terça-feira, 12 de junho de 2018

ELEIÇÕES: TRÊS TENDÊNCIAS E UM GRANDE ERRO

MAIS UM REFLEXÃO INTERESSANTE E DESAFIADORA SOBRE A CONJUNTURA POLÍTICA. COMO SEMPRE DEVERIA SER, POLÍTICA NÃO SE RESUME A ELEIÇÕES. POR ISSO, A PERGUNTA DEVE SER: O QUE É POSSÍVEL E NECESSÁRIO FAZER AGORA PARA QUE AS ELEIÇÕES FAÇAM SENTIDO, SEJAM UMA MEDIAÇÃO QUE VIABILIZE AS OPÇÕES ASSUMIDAS?

DIANTE DA CLARA CONDENAÇÃO POPULAR DO GOLPE E DAS POLÍTICAS IMPLEMENTADOS PELOS GOLPISTAS, SERÁ UM ERRO GROTESCO NÃO PERCEBER AS POTENCIALIDADES QUE SE APRESENTAM PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA UNIDADE PROGRAMÁTICA CENTRADA A REVERSÃO DOS ATRASOS E AGRESSÕES IMPOSTAS E NA INDICAÇÃO DE CAMINHOS DE RECONSTRUÇÃO DA VIDA SOCIAL ASSENTADA NA JUSTIÇA E NA BUSCA INCANSÁVEL DA IGUALDADE. E NA MOBILIZAÇÃO SOCIAL EM FAVOR DESSA UNIDADE, SUPERANDO A VISÃO TRADICIONALMENTE OPORTUNISTA DA LUTA PELO PODER DE CADA PARTIDO.

COMO PODEMOS CONTRIBUIR PARA QUE O POSSÍVEL SE TORNE REAL? O IMPORTANTE É NÃO PERDER OPORTUNIDADES. 

Eleições: Três tendências e um grande erro

Projeto do golpe está derrotado junto à sociedade. Chances de reverter os retrocessos crescem. Porém, esquerdas fazem cálculos eleitorais pequenos, desperdiçam possibiliade real de mobilização e abrem espaço para Bolsonaro
Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite
Saiu neste domingo uma nova pesquisa Datafolha sobre as intenções de voto para a Presidência. Os números revelam quatro grandes tendências, que à primeira vista seriam claramente favoráveis a uma mudança de rumos – ou seja, a reverter a agenda de retrocessos imposta ao país desde o golpe de 2016. Porém, esta grande oportunidade pode ser perdida: as forças que deveriam estimular esta virada estão sem estratégia clara ou presas a um cálculo eleitoral mesquinho, que desperdiça a potência revelada pela pesquisa.
Vamos às tendências. A primeira é a imensa impopularidade do golpe de 2016. Ela está expressa na rejeição a Michel Temer, o político que simboliza a quebra da ordem democrática e a guinhada ultra-conservadora que se seguiu. Veja os números: Temer tem 82% de rejeição – ou seja, de pessoas que julgam seu governo ruim ou péssimo. Apenas 3% o apoiam. A própria Folha de S.Paulo, que apoiou a posse do ocupante ilegítimo do Palácio do Planalto, admite: ele é “o presidente mais impopular da História”.
Não se trata apenas de rejeição pessoal, ou ligada às múltiplas denúncias de corrupção que pesam contra Temer. Há um sentido político na tendência. Outras pesquisas recentes demonstraram que a grande maioria dos brasileiros rechaça – apesar da mídia – o núcleo da agenda de retrocessos. Sete em cada dez são contra as privatizações, revelou o mesmo Datafolha em dezembro de 2017. 69% rejeitam a contra-reforma da Previdência, que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, quer votar às escondidas, no apagar das luzes deste ano. Um percentual ainda maior – 81% – recusa a contra-reforma trabalhista, aprovada pelos deputados e senadores, sem debate algum, em 2017. Dado suplementar: a crise de legitimidade das instituições é geral, segundo o mais recente Datafolha. 67% dos entrevistados não confiam no Congresso. Apenas 14% confiam plenamente no Supremo Tribuna Federal; e 16% na imprensa.
Segunda tendência: a impopularidade da agenda de retrocessos repercute na fraqueza dos candidatos que defendem tais políticas. O poderoso Geraldo Alckmin não passa, no melhor cenário possível, de 7%. Álvaro Dias, que tenta posar de alternativo, tem 4%. Rodrigo Maia, no máximo 2%. Henrique Meirelles e Afif Domindos, nem isso: entre 0% e 1%, a depender dos adversários.
terceira tendência é contraditória. No campo político que poderia expressar uma virada, há densidade eleitoral, mas ainda não há viabilidade política, devido ao ambiente de golpe. A força popular de Lula é impressionante. Depois de dois meses encarcerado, como preso político, ele permanece com 30% das intenções de voto. Se puder disputar, vencerá com folgas qualquer adversário, no primeiro ou no segundo turno. Ciro Gomes (PDT) vem a seguir, com 6% dos votos. Manuela Dávila (PCdoB) oscila entre 1% e 3%. Fernando Haddad e Jacques Wagner (PT) têm, ambos, 1%. Guilherme Boulos (PSOL) tem 1% em alguns cenários.
