quarta-feira, 23 de setembro de 2015

AVANTE GRANDE POVO GUARANI DA AMÉRICA DO SUL!

Em abertura do IV Encontro Continental, Nação Guarani decide denunciar governo brasileiro ao parlamento do Mercosul

Inserido por: Administrador em 22/09/2015.
Fonte da notícia: Por Clóvis Brighenti e Diego Pelizzari, Cimi Regional Sul
Ao som de mbaraká, mbaraká mirin sintonizados aos cantos sagrados, a fumaça vivificante dos petinguá e profunda reza, iniciou na tarde desta segunda-feira, dia 21, o IV Encontro Continental Guarani, reunindo lideranças desse povo presentes na Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai. São centenas de homens e mulheres das diversas idades que se colocaram à disposição dessa grande nação que é o segundo maior povo do Cone Sul da América com mais de 250 mil pessoas para, ao longo de 5 dias, estabelecer as diretrizes de fortalecimento do povo, sua territorialidade e para melhorar a incidência nas políticas públicas, especialmente no que tange a conquista das terras.
O IV Encontro está acontecendo no tekoa Ka’akupe, município de Ruiz de Montoya, província de Misiones (AR), local central do grande território da Nação Guarani. Inspirados pelo tema “Yvy mara´ey: territorio, justicia y libertad”, os Guarani enfrentam grandes desafios em todos os estados nacionais, com graves violações de direitos. A violência a que estão submetidos pouco se difere em cada estado.
No caso do Brasil, os Kaiowá do Mato Grosso do Sul, com o apoio da organização continental, pretendem denunciar o governo brasileiro perante o parlamento do Mercosul pela omissão do governo brasileiro na demarcação das terras tradicionais que acabam gerando assassinatos de suas lideranças.Os Guarani do Paraguai irão agregar à denúncia o caso da monocultura da soja, que destrói seu habitat tradicional. No caso da Bolívia, apesar da existência de um presidente indígena, há muito que avançar na conquista dos direitos e do respeito porque sabem que o Estado boliviano precisa ser mudado. No caso dos Guarani da Argentina, a falta de terras e os grandes projetos de “desenvolvimento” continuam sendo as principais ameaças à sua sobrevivência e pretendem denunciar durante o encontro.
Com o objetivo de enfrentar todos esses desafios o IV Encontro Continental quer ser um espaço de estímulo e fortalecimento do Conselho Continental da Nação Guarani (CCNAGUA), criada em 2010 durante o III Encontro Continental. Uma organização política cultural horizontal, com representantes de todos os Guarani das diversas regiões, chamados de estados nacionais. Superar o conceito artificial de fronteiras e fortalecer a territorialidade será o grande desafio do encontro.
O primeiro encontro continental foi organizado em 2006, em São Gabriel (RS), em memória da luta e resistência dos Guarani missioneiros, que lutaram em defesa de seu território enfrentando os exércitos de Espanha e Portugal em meados do século XVII. Em 2007, focado na dimensão territorial, ocorreu o segundo encontro na cidade de Porto Alegre. Já em 2010, ocorreu o terceiro encontro, na cidade de Assunção, capital do Paraguai, sob o tema “Superação das fronteiras e organização política”.
A escolha da data desse terceiro encontro tem a ver com o ara piau (tempo novo) no calendário Guarani, época de lançar a boa semente na terra para colher bons frutos.
http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8355&action=read 

CPI DO CIMI NO MATO GROSSO DO SUL: PARA ESCONDER OS CRIMINOSOS?

ABSURDO DOS ABSURDOS: COM TODOS OS DADOS QUE ATÉ AS PEDRAS CONHECEM, É ABSURDA A DECISÃO DE CRIAR UMA CPI NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA PARA INVESTIGAR UMA DAS ENTIDADES AMIGAS DOS POVOS INDÍGENAS. TOMARA QUE O TIRO SAIA PELA CULATRA: QUE ELA SIRVA, COMO ESPERA O CIMI NA DECLARAÇÃO QUE SEGUE, PARA MOSTRAR AO BRASIL E AO MUNDO QUEM SÃO OS CRIMINOSOS, E MAIS, QUE CRIE UMA MOBILIZAÇÃO INTERNACIONAL EM FAVOR DE UMA MORATÓRIA DA EXPORTAÇÃO DAS COMMODITIES QUE CARREGAM SANGUE INDÍGENA, E ISSO ATÉ QUE OS TERRITÓRIOS INDÍGENAS GUARANI E KAIOWA SEJAM DEMARCADOS E GARANTIDOS, COMO MANDA A CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. 

ESPALHEM ESTA NOTÍCIA E MANIFESTEM SOLIDARIEDADE AO CIMI E APOIO AOS POVOS INDÍGENAS DO MS.

“Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus” (MT 5, 10).

O Conselho Indigenista Missionário lamenta que a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul (MS) perca seu tempo com uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a ação missionária da entidade junto aos povos originários.

A CPI em questão faz parte da estratégia de ataques ruralistas aos povos indígenas e seus aliados. Proposta pela fazendeira e deputada estadual Mara Caseiros (PTdoB) e subscrita por outros deputados fazendeiros, a Comissão foi criada, por Despacho assinado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Junior Mochi (PMDB), e publicado na sexta-feira, 18 de setembro, no Diário Oficial.

No Mato Grosso do Sul, uma parte dos fazendeiros e seus jagunços tem atuado através de milícias armadas que, em menos de um mês, desferiu mais de dez ataques paramilitares contra o povo Guarani Kaiwá dos Tekohá Nanderu Marangatu, Guyra Kamby’i, Pyelito Kue e Potreiro Guasu. Como resultado deste intenso período de terror, o líder Guarani Kaiwá, Semião Vilhalva, foi assassinato, três indígenas foram baleados por arma de fogo, vários foram feridos por balas de borracha e dezenas de indígenasforam espancados. São fortes também os indícios de que indígenas sofreram tortura e há denúncias da ocorrência de um estupro coletivo contra uma Guarani Kaiowá.

