terça-feira, 6 de outubro de 2015

CUIDADO: VOCÊ É ENVENENADO DIARIAMENTE!


Você é envenenado diariamente. Mas o lobby dos agrotóxicos fala mais alto
                                   Leonardo Sakamoto
- UOL - 04/10/2015


“Faltam estudos que comprovem prejuízos à saúde provocados por produtos usados adequadamente.”
“Não há evidências científicas de que, quando usados apropriadamente, causem efeito à saúde.”
Eu adoro o discurso usado na defesa do indefensável! Mas tem que ter classe para saber usá-lo, criar o contexto correto, ter cara-de-pau, parecer acreditar naquilo.
Quem já assistiu ao filme “Obrigado por fumar”, de Jaison Reitman, com Aaron Eckhart, que satiriza a indústria do tabaco e as associações de lobby que atuam nos Estados Unidos, muitas vezes como “mercadores da morte'', sabe do que estou falando.
É engraçado ver o discurso cínico do protagonista do filme e imaginar quantos cidadãos caem nesse mimimi na vida real. Mas a história fica trágica quando verificamos que os mesmos discursos são descarregados sobre nós diariamente para justificar qualquer coisa. Entre elas, a expansão agropecuária irracional no Brasil.
E a gente, claro, engole feito um bebê. Perda de empregos, falta de comida, interesses estrangeiros, ecatombe maia, tudo é usado como desculpa para continuar passando por cima. Alguém já viu os filmes promocionais de empresas que produzem agrotóxicos? É de chorar de emoção.
A Folha de S.Paulo, desde domingo (4), traz uma reportagem mostrando que “Sem controle, alimentos circulam no país com agrotóxico regular''. E que a Agência Nacional de Vigilância, com base em um grupo de alimentos da cesta básica, constatou que 31% deles tinham agrotóxicos proibidos ou acima do permitido. O Ministério da Agricultura, em suas análises, considerou as amostras satisfatórias.
Lembro de outra reportagem da Folha, de 2011, apontando que havia sido encontrado agrotóxico em leite materno no Mato Grosso: “O leite materno de mulheres de Lucas do Rio Verde, cidade de 45 mil habitantes na região central de Mato Grosso, está contaminado por agrotóxicos, revela uma pesquisa da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso). Foram coletadas amostras de leite de 62 mulheres, 3 delas da zona rural, entre fevereiro e junho de 2010. O município é um dos principais produtores de grãos do MT. A presença de agrotóxicos foi detectada em todas''.
Mas destaco o caso por conta do “outro lado'':
“A Associação Nacional de Defesa Vegetal, representante dos produtores de agrotóxicos, diz desconhecer detalhes da pesquisa, mas ressalta que a avaliação de estudos toxicológicos é complexa. Segundo a entidade, faltam estudos que comprovem prejuízos à saúde provocados por produtos usados adequadamente. 'Não há evidências científicas de que, quando usados apropriadamente, os defensivos agrícolas causem efeito à saúde'.”
Já citei essa história várias vezes aqui, mas vale pelo didatismo. Durante as brigas pelo banimento do amianto, um advogado que defendia o interesses dos trabalhadores trouxe um pedaço do produto para ser mostrado em uma audiência judicial com os que defendiam as empresas. O amianto, acusado de causar danos à saúde dos trabalhadores, circulou na mesa. Do lado corporativo, que defendia que o produto era inofensivo como uma bola de gude, ninguém quis tocá-lo.
Poderíamos fazer o mesmo com os que defendem que “faltam estudos” e “não há dados”. Até como uma forma de mostrar que acreditam naquilo que defendem. Vamos garantir que os executivos das empresas, seus lobistas, parlamentares e governantes amigos consumam apenas alimentos e água dos locais onde os problemas relatados acontecem.
Se faltam dados, não há risco comprovado, não é mesmo? Bora liderar pelo exemplo!
O Brasil, um dos líderes em uso de agrotóxicos e pesticidas, continua sendo mais rápido para aprovar produtos químicos que trazem lucro a poucos e lento para tirá-los de circulação – quando fica provado que causam danos a muitos. Ou para controlar a sua presença no meio ambiente e seus impactos nas populações locais.
Muitos agrotóxicos proibidos nos Estados Unidos, na União Europeia e em alguns de nossos vizinhos latinos correm soltos – literalmente – contaminando água, terra e ar por aqui. E, por conseguinte, milhares de pessoas diretamente e milhões indiretamente.
E não são apenas os proibidos, um problema. Talvez um pepino maior sejam os permitidos usados sem o devido cuidado e em quantidade maior que o meio pode suportar. Mesmo quando a Anvisa faz uma reavaliação toxicológica de substâncias químicas, parte dos produtores alega que vetos causarão aumento de custos. Entendo o lado deles, mas aceitar algo que não está de acordo com os padrões mínimos é uma bomba-relógio que vai explodir em algum momento.
No Brasil, o lobby dos agrotóxicos é pesado. Daria um filme tão engraçado e trágico quanto o da indústria do tabaco.
O problema seria encontrar financiador.

Do leitor: Meu caro Sakamoto,
Cumprimentos pela bela materia.
Na proxima materia voce pode divulgar os dois documentarios que ja existem sobre a ação das empresas para liberar os Agrotoxicos (o mundo da monsanto) e as consequencias na mesa do povo brasileiro
O VENENO ESTA NA MESA, 50 minutos
de silvio tendler
 "O Mundo Segundo a Monsanto" legendado

SOBRE AS AÇÕES DA mONSANTO para liberar seus transgenicos com veneno na França e Estados unidos

http://www.youtube.com/watch?v=y6leaqoN6Ys     109 minutos

SÃO FRANCISCO E A TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO ATUAL

DIA DE SÃO FRANCISCO JÁ PASSOU: 4 DE OUTUBRO. MAS O QUE LEONARDO BOFF NOS MOSTRA NA ENTREVISTA É QUE EU, VOCÊ E TODA A HUMANIDADE PRECISAMOS DE SUA INSPIRAÇÃO TODOS OS DIAS DA VIDA. ELE PODE SER NOSSO APOIO PARA LIBERTAR-NOS DA VISÃO, CULTURA E MODO DE SER GESTADOS PELA MODERNIDADE OCIDENTAL. 

