sexta-feira, 3 de outubro de 2014

MINÉRIO VELA MAIS QUE A VIDA DO POVO E DA TERRA?

O POEMA É DE ANA PAULA RODRIGUES, SOFREDORA DAS CONSEQUÊNCIAS DO  PROJETO MINAS RIO DA EMPRESA ANGLO AMERICAN. COMO PODERÃO VER ABAIXO, NO TEXTO "EU ACUSO", DE FLÁVIA LILIAN BARROSO, IGUALMENTE ATINGIDA PELO PROJETO, A CONCESSÃO DE LICENÇA DE OPERAÇÃO FOI UMA DURA VIOLÊNCIA CONTRA OS DIREITOS DOS POVOS DA REGIÃO E DA TERRA. NO BRASIL, OS MINÉRIOS CONTINUAM VALENDO MAIS DO QUE A VIDA!

MINHA SOLIDARIEDADE ÀS LUTADORAS E LUTADORES QUE AMAM MAIS A VIDA DO QUE O DINHEIRO SUJO DA AGRESSIVA E ESPOLIADORA MINERAÇÃO. E MEU REPÚDIO AOS BRASILEIROS, GOVERNANTES OU NÃO, QUE MANTÉM NOSSO PAÍS NUMA NEOLIBERAL DEPENDÊNCIA COLONIAL. UM DIA, NA VIDA DE SEUS FILHOS E NETOS, VERÃO COMO SERÃO DURAS AS CONSEQUÊNCIAS DE SUA SUBMISSÃO CONSCIENTE AO CRESCIMENTO ECONÔMICO A QUALQUER CUSTO.
29/09/2014

De um lado meu pai
Minha mãe, meus avós
Pele preta, cabeça branca
Chapéu na cabeça e de botinas

Quem devia estar na terra
Está agora em Diamantina
No picadeiro das bestas feras
Ferras de salto alto, pele macia
Bestas de barriga grande, roupa fina
Asquerosas caras de desprezo
Servidas de todos os lados
E o povo tenta, grita
Grita no circo armado
Xinga, chora, leva a água suja
“Bebe conselheira”
Passam-se doze horas
Do mesmo lado
Mas do outro lado
Trabalhadores obrigados
A agradecer suas migalhas
Uniformizados, coreografados
Pelo alto escalão
“Bate palma, levanta o cartão”
Cansaço
Descaso
E o circo nunca pegará fogo
Quem garante é a polícia
Braço armado do "progresso"
Materialização da injustiça
Mas o povo tenta, grita
O alto escalão espera
Sorriso calmo, roupa cheirosa
Quem deveria falar se cala
Estilhaçada democracia
Grandessíssima ilusão
Cartas marcadas, corrupção
Adeus águas
A mineração
Foi votada
Não há perdão
O povo derrotado
Mas ao mesmo tempo não
Nossa alma não é pequena
Como as deles são
Apesar de toda violência
Todo descalabro
Nós também somos o mundo
E existirmos
Já é mudá-lo.

DEPOIS DE UMA REUNIÃO NA SUPRAM JEQUITINHONHA EM DIAMANTINA, DIA 29/SET/2014, COM 11:00 HORAS DE DURAÇÃO, ENCERRADA À 1:00 HORA DA MANHÃ, FOI CONCEDIDA LICENÇA DE OPERAÇÃO DO PROJETO MINAS RIO DA EMPRESA ANGLO AMERICAN.
 
