terça-feira, 14 de outubro de 2014

É PRECISO COLOCAR O DEDO NA CHAGA DA POLÍTICA NO BRASIL

ESTIVE EM ISTAMBUL, NUM ENCONTRO INTERNACIONAL QUE VAI CONSTRUINDO UMA ALIANÇA DE INICIATIVAS EM FAVOR DE "100% ENERGIA RENOVÁVEL ATÉ 2050". E ATENÇÃO: RENOVÁVEIS DE QUALIDADE, DEIXANDO A ÁGUA DOS RIOS NOS RIOS, O URÂNIO NO SEIO DA TERRA, O PETRÓLEO E O GÁS DO PRÉ-SAL LÁ ABAIXO DA CAMADA DE SAL NO FUNDO DO MAR E O GÁS DE XISTO NO INTERIOR DAS ROCHAS QUE SUSTENTAM O SOLO EM QUE VIVEMOS. HÁ SOL, VENTOS, MOVIMENTOS NATURAIS DE ÁGUAS E BIOMASSA MAIS DO QUE SUFICIENTE PARA PRODUZIR TODA A ENERGIA QUE A HUMANIDADE PRECISA, DE MODO ESPECIAL DEPOIS DE CUIDAR DA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA E DE DEIXAR DE LADO OS GASTOS INÚTEIS.

VAMOS AO TEMA DA POLÍTICA EM TEMPOS DE SEGUNDO TURNO. CONCORDE EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU COM AS ANÁLISES CRÍTICAS QUE CÂNDIDO NOS PRESENTEIA NESTA ENTREVISTA AO IHU. DE FATO, COMO NADA DE NOVO E MELHOR VIRÁ COM A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL, O DESAFIO QUE RESTA É ESTA PERSPECTIVA INDICADA PELO CÂNDIDO: Eu sempre defendo que uma causa legítima está acima da legalidade, e se foram as ruas que fizeram a transição do regime militar com as “Diretas Já” de trinta anos atrás, tem que haver movimentos dessa envergadura.

Eleições 2014: “uma escolha maluca a fazer”. Entrevista especial com Cândido Grzybowski

“Quantos não votaram nessa eleição? Aqui no Rio de Janeiro, o segundo colocado é o voto branco, nulo e abstenções, mas voto nulo, branco e abstenções não disputam segundo turno”, adverte o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - Ibase.
Foto: dinheirama.com
“Estamos diante da ameaça de uma retomada do neoliberalismo e diante de um PT que está satisfeito com as conquistas que fez, ou seja, com um reformismo baixo”.
O comentário é do sociólogo Cândido Grzybowski, ao avaliar a disputa entre PSDB e PT no segundo turno das eleições deste ano.
Para ele, o resultado do primeiro turno das eleições demonstra que os políticos não souberam captar a demanda das manifestações de junho de 2013.
Apesar de haver no mínimo três opções de terceira via à polarização PT e PSDB, somente Marina teve a possibilidade real de sinalizar uma alternativa, mas ela “foi trocando de partido: entrou no PV, depois tentou criar o seu partido, depois entrou para PSB, que é um partido do agronegócio, e (...) jogou fora o que poderia ser uma agenda alternativa”, avalia na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone. PV e PSOL, pontua, também não conseguiram responder aos anseios da população. “O PV nunca foi alternativa neste país, não como partido.
Talvez Eduardo Jorge tenha simbolizado alguma coisa, mas o partido é um partido oportunista, não era nada, tanto que a Marina saiu do PV. O PSOL é um partido de extrema esquerda fundamentalista ao seu modo, e se saiu um ‘pouquinho’ melhor nesta eleição, mas não acho que uma posição como a do PSOL tenha futuro nem possa captar a insatisfação da rua. Ele pode captar a insatisfação de algumas lideranças da rua, mas a rua ficou sem pai e sem mãe.”
Na interpretação dele, as urnas também demonstraram a reação da “classe média”, que está “raivosa” com o PT. “Ocorre que tem uma classe média à custa da qual se fez política social neste Brasil; não foi à custa do dinheiro dos ricos. O dinheiro que saiu para as políticas sociais do PT não foi a renda dos ricos, mas exatamente mexendo na classe média, e essa está raivosa agora”. Contudo, salienta, “a classe média não é a rua; a rua são os batalhadores que chegaram agora, que começam a ter voz”.
Na entrevista a seguir, Cândido Grzybowski também destaca a falta de debate entre os políticos acerca da situação dos indígenas, dos atingidos pela mineração, pelo agronegócio. “Queria saber quantos indígenas se sentem bem com o resultado das eleições. (...) Ninguém falava deles, alguém falou deles? Ninguém falou! Esse é o país real que temos, com favelados removidos, favelados que são colocados em casas do Programa Minha Casa, Minha Vida, mas não têm nem condições de pagar as moradias. Então, que inclusão é essa?”
Cândido Grzybowski é graduado em Sociologia pela Fundação Getulio Vargas e doutor pela Sorbonne, Paris. É diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase.
Confira a entrevista.
Foto: economiasociedade.blogspot.com.br
IHU On-Line - Como o senhor interpreta o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais?
Cândido Grzybowski – Diria que é um ganho para a democracia a Marina não ter passado para o segundo turno, porque ela é uma oportunista, virou a casaca tantas vezes durante a campanha, com propostas que não tinham coerência. A democracia brasileira viu nela uma alternativa no início da campanha, porque ela carregava um simbolismo de novidade, mas ao entender a confusão e o oportunismo dela, que mudou de partido, de aliança, de agenda, de posições, o eleitor se mostrou atento. Esse foi um aspecto mais genérico das eleições, mas o que gostaria de destacar é que fazia tempo que não se discutia o futuro da política e o futuro do Brasil na sociedade. Essa confusão política teve uma contribuição positiva no sentido de nos fazer discutir. A eleição era o assunto dominante nos bares, nas conversas do trabalho, na família, o que é muito positivo. Nós estávamos precisando sair do marasmo que se acentuou depois de junho do ano passado.
IHU On-Line - O que a disputa entre PT e PSDB no segundo turno demonstra sobre a política no Brasil, considerando as jornadas de junho que apontavam um descontentamento com a política?
Cândido Grzybowski – Quando se polariza o debate político - talvez não precisasse ser somente entre dois partidos –, se define melhor aquilo que Gramsci chamava de as correntes de opiniões. Então, é uma disputa de hegemonia no sentido gramsciano da palavra, afinal, que direção imprime este país? Não é que a situação política vá mudar de um dia para outro, mas aponta uma direção. Simplificando, diria que estamos diante da ameaça de uma retomada do neoliberalismo e diante de um PT que está satisfeito com as conquistas que fez, ou seja, com um reformismo baixo. Então, de um lado, não se atende às expectativas de grande parcela da população que queria que se aprofundassem as mudanças e, de outro, há a possibilidade de volta de algo que é um projeto que eu, que venho do Fórum Social Mundial, só posso ser contra.

