EM EVENTO NO RIO DE JANEIRO, PAULO ARTAXO, DA USP E DO PCC, FALOU DAS AMEAÇAS DO AQUECIMENTO GLOBAL E DO QUE O BRASIL DEVE FAZER PARA CONTRIBUIR COM O DESAFIO QUE A HUMANIDADE TEM NESTE SÉCULO: EVITAR QUE O AQUECIMENTO ULTRAPASSE 1,5ºC.
A MATÉRIA, COMO SE PODE VER NO LINK ABAIXO, FOI PUBLICADA PELA ONU.
Especialista defende desmatamento zero na Amazônia para combater Mudanças Climáticas
O brasileiro e integrante do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo,
apresentou neste mês, no Rio de Janeiro, um relatório que aborda as
consequências de uma elevação mundial da temperatura acima dos 1,5º C
até 2100. O teto é a aspiração mais ambiciosa do Acordo de Paris.
Em evento realizado no Museu do Amanhã pelo Conselho Empresarial
Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Artaxo alertou
que a alteração dos padrões climáticos já é uma realidade em território
nacional, com aumentos da temperatura do Nordeste acima das médias
globais.
Zerar o desmatamento na Amazônia é uma das principais contribuições
que o Brasil poderá dar à luta contra o aquecimento global. A conclusão é
do brasileiro e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC), Paulo Artaxo, que apresentou neste mês (19), no Rio
de Janeiro, o novo relatório do organismo. A pesquisa aborda as
consequências de uma elevação mundial da temperatura acima dos 1,5º C
até 2100. O teto é a aspiração mais ambiciosa do Acordo de Paris.
Em evento realizado no Museu do Amanhã pelo Conselho Empresarial
Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Artaxo alertou
que a alteração dos padrões climáticos já é uma realidade em território
nacional. “Várias regiões, particularmente o Nordeste brasileiro e o
norte de Minas, já sofreram aquecimento entre 2 a 2,5º C”, afirmou o
especialista, lembrando dados do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE) sobre o período 1981-2010.
Os valores estão acima do aumento de 1ºC da temperatura global,
verificado desde 2015 em levantamentos do serviço meteorológico do Reino
Unido. A oscilação mundial é um comparativo com médias dos níveis
pré-industriais, antes do início do século XX.
De acordo com Artaxo, a disparidade desse índice em relação aos
números do Brasil se deve ao fato de que a média global inclui as
variações térmicas nas temperaturas dos oceanos, que se aquecem mais
lentamente. Em ecossistemas terrestres, o calor ultrapassa a estimativa
geral.
A análise do IPCC compara os impactos ambientais de um aquecimento
global a 1,5ºC e a 2ºC até o final do século. Mas segundo o integrante
brasileiro do painel, ambas as variações vão se traduzir em elevações
mais altas da temperatura no nível nacional e local, com as médias do
Nordeste, por exemplo, subindo de 2,5ºC a 3ºC. Previsões do INPE indicam
um aumento ainda maior, de 4 até 7º C em diferentes partes do Brasil,
num cenário em que os atuais esforços para conter o aquecimento global
não fossem ampliados em todo o mundo.
Embora pareça pequena, a diferença de 0,5º C significa mudanças
dramáticas para a ocorrência de fenômenos climáticos extremos, perda de
biodiversidade, elevação do nível do mar e desenvolvimento econômico.
“Existem regiões do Nordeste onde a precipitação já decaiu 60%. Isso é
uma alteração muito significativa para qualquer ecossistema, em
particular para uma região semiárida”, acrescentou Artaxo, que também é
professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).
Na avaliação do pesquisador, as tendências de aquecimento e de
diminuição das chuvas devem piorar — e o Nordeste corre o risco de se
tornar uma zona desértica. O especialista ressalta ainda que as mudanças
climáticas devem afetar outras partes do Brasil, como os grandes
centros urbanos do Sudeste. Enchentes e estiagens, como a que atingiu
São Paulo e deixou o estado em racionamento de água, vão se tornar mais
frequentes.
