quarta-feira, 12 de abril de 2017

NA TERCEIRIZAÇÃO SELVAGEM, RETRATO DE UM PROJETO

AUMENTA O DESAFIO: COMO A POSSIBILIDADE DE REALIZAR UM REFERENDO SOBRE AS DECISÕES QUE ELIMINAM DIREITOS SOCIAIS DEPENDE DE "LICENÇA" DO CONGRESSO NACIONAL, SÓ PODERÁ SER EFETIVADO COM UMA MAIORIA DE DEPUTADOS E SENADORES NA PRÓXIMA LEGISLATURA. E COM UM PRESIDENTE QUE TENHA ESSA PERSPECTIVA DE CONSULTA À CIDADANIA, AO PODER DEMOCRÁTICO POPULAR.

MÃOS À OBRA!

Na terceirização selvagem, retrato de um projeto

 
 
 
170410-Terceirização
Os sem-CLT ganham 23% menos, trabalham muitas horas a mais e se acidentam com muito maior frequência. Que país surgirá de medidas que impõem este tipo de retrocesso?
Por José Álvaro de Lima Cardoso | Imagem: Miguel (JC)
As crises econômicas, historicamente, sempre serviram à retirada de direitos sociais e trabalhistas. Convertido agora em lei, o projeto 4302/98, que permite a terceirização em qualquer etapa da atividade produtiva e, além disso, a quarteirização, irá aumentar dramaticamente a precarização das condições de trabalho. Inicialmente para os próprios terceirizados (que já são 13 milhões no país); mas a intenção é nivelar por baixo – ou seja, a piora da condição dos terceirizados irá agravar a situação do conjunto da classe trabalhadora (não se enganem: esta é a intenção). Além disso, ao rebaixar salários, a terceirização sem limites irá reduzir os valores da contribuição à Previdência Social, agravando a situação desta (o objetivo neste caso é quebrar a previdência pública, abrindo espaços para a previdência privada).
Todas as pesquisas mostram que a taxa de rotatividade é duas vezes maior nas atividades tipicamente terceirizadas. A jornada de trabalho entre os terceirizados é superior, em média, à jornada dos trabalhadores contratados diretamente. O percentual de afastamentos por acidentes de trabalho típicos nas atividades terceirizadas é muito superior ao verificado nas atividades tipicamente contratantes. Além disso os salários nas atividades terceirizadas são em média, segundo o DIEESE, 23% menores do que nas atividades tipicamente contratantes.
A lei de terceirização sem limites, já sancionada, tem que ser compreendida no “conjunto da obra golpista”. Somada à destruição da Previdência Social, à destruição dos direitos trabalhistas e a um conjunto impressionante de outros crimes, irá fazer o Brasil regredir ao início do século XX, quando não havia participação do Estado na economia. Não havia políticas de saúde e educação públicas, inexistia regulamentação do trabalho, não existia política de defesa nacional. Estão aproveitando a crise para liquidar direitos numa escalada nunca vista, nem no período de ditadura militar. A “reforma” trabalhista que querem implantar, num país onde mesmo os direitos trabalhistas básicos são sistematicamente descumpridos, irá colocar o Brasil numa condição semelhante ao período anterior a 1930.
O neoliberalismo ultrarradical que querem implantar no Brasil é visceralmente contra 99% da população, só interessa aos milionários e ao sistema financeiro. O modelo vem para elevar a taxa de exploração, aumentar o desemprego, entregar as riquezas naturais e as estatais, e reduzir o que restou de soberania nacional. Para os que estão implantando este tipo de política, a “vitória” do modelo é exatamente a transferência dos efeitos da crise para as costas do povo trabalhador e a conversão do país à condição de Brasil Colônia ou de um protetorado dos EUA. Acham pouco subtrair riquezas nacionais e acabar com os direitos: o objetivo é colocar o Brasil de joelhos.
http://outraspalavras.net/brasil/na-terceirizacao-selvagem-retrato-de-um-projeto/

terça-feira, 11 de abril de 2017

PELA REPARAÇÃO JUSTA DOS DANOS AOS ATINGIDOS PELO DESASTRE DO RIO DOCE

Novas adesões à campanha pela reparação justa dos danos aos atingidos pelo desastre do Rio Doce. 

Novas assinaturas de atingidos e apoiadores cobram os direitos dos atingidos e menos controle da Samarco sobre o processo das reparações!


No momento, assinam 101 atingidos de Minas e do Espírito Santo, 147 apoiadores nacionais, dentre os quais cientistas e ativistas, 23 pesquisadores e ativistas internacionais, 127 organizações e apoiadores nacionais e 21 internacionais, totalizando 419 assinaturas.