POR 08 LONGOS ANOS EU DENUNCIEI, PROTESTEI, GRITEI.
EU VI, OUVI, VIVI, SENTI E TENHO O DIREITO DE ACUSAR
ACUSO SENHOR SECRETÁRIO DE ESTADO DE MEIO AMBIENTE, ALCEU TORRES, PELA PRESSÃO PARA A VOTAÇÃO DE UMA LICENÇA QUE NECESSITA DE MUITOS ESCLARECIMENTOS. O SENHOR FOI ALERTADO DE VÁRIAS IRREGULARIDADES E NADA FEZ PARA PRESERVAR O DIREITO COLETIVO E INDIVIDUAL DAS DEZENAS DE PESSOAS PRESENTES E QUE DENUNCIAVAM.
ACUSO SENHOR DANILO, PRESIDENTE DA REUNIÃO, DE ARBITRÁRIO E INCOMPETENTE NA CONDUÇÃO DA SESSÃO DE TORTURA DE 11:00 HS DE DURAÇÃO.
ACUSO OS SENHORES TÉCNICOS RODRIGO, ASSESSORES E A SUPERINTENDENTE DA SUPRAM JEQUITINHONHA ELIANE, POR OMITIREM E FALTAREM COM A VERDADE, POR NÃO PRESTAREM OS ESCLARECIMENTOS DEVIDOS AOS CONSELHEIROS, POR NÃO DESEMPENHAREM SUA FUNÇÃO DE APURAÇÃO E FISCALIZAÇÃO
ACUSO SENHORES CONSELHEIROS QUE SE OMITIRAM E COMO PILATOS TEREM LAVADO AS MÃOS. VOCÊS FORAM CEGOS, SURDOS, MUDOS E INSENSÍVEIS. NÃO DERAM OUVIDOS A TODAS AS IRREGULARIDADES LEVANTADAS, A TODAS AS DENÚNCIAS FEITAS PELOS ATINGIDOS PRESENTES. VOCÊS SÃO OMISSOS E IRRESPONSÁVEIS.
ACUSO SENHOR GOVERNADOR DO ESTADO DE MINAS GERAIS, CIDADÃO HONORÁRIO DE CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, POR TOTAL OMISSÃO E IRRESPONSABILIDADE. O LICENCIAMENTO AMBIENTAL DEVE SEGUIR AS NORMAS E LEGISLAÇÃO PERTINENTE E NÃO PRESSÃO POLÍTICA.
ACUSO A EMPRESA ANGLO AMERICAN, POR INFRAÇÃO DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL, POR FALTA DE SERIEDADE, POR PACTUAR E NÃO CUMPRIR, POR ENGANAR, POR LESAR, POR INVADIR PROPRIEDADE, POR FAZER FUNCIONÁRIOS ACREDITAREM QUE O EMPREGO DELES ESTAVA EM JOGO.
ACUSO FUNCIONÁRIOS DA ANGLO AMERICAN, DE NOTÓRIO SABER, QUE TEM CLAREZA E CONHECIMENTO DAS CONSEQUÊNCIAS PARA AS PESSOAS E O MEIO AMBIENTE E QUE CONTINUAM EM FRENTE, BURLANDO LEIS E NORMAS, LUDIBRIANDO EM FAVOR DO CAPITAL. A EXPRESSÃO "É NECESSÁRIO QUEBRAR AS CASCAS PARA COMER OS OVOS" É CRUEL, QUANDO AS CASCAS SÃO PESSOAS, FAMÍLIAS.

FLAVIA LILIAN BARROSO
ATINGIDA PELO PROJETO MINAS RIO

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ENERGIA PARA A VIDA: PETIÇÃO DE ENTIDADES AOS CANDIDATOS A PRESIDENTE

SUBSCRITA POR 81 ENTIDADES, A PETIÇÃO PROPÕE AOS CANDIDATOS INCLUSÃO DE NOVA POLÍTICA ENERGÉTICA PARA O BRASIL EM SEU PROGRAMA DE GOVERNO. PARA QUE RESPONDAM OU, AINDA MELHOR, PARA QUE ALGUM DELES ASSUMA ESTA PROPOSTA NO DEBATE QUE A REDE GLOBO PROMOVE NA QUINTA-FEIRA, DIVULGUEM EM SEUS ESPAÇOS DE COMUNICAÇÃO.




Excelentíssimos senhores candidatos(as) a Presidente da República:

O Brasil é um país com potencial para tornar realidade uma política energética com grandes benefícios sociais e econômicos, que preserve a natureza e contribua com a luta contra o aquecimento global. Através de um planejamento moderno e consistente, podemos aumentar a geração de energias renováveis, como solar, eólica e biomassa, além de garantir ganhos em eficiência e conservação.

Com a tecnologia que dispomos hoje, não faz mais sentido insistir em uma política energética antiquada, que privilegia a queima de carvão e petróleo, a energia nuclear e a construção de grandes barragens nos rios brasileiros, com reconhecidos danos socioambientais.

