perigo por usarem água contaminada pelo urânio extraído para usar nas usinas nucleares e nas bombas atômicas. Não se deveria deixar o urânio no solo, e preferir fontes mais limpas e seguras de energia?

Na luta entre as trevas e a luz, que todos nos juntemos no time das luzes.

                       Ivo Poletto, do FMCJS

[VER a gravação para Rádio em www.fmclimaticas.org.br] 

O PROTAGONISMO DOS EXCLUÍDOS

O PROTAGONISMO DOS EXCLUÍDOS
Frei Betto
      Todo esse fluxo migratório que o papa Francisco chama de Terceira Guerra Mundial é fruto do que Europa e EUA plantaram na Ásia, África e Oriente Médio. Foram séculos de colonialismo brutal. E quem garante que, hoje,  os drones que atiram bombas no Afeganistão e na Síria como chuva abundante, não ceifam a vida de inúmeros civis inocentes?
      Devemos esperar que o camponês, ao ver a propriedade agrícola da sua família ser destruída por um drone, e matar seu avô, pai e irmão, e o bebê de sua irmã, se refugie agradecido no Ocidente?
      “A paz só virá como fruto da justiça”, dizia o profeta Isaías, sete séculos antes de Cristo. Ou seja, jamais virá como mero equilíbrio de forças.
      Por que razão os donos do Ocidente (a Europa Ocidental e os EUA) estenderam, durante décadas, tapete vermelho para as famílias (Bashar) al-Assad, da Síria; Hussein, do Iraque; Kadafi, da Líbia; e, de repente, todas foram jogadas no lixo da história? A resposta está na evolução do comércio de petróleo.
      Política é muito importante. Mas nem todos devem ser políticos. É preciso ter vocação e, de preferência, decência também. Porém, em qualquer atividade fazemos política. Tomamos posição em um mundo desigual. Não existe neutralidade. Em tudo ajudamos a manter ou a transformar a realidade; dominar ou mudar; oprimir ou libertar. Essa foi a postura de Jesus.
      Quando me perguntam por que me envolvo com política, por via pastoral ou dos movimentos sociais (pois nunca me filiei a partido político), respondo: porque sou discípulo de um prisioneiro político.
      Jesus não morreu doente na cama. Morreu como Vladimir Herzog: preso, torturado, julgado por dois poderes políticos, e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.
      Por que foi condenado, se era tão espiritualizado, tão santo? Ora, que tipo de fé temos hoje que não questiona essa desordem estabelecida? Condenaram-no pela mesma razão que você, leitor, seria, de maneira preconceituosa, se começar a dizer que o mundo não tem saída fora do socialismo.
      Mas o socialismo foi derrotado, e você ainda é socialista? Haverá futuro para a humanidade sem a partilha dos bens da natureza e do trabalho humano?
      Ora, dentro do reino de César, Jesus de Nazaré anunciava um Reino de Deus! Para ele, o Reino de Deus ficava na frente, no futuro histórico. Anunciar um Reino de Deus no reino de César era alta subversão.
      Jesus não veio fundar uma Igreja ou uma religião. Veio nos trazer as sementes de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. E que resumiu na expressão própria da época (Reino de Deus), que hoje quase nada significa para nós (ainda mais na América Latina, que não tem nenhum reino). Ele veio trazer as sementes do projeto de um  mundo como Deus quer. Basta ler as Bem-aventuranças (que explico em Oito vias para ser feliz, editora Planeta) e o Sermão da montanha - um mundo de partilha, como na chamada multiplicação dos pães.
       Na Declaração Universal dos Direitos Humanos são merecedores de direitos aqueles que têm certo nível de vida. Para Jesus, ao contrário, a pessoa pode ser cega, coxa, hanseniana, excluída - ela é templo vivo de Deus, dotada de ontológica sacralidade! Eis a radical defesa dos direitos humanos.
      O marxismo europeu, por exemplo, graças ao qual a modernidade avançou em termos de inclusão social, nunca defendeu os direitos indígenas, como fez o marxista peruano Mariátegui. Até se entende a razão, pois é uma filosofia, um método criado na Europa, onde quase não havia índios. Mas também nunca defendeu o protagonismo dos moradores de rua, chamados de lúmpem proletariado. Ou seja, seriam os beneficiários de um futuro projeto socialista ou comunista, mas não protagonistas.
      A diferença é que, para Jesus, todos são chamados a serem protagonistas. Ou como conclamou o papa Francisco aos jovens, no Rio, em 2013: “Sejam revolucionários, vão contra a corrente!”
Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/15298a6e78eb9928

sábado, 30 de janeiro de 2016

COOPERATIVA DE ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA NA FAVELA BABILÔNIA