BHP BILLITON, VALE E SAMARCO agem para impedir a reparação justa dos danos causados pelo desastre criminoso do Rio Doce, Brasil
O controle das rés sobre o processo de reparações coloca o Estado brasileiro em Xeque

NOTA COM ASSINATURAS ATUALIZADAS EM 11 DE ABRIL

No dia 05/11/2015, a barragem de Fundão de propriedade da mineradora Samarco (Vale e BHP Billiton) se rompeu despejando sobre o Rio Doce cerca de 50 milhões de metros cúbicos de resíduos minerários, provocando um dos maiores desastres ambientais da mineração em todo o mundo. Passados quase 17 meses, a tragédia é agravada pela postura violadora das empresas que boicotam a construção de instrumentos participativos para a reparação dos danos causados pelo desastre.
Em 16/03/2017, um acordo prévio (Termo de Ajustamento Preliminar) entre Ministério Público e as empresas responsáveis foi parcialmente homologado em juízo, selando as tratativas para a realização de um diagnóstico socioambiental sobre os efeitos do desastre. Contudo, não houve acordo sobre as organizações que fariam esse diagnóstico, assim como a assistência aos atingidos. Entidades e movimentos sociais contestaram a nomeação da INTEGRATIO Mediação Social e Sustentabilidade para tais importantes ações junto às comunidades. A empresa presta consultorias regulares às companhias causadoras do desastre, sendo economicamente vinculada às mesmas. Visando à construção de diagnósticos participativos, pautados pela autonomia e independência do corpo técnico com relação às empresas, o Ministério Público conduziu um amplo processo de consultas a experts independentes - pesquisadores de universidades públicas internacionalmente reconhecidos e com ampla trajetória nas áreas socioambiental e de direitos humanos, representantes de movimentos e organizações sociais -, formando um Grupo de Trabalho que colaborou na elaboração de um termo de referência para a realização de audiências públicas e avaliação dos danos socioeconômicos.
As empresas Samarco, Vale e BHP contestam tal iniciativa e a validade do Grupo de Trabalho, assim como os esforços de instauração de um processo transparente e verdadeiramente participativo sobre as decisões relativas à avaliação dos danos. Por meio de ofício emitido em 31/03/2017, as empresas destacam que “a participação de entidades do terceiro setor e do GT [...] deve ser meramente orientativa”, procurando, assim, desempoderar e deslegitimar esse instrumento criado pelo MP, portanto, o próprio órgão. Ademais, as empresas rés compreendem a exigência de autonomia, confiança e credibilidade dos peritos junto às vítimas como um “claro preconceito econômico”, porque impede a contratação de consultorias a elas vinculadas.
Samarco, Vale e BHP atuam, desta forma, de modo a cercear não só a participação dos atingidos na construção das decisões que têm por objeto suas próprias vidas, mas defendem uma condução supostamente “técnica” de todo o processo sob seu domínio, contestando o controle social realizado pelas próprias vítimas e pela sociedade civil. Trata-se da mais absurda inversão de papéis em que as rés ditam as regras, buscando a redução máxima dos custos das reparações e a forma pela qual desejam ser tratadas pelo Estado brasileiro! Repudiamos veementemente essa postura cerceadora das empresas e denunciamos sua tentativa de monopolizar as condições de definição das reparações e as condições de avaliação dos danos. Faz-se evidente a indisposição das rés quanto ao reconhecimento dos direitos fundamentais das pessoas atingidas, dentre eles, o direito de informação e de participação nos processos decisórios, colocando em xeque a reparação integral, plena e justa às vítimas. É inadmissível que o Estado brasileiro se coloque como refém das empresas rés, pactuando, assim, com a continuidade das graves violações de direitos humanos e da Constituição Brasileira em Mariana e toda a extensão da Bacia do Rio Doce.
Pela construção de processos reparadores às vítimas sem qualquer interferência das empresas rés do desastre criminoso na Bacia do Rio Doce, Brasil!
04 de abril de 2017

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DENUNCIAR TEMER NAS MISSAS

Roberto Malvezzi (Gogó)
Estávamos no auge do Regime Militar. A tortura e as mortes aconteciam sem que a sociedade soubesse. Então, num sábado à noite, D. Paulo Evaristo Arns foi celebrar uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Jardim Paulistano, São Paulo. Ali, numa roda miúda, nos disse que um jornalista tinha sido assassinado nas dependências do Exército. Era Vladimir Herzog. Então, a Arquidiocese de São Paulo tinha lançado uma nota para ser lida em todas as missas dominicais. Era uma denúncia corajosa e franca dos porões da ditadura e da morte de Herzog.
Para muitos especialistas, ali começou a derrocada do Regime Militar, isto é, havia um espaço que os generais não controlavam. Era exatamente o interior dos templos católicos.
Hoje a CNBB pede a todas as dioceses do Brasil que leiam a carta denúncia contra as reformas do governo Temer, particularmente a da Previdência. Mas podem ser incluídas aí a PEC do Fim do Mundo, a terceirização geral dos trabalhos e a reforma trabalhista. A CNBB é clara: as reformas atendem o mercado, mas atentam contra o povo.
Alguns cardeais, vários bispos, muitos padres e muitos leigos apoiaram o golpe contra a democracia que possibilitou esse ataque destrutivo aos direitos do povo. O governo anterior tinha problemas éticos, políticos e econômicos, mas nunca atacou os direitos do povo. Esse tem o dobro de problemas éticos, políticos e econômicos, mas tem o detalhe de querer destruir tudo que o povo brasileiro construiu em termos de civilidade desde Getúlio Vargas, passando pela Constituinte Cidadã de 1988 e também nos últimos governos.
Quem sabe a leitura das cartas nos templos, nas missas, nas procissões, durante a Semana Santa, inclusive, demonstrando claramente a intenção desse governo de crucificar novamente nosso povo, seja o primeiro passo de reação a esse golpe, assim como foi a carta de D. Evaristo Arns no Regime Militar.