"O espectro da rua está no ar e não acho que essa eleição vai resolver essa questão"

IHU On-Line - As manifestações de junho de 2013 expressaram algo nessas eleições? Como explica a participação de três candidaturas de terceira via à polarização PT e PSDB nas eleições e o retorno dessa polarização?
Cândido Grzybowski – Quem tinha uma possibilidade de representar a terceira via pelo seu passado era a Marina, só que a democracia não vive sem instituições, e Marina não tinha um partido. Ela foi trocando de partido: entrou no PV, depois tentou criar o seu partido, depois entrou para o PSB, que é um partido do agronegócio, apesar de sua agenda de modernização ser exatamente contra o agronegócio.
A primeira coisa que ela fez no ato de campanha foi falar com o pessoal do Etanol e se aliar com Beto Albuquerque, um gaúcho que é defensor do agronegócio. Então, ela jogou fora o que poderia ser uma agenda alternativa, porque o PV nunca foi alternativa neste país, não como partido.
Talvez Eduardo Jorge tenha simbolizado alguma coisa, mas o partido é um partido oportunista, não era nada, tanto que a Marina saiu do PV.
O PSOL é um partido de extrema esquerda fundamentalista ao seu modo, e se saiu um “pouquinho” melhor nesta eleição, mas não acho que uma posição como a do PSOL tenha futuro nem possa captar a insatisfação da rua. Ele pode captar a insatisfação de algumas lideranças da rua, mas a rua ficou sem pai e sem mãe.
O espectro da rua está no ar e não acho que essa eleição vai resolver essa questão, porque nenhum candidato assumiu exatamente as demandas da rua. Marina não assumiu claramente isso, assim como nenhum dos outros dois candidatos (Eduardo Jorge e Luciana Genro). O PSOL pode até dizer que assume, mas ele não tem legitimidade nenhuma na campanha. Por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, Marcelo Freixo teve um terço dos votos de antes de 2013, e ele não criou nada de nada.  Essa é a decepção com esse tipo de partido; ele não conseguiu criar uma via alternativa que era possível de ser criada aqui no Rio. O Rio de Janeiro é uma confusão, talvez o estado mais confuso que sai dessa eleição. Aqui não se sabe para onde vai.
IHU On-Line - O que explica a eleição de candidatos como Bolsonaro no Rio de Janeiro, por exemplo, sendo um dos candidatos mais votados?
Cândido Grzybowski – Esse é um exemplo. Bolsonaro teve uma votação especial, mas Freixo também teve. E o que isso significa? Sei lá. Aqui no Rio, ao mesmo tempo, o Aécio foi o terceiro colocado. Aqui é a confusão, mas essa confusão também teve seu epicentro aqui em 2013 e em São Paulo, em ocasião das jornadas de junho. Em São Pauloeu não sei o que está se passando, porque o Alckmin, com todo o desastre que está seu governo, ganhou desse jeito. Isso revela confusões à vista.
Nós não vamos resolver a crise da política porque ela não é só do sistema político, é mais profunda. Temos de recriar condições de discutir o país, que tipo de política deve-se implementar, que tipo de desenvolvimento queremos, quais direitos de cidadania garantir. Será que basta ser consumidor ou precisamos de direitos universais? O Brasil é uma sociedade mudada, mas não completa. Tem possibilidades de mudar, mas não sei se as possibilidades sairão dessa eleição.
IHU On-Line - Teria que ter surgido um candidato das manifestações de junho? Isso seria uma alternativa, apesar de os manifestantes terem recusado a participação dos partidos?
Cândido Grzybowski – As manifestações foram uma expressão de cidadania, e o que faltou foi as lideranças políticas captarem o que as ruas diziam; isso não ocorreu, parecia que iria ocorrer, mas não ocorreu. As ruas estão sem pai e sem mãe. O problema das manifestações de rua é que elas foram contra qualquer institucionalidade em um primeiro momento, porque também colocaram em questão os movimentos mais instituídos, as estruturas sindicais. Quase todas as greves que ocorreram foram contra dirigentes sindicais, e apesar de os dirigentes fazerem acordos, as greves continuaram: dos garis, dos professores.
Quantos não votaram nessa eleição? Aqui no Rio de Janeiro, o segundo colocado é o voto branco, nulo e abstenções, mas voto nulo, branco e abstenções não disputam segundo turno.