É UM PRIMEIRO PASSO, MAS TEM A POTENCIALIDADE DE ABRIR UM CAMINHO DE PRODUÇÃO AUTÔNOMA DE ENERGIA NUMA FAVELA DO RIO DE JANEIRO. ISSO É MOTIVO DE CELEBRAÇÃO. COMO EM OUTRAS FRENTES DE CONQUISTAS INOVADORAS, O POVO EXIGIRÁ TAMBÉM UMA POLÍTICA ENERGÉTICA QUE PRIORIZE A ENERGIA SOLAR E EÓLICA DESCENTRALIZADA.

Moradores de favela de Rio instalam painéis solares em resposta os preços altos de eletricidade 

Convite imprensa com oportunidade para fotos e filmagem: Na sexta-feira 29/01/2016 às 11 horas moradores da favela da Babilônia no Leme vão finalizar duas instalações solares fotovoltaicas. Reunião para imprensa no Mirante da Babilônia, Estrelas da Babilônia, Rua Dona Alexandrina, Ladeira Ary Barroso, Leme, Rio de Janeiro, RJ 22010-060 (mapa em anexo).


Rio de Janeiro, 27/01/2016 - No sábado, 30 de janeiro de 2016, os moradores da favela da Babilônia (Leme) estarão inaugurando as duas primeiras instalações solares fotovoltaicas no Mirante da Babilônia, no Leme. 

De acordo com um grupo de moradores unidos a frente da RevoluSolar, uma nova associação sem fins lucrativos, a inauguração, no sábado marca o início da independência energética e uma transição democrática de energia renovável para a favela da Babilônia. Os preços da eletricidade no Rio quase dobraram nos últimos dois anos (R$ 0,48kWh em janeiro 2014, para R$ 0,90 kWh em janeiro 2016).

Através do trabalho voluntário coletivo que envolve eletricistas e empreendedores da favela e da Associação de Moradores da Babilônia, um grupo de moradores criaram RevoluSolar, que visa informar e educar a população local sobre os benefícios sociais, econômicos e ambientais com o uso da energia solar. Cálculos iniciais por RevoluSolar estimarem que o retorno sobre o investimento será alcançado no prazo de 6 anos, após os quais a luz gerada pelos painéis solares será de graça para mínimo 19 anos.

Pol DHuyvetter (53) Presidente da RevoluSolar declarou: ¨Energia solar não só vai resolver o problema das contas de luz muito alta para as famílias de baixa renda, mais também  capacitar as pessoas que sofreram uma exclusão social por gerações, e dá um orgulho para se tornarem produtores de luz. Nosso projeto é um exemplo de desenvolvimento sustentável, com benefícios sociais, econômicos e ambientais para a comunidade¨. Pol DHuyvetter vive no Brasil desde 2009 e é um membro de longa data da Ecopower, uma cooperativa de energia renovável que conta mais de 50.000 famílias associadas na Bélgica.

As duas primeiras instalações solares nos telhados do bar, restaurante e pousada Estrelas da Babilonia e no Babilonia Rio Hostel, duas empresas locais, foram possíveis graças a um programa de micro crédito para moradores de favelas da AG RIO, uma agência estatal. Ambos os proprietários calcularam um retorno muito significativo do investimento.

Confrontado com o aumento dos preços da empresa LIGHT, Sr. André Luiz Abreu de Souza, o presidente da Associação de Moradores da Babilônia,  quer transformar a atenção dos moradores para o enorme potencial com instalações de energia solar em seus telhados. 

Com um número crescente na favela de famílias interessadas em se tornar produtores de energia, o objetivo da RevoluSolar é a criação da primeira cooperativa de produção de energia renovável no Brasil. RevoluSolar já recebe o interesse e apoio da Organização de Cooperativas do Brasil (OCB). Também recebe apoio de Viva Rio, o Frente para uma nova Política Energéticas do Brasil, Favela Orgânica e da Fundação Heinrich Boell.

