sexta-feira, 10 de julho de 2020

BRASIL COMEÇA A APROVAR PROTOCOLO SOBRE BIODIVERSIDADE COM DEZ ANOS DE ATRASO

UM ABSURDO, OU MAIS UM, DENTRO DO QUADRO NEGATIVO DA POLÍTICA BRASILEIRA EM RELAÇÃO AO MEIO AMBIENTE, EM ESPECIAL À BIODIVERSIDADE, DE QUE TRATA O PROTOCLO DE NAGOIA: SÓ DEZ ANOS DEPOIS DA DATA INICIAL O BRASIL INSTITUCIONAL COMEÇA A SE MEXER!

QUANDO LEVAREMOS A SÉRIO AS RELAÇÕES COM A NATUREZA, A MÃE TERRA, DE QUEM SOMOS PARTE? O QUE FAZEMOS OU DEIXAMOS DE FAZER É A NÓS E A TODA A COMUNIDADE DA VIDA QUE AFETAMOS.

CLIMAINFO - 10 de julho de 2020

Depois de oito anos, finalmente a Câmara dos Deputados aprovou na última 4ª feira (8/7) a ratificação do Protocolo de Nagoia, que regula o acesso e a repartição de benefícios dos recursos genéticos da biodiversidade.

Assinado em 2010, o documento é parte da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica e tem como objetivo orientar a soberania dos países sobre seus recursos genéticos e sua exploração por parte de empresas e organizações estrangeiras.

Desde 2014, quando o Protocolo entrou em vigor, o Brasil vinha se mantendo distante das negociações sobre sua implementação, o que é contraproducente para o país, um dos maiores detentores de riquezas naturais e genéticas do planeta. Como Camila Turtelli destaca no Estadão, a aprovação da proposta faz parte de uma tentativa do Congresso de acelerar a votação de projetos ambientais em vista das críticas recentes de investidores e parceiros internacionais contra a política ambiental brasileira. Por isso, ele contou com rara colaboração entre as bancadas ruralista e ambientalista na Câmara.

O texto agora segue para apreciação pelo Senado Federal. Caso seja aprovada, a ratificação aguardará então a assinatura de Bolsonaro.

A aprovação foi destaque também nos Direto da Ciência, Poder 360 e O Globo.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

JUSTO PRÊMIO À REDE DE SEMENTES DO XINGU

 PRÁTICA MARAVILHOSA, DAS MULHERES, DE MODO ESPECIAL. É O CUIDADO E O AMOR PELA REPRODUÇÃO DA VIDA, DAS ÁRVORES E DAS FLORESTAS. QUE SEU EXEMPLO, PREMIADO, SEJA PREMIADO TAMBÉM POR MAIS GRUPOS DE MULHERES E HOMENS, JOVENS ESPECIALMENTE, QUE MULTIPLIQUEM ESTA PRÁTICA.

Rede de Sementes do Xingu vence o Ashden Awards, prêmio internacional para soluções climáticas

Publicado em: 8 de julho de 2020
Clerizia Pantaleão beneficia sementes de tingui no Projeto de Assentamento Jaraguá (MT)
 
Iniciativa foi escolhida entre mais de 200 propostas de todo o mundo. Com 13 anos de história, é a maior rede de sementes nativas no Brasil

A Rede de Sementes do Xingu está entre os 11 vencedores do Ashden Awards 2020, prêmio internacional para soluções climáticas. A rede foi escolhida entre mais de 200 propostas de todo o mundo.

O prêmio é concedido anualmente pela Ashden, organização baseada no Reino Unido que dá visibilidade e apoio a iniciativas inovadoras nos campos do clima e energia em todo o mundo – incluindo empresas, organizações não-governamentais e do setor público que estão entregando soluções comprovadas.

Os vencedores recebem um prêmio em dinheiro, apoio ao desenvolvimento da iniciativa e a oportunidade de conectar com investidores do setor de energia e clima.

“Essas organizações fazem mais que reduzir emissões – elas criam novos empregos, melhoram a saúde e reduzem a desigualdade. Elas são o rosto do futuro”, disse Harriet Lamb, CEO da Ashden.
“É um reconhecimento da iniciativa e do trabalho feito ao longo desses 13 anos de existência”, comemora Bruna Ferreira, diretora da Associação Rede de Sementes do Xingu.

A Rede de Sementes do Xingu é composta por 568 coletores indígenas, urbanos e agricultores familiares, em sua maioria mulheres, e se consolidou como a maior rede de comercialização de sementes nativas no Brasil.

Em mais de dez anos de trabalho, a rede e seus parceiros recuperaram 6,6 mil hectares de áreas degradadas na bacia do Xingu e Araguaia e outras regiões de Cerrado e Amazônia. Para isso, foram utilizadas mais de 221 toneladas de sementes de 220 espécies nativas.

A iniciativa já é uma referência para a produção comunitária de sementes no Brasil. “É uma alternativa de renda que vem da floresta, valorizando a diversidade ambiental e cultural. No contexto de emergência climática, a Rede de Sementes é o nosso maior exemplo de um futuro possível”, ressalta Ferreira.

A Rede de Sementes do Xingu tem o apoio da União Europeia, Conservação Internacional, Partnerships for Forests (P4F), Funbio, Instituto Bacuri, Rainforest Foundation Norway, DGM, Good Energies, PPP Ecos/ISPN, e Amaz.