Domingo, 04 de outubro de 2015

Francisco de Assis. O protótipo ocidental da razão cordial e emocional. Entrevista especial com Leonardo Boff

“Francisco punha coração em todas as coisas, por isso as amava e sentia-se unido a elas como membros de uma grande família terrenal e cósmica”, afirma o teólogo.
Foto: Jim Frazier
“Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o sentido da pobreza franciscana”, explica Leonardo Boff à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.
Neste domingo, 04-10-2015, a Igreja celebra o dia deSão Francisco de Assis, que, segundo o teólogo, “inaugurou uma Igreja na base, junto com os pobres, pregando pelas estradas ou nas praças, rezando as horas canônicas debaixo de árvores e teatralizando passagens bíblicas como fez com a celebração do Natal, inventando o presépio”.
Fonte de inspiração nos dias de hoje, a figura deFrancisco de Assis é reavivada na Igreja e inspira inclusive Bergoglio, que “tomou o nome de Francisco pelo fascínio que sempre exerceu sobre ele a figura deste santo especial e por causa do amor aos pobres e à natureza”, diz o teólogo. Parafraseando a Carta Encíclica Laudato Si', do Papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum, Boff lembra que“‘Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral… o seu coração era universal’ (n.10). Todo o texto da encíclica vem imbuído de coração, pois lê os dados da situação da Terra afetivamente e não apenas intelectualmente. Isso é o modo de São Francisco ler o mundo a partir de um sentimento profundo de união”.
Autor de São Francisco de Assis: Ternura e VigorBoff enfatiza que Francisco se “transformou num arquétipo”, numa referência de ideal humano, porque “de tudo o que lhe acontecia, a dimensão de sombra e a dimensão de luz, suas decepções e alegrias, seu sofrimento e morte, fazia caminhos de crescimento e de total integração. Desse processo que combina ternura e vigor, céu e terra, vida e morte, irrompe sua irradiação de alguém que realizou sua humanidade de modo exemplar. Criou um humanismo terno e fraterno que vai além do mundo humano e que abarca toda a natureza e o próprio universo. (...) Francisco bem o sabia, por isso, embora para nós seja um santo exemplar, se considerava o maior pecador do mundo, ‘pequenino, pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil’, como diz numa de suas cartas. Ele podia dizer isso, pois não havia negado, mas integrado tais realidades sombrias, próprias de nossa condição humana, numa síntese superior, repleta de luz, de enternecimento e de amortização”.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de uma imensa obra sobre temas ambientais. Desta obra, citamos Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, recentemente reeditada.
Confira a entrevista.
Foto: http://www.paroquiadapompeia.org.br
IHU On-Line - Quem foi Francisco de Assis? Como entendê-lo na sua complexidade que vai da ternura ao vigor?
Leonardo Boff - Embora tenha vivido há mais de 800 anos, novo é ele; nós somos velhos. Pois ele conseguiu o que nós dificilmente alçamos: nos relacionar com todas as coisas, mesmo as mais adversas como a morte, chamando-as com o doce nome de irmãos e irmãs. Assim conseguiu uma reconciliação, como se fosse um habitante do paraíso terrenal. Com razão o grande historiador Arnold Toynbee disse em sua última entrevista:“Francisco, o maior dos homens que viveram no Ocidente, deve ser imitado por todos nós, pois sua atitude é a única que pode salvar a Terra e não aquela de seu pai, o mercador Bernardone”.
O filósofo Max Scheler em conhecido livro Essência e Formas da Simpatia afirmava: “São Francisco é o protótipo ocidental da razão cordial e emocional, coisa que posteriormente foi relegada à margem”. É ela que nos faz sensíveis à paixão dos sofredores e aos gritos da Terra devastada pela voracidade industrialista atual.
IHU On-Line - O senhor diz que o contato com Francisco de Assis provoca uma crise profunda. Que tipo de crise é essa?
Leonardo Boff - São Francisco nos faz descobrir nosso distanciamento da natureza, como se não fôssemos parte dela, mas sim seus senhores e donos. Essa atitude está na raiz da crise ecológica atual, pois ela se funda na falta de pertencimento, da ausência de cuidado e de amor para com todas as coisas, pois elas têm um valor intrínseco em si mesmas. Comparar o que somos e fazemos com o que fazia e era São Francisco nos cria má consciência e nos introduz numa crise purificadora, pois nos convida a mudar nosso estilo de vida.
IHU On-Line - Como entender a mística de Francisco de Assis e a sua relação com o meio ambiente?
Leonardo Boff - São Francisco conferiu centralidade aocoração. Em seus escritos a palavra “coração” ocorre 42 vezes sobre uma de “inteligência”; “amor”, 23 vezes sobre 12 de “verdade”. Sabemos hoje que é na razão cordial e sensível que se encontram a sensibilidade profunda para com os outros, os valores éticos e a espiritualidade. É o coração que o fez sentir o Sol, a Lua, a água e o lobo e até a morte como irmãos e irmãs. Essa atitude nos é exigida hoje pela crise ecológica. A razão sozinha não dá conta de nossos problemas fundamentais, porque ela apenas vê, analisa e calcula. Será o coração que nos moverá para o cuidado, o respeito e o amor à Mãe Terra.
IHU On-Line - Qual era a concepção de Igreja de Francisco de Assis? Quais eram os pontos cruciais de divergência com o alto clero? Com qual modelo de igreja ele estava dialogando e, inclusive, se opondo?
Leonardo Boff - O teólogo Joseph Ratzinger, num de seus escritos sobre o sentido da profecia na Igreja, escreveu que o “não” de São Francisco ao tipo de Igreja de seu tempo não poderia ser mais radical. Mas seu “não” nunca é verbalizado, nunca faz uma crítica aberta ao sistema curial, especialmente sob Inocêncio III, o Papa mais poderoso da história da Igreja. Ele não falou nem criticou como fizeram os Reformadores do século XVI. Ele simplesmente deixou-se orientar pelo evangelho, lido em glossa, quer dizer, sem comentários que lhe tiram a força transformadora, mas em seu sentido original: viver seguindo o Cristo pobre, descoberto nos mais pobres dos pobres que são os hansenianos, ter extremo enternecimento e compaixão para com todos os sofredores e jovialmente acolhendo as mais duras adversidades que a pobreza radical lhe comportava.
Ele inaugurou uma Igreja na base, junto com os pobres, pregando pelas estradas ou nas praças, rezando as horas canônicas debaixo de árvores e teatralizando passagens bíblicas como fez com a celebração do Natal, inventando o presépio. Queria que seus seguidores fossem “menores”, categoria social dos sem poder e que não aceitassem nenhum cargo eclesiástico. Deviam “in plano subsistere”, quer dizer, “manter-se no nível do chão” onde todos os anônimos e invisíveis, o povo em geral, se encontram.
IHU On-Line - Quais os conceitos-chave, as ideias e concepções principais de Francisco de Assis? Como compreender esses conceitos nos dias de hoje? 
Leonardo Boff - São Francisco não era um teólogo. Nem era um clérigo. Esquecemos que era um leigo. Só no final da vida deixou-se ordenar diácono para poder continuar a pregar já que havia um decreto papal que os leigos não podiam mais pregar como se fazia antes. Mas à condição de que a este ofício não caberia nenhum benefício. As virtudes principais que vivia com grande jovialidade era a extrema simplicidade, acolhendo a todos assim como eram; depois era a grande humildade tendo-se a si como o menor e servidor, irmãozinho de todos, o fratello; principalmente vivia uma radical pobreza como poverello.
Mas para ele, a pobreza não consistia em não ter, mas na capacidade de dar, e mais uma vez dar, até se espoliar de tudo. Tinha consciência de que entre as pessoas se interpõem os bens e os interesses. Remover tais coisas permitia o encontro direto e imediato, olho a olho, corpo a corpo para colocar-se junto ao outro como irmão. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o sentido da pobreza franciscana. E por fim, era a permanente alegria, como quem se sente continuamente na palma da mão de Deus. Atribui-se a ele este dito: “eu possuo pouco e o pouco que possuo é pouco”. Este projeto de vida, se vivido hoje, criaria um mundo terno e fraterno, amigo da vida, com uma sobriedade compartida, numa aura de fraternidade universal, entre as pessoas e com todos os seres da natureza, abraçados como irmãos e irmãs.