Nos últimos 12 anos, ao menos 585 indígenas cometeram suicídio e outros 390 foram assassinados no Mato Grosso do Sul. O estado tem 23 milhões de bovinos que ocupam aproximadamente 23 milhões de hectares de terra. Enquanto isso, com os procedimentos de demarcação paralisados, os cerca de 45 mil Guarani Kaiowá continuam espremidos em apenas 30 mil hectares de suas terras tradicionais.

Num estado onde ocorrem estes alarmantes casos de violências contra os povos indígenas, certamente há muito a ser investigado e denunciado. No entanto, não é o Cimi o causador desta situação. Por isso, não é investigando e tentando criminalizar o Cimi que serão encontradas soluções para esta situação que se alonga ao longo da história.

Neste sentido, entendemos que a “CPI do Cimi” abrirá oportunidades para repercussão, nacional e internacional, dos crimes cometidos pelo agronegócio e pelo estado sul mato-grossense contra os Guarani Kaiowá e demais povos originários daquele estado. A CPI será um momento propício para identificar e expor o nome das empresas, muitas delas multinacionais, que investem e lucram com a exportação de commodites agrícolas, tais como, carne bovina, açúcar de cana, agrocombustíveis, soja, dentre outros, produzidos no Mato Grosso do Sul.

Avaliamos que a CPI poderá também servir para dialogar com cidadãos de outros países, que consomem estes produtos. Será importante que as pessoas saibam, por exemplo, para onde é vendida e quem consome a carne dos bois que são engordados pisoteando a terra sagrada e manchada com sangue indígena no Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, com os demais aliados dos povos indígenas, poder-se-á identificar e explicitar aqueles que financiaram as campanhas milionárias dos fazendeiros que se elegeram e ocupam cargos nos poderes Legislativo e Executivo no estado.

Todo investimento financeiro no agronegócio sul mato-grossense alimenta o ódio ruralista e a morte de indígenas naquele estado. Por isso, como medida urgente e estruturante para solução de conflitos e superação deste quadro social estarrecedor, o Cimi entende que se faz necessário, e reforçará, a incidência internacional a fim de que se estabeleça, por parte de outros países, uma “moratória das importações de commodittes agrícolas produzidas no MS” até que as terras indígenas sejam devidamente demarcadas e devolvidas aos povos originários pelo Estado brasileiro.

No Mato Grosso do Sul, o agronegócio controla significativas fatias de poder do estado oficial e age também por meio de um “estado paralelo” atentando contra a vida dos povos originários e de seus aliados. Oxalá a “CPI do Cimi” possa servir para que o mundo saiba mais sobre o sofrimento dos povos indígenas e de como eles almejam Bem Viver, a Vida Plena (conf. Jo 10,10) no Mato Grosso do Sul.

Brasília, DF, 21 de setembro de 2015
Conselho Indigenista Missionário – Cimi

AGENDA DA ONU REVELA: ESTAMOS EM APUROS

OFEREÇO A ENTREVISTA DO SR. ACHIM STEINER, DIRETOR DO PNUMA - O PROGRAMA DA ONU PARA O MEIO AMBIENTE - PORQUE ELE NOS OFERECE UM PANORAMA DOS DESAFIOS QUE TEMOS E DA NECESSIDADE DE ACORDOS E DA MOBILIZAÇÃO DE TODAS AS FORÇAS DO PLANETA PARA SUPERÁ-LOS. VEJAM COMO OS OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ARTICULAM, PELA PRIMEIRA VEZ, ECONOMIA, QUALIDADE DE VIDA PESSOAL E EM SOCIEDADE E CUIDADO COM O AMBIENTE VITAL DA TERRA. É PRECISO ACABAR, AO MESMO TEMPO, COM A MISÉRIA E COM A ECONOMIA QUE EXPLORA E ESTRESSA A TERRA. É PRECISO QUE A RIQUEZA CONCENTRADA NAS CONTAS DO CAPITAL FINANCEIRO - ... - SEJA APLICADO EM AÇÕES DE MÉDIO E LONGO PRAZO COM O CLARO OBJETIVO DE ALCANÇARMOS, AO MESMO TEMPO, UMA ECONOMIA DE BAIXO CARBONO E UMA CONVIVÊNCIA HUMANA MAIS PACÍFICA.

POR MAIS QUE TUDO ISSO PAREÇA IMPOSSÍVEL, NÃO TEMOS ALTERNATIVA: OU APOSTAMOS AGORA EM AVANÇAR NO MÁXIMO NA DIREÇÃO DESTES OBJETIVOS, OU, COMO NOS LEMBROU ANTÔNIO NOBRE, IREMOS DIRETO PARA O MATADOURO. MELHOR DIZENDO, DIRETO PARA O FORNO, JÁ QUE NÃO CONSEGUIREMOS MAIS CONTROLAR O AQUECIMENTO. 


"A agenda sustentável nos ajuda a reconhecer que estamos em apuros"
JOVANA GIRARDI
24 de setembro de 2-15

Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) fala sobre os desafios dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que serão lançados nesta sexta em Nova York, e da Conferência do Clima da ONU, em Paris


Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – conjunto de 17 metas que todas as nações do mundo vão assinar no fim desta semana em Nova York para pôr em prática até 2030 – vão precisar de um investimento para serem alcançados de US$ 5 trilhões e US$ 7 trilhões por ano. O cálculo é de Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma (o programa ambiental da ONU), que está em São Paulo nesta semana para mobilizar o sistema financeiro e empresarial a embarcar nas metas que visam colocar o mundo em um caminho para terminar a pobreza, proteger o planeta e assegurar a prosperidade a todos.
Em entrevista ao Estado após participar do seminário internacional “Sistema Financeiro, Economia Verde e Mudanças Climáticas”, promovido pela Febraban, onde ele apresentou a conta, Steiner falou sobre os desafios em relação ao chamados ODSs, que devem substituir os objetivos do milênio, e à Conferência do Clima de Paris, que acontece em dezembro e terá de entregar um acordo global para conter as mudanças climáticas.
Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma, a agência para o ambiente da ONU
Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma, a agência para o ambiente da ONU
Três anos após a Rio+20, quando foram apresentados pela primeira vez, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável serão finalmente lançados nesta semana em cúpula da ONU em Nova York. Como o sr. os avalia?
Pela primeira vez todos os países do mundo concordaram com 17 objetivos que definem a agenda do desenvolvimento sustentável da nossa época. Eles são significativos porque são universais. As Nações Unidas por muitos anos disseram que os países em desenvolvimento deveriam ser o foco do desenvolvimento sustentável. Mas desde a Rio-92 e novamente em 2012, na Rio+20, dizemos que o que acontece nos países industrializados é tão importante para a sustentabilidade quanto o que acontece nos países em desenvolvimento. Agora essa universalidade é um princípio central que pela primeira vez vemos reconhecido. A segunda coisa é integração. Pelos últimos 20 anos, nós falamos sobre o econômico, o ambiental e o social como sendo questões relacionadas, mas os tratamos de forma separada. Os novos objetivos têm o DNA da integração. O ambiente está inserido em todos os objetivos, há a dimensão social nas áreas com foco ambiental e ambos conversam com o futuro do desenvolvimento econômico de sucesso. A questão é: o que acontece depois que os objetivos são adotados? Esses objetivos terão de ser incorporados pela sociedade civil, pelos parlamentos no nível nacional, é onde eles vão fazer a diferença. Se eles não forem levados a sério, as questões de desigualdade e falta de sustentabilidade vão ficar cada vez mais problemáticas.
O sr. acredita que o mundo já alcançou a maturidade necessária para alcançar essas metas daqui 15 anos, como está sendo proposto. Aqui no Brasil, mas em várias outras partes do mundo, estamos vivendo uma crise econômica e política, e parece que há pouco espaço para isso. O sr. acha que os países estão prontos para assumir essa nova agenda?
Todas as vezes em que houve uma crise ou momentos desafiadores ao longo da história, a tentação é focar no curto prazo. Mas o que a história nos conta é que países que abraçaram inovações fundamentais e transformadoras, às vezes nos momentos mais críticos, são os países que tiveram mais sucesso. E para o Brasil, sem diminuir a importância das pressões econômicas e de governança que está enfrentando, vale lembrar que os objetivos do desenvolvimento sustentável têm este país como ‘casa’. Nasceram aqui, na Rio+20. Não são objetivos que estão vindo de outro planeta. E eles conversam com vários outros objetivos fundamentais que estão no centro do debate sobre o futuro do desenvolvimento do Brasil. Neste momento, a sociedade civil, o Congresso, o governo, a mídia precisam olhar para esses objetivos como uma oportunidade para o futuro da economia, mas também para o futuro do caminho do desenvolvimento no Brasil. Acho que os ODSs não são uma distração, eles oferecem um importante lembrete de que muitas das crises de hoje são resultado desse pensamento de curto prazo e da falta de transparência e de prestação de contas. Eles são precisamente um antídoto contra esses oportunismos da política do dia-a-dia e da atividade econômica.
Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável oferecem um importante lembrete de que muitas das crises de hoje são resultado desse pensamento de curto prazo e da falta de transparência e de prestação de contas. Eles são precisamente um antídoto contra os oportunismos da política e da atividade econômica.
Quais são os principais desafios dessa agenda?
Dois desafios são particularmente significativos. Primeiro: se os governos vão levar esses objetivos ao nível nacional. Porque objetivos globais são muito abstratos. O primeiro passo crucial é levá-los para o debate dentro dos países para suas discussões sobre desenvolvimento. O segundo desafio é que precisamos aceitar que esses objetivos precisam de investimento e não apenas do governo, mas do setor privado e de organizações da sociedade civil. Ter acesso a energia, assistência médica, fazer uso sustentável dos oceanos e ter um sistema sustentável de produção e consumo, por exemplo, são coisas que não vão acontecer por acidente. Elas precisam de investimento estratégico. E essa é uma das razões pelas quais estamos em São Paulo agora analisando os desafios do sistema financeiro e da economia verde. Porque estamos presenciando um crescente desalinhamento entre a economia real e o “futuro que queremos” (o título do documento que foi gerado na Rio+20) e o sistema financeiro. Nós precisamos lidar com esse fenômeno em que temos hoje o sistema financeiro controlando US$ 140 trilhões somente em ativos nos bancos do mundo, enquanto vemos uma inabilidade dos mercados financeiros e investidores de tecnologia e de infraestrutura de se comunicarem. Se o sistema financeiro está nos puxando para trás e a agenda que estamos tentando estabelecer nos empurra para frente, então temos um problema.
O sr. está discutindo com a Febraban o projeto que o Pnuma fez sobre um Sistema Financeiro Sustentável. Quais foram os resultados?
Uma forma de falar sobre a história desse estudo é dizer: quando percebemos que as mudanças climáticas requerem de nós que descarbonizemos nossas economias e, desse modo, mudar nossa infraestrutura, energia, transporte, edificações, agricultura – literalmente em apenas 50 anos ir de uma economia de alto carbono para uma de baixo – começamos a desenhar a agenda de uma economia verde. A ideia era que poderíamos lidar com questões ambientais ao mesmo tempo em que criamos oportunidades econômicas. Mas muito rapidamente ficou claro que para a economia verde ter sucesso precisamos resolver a questão de financiamento e dos mercados financeiros e de capital. Em primeiro lugar, há distorções na economia de hoje que recompensam quem investe em tecnologias e projetos de infraestruturas que emitem muito carbono ou que são ambientalmente danosas porque, por exemplo, há subsídios em combustíveis fósseis. E é preciso corrigir essas distorções. Em segundo lugar, é preciso redirecionar as despesas públicas também para inovações voltadas para eficiência energética, tecnologias renováveis, mobilidade pública, mobilidade elétrica. Mas no final do dia isso não é suficiente porque talvez só 15% a 20% vai vir de financiamento público. E é aí que podem entrar os mercados financeiros e de capital. Estamos estudando em todo o mundo exemplos de como governos têm trabalhado com mercados financeiros e de capital para trazer grandes incentivos para financiamento verde. Já há uma revolução silenciosa a caminho e o que é interessante é que isso está acontecendo mais nas economias emergentes e em desenvolvimento do que nas economias industrializadas tradicionais. Porque a necessidade de financiamento para o desenvolvimento é muito mais direcionada em muitos desses países. É o que está fazendo a China, com um plano para os próximos cinco anos, que começa em 2016. O país estima mais de US$ 320 bilhões em financiamento verde por ano. Cerca de 15% deve vir de financiamento público e o resto eles terão de mobilizar no mercado financeiro e de capitais. A questão do financiamento verde está emergindo como um motor significativo de políticas e inovação. E o Brasil é uma das economias que vai liderar essa curva de inovação se aceitar essa oportunidade e não apenas pensar nos desafios.
