quarta-feira, 4 de novembro de 2015

AJUSTE FISCAL, DESASTRE PARA O PAÍS



“Ajuste fiscal, desastre para o país”

Secretário Nacional de Economia Solidária dispara: “Dilma fez giro de 180 graus sem explicar nada. Só banqueiros defendem a política atual”
Marco Weissheimer entrevista Paul Singer, no Sul21
O ajuste fiscal, atualmente em curso no Brasil, está reduzindo a demanda interna, desaquecendo a economia e produzindo muitos desempregados, representando um desastre para o país. A avaliação é do economista Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária, que esteve em Porto Alegre no início da semana, participando de um debate na Assembleia Legislativa. Em entrevista ao Sul21, Singer analisou o atual momento político do país e interpretou a guinada na política econômica do governo Dilma Rousseff como uma tentativa de “agradar a burguesia para ver se ela interrompe a greve de investidores” que puxou o freio da economia. O economista torce para que a estratégia funcione, mas adverte para o custo e os efeitos da mesma: “a cada ano produzimos menos e, agora, começamos a produzir muitos desempregados”.
Sul21: Qual sua avaliação sobre a política de ajuste fiscal atualmente em curso no Brasil?
Paul Singer: Quando a presidenta Dilma tomou posse para iniciar o seu segundo mandato, ela fez uma volta de 180 graus sem nenhuma explicação. Até onde eu percebo, os únicos que entenderam por que era preciso fazer o ajuste fiscal foram os banqueiros. Os banqueiros são os únicos que acham que o ajuste fiscal é fundamental. Esse ajuste fiscal está sendo um desastre para o país. A cada ano produzimos menos e, agora, começamos a produzir muitos desempregados. Sinceramente, eu esperava que houvesse ao menos no PT alguma discussão sobre o ajuste fiscal para ver que sentido tem isso e quais são as consequências.
Não é absolutamente verdade que nós estamos com um enorme rombo nas contas públicas. Isso é tudo invenção da imprensa mais reacionária. Não há rombo nenhum. Todos os países têm dívida pública, Estados Unidos, Inglaterra, Japão, China e assim por diante. Os governos precisam de dinheiro mais do que arrecadam e, assim, criam uma dívida pública pela qual eles pagam juros. Dívida pública não se paga. A dívida pública dos países que participaram das guerras mundiais não poderia ser paga nem em um século. Ela é enorme.
O ajuste fiscal só tem razão de ser para os banqueiros. Hoje, no Brasil, é um bom investimento você comprar o chamado tesouro direto. Você compra valores da dívida pública e ganha um certo juro, que é o juro da Selic. Para isso não é preciso fazer ajuste nenhum. Essa dívida pública pela qual já se paga é grande. Do jeito que as coisas estão, com a economia produzindo cada vez menos, não vai terminar de pagar nunca e não é para pagar mesmo.
Pelas manifestações da presidenta Dilma, eu deduzo que ela está querendo ver se faz a economia brasileira crescer. Sendo o Brasil um país capitalista, para que ele possa crescer é preciso que a burguesia faça investimentos. Se a burguesia não gosta do governo – e no caso brasileiro tem todos os motivos para não gostar -, ela não investe. Há uma expressão para isso, que não fui eu que inventei e já foi usada várias vezes: greve de investidores. É uma greve suicida. Imagine um fabricante ou um dono de uma cadeia de lojas que ganhou dinheiro, teve lucro e decidiu deixar esse dinheiro no banco, sem investir para ampliar sua atividade. Daqui a pouco entra alguém no mercado e tira a sua freguesia. A greve de investidores não pode demorar muito, pois acaba atingindo os próprios capitalistas.
Está ocorrendo hoje uma greve de investidores no Brasil?
Sim. Está ocorrendo desde que a Dilma assumiu o segundo mandato. Aliás, no primeiro mandato dela já não houve investimentos e o crescimento ficou na casa do 1% ao ano.
Alguns defensores da atual política econômica citam também mudanças  no cenário internacional que teria se tornado mais adverso para o Brasil. Na sua opinião, essa associação é pertinente?
Para mim isso não faz nenhum sentido. O Brasil não tem dívida pública externa. Pelo contrário, temos bilhões de dólares no Fundo Monetário Internacional. A situação econômica mundial está ruim para os outros, não para nós. Qual é o problema para o Brasil? Se tivéssemos uma dívida como a Grécia e os credores estivessem exigindo pagamento, aí a história seria outra. Mas nós não temos. A nossa dívida é em reais e os portadores dessa dívida são cidadãos brasileiros.
A queda no preço de algumas commodities, como no caso do petróleo, não representa um problema para a economia brasileira?