Exceto Lula, os candidatos que se dizem favoráveis a rever a agenda de retrocessos ganham dos conservadores clássicos. Porém, perdem de longe para Marina Silva (que oscila entre 14% e 15%) e Jair Bolsonaro (17% a 19%, a depender do cenário). O ex-capitão expulso do exército representa uma direita extra-institucional e golpista. É rejeitado pela maior parte dos conservadores (que temem a instabilidade provocada por ele). Mas sua resilência, apesar dos ataques que tem sofrido, revela que é um postulante com chances reais, precisamente porque disputa a parcela da sociedade que se sente traída e desamparada pelas velhas instituições.
Diante deste quadro, e do cenário de ruptura democrática em que vivemos, há, para quem deseja resistir aos retrocessos, duas alternativas. A primeira é não-convencional – como costumam ser as saídas possíveis, em tempos de exceção. Significa ir além do mero cálculo eleitoral. Implica definir um programa claro – em cujo centro estaria a reversão da agenda conservadora imposta à sociedade – e articular uma mobilização nacional, suprapartidária e extrapartidária, em favor da virada.
É fácil? Evidentemente, não, porque a lógica eleitoral, nas democracias contemporâneas, convida a abandonar o debate de ideias e a concientização política, em favor do marketing e da mera conquista de postos no aparelho do Estado. Mas é possível? Sim, por dois motivos. Vivemos – no Brasil e em muitas partes do mundo – uma situação atípica, em que as fórmulas e lógicas tradicionais já não funcionam e a população está disposta a buscar o novo. Além disso, a sentimento de rejeição ao golpe não arrefeceu. Voltou a tomar as ruas há menos de três meses, nos protestos gigantescos contra o assassinato de Marielle Franco. Poderá reunir multidões novamente, se estiver em jogo um projeto maior que o mero apoio a candidaturas eleitorais.
Multidão protesta, em março, contra assassinato de Marielle Franco. Sociedade reage ao golpe e seus efeitos — mas pode ficar apática, diante de campanha eleitoral despolitizada
Uma saída não-convencional implicaria que Lula, Ciro, Manuela e Boulos estabelecessem uma espécie de pacto.. Embora mantendo as próprias candidaturas, estilos, projetos específicos e alianças, priorizariam um ponto, em suas campanhas: a reversão da agenda de retrocessos, rejeitada por 82% dos brasileiros. Em dado momento, haveria uma unificação. Prevaleceria a candidatura que tivesse melhores condições de vitória – eleitorais e políticas.
O outro caminho é o convencional, que tem sido trilhado até agora. Nele, o PT insiste em afirmar que sua única opção é Lula. Ao mesmo tempo, continua acreditando que, no caso provável de impedimento autoritário do candidato, um outro postulante, indicado por ele, chegará ao segundo turno – e vencerá Bolsonaro. É uma tática despolitizada e eleitoreira, muito semelhante à adotada em 2014, quando o partido optou por atacar Marina, para favorecer a chegada de Aécio – mais frágil – ao segundo turno. Resultou no pesadelo em que estamos mergulhados.
Neste mesmo script, Ciro também mantém sua candidatura e, segundo a lógica eleitoral de sempre, busca viabilizá-la com acenos à direita – ao DEM e PP. Boulos e Manuela continuam enfadonhamente em campanha, mesmo conscientes de que já não têm nem chance eleitoral, nem condições de ampliar, na eleição, seu espaço político. A resultante é a despolitização – e pode ser ainda mais grave, com a eleição de Bolsonaro ou de um candidato midiático, tirado do bolso do colete à última hora pelo conservadorismo clássico.
Há tempo e condições para evitar este cenário desolador e catastrófico. É preciso pensar e agir fora da lógica tradicional. Mas não será esse, exatamente, o sentido de toda Política digna deste nome?
https://outraspalavras.net/brasil/eleicoes-tres-tendencias-e-um-grande-erro/ 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CINCO CENÁRIOS ELEITORAIS PARA 2018