Além do setor financeiro, o sr. vai se dirigir nesta terça à conferência do Instituto Ethos, que reúne outros setores do mundo dos negócios. Um dos pontos da agenda dos ODSs é estimular uma redução do consumo. Como o sr. fala sobre isso com empresários?
A primeira coisa que digo é que se esse setor não tomar cuidado, sua cadeia de suprimentos vai ficar muito volátil e a produção vai ficar muito suscetível a interrupções por conta da escassez de recursos e de flutuações de preços extremas. É só olhar para o mercado de combustíveis fósseis no momento. Não é um conjunto de sinais muito racional da economia global quanto o preço do barril de petróleo pode ir de US$ 140 para US$ 50 e depois subir de novo em menos de dois anos. Isso não é a economia real, isso é a especulação da economia. Agora se os negócios estão confiando só nisso, é provável que sejam pegos de surpresa. E a ligação entre recursos naturais e o nível atual de padrões de produção e consumo apontam para uma significativa restrição de recursos nos próximos anos. Começando por água, terras aráveis, madeira, terras raras. A questão agora não é se preocupar se os negócios vão crescer e aumentar as vendas – porque 3 bilhões a mais de pessoas serão acrescidas aos mercados nos próximos 40 anos. A maior preocupação tem de ser: crescer a eficiência, diminuir desperdício, diminuir poluição. É a primeira coisa para diminuir os riscos, criar cadeias de suprimentos menos vulneráveis e melhor a exposição à percepção do públicos sobre seus produtos. Mas há uma dissociação da forma como crescemos nossas economias em relação ao volume de recursos naturais consumidos e o volume de poluição gerada. Meu argumento é que o mundo dos negócios olhe muito cuidadosamente para as questões das mudanças do ambiente tanto para se informar sobre os riscos para sua cadeia de suprimentos quanto sobre como eles vão se posicionar em relação ao futuro do mercado e o sucesso futuro dos seus negócios.
Se o mundo dos negócios não tomar cuidado, sua cadeia de suprimentos vai ficar muito volátil e a produção vai ficar muito suscetível a interrupções por conta da escassez de recursos e de flutuações de preços extremas.
Como a agenda dos ODSs se conecta com a agenda climática?
Veja que os objetivos do desenvolvimento sustentável não são um atalho para o paraíso. Neste momento estamos lidando com o fato de os custos de muito tempo de inação serão muito altos. O crescimento da desigualdade e da poluição e degradação ambiental ameaçam a resiliência das nossas economias, a coesão social das nossas sociedades e a viabilidade ambiental do caminho para o desenvolvimento econômico. Os ODS são uma agenda para focar nossa atenção nas coisas que vão importar mais nos próximos anos. É uma agenda para o desenvolvimento sustentável que nos ajuda a reconhecer que nós, como uma comunidade global, estamos em apuros. Estamos movendo de uma crise para a outra. Temos a crise econômica no Brasil e em diversos outros países, temos o número massivo de refugiados porque as pessoas estão sendo deslocadas por conflitos regionais. Isso desafia mesmo regiões como a Europa, que era tão bem estruturada e organizada, o que demonstra que estamos mal preparados para as consequências de continuamente ignorar o que está acontecendo – é o que o papa Francisco chamou de “globalização da indiferença”. É um conceito muito poderoso que ele usou ao pedir para que as pessoas não sejam indiferentes a essas coisas porque isso vai nos destruir como sociedades.
O crescimento da desigualdade e da poluição e degradação ambiental ameaçam a resiliência das nossas economias, a coesão social das nossas sociedades e a viabilidade ambiental do caminho para o desenvolvimento econômico. Os ODS são uma agenda que nos ajuda a reconhecer que nós, como uma comunidade global, estamos em apuros.
Daqui a pouco mais de dois meses, todos os países vão se reunir mais uma vez, desta vez para tentar fechar um acordo global contra as mudanças climáticas, durante a Conferência do Clima da ONU, em Paris. O que o sr. acha que deveria ser o resultado da conferência?
Idealmente deveria ser um acordo entre todas as nações que essencialmente nos coloque no caminho de manter o aquecimento da temperatura do planeta em 2°C. Mas lembremos que as negociações sobre as mudanças climáticas são um processo que tem 20 anos. Apesar do ceticismo e das críticas, temos de reconhecê-lo pelo que ele é. Uma obrigação anual para que todos os países sentem-se à mesa, olhem a ciência, olhem a lacuna que temos entre os que estamos fazendo e o que precisamos fazer e tentar, ano após ano, acelerar as ações. Nesse sentido, a Convenção do Clima tem sido lenta, mas está cada vez mais movendo o mundo em direção a um futuro de baixo carbono. Claro que para a ciência, para mim no Pnuma, para muita gente, a mudança da curva do total de emissões de gases de efeito estufa é muito vagarosa, mas ainda não é tarde demais. E Paris será mais um marco em uma jornada. Mas é muito importante porque se falhar, o preço que vamos pagar será extremamente alto. A mensagem a todos nós será de que o mundo não está pronto para trabalhar junto. Para a economia, vai significar que alianças vão seguir o business as usual em termos de emissões, de tecnologia e de infraestrutura. Isso definitivamente vai nos prender em um mundo que vai aquecer muito além dos 2°C. Mas acho que há uma boa chance. Ao olharmos as Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas (as tais INDCs, metas que cada país tem de dizer que sente que pode cumprir para evitar as mudanças climáticas), vemos um número sem precedente de países que estão se comprometendo com ações. São propostas ainda muito aquém de onde precisamos chegar, mas imagine se não tivéssemos chegado nem a isso até o momento. Já estaríamos perdidos. Paris tem a grande chance de produzir um acordo que seja suficiente para nos fazer mover adiante. Sua credibilidade vai depender de os países se comprometerem com um objetivo de longo prazo dessa jornada, que tragam novos passos. Sem isso, os pequenos incrementos nessa batalha que teremos daqui até 2030 ficarão sem sentido.
As contribuições de cada país estão muito aquém de onde precisamos chegar. Mas Paris tem a grande chance de produzir um acordo que seja suficiente para nos fazer mover adiante. Sua credibilidade vai depender de os países se comprometerem com um objetivo de longo prazo dessa jornada, que tragam novos passos. Sem isso, os pequenos incrementos nessa batalha que teremos daqui até 2030 ficarão sem sentido.
O sr. acha que se a COP-21 criar, por exemplo, um instrumento de aceleração dessas metas e um caminho de longo prazo, o fato de as INDCs são serem muito ambiciosas não seria um motivo para ficar preocupado?
Acho que temos de ficar muito preocupados com o ritmo dessas ações, como fomos lentos até agora e como podemos continuar lentos daqui para frente. Acho que cada cidadão, cada membro de Parlamento, cada empresário, cada governante deveria estar preocupado sobre esse lento progresso. Mas acho que temos de ver as INDCs como um sinal de ação, um passo a frente. Paris ainda é a melhor oportunidade para ter a comunidade global inteira agindo. E essa é a fundação para conseguir alcançar alguns mecanismo para revisitar as metas e aumentar a ambição ao longo dos anos. Sim, temos razões para ficar preocupados, eles são pequenos passos diante dos desafios, mas não vamos desistir dos próximos passos. No Pnuma estamos produzindo o Gap Report e seremos muito sérios ao dizer que, desculpe mundo, mas se olharmos para onde precisamos ir, isso aqui é apenas o próximo passo, mas não o destino final.
http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/a-agenda-sustentavel-nos-ajuda-a-reconhecer-que-estamos-em-apuros/


