PASSAR DE APENAS EPISCOPAL PARA ECLESIAL NÃO SERÁ TAREFA FÁCIL. SERÁ UMA MISSÃO, E INOVADORA, NO CASO DE DAR PASSOS POSITIVOS. E PARA A IGREJA UNIVERSAL. SERÁ UM SERVIÇO MAIS EVANGÉLICO, COM CERTEZA. E MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE DA VIDA, DO EVANGELHO VIVIDO PELOS POVOS, COMUNIDADES, PESSOAS.
QUE SEJA LUZ PARA AVANÇAR NA BUSCA DA MELHOR FORMA DE A IGREJA SER, E QUE TENHA VIDA LONGA.
IHU, 01 de julho de 2020
“A Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas para a Igreja universal”
01 Julho 2020
Acabou de nascer a
Conferência Eclesial da Amazônia,
algo novo, diferente, como todo o processo que levou a esse momento, o
Sínodo para a Amazônia, podendo dizer que é uma continuidade. Isso é
expresso pelo vice-presidente dessa nova instituição eclesial poucas
horas após seu nascimento,
Dom David Martínez de Aguirre Guiné, bispo de
Puerto Maldonado, um lugar que o
Papa Francisco colocou para sempre no mapa da
Igreja da Amazônia.
A entrevista é de
Luis Miguel Modino.
Torna-se realidade o que "é o espírito eclesial, onde os bispos, os
pastores estão com o povo", destaca o dominicano, que afirma que a
Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas, “uma conexão com esse sonho programático do
Papa Francisco marcado na Alegria do Evangelho”, e, ao mesmo tempo, uma concretização do
Concílio Vaticano II. É algo que traz novidades importantes, como a presença de mulheres e as vozes do território.
Trata-se de uma conferência em "que queremos mostrar os rostos da
Amazônia", que afirma que "o rosto da mulher como sujeito eclesial na
Amazônia é um rosto muito claramente definido". De fato, “uma
Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel importante, não seria da
Amazônia”,
uma afirmação que mostra qual pode ser o futuro de uma Igreja, onde
esse papel feminino deve ser cada vez mais reconhecido. Por fim,
trata-se de "mostrar o que já está acontecendo na base, diariamente, em
nossas comunidades".
David Martínez de Aguirre Guiné. (Foto: Luis Miguel Modino)
O mesmo pode ser dito dos povos indígenas, que "querem se organizar
como Igreja e querem dar uma contribuição à humanidade e ao resto da
Igreja universal como parte desses rostos da
Igreja Amazônica", de acordo com
Martínez de Aguirre,
que insiste nisso "é muito importante que, na Igreja, paremos de ver os
povos indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como
sujeitos ativos". Essa opção da Igreja pelos
povos indígenas é muito clara há muito tempo, mas, de acordo com o bispo de
Puerto Maldonado,
é algo em que a figura do Papa Francisco teve um papel fundamental para
se tornar visível. Agora é a hora de ir fazendo nosso caminho, sabendo
que "temos muito trabalho pela frente".
Eis a entrevista.
O que é a Conferência Eclesial da Amazônia?
É um organismo criado na Amazônia para tentar responder aos desafios que a
Igreja Amazônica, nos últimos anos, vem descobrindo e estabelecendo prioridades, especificadas nos documentos pré-sinodais, no próprio
Sínodo, com seu
Documento Final, e nos sonhos que o
Papa estabelece na
Querida Amazônia. Pode-se dizer que a
Conferência Eclesial da Amazônia
surge de todo esse processo, que será o organismo que deverá coordenar,
promover, todos esses sonhos e toda essa renovação pastoral e
evangelizadora da Amazônia.
A primeira coisa que surpreende é que não se trata de uma
conferência episcopal, mas de uma conferência eclesial que, segundo seu
presidente, cardeal Hummes, como ele disse na assembléia, ser eclesial
foi uma sugestão do Papa Francisco. Podemos dizer que esta conferência
pode ser considerada um experimento, não sei se é a palavra mais
apropriada, de uma nova maneira de ser Igreja, baseada na sinodalidade,
em que o bispo não é mais alguém que lidera a Igreja exclusivamente, mas
alguém que faz parte de toda a caminhada eclesial?