Sim, mas não é um problema só para a economia brasileira e sim para todos os produtores de commodities no mundo. Nós tivemos um período onde os preços das commodities estavam em alta porque a China estava crescendo e comprando esses produtos feito louco. A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e isso foi muito bom. Mas agora a China está crescendo muito menos, em torno de 7% ao ano. Chegou a crescer 11%. Mas 7% ainda é relativamente alto na atual situação mundial.
A nossa moeda se desvalorizou muito porque os nossos investidores, ao invés de aplicar dinheiro na nossa economia, compram dólares. Então, o dólar acaba se valorizando, mas isso é pura especulação. Na verdade, isso acaba favorecendo o Brasil pois, na medida em que o real vale um quinto de um dólar, nossos produtos ficam mais baratos. A indústria brasileira já está exportando um pouco mais do que exportava antes.
Eu sou economista, mas não sou especialista nisso. Mas, por tudo o que sei, um país que tem estocado algumas dezenas de bilhões de dólares no Fundo Monetário Internacional, tem qual problema no cenário externo exatamente? Nós temos um problema interno, que são um milhão e quatrocentos mil desempregados e a economia crescendo para trás. A cada ano estamos produzindo menos do que no ano anterior. Isso sim é um problema, mas não tem absolutamente nada a ver com a economia mundial, pelo menos até onde eu sei.
O senhor tem participado de algum debate ou conversa com integrantes do governo ou dentro do PT?
Não. No PT não se discute nada disso, infelizmente. Tenho falado sobre esse tema com jornalistas, nada mais do que isso. A minha posição não é única. Tem muita gente dizendo o que estou dizendo, mas fui um dos primeiros a dizer o que estou repetindo aqui.
A que atribui esse giro de 180 graus que mencionou a respeito da posição da presidenta Dilma?
Atribuo ao que ela própria diz e ela está sendo sincera. A presidente espera com essa política, que, na minha opinião, não é nada boa para a classe trabalhadora, agradar a burguesia para ver se ela passa a investir e interrompe a greve. A verdade é que a burguesia brasileira não gosta nem um pouco da Dilma, tanto assim que quer ver se consegue afastá-la com o impeachment. Ela foi um tanto agressiva no primeiro mandato. Não esqueçamos que ela baixou os juros dos bancos públicos para obrigar os bancos privados a cobrar menos. Os banqueiros não perdoam isso. Ela está procurando agora se redimir junto à classe dominante para ver se eles voltam a investir e a economia volte a crescer. Essa é, para mim, a lógica da atual política econômica.
Isso não é traição a nada. Se ela conseguisse fazer com que a burguesia brasileira voltasse a investir nós não teríamos nem a recessão nem o desemprego. O efeito disso que está sendo feito aparece em algumas entrevistas. Uma que me impressionou muito foi a do Klabin, um dos maiores fabricantes de papel do Brasil, publicada na Folha de S. Paulo. Ao ler essa entrevista, pensei: “Uai, a política dela está dando algum resultado”. Foi uma entrevista elogiosa a Dilma. Estou torcendo para que seja um sinal de que tudo vai melhorar.
Em 1980, a indústria representava cerca de 34% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Hoje, representa apenas cerca de 9%. Qual é, na sua opinião, o impacto desse processo de desindustrialização na economia brasileira?
Tenho a impressão de que falar em desindustrialização é um pouco exagerado. Agora, se você comparar a indústria com a agricultura o contraste é enorme. O Brasil é hoje o maior exportador de alimentos do mundo e o agronegócio ganha muita força econômica e política com isso. Já a indústria brasileira não é exportadora e está voltada fundamentalmente para o mercado interno. A política de ajuste fiscal certamente prejudica a indústria porque há menos demanda. O governo arrecada, em média, algo em torno de 37% do PIB. Se ele não gasta, e é isso que é o ajuste fiscal, isso é um desastre e resulta em recessão.
Estes 1,4 milhão de desempregados não foram de graça. Eu não posso nem achar ruim com os caras que mandaram embora. Se eu for um industrial, comerciante ou fazendeiro, seja o que for, se eu não conseguir vender o que meus trabalhadores produzem, o que vou fazer? Não terei como seguir pagando os salários deles. A indústria está sem mercado, é isso que está acontecendo. Agora, com o dólar alto, está exportando um pouco mais, mas ela não é uma grande exportadora.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