O Brasil ainda não faz uso de energias renováveis descentralizadas. Em novembro passado ANEEL, a agência reguladora de energia elétrica no Brasil, conta apenas 1.285 pequenas unidades geradoras de energia elétrica, dos quais 1.233 (96%) solar. A ANEEL acompanhará de perto a implantação das novas regras do Sistema de Compensação e prevê que até 2024 cerca de 1,2 milhão de unidades consumidoras passem a produzir sua própria energia, totalizando 4,5 gigawatts (GW) de potência instalada, que irá revolucionar o mercado. RevoluSolar diz que está pronto para desempenhar um papel cooperativo.

Contatos RevoluSolar para imprensa

- Pol Dhuyvetter, Presidente RevoluSolar / Estrelas da Babilonia +55(21)998121716
- Eduardo Figueiredo e Bianca Lima, Babilonia Rio Hostel +55(21)992029243
- Augustin Butruille, Secretario Executivo RevoluSolar para informaçaos tecnica  +55(21)982794765

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

POÇOS CONTAMINADOS POR URÂNIO EM CAITITÉ

ATÉ QUANDO HAVERÁ TÉCNICOS TEIMOSOS E GOVERNANTES IRRESPONSÁVEIS PARA CONTINUAREM COM A RETIRADA E O USO DO URÂNIO PARA PRODUÇÃO DE ENERGIA? NA VERDADE, DEVEM SER CEGOS, E TALVEZ POR CAUSA DA QUANTIDADE E MARAVILHA DE SOL QUE ILUMINA CAITITÉ, TODA A BAHIA, TODO O SEMIÁRIDO, TODO O BRASIL! OU, TALVEZ, SEU CASO MEREÇA UM TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO... 

 Após nova análise, Bahia identifica mais poços com alto teor de urânio

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Estadão Conteúdo
28/01/201616h07