"Quantas oligarquias políticas nós temos? Quase tantas quanto partidos. Isso não significa projeto de país, significa manutenção de privilégio"

IHU On-Line - Quais as vantagens e desvantagens de mais quatro anos de gestão do PT no governo federal e, ao mesmo tempo, mais quatro anos de PSDB em São Paulo, por exemplo? Qual é o impacto de eleições consecutivas para a democracia?
Cândido Grzybowski – A questão não deveria ser colocada nesses termos. A questão é saber se o partido vai conseguir se renovar. A minha questão é essa: o Aécio não está propondo renovar, ele está propondo retomar a agenda que o PT venceu em 2002, retomar as coisas doFernando Henrique, como se aquilo fosse a solução para o país; é a volta a se aliar com os Estados Unidos, com a Europa, e provavelmente eles estão apostando tudo no Aécio. Mas o PT não fez as reformas que deveria fazer, não fez nenhuma. Quer dizer, implementou políticas sociais, extremamente necessárias, mas será que só isso era possível? A questão é: será que agora a ficha vai cair? A questão é que se a ficha cair em algum lugar, vai ser numa possível continuidade doPT.
Em São Paulo, eu sei, contra tudo o que a mídia está dizendo, que a avaliação da população é extremamente positiva do governo Fernando Haddad pela prioridade que ele está dando ao transporte público, por exemplo, uma radical prioridade ao transporte público, limitando as vias para carros.
Ocorre que tem uma classe média à custa da qual se fez política social neste Brasil; não foi à custa do dinheiro dos ricos. O dinheiro que saiu para as políticas sociais do PT não foi a renda dos ricos, mas exatamente mexendo na classe média, e essa está raivosa agora. Mas a classe média não é a rua; a rua são os batalhadores que chegaram agora, que começam a ter voz, que têm mais escolaridade, mas não têm história; eles não tiveram a experiência da ditadura e por isso questionam com mais facilidade a democracia que temos. Nós podemos fazer comparações com a ditadura, com governos anteriores, mas o que eles eram em 1994 quando se implantou o Plano Real? A maioria nem tinha nascido. Então, esse é o país real, com liderança política velha, apesar da renovação que se faz na Câmara. Quantas oligarquias políticas nós temos? Quase tantas quanto partidos. Isso não significa projeto de país, significa manutenção de privilégio e isso está em todos os partidos, perpassa a cultura política e isso é ruim para a democracia. Então, será que vamos conseguir avançar com a agenda? Sou dos que acham que tem de voltar à base, a educação de base, as comunidades de base.
Queria saber quantos indígenas se sentem bem com o resultado das eleições. E não ache que eles votaram no PSOL ou na Marina. Esses que estão aí resistindo e brigando com agronegócio, com as grandes empreiteiras, os atingidos pelas minas, talvez até se abstiveram, porque era uma escolha maluca a fazer. Ninguém falava deles, alguém falou deles? Ninguém falou! Esse é o país real que temos, com favelados removidos, favelados que são colocados em casas doPrograma Minha Casa, Minha Vida, mas não têm nem condições de pagar as moradias - e eu estou falando isso tendo em vista os estudos reais feitos no Rio de Janeiro. Então, que inclusão é essa?
IHU On-Line - A que o senhor atribui o fato de os partidos não terem uma base social forte como havia no passado com o PT?
Cândido Grzybowski – Agora a base social forte é quem financia a campanha; esse é o nosso problema. Criou-se um mercado eleitoral e não exatamente um espaço em que a cidadania, que é instituída e constituída, exerce plenamente o seu direito; o direito é manipulado pelo poder do dinheiro. E isso vale desde o Pastor Everaldo até Marina e Dilma. Vamos olhar a arrecadação de fundos: ganha quem arrecada mais; é dramático.
Mesmo esses partidos de ocasião – porque nós temos muitos desses – existem para a venda de tempo na televisão; eles se financiam vendendo espaço na legenda. Eles trazem pessoas com dinheiro, que veem na política a possibilidade de emancipação social, porque o salário de deputado não é desprezível, e esses candidatos pagam para o partido para terem uma legenda, e os partidos vendem o seu tempo de televisão se coligando com outros, e assim se formam as coisas. Então, nós estamos em uma sociedade de mercado, não é só economia de mercado, e esse é o principal entrave à democracia brasileira no momento. E nesse contexto alguém vem e diz que temos de fazer a economia florescer e ter menos Estado. Bom, aí estamos desesperados.
IHU On-Line - Em que consistiria uma reforma política no sistema eleitoral? É positivo ter tantos partidos disputando as eleições?