CONTRA O CIMI NO MATO GROSSO DO SUL: ISSO É CPI?

É IMPRESSIONANTE O PRECONCEITO E A NEGAÇÃO DA CAPACIDADE E AUTONOMIA DOS POVOS INDÍGENAS: MAIS UMA VEZ, NISSO QUE CHAMAM DE CPI, DEPUTADOS E O DELEGADO ALCÍDIO, DA POLÍCIA FEDERAL, CONTINUAM IMAGINANDO QUE OS INDÍGENAS NÃO SÃO CAPAZES DE TOMAR SUAS DECISÕES E DE ORGANIZAR SUAS AÇÕES. OS INDÍGENAS AFIRMAM O CONTRÁRIO, ASSUMINDO A RESPONSABILIDADE DAS RECUPERAÇÕES DE TERRITÓRIOS, AÇÕES LEGÍTIMAS DIANTE DA FALTA TOTAL DE AÇÕES DO ESTADO, VIA GOVERNO FEDERAL, PARA DEFENDER E GARANTIR SEUS TERRITÓRIOS E DIREITOS.

Guerrilha, "Tex" e 6 milhões de reais: o depoimento do delegado Alcídio, da Polícia Federal, na CPI do Cimi

O que o personagem dos quadrinhos western chamado Tex, um policial texano herói da colonização do oeste estadunidense, tem a ver com a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul que investiga o trabalho do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no estado, a chamada CPI do Cimi
A reportagem é publicada no portal do Cimi, 31-10-2015.
Aparentemente, nada - mas, conforme o delegado da Polícia FederalAlcídio de Souza Araújo - responsável pela operação que culminou na morte de Oziel Terena, na Terra Indígena Buriti, município de Sidrolândia (MS) - afirmou nesta terça-feira, 27, durante oitiva da CPI, é onde tudo começa. Foram as leituras do gibi Tex que o introduziram à questão indígena - e juntando com o que ele “ouviu dizer” ou “disseram para ele, mas não é possível provar” sobre o Cimi, ele pôde concluir que a organização indigenista financia e incita as retomadas de terras no Mato Grosso do Sul, o que para ele compõe um mosaico de ilegalidades envolvendo técnicas de guerrilha e financiamentos milionários.
Como, de que forma e quais elementos materiais comprovam estes supostos procedimentos de atuação do Cimi junto aos povos indígenas, não houve Tex que ajudasse o delegado a comprovar. Tampouco Jeová, evocado por Alcídio para lançar dúvidas se de fato uma freira do Cimi que atua no Mato Grosso do Sul era religiosa ou farsante, posto que, conforme o delegado afirmou, a freira sequer sabia quem era Jeová.
Nesta quarta-feira, 28, o Cimi divulgou uma nota demonstrando indignação com a declaração do delegado.
Conspiração
Acusações graves de todo tipo, sem provas: treinamentos de táticas de guerrilha, falsidade ideológica de missionários e assessores; milhões de reais despejados pelo Cimi na conta de um indígena anônimo - tudo devidamente enquadrado pelo delegado Alcídio no científico e metodológico “ouvi dizer” e no “me disseram, mas não posso provar”. Aliados a teorias da conspiração - formalmente convocadas na CPI através do depoimento/palestra do sociólogo mexicanoLorenzo Carrasco - de que, para atender a "interesses estrangeiros", o Cimi trabalha para impedir a "integração" dos indígenas à sociedade branca, as afirmações do delegado tornam-se matéria-prima para os parlamentares ruralistas construírem uma narrativa fantasiosa e subjetiva de criminalização do Cimi, jornalistas e integrantes dos movimentos sociais no estado.
CPI é conduzida por parlamentares cujas campanhas eleitorais foram financiadas pelo agronegócio e por empresas envolvidas na Operação Lava Jato. A ruralista Mara Caseiro (PTdoB) preside a Comissão, que tem como vice o deputado Marquinhos Trad (PMDB) e como relator o deputado Paulo Corrêa (PR). O triunvirato recebeu, nas eleições de 2014, R$ 2.454.542,06 milhões em doações. Desse total, o relator da ‘CPI do Cimi’ declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o montante de R$ 769.515, 50 - as construtoras UTC, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêafinanciaram, aproximadamente, 40% da campanha declarada pelo deputado.
Na mesma reunião da Comissão, foi ouvido também o indígena Dionedson Terena, autor do vídeo que registra a apreensão de equipamentos do jornalista Ruy Sposati. Ainda, sob sigilo, foram colhidos depoimentos de indígenas Guarani Kaiowá do município de Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai, a 350km do local onde ocorreu a tentativa de reintegração de Buriti, base das acusações da CPI.
A cada sessão, convocam mais e mais depoentes, como o vice-governador de Roraima Paulo César Quartieiro -alegando, sem fatos determinados, que a “tecnologia usada pelo Cimi no estado é a mesma no restante do país”, nas palavras do relator, deputado Paulo Corrêa, e que, portanto, é relevante para o relatório da Comissão. A Comissão tornou-se um muro de lamentações e calúnias contra o Cimi e a demarcação das terras indígenas - mesmo que paralisadas - no Mato Grosso do Sul. Uma espécie de julgamento macartista: o deputado Corrêa chegou a perguntar ao indígena Dionedson Terena o que ele fazia numa assembleia... Terena.
Alcídio: o delegado do “ouvi dizer”
Sem precisar nomes, datas e documentos, o delegado acusou o Cimi de financiar e organizar os indígenas em ocupações de terra, realizando treinamentos "de guerrilha", além de transferir quantias milionárias sem motivo definido para contas bancárias de indígenas no Mato Grosso do Sul.
"Como chefe da delegacia, não só indígenas como fazendeiro (sic) me traziam essas informações, mas ninguém consegue materializar isso", contou o delegado, ao ser questionado se ele tem convicção de que o Cimi instiga, incita e financia ocupações de terra no estado.
No dia da apreensão do equipamento, continua o policial, "alguns especialistas até dizem que coloquei minha vida em risco, quando eu saí da coluna de proteção dos policiais e fui até o suposto jornalista, ao componente do Cimi. Porque eu vi ali, como policial a possibilidade de trazer elementos de comprovação (…). Então, me surge a oportunidade, e eu não poderia deixar… E eu posso garantir aos senhores [deputados], quando os senhores pedirem a cópia: o inquérito tá gostoso".
Questionado pela deputada Mara Caseiro se existiam outros inquéritos a respeito do Cimi na PF, Alcídio desvia, lamentando: "como vivemos num regime democrático de direito, a polícia fica de mãos atadas em alguns momentos". Comentando o tipo de armamento utilizado pela Polícia Federal - em contraposição a tipos de cápsulas encontradas em ataques contra os indígena -, o delegado informou que “ (...) todo policial, ao sair agora, graças ao nosso bom deus, tem uma glock 9mm".