O
Sínodo para a Amazônia, como bem me lembro quando participei como secretário, já era algo diferente dentro do processo sinodal da Igreja, e esta
Conferência Eclesial da Amazônia é uma continuidade. Quando li os documentos, vi que isso é totalmente consistente com o
Sínodo, é o que vivemos no Sínodo, é o espírito eclesial, onde os bispos, os pastores estão com o povo. Como o
Papa Francisco disse na
exortação a Alegria do Evangelho, às vezes na frente, às vezes no meio, às vezes atrás, os pastores estão lá.
David Martínez de Aguirre Guiné e Michael Czerny. (Foto: Luis Miguel Modino)
Este é um organismo misto, onde estão os bispos, mas também há a presença do Povo de Deus. O
Papa Francisco, já em 2013, quando esteve no
Brasil, diz aos bispos brasileiros que a
Amazônia é o banco de provas da
Igreja Brasileira. O
Papa Francisco quer que isso se aplique a toda a Igreja universal, ele também pensa que a Amazônia, esta
Conferência Episcopal da Amazônia, é um banco de provas. Quem leu a exortação a
Alegria do Evangelho, descobre trechos nesta Conferência, vê que há uma conexão com o sonho programático do
Papa Francisco marcado na
Alegria do Evangelho.
O Papa também declarou que a
sinodalidade deve ser o sínodo da Igreja do século 21, e de fato esta
Conferência Episcopal da Amazônia tem uma nuance muito nova que tem a ver com sinodalidade e com a participação de todo o Povo de Deus, uma concretização do
Concílio Vaticano II neste modo de ser Igreja.
Diz-se no comunicado que apresenta a nova conferência que ela
é uma resposta oportuna ao clamor dos pobres e da Irmã Mãe Terra.
Poderíamos dizer que a sinodalidade, os pobres e o cuidado da Irmã Mãe
Terra, da casa comum, são os elementos fundamentais do pontificado do
Papa Francisco e que esta conferência quer promover tudo isso?
A
sinodalidade, os pobres, cuidado da casa comum e a
parresia do
anúncio do Evangelho, realmente acreditar que o Evangelho, a Boa Nova
de Jesus, é um renovador da pessoa, um renovador da humanidade. Há uma
paixão pelo Evangelho e esta
Conferência Eclesial da Amazônia nasce com essa paixão pelo Evangelho de Jesus e acreditando que o Evangelho de Jesus é uma Boa Notícia para a
Amazônia
e uma Boa Notícia da Amazônia para o mundo. A esses elementos que você
disse, eu também acrescentaria a paixão pela Boa Nova de Jesus.
Conferência eclesial em que há mulheres, a presidente da
Conferência Latino-Americana de Religiosos - CLAR e duas das
representantes dos povos indígenas. Que papel as mulheres podem ter
nesta conferência?
É o rosto da Igreja. Uma das coisas que foi dita, e que o Papa também disse em
Puerto Maldonado, é que queremos uma
Igreja com rosto amazônico, queremos uma Igreja que mostre os rostos da
Amazônia. Essa
Conferência Eclesial da Amazônia
quer se encarnar naqueles rostos, e o rosto da mulher como sujeito
eclesial na Amazônia é um rosto muito claramente definido. Uma
Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel
importante, não seria amazônica, não pertenceria a essa
Igreja amazônica.
O papel que as mulheres terão nesta conferência será o que elas já
desempenham nas bases, nas paróquias, nos vicariatos, nas dioceses. Está
refletindo a estrutura da
Igreja, em um nível
organizacional mais universal, mais regional neste caso, mostrando o que
já está acontecendo na base, diariamente, em nossas comunidades. É para
quebrar a dicotomia em que a mulher participa até certo ponto, mas, em
alguns níveis de decisão, ela não tem participação. Esta
Conferência Eclesial da Amazônia é uma amostra do que é a
Igreja na Amazônia
e, é claro, a mulher tem que participar. A mulher na Igreja amazônica
está presente com uma voz muito clara, muito necessária e muito válida.
Também a presença de representantes dos povos indígenas. Essa
presença das vozes do território, que exigem uma aplicação prática do
Sínodo, em que sentido elas podem ajudar no dia a dia desta conferência?
Dom
Gerardo Zerdín
costuma dizer que precisamos parar de falar sobre eles e nós em relação
aos povos indígenas, no sentido de que eles são objeto de evangelização
e nós somos os sujeitos, os evangelizadores. É entender que os povos
indígenas, que existem comunidades, que existem povos indígenas que
receberam a mensagem de Cristo e leram o acontecimento de Cristo, e
querem se organizar como Igreja, querem fazer uma contribuição para a
humanidade e para o resto da
Igreja Universal como parte desses rostos da
Igreja amazônica.