"Esses partidos de ocasião – porque nós temos muitos desses – existem para a venda de tempo na televisão; eles se financiam vendendo espaço na legenda"

Cândido Grzybowski – É positivo e fundamental termos a expressão da diversidade, só que não acho que os 32 partidos que existem no Brasilexprimem a diversidade, tanto é que são incapazes de eleger negros, mulheres e indígenas, por exemplo. A existência de correntes com capacidade de virar autônomas dentro de partidos é fundamental. Nesse caso, a reforma não é só eleitoral e do sistema partidário, é da política enquanto tal, é reconquista dela enquanto espaço de significação da vida coletiva.
Nós vamos ter de fazer movimentos como esse de junho do ano passado, dez vezes mais potentes, porque a única maneira de desempatar isso é colocando em questão a institucionalidade que temos. Eu sempre defendo que uma causa legítima está acima da legalidade, e se foram as ruas que fizeram a transição do regime militar com as “Diretas Já” de trinta anos atrás, tem que haver movimentos dessa envergadura.
IHU On-Line - Como o apoio do PSB e do PV à candidatura de Aécio poderão repercutir no segundo turno?
Cândido Grzybowski – Não sei. Desconfio que esses – a Marina em particular talvez – perderam legitimidade para que a sua declaração de votos signifique levar os 20 milhões para um lado, e isso vale para posições como a do PV também. A disputa está entre um tipo de social-democrata conservador, como é o PSDB, e o PT, que é um social-democrata um pouco mais progressista. Precisaríamos conseguir construir uma agenda das transformações necessárias na sociedade, um grande movimento amplo, mas com o apoio da cidadania. Movimentos se constroem no bê-á-bá, ouvindo as pessoas, extraindo, como diz Gramsci, o bom senso que está no senso comum.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

INDIGNADOS DO M15 AVANÇAM NA PRÁTICA DA DEMOCRACIA

MUITA GENTE SE PERGUNTA SOBRE O QUE ACONTECEU COM OS "INDIGNADOS" DA EUROPA, ESPECIALMENTE OS DA ESPANHA. POIS BEM, O ARTIGO E ENTREVISTA QUE SEGUEM DÃO CONTA DE UMA DAS PRÁTICAS INOVADORAS: O PARTIDO-MOVIMENTO "PODEMOS". 

ESTAS PRÁTICAS SUGEREM ALGUMA POSSIBILIDADE PARA NÓS?