Coletora Yarang beneficia das sementes de murici-da-mata, Território Indígena do Xingu (MT)

Ações de enfrentamento à Covid-19

Reconhecidas por suas soluções climáticas inovadoras, muitos dos finalistas e vencedores do Ashden Awards foram também parabenizados pelas respostas rápidas e efetivas à pandemia da Covid-19, incluindo a Rede de Sementes do Xingu.

Com o avanço da Covid-19 no Brasil, a Rede de Sementes tem atuado para garantir a saúde e segurança dos coletores e equipe. Kits de higiene e proteção, além de materiais para beneficiamento das sementes foram enviados na última semana.

A coleta de sementes segue dentro de cada núcleo familiar ou aldeia, e a entrega será feita com agendamento, para evitar aglomerações. A fim de assegurar a sustentabilidade financeira e o isolamento dos associados, a Rede vai realizar o pagamento antecipado de 21 toneladas das sementes e estendeu o valor do Fundo Rotativo, fundo de crédito destinado aos coletores.

Ainda assim, foram registrados ao menos cinco casos e uma morte por Covid-19 – a de Mônica Renhinhãi’õ (foto abaixo) – entre as mulheres coletoras Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé. A TI já contabilizava, até o fechamento deste texto, 25 casos e três óbitos.
Mônica Renhinhãi’õ, coletora Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT)

O grupo Pi’õ Rómnha Ma’ubumrõi’wa, das coletoras Xavante é composto por mulheres coletoras e seus familiares, e destina todas as sementes coletadas para a restauração das áreas dentro e adjacentes à TI. Além de ser uma importante alternativa socioeconômica, o trabalho com as sementes é uma forma de se apropriar e proteger o território, ameaçado por invasões e intensamente desmatado.
 
Por: socioambiental.org

https://observatoriosc.org.br/noticia/rede-de-sementes-do-xingu-vence-o-ashden-awards-premio-internacional-para-solucoes-climaticas/ 

EUROPA PODE AVANÇAR NAS MUDANÇAS

NÃO DARÃO COM CERTEZA OS PASSOS NECESSÁRIOS PARA TRANSITAR PARA UMA NOVA CIVILIZAÇÃO. MAS PODEM IMPLEMENTAR MUDANÇAS QUE SINALIZAM A POSSIBILIDADE DE MUDANÇAS MAIS PROFUNDAS. 

DW, 06.07.202o
  • James Jackson

Opinião: Europa pode estar diante de uma onda verde

Irlanda, Alemanha e agora França: os partidos de cunho ambientalista estão ganhando terreno. Sua influência na política pode marcar uma era - e, para isso, eles não precisam necessariamente estar no governo nacional.

Atualmente, o mundo enfrenta duas crises que definirão uma era. A pandemia do coronavírus afeta o dia a dia, restringe as liberdades e prejudica a economia. Mas a outra crise, a que aquece rapidamente o planeta, pode ter efeitos ainda piores. Este mês de maio foi o mês mais quente já registrado, e partes do Ártico recentemente viram temperaturas de 38 graus Celsius. Embora no momento esteja se falando pouco do movimento Fridays for Future, os partidos e políticas de cunho ambientalista estão finalmente se aproximando do governo em toda a Europa.

O Partido Verde francês acaba de conquistar uma vitória histórica nas eleições para as prefeituras de grandes cidades como Marselha, Bordeaux, Lyon e Estrasburgo. E a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo, foi reeleita em uma plataforma para fazer da congestionada capital francesa uma Amsterdã – ou seja, um paraíso para ciclistas.

Todas as três maiores cidades da França têm agora prefeitos apoiados pelo Partido Verde. Macron respondeu prometendo 15 bilhões de euros (16,9 bilhões de dólares) para medidas de combate às mudanças climáticas. Isso é impressionante para um partido que, na França, só ganhou sua primeira prefeitura em 2015.

Na Irlanda, os verdes tiveram seu melhor resultado de todos os tempos no início deste ano, nas eleições gerais de fevereiro, e decidiram se juntar ao primeiro grande governo de coalizão do país - na condição de que o governo se comprometa a reduzir as emissões de carbono em 7% a cada ano. O país, um dos maiores emissores de carbono da Europa, pode finalmente estar ficando mais verde, mas o partido ambientalista deve ter cuidado para não ser usado como fachada para as políticas de austeridade fracassadas de seus parceiros de coalizão.

Na Alemanha, a longa marcha do Partido Verde em direção à respeitabilidade está quase completa. A legenda percorreu um longo caminho para se tornar um partido de protesto, tendo agora governado em quase todos os estados, bem como em nível federal. As pesquisas têm mostrado consistentemente o Partido Verde em segundo lugar em nível nacional - ou mesmo em primeiro - durante o ano passado, substituindo os social-democratas como o segundo partido da Alemanha, e um provável parceiro para a próxima coalizão governamental.

Uma ascensão meteórica considerando que eles foram o menor partido nas eleições para o Parlamento em 2017. As relações entre os verdes e seus antigos inimigos, a CDU de Angela Merkel, está descongelando mais rapidamente do que as calotas polares, com os líderes verdes parabenizando os democrata-cristãos por seu 70º aniversário. Um convite sutil à coalizão?

Será que o movimento verde vai virar uma verdadeira força política, a social-democracia do século 21? É pouco provável que isso aconteça da noite para o dia. Eles ainda não têm uma base leal que possa se comparar com os trabalhadores industriais e os sindicatos. Os partidos verdes são populares entre os trabalhadores do setor público com educação nas grandes cidades. Estes são, muitas vezes, ativos em questões de estilo de vida como o ciclismo e a reciclagem, mas silenciosos sobre políticas sociais, educação, segurança e outros temas importantes para o governo. Eles podem, inclusive, ser anticiência em questões como vacinação, homeopatia e energia nuclear. Pode ser difícil para eles se livrarem dessas crenças bobas sem alienar seus principais apoiadores.