E VOCÊ, CONCORDA COM ESSES CINCO CENÁRIOS? ACHA QUE EXISTE ALGUM OUTRO?

AS PERGUNTAS SÃO SEMPRE PARTEIRAS DE PENSAMENTOS. E A GENTE PRECISA IR PRODUZINDO PENSAMENTOS CRÍTICOS EM RELAÇÃO ÀS ELEIÇÕES. AFINAL, QUEM SEMPRE PAGARÁ O PATO - O VERDADEIRO, NÃO O DA FIESP - É O POVO POBRE, EXPLORADO, EXCLUÍDO. 

UMA COISA É CERTA: OU TODOS OS QUE TÊM CONSCIÊNCIA DA GRAVIDADE DO TEMPO EM QUE ESTAMOS VIVENDO TOMAM A DECISÃO E PARTEM PARA O DIÁLOGO COM O POVO, OU MUITAS PESSOAS PODERÃO, MAIS  UMA VEZ, SEREM ENREDADAS POR UM CANDIDATO DE FATO POPULISTA, SALVADOR DA PÁTRIA, MAS QUE NOS LEVARÁ AINDA MAIS PARA O FUNDO DO POÇO, SE ISSO FOR POSSÍVEL. E DIALOGAR NÃO SOMENTE SOBRE CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA, E SIM TAMBÉM E ESPECIALMENTE SOBRE A ELEIÇÃO DE DEPUTADOS E SENADORES. SERIA MUITO BOM SE NENHUM DOS DEPUTADOS E SENADORES QUE ASSUMIRAM A RESPONSABILIDADE POR ESSE ILEGÍTIMO GOVERNO TEMER - HOJE, SÓ 3% DOS CONSULTADOS PELO DATA FOLHA O ACHAM BOM/ÓTIMO!!! - FOSSEM REELEITOS. PARA ISSO, MUITO DIÁLOGO ABERTO COM O POVO...