terça-feira, 22 de setembro de 2015

ENERGIA NUCLEAR: MISTURA EXPLOSIVA

VEJAM OS DADOS, QUESTIONAMENTOS, DENÚNCIAS E PROPOSTAS DE CHICO WHITAKER NO ARTIGO QUE SEGUE. DE FATO, ALÉM DE NÃO SER NECESSÁRIA, JÁ QUE O BRASIL TÊM ABUNDANTES FONTES DE FATO SUSTENTÁVEIS E SEGURAS, A ENERGIA NUCLEAR É, DE FATO, "UMA BOMBA", NO SENTIDO POPULAR DESTA EXPRESSÃO. NINGUÉM PODE IMPOR OS RISCOS QUE ELA REPRESENTA. 

CHICO WHITAKER

Em vez de esconder uma ameaça, deveríamos parar imediatamente as obras de Angra 3, rever seu projeto e desmontar a usina Angra 2

Mistura explosiva

A prisão do presidente licenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, lançou novas luzes sobre a corrupção. Nas usinas nucleares, ela é um delito maior que o desvio de recursos públicos. Em Angra 3, por exemplo, a caixa-preta da obra nos diz que, para desviá-los, esqueceu-se a exigência fundamental da segurança.
Essa tecnologia para obter eletricidade se apoia em três mitos, sempre repetidos: é a mais limpa, a mais barata e a mais segura.
Os dois primeiros são facilmente desmontáveis. É limpa uma tecnologia que cria enormes quantidades de lixo radioativo, a ser "escondido" por milhares de anos? É barata se forem somados os custos dos depósitos de lixo, do desmantelamento das usinas ao final da sua validade, das sempre novas exigências de segurança? Custa pouco a assistência às vítimas de acidentes?
O terceiro mito é perigoso. Não existe obra humana 100% segura. Falhas de projeto, de material, dos operadores e interferências externas podem provocar acidentes de gravidade variável.
Há os chamados acidentes severos, com derretimento do reator e explosão da usina, que dispersam no meio ambiente toneladas de partículas radioativas (como o césio-137, 19 gramas do qual apavoraram Goiânia no ano de 1987).
Quem defende o nuclear diz que a probabilidade de acidentes é mínima, pois são muitos os cuidados tomados. Mas podemos afirmar que, se ocorrerem, serão catastróficos –haja vista Chernobil, na União Soviética, em 1986, e Fukushima, no Japão, em 2011. A caixa-preta de Angra 3 revelou que lá tais cuidados não foram tomados, mas sim empurrados para o lado.
O projeto de sua construção (o mesmo da usina Angra 2) é dos anos 1970. Não foi atualizado com as normas de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica após os acidentes de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, e de Chernobil, sete anos depois.
Engenheiros da Comissão Nacional de Energia Nuclear deram o alerta, mas foram calados. Seu parecer técnico foi desconsiderado. O Ministério Público Federal soube disso e fez exigências. Essas dúvidas imporiam uma revisão do projeto, atrasando e talvez até inviabilizando a obra. A resposta foi quase cínica: atenderiam às exigências, mas depois de terminada a obra.
Em maio de 2010, Angra 3 foi licenciada e conseguiu-se arquivar uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que pedia a sua nulidade. Propinas tinham sido pagas desde 2009, antes mesmo da licença. Qual punição merecem os autores de tão tenebroso conluio?
Os jornais criariam pânico se dessem a esse escândalo mais espaço do que a simples notícia de corrupção? Pode ser. Mas os turistas e moradores da região, do vale do Paraíba, do sul de Minas, do Rio e de São Paulo ignoram o perigo de uma explosão das usinas, com ventos levando partículas radioativas a suas casas. Em Chernobil, uma nuvem como essa cobriu a Europa.
Não seria melhor se os potenciais atingidos tomassem consciência disso e agissem para evitá-lo? Em vez de esconder a ameaça, deveríamos parar Angra 3, rever seu projeto e desmontar Angra 2. A usina de Grafenrheinfeld, na Alemanha, referência de ambas, está sendo desmontada, como todas daquele país.
A segurança nuclear é uma exigência ética. Ninguém tem o direito de ignorar os riscos da manipulação do átomo.
CHICO WHITAKER, 84, é membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz e da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares

Folha de São Paulo. Tendências e Debates, 22/09/2015

domingo, 20 de setembro de 2015

E AGORA, SENHORES DE BOIS E BOIADAS?