Em nível global, manter a elevação da temperatura dentro do 1,5º C
permitiria, por exemplo, salvar de 10% a 30% de todos os recifes de
corais. Com o aquecimento a 2º C, essas formações naturais devem
desaparecer por completo do planeta. O limite mais restritivo também
impediria que o degelo da Antártida se tornasse um fenômeno anual
durante o verão. Com o teto menor, os mares subiriam dez centímetros
menos do que a 2º C.
Desmatamento na Amazônia
De acordo com o IPCC, restringir o aumento a 1,5º C exigirá, até
2050, uma redução a zero de todas as emissões líquidas de CO2.
Atividades humanas que continuassem dispersando gases do efeito estufa
teriam de ser compensadas com medidas para absorver gás carbônico, como o
reflorestamento.
“Isso vale tanto para não queimar combustíveis fósseis, como
petróleo, carvão e gás natural, quanto para reduzir o desmatamento, por
exemplo, da região amazônica. Esta tarefa é extremamente urgente porque
não temos muito tempo para reduzir estas emissões antes de ocorrer uma
catástrofe climática global”, ressaltou Artaxo.
O analista vê desafios consideráveis na implementação dessa agenda de
sustentabilidade. Isso porque mesmo com a assinatura do Acordo de
Paris, em 2015, as emissões de gás carbônico aumentaram 2% de 2016 para
2017, chegando a 36,8 gigatoneladas anuais. Para alcançar a meta do 1,5º
C, seria necessário reduzir o volume de gás carbônico lançado na
atmosfera em 45% até 2030 — tendo como base os níveis de 2010.
Os compromissos de cada país signatário do Acordo de Paris tampouco
seriam suficientes para conter o aquecimento global — estimado em 2,8º C
até 2100 com o cumprimento das atuais promessas.
Sobre o Brasil, Artaxo enfatizou a necessidade de “colocar o
desmatamento da Amazônia a zero”, uma das metas do país latino-americano
junto ao documento internacional.
“Temos (também) que investir em energia eólica e energia solar
particularmente no Nordeste brasileiro. O Brasil tem o compromisso de
reflorestar 12 milhões de hectares no Acordo e Paris. Isso também é
fundamental se nós quisermos garantir um meio ambiente saudável para a
população brasileira”, disse o especialista do IPCC.
“Nós precisamos de políticas públicas sólidas, de governos que tenham políticas de Estado de longo prazo.”
Sustentabilidade nos negócios
Ana Carolina Szklo, diretora de Desenvolvimento Institucional do
CEBDS, vê uma conscientização crescente do setor privado sobre a
urgência das mudanças climáticas. Segundo a gestora, empresas têm tomado
a dianteira e criado sistemas próprios de mitigação e compensação. É o
caso de companhias que adotam estratégias de precificação interna de
carbono, a fim de identificar departamentos e atividades com maior
impacto ambiental.
“A equação (dos negócios) está desequilibrada porque a gente não está
ainda internalizando algumas variáveis”, afirma a gestora. Segundo o
CEBDS, 16 empresas brasileiras já trabalham com a precificação interna
de carbono. Outras 27 declararam que utilizarão esse tipo de metodologia
a partir de 2019.
Szklo aponta ainda que a sustentabilidade tem um importante valor de
mercado. “Gera lucro e traz dinheiro. É bom para o meio ambiente, para
as pessoas e para as empresas”, afirmou.
Também sobre o papel do setor privado no combate ao aquecimento
global, o integrante do IPCC, Paulo Artaxo, disse que “construir
produtos que possam ter uma durabilidade maior, que usem muito menos
matéria-prima e que sejam mais eficientes do ponto de vista do uso de
energia é absolutamente estratégico para o futuro do nosso planeta”.
“Do lado empresarial, nós precisamos ter as empresas menos
preocupadas com o lucro no próximo balancete e muito mais preocupadas
com a sustentabilidade do seu próprio negócio a médio e longo prazo”,
concluiu o pesquisador.
https://nacoesunidas.org/especialista-defende-desmatamento-zero-na-amazonia-para-combater-mudancas-climaticas/