O melhor caminho para aproveitar nossas possibilidades passa pela ampla participação e constante diálogo com a sociedade. Mas até hoje as poucas cadeiras reservadas para a sociedade civil e a universidade brasileira no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) continuam vagas, ignorando um decreto presidencial de 2006.

Já é hora dos governantes sentarem à mesa com a sociedade, levando em conta com seriedade os anseios da população em relação à nossa política energética antes de tomarem decisões que definirão nosso futuro. Precisamos urgentemente de um debate amplo sobre a questão fundamental: energia para quê, para quem e como?

Neste ano eleitoral de 2014, cidadãos e organizações da sociedade civil brasileira estão promovendo a campanha "Energia para a Vida!", com o objetivo de contribuir para a construção de uma nova política energética para o Brasil, implementando um modelo mais eficiente, com mais produtividade, justiça social, responsabilidade ambiental e participação.

Como um passo importante da campanha, convidamos os candidatos  a Presidente da República a se manifestarem sobre a incorporação dos seguintes compromissos em seus planos de governo:

1) Garantir a transparência e a participação efetiva da sociedade civil brasileira na tomada de decisões sobre o planejamento energético, incluindo a presença no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE);

2) Viabilizar um novo modelo de planejamento do setor elétrico, elaborado a partir da análise das necessidades da sociedade e das alternativas para o seu atendimento, para que o país tenha um projeto que considere os benefícios e os riscos, os impactos e os custos sociais, econômicos e ambientais em médio e longo prazo.

3) Assumir e incentivar a conservação e a eficiência energética nos processos de geração, transmissão, distribuição e consumo de energia como prioridade estratégica, alcançando as instituições públicas, as empresas privadas e os consumidores domésticos.

4) Assumir um processo de transição para diversificar a matriz energética brasileira para que o sol, os ventos e a biomassa sejam partes significativas da matriz de geração de energia do Brasil. Ampliar a escala das fontes solar, eólica e biomassa, dando prioridade à descentralização e micro-geração de energia, com a participação das comunidades. Incluir nos programas habitacionais a produção de energia solar como fonte de emprego e renda. Dar suporte a programas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e financiamento.

5) Assegurar o pleno respeito e a garantia dos direitos humanos das populações atingidas por empreendimentos energéticos. Garantir o seu direito à consulta livre, prévia e informada como prevê a Constituição Brasileira e os acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção 169 da OIT. 

Aguardamos a manifestação de Vossa Excelência sobre a incorporação destes compromissos em seus planos de governo, em prol de um Brasil democrático e sustentável.


Assinam:

  1. Amazon Watch
  2. Articulação Antinuclear Brasileira
  3. Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)
  4. Articulação dos Povos Indígenas  (APIB)
  5. Associação Alternativa Terrazul
  6. Associação Ambientalista Corrente Verde 
  7. Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG)
  8. Associação dos Concursados do Pará (ASCONPA)
  9.  Associação dos Guardiões da Rainha das Águas
  10. Associação Global de Desenvolvimento Sustentado (AGDS)
  11. Associação Homens e Mulheres do Mar da Baia de Guanabara (AHOMAR)
  12. Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania
  13. Cáritas Brasileira
  14. Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP)
  15. Centro de Estudos Bíblicos no Rio Grande do Sul
  16. Centro de Referência do Movimento da Cidadania pelas Águas, Florestas e Montanhas – Iguassu Iterei
  17. Centro do Negro  e Negra da Transamazônica e Xingu
  18. Centro Jesuíta de Cidadania e Ação Social  (CJCIAS)
  19. Coalizão Por um Brasil Livre de Usinas Nucleares
  20. Coletivo Cidade Verde/UnB
  21. Comissão Brasileira Justiça e Paz - CBJP
  22. Comissão Justiça e Paz da Diocese de Santarém
  23. Comissão Paroquial de Meio Ambiente de Caetité (BA)
  24. Comissão Pastoral da Terra (CPT)
  25. Comissão Pró-Índio de São Paulo
  26. Comitê Metropolitano Xingu Vivo
  27. Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
  28. Conselho Pastoral de Pescadores (CPP)
  29. Coordenação Nacional de Quilombos (CONAQ)
  30. Federação das Associações de Moradores e Movimentos Populares do Espírito Santo
  31. FIAN Brasil
  32. Fórum Brasileiro de ONG’s e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (FBOMS)
  33. Fórum Matogrossense de Meio Ambiente (FORMAD)
  34. Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
  35. Frente por uma Nova Política Energética
  36. Fundação Tocaia
  37. Fundação Grupo Esquel Brasil
  38. Fundación Avina
  39. Greenpeace Brasil
  40. Grupo Ambientalista da Bahia
41.    Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA-UFMT)
  1. Instituto Amazônia Solidária (IAMAS)
  2. Instituto Augusto Carneiro
44.    Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE)
  1. Instituto Brasileiro de Educação Integração e Desenvolvimento Social - IBEIDS 
  2. Instituto Búzios
47.    Instituto Caracol (iC)
  1. Instituto Centro de Vida(ICV)
  2. Instituto de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais
  3. Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC)
  4. Instituto Madeira Vivo
  5. Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)
  6. Instituto Socioambiental (ISA)
  7. International Rivers - Brasil
  8. Jubileu Sul Brasil
  9. Juventude Franciscana do Brasil (JUFRA)
  10. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço
  11. Movimento Ame a Verdade
  12. Movimento de Educação de Base (MEB)
  13. Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)
  14. Movimento de Mulheres Regional Transamazônica e Xingu
  15. Movimento de Pequenos Agricultores (MPA)
  16. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
  17. Movimento Ecossocialista de Pernambuco
  18. Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH)
  19. Movimento Tapajós Vivo de Santarém
  20. Movimento Xingu Vivo Para Sempre
  21. Movimento Xô Mineradoras
  22. Mutirão Pela Cidadania
  23. Operação Amazônia Nativa (OPAN)
  24. Pastorais Sociais – CNBB
  25. Plataforma Montanhas, Vales, Vida e Cidadania
  26. Rede Ambiental do Piauí (REAPI)
  27. Rede Brasileira de Justiça Ambiental
  28. Rede de Entidades em Defesa da Vida (RO)
76.    Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (REMTEA)
  1. Rodas da Paz
  2. SINTEPP- Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública -Pará Regional Transamazônica e Xingu
  3. Terræ
  4. Uma Gota no Oceano
  5. Universidade Católica de Brasília


Contato: c.energiaparavida@gmail.com  (61) 3447-8722 

Endereço: SGAN 905, Bloco B, Sala 03
CEP: 70790-050 - Brasília – DF

sábado, 27 de setembro de 2014

FOME: O INGÊNUO OTIMISMO DA ONU

ESTÁ POSTO, MAIS UMA VEZ, O DESAFIO: COMO PODE UMA ESPÉCIE APOSTAR EM SUA PRÓPRIA DESTRUIÇÃO? E PIOR: E FAZER ISSO TENTANDO JUSTIFICAR COMO ALGO NATURAL?

NÃO PODEMOS RESIGNAR-NOS AOS FRIOS NÚMEROS DAS ESTATÍSTICAS. A LUTA PELO DIREITO UNIVERSAL DE SOBERANIA ALIMENTAR EXIGE UMA COMPREENSÃO CRÍTICA MAIS PROFUNDA E CONCRETA DAS CAUSAS E CAUSANTES DA FOME E DA MORTE POR FOME. O ARTIGO QUE SEGUE VAI NESSA DIREÇÃO.