Democracia: a alternativa radical do Podemos

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Manifestação dos "Indignados", movimento que deu origem ao "Podemos", Para Pablo Iglesias, referência do grupo, "o poder não teme à esquerda mas, sim, ao povo organizado
Manifestação dos “Indignados” espanhóis, de onde surgiu o “Podemos”, Para Pablo Iglesias, referência do grupo, “o poder não teme à esquerda mas, sim, ao povo organizado”
É possível desafiar o sistema político, propor transformações sociais profundas e disputar eleições com chances reais? Novo partido-movimento ensina algo
Pablo Iglesias, entrevistado por Olga Rodríguez, no El Desconcierto | Tradução João Victor Moré Ramos
Milhões de brasileiros viverão, hoje, uma experiência democrática restrita. Seu voto elegerá o principal governante do país e diferenças reais, entre os candidatos, tornam a eleição muito relevante. Mas só os muito ingênuos engolirão o velho slogan que a TVs matraqueará ao longo do dia. Não viveremos a “festa da democracia”.
Ela está em declínio em todo o mundo, como lembrou José Saramago, há quase quinze anos. No Brasil, talvez a marca principal de seu esvaziamento seja a promiscuidade entre sistema político e poder econômico. As leis permitiram às empresas financiar os partidos e suas campanhas. Para disputar eleições com chances, os candidatos – do presidente ao vereador – comprometem-se cada vez mais profundamente com o mundo corporativo. Aos poucos, a lógica do capital torna-se a dos políticos. As disputas eleitorais, cada vez mais custosas, reduzem-se a guerras de marketing. Temas essenciais para o país desaparecem do debate. Quem falou em Reforma Agrária, nos últimos meses? Quem abordou a necessidade de estabelecer uma rede de transportes públicos (inclusive uma malha ferroviária nacional) que nos livre da ditadura do automóvel?
A colonização da política pelo dinheiro é tão profunda que parece, às vezes, irreversível. A crítica estaria restrita aos que se condenam a permanecer à margem, e por isso impotentes – ou pregando o voto nulo, ou defendendo candidaturas inviáveis. Por isso, vale examinar certas experiências inovadoras que estão conseguindo vencer este círculo de ferro. São poucas, mas efetivas – e dialogam diretamente com nosso cenário.
Na entrevista a seguir, Pablo Iglesias, principal referência do grupo político espanholPodemos, expõe a ascensão surpreendente deste partido-movimento que se surgiu este ano, a partir do movimento dos Indignados e se transformou, em pouco meses, na principal surpresa no cenário de seu país. Iglesias, um cientista político de apenas 35 anos, explica que pelo menos três de suas características são marcantes.
O Podemos mantém-se radical, na crítica à velha política que marcou os Indignados (“ni políticos, ni banqueros”). Rechaça uma possível estratégia de acúmulo gradual de forças por meio de alianças celebradas no interior do sistema. Sabe que seria contaminado pela lógica hegemônica, muito antes de conseguir desafiá-la. Rejeita, inclusive, receber qualquer tipo de financiamento corporativo – algo que seria viável, dado seu avanço eleitoral meteórico. Suas despesas são custeadas por arrecadação autônoma em rede (“crowdfunding”), com prestação de contas permanentemente atualizada, no site do movimento.
Mas, ao contrário do que recomendaria uma postura anarquista clássica, o Podemos não se recusa a disputar eleições. Percebe que, apesar da crise de desconfiança diante do mundo político, a esmagadora maioria da população continua a esperar algo das instituições tradicionais – inclusive porque não há, no momento, outra forma de coordenar a vida social. O movimento quer dialogar permanentemente com esta maioria, ao invés de se fechar numa atitude de vanguarda e se limitar ao debate cômodo com pequenos grupos de convertidos.
Como resultante das duas primeiras características, o Podemos assumiu um perfil em que se combinam um programa radicalmente à esquerda e uma ruptura com as formas tradicionais de organização partidária (inclusive as da esquerda clássica…). Suas três propostas principais para o cenário atual, explica Iglesias na entrevista, são o fim dos despejos de quem tornou-se inadimplente nos financiamentos imobiliários; a revisão da dívida pública (para que o Estado assegura direitos sociais) e o veto à presença de ex-dirigentes dos partidos nos conselhos de administração das grandes empresas (a principal forma de promiscuidade entre poder político e econômico, na Espanha).
Seus métodos incluem uma estrutura partidária reduzidíssima e ampla abertura de espaços para participação cidadã. A lista de candidatos do partido para as eleições ao Parlamento Europeu foi definida por votação direta, inclusive via internet. Rejeita-se, porém, o método de assembleia permanente, que leva a procrastinar “ad aeternum” as decisões. Iglesias lembra que, na construção de sua primeira lista eleitoral, o movimento foi mais democrático e mais ágil que todos os demais…
Ao assumir tais posições, o Podemos converte-se em algo como um partido-plebiscito. Sua contraposição tanto ao atual sistema político quanto aos rumos econômicos seguidos pela Espanha é tão radial que uma eventual vitória nas eleições produzirá, quase automaticamente, a necessidade de vasta reforma política. Por isso mesmo, o Podemos propõe uma Assembleia Constituinte, para rever por completo as instituições.
Este conjunto muito original de atitudes e programa tem se mostrado altamente popular. Constituído em janeiro deste ano, o Podemos disputou as eleições para o Parlamento Europeu apenas quatro meses depois. Estreou com 7,98% dos votos, elegendo cinco eurodeputados (Iglesias está entre eles). Continuou ganhando força. No início de setembro, pesquisas de opinião revelaram que o partido é agora apoiado par cerca de 21% dos eleitores e ameaça o tradicional monopólio que dois partidos tradicionais (PP, de direita, e PSOE, ex-social-democrata) exercem sobre a política institucional europeia. Especula-se que o Podemos pode ter força suficiente para vencer, em maio próximo, eleições municipais em grandes cidades – o que produziria um grande tremor político.
Segue a entrevista de Iglesias. Vale refletir sobre ela, no dia em que o Brasil vai novamente às urnas. Valerá, provavelmente, ainda mais, no período contraditório, cheio de possibilidades e riscos, que se abrirá a partir de 2015. (A.M.)