“Está dentro das possibilidades humanas desentranhar um São Francisco escondido dentro de cada um”

 


IHU On-Line - Como esses conceitos podem ser atualizados para nossos dias na busca por inspiração para sairmos do estado de crise?
Leonardo Boff - Entre muitas outras coisas, considero fundamental, para sairmos da atual crise, resgatarmos os direitos do coração. Quer dizer, sermos não apenas portadores da inteligência racional, mas junto com ela e de forma mais profunda, da inteligência cordial ou sensível. Sentir, como diz o Papa em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, como próprias as dores da Terra e o padecimento dos outros irmãos e irmãs.
Agirmos a partir do coração que ama, que se identifica com o outro, que cultiva a compaixão e cuidado para com todas as coisas, como cuidava São Francisco.
Ele tirava da estrada as minhocas para não serem pisadas e pedia que até as ervas silvestres tivessem o seu canto reservado nas hortas, porque elas também merecem viver e louvam a Deus de seu modo. Se tivéssemos na humanidade tais sentimentos, não precisaríamos falar em ecologia nem em direitos das pessoas e da natureza, pois tudo isso seria vivido com total espontaneidade.
IHU On-Line - Como Bergoglio e Ratzinger compreendem a figura de São Francisco de Assis?
Leonardo Boff - Joseph Ratzinger, em sua tese sobre o conceito de história em São Boaventura, escreveu como introdução ao tema uma das mais belas páginas que já se escreveram modernamente sobre a figura singular de São Francisco. Creio que os franciscanos ainda não souberam valorizar tais reflexões.
Bergoglio tomou o nome de Francisco pelo fascínio que sempre exerceu sobre ele a figura deste santo especial e por causa do amor aos pobres e à natureza. Em sua encíclica, lhe dedica três grandes parágrafos (nn.10, 11 12) e explica: “Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral… o seu coração era universal” (n.10). Todo o texto da encíclica vem imbuído de coração, pois lê os dados da situação da Terra afetivamente e não apenas intelectualmente. Isso é o modo de São Francisco ler o mundo a partir de um sentimento profundo de união.
IHU On-Line - Como compreender a relação entre Francisco e Clara de Assis? Qual o papel de Clara na história e na “doutrina” de Francisco?
Leonardo Boff - A relação entre Clara e Francisco é uma das mais belas e puras da história do cristianismo. Ele possuía três amores: amor ao Cristo crucificado, amor aos pobres e amor à irmã Clara. Era um verdadeiro amor entre um homem e uma mulher, mas transfigurado por um projeto comum: servir ao Crucificado e aos crucificados da história. O eros desabrochava no agape sem perder o seu fascínio e beleza. Entre eles havia afeto e carinho que não escondeu durante toda a sua vida. Clara seguramente o ajudou a ser tão terno e amoroso para com todas as criaturas.
IHU On-Line - Em que medida a visão de Francisco de Assis com relação ao mundo, os seres humanos e a Igreja dialogam com o pontificado de Bergoglio?
Leonardo Boff - O Papa Francisco colocou o evangelho no centro de sua pregação e de seus gestos exemplares. Foi exatamente isso que fez São Francisco: para ele o evangelho era tudo, não como mero texto, mas como fonte de inspiração, de humanização, de espiritualização e de identificação com o Jesus histórico, a ponto de os textos originários atestarem que chegou a receber as chagas de Cristo em seu próprio Cristo. Não sem razão foi chamado “o primeiro depois do Único (Jesus Cristo)” ou até de “o último cristão”. A simplicidade, a bondade, a ternura e a proximidade que oPapa Francisco revela em sua vida, bem traduzem o espírito de São Francisco.
IHU On-Line - Como compreender Laudato Si’ desde a perspectiva de Francisco de Assis? De que forma a ideia de Ecologia Integral, conceito central da Encíclica, aparece no legado de Francisco de Assis?
Leonardo Boff - O próprio Papa o esclarece em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, ao dizer: “A reação deFrancisco ultrapassava uma mera avaliação intelectual ou um cálculo econômico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe” (n.11). Como dizíamos, Francisco punha coração em todas as coisas, por isso as amava e sentia-se unido a elas como membros de uma grande família terrenal e cósmica.
IHU On-Line - Em seu livro “São Francisco de Assis – Ternura e Vigor”, a história do santo é revelada tendo cinco aspectos como pano de fundo. Quais são, como se relacionam? Como esses aspectos se atualizam nos dias de hoje?
Leonardo Boff - Alguns dizem que de todos os meus livros (já são perto de cem) este é o meu melhor. Que outros o digam, não eu. Mas tentei, por ocasião da celebração de 800 anos de seu nascimento, destacar cinco pontos que mostrassem sua atualidade para o mundo de hoje.
primeiro é “a irrupção da ternura e da convivialidade, como mensagem à cultura atual”. É a tentativa de opor ao paradigma moderno, fundado no poder como dominação, que tantos males trouxe às grandes maiorias, o paradigma do cuidado, da ternura, da convivialidade com todas as criaturas, não as dominando, mas estando ao pé delas, como irmão menor.