É PENA QUE NÃO PODEMOS TAMBÉM NÃO ELEGER NENHUM DOS JUÍZES DO STF QUE LEGITIMARAM OS ABSURDOS DO CONGRESSO NACIONAL. VALE IR ABRINDO O DIÁLOGO SOBRE A NECESSIDADE DE QUE ISSO VENHA A ACONTECER UM DIA, POIS SERÁ ESSENCIAL PARA QUE A DEMOCRACIA SE MANTENHA VIVA E POSSA SER ESPAÇO DO PODER POPULAR...


Cinco cenários eleitorais para 2018
Roberto Malvezzi (Gogó)
Como serão essas eleições? Ouço essa pergunta todos os dias nos trabalhos de base, nas entrevistas nas rádios, nas mídias alternativas e eu mesmo me faço essa pergunta sempre.
Numa reunião de um grupo de reflexão que se chama Novos Paradigmas, do qual participo, a pergunta era exatamente a mesma. E olha que ali tem professores universitários, intelectuais orgânicos aos movimentos populares, gente militante de partidos, assim por diante.
A conclusão do grupo é que nada está seguro, tudo está incerto. Somente podemos projetar alguns cenários. Eu coloco aqui, então, cinco cenários que parecem os mais prováveis.
Primeiro, haverá eleições gerais com Lula candidato “sub judice”, isto é, como o processo não está concluído, o tal “trânsito em julgado”, então a lei não pode proibi-lo de se candidatar. Mas, depois da eleição, pode ser impedido se for condenado. Claro, o judiciário teria que enfrentar mais uma vez a vontade popular, retirando o poder de um candidato eleito pelo povo, assim como fez no golpe contra Dilma Rousseff, processo iniciado no Congresso, legitimado pelo Judiciário. Nesse caso, o caos político se aprofunda. Se puder exercer o mandato, será a suprema humilhação da burguesia nacional em 500 anos.
Segundo, ao arrepio da lei Lula é impedido de concorrer. Esse fato pode gerar revolta popular e grande parte da população vai votar branco ou nulo como indicam as pesquisas. Quem assumir estará sempre com a pecha de ilegítimo, de sub candidato, que só ganha porque Lula foi proibido.
Terceiro, alguém do PT assume a candidatura no lugar de Lula e, apoiado por ele, concorre às eleições. Últimas pesquisas dizem que ele pode transferir de 30 a 47% do eleitorado para quem ele apoiar. Lula pode também apoiar um candidato de outro partido, mas esse caso é menos provável, dada a força do PT.
Quarto, é não ter eleição, seja pela deposição de Temer e sua substituição por Maia prorrogando o mandato de todos, ou então, uma eleição indireta no Congresso. Essa possibilidade ficou mais fraca depois que a Ministra Cármem Lúcia fez um ensaio de parlamentarismo e foi rechaçada até pela Folha de São Paulo. Porém, o desprestígio de Temer é tamanho que ainda pode abrir brecha para essa possibilidade.
Quinta possibilidade, cada vez mais remota, seria a intervenção militar. Ela já foi mais plausível, mas perdeu força depois da greve dos caminhoneiros. Não houve unanimidade dentro do Exército para a intervenção e eles mesmos não saberiam o que fazer com um país caótico. Preferem tirar a castanha do fogo pela mão do gato, isto é, o serviço sujo fica com o judiciário e os generais monitoram.
Enfim, a única certeza é que se deve investir seriamente na eleição de um novo Congresso – deputados e senadores – para equilibrar as forças no país. É preciso também pensar nos governadores e deputados estaduais. Nesse sentido, já tomei minha decisão, não voto em absolutamente nenhum golpista.
Por fim, eleição não é o único mecanismo democrático de uma nação. A democracia direta, as ruas, as pressões populares sempre serão indispensáveis, inclusive hoje nas redes sociais.
De resto, só incerteza.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

ESPANHA: FEMINISTRAS: UM GOVERNO DE MULHERES

BELEZA! E QUE SEJAM MESTRAS DA VERDADEIRA INOVAÇÃO: A QUE COLOCA TUDO A SERVIÇO DA VIDA.

Feministras: um governo de mulheres

Será que o exemplo espanhol fará com que o cacarejado argumento de que 'não encontramos mulheres para todos os cargos' seja finalmente exposto como algo tão falso e perverso quanto as próprias estruturas patriarcais?

 
07/06/2018 19:05
 
 
 