domingo, 9 de abril de 2017

CNBB: ESSAS PROPOSTAS DE REFORMA, NA FORMA QUE ESTÃO, NÃO PODEM PASSAR!

VALE LER E REFLETIR SOBRE O CONTEÚDO DESTA ENTREVISTA DE DOM LEONARDO TENDO PRESENTE OS DADOS DA NOTÍCIA ANTERIOR, ISTO É, AS VANTAGENS EXCLUSIVAS DO CAPITAL FINANCEIRO NA GESTÃO PÚBLICA. SERÁ POSSÍVEL UM VERDADEIRA POLÍTICA SEM UMA DISTRIBUIÇÃO EQUITATIVA DAS VANTAGENS E DIFICULDADES EM QUE O PAÍS SE ENCONTRA?


Crítica às reformas de Temer, CNBB pretende levar o tema a missas e comunidades de todo país.

Janaina Garcia 
Do UOL, em São Paulo 

  • O secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, 66
Reformas como a trabalhista e a previdenciária, nos moldes propostos pelo governo do presidente Michel Temer (PDMB), podem até atender aos apelos do mercado, mas deixam de fora interesses básicos do cidadão –justamente o maior afetado por elas, e o que menos ou nada foi chamado a participar dessa discussão.
A opinião é da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), entidade que, nas últimas semanas, se reuniu com representantes da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e de outras centrais sindicais no debate por uma agenda de mobilização contra as reformas. No último dia 23, a confederação divulgou uma nota em que criticou duramente a reforma previdenciária ao afirmar, por exemplo, que a proposta defendida pelo governo "escolhe o caminho da exclusão social".
"Por que não discutir abertamente com a sociedade temas como esses, mas sem se preocupar em sinalizar apenas para o mercado, e sim, preocupado com o cidadão? Não é possível, a partir de um gabinete, determinar o que um cidadão pode ou não", afirma o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrich Steiner, 66.
Arcebispo auxiliar de Brasília e desde 2001 secretário-geral da entidade, Steiner falou ao UOL sobre como a representação máxima dos bispos, de um país ainda de maioria católica, pretende atuar em relação às medidas defendidas por Temer, seja em posicionamentos oficiais –além de nota do mês passado, o assunto deve entrar na pauta da Assembleia Geral anual da CNBB, no final deste mês --, seja em ações práticas nas comunidades eclesiásticas –como, por exemplo, a abordagem crítica das reformas em missas.
"Não é uma posição político-partidária, mas política, no sentido da polis, do cuidado de todas as pessoas. É importante que se debata e que se converse sobre isso. E faremos", afirmou.
Leia, a seguir, a entrevista concedida por telefone.
*
UOL – Como a CNBB avalia a reforma da previdência defendida pelo governo do presidente Michel Temer?
DOM LUCIANO STEINER – 
Temos várias observações que já expressamos aos deputados, por meio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e também ao presidente Michel Temer, mas falamos disso explicitamente em uma nota.
A primeira preocupação é a necessidade de um debate com a sociedade. Uma reforma dessas não pode ser algo que o Executivo envie à Câmara e, depois, ao Senado, para que, após, se decida --ainda mais quando se envolvem milhões de pessoas.
Outra preocupação é sobre quais os dados reais, qual a dinâmica da Previdência, seja a Previdência Social, seja também a que envolve os funcionários públicos. É preciso colocar a sociedade a par, porque, sabendo do que se trata, não se negará a buscar, também, soluções para os problemas.
E há outra preocupação de que um dos argumentos é de que essas reformas "precisam sinalizar ao mercado". Ora: é o mercado que importa ou o cidadão e a cidadã brasileira que são importantes?
E como fica essa reforma em relação aos povos indígenas? Como ela fica para o agricultor familiar? Os povos indígenas e todas as pessoas, o Estado tem obrigação de assistir na velhice. Simplesmente colocar homens e mulheres no mesmo patamar da aposentadoria é não levar em consideração a jornada dupla ou tripla por parte da mulher. Ela tem algumas responsabilidades maiores do que tem o homem.
Além disso, exigem determinado tempo de trabalho mesmo para determinadas profissões que são muito exigentes, como professor. Ou mesmo o agricultor. Nasci em uma família de agricultores –como esperar que alguém chegue aos 65 anos [mínimos, para se aposentar] de sol a sol, após uma vida marcada também por decepções com as colheitas? São várias as questões que precisariam ser aprofundadas. Mas a maior preocupação nossa é como o Estado deve cumprir sua responsabilidade com as pessoas idosas, mas também as que se aposentam e não têm determinada assistência. Também as pessoas que sofrem acidentes, ou as que nascem com dificuldades de locomoção ou intelectuais.