VAI SENDO DERRUBADA, AOS POUCOS, A IDEOLOGIA E A FESTA DO BOI, CELEBRADAS NAS FEIRAS AGROPECUÁRIAS E NOS GOVERNOS COMPROMETIDOS COM O AGRONEGÓCIO. VEJAM OS DADOS APRESENTADOS NA REPORTAGEM E CALCULEM: SE TODOS OS PREJUÍZOS CAUSADOS PELA PECUÁRIA FOSSEM LEVADOS EM CONTA, ALGUÉM DARIA CONTA DE PAGAR UM BIFINHO? 

Para cada R$ 1 milhão de receita com pecuária extensiva, R$ 22 milhões de impacto ambiental

A latifundiária vaca brasileira traz custos ambientais que, se internalizados, tornariam a pecuária bovina inviável. Um estudo sobre os riscos de financiamento lista a criação de gado como um dos setores de maiores custos de capital natural, com impacto no desmatamento, na degradação do solo e na emissão de gases do efeito estufa — a flatulência bovina está entre as maiores fontes do mundo de metano, um potente gás-estufa.
A reportagem é de Ana Lucia Azevedo, publicada por O Globo, 15-09-2015.
Apresentado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional (GIZ), o relatório “Exposição do Setor Financeiro ao Risco do Capital Natural” analisou 45 setores, incluindo agropecuária, petróleo e gás, cimento, energia, aço, florestas e produtos químicos. Ele recomenda aos bancos e fundos de pensão novas formas de avaliar o risco de investimentos.
Segundo o relatório, para cada R$ 1 milhão de receita da pecuária bovina, são gerados R$ 22 milhões de impactos ambientais, principalmente em desmatamento e emissão de gases-estufa. A presidente do CEBDSMarina Grossi, explica que a proposta do estudo é orientar bancos e outras fontes financiadoras na hora de conceder empréstimos. Ela lembra que a resolução 4.327 do Banco Central, de 2014, determina a responsabilidade pelo risco ambiental tanto por quem pratica quanto por quem financia.
Segundo Marina, a pecuária de fronteiras, que abre caminho no cerrado e na Amazônia, é a de maior risco:
— A vaca latifundiária consome mais água, degrada o solo por mais tempo. Existe tecnologia para mudar isso e tornar a pecuária mais competitiva.
UM ANO PARA RECUPERAR SOLO
O gado destrói o solo bem mais do que parece à primeira vista. Ele não apenas come o capim: pisoteia e arranca a camada fértil da terra. Alcança áreas vulneráveis, como as margens e nascentes de rios, além daquelas de encosta, sujeitas a uma maior erosão. Por isso, projetos de recuperação não são triviais. Precisam se adequar ao bioma, à legislação de cada estado, ao tipo de solo, relevo e clima.
— O solo degradado já perdeu muito de sua capacidade produtiva. Leva pelo menos um ano para recuperar uma área. E é preciso saber que tipo de uso será melhor. Se for uma área plana e capaz de repor a fertilidade, pode ser empregada na integração pecuária-lavoura. Já margens de rios e topos de morro se adaptam mais à regeneração da vegetação nativa — diz Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite.
Se a ideia for recuperar a área para a pastagem, é preciso levar em conta variáveis como a chamada safra do pasto e o manejo genético do gado. E tratar o pasto como qualquer outra cultura.
— Ao mesmo tempo em que você recupera, precisa colocar mais cabeças de gado por hectare. Há tecnologia para isso. Com isso, você aumenta os ganhos e evita desmatar novas áreas — observa Bolfe

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

GARANI E KAIOWA SÃO ATACADOS COM VIOLÊNCIA NO MATO GROSSO DO SUL

QUANDO O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA DEIXARÁ DE SER TRANCADOR DE PROCESSOS DE TERRITÓRIOS JÁ RECONHECIDOS COMO DIREITO DOS POVOS INDÍGENAS? O MINISTRO DEVE SABER QUE ISSO FAZ DELE UM DOS MAIORES RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA E PELA MORTE DOS QUE LUTAM POR TERRITÓRIOS QUE SÃO SEUS. 

ESPALHEM ESTA NOTÍCIA, JÁ QUE TUDO INDICA QUE O GOVERNO SÓ ASSUMIRÁ SUA RESPONSABILIDADE SE FOR FORÇADO POR CIDADÃS E CIDADÃOS QUE RECONHECEM E DEFENDEM OS MODOS DE VIDA E OS DIREITOS COLETIVOS DOS POVOS INDÍGENAS, ENTRE ELES O DE UM TERRITÓRIO EM POSSAM VIVER COM LIBERDADE E SEGUNDO SUAS CRENÇAS E CULTURA.

Assessoria de Comunicação - Cimi

Pistoleiros atacaram na madrugada desta sexta-feira, 18, a comunidade Guarani e Kaiowá do tekoha – lugar onde se é – Pyelito Kue/Mbarakay, localizada no município de Iguatemi (MS). Poucas horas antes, contam as lideranças indígenas, capangas avisaram que “todos seriam mortos”. Os Guarani e Kaiowá estavam a cerca de 200 metros da sede da Fazenda Maringá, retomada na última terça, 15.

De acordo com lideranças de Pyelito Kue, dez indígenas estão feridos, incluindo uma gestante e um rezador – a lista com os nomes dos feridos foi repassada, mas será omitida nesta matéria por razões de segurança. Como em Ñanderú Marangatú, os Guarani e Kaiowá denunciam o uso de balas de borracha no ataque, classificadas como de uso restrito, além das habituais armas de fogo.

Depois do ataque, os indígenas atingidos pelos disparos se refugiaram em uma área vizinha, nas proximidades da Fazenda São Luís. O restante permaneceu na Maringá, garantindo a permanência do povo na retomada. Dessa forma, o grupo Guarani e Kaiowá acabou dividido e não há informações se o estado de saúde dos feridos é crítico.

O Departamento de Operações de Fronteira (DOF) vinha fazendo ‘visitas’ ostensivas à retomada dos Guarani e Kaiowá, que denunciam mais ações truculentas dos policiais: “Pegaram as coisas de todo mundo. Levaram roupa, comida, cataram tudo o que a gente tinha e levaram. Atacaram 10 horas da noite”, afirma uma liderança.