Fome: o ingênuo otimismo da ONU

140919_camponesas2
Jean Ziegler questiona dados sobre desnutrição e lembra: produção agrícola permitiria alimentar duas vezes população do planeta — mas é sequestrada por dez mega-corporações
Por Juliana Dias, editora do site Malagueta
A indiferença glacial a respeito da fome no mundo contrasta com os dados do sociólogo Jean Ziegler, que considera a destruição anual de dezenas de milhões de homens, mulheres e crianças pela falta de comida como o escândalo do nosso século. No seu estado atual, a agricultura mundial poderia alimentar, sem problemas, 12 bilhões de pessoas, quase duas vezes a população mundial. No entanto, a cada cinco segundos, morre uma criança de menos de dez anos, num planeta que transborda riquezas. Os neurônios do cérebro humano formam-se entre zero e cinco anos. Se nesse período não receber uma alimentação adequada, suficiente e regular, a criança ficará lesionada pelo resto da vida.
Aos 80 anos, Ziegler é o pensador suíço contemporâneo mais conhecido no mundo. Com mais de 20 livros publicados, combina sua produção intelectual com uma resistente intervenção social e política. Atuou como o primeiro relator Especial sobre o Direito Humano à Alimentação e membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU), entre 2000 e 2012. Seu último livro, Destruição em massa – geopolítica da fome (Ed. Cortez) é dedicado ao médico brasileiro Josué de Castro, um dos fundadores da agência da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), reconhecido internacionalmente por seu pioneirismo em denunciar o flagelo da fome.
A reflexão de Ziegler sobre as causas da escassez de alimentos é pertinente para avaliar o recém-lançado Relatório de Insegurança Alimentar no Mundo (SOFI, sigla em inglês), divulgado pela FAO. De acordo com o documento, na última década a redução de famintos chegou a 100 milhões. O número de pessoas “cronicamente desnutridas” chega a 805 milhões no período de 2012 a 2014. Nos países em desenvolvimento, a desnutrição caiu de 23,4% para 13,5%. O Brasil foi o destaque do relatório, apontado como o país que, oficialmente, superou o problema da fome. Dados do referido relatório indicam que existem 3,7 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, o que corresponde a 1,7% da população brasileira. O programa Bolsa Família, que atende 14 milhões de famílias e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), destinado diariamente a 43 milhões de estudantes da Educação Básica, são apontados como fatores relevantes para essa superação, cumprindo o primeiro ponto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), previsto para 2016: eliminar a fome.
O otimismo do relatório, tanto em nível global, como na América Latina e Caribe, esbarra com as declarações de Ziegler, embasadas na experiência de mais de uma década na linha de frente da defesa do Direito Humano à Alimentação. Ao destrinchar as causas da fome, ele aponta os “senhores dos trustes agroalimentares”, os dirigentes da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI), dos diplomatas ocidentais, dos especuladores de alimentos básicos; e dos que chama de “abutres do ouro verde” (produtores de agrocarburantes, ou combustíveis de base vegetal) como os que se empenham em naturalizar a fome.
Ziegler começa sua exposição explicando como os dados da FAO são coletados. O modelo matemático data de 1971 e é de extrema complexidade, a qual o autor se propõe a simplificar. O primeiro passo é fazer um recenseamento da produção de bens alimentares, exportação e importação, especificando o conteúdo calórico. A Índia, por exemplo, abriga a metade de todas as pessoas grave e permanentemente subalimentadas do mundo, mas exporta cerca de 17 milhões de toneladas de trigo[1]. Assim, a FAO obtém a quantidade de calorias disponível em cada país, de acordo com as variáveis: faixa etária, sexo, tipo de trabalho executado e situação socioprofissional. Na segunda etapa os estatísticos estabelecem a estrutura demográfica e sociológica da população. Ao correlacionar os dois agregados de indicadores, obtêm-se os déficits calóricos globais dos países e é fixada a quantidade teórica de pessoas permanentemente e gravemente subalimentadas. A crítica de Ziegler é que os dados não dizem nada a respeito da distribuição de calorias no interior de uma população determinada.
O modelo da FAO é afinado constantemente com pesquisas dirigidas à base de amostragem, com o objetivo de identificar grupos particularmente vulneráveis. Esse modelo é criticado pelos pesquisadores Bernard Maire e Francis Delpeuch por calcular calorias em termos de macronutrientes (proteínas, glicídios e lipídeos), sem levar em conta as deficiências da população em termos de micronutrientes – a carência de vitaminas, minerais e oligoelementos. A confiabilidade dos dados também é posta a prova, pois se baseia inteiramente na qualidade das estatísticas fornecidas pelos Estados. Apesar das críticas, Ziegler reconhece a pertinência, e que o modelo dá conta, a longo prazo, das variações dos números dos subalimentados e das mortes pela fome no planeta, caso do relatório publicado no último dia 16 de setembro. Para o sociólogo e militante, os números subestimam o fenômeno, mas permitem conhecer o cenário árido dos famélicos em todo o mundo.
Os três grupos de pessoas mais vulneráveis são os pobres rurais, os pobres urbanos e as vítimas de catástrofes. A maioria dos que não têm o que comer pertence às comunidades rurais pobres dos países em desenvolvimento. Quem produz alimento está exposto à fome. É uma contradição a ser enfrentada. A escassez está nos campos onde se deveria tirar o sustento. Ziegler ataca a prática de que a segurança e a soberania alimentar sejam lideradas pelo jogo do livre mercado. A ideia que paira é que somente o mercado pode vencer o flagelo da fome. Basta potencializar ao máximo a produtividade agrícola mundial, liberar e privatizar para se ter acesso a uma alimentação adequada, suficiente e regular para todos. “O mercado, enfim, liberado derramará, como uma chuva de ouro, seus favores sobre a humanidade” (p. 158). Para uma questão complexa como a alimentação, propaga-se uma solução unilateral e reduzida a uns poucos atores sociais.