Por que não discutir abertamente com a sociedade temas como esses, mas sem se preocupar em sinalizar apenas para o mercado, e sim, preocupado com o cidadão? Não é possível, a partir de um gabinete, determinar o que um cidadão pode ou não.
UOL – O senhor sente que se tenta aprovar essas medidas sem que a sociedade seja ouvida?
STEINER – Essa não é só uma sensação, é algo real. Tanto que esta havendo manifestações em que as pessoas querem ser ouvidas, elas querem participar. Acho que todo mundo entende que haja uma necessidade de determinadas mudanças. Mas não pode ser algo elaborado por um pequeno grupo. E por que não discutir os altos salários, as altas aposentadorias? Por que não incluir todo mundo no debate? Creio que isso é muito importante, porque estamos falando do nosso futuro.
UOL – Na nota emitida mês passado, contrária às reformas, a CNBB afirmou que "O debate sobre a Previdência não pode ficar restrito a uma disputa ideológico-partidária, sujeito a influências de grupos dos mais diversos interesses." Um trecho como esse cita também bancadas como a da bala e a evangélica no Poder Legislativo?
STEINER – Não estamos falando dessas bancadas, especificamente. Estamos falando de pessoas que tenham interesse de facilitar o mercado em detrimento do cidadão. É uma questão ética. A Constituição Federal de 1988 colocou uma questão muito importante: criou uma espécie de solidariedade social com a Previdência. Sentimos que essa solidariedade social dentro dessa nova proposta está sendo rompida.
UOL – E qual o efeito mais imediato desse "rompimento"?
STEINER – Qual a contribuição que podem dar, por exemplo, para as pessoas que vivem de uma cultura de subsistência? Ainda não temos incluídas na Previdência todas as pessoas. Tivemos o acréscimo de 13 milhões de pessoas que estavam fora da Previdência Social, mas, com a Constituição, devagar, foram sendo incluídas. Com a nova reforma, temos a sensação de que elas serão completamente excluídas. Temos povos indígenas e outros pequenos que ainda não têm contato com a sociedade --e como serão inseridos? Como essas comunidades distantes, como os quilombolas, serão inseridas? Existe um corte muito claro da solidariedade social.
UOL –  "Mais que apoio político, é preciso apoio humanitário" às reformas, salientou esta semana o presidente da CUT, Vagner Freitas, depois de se reunir com a CNBB para falar sobre as reformas em curso. Na prática, o que isso vai significar?
STEINER – É preciso apoio humanitário no sentido de haver solidariedade social: o Estado deve cuidar dos mais frágeis e assistir as pessoas. Se em uma família nasce uma criança que tenha necessidades especiais, por exemplo, pode ser que, até determinado tempo, essa família dê conta dessa situação. Se não conseguir, o Estado terá que suprir, isso é uma questão de humanidade. Mas também é preciso fazer a diferenciação entre homem e mulher na questão de idade mínima, bem como às profissões que têm uma exigência maior, e não só pelo aspecto da insalubridade. Exigir de todos dentro de uma mesma regra demonstra falta de solidariedade social.
Isso está expresso também no fato de que não se pode pensar na Previdência apenas como contribuição do trabalhador e da cota patronal. O Estado, na coleta que faz de impostos, também tem uma obrigação. Isso eu também chamo de solidariedade social. Não se pode pensar simplesmente que a contribuição do trabalhador e a cota patronal serão suficientes para assistir tantas pessoas. É claro que não serão suficientes. É preciso criar então outros mecanismos que ajudem nessa solidariedade social.
UOL – De que maneira a CNBB considera que é preciso "movimentar a sociedade" em relação às reformas, como dirigentes da entidade colocaram, publicamente, nos últimos dias?