Na terça, o Guarani e Kaiowá explica que “os capangas foram lá (região da retomada) e bateram em uma mulher, mas já a mandaram para o hospital, e foram tudo machucado, machucaram a mulher. Foi pro hospital, em Naviraí. Entraram com as pessoas, capangas do fazendeiro judiaram dela”. Servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmam a agressão. A indígena também passou por exame de corpo de delito no Instituto Médio Legal (IML) de Naviraí e segue acompanhada pelo órgão indigenista estatal. A liderança indígena afirma: “Os capangas são das fazendas Maringá e Santa Rita, uma outra que tem aqui por perto”.

Histórico de violência

Pyelito Kue possui um histórico recente de violências diversas. Em 2012, a comunidade emitiu uma nota pública afirmando que preferiam morrer a deixar a terra indígena. Na época, viviam às margens do rio Hovy, depois de expulsos de retomadas anteriores, e sofriam com decisão da Justiça Federal pela reintegração de posse da área. Com a publicação do relatório de identificação, em 2013, os Guarani e Kaiowá retomaram a Fazenda Cambará, onde ocupavam apenas 100 hectares de um total de dois mil do latifúndio por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Entre março e abril do ano passado, a área retomada foi atacada três vezes por “seguranças” de propriedades incidentes no território. Em uma das ocasiões, tiros de grosso calibre foram disparados contra as moradias feitas de lona. Meses depois, em novembro, Adriano Lunes Benites, de 21 anos, foi alvejado na perna por jagunços de uma fazenda enquanto se dirigia à aldeia.

A terra indígena teve 41.571 hectares identificados como tradicionais pela Funai, no âmbito do Grupo de Trabalho da Bacia Iguatemipeguá, com relatório publicado em 8 de janeiro de 2013 no Diário Oficial da União. Vivem em Pyelito Kue/Mbarakay 1.793 indígenas, conforme dados da Funai de 2008.

Essa terra tem dono!

Nas últimas semanas, os Guarani e Kaiowá dos tekoha Ñanderu Marangatu, em Antônio João, e Guyra Kamby’i, na região de Dourados, também realizaram retomadas e foram atacados de forma violenta por fazendeiros organizados pelos sindicatos rurais. Em Marangatu, Semião Vilhalva foi assassinado durante uma dessas ofensivas. No caso de Guyra Kamby’i, os indígenas foram expulsos das áreas e pressionados a permanecer apenas nos dois hectares em que já viviam confinados.

COM A CONTRARREFORMA, COMO FICA ALUTA PELA REFORMA POLÍTICA POPULAR?

É, NO MINIMO TRISTE, O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO CONGRESSO NACIONAL, NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E NO GOVERNO, EM TODOS OS CAMPOS DOS DIREITOS E DA PRÁTICA DA DEMOCRACIA. ENTRE OS SINAIS DE DEPRAVAÇÃO POLÍTICA ESTÁ O FATO DE QUE, AGORA, SÓ AGORA, O STF ENCERROU A VOTAÇÃO DECLARANDO INCONSTITUCIONAL A CONTRIBUIÇÃO DAS EMPRESAS A PARTIDOS E A CANDIDATOS - EXATAMENTE DEPOIS DA APROVAÇÃO PELA CÂMARA FEDERAL DAS MESMAS CONTRIBUIÇÕES - CONTRARIANDO VOTO DO SENADO E REALIZANDO O OBJETIVO PERSEGUIDO PELO JUIZ GILMAR MENDES AO "PEDIR VISTAS" E NÃO DEVOLVER NO PRAZO REGIMENTAL O PROCESSO QUE JÁ CONTAVA COM MAIORIA DOS VOTOS PARA PROIBIR ESSAS DOAÇÕES!

DURAM-SE COM ESSE BARULHO, EXCLAMA A SABEDORIA E CIDADANIA POPULAR. MAS É NESSE BARULHO QUE, APESAR DE TUDO, AINDA DEVEMOS PERGUNTAR-NOS O QUE DEVEMOS FAZER E DEFINIR OS PRÓXIMOS PASSOS. É O QUE O MORONI TENTE AJUDAR-NOS A FAZER.

Reforma do sistema político: Onde estamos?

Artigo de José Antonio Moroni, do Colegiado de Gestão do Inesc e membro da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.


Os diferentes movimentos e campanhas da sociedade civil brasileira que interagem nos debates sobre a reforma do sistema político identificaram três questões  centrais a serem enfrentadas inicialmente: a influência do poder econômico nos processos decisórios (processos eleitorais, partidos, políticas publicas, decisões de Estado etc), a sub-representação de vários segmentos nos espaços de poder (mulheres, população negra, povos indígenas, juventude, camponeses/as, homoafetivos,  trabalhadores/as em geral) e ausência de povo nos processos  decisórios (democracia sem povo).

O Congresso Nacional por anos se recusou a votar qualquer alteração substancial sobre o tema. Este ano, resolveu votar. Analisamos que essa mudança de postura do Congresso tem relação direta com a pressão exercita pela campanha do plebiscito constituinte do sistema político e pela iniciativa popular pela reforma política democrática; fragilidade do executivo (retira do processo um ator importante, com poder de articulação) faz com que o Congresso vote uma reforma política com a “sua cara”; ação no STF (Supremo Tribunal Federal) de inconstitucionalidade do financiamento empresarial de campanhas e dos partidos; composição ultraconservadora do Congresso Nacional (garantindo uma maioria significativa pra votar uma contrarreforma). Todos esses fatores, associados ao temor “vamos fazer antes que eles façam” - neste caso ‘eles’ é o povo -, fez com que o Congresso Nacional, principalmente a Câmara dos Deputados, votasse este ano uma contrarreforma política.

Para entendermos melhor esse processo, precisamos dividi-lo em dois: uma parte diz respeito a emendas constitucionais e outra, à votação de leis.