A compaixão aos indígenas parece ser outra lição de Tex ao delegado Alcídio. O policial sugeriu que os indígenas se juntassem com fazendeiros para exportar produtos, arrendando as próprias terras. Como toda terra indígena pertence à União, sendo o usufruto exclusivo da comunidade que a ocupa, arrendar é crime federal. Para o delegado, porém, organizações como o Cimi lucram com a miséria dos indígenas, e por isso jamais desejariam vê-los produzindo ao lado de fazendeiros ou arrendando as terras. Questionou, ainda, "por que só tem território indígena onde a terra é rica?", no lastro do pensamento conspiracionista proposto por Lorenzo Carrasco. Respondeu a si próprio dizendo não concordar com a ideia de que "o branco destrói e o índio não".
Guerrilha pelo telefone
"Pra se fazer uma ocupação, há uma logística", explanou Alcídio. "Pra se conseguir essas invasões, precisa-se de dinheiro. Mesmo que a comunidade se organize, há necessidade de dinheiro. Se então, o senhor [deputado Paulo Corrêa] me pergunta [se o Cimi financia as ocupações indígenas], eu diria que sim".
Relator da CPI, o deputado Paulo Corrêa (PR-MS) comentou o depoimento do delegado: "posso considerar (...) que houveram técnicas de guerrilha: eles [indígenas Terena] foram treinados pra fazer isso, e pelo jeito, pelo que se coloca aqui, é o Cimi. Segundo, teve que ser financiado, tem que ter um dinheiro que veio de algum lugar. E terceiro, é que depois de feito a negociação toda, volta o Cimi e força a barra pra não…".
Cortando o deputado, Alcídio continuou: "eu me lembro que esse senhor [não precisou quem seria] mencionou o seguinte: 'enquanto fica a gente negociando' - e isso eu pude perceber, ele falou, isso ele falou - 'o Cimi por telefone instigando: não sai, não sai, não sai'. Aí eles, à frente ali da negociação, que que acontece? Um sai, atende o telefonema, retorna… e ficam… usando…". "Quem lê Tex, pesquisa profundamente", disse o deputado Paulo Corrêa, elogiando o delegado, e seguiu: "O senhor pesquisou depois sobre o Cimi, tentou entender o que é o Cimi, como ele funciona?", ao que o delegado respondeu: "eu tentei umas pequenas leituras, compreendi e fiquei satisfeito com o que eu li… Eu não me aprofundei, pra ser sincero".
6 milhões de reais
O delegado acusou o Cimi de ter pago 6 milhões de reais a um estudante indígena Guarani Kaiowá da região de Dourados, sem precisar os porquês. "Teve um índio (...), quando o [rezador] Nísio Gomes faleceu [assassinado], ele menciona que tem um índio fazendo faculdade em Dourados, que recebia em torno de 6 milhões na conta dele, vindo do Cimi", depôs sob juramento o policial federal. "Esse índio não quer colocar no papel, porque, o temor.... Aí eu já instigo os senhores [deputados] a verificar a contabilidade do Cimi".
"Essa acusação é uma loucura completa. É um factoide, uma manobra, porque eles querem abrir as contas do Cimi", opina o secretário executivo do CimiCleber Buzatto. "Nós não temos nada a esconder sobre o nosso trabalho. E, no entanto, eles querem acabar com a gente de qualquer jeito, inclusive trabalhando com ficções, e gastando dinheiro público em uma CPI que trouxe até sociólogo mexicano simplesmente pra afirmar, no fundo, que não se deve demarcar terras indígenas - e mais, que é preciso exterminar aqueles que apoiam estas populações em suas lutas pela terra".
Na CPI, ao menos três integrantes do Cimi deverão ser ouvidos: o coordenador regional da entidade no Mato Grosso do Sul, Flávio Machado, o secretário nacional, Cleber Buzatto, e o presidente do Cimi, Dom Roque Paloschi."Quem faz ocupação somos nós", afirma indígena na CPI do Cimi
CPI ouviu o indígena Dionedson Terena, autor do vídeo que registra o momento exato em que o delegado da Polícia Federal Alcídio de Souza Araújo apreende um laptop e um gravador do jornalista Ruy Sposati, que realizava cobertura da reintegração de posse contra indígenas Terena.
A oitiva iniciou com o deputado Paulo Corrêa exigindo a qualificação do advogado que acompanhava o indígena.Dionedson - cuja primeira língua é o Terena - prestou depoimento em português, e foi o primeiro a falar 'sob juramento'. O procedimento, até então, não havia sido utilizado para colher os depoimentos do casal de fazendeiros e nem dos teóricos que foram convidados a palestrar-depor nas sessões anteriores.
Dionedson exibiu, na íntegra, o vídeo da apreensão dos equipamentos. O conteúdo registrado pelo Terena e publicado no Youtube em 2012 havia sido parcialmente utilizado em uma reedição audiovisual apresentada pela fazendeira Jucimara Bacha, na reunião anterior da CPI. "Na semana passada, o vídeo foi utilizado de forma a incitar [provar] a participação do Cimi na retomada. Eu quero contradizer a fala da produtora rural na semana passada e passar o vídeo inteiro hoje", afirmou o indígena.
Na sessão anterior, após a exibição do vídeo, os deputados afirmaram haver ali provas de que o Cimi estaria "por trás" da "invasão de terras". Dionedson discorda da interpretação de que aquelas imagens ali comprovariam o envolvimento do Cimi no financiamento e organização das retomadas. Ao contrário, para Dionedson as imagens registradas por ele no vídeo colocam a entidade, outros movimentos sociais e jornalistas na condição de vítimas da ação policial. "Eu quero usar esse vídeo pras pessoas entenderem e compreenderem o contexto em que ele foi filmado, que era a primeira tentativa de reintegração de posse de Buriti".
A apreensão de equipamentos do jornalista provocou reações entre organizações que defendem o trabalho da imprensa. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul acompanharam a questão, e mais de cem organizações prestaram solidariedade, acusando a polícia federal de violação de direitos profissionais.
Uma semana depois da apreensão, na segunda tentativa de reintegração de posse, uma violenta ação da Polícia Federal - ocasião em que dezenas de celulares e câmeras também foram apreendidos pelos policiais - culminou na morte do indígena e agente de saúde Oziel Terena.
Dionedson explicou como se organiza politicamente o povo Terena. Segundo ele, os indígenas se organizam "nas assembleias, quando lideranças de todas as aldeias e retomadas se encontram para discutir a situação das terras. Quem convoca as assembleias é o próprio povo terena, é um coletivo. Quem decide nas assembleias é o povo Terena". Dionedson refutou as acusações dos parlamentares de que movimentos não-indígenas estariam "por trás" das ocupações. "No momento das decisões de ocupação quem decide somos nós, ninguém de fora pode participar. Não é nenhuma organização governamental ou não-governamental que faz isso, é o coletivo Terena".