“Foi exatamente isso que fez São Francisco: para ele o evangelho era tudo, não como mero texto, mas como fonte de inspiração, de humanização, de espiritualização e de identificação com o Jesus histórico”

segundo ponto é “a opção pelos pobres como mensagem de São Francisco à sociedade atual”. Tentei assumir o propósito da Igreja latino-americana, expresso em Medellín e Dom Helder, que entendeu a pobreza não como algo natural e dado, mas como resultado de relações injustas entre as pessoas e suas instituições. Fez-se a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social. Desta opção nasceu a teologia da libertação. Dom Helder sempre repetia que foi São Francisco o verdadeiro fundador desta teologia, porque ele não teve uma atitude assistencialista vivendo para os pobres. Ele mesmo se fez pobre, foi viver no meio deles como pobre e a partir deles lia toda a realidade, também a eclesial. Estimo que esta perspectiva é extremamente atual.
terceiro ponto trata “da libertação pela bondade: uma contribuição de São Francisco para uma libertação integral dos oprimidos”. Tento mostrar a sua estratégia que era de renúncia total a qualquer tipo de violência. Procura conversar com todos, até com o feroz lobo e conquistar as pessoas pela bondade na convicção de que dentro de cada um arde a chama divina da benquerença entre todas as pessoas.
quarto ponto aborda “como São Francisco criou nas bases da Igreja daquele tempo uma igreja popular e pobre”, na qual prevaleceu a fraternidade sobre o poder, a palavra do evangelho sobre as reflexões teológicas, a celebração da vida sobre a celebração de simples ritos e a profunda piedade pelos atos e fatos do Jesus histórico, seu nascimento, sua cruz, sua presença eucarística.
Por fim, como último ponto abordo o tema “do processo de individuação realizado biograficamente por São Francisco”. Quer dizer, como ele, de tudo o que lhe acontecia, a dimensão de sombra e a dimensão de luz, suas decepções e alegrias, seu sofrimento e morte, fazia caminhos de crescimento e de total integração. Desse processo que combina ternura e vigor, céu e terra, vida e morte irrompe sua irradiação de alguém que realizou sua humanidade de modo exemplar. Criou um humanismo terno e fraterno que vai além do mundo humano e que abarca toda a natureza e o próprio universo. Penetrou no seu Profundo radical onde se aninha Deus com sua graça e seu amor.
Poder ter chegado até aquele ponto é mais que esforço pessoal, é principalmente dom de Deus. Francisco bem o sabia, por isso, embora para nós seja um santo exemplar, se considerava o maior pecador do mundo, “pequenino, pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil”, como diz numa de suas cartas. Ele podia dizer isso, pois não havia negado, mas integrado tais realidades sombrias, próprias de nossa condição humana, numa síntese superior, repleta de luz, de enternecimento e de amorização.
IHU On-Line - Que humanismo Francisco inaugura e como se alinha com os princípios cristãos?
Leonardo Boff - Francisco se transformou num arquétipo, isto é, numa referência de valor e de ideal humano. Como tal não pertence mais aos franciscanos nem sequer aos cristãos. Ele pertence à humanidade. É uma das figuras da qual nos podemos orgulhar e dizer: está dentro das possibilidades humanas desentranhar um São Francisco escondido dentro de cada um. Essa energia amorosa e terna, escondida em nós, nos faz mais humanos, mais compassivos, mais solidários e mais capazes de um amor incondicional. Não foi isso que queria Jesus de Nazaré? Seu propósito não era criar uma nova religião, mas suscitar o homem e a mulher novos, feitos de amor, de compaixão, de entrega aos outros até o último sacrifício, sempre com total desapego, com alegre jovialidade e com jovial alegria.