Mesmo que não acabem liderando os governos nacionais tão cedo, os verdes podem governar as cidades mais habitadas e empurrar as partes à sua esquerda e direita para enfrentar adequadamente o maior desafio deste século, o aquecimento global. A resposta do presidente Macron no dia seguinte às eleições prova isso.

Ela também mostra que o planeta vence quando os verdes governam, ou quando seus rivais são forçados a adotar ideias outrora verdes. Os verdes estão crescendo e, embora nunca possam ser dominantes, eles podem se tornar uma força vital na política do futuro.

https://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-europa-pode-estar-diante-de-uma-onda-verde/a-54063776 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

REVERENCIEMOS SÍLVIA LAZÁRTE

É MAIS DO QUE JUSTO DESTACAR QUEM FOI E O QUE AJUDOU A BOLÍVIA A REALIZAR, COMO PRESIDENTA DA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE QUE, ENFRENTANDO TODO TIPO DE AMEAÇAS DAS ELITES AINDA COLONIALISTAS, LEGOU AO SEU PAÍS UMA CONSTITUIÇÃO QUE PODE E AINDA DEVE INSPIRAR MUITOS OU TODOS OS PAÍSES DO PLANETA. FOI A PRIMEIRA QUE RECONHECEU A EXISTÊNCIA DE NAÇÕES DE POVOS ANCESTRAIS NO TERRITÓRIO, FAZENDO QUE A CONSTITUIÇÃO SEJA UM ACORDO ENTRE NAÇÕES, E NÃO FANTASMAGORICAMENTE ENTRE INDIVÍDUOS. 

POR ISSO, SALVE SÍLVIA, E QUE SUA MORTE INSPIRE E MOBILIZA OS POVOS E PESSOAS BOLIVIANOS A DERROTAR, MAIS UMA VEZ, OS QUE ASSALTAM O ESTADO PARA USÁ-LO SÓ EM SEU BENEFÍCIO.

Arce: ''Exemplo, Silvia Lazarte foi a presidenta da Constituinte que mudou a Bolívia''

Carta Maior - 30/06/2020 14:57
 
 

"Uma profunda dor domina meu coração, faleceu a irmã Silvia Lazarte. Lutadora social, dirigente indígena camponesa e presidente da histórica Assembleia Constituinte que mudou a nossa Bolívia. Um exemplo de luta e dignidade".

Com estas palavras o candidato do Movimento Ao Socialismo - Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP), Luis Arce Catacora, resumiu nesta segunda-feira a despedida do povo boliviano à histórica dirigente Silvia Lazarte Flores, falecida precocemente no dia anterior, aos 56 anos.

Exilado na Argentina, o ex-presidente Evo Morales destacou "o espírito revolucionário da querida irmã Silvia Lazarte, que incentivou a construção de uma Bolívia culturalmente diversa e mais justa, como militante e presidente da Assembleia Constituinte".

A presidenta do Senado, Eva Copa, ressaltou que o país andino recordará para sempre a valentia com que Silvia conduziu a Constituinte para transformar a Pátria e assinalou ser "esta mulher um exemplo para as novas gerações". Graças ao seu empenho, as mulheres contam hoje com 50% das vagas nas listas eleitorais para deputados e vereadores.

Jovem militante
Nascida em 10 de janeiro de 1964, Villa Tunari, província do Chapare, Cochabamba, de ascendência quechua, Silvia Lazarte desde cedo se destacou por suas lutas em favor dos camponeses, "tendo participado ativamente no movimento camponês desde a sua organização sindical de base, substituindo aos 13 anos o seu pai, que por motivos de saúde não pôde comparecer num evento", recordou o pesquisador e cientista social Porfirio Cochi. "Silvia tomou à frente na luta contra a discriminação e a exclusão social, sendo a fundadora e primeira secretária-executiva da Federação de Mulheres do Trópico de Cochabamba, até alcançar outras funções políticas como vereadora de Villa Tunari", lembrou.

Eleita pelo MAS para a Assembleia Constituinte, que presidiu entre 2006 e 2008, liderou o trabalho de redação do novo texto da Constituição Boliviana de 2009. Em seu discurso de posse Constituinte, em 7 de agosto de 2006, recordou ter sofrido na pele a amargura de ser discriminada por ser mulher e camponesa.

′′Venho de uma família muito pobre, por isso não tive apoio econômico para prosseguir os estudos. Muitos me perguntam se eu sou profissional para dirigir a Assembleia Constituinte e eu respondo com orgulho que não, pois fui marginalizada e porque na minha infância meu pai me disse que, como mulher e filha mais velha, devia dar chance aos meus irmãos ", enfatizou Silvia.

Durante a sua visita aos diferentes departamentos para recolher contribuições e critérios para a Constituinte, não imaginou que continuaria sendo objeto de brutal discriminação. Foi insultada em Santa Cruz como "indígena e ignorante". Em Sucre não só foi agredida fisicamente, como ameaçada de morte. Alertada pela dona da casa onde estava hospedada, precisou fugir à noite, porque os "cívicos" - financiados pelos Estados Unidos - iriam incendiar o local com ela dentro. Enfrentando com altivez as agressões, sempre foi serena: "estou junto aos irmãos que amam a sua pátria".