Por Ana Pardo de Vera, para o Público.es
 
Não tenho muito mais o que dizer além do que já foi dito sobre o novo Conselho de Ministras, com a permissão da Real Academia Espanhola e do seu diretor, meu professor e compatriota Darío Villanueva, que será responsável pela atualização e modernização de uma instituição vital para a inserção transversal das mudanças sociais, com uma linguagem mais inclusiva. Uma tarefa que eu não invejo, mas confio nele, e aguardo os resultados.
Apesar de ser politicamente incorreto uma jornalista felicitar com entusiasmo o presidente de um governo, hoje quero plasmar aqui, claramente, o meu agradecimento a Pedro Sánchez, por algo tão simples como o fato de ele fazer justiça com as mulheres deste país, deixando um recado bastante contundente: em um governo de indiscutível validade e legitimidade, independentemente dos resultados que o esperam no futuro, as mulheres constituem uma maioria absoluta e ocupam 11 dos 17 ministérios. Mas, diga-nos presidente, foi muito difícil encontrar mulheres com a trajetória de Carmen Calvo (ministra-chefe da área política, que acumula também a função de vice-presidenta), com a competência de Nadia Calviño (Economia), a credibilidade de Teresa Ribera (Transição Ecológica), a valentia de Carmen Montón (Saúde e Bem-Estar Social), a força de Magdalena Valerio (Trabalho, Migrações e Seguridade Social) ou a tenacidade de Meritxell Batet (Política Territorial), entre outras qualidades delas e das demais? Será que o cacarejado argumento de que “não encontramos mulheres” será finalmente exposto como algo tão falso e perverso quanto as próprias estruturas patriarcais?
Este é um momento muito importante para todas nós. Para todas, sem exceção, sejamos de direita ou de esquerda, centro, meio-centro ou quarto minguante, para as que gostamos e para as que não gostamos ou somos indiferentes a este governo. Nós, as feministas, lutamos pela igualdade de todas e este gabinete de ministras é uma vitória das feministas, da pressão social dos últimos anos e da revolução violeta do 8-M. Ainda está por ver-se quanto há de verdadeiramente feminista na política impulsada pelo Executivo, mas o que virá não tira o sabor deste momento. E não esqueçamos que o PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha, do qual faz parte o presidente Sánchez) terá Adriana Lastra como sua porta-voz na Câmara dos Deputados, uma lutadora e feminista assumida. Muita coisa ainda tem que acontecer, mas a porta da História foi aberta hoje. Pedro Sánchez entendeu a mensagem de mudança, e isso é já é um fato positivo.
Neste ofício, é difícil evitar que as lágrimas escapem: as notícias chegam como uma enxurrada na redações, entre cruéis assassinatos, tragédias como as da Guatemala, feminicídios, anciãos encontrados mumificados após anos de esquecimento, crianças desnutridas, estupros que terminam em quase impunidade, pessoas desalojadas de seus lares por falta de dinheiro, crianças desnutridas, bebês maltratados... Dramas, coisas que doem, e passam, e doem de novo, e logo vem a seguinte notícia, e outra, e outra.. Coisas desse que eu chamo, como antes chamava García Márquez, o ofício mais belo do mundo, apesar de ferir permanentemente.
Com todas as minhas duas décadas de experiência, hoje eu chorei ao constatar que o governo de Sánchez seria majoritariamente feminino e feminista. Chorei porque me lembro dos 39 feminicídios e assassinatos na Espanha em 2018, e dos 99 em 2017, e das centenas de outros casos que conhecemos, e dos que nem sabemos, que sequer entram para a estatística. O histórico Conselho de Ministras é também das assassinadas pelas mãos dos homens.
Na minha mente, que hoje não me deu trégua, também surgiram os pequenos cadáveres de bebês e crianças assassinadas junto com suas mães, ou mortas em vida, por homens que disseram que as amavam, mas que só queriam possui-las.
No meu coração, mais que em nenhum outro dia, está a jovem vítima da “manada” (um caso de estupro coletivo, que aconteceu em Pamplona, em 2016), vítima das leis e legisladores injustos, e dos meios sensacionalistas. A adolescente violentada, cujo sofrimento se projeta sobre o de todas as mulheres que já sofremos violência sexual, que haveremos de ser a totalidade, em maior ou menor grau. A mulher cuja impotência enfurece as mulheres violadas que falam e as que se calam, as que denunciam e são insultadas, questionadas e humilhadas, ou, no pior dos casos estigmatizadas. Este governo é o da vitória do sofrimento e do fim do silêncio. De Juana Rivas, maltratada, agredida e que perdeu a guarda dos filhos por tentar fugir daquele abuso com eles, graças a juízes sem alma nem decência.
Tenho hoje, ao meu lado, os nomes das feministas insultadas, ameaçadas e violentadas nas redes sociais, entre elas, muitas jornalistas, que denunciam a desigualdade de oportunidades e professionais que revelam seus salários infames, que são mais baixos porque são elas e não eles. Tantas. Tantas!

Na torrente de sentimentos encontrados, me lembro de Carmen Chacón e seu arrojo feminista como primeira ministra de Defesa, e seu abraço de mulher cuidadora de outros, menos dela mesma; me vem à cabeça Bibiana Aído e Nuria Varela, construindo o primeiro Ministério da Igualdade, o que lhes custou ânimo e saúde na luta contra a besta patriarcal; o brilho de Zaida Cantera e sua coragem diante da poderosa cúpula militar; a aguerrida Irene Montero e as aberrações cuspidas por homens e mulheres após ela começar a viver junto com o pais dos seus gêmeos, ou as tentativas de desprestigiar a Inés Arrimadas por “sua cara bonita”, porque aí também aparecem os imbecis, e nenhuma mulher está a salvo do machismo cotidiano, desenfreado. Nem mesmo Ana Botín, que pode ser presidenta do Grupo Santander, mas também enfrenta situações de desprezo diante dos senhorões engravatados.
Penso sem parar nas granjas de mulheres para parir bebês como coelhos em troca de dinheiro para comer, graças a um país onde se alugam seus ventres-recipientes.
E como não resgatar neste dia, diretamente na alma, a sordidez dos prostíbulos, que torturam mulheres vítimas de tráfico delas mesmas, e da luta de Mabel Lozano contra essa desumanidade.
E no meio dessa intensidade e alegria cansada, recebo o bálsamo dos referentes vitais. Sobretudo, de longe, minhas compatriotas ilustres: Emilia Pardo Bazán e Rosalía de Castro (“só cantos de independência e liberdade balbuciam por meus lábios, embora tenha sentido para os que se aproximam, desde o berço do ruído das correntes, eu deveriam me aprisionar para sempre, porque o patrimônio da mulher são os grilhões da escravidão... Quando os senhores da terra me ameaçam com um olhar, querem marcar na minha testa uma mancha de reprovação, eu não vou rir como eles se riem, e faço, talvez aparentemente, minha iniquidade maior que a sua  grande que a iniquidade. No fundo, não obstante, meu coração é bom; mas não acato os mandatos de meus iguais, e creio que são feitos do mesmo que eu sou feito, e que sua carne é igual à minha carne. Eu sou livre. Ninguém pode conter a marcha dos meus pensamentos, e eles são a lei que rege o meu destino”). E a carne da minha carne, minha avó e sua filha, minha mãe. Os faróis de quem se conforma com ser a metade de valentes que elas foram.
A revolução era isto. E chegamos.
Mas seguimos lutando por mais.
 