STEINER – Debatendo isso, o que já está acontecendo, hoje, por exemplo, pelo diálogo nas comunidades e nas audiências públicas em diversos municípios. Buscamos criar consciência e levar as pessoas a perceberem as dificuldades dessa reforma e propor, de outro lado, soluções. Não vemos, aliás, nenhum problema de que pessoas se manifestem sobre isso, publicamente, nas ruas. Aliás, são importantes as manifestações para que o Congresso e o Executivo percebam que a sociedade está atenta agora, e não apenas em relação às eleições de 2018.
UOL – O presidente da CNBB, Dom Sergio da Rocha, afirmou em entrevistas que o tema das reformas precisa ser debatido nas comunidades, mas deixou a forma como isso será feito a critério dos bispos diocesanos. O senhor vê com bons olhos um padre abordar criticamente a reforma em uma missa, por exemplo?
STEINER - Sugerimos aos bispos para lerem a nota da CNBB [sobre a reforma da previdência] nas missas. Não é uma posição político-partidária, mas política, no sentido da polis, do cuidado de todas as pessoas. É importante que se debata e que se converse sobre isso. E faremos. É importante lembrar, aliás, que a própria lei impõe restrições à atuação político-partidária dentro das igrejas. Mas abordar questões tão importantes sobre a questão do trabalho, da previdência, e outras, como aborto, têm a ver com política, só que no sentido do bem comum. Aqui não se está atacando o governo, mas se está atacando propostas – e dialogando sobre propostas. Acho que é bem diferente.
UOL – Há alguma conversa entre a Igreja Católica e outras religiões sobre essas reformas?
STEINER – Não temos nada estabelecido nesse sentido, nada oficial, ainda que haja, claro, um diálogo entre as religiões. Mesmo porque várias igrejas têm tomado essa iniciativa também e emitido notas, como fizemos.
UOL - Em que ponto se verificou a necessidade de a Igreja chamar para si essa articulação – lembrando que a CNBB tem se reunido, nos últimos dias, com entidades como a CUT e outras centrais sindicais?
STEINER –A CNBB é procurada para debater muitos temas, não se recusa a receber ninguém --inclusive quem tem posições contrárias. Nesses momentos de maior tensão muitas entidades e pessoas nos procuram. Claro que isso ajuda a refletir, e tudo o mais. Mas em se tratando de temas que envolvem os mais pobres e os mais fragilizados, temos nos manifestado e procurado dialogar com Executivo e Congresso. Sempre temos feito isso.
UOL - As reformas do governo Temer podem pautar de alguma forma a Assembleia Geral da CNBB [que acontece de 26 de abril a 5 de maio]? Como será a participação da entidade, este ano, nos eventos do 1º de Maio, que devem ter um contorno político forte por conta das reformas?
STEINER – A pauta e os temas das assembleias são sempre preparados com antecedência; as notas e manifestações são decididas no início. Mas sempre temos nos manifestado como CNBB para o 1º de Maio. Certamente acontecerá de novo este ano, da mesma forma que vai haver uma manifestação dos bispos na assembleia sobre as reformas.
UOL – Ao se referir à reforma, a CNBB tem se mostrado preocupada com aqueles que ficam expostos à vulnerabilidade social e chegou a defender que "nenhuma solução para equilibrar um possível déficit pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários." Nesse contexto, como a entidade avalia o cenário atual de polarização política no país, e em que medida discursos como o do deputado Jair Bolsonaro, que se coloca pré-candidato à Presidência, mas que, em declarações recentes, fez ataques à figura da mulher e do negro, contribui ou não para isso?
STEINER – Creio que, em relação à reforma da Previdência e outras reformas, não existe muita polarização. E acho que a polarização está diminuindo cada vez mais. Existe uma tensão crescente, mas não na sociedade: é uma tensão no sentido de que essa reforma, do jeito que está, não deve passar.
Penso que sobre a polarização politica, existe hoje, de um modo geral, mais possibilidade de diálogo.
Sobre os discursos, internamente ainda não conversamos oficialmente sobre isso. Mas é claro que todas as declarações que levam ao descarte das pessoas ou ao preconceito nunca são convenientes a um debate político --isso prejudica a própria política, que é muito importante. Vemos crescer um preconceito contra a política, mas ela é necessária até como elemento que ajude na construção da harmonização social.