Carta Magna

Com a sua imprescindível marca, a nova Carta Magna boliviana determina ao Estado ''a direção integral do desenvolvimento econômico e seus processos de planificação''; aprofunda e massifica a reforma agrária; fomenta a industrialização; impede a privatização e a concessão dos serviços públicos essenciais; estabelece normas de proteção aos trabalhadores (reconhecidos como a principal força produtiva da sociedade); subordina a propriedade privada à função social e ao interesse coletivo; garante a educação pública, universal, descolonizadora e de qualidade; fortalece a democracia e a soberania popular com o voto e o serviço militar obrigatórios; impede os monopólios e o oligopólio nas comunicações, fomenta a criação e manutenção de meios comunitários ''em igualdade de condições e oportunidades'', garantindo o direito à retificação e à réplica, assegurando a liberdade de expressão, opinião e informação.

"O legado que deixou a sua participação como presidenta da Constituinte é, em primeiro lugar, exemplo de luta, coerente com sua condição de mulher indígena, com seus princípios e compromissos com seu povo, cumprindo o mandato que lhe foi outorgado pelo soberano. Em segundo lugar, demostrou a capacidade de dirigir e redigir a nova Constituição Política do Estado Plurinacional, isolando a pequena casta em meio a uma infinidade de conflitos políticos no interior da Assembleia, defendendo nas ruas das diferentes cidades do país o processo constituinte", ressaltou o pesquisador Porfirio Cochi.

Na avaliação de Porfirio, "a firmeza, a determinação e o caráter de Silvia Lazarte permitiram que se concluísse a redação da nova Constituição Política do Estado". Numa entrevista, Silvia declarou que "como constituinte, mulher de pollera [saia andina] e camponesa não podia fracassar, pois seu fracasso seria o fracasso das mulheres", relembrou o pesquisador.

É este o compromisso que Silvia, junto aos 255 constituintes, conseguiu entregar ao Congresso Nacional para que se submetesse ao referendo de 25 de janeiro de 2009 e fosse promulgado pelo presidente Evo Morales em 9 de fevereiro do mesmo ano. “Este é o seu legado de luta e compromisso, caminho digno de ser trilhado pelas novas gerações, que necessita ser retomado, e que só se conseguirá em setembro com a eleição de Luis Arce”, enfatizou Porfirio.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Arce-Exemplo-Silvia-Lazarte-foi-a-presidenta-da-Constituinte-que-mudou-a-Bolivia-/6/47985

quarta-feira, 1 de julho de 2020

VEJA O QUE É A NASCENTE CONFERÊNCIA ECLESIAL DA AMAZÔNIA

PASSAR DE APENAS EPISCOPAL PARA ECLESIAL NÃO SERÁ TAREFA FÁCIL. SERÁ UMA MISSÃO, E INOVADORA, NO CASO DE DAR PASSOS POSITIVOS. E PARA A IGREJA UNIVERSAL. SERÁ UM SERVIÇO MAIS EVANGÉLICO, COM CERTEZA. E MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE DA VIDA, DO EVANGELHO VIVIDO PELOS POVOS, COMUNIDADES, PESSOAS.

QUE SEJA LUZ PARA AVANÇAR NA BUSCA DA MELHOR FORMA DE A IGREJA SER, E QUE TENHA VIDA LONGA.

IHU, 01 de julho de 2020

“A Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas para a Igreja universal”


01 Julho 2020

Acabou de nascer a Conferência Eclesial da Amazônia, algo novo, diferente, como todo o processo que levou a esse momento, o Sínodo para a Amazônia, podendo dizer que é uma continuidade. Isso é expresso pelo vice-presidente dessa nova instituição eclesial poucas horas após seu nascimento, Dom David Martínez de Aguirre Guiné, bispo de Puerto Maldonado, um lugar que o Papa Francisco colocou para sempre no mapa da Igreja da Amazônia.

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

Torna-se realidade o que "é o espírito eclesial, onde os bispos, os pastores estão com o povo", destaca o dominicano, que afirma que a Conferência Eclesial da Amazônia é um banco de provas, “uma conexão com esse sonho programático do Papa Francisco marcado na Alegria do Evangelho”, e, ao mesmo tempo, uma concretização do Concílio Vaticano II. É algo que traz novidades importantes, como a presença de mulheres e as vozes do território.

Trata-se de uma conferência em "que queremos mostrar os rostos da Amazônia", que afirma que "o rosto da mulher como sujeito eclesial na Amazônia é um rosto muito claramente definido". De fato, “uma Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel importante, não seria da Amazônia”, uma afirmação que mostra qual pode ser o futuro de uma Igreja, onde esse papel feminino deve ser cada vez mais reconhecido. Por fim, trata-se de "mostrar o que já está acontecendo na base, diariamente, em nossas comunidades".

David Martínez de Aguirre Guiné. (Foto: Luis Miguel Modino)

O mesmo pode ser dito dos povos indígenas, que "querem se organizar como Igreja e querem dar uma contribuição à humanidade e ao resto da Igreja universal como parte desses rostos da Igreja Amazônica", de acordo com Martínez de Aguirre, que insiste nisso "é muito importante que, na Igreja, paremos de ver os povos indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como sujeitos ativos". Essa opção da Igreja pelos povos indígenas é muito clara há muito tempo, mas, de acordo com o bispo de Puerto Maldonado, é algo em que a figura do Papa Francisco teve um papel fundamental para se tornar visível. Agora é a hora de ir fazendo nosso caminho, sabendo que "temos muito trabalho pela frente".

Eis a entrevista.