Brasília - O governo da Bahia encontrou novos poços com alto teor de urânio na região de Caetité, no Sudoeste do Estado, onde está em operação a única mina do material radioativo em toda a América Latina.Os novos testes de água foram realizados pelo Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), a pedido do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema). No fim de dezembro, foram coletadas amostras em 19 poços da região. Os resultados ficaram prontos nesta semana. O jornal "O Estado de S. Paulo" teve acesso aos resultados dos laudos técnicos de cada poço.
Os dados revelam que pelo menos três poços estão com nível de urânio acima do limite determinado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O órgão estabelece uma tolerância de, no máximo, 15 microgramas de urânio por litro de água. Em um dos poços contaminados, localizado no Povoado Imbu, o volume encontrado chegou a 32 microgramas, mais que o dobro da quantidade autorizada pelo organismo internacional.
Além dos três poços que estouraram o limite previsto em lei, outros três chegaram ao índice de 14 microgramas por litro, isto é, estão praticamente em cima da quantidade permitida. Os volumes são preocupantes mesmo se considerado o critério mais brando utilizado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que impõe uma tolerância de até 20 microgramas.
Ao ser questionado sobre os resultados, o secretário de Meio Ambiente do governo da Bahia, Eugenio Spengler, disse ao jornal que os novos pontos de contaminação serão fechados, para garantir a segurança e saúde da população. "Está decidido que os poços que apresentaram níveis superiores não poderão ser mais utilizados. Nossa orientação é de que eles sejam lacrados", afirmou.
Spengler disse que uma nova rodada de coleta de amostras será feita nas próximas semanas e que o governo baiano vai adquirir equipamentos para fazer um monitoramento permanente das águas subterrâneas da Bahia, projeto que terá início na região de Caetité. O termo de referência para compra desses equipamentos está em fase de conclusão.
O governo baiano tem encontrado dificuldades de executar o monitoramento na região por causa dos dados precários sobre a localização de cada poço. "Além disso, muitos reservatórios usados pela população foram abertos clandestinamente", diz o coordenador de monitoramento dos recursos ambientais e hídricos do Inema, Eduardo Topázio.
Denúncia
Reportagem publicada pelo jornal em agosto do ano passado revelou que a estatal federal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), responsável pela exploração do minério radioativo na região, havia realizado testes e confirmado a contaminação de pelo menos um poço no município de Lagoa Real, vizinho de Caetité, conforme laudos técnicos reunidos pela reportagem. A empresa, no entanto, nunca informou as autoridades estaduais e federais sobre esses resultados, como o governo baiano, o Ibama, o Ministério da Saúde ou o Ministério do Meio Ambiente. Em vez disso, a estatal declarou que não havia encontrado nenhuma irregularidade em suas inspeções de água feitas ao longo ano.
O governo baiano voltou a testar a qualidade da água do poço analisado pela INB e comprovou a contaminação.
A INB nega responsabilidade e afirma que não tinha obrigação de informar sobre os resultados que coletou porque tinha feito apenas um favor ao dono do sítio, que queria checar a qualidade de sua água. Sete meses depois de confirmar que a presença de urânio no poço estava quatro vezes acima do limite, a empresa limitou-se a entregar uma cópia de seus testes à prefeitura local, sem qualquer tipo de comunicação oficial.
Segundo a estatal, a presença de alto teor de urânio na água da região seria natural, por conta da quantidade de minério que há no local. A empresa também afirma que sua mineração não tem influência sobre a água no poço de Lagoa Real, porque estaria em outra sub-bacia hidrográfica a cerca de 15 km de distância de sua mina.
Multa
Por meio de nota, o diretor de proteção ambiental do Ibama, Luciano Evaristo, confirmou que houve irregularidade da empresa e que a INB será multada. "A INB deveria ter comunicado o fato imediatamente ao Ibama. Está configurada a infração ambiental e a INB será autuada", declarou Evaristo. "O Ibama finaliza neste momento o relatório de fiscalização com o conjunto de provas e a determinação da dosimetria do auto de infração."
Em parecer técnico, o Ibama concluiu que, mesmo o poço não se localizando na área de abrangência da rede de monitoramento da estatal, "a partir do momento em que a INB se dispôs a realizar a análise da água do poço na propriedade, essa empresa assumiu a responsabilidade e o dever de disponibilizar as informações por ela produzidas, assim como de orientar, tanto o produtor como os órgãos competentes, sobre a execução das medidas aplicáveis ao caso."
Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff exonerou, a pedido, Aquilino Senra Martinez do cargo de presidente da INB, estatal que está vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Para o lugar de Martinez foi nomeado João Carlos Derzi Tupinambá.


estadao
     André Borges •  Repórter
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