141005-Podemos
Quais suas impressões ao reunir-se, em Bruxelas com Alexis Tsipras, [líder do Syriza, um partido-movimento que lidera as preferências populares na Grécia]?
A impressão é que existe um trabalho duro a ser feito e muita esperança de levar-lo a cabo. Com Tsipras, conversamos sobre a situação em nosso país, a situação na Grécia, e na Europa em geral. Fiquei satisfeito com a reunião, convencido de que ele pode ser o próximo presidente grego e com muita vontade de trabalhar com outros europeus do Sul — até porque não queremos ser uma colônia da Alemanha. Temos que construir outra Europa que defenda sua soberania, os direitos sociais e que ponha freio a algumas instituições a serviço dos bancos.
Em Outubro, o Podemos fará seu primeiro Congresso. Como evitar que seu crescimento espetacular o leve a ser um partido como os demais?
Qualquer um que se organize assume riscos. Somos conscientes disso. Cabe construir um espaço político com características novas. O êxito do Podemos tem a ver com um nível de protagonismo dos ativistas incompatível com a forma de partido que conhecemos até agora. Quem pensa com noções velhas não entendeu o processo político que nosso país está vivendo.
O Podemos apela à participação cidadã. Haverá mecanismos de controle, para evitar que ingressem personagens que não cumpram os requisitos éticos básicos?
Evidentemente, há riscos. A forma de decidir a lista de candidatos do Podemos para as eleições europeias não só foi a mais democrática, mas também a mais ágil. Se compararmos com as lutas internas e as guerras de famílias que se dá nas demais formações políticas, creio que estamos muito animados por ter feito as coisas de outra maneira. Claro: é preciso dotar-se de mecanismos éticos e queremos buscar fórmulas para que não haja, entre nossas listas de candidatos, pessoas que queira apenas aproveita-se de nossa popularidade. Já tivemos que enfrentar uma situação difícil, quando um prefeito (de Benicull) fez uma série de gestos de que não gostamos. Dissemos claramente que aqui há tolerância zero com desvios. [Depois de afastar-se de seu partido anterior, Esquerda Unidas, o prefeito Vicent Alberola anunciou que passaria ao Podemos, com todo seu grupo partidário na cidade. O Podemos respondeu que esta não era sua maneira de estar à frente de prefeituras, e que Alberola deveria participar dos processos internos de escolha de candidatos, se desejasse ingressar no movimento]
Especula-se sobre o futuro próximo das eleições municipais. Fala-se em cenários de confluência com outras forças à esquerda. Qual a sua opinião?
Temos que ser coerentes conosco mesmo. Buscar a unidade de esquerda está muito bom, mas temos que saber que o que realmente amedronta o poder é a unidade das pessoas. É preciso ser muito míope para pensar que o poder teme a esquerda. Um processo de confluência não se faz através de anúncios de dirigentes de organizações. Faz-se através da construção da soberania popular. O tabuleiro político na Espanha não é o eixo esquerda-direita, mas sim o eixo que separa democracia de oligarquia. Vamos trabalhar nessa direção. Com a mão estendida, para que todo mundo possa confluir, mas sem aceitar a unidade baseada nos velhos métodos.
Qual seu diagnóstico sobre o que passa no Partido Socialista (PSOE)?
O que passa no PSOE é a chave da crise do regime. Há uma distância enorme entre o que pensam as bases e as decisões que tomam suas elites, pertencentes a castas, que acabam em conselhos de administração de empresas e que, nas decisões estratégicas fundamentais, estão com o Partido Popular [PP, de direita]. A ultima prova foi sua postura ante a abdicação do rei [o PSOE recusou-se a apoiar o movimento cidadão que pedia um plebiscito sobre a continuidade ou não da monarquia]. Vivem num processo depasokização [referência aos socialistas gregos, o PASOK, que, depois de abandonar suas convicções, em meio à crise econômica, passou de detentor do governo a um partido minoritário]. Continuarão agonizando enquanto persistirem nas práticas atuais. É também uma das grandes pernas da grande coalizão — a grande coalizão que governa a Alemanha, a Grécia, a que aspira a governar na Europa.
O que necessita o PSOE para mudar?
Digo o que disse Julio Anguita: programa, programa, programa. Eu estou disposto a sentar-me com qualquer um. Diria a eles: acabemos com as portas giratórias [que, na Espanha, permitem aos dirigentes do PSOE e PP passar, "naturalmente", aos conselhos das grandes empresas]. Façamos uma reforma tributária, para que os ricos contribuam com a manutenção dos serviços públicas, uma auditoria publica da divida e uma lei de emergência para proibir os despejos [dos proprietários de imóveis endividados]. Se estiverem de acordo com isso, não tenho nenhum problema. Mas que não me digam que as mudanças no PSOE são a saída do [antigo secretário-geral Alfredo Pérez] Rubalcaba e a chegada de Carme Maria Chacón. Ela está dizendo agora que seu modelo é Matteo Renzi, que fez, na Itália, uma reforma (da lei eleitoral) pactuada com Berlusconi, para que somente dois partidos possam revezar-se no poder. O problema não é que haja mais ou menos rugas na cara de porta-vozes ou candidato, e sim as questões programáticas.
Qual é seu diagnóstico sobre a situação da Esquerda Unida?
Nas eleições europeias, alcançaram um resultado magnífico, triplicando seus votos em relação ao pleito anterior. Creio que se formularam bons planos para ocupar o espaço abandonado pelo PSOE entre os eleitores de esquerda, mas ainda há muito trabalho para se fazer por ali. Nós, talvez tenhamos feito uma analise diferente da situação.
Em que sentido?
Pensamos que a chave neste país não é colocar-se à esquerda do sistema político, do PSOE, e sim quebrar a relação que separa os cidadãos da oligarquia. A única maneira de construir uma maioria social é ter um projeto de país que assuma a possibilidade de converter essa maioria social, que já existe, em maioria política. Creio que certas etiquetas ideológicas tornam difícil para construir isso. Mas esperamos que todas as forças que estão no campo da democracia possam jogar-se no esforço pela abertura de um processo constituinte.
Como se constrói esse modelo diferente de que vocês falam?