O que é a Conferência Eclesial da Amazônia?

É um organismo criado na Amazônia para tentar responder aos desafios que a Igreja Amazônica, nos últimos anos, vem descobrindo e estabelecendo prioridades, especificadas nos documentos pré-sinodais, no próprio Sínodo, com seu Documento Final, e nos sonhos que o Papa estabelece na Querida Amazônia. Pode-se dizer que a Conferência Eclesial da Amazônia surge de todo esse processo, que será o organismo que deverá coordenar, promover, todos esses sonhos e toda essa renovação pastoral e evangelizadora da Amazônia.

A primeira coisa que surpreende é que não se trata de uma conferência episcopal, mas de uma conferência eclesial que, segundo seu presidente, cardeal Hummes, como ele disse na assembléia, ser eclesial foi uma sugestão do Papa Francisco. Podemos dizer que esta conferência pode ser considerada um experimento, não sei se é a palavra mais apropriada, de uma nova maneira de ser Igreja, baseada na sinodalidade, em que o bispo não é mais alguém que lidera a Igreja exclusivamente, mas alguém que faz parte de toda a caminhada eclesial?

O Sínodo para a Amazônia, como bem me lembro quando participei como secretário, já era algo diferente dentro do processo sinodal da Igreja, e esta Conferência Eclesial da Amazônia é uma continuidade. Quando li os documentos, vi que isso é totalmente consistente com o Sínodo, é o que vivemos no Sínodo, é o espírito eclesial, onde os bispos, os pastores estão com o povo. Como o Papa Francisco disse na exortação a Alegria do Evangelho, às vezes na frente, às vezes no meio, às vezes atrás, os pastores estão lá.

David Martínez de Aguirre Guiné e Michael Czerny. (Foto: Luis Miguel Modino)

Este é um organismo misto, onde estão os bispos, mas também há a presença do Povo de Deus. O Papa Francisco, já em 2013, quando esteve no Brasil, diz aos bispos brasileiros que a Amazônia é o banco de provas da Igreja Brasileira. O Papa Francisco quer que isso se aplique a toda a Igreja universal, ele também pensa que a Amazônia, esta Conferência Episcopal da Amazônia, é um banco de provas. Quem leu a exortação a Alegria do Evangelho, descobre trechos nesta Conferência, vê que há uma conexão com o sonho programático do Papa Francisco marcado na Alegria do Evangelho.

O Papa também declarou que a sinodalidade deve ser o sínodo da Igreja do século 21, e de fato esta Conferência Episcopal da Amazônia tem uma nuance muito nova que tem a ver com sinodalidade e com a participação de todo o Povo de Deus, uma concretização do Concílio Vaticano II neste modo de ser Igreja.


Diz-se no comunicado que apresenta a nova conferência que ela é uma resposta oportuna ao clamor dos pobres e da Irmã Mãe Terra. Poderíamos dizer que a sinodalidade, os pobres e o cuidado da Irmã Mãe Terra, da casa comum, são os elementos fundamentais do pontificado do Papa Francisco e que esta conferência quer promover tudo isso?

A sinodalidade, os pobres, cuidado da casa comum e a parresia do anúncio do Evangelho, realmente acreditar que o Evangelho, a Boa Nova de Jesus, é um renovador da pessoa, um renovador da humanidade. Há uma paixão pelo Evangelho e esta Conferência Eclesial da Amazônia nasce com essa paixão pelo Evangelho de Jesus e acreditando que o Evangelho de Jesus é uma Boa Notícia para a Amazônia e uma Boa Notícia da Amazônia para o mundo. A esses elementos que você disse, eu também acrescentaria a paixão pela Boa Nova de Jesus.

Conferência eclesial em que há mulheres, a presidente da Conferência Latino-Americana de Religiosos - CLAR e duas das representantes dos povos indígenas. Que papel as mulheres podem ter nesta conferência?
É o rosto da Igreja. Uma das coisas que foi dita, e que o Papa também disse em Puerto Maldonado, é que queremos uma Igreja com rosto amazônico, queremos uma Igreja que mostre os rostos da Amazônia. Essa Conferência Eclesial da Amazônia quer se encarnar naqueles rostos, e o rosto da mulher como sujeito eclesial na Amazônia é um rosto muito claramente definido. Uma Conferência Eclesial da Amazônia, onde as mulheres não têm um papel importante, não seria amazônica, não pertenceria a essa Igreja amazônica.


O papel que as mulheres terão nesta conferência será o que elas já desempenham nas bases, nas paróquias, nos vicariatos, nas dioceses. Está refletindo a estrutura da Igreja, em um nível organizacional mais universal, mais regional neste caso, mostrando o que já está acontecendo na base, diariamente, em nossas comunidades. É para quebrar a dicotomia em que a mulher participa até certo ponto, mas, em alguns níveis de decisão, ela não tem participação. Esta Conferência Eclesial da Amazônia é uma amostra do que é a Igreja na Amazônia e, é claro, a mulher tem que participar. A mulher na Igreja amazônica está presente com uma voz muito clara, muito necessária e muito válida.

Também a presença de representantes dos povos indígenas. Essa presença das vozes do território, que exigem uma aplicação prática do Sínodo, em que sentido elas podem ajudar no dia a dia desta conferência?

Dom Gerardo Zerdín costuma dizer que precisamos parar de falar sobre eles e nós em relação aos povos indígenas, no sentido de que eles são objeto de evangelização e nós somos os sujeitos, os evangelizadores. É entender que os povos indígenas, que existem comunidades, que existem povos indígenas que receberam a mensagem de Cristo e leram o acontecimento de Cristo, e querem se organizar como Igreja, querem fazer uma contribuição para a humanidade e para o resto da Igreja Universal como parte desses rostos da Igreja amazônica.