A questão agrária é posta pelo ex-relator como um desafio para combater a fome. As terras são disputadas para o plantio de comodities da produção agrícola ou os agrocarburantes, também divulgados como biocombustíveis, dos quais, esclarece Ziegler, existem dois tipos: o bioetanol e o biodiesel. O prefixo bio (vida, vivo), indica que o carburante (etanol ou diesel) é produzido a partir de matéria orgânica (biomassa). Não há relação direta com uma agricultura biológica, como sugere o termo biocombustível. A confusão favorece a imagem desse carburante que se imagina limpo e ecológico. Também chamado de Ouro Verde, essa matriz de produção energética é considerada pelo sociólogo como a nova recolonização do território, devastando os recursos naturais e aprofundando mazelas sociais, culturais e econômicas.
No Brasil, o protagonista é a cana-de-açúcar. Matéria-prima de base do período colonial com a monocultura para a produção de açúcar, esse plantio retorna ocupando os campos de alimentos para a produção de agrocarburantes. Zielger critica duramente o programa brasileiro Proálcool: “além dos barões brasileiros do açúcar, o Proálcool beneficia as grandes sociedades transcontinentais estrangeiras (Louis Dreyfus, Bunge, Noble Group e Archer Daniels Midland)”. Ao estabelecer a relação entre combustível e comida, ele relembra o dado com que inicia o seu livro: “queimar milhões de toneladas de alimentos em um planeta em que, a cada cinco minutos, morre de fome uma criança de menos de dez anos é evidentemente revoltante”. Para produzir 50 litros de bioetanol, é preciso destruir 358 quilos de milho. No México e na Zâmbia, o grão é a base da alimentação. Com essa quantidade daria para alimentar durante um ano uma criança nesses países. “Agrocarburantes: tanque cheio e barriga vazia”, sentencia Ziegler.
Na visão do geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves [2], a classificação adequada desde o início da colonização até os dias de hoje é “sistema-mundo moderno colonial”. O modelo agrário/agrícola, que se apresenta como o que há de mais moderno, sobretudo por sua capacidade produtiva, atualiza o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder ao estabelecer uma forte aliança oligárquica entre as grandes corporações financeiras internacionais; as grandes indústrias-laboratórios de adubo, fertilizantes, herbicidas e sementes; as grandes cadeias de comercialização ligadas aos supermercados; os grandes latifundiários exportadores de grãos [3].
Para se ter uma ideia de como a fome não pode ser subestimada, muito menos naturalizada, Ziegler cita dados sobre o controle do mercado sobre a produção de alimentos no mundo: “apenas dez corporações – entre as quais Aventis, Monsanto, Pioneer e Syngenta – controlam um terço do mercado global de sementes, estimado em 23 bilhões de dólares por ano; e 80% do mercado de pesticidas, em torno de 28 bilhões de dólares. Dez outras corporações, entre as quais a Cargill, controlam 57% das vendas dos 30 maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas das 100 maiores sociedades fabricantes de produtos alimentícios e de bebidas (p. 152). Sobre a atuação dessas multinacionais, João Pedro Stédile, um dos principais dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), afirma que “o objetivo não é produzir alimentos, mas mercadorias para ganhar dinheiro” (p. 153).
A forma como se produzem, distribuem e consomem alimentos – considerando a comida como uma mercadoria, regulada por um mercado voraz, e Estados enfraquecidos – é uma maneira de violar o direito à alimentação e de limitar a soberania alimentar das nações, destruindo os territórios, lugares de produção de alimentos, cultura, memória e saberes. Essa indiferença glacial, à qual se refere Zielger, é intolerável. Para vencer esse monstro, o autor se mostra esperançoso com o “formidável despertar das forças revolucionárias camponesas nas zonas rurais do hemisfério Sul. Sindicatos camponeses transnacionais [como a Via Campesina], associações de lavradores e criadores lutam contra os abutres do ‘ouro verde’ e contra os especuladores que tentam roubar suas terras. Essa é a força principal da luta contra a fome” (p. 28).
Ziegler cita um provérbio chinês que Che Guevara gostava de pronunciar para justificar sua esperança e incentivar a resistência: “Os muros mais sólidos desmoronam por suas fissuras”. Assim, ele convoca a provocar, o tanto quanto possível, fissuras na ordem atual deste mundo que “esmaga brutalmente os povos”. O inimigo, como o autor chama, está exposto nos relatórios da FAO. Há que questionar com essas estatísticas por que 805 milhões de pessoas morrem de fome no século XXI. A experiência do sociólogo e militante nos mostra que o gigante pode ser maior e os que deveriam eliminá-lo estão buscando estratégias para naturalizá-lo.
Ao comparar o relatório com o relato de Ziegler é relevante refletir as contradições e ambiguidades que o sistema alimentar produz. O que está evidente, talvez nas entrelinhas ou com a ajuda de autores como este em questão, é que se torna injustificável uma destruição pela falta de acesso à comida, de qualidade e em quantidade, respeitando a cultura, como estabelece o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil. Como é possível o homem travar uma guerra ambiciosa e inescrupulosa em favor do consumo e do lucro, contra sua própria espécie? Como explicar esse desejo autodestrutivo? Por que o outro é tratado com inferioridade se, na verdade, é a imagem refletida de seu semelhante? É necessário derreter essa indiferença glacial e compreender que comida não é produto de prateleira, é um direito básico à vida humana. Pensemos nos dados da FAO como uma tarefa que demanda esforços coletivos para provocar fissuras no muro sólido da mercantilização da comida, antes bem comum e de interesse público.
__
Notas
[1] Período entre junho de 2002 e novembro de 2003.
[2] 2006
[3] 2006, p. 243
__
Referências Bibliográficas
Porto-Gonçalves, C.W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. 2ª edição. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2006.
Ziegler, J. Destruição em massa. Geopolítica da fome. Trad.: José Paulo Netto – 1ª edi. São Paulo: Editora Cortez, 2013.
____ The State of Food Insecurity in the World. Roma: Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 2014.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PRESSÃO POPULAR É PRÁTICA POLÍTICA EFICIENTE