Ana Pardo de Vera é diretora-chefe do periódico Público.es

terça-feira, 5 de junho de 2018

AMAZÔNIA "SOB A PATA DO BOI"

NÃO ENTENDE A RELAÇÃO ENTRE A SUA PICANHA E O DESMATAMENTO? ESTE FILME DESENHA PARA VOCÊ 
Sob a Pata do Boi”, que estreia nesta quinta-feira na Mostra Ecofalante, explica por que o problema persiste na Amazônia apesar de sua solução ser conhecida. 
A reportagem é de Claudio Angelo, publicado por Observatório do Clima, 30-05-2018.
Ninguém ‘veve’ em torno de prejuízo. A gente ‘veve’ em torno de lucro”. Sentado na porta de um barracão de madeira, de chapéu de aba larga e camisa aberta, o pecuarista José Aureliano dos Santos resume em uma frase por que seu ganha-pão botou abaixoquase 20% da floresta Amazônica e não dá sinais de que vá parar.
A cena singela, gravada em São Félix do Xingu (PA), é uma das mais reveladoras do documentário Sob a Pata do Boi, dirigido por Márcio Isensee e produzido pelo site de notícias ambientais Oeco. O filme estreou na quinta-feira (31) na Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo, depois de ter recebido um prêmio do Ministério da Cultura da França. Em 49 minutos, ele explica como a cadeia da pecuária causou e causa a destruição da floresta – e como às vezes os agentes dessa destruição, como José Aureliano, merecem mais compaixão do que raiva.
O filme é uma grande reportagem. Isensee e seus colegas (os jornalistas Juliana Tinoco, Eduardo Pegurier e Bernardo Câmara) valeram-se de diversas viagens a campo, imagens históricas e muitas entrevistas para retratar um problema complexo, cujos impactos e as soluções são bem conhecidos, mas que persiste porque é lucrativo.
O quadro completo e didático – às vezes cruamente didático – traçado do setor da carnena Amazônia permite ao espectador fazer a ligação direta entre o pacote de carne na gôndola do supermercado e as violações ambientais e de direitos humanos e trabalhistas cometidas pelos desmatadores. Também relembra as razões históricas para o imenso passivo ambiental dos produtores rurais na região: nos anos 1970, eles foram chamados pela ditadura militar a colonizar a Amazônia “pela pata do boi” (daí o título do filme) e precisavam demonstrar ter desmatado 50% de suas propriedades para obter títulos de terra.
Os personagens são de uma franqueza tocante. Um dos pecuaristas entrevistados recorda-se, entre risadas, de como escravizou 200 peões para “formar” (desmatar) sua fazenda, auxiliado por ninguém menos que a polícia local. O prefeito de uma das cidades campeãs de devastação do Pará argumenta, aparentemente convicto, que criminosos ambientais deveriam ser tratados como “heróis”. Um fazendeiro que busca produzir de forma intensiva e sem desmatamento confessa que o setor é muito bom em chorar suas dificuldades, mas igualmente proficiente em esconder seus pecados.
Mas uma das melhores (e mais tristes) coisas do filme é documentar como a pecuáriatransformou não só a paisagem, mas a cultura do sul e sudeste do Pará. Saem as “lendas e mistérios da Amazônia”, entram a exposição agropecuária e o rodeio. Não fosse pelas feições indígenas dos peões, as cenas de rodeio do filme poderiam passar por Barretos ou Uberaba, mas são de Rio Maria e Xinguara. Em menos de 40 anos, criou-se um modo de vida e um conjunto de valores na população que tem mais identidade com o Texas do que com os igapós.
Este é um efeito colateral particularmente insidioso do desmatamento, que passa longe do radar da imprensa quando esta é mobilizada de tempos em tempos para cobrir a emergência dos números da devastação ou a sandice da vez da bancada ruralista. Uma parcela da população amazônica já incorporou a ausência da floresta no seu cotidiano – portanto, não tem mais nenhum motivo para defendê-la. Essas pessoas foram perdidas para a pata do boi; não toparão fácil nenhuma conversa sobre zerar desmatamento e recuperar o passivo ambiental da região, mesmo que isso seja o melhor para elas, para o Brasil e para a consciência de quem ama um churrasco e não quer vê-lo associado ao crime.
http://www.ihu.unisinos.br/579608-nao-entende-a-ligacao-entre-a-sua-picanha-e-o-desmatamento-este-filme-desenha-pra-voce 

domingo, 3 de junho de 2018

PARA O DIA DO MEIO AMBIENTE: O ECÓLOGO DE NAZARÉ

VALEU, FREI SÉRGIO, VOCÊ NOS AJUDA A PERCEBER COMO JESUS DE NAZARÉ ERA GENTE DE SEU TEMPO, ECÓLOGO, CONHECEDOR E CUIDADOR DE TUDO QUE CONSTITUÍA O MEIO AMBIENTE DE SEU TEMPO.