Alexandre Conceição
MST- Escritório Nacional Brasília 
(61) 81396960

sábado, 3 de outubro de 2015

REAPRENDER A FAZER POLÍTICA NAS RUAS



PROVOCATIVO, MAS SEGURO POR SUA RELAÇÃO COM A PRÁTICA, BOULOS COLOCA EM QUESTÃO A PRÁTICA POLÍTICA DOS ÚLTIMOS 15 ANOS: ELEGER MAIS LEGISLADORES, ELEGER UM BOM PRESIDENTE... NA CRISE EM QUE ESTAMOS, É PRECISO CORAGEM E LUCIDEZ PARA BUSCAR OUTROS CAMINHOS. VALE CONFERIR. MAIS AINDA, VALE AMPLIAR ESTE DEBATE NOS MOVIMENTOS SOCIAIS.

Boulos detalha a “política das ruas”

Para líder do MTST, só será possível superar onda conservadora por meio da mobilização social. E Junho de 2013 deve ser visto como positivo ponto de partida

Você acha que simplesmente radicalizar o programa vai permitir que a gente tenha um apoio mais amplo? Ou na sociedade brasileira é preciso dialogar também com a ideia de que as pessoas não se sentem representadas nos partidos? Basta puxar o programa para a esquerda, ou é preciso rever a noção de autoridade, de partido etc.?
Acho que é preciso rever o sistema político brasileiro. A desaprovação não é apenas à Dilma: o Congresso é ainda mais desaprovado. Se fizermos uma pesquisa indagando se as pessoas acreditam que esse sistema político permitirá algum tipo de mudança para a vida dos mais pobres, não tenha dúvida que a resposta vai expressar uma descrença profunda no sistema. O problema é que isso – em expressão de uma fraqueza relativa da esquerda para disputar o esgotamento do modelo petista – é explorado por um discurso udenista construído sob medida pela direita.
Um de nossos caminhos seria apontar a necessidade de um novo sistema político com ampla participação popular. Com isso, você não toca apenas no tema do financiamento empresarial de campanha – até porque, se ele acabar, nossos problemas não estarão resolvidos. Podemos chegar a um projeto de reforma política que passe também por maior participação popular, mecanismos como plebiscitos e conselhos populares deliberativos. Isso é o que a esquerda tem a oferecer para capitanear o sentimento de descrença na política tradicional.
Acho que esta saída passa também por novas formas de agir da esquerda – novos procedimentos. Não adianta a gente falar em “novo sistema político” e oferecer um partido com esquema tradicional. Tem de ter diálogo com as redes, tem de haver formas de fazer com que as pessoas de fato participem e se sintam sujeitos de um processo político em construção – e não recebam definições prontas. E todas essas formas têm de ser construídas. Agora, isso não se constrói a frio.
A gente falou muito das estruturas caducas dos partidos, mas você acha que não precisamos também de novos movimentos, ou de movimentos estruturados de uma maneira diferente?
A estruturação dos movimentos responde a projetos políticos. Depois de junho de 2013, virou uma heresia você não se declarar horizontalista. Ou é horizontalista, ou é um cretino. Não partilho deste tipo de posição. Acho que o grande problema de os movimentos populares terem criado estruturas verticais rígidas e inacessíveis e terem perdido participação foi uma estratégia de integração, em que a participação de mais pessoas significava riscos para uma política com a qual um grupo de dirigentes estava absolutamente comprometido, por razões que a própria razão desconhece. Por exemplo, setores do movimento sindical que, mesmo tendo perdas com as políticas do governo, defendiam este governo porque tinham cargos e benesses. Esta é uma via muito maior de burocratização, de perda de contato com a base, do que você chegar e dizer que um modelo de movimento que não seja horizontalista não serve.
A pergunta refere-se justamente à CUT, a maior central sindical, que é atrelada ao governo. O MST, que é o maior movimento no campo, também tem um grande atrelamento ao governo.
Precisamos de um posicionamento claro: colocar nossa política de enfrentamento ao governo. Mas tendo a clareza de que isso não se transforma automaticamente, do dia para a noite, num novo formato organizativo. Há várias tentativas de criar novas centrais sindicais. Respeito todas. Não me parece que falte apenas isso, porque isso temos de sobra. Depois de doze anos de PT, a maioria dos sindicatos continua filiada à CUT. Não temos um problema apenas da direção. O negócio tem de vir de baixo.
Por isso, acho que, mais do que a gente se esforçar em criar novas siglas, novos movimentos, novas centrais, um novo movimento camponês, novos movimentos urbanos, temos de nos esforçar em fazer o feijão com arroz. Pode parecer repetitivo, um mantra, mas construir este trabalho de base é tarefa mais que decisiva: a prioridade um, dois e três.
Vocês estão fazendo isso. Além do MTST, quem mais?
Acho que há movimentos de menor ou maior proporção que têm buscado fazer isso. E acho também que não é apenas uma escolha dos movimentos. Uma parte dos movimentos sociais brasileiros, ainda muito ligados ao PT, se não tomarem esta opção hoje, vão pro vinagre: vão acabar em poucos anos, perder sua influência social. Porque ser governista em período de bonanças, em que 80% da sociedade brasileira e o grosso da classe trabalhadora apoiam o governo, não é exatamente um problema, pensando do ponto de vista de quem age desta forma.
Mas ser governista no momento em que este projeto dá sinais mais do que claros de esgotamento, em que seu apoio social se derrete, em que a partir deste esgotamento o governo toma uma postura de saída à direita, de botar a conta no colo do trabalhador, é uma coisa mais difícil. A tendência é: quem permanecer preso a esta encruzilhada será atropelado pelo processo. O MTST busca construir este novo processo de base, mas não é único. Há outros movimentos que buscam fazer isso também, em menor ou maior grau. Isso pode se tornar, para parte da esquerda brasileira, uma estratégia de sobrevivência. Se não fizer isso, se não retomar este processo de diálogo com a base, escutar a base mais do que escuta o governo, vai ser atropelado. E muitos estão percebendo isso.
Mas aí, há um problema? Os movimentos sociais que têm mais influência de base são, de certa forma, apartidários. Não querem criar um partido. Se não estão a fim de discutir a institucionalidade, ou de construir uma nova institucionalidade, você não fica refém do que há por aí?
Trata-se de construir uma lógica diferente. Fomos acostumados a pensar, desde a redemocratização do país, e particularmente desde a década de 1990, que o único espaço de política é o espaço institucional. Disputa política é disputa eleitoral, ganhar mais assentos no Parlamento, governos, prefeituras e tudo o mais. O desafio que temos nesse momento não é apresentar uma nova alternativa para esta disputa. É revalorizar um outro espaço de exercício da política, que é o da mobilização social.
Não creio que, dentro do atual sistema político, vamos conseguir avançar do ponto de vista de eleger setores ou figuras comprometidas com um projeto popular e contrárias a estes sistema político. Podemos ter avanços residuais, mas não conseguiremos mudar o país a partir disso – e os doze anos de PT abonam este raciocínio. O que precisamos fazer, neste momento, é reconstruir a política das ruas, é mudar a relação de forças, criar condições para derrubar este sistema político. Isso não exige apoiar uma candidatura interessante em 2016, mas reconstruir movimentos, para criar um novo caldo social, alterar a relação de forças nas ruas.