O BRASIL SOB A DITADURA FINACEIRA

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA! ASSIM DEVE SER DEFINIDO O "SUCESSO" DA POLÍTICA FISCAL DO GOVERNO BRASILEIRO - E DE OUTROS PAÍSES DO MUNDO NEOLIBERAL. COMO ACEITAR QUE SÓ O CAPITAL FINANCEIRO SEMPRE GANHE, E MUITO, ENQUANTO SE COBRA "SACRIFÍCIOS" DO POVO? 

O Brasil sob a ditadura financeira
170407-Meirelles
Henrique Meirelles, ministro da Fazenda
A leitura deste texto consumirá, em média, nove minutos. Enquanto você o percorrer, o Estado brasileiro terá transferido aos banqueiros, mega-empresas e super-ricos, R$ 8,72 milhões — ou 776 anos de salário mínimo. Veja por quê
Por Paulo Kliass*, na Carta Maior
O Banco Central (BC) acaba de divulgar seu Relatório Mensal sobre a Política Fiscal do governo brasileiro. Dentre as inúmeras informações relativas ao desempenho da equipe econômica no campo da administração da questão fiscal, vale a pena destacar os números que retratam o comportamento das despesas financeiras da administração pública federal.
De acordo com o levantamento apresentado pelo BC, ao longo do mês de fevereiro, o valor referente ao total de juros pagos pelo governo atingiu o montante de R$ 30,7 bilhões. Isso significa que, no acumulado dos últimos 12 meses, a União transferiu ao setor financeiro um volume de R$ 388 bi, em razão dos compromissos assumidos com cada uma das muitas modalidades do extenso cardápio que compõe o estoque de títulos de nossa dívida pública.
É bem verdade que tais números foram reduzidos em comparação ao ocorrido em 2015 e 2016, quando as despesas financeiras chegaram a atingir o total de R$ 502 bi e R$ 408 bi, respectivamente. O problema, no entanto, refere-se ao fato de a economia brasileira estar imersa em uma recessão profunda, a maior e mais grave de nossa História. Assim, o levantamento histórico evidencia que a única variável que se manteve constante ao longo das últimas duas décadas na condução da política econômica foi o saldo positivo de transferência de recursos orçamentários para o cumprimento das obrigações financeiras do governo federal.
Um dos aspectos mais paradoxais desse fenômeno reside no tratamento absolutamente desigual que o comando da economia confere aos diferentes tipos de gasto público. O ministro da Fazenda e seus subordinados enchem a boca com muito orgulho para exibir as informações de um suposto “sucesso” obtido nos cortes de verbas e nos contingenciamentos das rubricas do Orçamento nas áreas sociais e nos investimentos a serem realizados pelo Estado. Esse tem sido um dos principais fundamentos da política macroeconômica desde a edição Plano Real em 1994. A garantia do compromisso assumido junto ao mercado financeiro é sempre considerada como variável “imexível” do modelo.
A tentativa de conferir ares de normalidade a tamanha excrescência em termos de implementação de políticas públicas recebeu o nome pomposo de “superávit primário”. Esse foi o artifício jurídico e conceitual utilizado pelos defensores dos interesses do sistema financeiro para justificar perante a sociedade o tratamento escandalosamente regressivo e injusto que passou a ser dado aos gastos de natureza financeira frente aos demais gastos do setor público. Assim, tal determinação passou mesmo a ser objeto de obrigação legal, segundo as regras da Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei Complementar nº 101/2000.
Ocorre que todo esse rigor e a consequente austeridade que passam a ser exigidos – até mesmo em termos de compromisso formal na condução da política fiscal – não se aplicam às despesas financeiras, aquelas derivadas do pagamento de juros da dívida pública. Ao se jactar do esforço hercúleo para assegurar a geração de um saldo superavitário nas contas primárias do governo, os responsáveis pela economia apenas se esquecem de confirmar ao restante da sociedade que nada mais patrocinam senão a transferência serena e tranquila de recursos públicos diretamente para os cofres do sistema financeiro. Pode até parecer estranho ou exagerado, mas é simples assim.
Essa abordagem ganhou tinturas de santidade, a ponto de ser qualificada como heresia qualquer tentativa de sequer cogitar a respeito de alguma condução heterodoxa ou alternativa nesse domínio. A consolidação de tal hegemonia chegou a obter ares de unanimidade a partir de 2002, quando o então candidato Lula anunciou a famosa “Carta ao povo brasileiro” durante a sua campanha às eleições presidenciais. A partir da leitura do documento, é possível confirmar a opção pela manutenção do “status quo” em termos da política econômica comandada pelo financismo:
(…) “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” (…)
(…) “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos.’ (…) [grifo nosso]
A preservação intocável desse regime é um dos principais fatores que ajudam a explicar a hipertrofia do financismo em nossa sociedade. Não por acaso, os bancos fazem parte do seleto grupo de empresas que não foram afetadas pela crise que o Brasil atravessa há mais de dos anos. O setor real da economia vem experimentando o drama social e econômico da recessão, do desemprego e das falências, ao passo que a banca continua a exibir seus balanços periódicos com lucros bilionários de forma sequencial e ininterrupta. O atual governo pós-golpeachment avançou ainda mais, introduzindo a obrigação de se respeitar o dogma do superávit primário na própria Constituição, a partir da Emenda Constitucional n° 95/2016.
O discurso oficial que alardeia o catastrofismo fiscal está na base de medidas como a referida emenda, que congelou as despesas sociais pelo prazo de vinte anos. Essa mesma narrativa do suposto estágio do pré-caos chantageia a sociedade e exige ainda mais sacrifícios da maioria do povo com a contra-reforma previdenciária e a contra-reforma trabalhista. A postura dramática oficial chega a números de um contingenciamento de várias dezenas de bilhões de reais contas do orçamento federal e impõe ainda mais cortes em áreas onde as despesas seriam parte da solução para a crise atual.
O único setor que não é chamado a colaborar para superar o momento difícil que o País atravessa é justamente o financismo. Afinal, a permanência longeva da ditadura do superávit primário manteve intocáveis os privilégios desse ramo da economia. De acordo com informações da própria Secretaria do Tesouro Nacional, ao longo das últimas duas décadas, o total de despesas com pagamento de juros promoveu a drenagem de R$ 4,3 trilhões a valores atuais dos cofres da União para o coração do sistema financeiro. Se o ponto de corte for o início de 2003, o total ainda assim é impressionante: foram R$ 3,5 tri ao longo do período. Mas esse tipo de recurso não é objeto de contingenciamento. Pelo contrário, todas as outras áreas são chamadas a cortar na própria carne para que sobrem recursos para o superávit primário.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

SAÍDA ESTÁ COM ECONOMIA SOLIDÁRIA

ESSE CARA, STIGLITZ, JÁ FOI ALTO ASSESSOR DO BANCO MUNDIAL E DO GOVERNO ESTADUNIDENSE, MAS MUDOU DE LADO E TORNOU-SE CRÍTICO DO NEOLIBERALISMO, DE MODO ESPECIAL DOS ERROS DO RECEITUÁRIO DO FMI. E AGORA, AVANÇA E RECONHECE A IMPORTÂNCIA DA ECONOMIA SOLIDÁRIA - NA VERDADE O CAMINHO PARA UMA ECONOMIA A SERVIÇO DE TODAS AS PESSOAS.