O Ecólogo de Nazaré
“Olhem os Pássaros do Céu, Aprendam com os Lírios do Campo e Bem Aventurados os Mansos”
Mt 6, 26;28 e 5, 4
Jesus demonstra nos Evangelhos uma familiaridade e uma naturalidade impressionantes com o ambiente natural de seu tempo, sejam eles os vegetais, animais, minerais, biológico e climático. Quando prestamos atenção ao ambiente de fundo em que se dão os acontecimentos narrados pelos Evangelhos e garimpamos as expressões usadas por Jesus, as comparações, as parábolas, a linguagem, as referências, percebemos nele, além de alguém integrado ao seu ambiente, um profundo conhecedor da natureza ao seu entorno. Sem risco de exagero, um ecólogo de seu tempo.
Jesus recomenda que olhemos, enxerguemos – muitas vezes olha-se e não se enxerga – e aprendamos com as flores do campo e as aves do céu, como exemplos de como podemos confiar na gratuidade da Mãe Natureza que tudo nos dá. Transparece na prática do Jesus Ecólogo a convivência, o respeito, a observação constante, a contemplação, o aprendizado, o diálogo e o cuidado na relação com o meio ambiente de seu tempo.
Fala constantemente da água e do vento e vê neles não apenas seu vigor natural, mas a manifestação do Espírito de Deus. Jo 3,5-8
Fala do mundo vegetal como se dele fosse parte. Compara-se com a videira, com a água, com o pão, com o vinho, com o pastor das ovelhas. Compara o Reino de Deus com o grão da mostarda e os discípulos com o sal. Mostra conhecimento sobre o cultivo do trigo e as dificuldades com a contaminação do joio.  Mostra conhecimento sobre a necessidade de podar as videiras e de adubar a figueira que não dá frutos e quando a figueira brota é porque o verão chegou. Demonstra saber com precisão qual plantio de sementes será frutífero e quais serão tempo perdido: em solo raso, o sol mata; plantio superficial, os pássaros comem; no meio do inço, os espinhos sufocam. Conhece bem a fisiologia da mostarda, o tamanho minúsculo de sua semente e o crescimento de seu pé e folhas. A arruda e a hortelã entram naturalmente em suas conversas, assim como o armazenamento de grãos em celeiros e a relação entre o tamanho da messe e da colheita e a necessidade de trabalhadores.
Da mesma forma, suas referências ao mundo animal de seu tempo. Diz o Evangelho de Marcos que ele, quando se retirou no deserto, conviveu naturalmente com os animais silvestres (Mc 1,13). O mundo animal de então faz parte do universo mental e sentimental de Jesus e se refere a ele de forma constante, valendo-se dele constantemente no simbolismo de sua pregação. Chama a atenção não apenas a familiaridade como a precisão do conhecimento. Jesus se refere às raposas (compara Herodes a elas), a pombas e cobras (recomenda aos discípulos que sejam simples como as pombas e espertos como as cobras), a ovelhas, cabritos e lobos (também de pastores e mercenários), a jumentos (monta num deles e demonstram que os judeus quebram a lei do sábado para tirar um jumento do atoleiro), cachorros (é um deles que vem tratar das feridas do pobre Lázaro enquanto o rico esbanjador lhe nega abrigo e pão), mosquitos, camelos, gafanhotos (que servem de comida para João Batista), refere-se aos ninhos e tocas dos bichos (pois tinham lugar determinado para reclinar a cabeça, ao contrário dEle), e até ao comportamento dos urubus, aos quais o Pai garante o sustento e se juntam onde há carniça. Sabe como se tratam porcos com lavagem e de seu comportamento coletivo quando assustados jogando-se todos juntos no lago. E também sabe que mesmo no sábado sagrado pela lei, os animais precisam de água para matar sua sede. Conhecia peixes, sabia onde era melhor pescar, conhecia barco e como navegar e sabia até como cozinhar um peixinho gostoso à beira do lago.
Jesus é bom observador do clima. Com nuvens no ocidente, vem chuva. Com vento sul, o clima esquenta e vem onda de calor, sol avermelhado de manhã, tempo bom, sol avermelhado de tarde, sinal de chuva.
Jesus conhece propriedades terapêuticas da natureza. Conhece terapias com argila e saliva, pois usa barro com saliva para curar alguém com doença nos olhos, provavelmente alguma infecção bacteriana, muito comuns na época. Da mesma forma em relação às terapias com água, pois orienta doentes para que se banhem e ficam curados, numa época em que a falta de higiene corporal era causa de muitas doenças. Refere-se ao azeite e ao vinho no tratamento das feridas do que foi socorrido pelo bom samaritano. O vinho higieniza e o óleo contribui na cicatrização.  Jesus fala com propriedade que o nardo e o alabastro podem ser usados para embalsamar cadáveres.
Jesus demonstra saber as potencialidades e os limites do mundo mineral em seu tempo e os efeitos do clima e dos fenômenos da natureza. Recomenda a construção das casas sobre terreno firme, rochoso, pois o terreno arenoso não resiste às enchentes e aos ventos. A pedra dá solidez, a areia esvai. Entram naturalmente em suas conversas as paisagens de seu tempo: montanha, deserto, mar, rio, fonte, vento, chuva, caminhos cheios de pedras, caminho tortuosos, sombras para proteger do sol, lugares adequados para passar a noite....
A função das leveduras de fermentação (micro-organismos) no crescimento do pão e no armazenamento de vinhos novos, ainda em fermentação, estourando pipas velhas com madeira já enrijecida, não são estranhas ao Mestre Nazareno. “Vinho novo, pipas novas”, dirá.
Até em relação ao sal, chega a detalhes impressionantes, pois se o mesmo perder as funções de conservar e dar sabor, não servirá para mais nada, nem para a terra, nem para o esterco. Ora, o sal no solo provoca salinização e é um problema para a produção de alimentos e no esterco, esteriliza e impede a ação dos decompositores impedindo que se transformam em fertilizante orgânico disponível.
Temos ainda a impressionante cena narrada nos Evangelhos em que Jesus conversa com a ventania e com as águas revoltas e elas se acalmam. “Quem é este que até as águas e os ventos atendem seus pedidos? ” - Comentam entre assustados e admirados os discípulos.
O Apocalipse seria, na simbologia evangélica, uma bagunça generalizada da natureza, da convivência humana e do cosmos: terremotos, tempestade marítimas; fome e medo; abalos no espaço, no sol, na lua e nas estrelas. Mt 24, 29-30; Mc 11, 24-26; Lc 21, 25-26.
Mas a Pedra de Toque, a Chave Mágica, a Regra de Ouro da Ecologia de Jesus, está na Bem-aventurança da Mansidão.
“Bem-aventurados os mansos, porque terão acesso à Terra”. Mt 5, 4
É com mansidão, amor, ternura, carinho, respeito e cuidado que se pode acessar os segredos da Mãe Terra.
Com violência, agressão, exploração, desrespeito, imposição, destruição a Mãe Terra se fecha e se protege, se fere e sangra.
A Mãe Terra não se vinga, como pensam alguns. Mas se esconde, se protege, se retrai. Sente-se ferida e ferida não consegue nos dar o que tem de melhor.
É a mansidão do filho cultivador terno, generoso e respeitoso que encontra na Mãe Terra os mais maravilhosos de seus frutos, em alimentos saudáveis, água limpa, ar puro, alívio para as dores e feridas, prazer, beleza, saúde, fartura, vida plena, felicidade.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