Tomemos o que foi o 15 de Março, o grande ato da direita. Do ponto de vista do movimento de rua, algo respeitável, que mobilizou milhares, talvez mais de um milhão de pessoas. Esta demonstração de rua teve um papel rápido, impressionante para alterar a relação de forças no Congresso. Não passou um mês e os parlamentares desengavetaram todos os pacotes de maldades que tinham na Câmara e no Senado: lei antiterrorismo, “autonomia” do Banco Central, redução da maioridade penal, projeto de lei da terceirização, PEC indígena, contrarreforma política: tudo o que estava amarrado por outra correlação de forças. O 15 de Março destampou uma panela e gerou uma enxurrada de pautas conservadoras na política institucional.
Ao mesmo tempo, e por outro lado, a reação à terceirização era inesperada. Depois de março, eles acharam – o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros – que “agora vai tudo”. Foram com sede ao pote. Aí, surgiu outro fator de rua, uma contrapressão, que deu uma bloqueada no PL 4.330. São expressões de como a política se faz nas ruas, para um lado ou para outro.
Quando você fala tanto neste trabalho de base – e talvez venha daí a nossa pressa, perguntar quem vai fazer isso –, a imagem que vem é de um trabalho de médio e longo prazo – um trabalho de formiguinha que precisa ser feito, claro. Entendo a radicalidade da proposta, no sentido de ir na raiz mesma da coisa. Mas parece que esta mobilização, para você, já tem efeitos imediatos, no avanço ou retrocesso político agora.
A política funciona assim. A mudança de relação de forças já se faz nas ruas. O problema é que a esquerda deixou de valorizar este espaço de construção de novas correlações de força. Para a parte majoritária da esquerda que embarcou no projeto do PT, nos últimos vinte anos, mudar a relação de forças era eleger dez deputados a mais que nas eleições anteriores – não era botar 50 mil na rua para pressionar o Congresso Nacional. É esta lógica que precisamos inverter. Este tipo de projeto, de avanços pelo caminho institucional, demonstrou um esgotamento.
Tempos de crise são sempre surpreendentes. A crise polariza muito e acelera processos. Eu não me atreveria a dizer que são processos de longuíssimo prazo. Há gatilhos fortes. Junho de 2013 foi um baita gatilho para amplas mobilizações sociais que estavam travadas e para a direita ir para a rua… Funcionou simbolicamente como o fim do consenso. As forças sociais que estavam pacificadas desde 2003 voltaram à ativa, tomaram posições.
Você falou da importância e da necessidade da mobilização social neste momento como a única alternativa que resta à esquerda. E a repressão policial? Essa legitimação que existe em torno da repressão policial aos movimentos sociais, às manifestações de rua, a tudo que é visto como desordem?
Acho que isso já foi mais forte do que é hoje. É claro que, com essa ofensiva conservadora, nós corremos o risco de ter retrocessos institucionais inclusive nesse sentido. Ou melhor, de se institucionalizar o retrocesso. Como o caso do projeto de lei antiterrorismo, que é voltado diretamente para criminalizar manifestação social. Ninguém está preocupado com a atuação da Al-Qaeda na tríplice fronteira. O pessoal está propondo isso porque busca enquadrar os movimentos sociais na caracterização e tipificação de terrorismo.
Mas já foi pior, porque junho de 2013 teve um papel, que foi um papel de forçar a legitimação da luta social. Claro que isso não foi uma coisa completamente duradoura. Se você pegar o imediatamente pós-Junho, nós vivenciamos cenas curiosíssimas. Uma das formas de luta do MTST é fazer travamento de avenidas e rodovias. É de se imaginar que as pessoas que ficam bloqueadas numa avenida pelo MTST não tenham grande simpatia pelo movimento nessa ocasião. Mas era impressionante: logo depois de junho, a gente travava a pista e as pessoas que estavam paradas aplaudiam, vinham prestar solidariedade ao movimento.
Mesmo quando viam a bandeirinha vermelha?
Sim. Porque essa diferenciação, embora ela tenha sido construída e depois ela foi mais fortalecida, é algo mais tênue no discurso. O fato é que eles foram obrigados, até para tentar se apropriar do rumo daquela mobilização social, a relegitimá-la.
Em junho de 2013, houve vitória. Muita gente não considera isso, mas isso é um fator propulsor de grande importância. O fato da passagem ter baixado em dezenas de cidades pelo país afora, depois de uma ampla mobilização que tinha isso como foco, não é algo de se desprezar. Isso difunde a ideia de que quem vai à luta conquista.
Este processo teve um papel de gatilho para ocupações urbanas por famílias que vinham sendo esganadas pelo aluguel. Viam seu orçamento familiar estourado pelo avanço da especulação mobiliária e o preço dos aluguéis, e pensaram: “Se a luta conquista, espera aí, e esse terreninho aqui do lado?” As ocupações explodiram.
Em São Paulo, em 2011 e 2012, havia pouco mais de 200 ocupações. Em 2013 e 2014, foram 680 e tantas ocupações em São Paulo. Isso foi a partir do segundo semestre de 2013 – e não parou. Ocorria também em Minas Gerais, Curitiba, Rio de Janeiro, Fortaleza. Ou seja, esse papel pedagógico ajudou a relegitimar a luta social. É claro que há criminalização. É claro que há também esse discurso de rebote, de tentativa de desmoralização, de separar o vermelho do verde amarelo.
Há também uma sofisticação, que vai mais pelo lado judicial do que pelo lado da porrada.
É verdade. Interditos proibitórios e as várias medidas que são tomadas. Mas eu acho que, do ponto de vista da criminalização, nós já vivemos momentos piores. Mesmo durante os governos do PT.
Ou seja, para você a ocupação das ruas ainda é uma estratégia necessária e que a esquerda deve investir nela?
Diria mais que ainda: ela é hoje acima de tudo “a” estratégia necessária. Foi relegada a quinto plano no último período. Agora é o momento de resgatá-la como estratégia central da esquerda brasileira.
Mesmo que não consiga colocar tanta gente na rua como a direita consegue?
Olha, não sei. Com o movimento social brasileiro articulado e disposto a fazer isso, há condições colocar muito mais do que coloca hoje.
Aí depende das pautas, né? De seis meses para cá, só estamos respondendo: contra maioridade penal, contra a terceirização… Como começar a não esperar o trem?
Uma pauta de reformas populares é um programa ofensivo. Estamos vivendo um momento que não há como não construir pautas em relação ao tema do ajuste fiscal. Tem que fazer um ajuste, tá bom, a gente concorda. Mas qual ajuste nós vamos fazer? Você ao mesmo tempo se defende do ajuste antipopular e recessivo, de um aumento de juros, de corte em investimentos sociais – e defende uma reforma tributária, taxação das grandes fortunas e auditoria da dívida pública. O ajuste fiscal é um tema importante para que a esquerda brasileira trabalhe e desenvolva. O tema da reforma política também é, sem dúvida.
Na verdade, não nos falta discurso. Nosso problema não é construir plataforma, mas ter gente para sustentar nossas plataformas. É ter movimento real para bancar programas: a esquerda está cheia de excelentes programas. Cada seita esquerdista tem um programa melhor o que a outra. Cada uma tem a receita de como fazer a revolução depois de amanhã. Mas esses programas não resolvem os nossos problemas.
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MAIS:Nos próximos dias a sequência da entrevista com Boulos, em quatro capítulos:
Guilherme Boulos faz uma proposta à esquerda
Nem Lula-2018, nem novo partido. Para líder do MTST, reconstrução exige trocar palácios pelas ruas, formular novo projeto de país e retomar “trabalho de base”
Da crise surgirá uma nova esquerda”Guilherme Boulos aposta: agravamento das condições de vida levará maiorias a buscar saída não-capitalista. Por isso, ascenso da direita é passageiro
O papel de Marx e o de FreudCoordenador do MTST fala de sua formação, dos caminhos para transformação política e cultural do país e da possível sintonia entre marxismo e psicanálise