É preciso conquistar o poder político. Mas este poder político, quem tem que conquistar são as pessoas. Nós dizemos que a democracia não é só se eleger a cada quatro anos, mas que o poder tem que estar nas mãos das pessoas. É muito importante acumular o poder suficiente para converter as instituições e os diferentes espaços sociais de democracia, de participação e de deliberação coletiva.
Quer margens resta para governar quando se tem que enfrentar um poder financeiro com controle sobre o poder político?
São margens de manobra difíceis. Por isso, dizemos que faz falta inclusive uma aliança geopolítica entre os povos e países ao sul da Europa. Não creio que haja solução no marco do Estado-Nação. A possibilidade dessas alianças geopolíticas se darem e de que algumas coisas comecem a mudar passa também pela conquista de espaços de poder administrativo em todos os âmbitos: municipal, autônomo [regional] e nacional.
Quando se fala de defender a soberania popular, a que se refere?
Não é casual que na campanha apelemos às Forças Armadas e à policia. Queremos assinalar que não se pode consentir que se convertam em guarda-costas dos ricos. A soberania não é ameaçar alguém por falar outra língua, a defesa da soberania não é negociar contratos nos campos de futebol ou em restaurantes reservados. Defender a soberania é defender os hospitais públicos, as escolas públicas, que as pessoas não sejam expulsas de suas casas. Para isso todos os setores sociais tem que se mobilizar.
O que seria a primeira exigência a Bruxelas [sede da União Europeia], se puder haver uma união de países da Europa do Sul?
Primeiro, que as instituições europeias têm que ser democráticas. E depois, que essas instituições não podem estar ao serviço de poderes financeiros ou bancos alemães, senão ao serviço da soberania, dos direitos civis, sociais e humanos que não hoje são sistematicamente desrespeitados na Europa. Não é algo particularmente radical. Estamos exigindo que se cumpra a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Se governarem a Espanha, quais as primeiras três medidas que adotariam?
Primeira: um decreto de lei de expropriação ou confisco das habitações vazias que estão em mãos dos bancos, para constituir um parque público de moradias. Em segundo lugar, a proibição das portas giratórias que comunicam o Conselho de Ministros com os conselhos de administração das grandes empresas. E em terceiro lugar, ordenar que se faça uma auditoria da divida pública, para avançar até sua reestruturação e ver que elementos dessa dívida são legítimos. Ou seja, recuperar a capacidade do Estado para resgatar seus cidadãos.
Também reivindicam a aposentadoria aos 60 anos ou uma renda mínima básica.
Defender uma renda mínima básica é reivindicar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz que toda pessoa tem direito a uma moradia, a vestimenta, a atenção à Saúde e a receber educação digna. Dizia Keynes, que não era nenhum revolucionário, que das crises não se saía empobrecendo as pessoas. Só podemos sair com políticas públicas que favoreçam o consumo e para isso as pessoas necessitam dinheiro para gastar. Quando existir uma renda básica, ninguém terá que humilhar-se e trabalhar por 400 euros ao mês.
Uma das estratégias fundamentais do Podemos tem sido levar em conta a importância da comunicação na política
Começamos com nosso programa La Tuerka com a vontade de criar um estilo diferente ao habitual das organizações de esquerda. Era preciso disputar palavras como democracia ou soberania. Em seguida, eles começaram a chamar a grande mídia, porque ampliavam audiência.
Ao que se deve o êxito de audiência?
Está relacionado às mudanças no país, os novos desafios colocados pelo 15M aos consensos imperantes até então. Sem nosso papel nos encontros e nas experiências do Podemos, não teria sido possível. Por isso é tão importante trabalhar em nosso programa,La Tuerka. Pode ser que um dia as mídias tradicionais deixem de nos chamar, mas necessitamos de um espaço para que o debate siga avançando. As pessoas não seguem os debates parlamentares. Os debates na televisão sim.
A Espanha é um dos países da Europa com mais diferença salarial entre homens e mulheres. Que propõem para impulsionar uma igualdade real?
Evitar medidas que somente sejam cosméticas. Creio que nesta campanha, por exemplo, abordou-se o tema do machismo de maneira muito limitada.
Por que?
O debate ficou em torno apenas de um comentário repugnante de alguém sobre uma mulher na televisão. No entanto, em nosso país, o rosto da precariedade e da greve é um rosto feminino. Esse rosto feminino não esteve presente em nenhum debate eleitoral. Pareceu que todo o machismo neste país resume-se a que Miguel Arias Cañete tenha feito um comentário esdrúxulo sobre Elena Valenciano. É preciso fazer políticas publicas sérias, que servirão para que a igualdade seja real também nos dados econômicos.
Sobre a organização territorial das regiões o Podemos apoia seu direito a decidir?
No caso da Catalunha, deverá ser o que decidiam os catalães e catalãs. Em nenhum caso, deve haver medo de que as pessoas expressem sua opinião sobre qualquer coisa. Parece-me uma piada que o partido Convergência e União [CiU, de direita, no poder na Catalunha] faea sobre soberania, quando o que tem sido feito foi destruir sistematicamente as bases do exercício de soberania por meio de privatizações, assumindo um modelo corrupto. Nós defendemos o direito de decidir sobre tudo. Isso quer dizer também decidir sobre as questões econômicas.
Diga-nos algum pensador e político de referências pra você.
Um dos que mais leio e debato é Immanuel Wallerstein. Dos clássicos, Antonio Gramsci. Perry Anderson me entusiasma, David Harvey é uma chave para organizar minhas aulas, Slavoj Zizek me diverte muitíssimo. Políticos de referencia: um espanhol, Julio Anguita, e um estrangeiro, Salvador Allende.
Como definiria sua ideologia politica?
Diria que socialista, mas socialista em um sentido que seguramente não tem nada a ver com a dos partidos socialistas atuais. Em términos de formação como politólogo sou claramente marxista. Mas essas etiquetas, quando se trata de fazer política, se simplificam muito porque não estamos em um momento em que determinadas diferenças serão chave em termos políticos. Agora mesmo o que nós estamos defendendo é algo majoritário: a democracia real, a democratização da economia, os direitos humanos.