domingo, 1 de novembro de 2015

A REALIDADE SOCIOPOLÍTICA BRASILEIRA: DIFICULDADES E OPORTUNIDADES

O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília de 27 a 29 de outubro de 2015, comprometido com a vivência democrática e com os valores humanos, consciente de que é dever da Igreja cooperar com a sociedade para a construção do bem comum, manifesta-se acerca do momento de crise na atual conjuntura social e política brasileira.

A permanência e o agravamento da crise política e econômica, que toma conta do Brasil, parecem indicar a incapacidade das instituições republicanas que não encontram um modo de superar o conflito de interesses que sufoca a vida nacional, e que faz parecer que todas as atividades do país estão paralisadas e sem rumo. A frustração presente e a incerteza no futuro somam-se à desconfiança nas autoridades e à propaganda derrotista, gerando um pessimismo contaminador, porém, equivocado, de que o Brasil está num beco sem saída. Não nos deixaremos tomar pela “sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre” (Papa Francisco – Alegria do Evangelho, 85).

Somos todos convocados a assegurar a governabilidade que implica o funcionamento adequado dos três poderes, distintos, mas harmônicos; recuperar o crescimento sustentável; diminuir as desigualdades; exigir profundas transformações na saúde e na educação; ampliar a infraestrutura, cuidar das populações mais vulneráveis, que são as primeiras a sofrer com os desmandos e intransigências dos que deveriam dar o exemplo. Cada protagonista terá que ceder em prol da construção do bem comum, sem o que nada se obterá.

É preciso garantir o aprofundamento das conquistas sociais com vistas à construção de uma sociedade justa e igualitária. Cabe à sociedade civil exigir que os governantes do executivo, legislativo e judiciário recusem terminantemente mecanismos políticos que, disfarçados de solução, aprofundam a exclusão social e alimentam a violência, entre os quais o estado penal seletivo, as tentativas de redução da maioridade penal, a flexibilização ou revogação do Estatuto do Desarmamento e a transferência da demarcação de terras indígenas para o Congresso Nacional. No genuíno enfrentamento das atuais dificuldades pelas quais passa o país, não se pode abrir espaço para medidas que, de maneira oportunista, se apresentam como soluções fáceis para questões sabidamente graves e que exigem reflexão e discussão mais profundas com a sociedade.

A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso comum entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético e moral de favorecer a busca de caminhos que recoloquem o país na normalidade. É inadmissível alimentar a crise econômica com uma crise política irresponsável e inconsequente.

Recorde-se que “uma sociedade política dura no tempo quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências comuns, estimulando o crescimento de todos os seus membros, especialmente aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas” (Papa Francisco ao Congresso dos EUA). Nesse sentido, com o espírito profético inspirado na observância do Evangelho, a CNBB reitera que o povo brasileiro, os trabalhadores e, principalmente, os mais pobres não podem ser prejudicados em nome de um crescimento desigual que reserva benefícios a poucos e estende a muitos o desemprego, o empobrecimento e a exclusão.

A construção de pontes que favoreçam o diálogo entre todos os segmentos que legitimamente representam a sociedade é condição fundamental para a superação dos discursos de ódio, vingança, punição e rotulação seletivas que geram um clima de permanente animosidade e conflito entre cidadãos e grupos sociais. Esse clima belicoso, às vezes alimentado por parte da imprensa e das redes sociais, poderá contaminar ainda mais os corações e mentes das pessoas, aprofundando abismos e guetos que, historicamente, maculam nossa organização social. Ao aproximar-se o período eleitoral de 2016, é responsabilidade de todos os atores políticos e sociais, comprometidos com a ética, a justiça e a paz, aperfeiçoarem o ambiente democrático para que as eleições não sejam contagiadas pelos discursos segregacionistas que ratificam preconceitos e colocam em xeque a ampliação da cidadania em nosso país.