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O SOL NOSSO DE TODO DIA

Foi realizado nos dias 16 e 17 de setembro, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, o Encontro Internacional Realidad energética y posibles rutas alternativas para las transiciones energéticas justas, equitativas y sustentables, organizado pelo Grupo de Trabajo de Cambio Climático y Justicia, contando com participação de representantes do MOCICC – Movimiento Cuidadano frente al Cambio Climático – do Peru, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, do Brasil, e da Misereor, da Alemanha. Foram dois dias de trabalho intenso, com participação de mais de 40 bolivianos e 9 provenientes de outros países.

Como também a Misereor tem, entre suas prioridades, a busca de alternativas aos processos que geram mudanças climáticas, este foi um dos eixos das reflexões. Mas o tema central foi mesmo a energia, com intercomunicação sobre a matriz energética de cada país e sobre práticas de produção de energia solar e eólica descentralizada.

Hidrelétricas e geração de desequilíbrios

Por mais que as autoridades, empresas e alguns intelectuais repitam que o Brasil possui uma das mais limpas e sustentáveis matrizes energéticas, o que se percebeu é que os três países têm em comum avanços na carbonização da produção e consumo de energia. Em outras palavras, constatou-se um avanço da termeletricidade, com uso de petróleo, gás e carvão. Tanto o Peru como a Bolívia estão dando passos para aumentar a hidroeletricidade, com a construção de barramentos dos rios da região amazônica – não só como o Brasil, mas incentivados pela política e até mesmo com financiamento do BNDES, bem como com presença de grandes empresas de construção.