David Martínez de Aguirre Guiné. (Foto: Luis Miguel Modino)
Parece-me muito importante e, quando dizemos uma Igreja pobre e para os pobres, uma Igreja dos mais vulneráveis, nesta
Conferência Eclesial,
que inclui povos indígenas, que têm voz ativa e que podem gerar
processos, é muito importante para que na Igreja paremos de ver os povos
indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como sujeitos
ativos. A partir daí, surgirão todos os problemas, como
territorialidade, tão importante para essas comunidades,
cuidado da casa comum,
educação, cultura, saúde, interculturalidade, inclusão de todos os
povos. Penso que a sua presença é muito importante e que a contribuição
será muito significativa, muito enriquecedora.
Povos e organizações indígenas, inclusive no mais alto nível,
como é o caso da COICA, destacaram nos últimos meses a importância da
aliança que foi estabelecida entre a Igreja Católica e os povos
indígenas, uma aliança que ainda foi reforçada com o enfrentamento
conjunto da pandemia de coronavírus. Poderíamos dizer que esta
Conferência Eclesial da Amazônia estabelece definitivamente essa aliança
como algo presente e duradouro para o futuro dos povos indígenas e da
Igreja Católica na Amazônia?
A Igreja há muito tempo é aliada dos povos indígenas, e eu digo isso
com o meu coração, acho que sim. O que aconteceu é que se tornou
visível, não era visível, mas não é que a Igreja tenha subitamente
percebido que precisa prestar um serviço aos
povos indígenas. Há missionários que há anos, e eu ousaria dizer que centenas de anos, pelo menos aqui na
Igreja peruana,
fizeram uma opção muito clara pelos povos indígenas, de defesa, desde o
início. Embora, às vezes, tenha havido críticas a alguns episódios que
não foram tão claros, arriscaria dizer que o general, o comum, tem sido
uma opção clara e inegável para a defesa dos povos indígenas.
Mas não conseguimos torná-lo visível, não conseguimos alcançá-lo
nessas esferas de organizações. O que foi alcançado nos últimos anos é
essa visibilidade, isso é ótimo. E isso liderado pelo
Papa Francisco, uma figura de importância internacional. Que o
Papa Francisco
tenha dado mensagens tão claras e colocado os povos indígenas no centro
e no coração da Igreja, e dali para o coração do mundo, os indígenas
evidentemente descobriram o que já era. O que acontece é que isso se
tornou visível no coração da Igreja, em
Roma, e isso foi muito importante.
Esta
conferência eclesial deve dar permanência a tudo isso, muito mais com a presença daqueles povos permanentemente nela. É uma opção muito forte da
Igreja Católica pelos povos indígenas, e isso deve ser aproveitado.
Mapa da região Pan-Amazônica. (Fonte: Blog do Enem)
O senhor já sabe como esta Conferência funcionará, quais são
as medidas a serem tomadas nos próximos meses, especialmente quando essa
pandemia de coronavírus for superada e a Igreja puder voltar a
trabalhar em conjunto com os povos da Amazônia?
Estamos em um processo. Após o
Sínodo,
houve um tempo, que também foi condicionado pela pandemia, em que essa
consequência vem se formando, o que também foi importante para a
organização. Temos um plano pastoral e quem vai realizar esse plano
pastoral estava faltando. Agora, o primeiro passo é tentar preparar os
estatutos, que serão apresentados ao Santo Padre, que deverão ser
aprovados e valorizados. Um primeiro passo foi dado, um pouco dessa
inércia saiu e agora teremos que trabalhar. A partir de agora, será
necessário ver como esta Conferência é organizada, como estabelecerá
relações com a
REPAM, como será integrada a tudo o que é o
CELAM.
Será necessário ver como vai se fazendo, mas foi dado um passo muito
importante, que é o próprio nascimento da Conferência, que é a coisa
mais importante. E o resto, pouco a pouco, não há caminho, o caminho é
feito caminhando. Temos muito trabalho pela frente.
http://www.ihu.unisinos.br/600509-a-conferencia-episcopal-da-amazonia-e-um-banco-de-provas-para-a-igreja-universal-entrevista-com-dom-david-martinez-de-aguirre