A corrupção se tornou uma “praga da sociedade” e um “pecado grave que brada aos céus” (Papa Francisco - O rosto da misericórdia, n.19). Acometendo tanto instituições públicas, quanto da iniciativa privada, esse mal demanda uma atitude forte e decidida de combate aos mecanismos que contribuem para sua existência. Nesse sentido, destaca-se a atuação sem precedentes dos órgãos públicos aos quais compete combater a corrupção. A contraposição eficaz à corrupção e à sua impunidade exige, antes de mais nada, que o Estado cumpra com rigor e imparcialidade a sua função de punir igualmente tanto os corruptos como os corruptores, de acordo com os ditames da lei e as exigências de justiça
.
Deus nos dê a força e a sabedoria de seu Espírito, a fim de que vivamos nosso ideal de construtores do bem comum, base da nova sociedade que almejamos para nós e para as futuras gerações.
Brasília, 28 de outubro de 2015.
Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB
Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia- BA
Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília-DF
Secretário Geral da CNBB

EXXON SABIA, JÁ NA DÉCADA DE 1970, QUE PLANETA ESTAVA ESQUENTANDO

DECIDI PUBLICAR ESTE ARTIGO ESPECIALMENTE PORQUE ELE DESTACA A MENTIRA DA EXXON DE PETRÓLEO SOBRE A RELAÇÃO ENTRE FONTES FÓSSEIS E AQUECIMENTO DO PLANETA. SEUS PESQUISADORES HAVIAM DETECTADO E ESTUDADO O FENÔMENO NA DÉCADA DE 70 DO SÉCULO PASSADO, MAS A EMPRESA NÃO PUBLICOU E, AO CONTRÁRIO, FINANCIOU UM FALSO DEBATE, PATROCINANDO QUEM DIVULGASSE DÚVIDAS SOBRE O CONSENSO CIENTÍFICO QUE AVANÇAVA. 

TUDO COMO FIZERAM AS EMPRESAS DE TABACO SOBRE A RELAÇÃO DO SEU USO COM DOENÇAS, ESPECIALMENTE COM O CÂNCER DE PULMÃO: ELAS SABIAM, MAS MENTIRAM E ATÉ MATARAM PARA MANTER A MENTIRA POR MUITO TEMPO... 

MAS, COMO DIZ A SABEDORIA POPULAR, "A MENTIRA TEM PERNAS CURTAS".

SERÁ QUE A MENTIRA SOBRE OS EFEITOS DA QUEIMA DE FONTES FÓSSEIS SERÁ DERROTADA NA COP 21? E SERÁ QUE A VERDADE ILUMINARÁ OS ACORDOS NECESSÁRIOS PARA SALVAR A VIDA NA TERRA?

É PRECISO, DIZ A AUTORA DO ARTIGO, QUE A POPULAÇÃO FAÇA NOVA "TOMADA DA BASTILHA"...

E QUE TAL UMA MOBILIZAÇÃO PARA QUE NINGUÉM USE GASOLINA ESSO? ENTRE NESSA!