domingo, 5 de outubro de 2014

VELHO CHICO

MAIS UM POEMA, AGORA SOBRE O SÃO FRANCISCO. QUE NOS AJUDE A COMPREENDER PORQUÊ SUA VIDA É INDISPENSÁVEL PARA A VIDA DE MUITAS PESSOAS. PENSANDO BEM, PARA A VIDA DE TODAS AS PESSOAS E DE TODA A VIDA DA TERRA.

                                   Rio das Rimas
- Lembrando Guilherme de Almeida no dia de São Francisco -


Roberto Malvezzi (Gogó)

E ele que nasce pequenino,
franzino, feito um menino
Como que juntando gota a gota
Depois cresce, aparece
E de um fio de pavio
Se torna um rio.

Vai descendo esguio
feito uma serpentina
Que dobra na esquina
E cintila na luz matutina.

Vai deslizando na terra,
Contornando as serras,
Como que contornando
As curvas dos corpos das meninas

E ele que deveria descer para o sul
Decidiu subir para o norte
Por sorte mergulha no coração
De quem vive no sertão.

E desce lento, devagar
Como um bicho preguiça
Porque não precisa pressa
Dessa que o atormenta
Pelas mãos sangrentas
De seus inimigos.

Pois ele já sabe
Que basta caminhar
Pois o destino de um rio
Como já dizia mestre Paulo Freire
É um dia tornar-se mar.

E onde passa só deixa vida.

E deixa nomes
João, José, Maria,
Toinha, Aninha, Mariquinha
Bidó, Trajano, Herculano
Numa lista infinda
De gente sofrida e bonita
De gente permanente e errante
Que rima com Bom Jesus da Lapa,
Bom Jesus dos Navegantes
Ou com nomes do coração
Como Senhora da Soledade
E Maria da Conceição.

E desce machucado, violado, desmatado, estuprado
Carrega nas veias venenos, esgotos, agrotóxicos,
E tem seu corpo sangrado,
Retalhado, capado e
Recapado.

Parece que morre, mas não morre
Permanece com vida,
E as aves, os peixes, os bichos e as árvores
Ainda tem lugar para viver ao seu lado.

Por isso é um Velho Chico
Sempre velho e sempre novo
Que quase morto vive no coração do povo
E que agora pede socorro.

Um rio que tem nome de santo
Que canto, me encanto, não canso de falar
Um rio bonito, bendito, que parece infinito
Cujo nome sempre relembro e sempre repito:
Rio São Francisco.