SENTIDOS DO BEM VIVER


OUTRAS PALAVRAS

Para entender a fundo os sentidos de Bem Viver


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marchaindigena (1)Um dos pensadores mais empenhados em superar ideologia do “desenvolvimento” debate, em três cidades brasileiras, alternativas à lógica capitalista de estar no mundo para acumular
Por Tadeu Breda
Mais: veja tudo sobre o lançamento nesta página do Facebook
No final de janeiro, a Editora Autonomia Literária e a Editora Elefante lançam O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos, escrito pelo político e economista equatoriano Alberto Acosta. Graças ao apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, haverá três lançamentos: dia 26 de janeiro, em São Paulo; dia 27 de janeiro, no Rio de Janeiro; e dia 28 de janeiro, em Mariana-MG, palco do que talvez seja a maior catástrofe socioambiental da história do país. Todos os eventos contarão com a presença do autor.
Nascido em Quito em 1948, Alberto Acosta é um dos fundadores da Alianza País, partido que chegou à Presidência do Equador em 2007 após a vitória eleitoral de Rafael Correa. Foi ministro de Energia e Minas no primeiro ano de mandato, mas deixou o cargo para dirigir a Assembleia Constituinte que incluiu pela primeira vez em um texto constitucional os conceitos de plurinacionalidade, Direitos da Natureza eBuen Vivir.
Durante o trabalho constituinte, porém, Acosta rompeu com o presidente equatoriano — e seu partido — devido ao que viu como desvios nos rumos do governo. Em 2013, candidatou-se à Presidência da República por uma coalizão de movimentos políticos, sociais e indígenas denominada Unidad Plurinacional de las Izquierdas. Obteve, porém, escasso apoio popular, acabando em sexto lugar nas eleições.
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Garante seu exemplar em nossa livraria!
Lançado originalmente em 2011, no Equador, o livro foi revisado e atualizado para a edição brasileira. Em 264 páginas, Acosta trata de conceituar o Bem Viver, filosofia nascida dos conhecimentos e práticas indígenas sul-americanas. Mas não dá espaço a romantismos. Até porque, argumenta, o Bem Viver não é uma exclusividade ameríndia: encontra correspondências na sabedoria de outros povos e culturas tradicionais ao redor do mundo, como o ubuntu, na África do Sul, e também no pensamento ocidental.
O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos propõe a construção de novas realidades políticas, econômicas e sociais a partir de uma ruptura radical com as noções de “progresso” e “desenvolvimento”, que são pautadas pela acumulação de bens e capital, pelo crescimento infinito e pela exploração inclemente dos recursos naturais – o que, como demonstram os climatologistas, está colocando em risco a sobrevivência dos próprios seres humanos sobre a Terra.
Até agora não houve governo, à direita ou à esquerda, que não perseguisse o progresso e o desenvolvimento propagandeados pelos países centrais do capitalismo – e a grande maioria deles não conseguiu nem conseguirá alcançá-lo. De acordo com Acosta, nem mesmo as experiências socialistas do século 20 questionaram efetivamente esse caminho.
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Acosta, candidato à presidência do Equador: apesar do pequeno apoio popular, ideias marcantes
Os governos progressistas que no início do século 21 chegaram ao poder em boa parte da América Latina tampouco abandonaram a miragem do desenvolvimento. Pelo contrário, aprofundaram a dependência econômica de recursos naturais, com exportações crescentes de matéria-prima, muitas vezes às custas dos direitos dos povos tradicionais.
É o que tem ocorrido no Brasil, que, após uma série de tragédias sociais diuturnamente registradas nos rincões mais afastados do país e nas periferias das grandes cidades, assistiu em 2015 ao rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, subsidiária da Vale, em Minas Gerais, resultando na morte do Rio Doce. A contaminação não é um acidente, mas uma mera consequência do extrativismo.
Acosta lembra que não é possível enriquecer, como apregoa a retórica desenvolvimentista, depredando o próprio patrimônio natural. E, ao reconhecer os avanços sociais obtidos pelos governos progressistas, explica que apenas repetiram as conhecidas formas de produtivismo e consumismo capitalista, sem promover mudanças estruturais nas esferas política, econômica ou social. Talvez por isso, o conservadorismo agora avance com força na região – como já aconteceu na Argentina, Paraguai, Chile e Venezuela, e está acontecendo no Brasil.
“Necessitamos outras formas de organização social e práticas políticas”, propõe o autor. “O Bem Viver é parte de uma longa busca de alternativas forjadas no calor das lutas indígenas e populares. São propostas invisibilizadas por muito tempo, que agora convidam a romper com conceitos assumidos como indiscutíveis. São ideias surgidas de grupos marginalizados, excluídos, explorados e até mesmo dizimados.”
Com uma linguagem simples e muitas referências a pensadores clássicos e contemporâneos, Alberto Acosta revisa a história política e econômica para explicar que o Bem Viver não se trata de mais uma alternativa de desenvolvimento – não é mais um “sobrenome” do desenvolvimento, tal qual “desenvolvimento humano”, “desenvolvimento sustentável” ou “etnodesenvolvimento”. É uma alternativa ao desenvolvimento. Uma fuga ao desenvolvimento.
“Mais do que nunca é imprescindível construir modos de vida baseados Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza, que não sejam pautados pela acumulação do capital,” diz o autor.
EVENTO
Lançamento em São Paulo (26/1, terça às 19h)
Local: Coworking Espacio 945 – Conselheiro Ramalho 945, Bixiga
Mesa: Alberto Acosta, Célio Turino (Raiz Cidadã) e Salvador Schavelzon (UNIFESP). Mediadora: Verena (RosaLux)
Nome da mesa: Bem Viver: um horizonte para superação do desenvolvimentismo
Link: https://www.facebook.com/events/645815612224272/
Lançamento no Rio (27/1)
Local: auditório UFRJ na praia vermelha
15:00 ~ Abertura
– Giuseppe Cocco (UFRJ)
– Tadeu Breda (jornalista e tradutor)
– Samuel Braun (sindicalista)
17:00 ~ Alternativas constituintes no Brasil pós-2013
– Clarissa Naback (PUC-RJ)
– Celio Gari (Garis em luta)
– Camila Moreno (UFRJ)
– Alexandre Nascimento (FAETEC)
19:00 ~ O bem viver como imaginação em luta
conferencistas:
– Alberto Acosta (Equador)
– Oscar Camacho (Bolívia,grupo Comuna)
debatedor:
Bruno Cava (UniNômade)
Link: https://www.facebook.com/events/1544810705836245/
Lançamento em Minas Gerais / Mariana (28/1, quinta às 19h30)
Local: auditório do ICSA/UFOP
Mesa debate: O alto preço do extrativismo na América Latina: há alternativas? Com Alberto Acosta, Andrea Zhouri (UFMG), Isabela Corby (advogada popular do Coletivo Margarida Alve) e Sammer Siman (Brigadas Populares)
Link: https://www.facebook.com/events/802305846581806/