30 DE OCTUBRE DE 2015< ENTRADA PREVIA | PRÓXIMA ENTRADA >

Toma de la Bastilla en la cumbre sobre cambio climático de París

     
Publicado em Democracy Now el 30 de octubre de 2015
Amy Goodman y Denis Moynihan
Jefes de gobierno de todo el mundo se reunirán en París dentro de tan solo un mes a fin de concretar un tratado para hacer frente a la amenaza global que representa el cambio climático. El cambio climático es real, va en aumento y, según el creciente consenso de los científicos, es claramente ocasionado por la actividad humana. Desde los albores de la era industrial, los seres humanos han estado vertiendo contaminantes al cielo como si la atmósfera fuera un pozo sin fondo, capaz de absorber una infinita cantidad de humo y gases. Estos gases de efecto invernadero han formado una especie de manta alrededor del planeta que retiene el calor del sol.
Las señales de la crisis se observan en todas partes: 2015 va camino a convertirse en el año más caluroso que se haya registrado. El Huracán Patricia azotó las costas de México la semana pasada. Patricia fue el huracán más intenso que se haya registrado en el hemisferio occidental. Y fue intenso no solo por su poder sino porque se formó a gran velocidad, prácticamente de un día para otro dejó de ser una tormenta tropical para transformarse en un huracán.
En el Golfo Pérsico, según informaron científicos esta semana, “es probable que ciertos centros poblados experimenten temperaturas intolerables para los seres humanos a consecuencia de crecientes concentraciones de gases de efecto invernadero generados por la actividad humana”. En otras palabras, en ciudades como Doha, en Qatar, y Dubai, en Emiratos Árabes Unidos, la temperatura durante el día será simplemente demasiado alta para que los seres humanos puedan sobrevivir afuera más de unas pocas horas. En las zonas polares, el hielo se derrite a un ritmo sin precedentes y el océano se calienta, lo que produce que el agua se expanda. Ambos fenómenos están provocando el aumento del nivel del mar, que ya afecta a pequeños países insulares como Tuvalu, Kiribati y las Islas Marshall en el océano Pacífico y las Maldivas en el océano Índico. Los científicos predicen que cientos de millones de personas se verán finalmente obligadas a abandonar las ciudades costeras del mundo.
El objetivo es limitar el aumento de la temperatura promedio del mundo en 2º Celsius o 3,8º Fahrenheit por encima de las temperaturas que se registraban antes de la era industrial. Esto exigirá cooperación a nivel mundial a una escala sin precedentes, así como la descarbonización de la economía. En otras palabras, la gente tendrá que dejar de utilizar combustibles fósiles, como carbón y petróleo, y depender de fuentes de energía renovable, como la energía solar o la eólica. Según sostienen los científicos y asesores en políticas públicas, si esta transición se lograra a tiempo, si se lograra antes de que la temperatura superase ese umbral crítico de 2º Celsius, entonces, el clima del planeta podría salvarse. Si los seres humanos dejan que las cosas continúen tal como están y no hacen nada o si toman medidas a medias, el cambio climático será irreversible y catastrófico.
Habrá mucho en juego en la cumbre sobre cambio climático de París. El encuentro es organizado por Naciones Unidas y su nombre abreviado es COP21, en referencia a la 21ª Conferencia de las Partes de la Convención Marco de Naciones Unidas sobre el Cambio Climático, o CMNUCC. El proceso se inició en la “Cumbre de la Tierra de Río”, que tuvo lugar en Río de Janeiro en 1992, y culminó con el Protocolo de Kyoto en 1997. Si bien ese fue un tratado vinculante, algunos países se negaron a ratificarlo, entre ellos, el mayor contaminante del mundo que haya existido en la historia, Estados Unidos. Esta vez, cada país hará promesas voluntarias para reducir las emisiones de gases de efecto invernadero, sin que haya manera de obligar a su cumplimiento.
¿Cómo hará Estados Unidos para transformar radicalmente su economía y deshacerse de los motores de combustión interna, el gas extraído por fracturación hidráulica y las plantas de carbón para el año 2050? El sector de los combustibles fósiles ejerce una gran influencia sobre cada nivel de gobierno en Estados Unidos, lo que torna prácticamente imposible llevar adelante cualquier tipo de cambio, inclusive un cambio gradual. Gracias a la notable cobertura de los ganadores del Premio Pulitzer, InsideClimate News y el Los Angeles Times, sabemos ahora que ExxonMobil estudiaba y comprendía el cambio climático ya en la década de 1970. A pesar de ello, Exxon ocultó sus propios hallazgos respecto a que los combustibles fósiles podrían provocar el calentamiento global, la modificación del clima y el derretimiento del hielo del Ártico.
Bill McKibben, fundador de 350.org, grupo activista que lucha contra el cambio climático, me dijo: “Se trata de uno de los más importantes, o tal vez del más importante golpe de investigación que se haya dado en décadas. La notable labor de esos periodistas merece convertirse en parte del consenso que el planeta entero deberá lograr en relación a la mayor crisis a la que se han enfrentado los seres humanos. Probablemente Exxon sea la única institución de la Tierra que podría haber ahorrado estos 25 años de falso debate que hemos mantenido en relación al cambio climático. Si en 1989, cuando Jim Hansen, de la NASA, de pie ante el Congreso, dijo ‘Sí, el planeta se está calentando’, si en ese momento Exxon hubiera dicho: ‘Saben que sí, tiene razón. Nuestros científicos, que son expertos es este tema, confirman todo lo que está diciendo. El mundo se ve ante un claro problema’. No habríamos resuelto el calentamiento global, pero estaríamos bien encaminados. No nos habríamos embarcado en un cuarto de siglo de negación y debate”. McKibben se sintió tan indignado con las revelaciones de que Exxon ya tenía información sobre el calentamiento global desde los años 70 que hace algunas semanas caminó hacia la estación de servicio de Exxon de su localidad en Vermont y obstruyó el acceso a una bomba de combustible portando un cartel que decía: "Esta bomba fue clausurada temporalmente porque Exxon mintió acerca del cambio climático". McKibben fue arrestado, pero hasta la fecha ninguno de los directivos de Exxon ha enfrentado cargos por encubrir sus hallazgos o por mentirle al mundo entero.
Mientras los líderes del mundo se encuentren reunidos para la COP21 en Le Bourget, un imponente centro de convenciones ubicado en París, se espera que cientos de miles de personas se vuelquen a las calles. Los organizadores de la manifestación llaman a llevar a cabo acciones a nivel mundial el 28 y 29 de noviembre en demanda de un acuerdo justo, ambicioso y vinculante que haga frente y que, en definitiva, revierta el potencial catastrófico del cambio climático provocado por la actividad humana. Si los líderes fracasan, muchas personas estarán allí, listas para tomar la Bastilla.
http://www.democracynow.org/es/blog/2015/10/30/toma_de_la_bastilla_en_la

CONTRA A PEC 215 E EM DEFESA DA VIDA E DA MÃE TERRA

Em defesa da vida e da Mãe Terra, organizações divulgam o Manifesto de Palmas

Inserido por: Administrador em 30/10/2015.
Fonte da notícia: Cimi Regional Goiás/Tocantins
Enquanto una grave crise civilizatória envolve a humanidade, com ameaças reais à vida no planeta Terra, nossa “Casa Comum”, denunciamos que a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, pela Comissão Especial na Câmara dos Deputados, no último dia 27, representa mais uma severa violência e grave violação aos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

Diante deste fato, mais de 50 organizações, movimentos sociais, pastorais, igrejas, entidades de direitos humanos e outras instituições da sociedade civil divulgaram nesta tarde o “Manifesto de Palmas”, no qual expressam seu repúdio à PEC 215 e a confiança de que esse projeto de extermínio não será aprovado pelo Congresso.