David Martínez de Aguirre Guiné. (Foto: Luis Miguel Modino)

Parece-me muito importante e, quando dizemos uma Igreja pobre e para os pobres, uma Igreja dos mais vulneráveis, nesta Conferência Eclesial, que inclui povos indígenas, que têm voz ativa e que podem gerar processos, é muito importante para que na Igreja paremos de ver os povos indígenas como objetos de evangelização, mas eles mesmos como sujeitos ativos. A partir daí, surgirão todos os problemas, como territorialidade, tão importante para essas comunidades, cuidado da casa comum, educação, cultura, saúde, interculturalidade, inclusão de todos os povos. Penso que a sua presença é muito importante e que a contribuição será muito significativa, muito enriquecedora.

Povos e organizações indígenas, inclusive no mais alto nível, como é o caso da COICA, destacaram nos últimos meses a importância da aliança que foi estabelecida entre a Igreja Católica e os povos indígenas, uma aliança que ainda foi reforçada com o enfrentamento conjunto da pandemia de coronavírus. Poderíamos dizer que esta Conferência Eclesial da Amazônia estabelece definitivamente essa aliança como algo presente e duradouro para o futuro dos povos indígenas e da Igreja Católica na Amazônia?

A Igreja há muito tempo é aliada dos povos indígenas, e eu digo isso com o meu coração, acho que sim. O que aconteceu é que se tornou visível, não era visível, mas não é que a Igreja tenha subitamente percebido que precisa prestar um serviço aos povos indígenas. Há missionários que há anos, e eu ousaria dizer que centenas de anos, pelo menos aqui na Igreja peruana, fizeram uma opção muito clara pelos povos indígenas, de defesa, desde o início. Embora, às vezes, tenha havido críticas a alguns episódios que não foram tão claros, arriscaria dizer que o general, o comum, tem sido uma opção clara e inegável para a defesa dos povos indígenas.


Mas não conseguimos torná-lo visível, não conseguimos alcançá-lo nessas esferas de organizações. O que foi alcançado nos últimos anos é essa visibilidade, isso é ótimo. E isso liderado pelo Papa Francisco, uma figura de importância internacional. Que o Papa Francisco tenha dado mensagens tão claras e colocado os povos indígenas no centro e no coração da Igreja, e dali para o coração do mundo, os indígenas evidentemente descobriram o que já era. O que acontece é que isso se tornou visível no coração da Igreja, em Roma, e isso foi muito importante.

Esta conferência eclesial deve dar permanência a tudo isso, muito mais com a presença daqueles povos permanentemente nela. É uma opção muito forte da Igreja Católica pelos povos indígenas, e isso deve ser aproveitado.

Mapa da região Pan-Amazônica. (Fonte: Blog do Enem)

O senhor já sabe como esta Conferência funcionará, quais são as medidas a serem tomadas nos próximos meses, especialmente quando essa pandemia de coronavírus for superada e a Igreja puder voltar a trabalhar em conjunto com os povos da Amazônia?

Estamos em um processo. Após o Sínodo, houve um tempo, que também foi condicionado pela pandemia, em que essa consequência vem se formando, o que também foi importante para a organização. Temos um plano pastoral e quem vai realizar esse plano pastoral estava faltando. Agora, o primeiro passo é tentar preparar os estatutos, que serão apresentados ao Santo Padre, que deverão ser aprovados e valorizados. Um primeiro passo foi dado, um pouco dessa inércia saiu e agora teremos que trabalhar. A partir de agora, será necessário ver como esta Conferência é organizada, como estabelecerá relações com a REPAM, como será integrada a tudo o que é o CELAM.

Será necessário ver como vai se fazendo, mas foi dado um passo muito importante, que é o próprio nascimento da Conferência, que é a coisa mais importante. E o resto, pouco a pouco, não há caminho, o caminho é feito caminhando. Temos muito trabalho pela frente.

http://www.ihu.unisinos.br/600509-a-conferencia-episcopal-da-amazonia-e-um-banco-de-provas-para-a-igreja-universal-entrevista-com-dom-david-martinez-de-aguirre 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

APOIO DA IGREJA CATÓLICA AOS POVOS INDÍGENAS DO MATO GROSSO

ATÉ QUANDO SERÃO MANTIDAS PRÁTICAS POLÍTICAS CONTRA OS POVOS INDÍGENAS? ATÉ ONDE IRÁ A TRADIÇÃO COLONIALISTA EM SUA SANHA GENOCIDA E ETNOCIDA? 

É TRISTE PERTENCER A UM PAÍS E A UMA CIVILIZAÇÃO INCAPAZES DE CONVIVER COM A DIVERSIDADE DE POVOS E CULTURAS! PRECISAMOS CAMINHAR URGENTEMENTE NA DIREÇÃO DE UMA TRANSIÇÃO CIVILIZACIONAL...

TODO O APOIO AO DIREITO À VIDA, E POR ISSO, AO TERRITÓRIO DE TODOS OS POVOS INDÍGENAS E ÀS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO BRASIL.