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POLÍTICA DA DESIGUALDADE: UM SISTEMA PARA O 1%

NADA DE FATALIDADES NEM DE SORTE. A CONCENTRAÇÃO DA RIQUEZA AUMENTA PORQUE HÁ POLÍTICAS QUE A FAVORECE. VEJAM POR QUE NA ENTREVISTA ABAIXO.

Um sistema para o 1%

Opulência e miséria misturam-se em Manila, Filipinas. Uma cena cada vez mais frequente, num mundo dominado por políticas de "austeridade" e  "ajustes fiscais"
Opulência e miséria misturam-se em Manila, Filipinas. Uma cena cada vez mais frequente, num mundo dominado por políticas de “austeridade” e “ajustes fiscais”
Conselheiro da Oxfam, que denunciou hiper-concentração global de riqueza, sustenta: desigualdade tem sido meticulosamente fabricada, por elite que controla poder ou refugia-se em paraísos fiscais
Mikhail Maslennikov, entrevistado por Elena Llorente, no Página 12 | Tradução: Cepat
O relatório da organização internacional Oxfam sobre a desigualdade no mundoAn economy for the 1% (“Uma economia para o 1%”), divulgado nesta semana, mostra que as 62 pessoas mais ricas do mundo – 53 delas homens, com os estadunidenses Bill Gates eWarren Buffet e o mexicano Carlos Slim na liderança – detêm em conjunto a mesma riqueza de 3,6 bilhões de pobres do mundo. Isto equivale dizer que possuem a riqueza de quase a metade da população mundial, que hoje soma pouco mais de 7,3 bilhões.
Os números são apavorantes, caso se acrescente, além disso, que o abismo está crescendo mais rápido do que a própria Oxfam havia predito, há um ano, e que as mulheres são desproporcionalmente atingidas por esta desigualdade. Oxfam – cujo nome deriva de Oxford, Inglaterra, onde foi fundada em 1942, e de ‘famine’ que em inglês significa fome – é uma confederação de 17 organizações não governamentais que trabalha em 94 países para encontrar soluções à pobreza.
Mikhail Maslennikov é um matemático e econometrista que trabalha na Oxfam Itália como conselheiro político sobre temas de desigualdade econômica e justiça fiscal. Eis sua entrevista.
Segundo o relatório da Oxfam, 62 multimilionários tem a mesma riqueza que quase a metade do mundo. Como se chegou a esta conclusão?
Analisamos a distribuição da receita em escala global. A desigualdade é um sintoma de grande mal-estar social tão forte que até mesmo organizações econômicas internacionais como FMIOCDE(Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e Banco Mundial estão sendo obrigadas a levá-la em conta. Porque se as desigualdades econômicas não fossem tão extremas como agora, o crescimento econômico interno em diferentes regiões do mundo haveria sido favorecido. Na Itália, por exemplo, estima-se que a queda do PIB (Produto Interno Bruto) de 8%, nos úlitmos anos, deu-se também em razão das desigualdades econômicas.
E os governos, que papel têm cumprido em tudo isto?
Em geral, os governos subestimaram o fenômeno e o favoreceram, em certo sentido, com certas decisões em nível de política pública. AOxfam concentrou-se nos efeitos produzidos pelas políticas fiscais, especialmente nos sistemas fiscais nacionais que não são suficientemente progressivos (quanto mais se ganha, mais se paga). Em muitos países – um caso eloquente são os Estados Unidos – as alíquotas fiscais para as receitas mais altas foram reduzidas ao mínimo, nos últimos trinta anos. Isto permitiu a concentração da receita nos setores mais favorecidos da população, que pagaram menos tributos para o Estado. Um exemplo de pouca progressividade em matéria fiscal é a Itália, onde a alíquota paga por uma pessoa que ganha 80.000 e por outra que ganha 8 milhões, ao ano, é a mesma.
Você também mencionou os salários…