ESPECIAL MATOPIBA: O CAPITAL ACIMA DA VIDA

VALE ACESSAR, NO LINK ABAIXO, A EXCELENTE REPORTAGEM DO BRASIL DE FATO SOBRE A AMEÇA TERRÍVEL SOBRE O QUE RESTA DO CERRADO.

ESPECIAL | MATOPIBA: O CAPITAL ACIMA DA VIDA

O impacto do programa do agronegócio nos modos de viver das comunidades tradicionais do Sul do Piauí

https://www.brasildefato.com.br/2018/05/23/especial-or-matopiba-o-capital-acima-da-vida/ 

A LUTA DOS CAMINHONEIROS E AS QUESTÕES INCÔMODAS


A luta dos caminhoneiros e as questões incômodas
Há quem fale em “golpe” e em “locaute”. Mas movimento expõe, principalmente, fragilidade do governo; e paralisia de uma esquerda que esqueceu as ruas e a rebeldia – para enxergar apenas eleições
Por Antonio Martins
I.
E eles resistem. No início da tarde sexta-feira (25/6), quando se escreve este texto, o governo acaba de anunciar ação repressora contra os caminhoneiros – mas milhares deles continuam mobilizados, em todos os Estados. Recusam-se ao trabalho, nas condições que lhes são impostas. Parados, trancam rodovias. Sua atitude trava um país que optou por se tornar refém do transporte rodoviário. Não há gasolina nos postos (ou há filas quilométricas) e os ônibus urbanos começam a escassear. Ninguém abastece os Ceasas. Os aviões, em breve, ficarão em solo.
Para prosseguir, o movimento precisou superar três enormes obstáculos políticos e comunicacionais. Primeiro, ser acusado de anti-social. A mídia – os jornais da Globo, especialmente – diz que os caminhoneiros suscitam desde a interrupção das hemodiálises até a ganância dos atravessadores, que decuplicaram o preço da batata. Segundo, ampliar o sofrimento dos mais fracos. A redução do preço do diesel, proposta pelo governo, doerá nas costas dos contribuintes – martela a TV –, como se não houvesse horizonte político além da “austeridade fiscal”. Terceiro, sabotar a sacrossanta ditadura dos mercados. Os investidores, continua a mídia, puniram a Petrobrás, devastando os preços de suas ações, quando perceberam que uma empresa estatal pode levar em conta os interesses do país.
TEXTO-MEIO
Contra tudo, o movimento persiste e ganha apoio. O MST orgulhava-se, ontem, de ter oferecido almoço aos caminhoneiros, num bloqueio da Via Dutra, em SP. A Globo noticiou há pouco que os motoqueiros de São José dos Campos fizeram cortejo em homenagem aos grevistas, e confraternizaram com eles. Por que?
II.
Para parte da esquerda, a resposta é fácil. Os caminhoneiros seriam a ponta de lança de um “golpe dentro do golpe, jurídico-militar”, escreveu em editorial uma revistaTrata-se, no fundo, de um “locaute” (greve patronal), apostou outro site.
Talvez haja bases históricas para a suspeita. É possível que a natureza solitária de seu trabalho e a sensação de que “transportam as riquezas do país” torne os caminhoneiros mais propensos ao individualismo, à vanglória e às políticas relacionadas a estes sentimentos. Foi assim no Chile da Unidade Popular, em 1973, quando lideraram um paro que transtornou a vida da população e abriram caminho para o golpe de Estado do general Pinochet. Há quem tente isso de novo. A BBC Brasil reportava, ontem, a ação de grupos que tentam se aproveitar do movimento atual para difundir, via Whatsapp, a ideia da “intervenção militar” para “acabar com os políticos corruptos”.
Mas na aridez do Brasil-2018, submetido há dois anos a uma agenda de retrocessos, a paralisação significa, muito concretamente, um desnudamento das políticas neoliberais – e um sinal de que, bem ao contrário do que alguns pensavam, há inúmeras brechas para lutar contra elas.
III.
Examine as reivindicações dos caminhoneiros. A primeira, e mais crucial, é o fim dos aumentos quase diários no preço do óleo diesel. Eles desordenam totalmente as contas de transportadores cuja margem de lucro é reduzida (por competição intensa) e cujo custo essencial é o combustível. Como tratar um frete hoje e sofrer, no decorrer do próprio transporte, cinco aumentos de preço?
Mas por que tornou-se impossível, à Petrobrás, oferecer preços minimamente seguros, numa economia que estaria “estabilizada” desde o Plano Real? Porque a empresa deixou de modo explícito, após 2016, de atender às necessidades do país. Aceitou subordinar-se aos interesses de seus investidores – a grande maioria, enormes fundos globais. Eleva as cotações dos combustíveis seguindo cada oscilação no preço do barril de petróleo ou do dólar, para assegurar a lucratividade de suas ações. Além disso, iniciou um processo de desativação ou venda das próprias refinarias – o que a torna cada vez mais dependente de importações.
O governo Temer não é vulnerável apenas por ter entregue, na prática, a Petrobrás a seus acionistas externos. Ele tornou-se incapaz de fazer política fiscal. Outra forma de aliviar o drama dos caminhoneiros seria reduzir temporariamente os impostos sobre os combustíveis. Mas como, se os grandes agentes financeiros fiscalizam cada mudança no sistema de tributos? Eles aplaudiram, em novembro, a concessão, às petroleiras estrangeiras, de isenções fiscais calculadas em 1 trilhão de dólares, em vinte anos. Mas rejeitam, agora, um desconto no PIS-Cofins sobre o diesel que equivaleria a 1,2% deste valor. Ou exigem, como contrapartida, elevações de outros impostos que atingiriam a indústria e o emprego.
A pressão dos caminhoneiros rachou e desorganizou a base conservadora no Congresso como nunca antes, ao longo desta semana. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), defendeu a isenção temporária de PIS-Confins e conseguiu aprová-la. De imediato, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, afirmou que a medida desestabilizaria as contas públicas. O Palácio do Planalto pediu que o presidente do Senado, Eunício Guimarães, retardasse a aprovação da medida em sua casa parlamentar.
O impasse impediu que o governo firmasse, com as lideranças de caminhoneiros, um acordo crível. O compromisso fechado na quinta-feira à noite era frágil e foi, desde o início, desconsiderado mesmo por algumas associações da categoria. Um dia depois, os bloqueios despedaçaram o firmado. Como aceitá-lo, se ele trazia implícita a volta, em um mês, à política atual?
Um movimento que, motivado por drama real, sacode o país, desafiando as visões segundo as quais a sociedade permanece em prolongado estado de “apatia”. Reivindicações que, além de justas,desafiam duas das políticas centrais do golpe de2016 – o desmonte da Petrobrás e o “ajuste fiscal”. Um governo que, pressionado, entra em estado paralítico. Que falta para que a esquerda história decida-se a agir?
IV.
Em palavras, todos os partidos que compõem a esquerda brasileira apostam na mobilização social. O PT surgiu dela, no final da ditadura. PCdoB e PSOL veem-se influenciados pela tradição marxista, para a qual a presença no Estado, sob hegemonia capitalista, deveria ser apenas um instrumento para estimular a luta de massas.
Quanta diferença entre retórica e prática. Quem examinar a ação de qualquer destes partidos verá que, desde a redemocratização, ele tornou-se cada vez mais institucional. A tendência acentuou-se após 2003, com a chegada ao governo; e depois de 2013, quando ficou claro que as ruas não eram controladas por ninguém. Há hoje, para os partidos de esquerda, algo mais importante que a mera disputa eleitoral? Que projetos alternativos de país estão sendo gestados? Que esforços há em dialogar com aqueles que – como os caminhoneiros, com todas as suas contradições – chocam-se com a ordem?
A partir do final de 2017, a situação agravou-se – por motivos compreensíveis, mas contestáveis. O acirramento da perseguição a Lula levou a uma agenda reflexa. Ela está centrada, quase exclusivamente, na luta pela liberdade do ex-presidente e por voltar ao Palácio do Planalto. Não busque encontrar, por exemplo, participação dos partidos de esquerda na luta contra os efeitos da “reforma” trabalhista, o desmantelamento dos serviços públicos ou a ocupação federal-militar nas favelas do Rio de Janeiro.
As pesquisas de intenção de voto, no momento favoráveis, alimentam esta tendência. Valeria a pena correr riscos, quando há uma hipótese mais rápida de voltar ao governo, já em outubro?
Aos poucos, vão se espalhando movimentos que parecem apostar em outra lógica. Na mesma semana em que explodiu a luta dos caminhoneiros, os professores das escolas particulares de São Paulo ocupavam a Avenida Paulista (contra a precarização de suas condições de trabalho) e as feministas transformavam em fatos políticos mesmo a estreia de filmes pouco ambiciosos – como Chega de Fiu-Fiu.
Estará em curso outra virada política? Como diria José Saramago, não podemos saber – mas talvez tenhamos o dever de participar…
https://outraspalavras.net/brasil/a-batalha-dos-caminhoneiros-e-suas-questoes-incomodas/