Stiglitz ressalta papel da Economia Solidária
170403-Stiglitz
Busca de alternativas ao neoliberalismo e à mercantilização comove o Prêmio Nobel. Para ele, é hora superar as lógicas baseadas no egoísmo e desigualdades
Por Paulino Ascenção, na Esquerda.net

Para matéria mais vasta sobre a fala de Stiglitz, leia texto no Cooperative News (em inglês)
O prêmio Nobel da Economia em 2001 foi o orador principal na Cimeira da Aliança Cooperativa Internacional de 2016, realizada no Quebec, Canadá de 11 a 13 de outubro e que reuniu mais de 3.000 delegados de todo o mundo.
Na sua apresentação, falou dos desafios chave que a economia global enfrenta e o papel das cooperativas na resposta aos mesmos. Disse que em paralelo com as mudanças na paisagem política, como o Brexit e as eleições nos EUA, o mundo enfrenta desafios económicos que escapam ao controlo quer dos indivíduos, quer até dos governos. “Estes são problemas que o setor privado não vai resolver – em parte porque foi o setor privado que os criou”, disse Stiglitz. “E as cooperativas e a economia social representam um terceiro pilar fundamental”.
Muitos países estão registrando um crescimento das desigualdades, o que é resultado de leis humanas. “A desigualdade crescente é o resultado do modo como nós estruturamos a economia de mercado – em particular como a reestruturamos no último terço de século. A desigualdade tem sido uma escolha”, disse.
“As cooperativas representam uma melhor forma de responder aos riscos apresentados pela sociedade. (…) Devemos aprender com as cooperativas, se o fizermos podemos remodelar a nossa economia, remodelar a globalização e quem nós e os nossos filhos somos”
Há alternativas ao sistema econômico atual, ao contrário do que muitos dizem. Alguns sugerem que no máximo precisamos de pequenos ajustes no sistema, mas os problemas são profundos e fundamentais, os pequenos remendos não os resolverão.
“Estas alternativas fazem uma grande diferença, acredito que podemos construir um mundo onde a economia funciona melhor para todos, baseada na solidariedade”. “Vai haver grande volatilidade e as cooperativas são mais capazes de lidar com os riscos do que o setor privado”, foram outras considerações que deixou.
Jean-Yves Duclos, ministro da Família Crianças e Desenvolvimento Social do Canadá, presente no mesmo painel, concordou que as cooperativas podem ajudar a promover a inclusão e a construir uma democracia mais forte. Ele vê as cooperativas como atores particularmente importantes na satisfação das necessidades de habitação dos canadianos.

sexta-feira, 31 de março de 2017

CHINA E EUROPA SE ALIAM NA LUTA CLIMÁTICA CONTRA TRUMP

IHU, 31 Março 2017

Pequim e Bruxelas estão dispostas a liderar a batalha contra o aquecimento global, apesar da ausência dos EUA

Donald Trump ganhou as eleições —o mesmo que chamou a mudança climática de “conto chinês”— ficou evidente que os EUA não liderariam a luta contra o aquecimento global. Essa previsão foi confirmada na terça-feira, quando anulou o planejamento ambiental de Barack Obama, que juntamente com a China conduziu as negociações para fechar o Acordo de Paris em 2015. Apesar de Trump, a China e a Europa estão dispostas a avançar e a liderar essa batalha. E, apesar de Trump, nem tudo está perdido dentro dos EUA na luta climática.
A reportagem é de M. Planelles, publicada por El País, 30-03-2017.
Os programas da Administração anterior cancelados por Trump almejavam que os EUA pudessem cumprir as metas às quais se comprometeram quando o país assinou o Acordo de Paris: reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 26% e 28% em 2025 em comparação com as de 2005. O comissário europeu responsável pela ação climática, Miguel Arias Cañete, lembrou nesta quinta-feira que com a ordem executiva de Trump os EUA ficam sem as “principais ferramentas” para atingir essas metas. “Deixam claro que não alcançarão seus objetivos”, acrescentou em Pequim, onde se reuniu com as autoridades chinesas.
A Casa Branca anunciou na quinta-feira que em maio decidirá se sai ou não do pacto de Paris. “Não podemos esperar a mesma liderança da Administração norte-americana”, disse Arias Cañete. Mas a Europa e a China continuarão “olhando para frente”. O comissário reconheceu o “momento crítico” que se atravessa, razão pela qual a UE e a China devem assumir a “liderança”. Pequim manifestou categoricamente seu apoio ao Acordo de Paris. “A China não mudará a sua determinação, seus objetivos e sua política em matéria de mudança climática”, disse na terça-feira o porta-voz do Ministério do Exterior, Lu Kang.
Por enquanto, Bruxelas e Pequim reativaram o diálogo sobre energia —paralisado desde 2013— para aumentar a cooperação em redes de transmissão de energia, inovação tecnológica, energias renováveis e aumento da eficiência. E, de acordo com Arias Cañete, a mudança climática desempenhará papel fundamental na cúpula anual entre a UE e a China, que acontecerá em junho, em Bruxelas.
A China e a UE também fixaram metas de redução no Acordo de Paris, como os cerca de 200 países signatários. As reduções previstas nesse pacto internacional, que serão aplicadas a partir de 2020, são voluntárias, ou seja, cada Estado estabelece suas metas. A contribuição da China —país que mais emite gases de efeito estufa— é bastante pequena quando comparada, por exemplo, com a europeia. O argumento de Pequim é que eles não fazem parte do grupo de países ocidentais que desencadeou o problema da mudança climática depois de décadas de emissões de CO2. O compromisso chinês é atingir o pico de emissões em 2030 e reduzi-las a partir daí. Os analistas acreditam que esse pico chegará antes, graças ao abandono do carvão e ao avanço das energias renováveis. Isso aconteceria em 2025, de acordo com um relatório da London School of Economics.