IHU, 26 de junho de 2020

REPAM, Comissão para a Amazônia, CIMI e CNBB Oeste 2 apoiam os povos indígenas do Mato Grosso


O Sínodo para a Amazônia tem sido motivo de uma firme aliança entre os povos originários e a Igreja Católica. A defesa da Amazônia e dos povos que nela habitam tem sido colocado como prioridade eclesial. Bem é verdade que essa defesa já tem estado presente ao longo de décadas, especialmente no trabalho do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, mas agora essa dinâmica passou a ser assumida pela grande maioria de bispos, organismos e instituições eclesiais.

O Projeto de Lei Complementar nº 17/2020, de autoria do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), tem provocado o repúdio da Igreja Católica. Esse é um projeto que autoriza o registro do Cadastro Ambiental Rural (CAR) de propriedades em sobreposição a terras indígenas no estado de Mato Grosso, ameaçando diretamente 27 áreas delimitadas, declaradas ou em estudo pela Fundação Nacional do Índio (Funai). As consequências podem ser graves, provocando o aumento de conflitos, violências e invasões.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Em nota assinada pelo presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM-Brasil, e da Comissão Episcopal Especial para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, o cardeal Cláudio Hummes, aparece seu “apoio e solidariedade aos povos indígenas do Mato Grosso”, dado que “ataca diretamente os direitos dos povos indígenas, violando as conquistas constitucionais e sobrepondo os poderes do estado aos da união, a responsável pela demarcação e homologação das terras indígenas”.

Na mesma linha, uma outra nota do Conselho Indigenista Missionário, afirma que a aprovação do projeto pode potencializar “antigos e não solucionados conflitos que vitimam os povos deste estado”.
Essa mesma opinião é manifestada pelos bispos do Regional Oeste 2, que veem nela a “potencialidade de inflamar os já tensos conflitos que afetam os povos indígenas”, uma nota episcopal que diz estar “em sintonia com a reivindicação dos povos indígenas, organizações da sociedade civil, estudiosos da temática e articulações de pastorais de nossa Igreja”, argumentando que “o referido PLC extrapola as atribuições do estado de Mato Grosso”.

Os povos indígenas da Amazônia são um dos coletivos com maior porcentagem de atingidos e falecidos pela COVID-19. Mesmo assim eles estão sendo vítimas de invasões por aqueles que não fazem quarentena, madeireiros, garimpeiros, pesca predatória, agronegócio..., levando o coronavírus para as terras indígenas.

As notas denunciam a falta de consulta livre, prévia e informada dos povos implicados, um direito garantido pela Constituição brasileira, no artículo 231, e a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. Tudo isso demonstra que o Brasil tem se tornado um país onde as leis são continuamente descumpridas, mas as notas também deixam claro que a Igreja Católica está se posicionando como uma das instituições que mais claramente combatem as políticas do atual governo e, ao mesmo tempo, que mais firmemente defende os direitos dos povos originários, e, em geral, dos mais pobres.

Não podemos esquecer, como denuncia a nota do CIMI, que “o governo federal vem buscando implementar o retrocesso no que tange ao direito originário dos povos indígenas aos seus territórios”, procurando legalizar a invasão das terras indígenas, paralisar os processos de demarcação e atender expressamente os interesses dos inimigos dos indígenas. Essa mesma tentativa está presente no Projeto de Lei Complementar que pretende ser instaurado no Mato Grosso.

Num país onde as ameaças só aumentam, provocando “o acirramento do conflito agrário e o favorecimento da ação ilegal de grupos ligados à grilagem de terras públicas, com prejuízo imediato para o patrimônio público e para os povos indígenas da região”, segundo recolhe a nota da REPAM e da CEA, uma ideia que também aparece nas outras duas notas, se faz necessário tomar providências.

Nesse sentido, as notas são claras, exigindo o arquivamento do Projeto de Lei Complementar 17/2020, na tentativa de “que as tensões já efetivas em nosso estado de Mato Grosso não sigam vitimando e pondo sob riscos os povos indígenas, e para que possamos caminhar rumo à justiça que gera a paz”, segundo a nota do Regional Oeste 2 da CNBB.

Frente a isso, a REPAM e a CEA propõem “que um diálogo entre a sociedade civil organizada, organismos eclesiais e poder público pode ser mais profícuo e gerador de consensos”, pedindo, na nota do CIMI, que “o governo estadual e esta Assembleia Legislativa assegurem as ações que garantam o pleno direitos dos povos indígenas aos seus territórios além de sua efetiva proteção”. Sempre, “no desejo de que a vida e o território das populações indígenas sejam respeitados e de que o direito seja cumprido”, palavras conclusivas da nota assinada pelo cardeal Hummes.

http://www.ihu.unisinos.br/600335-repam-comissao-para-a-amazonia-cimi-e-cnbb-oeste-2-apoiam-os-povos-indigenas-do-mato-grosso

GESTANDO A PRÓXIMA PANDEMIA

DE ONDE E COMO VIRÁ O PRÓXIMO VÍRUS PARA OS SERES HUMANOS? NÃO SE SABE, MAS JÁ SE SABE QUE NÃO SERÁ OBRA DO ACASO. O VÍRUS E A NOVA PANDEMIA ESTÁ SENDO GESTADA AGORA, E O PRINCIPAL CRIADOR É O SISTEMA DO AGRONEGÓCIO.

CONTINUAREMOS A CONVIVER COM UM SISTEMA DE PRODUÇÃO DE COMMODITIES NECRÓFILO, QUE COLOCA EM RISCO A SAÚDE E A VIDA DA HUMANIDADE?

CUIDADO, MUITO CUIDADO COM A "FESTA" QUE ESTÁ SENDO FEITA AO AGRONEGÓCIO POR TER MANTIDO RELATIVAMENTE EM PÉ A NECRÓFILA ECONOMIA DO BRASIL: ELE PODE ESTA GESTANDO A PRÓXIMA PANDEMIA GLOBAL!  