Nos dias 16 e 17 de setembro, o STF concluiu o julgamento da ADI (ação direta de inconstitucionalidade) do financiamento empresarial das campanhas e dos partidos.  O resultado da votação ficou em 8 a 3 pela inconstitucionalidade. Uma vitória dos movimentos que lutam pelo fim da influência do capital nos processos decisórios.  Apesar de já batido, é bom sempre deixar registrado que o ministro Gilmar Mendes  ficou 17 meses com pedido de vistas do processo, numa estratégia combinada com os segmentos favoráveis ao financiamento empresarial, pra dar tempo de votar no Congresso uma PEC (proposta de emenda constitucional) pra constitucionalizar este tipo de financiamento. A estratégia deste grupo era aprovar no Congresso Nacional uma emenda constitucional legalizando o financiamento empresarial e, com isso, o julgamento do STF perderia efeito.

Em agosto, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 330 (que apelidamos de PEC da Corrupção), que constitucionalizava o financiamento empresarial aos partidos políticos. Esta PEC só foi aprovada após manobras do grupo do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, sendo encaminhada depois para apreciação no Senado, que ainda não votou a proposta. Vale lembrar que PEC não tem veto presidencial e é sancionada pelo Congresso Nacional – só as leis aprovadas pelos parlamentares podem ter veto e são sancionadas pela Presidência da República.

Em resumo: a tramitação de uma PEC no Congresso é a seguinte: começa por  iniciativa de um parlamentar (senador/a ou deputado/a). Se for deputado/a, tem que ter o apoio de outros 171 deputados para começar a tramitar. Se for senador/a, o apoio mínimo é de 27 senadores. A PEC é votada em dois turnos (duas votações) na casa que iniciou a tramitação e, se aprovada em ambos turnos, vai para a outra casa legislativa para ser apreciada. Se rejeitada, não retorna à casa de origem. Se aprovada em dois turnos nas duas casas (Senado e Câmara), é promulgada pelo próprio Congresso. A Presidência da República não tem poder algum em relação à PEC. Para que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) seja aprovada  na Câmara, é preciso ter o apoio de 308 deputados/as; no Senado, o apoio mínimo é de 49 senadores/as.

Outra estratégia da Câmara  dos Deputados foi votar, a toque de caixa, mudanças na lei das eleições (lei 9.504) e no Código Eleitoral ( Lei 4737).  Assim como a PEC, que descrevemos acima, as alterações das leis tinham como elemento central a legalização do financiamento empresarial, agregando um outro elemento que é o de centralizar o poder. Isto é: dificultar ao máximo que partidos hoje considerados “pequenos” possam ter instrumentos pra chegar ao poder. Foi com essa lógica que a Câmara aprovou mudanças na lei das eleições e no Código Eleitoral. O proposta aprovada na Câmara foi encaminhada para o Senado, que rejeitou a parte que se referia ao financiamento empresarial de campanha.  Como eram mudanças em leis e não na Constituição, o projeto retornou à Câmara ( casa de origem) e esta manteve o financiamento empresarial como tinha aprovado anteriormente.

Para saber mais sobre o conteúdo do PL que foi aprovado no Congresso, acesse este documento (PDF).

E como funciona a tramitação de um projeto de lei ( PL)? Começa por iniciativa de um/a parlamentar (pode ser deputado/a ou senador/a). Tramita na casa de origem, votado em um único turno. Se aprovado, vai para a outra casa. Caso sofra modificações de conteúdo na outra casa, retorna para a casa de origem, que pode aceitar as modificações ou não – voltando ao texto original. Concluída a votação do PL no Congresso Nacional (Câmara e Senado), a nova lei é encaminhada para a Presidência da República, que pode sancionar na íntegra, vetar totalmente ou vetar parcialmente.

Em relação às questões centrais pontuadas pelos movimentos, o que foi aprovado até o momento no Congresso Nacional está contramão do que defendemos. Em relação ao financiamento empresarial, o Congresso aprovou (ainda tem a votação da PEC no Senado, conforme explicamos). Conseguimos derrubar no STF e agora precisamos derrubar no Senado pra fechar o círculo. Em relação às sub-representações, não tivemos avanço algum, pelo contrario, houve um retrocesso político e tanto. A própria bancada feminina abriu mão de defender a paridade (para cada homem eleito, uma mulher eleita), e apresentou uma proposta inicial de 10% de cota. Mesmo assim os parlamentares, em grande parte machos, brancos, proprietários etc, não aceitaram. No que diz respeito ao fortalecimento da democracia direta, a Câmara aprovou uma PEC que diminuiu o número de assinaturas da iniciativa popular de lei, de 1.500.000 (um milhão e meio) para 500 mil.  Muito pouco para quem quer construir o poder popular.

Diante deste quadro quais são os próximos passos? Podemos definir em três deles:


1º) Pressionar a presidenta Dilma pra que vete a lei aprovada pelo Congresso Nacional, a qual chamamos de contrarreforma. O ideal é o veto total. Ou pelo menos vetar os artigos que dizem respeito ao financiamento empresarial de campanhas. Mesmo o STF decidindo que é inconstitucional, se a Dilma não vetar, a lei entra em vigor e vamos precisar de uma nova ação do STF pra declarar essa lei inconstitucional. Com isso, corremos o risco de ter as eleições municipais do ano que vem ainda sendo financiada pelas empresas.


 Pressionar o Senado para que vote e derrote a PEC 330 (PEC da Corrupção), que  veio da Câmara dos Deputados.


3º Com isso, zeramos o jogo da reforma política e podemos recolocar e fortalecer as nossas propostas. Seja da convocação de uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político, ou mudanças importantes, via iniciativa popular, nas regras do processo eleitoral e no fortalecimento da democracia direta.

Neste sentido é importante a estratégia aprovada no  ultimo encontro nacional do plebiscito constituinte da realização de assembleias populares constituintes em todo o Brasil.  Com isso queremos ir discutindo que Nação queremos construir, com quem e de que forma, acumulando  forças para as disputas cada  vez mais explicitas, isso é ótimo, que estamos  vivendo.

Como podemos perceber, fomos e somos sujeitos políticos importantes, e fundamentais, nesta disputa política. Conseguimos de certa forma, melar o acórdão, a conciliação que estava sendo gestada. Agora é continuar na luta para conseguirmos de fato ter um sistema político alicerçado na soberania popular, no poder popular.