Conquista de todos - Juruena livre de hidrelétricas até 2023

WWF-Brasil
26 de set de 2014 — Na última semana, o governo federal confirmou: o Parque Nacional do Juruena (AM/MT) não terá hidrelétricas até 2023. A informação foi divulgada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), em seu relatório do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), importante instrumento de planejamento para o setor energético nacional. A decisão vai garantir a integridade do Parque para os próximos anos.

Como parte da Campanha SOS Juruena, nos últimos meses, nós do WWF-Brasil temos divulgado notícias sobre o assunto, alertando à sociedade e pedindo o seu apoio para pressionar o governo a não permitir a construção de duas hidrelétricas dentro do Juruena. As barragens afetariam a rica biodiversidade da região, e mais especificamente, a sobrevivência de 42 espécies de animais ameaçadas ou que só existem naquela área, além de todas as corredeiras do Rio Juruena.

Esse resultado representa uma conquista para a sociedade civil e para todos nós que apoiamos o meio ambiente. Graças a sua ajuda, nossa petição online ultrapassou a marca de 25 mil assinaturas. Temos certeza que a campanha contribuiu para atingirmos esse fantástico resultado. Nossa luta continua para que essa decisão não seja revista nos próximos anos e que a conservação da biodiversidade da região seja o principal argumento para uma decisão final sobre a não implantação dessas usinas.

Para mais informações, acesse:http://www.wwf.org.br/informacoes/noticias_meio_ambiente_e_natureza/?41502