IHU - 16 sw junho de 2020

Sílvia Ribeiro

“É hora de acabar com este sistema agroalimentar absurdo e prejudicial, que beneficia apenas as empresas. É o principal fator da mudança climática, e apesar de utilizar de 70 a 80% da terra, água e combustíveis para uso agrícola, alimentam apenas 30% da população mundial”, escreve Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC, em artigo publicado por La Jornada, 25-06-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Essa pandemia causou a queda de muitos véus que ocultavam mecanismos perversos do sistema capitalista globalizado. Um dos véus que foi feito em pedaços, deixando descoberta uma fétida realidade, é o papel do sistema agroindustrial de alimentos, o principal fator na produção de epidemias nas últimas décadas.


A criação industrial de animais em confinamento (aves, porcos, gado) é uma verdadeira fábrica de epidemias animais e humanas. Grandes concentrações de animais, confinados, geneticamente uniformes, com sistemas imunológicos debilitados, aos quais são continuamente administrados antibióticos. Razão pela qual, segundo a OMS, é a principal causa da geração de resistência a antibióticos em escala global. Um terreno fértil perfeito para produzir mais mutações letais de vírus e bactérias multirresistentes a antibióticos, que com os tratados de livre comércio se distribuem por todo o globo.

O biólogo Rob Wallace, autor do livro Big farms make big flu, documenta esse processo analisando surtos de novos vírus de origem animal, gripe aviária e suína, Ebola, Zika, HIV e outros. Grande parte se originou em criadouros, outros em animais selvagens, como o novo coronavírus que vem dos morcegos.

Estudos recentes indicam que não atingiu diretamente os seres humanos, mas houve intermediários. O sequenciamento genômico aponta para os pangolins, pequenos mamíferos asiáticos. Poderia ter sido outros, por exemplo, os megacriadouros de porcos que existem em Hubei, cuja província Wuhan é a capital. GRAIN compilou dados a esse respeito.

Ao mesmo em tempo que se detecta a Covid-19, os grandes criadouros de porcos da China são devastados por outro vírus que afeta e mata milhões de porcos: a peste suína africana, que felizmente ainda não sofreu mutação para um vírus infeccioso humano, mas cresce pela China e a Europa.

A relação entre pecuária industrial e epidemias-pandemias vai além dos grandes criadouros. Como explico em outro artigo (Desinformemo-nos), existem causas concomitantes: a criação em massa de animais se junta à destruição de habitats naturais e da biodiversidade, que teriam funcionado como barreiras de contenção para a propagação de vírus em populações de animais selvagens.


Os principais culpados por essa destruição de ecossistemas são o sistema alimentar do agronegócio em seu conjunto, o crescimento urbano descontrolado e o avanço de megaprojetos para o serviço do primeiro, como mineração, estradas e corredores comerciais, como, por exemplo, o Corredor Transístmico.

O sistema agroindustrial de alimentos desempenha o papel principal. Segundo a FAO, a principal causa de desmatamento no mundo é a expansão da fronteira agrícola industrial. Na América Latina, causa 70% do desmatamento, e no Brasil até 80%.

De todas as terras agrícolas do planeta, 78% (!) São usadas para a indústria pecuária em larga escala: seja para pastagem ou forragem. Mais de 60% dos cereais plantados globalmente destinam-se à alimentação de animais em confinamento (Grupo ETC).

Em cada etapa da cadeia alimentar agroindustrial, 4-5 grandes transnacionais dominam mais de 50% do mercado global. (Ver: Tecno-fusiones comestibles, mapa del poder corporativo en la cadena alimentaria, Grupo ETC, 2020).

Por exemplo, apenas três empresas (Tyson, EW Group e Hendrix) controlam todas a venda de genética avícola no planeta. Outras três, a metade de toda a genética suína. E algumas poucas a genética bovina. Isso causa uma enorme uniformidade genética nos criadouros, o que facilita a transmissão e mutação de vírus.

O mesmo acontece com as empresas do comércio mundial de commodities agrícolas (grãos e oleaginosas), controladas quase inteiramente por seis empresas: Cargill, Cofco, ADM, Bunge, Wilmar International e Louis Dreyfus Co, que comercializam as forragens que vão para a criação industrial de animais, principalmente soja e milho transgênico.

As maiores processadoras de carne avícola, suína e bovina são, atualmente, JBS, Tyson Foods, Cargill, WH Group-Smithfield e NH Foods. WH Group, da China, é a maior empresa de carne suína do mundo e domina a América do Norte, dona da Carroll Farms, de onde se originou a gripe suína.

É significativo o caso da Cargill, que sendo a maior empresa global no comércio de commodities agrícolas, passou de fornecera de forragens a também criadora, sendo a terceira companhia mundial de carnes (aves, porcos, bois).

Apesar dos desastres causados pela pandemia da Covid-19, essas empresas continuam suas atividades, gestando a próxima pandemia, que pode inclusive ocorrer enquanto a atual segue ativa.

É hora de acabar com este sistema agroalimentar absurdo e prejudicial, que beneficia apenas as empresas. É o principal fator da mudança climática, e apesar de utilizar de 70 a 80% da terra, água e combustíveis para uso agrícola, alimentam apenas 30% da população mundial (Grupo ETC).

http://www.ihu.unisinos.br/600355-gestando-a-proxima-pandemia-artigo-de-silvia-ribeiro