Como todas as entidades presentes atuam em processos educativos e de mobilização social em relação aos processos econômicos que provocam aquecimento do planeta e agravamento de mudanças climáticas, a construção de hidrelétricas na Amazônia foi tema de aprofundamento. De fato, a transformação dos grandes, médios e pequenos rios amazônicos em uma sequência de barragens, é algo absolutamente preocupante em relação aos impactos sociais e ambientais que introduzirão neste bioma. É o caso, por exemplo, do rio Tapajós, no Brasil, em que a insistência de construir a hidrelétrica de São Luiz levou à descoberta de que há outras 43 represas a serem construídas rios acima, contados seus afluentes.

Sabe-se que a construção de uma hidrelétrica, e muito mais quando ela é parte de uma sequência de barramentos que têm também a finalidade de viabilizar uma hidrovia, traz consigo uma série de investimentos econômicos. Antes mesmo de sua construção, aumenta na área a presença de madeireiras, de garimpos, com invasão de áreas de preservação e territórios indígenas, junto com um começo de especulação no preço de terras griladas. Isso significa continuidade e até viabilização acelerada do projeto predador e destruidor do bioma Amazônia.

Esse movimento do “progresso econômico” se soma ao aumento da emissão de metano e dióxido de carbono que as hidrelétricas provocam. De fato, muita floresta é destruída, e a maior parte é queimada ou deixada no tempo, e isso libera o CO2 contido nas árvores e vegetação. Muita floresta, vegetação e outros seres vivos são cobertos por água e, ao se decomporem, produzem grande quantidade de metano – jogado para a atmosfera através da água profunda que movimenta as turbinas.

Tudo somado, junto com desastres sociais, que afetam povos indígenas, ribeirinhos e até população urbana, há imensos desastres ecológicos, afetando a existência da floresta e da biodiversidade, bem como aumentando a emissão de gases de efeito estufa, reforçando tudo mais que agrava as mudanças climáticas. No caso da Amazônia, provocando desequilíbrios que afetam sua possibilidade de continuar contribuindo com o equilíbrio hídrico regional e em toda a América do Sul, de modo especial na região do Sudeste e Centro-oeste brasileiros.

Por que não contar com o sol e os ventos em cada localidade?

Este foi o tema maior do Encontro. Em todos os nossos países há melhor insolação do que as melhores regiões da Alemanha e de outros países que avançam na produção de energia solar fotovoltaica, e o fazem priorizando os telhados das casas, caminhando na direção de produzir o mais perto possível do local de consumo, evitando perdas.

Diante disso, a pergunta: por que não se conta com o sol em nossos países? Mesmo sabendo que os preços, até mesmo pela não entrada na criação de tecnologias e na produção local, ainda são um pouco mais caros do que o uso da água, a conclusão da reflexão foi que também isso é usado como justificativa para a manutenção dos monopólios que controlam a energia centralizada, que exige grandes usinas, isto é, grandes obras de engenharia, que necessitam de grandes obras de transmissão e que, finalmente, possibilitam a exploração na venda da energia como uma mercadoria cada dia mais indispensável para as pessoas, de modo especial das que vivem em cidades.

Esta constatação levou à busca de caminhos para conquistar mais esta mudança em nossos países, uma vez que ela tem a ver com a superação dos efeitos destruidores do uso das fontes fósseis e mesmo do uso da água para produzir energia.

É absolutamente necessário conquistar a mudança da matriz energética. Mas, ao mesmo tempo, é absolutamente necessário conquistar a mudança do sistema econômico centrado no crescimento sem fim e, como consequência, no aumento constante do consumo. Isso exige, ao mesmo tempo, luta política, desde o local até o planetário, mas também a libertação das pessoas da dependência e dominação dos que criam necessidades falsas para manter seus lucros. Esse sistema estressa a Terra, e a mudança da matriz energética não é suficiente para enfrentar isso. É indispensável colocar em cheque a cultura do consumismo e desperdício, como insiste papa Francisco na Laudato Si´.

O grande desafio pedagógico e político está em relacionar esses dois polos, trabalhando em favor de mudanças no modo de pensar a vida, no perfil de consumo, e, ao mesmo tempo, em favor de mudanças na prática da cidadania como poder político capaz de exigir mudanças estruturais, em que a matriz e a política energética estão enquadradas. Nessa direção, toda possibilidade de implementação de projetos-piloto de energia solar e eólica descentralizada pode e deve ser, também, oportunidade de educação libertadora. Isto significa desencadear com a comunidade participante um processo de reflexão que inclua a temática das causas e efeitos das mudanças climáticas, as potencialidades e limites do bioma em que se vive, as necessidades reais de energia e de tudo mais para uma vida digna, a consciência de uma relação amorosa e harmoniosa com a Terra, a alimentação das motivações profundas para sermos capazes de uma conversão permanente, de modo especial para resistir à cultura de adoração ao dinheiro como ídolo... e, ao mesmo tempo, a responsabilidade e a busca de formas criativas de atuação como cidadãos e cidadãs, visando a conquista da mudança da matriz energética junto, é claro, com as demais mudanças estruturais necessárias para devolver à Terra o equilíbrio que necessita para manter em ambiente favorável a vida humana e todas as formas de vida.

Buscar a energia a partir da vida concreta, sabendo que somos energia e precisamos renová-la todo o tempo, significa buscar, alimentar e celebrar a dimensão espiritual de nossa existência. E para isso, contamos com o apoio das ricas expressões religiosas dos povos originários e com a inspiração das mensagens originárias das religiões, incluídas as que têm como base a vida e as mensagens de Jesus de Nazaré. Precisamos desta força interior, desta mística, nos lembra papa Francisco, para realizarmos a “conversão ecológica”, isto é, a mudança no modo de vida e na relação com a produção e consumo da sociedade em que vivemos.


                        Ivo Poletto – do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social