Para analisar a desigualdade também observamos a receita do trabalho nos últimos 25 e 30 anos, analisamos a receita global em razão da receita do trabalho. E concluímos que sobre a ampla desigualdade econômica também incidem as variações remunerativas.
O abismo entre os que ocupam cargos de direção e os empregados médios foi ampliada, com o passar dos anos. No relatório, analisamos casos significativos de grandes companhias estadunidenses. Há dados de vários países, como Estados Unidos, Índia e Reino Unido, mas nem todas as companhias têm a obrigação de publicar os salários dos grandes dirigentes. Em outros países, não há qualquer obrigação de torná-los públicos. Nos países em que foi possível analisar, a diferença está se acentuando.
Outros fatores que influíram para aumentar a distância entre ricos e pobres?
Também influíram as políticas econômicas dos últimos 30 anos. Houve uma redução dos investimentos nos serviços públicos essenciais, em geral. Para nós, a desigualdade econômica também é uma demonstração de que este modelo econômico fracassou.
Quanto mais poder econômico se tem, mais riqueza se possui e mais é possível condicionar as decisões em matéria de política econômica por parte dos governos.
Qual foi o papel do dinheiro enviado aos chamados paraísos fiscais?
Quando a concentração da riqueza chega ao pico da pirâmide, tenta-se conservá-la. Uma das formas para isso é defender os privilégios fiscais ou esconder essa riqueza em algum paraíso fiscal. Alguns economistas e a Oxfam têm estimado que cerca de 7,6 trilhões de dólares estão escondidos nos paraísos fiscais. Se fossem pagos os impostos sobre esta riqueza, as receitas fiscais para os governos seriam de 190 bilhões por ano. Além disso, os paraísos fiscais são o ponto de chegada dos lucros transferidos pelas grandes multinacionais, mas também pelos indivíduos, fora das jurisdições fiscais dos países onde realmente fazem sua atividade. O exemplo é o informe 2012 de grandes companhias estadunidenses que declararam receitas nas ilhas Bermudas – um paraíso fiscal – por 80 bilhões de euros. Significa 3,3% de todas as suas receitas globais. No entanto, esse número não reflete a real presença econômica dessas companhias nas Bermudas, onde possuem apenas 0,3% de suas vendas globais e 0,01% do custo trabalhista global.
Nesses dias, acontece o tradicional Foro de Davos, na Suíça, que reúne políticos, economistas e empresários de todo o mundo. O que a Oxfam apresentará lá?
Queremos fazer um chamado às elites e aos governos, lançando a reivindicação de maior justiça fiscal. Queremos também recordar às elites o nível de desigualdade em que vivemos e a responsabilidade que elas têm. Aoxfam demonstrou que das 200 companhias analisadas – entre as quais estão incluídas as 120 maiores do mundo e uns 100 sócios estratégicos do Fórum –, nove em cada dez estão presentes nos paraísos fiscais.
Queremos dizer que o dinheiro enviado para os paraísos fiscais acentua a desigualdade. Ou seja, chamaremos atenção sobre os níveis insustentáveis da desigualdade. Também alertaremos de forma provocadora contra a evasão fiscal das corporações que estejam presentes em Davos.
Em sua opinião, o que cada país deveria fazer para diminuir as diferenças entre ricos e pobres?
Como prioridade, acredito que seria preciso redefinir os sistemas fiscais para que sejam mais progressivos e analisar o impacto de novos sistemas sobre os níveis de desigualdade. Além disso, maiores investimentos em serviços públicos essenciais como Educação e Saúde, e políticas de apoio ao Trabalho. E, em plano internacional, os governos deveriam contribuir para uma reforma da fiscalidade internacional, acabando com os paraísos fiscais.