Leia abaixo o Manifesto de Palmas, na íntegra

PEC 215: O extermínio dos Povos Indígenas e das Populações Tradicionais do Brasil
Lágrimas de revolta, diante da morte anunciada com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 pela Comissão Especial, na Câmara dos Deputados. Os gritos de socorro ecoam mundo afora. É hora de colocar o sofrimento na rua, numa grande aliança de resistência e esperança. Não passarão. A sabedoria e união guiarão os guerreiros da vida, da Mãe Terra e da paz.
Em Palmas, Tocantins, as lideranças dos povos originários do mundo afirmam que podem parar os jogos em protesto contra a PEC. Nós, dos movimentos sociais e aliados dos povos indígenas, externamos nossa incondicional solidariedade aos povos originários, diante de mais esse decreto de morte de mais de 300 povos nativos do Brasil.
Com a aprovação dessa 215, os parlamentares anti-indígenas pretendem não apenas impedir a demarcação das terras indígenas, mas também redefinir as terras já regularizadas e abri-las para a exploração do latifúndio e agronegócio. Em outras palavras, trata-se de impedir que os povos indígenas tenham assegurado seus territórios e seus projetos de vida, sua cultura e suas sociedades diferenciadas. Ou seja, fica decretada a morte cultural (etnocídio) e física (genocídio) dos povos indígenas.
Vemos com extrema preocupação o avanço da nova fronteira agrícola com a abrangência de 73 milhões de hectares no bioma Cerrado, abrangendo os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, chamada de Matopiba. Esse mega projeto do agronegócio terá um enorme impacto destrutivo sobre o meio ambiente e milhares de comunidades tradicionais e povos indígenas, já que dentro da área do Matopiba existem 28 terras indígenas, 34 quilombos, 865 assentamentos e 42 unidades de conservação ambiental.
Nesse momento gravíssimo de ameaças às vidas e aos direitos dos povos indígenas do Brasil, renovamos nossa esperança de que os projetos de morte, como a PEC 215 não prevalecerão. Confiamos no poder de mobilização dos povos e da sociedade nessa causa humanitária, que ultrapassa e rompe todas as fronteiras.
Estamos certos de que a sabedoria e resistência dos povos e das comunidades tradicionais - como os indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pescadores artesanais, dentre tantos outros -, a natureza e toda a sociedade brasileira que será atingida, vencerão mais esse projeto de morte.

Palmas (TO), 30 de outubro de 2015.

Assinam este Manifesto:
Associação Brasileira de Comunidades Alternativas (Abrasca)
 Associação Negra Cor (Anca – TO)
Associação União das Aldeias Apinajé (Pempxá)
Alternativa para Pequena Agricultura do Tocantins (APA-TO)
Associação de Preservação Ambiental e valorização da Vida (Ecoterra)
Arquidiocese de Palmas Tocantins
Arquidiocese de Miracema Tocantins
Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis da Região Centro Norte de Palmas (Ascampa-TO)
Aliança Multiétnica de Permacultura - Awire
Centro Educacional São Francisco de Assis - TO
Conselho de Visões Guardiões da Mãe Terra
Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina (Casa)
Colégio Marista Palmas
Congregação Irmãs Franciscana de Allegany
Centro de Direitos Humanos de Palmas (CDHP)
Conferência dos Religiosos do Brasil – Regional Palmas (CRB-TO)
Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Glória de Ivone (Cedeca)
Central Única dos Trabalhadores (CUT-TO)
Cáritas Arquidiocesana de Palmas
Congregação das Irmãs Dominicanas do Rosário de Monteils
Comissão Pastoral da Terra – Araguaia /Tocantins (CPT-AT)
Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO)
Comitê Popular Estadual da Constituinte no Tocantins (Plebiscito)
Comunidade de Saúde Desenvolvimento e Educação (Comsaúde)
Centro de Direitos Humanos de Cristalândia (CDHC)
Centro de Direitos Humanos de Formoso do Araguaia (CDHF)
Centro de Estudos Bíblicos do Tocantins (CebiI-TO)
Coletivo Permacultural Guazuma
Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil
Conselho Indigenista Missionário (Cimi)
Comunidades Eclesiais de Base do Tocantins (CEB -TO)
Congregação das Irmãs Capuchinhas
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Regional Norte 3)
Consulta Popular
Cooperativa dos Pescadores e Piscicultores do Médio Tocantins (Cooperatins)
Earth Code Project
Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social
Instituto Biorregional do Cerrado (IBC)
Instituto de Defesa dos Direitos Humanos e Meio Ambiente (IDPDHMA)
Instituto Nossa Senhora de Lourdes (INSL)
Levante Popular da Juventude
Missionárias Servas do Espírito Santo (MSSpS)
Movimento Estadual de Direitos Humanos do Tocantins (MEDH-TO)
Movimento pela Vida
Movimento de Atingidos por Barragem (MAB)
Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil (MST)
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Tocantins (MST-TO)
Pacto Mundial Consciente (PMC)
Permacultura Social Brasileira (PSB)
Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado do Tocantins (Sintet)
Secretaria da Mulher Trabalhadora do Tocantins (CUT-TO)
Rede Novos Parques
Danielle Mastelari Levorato, professora assistente da Universidade Federal do Tocantins (UFT), coordenadora do Curso Gestão de Cooperativas, Campus de Araguaína
Foto: Laila Menezes