Compromisso europeu

O objetivo da Europa — que desde que os EUA abandonaram o Protocolo de Quioto, em 2001, lidera os esforços climáticos internacionais— é dos mais altos: uma redução de 40% em 2030 em relação aos níveis de 1990. Embora dentro da UE existam tensões agora que está sendo negociada a divisão dos esforços entre os países e os instrumentos para atingir o objetivo global.
Suécia, Alemanha e França, de acordo com um recente relatório do Carbon Market Watch, pressionam para que haja um desenvolvimento ambicioso das políticas climáticas. Enquanto outro bloco, cuja cabeça visível é a Polônia, rema na direção oposta.
China, EUA e Europa respondem pela metade das emissões de gases de efeito estufa do planeta. E sem os esforços dos Estados Unidos —responsável por cerca de 15% das emissões globais— seria muito difícil cumprir o objetivo de Paris: reduzir os gases de efeito estufa para que o aumento da temperatura no fim do século não ultrapasse 2 graus em relação aos níveis pré-industriais.
A pergunta que muitos analistas fazem agora é saber se a ordem assinada por Trump enterra a luta climática em seu país. “Há uma tendência [de redução de emissões] que não depende de Washington”, diz David Robinson, consultor e membro do Oxford Institute for Energy Studies. “A redução das emissões desde 2008 não aconteceu por causa da política de regulamentação”, acrescenta. Isso foi explicado, há uma semana, pela Agência Internacional de Energia: em 2016, as emissões dos setores energético e industrial dos EUA caíram 3%; a causa é o aumento do uso do gás —que polui menos que o carvão, cujo uso Trump quer voltar a incentivar, e mais barato graças ao fracking—e das energias e renováveis.
A Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) trouxe mais um dado na quinta-feira: em 2016, a capacidade de geração de energia renovável nos EUA cresceu 10,4% em relação a 2015. Entre 2007 e 2016, a instalação de energias renováveis no país dobrou, impulsionada pela redução de custos das tecnologias solar e eólica. “Não veremos agora um boom de investimentos em carvão”, prevê Robinson, que lembra as resistências que Trump terá de enfrentar do âmbito financeiro, dos Estados e da sociedade.
“A China tem interesse, também por razões de imagem, em dar um impulso à liderança climática”, avalia Robinson sobre a aliança entre Bruxelas e Pequim. De fato, a China lembrou na última cúpula do clima que aconteceu em Marrakesh, que o país não havia inventado a mudança climática, como afirmou Trump.
O poder dos Estados em EUA

39 dos 50 Estados dos EUA têm planos que exigem um aumento da porcentagem de energias renováveis em seu setor elétrico, afirma um relatório da organização Clean Energy Canada apresentado na quinta-feira. E esses Estados, afirma o relatório, são governados por republicanos e democratas. “O apoio às energias limpas é bipartidário”, acrescenta o estudo.
O especialista David Robinson vai na mesma direção: “Existe um impulso às energias renováveis que vem dos Estados e das cidades, com programas e objetivos. E isso não vai parar”. Também existe, acrescenta, o fator empresarial. “As multinacionais têm uma política a favor do abandono do carvão”. “A esperança são os Estados”, afirma Ignacio Pérez Arriaga, diretor da Cátedra BP de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Comillas e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Mas este especialista é menos otimista: “A política de Trump tornará impossível que os EUA cumpram seus objetivos e o Acordo de Paris”. E menciona os “declarados céticos” sobre a mudança climática que Trump colocou em postos-chave de seu Governo.
http://www.ihu.unisinos.br/566338-china-e-europa-se-aliam-na-luta-climatica-contra-trump