sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PAPA FRANCISCO AMA MAIS AS PESSOAS DO QUE A DEUS?

TRATA-SE DE UMA POLÊMICA INTERESSANTE: AFINAL, JESUS, BASE E FUNDADOR DO CRISTIANISMO, AMAVA MAIS A DEUS OU ÀS PESSOAS HUMANAS? SEGUNDO ELE MESMO, QUEM NÃO AMA A DEUS NOS IRMÃOS E IRMÃS, A PARTIR DOS MENORES ENTRE ELES, NÃO  SE SALVA...  ENTÃO, AMAR, OU FALAR, SÓ A DEUS NÃO É O CAMINHO QUE ELE PRÓPRIO SEGUIU. QUE O PAPA FRANCISCO CONTINUE FIRME NO CAMINHO EVANGÉLICO QUE ASSUMIU.
Por que dá medo um Papa que fala mais dos homens do que de Deus?

"Francisco é acusado pelos seus de se interessar mais pelo drama dos homossexuais, das crianças violentadas por padres e bispos, pela união das diversas confissões religiosas ou pelos problemas terrenos, como o terrorismo ou as guerras, do que pelos dogmas e pela conversão dos infiéis", escreve Juan Arias, jornalista, em artigo publicado pelo jornalEl País, 03-12-2014.
Segundo ele, "Francisco sabe muito bem que para a Igreja primitiva, nascida do judaísmo que desejava universalizar-se, o rosto de Deus era visível somente na dor dos homens e na sede de justiça proclamada pelos profetas".
Eis o artigo.
papa Francisco começa a ser cada vez menos amado por algumas hierarquias da Igreja do que pelas pessoas. Ele gosta menos de muitos devotos do que da caravana humana dos que sofrem. Os burocratas da Igreja o acusam entre dentes de que fala pouco de Deus e muito dos homens, sobretudo dos mais marginalizados pela sociedade.
É um Papa que cita pouco as encíclicas. Para ele bastam as poucas páginas dos evangelhos que estão mais povoadas de histórias de marginalização e dor do que glorificações divinas.
O profeta judeu que deu origem ao cristianismo se interessava mais, como Francisco, pelos diferentes, os desprovidos pelo poder e pela Igreja, do que pelos deuses e os anjos. Era severo com as hipocrisias do templo e condescendente com prostitutas, adúlteras e pecadores.
Não foi um profeta revolucionário, como Francisco também não é. Simplesmente não suportava a dor injusta infligida pelo poder aos que não se ajoelhavam diante dele ou não tinham voz nem voto na sociedade.
Francisco é acusado pelos seus de se interessar mais pelo drama dos homossexuais, das crianças violentadas por padres e bispos, pela união das diversas confissões religiosas ou pelos problemas terrenos, como o terrorismo ou as guerras, do que pelos dogmas e pela conversão dos infiéis.
Uma certa Igreja começa a criticá-lo, como Pablo Ordaz informou neste jornal, para que olhe mais para Deus do que para o mundo. Tentaram classificá-lo politicamente (de esquerda?) e ele sorri. “Eu sou do partido do Evangelho”, respondeu para um rabino argentino que se interessava por suas preferências políticas.
Francisco voltou a lembrar tal fato para os jornalistas durante sua última viagem para a Turquia.
E é preciso lembrar que nos evangelhos, o profeta judeu chama o tirano Herodes de “raposa”; chama de hipócritas e manipuladores os sacerdotes que haviam transformado o templo em um “covil de ladrões”.
Nas páginas do Evangelho, o misericordioso Jesus, o que perdoava todas as fragilidades humanas e ficava ao lado dos que estavam largados nas sarjetas da vida, foi, entretanto, terrivelmente severo contra os violadores de menores, assim como o papa Francisco.
Jesus chegou a pedir pena de morte para que os abusavam dos pequenos. “Melhor que coloquem uma roda de moinho em seus pescoços e os lancem no mar”, chegou a dizer. Francisco se contenta com a ida deles para a prisão.
Como há mais de dois mil anos, também hoje para o Papa a fé verdadeira é uma mescla de misericórdia com os caídos e de dureza com os exploradores. Para ele parecem interessar mais as lágrimas dos humilhados do que as pregações arrogantes do fariseu do templo: “Eu não sou como esses pecadores”.
A Igreja, transformada tantas vezes ao longo da história em um poder mais temporal do que divino, escreveu e falou de Deus até o infinito. Muito menos do que sobre os homens e suas angústias.
papa Francisco prefere hoje falar mais do próximo do que da divindade, o que começa a ser visto como uma heresia.
O profeta de Nazaré foi pregado muito jovem em uma cruz por ter exagerado em sua defesa dos desprovidos. Talvez também por ter falado mais das pessoas do que de Deus.
Não é estranho que dentro da Igreja, por parte do poder que prefere que as glórias de Deus sejam mais invocadas do que as fraquezas dos homens, o papa Francisco possa chegar a ser acusado de ter se esquecido do céu para interessar-se demasiadamente sobre a Terra e nesse inferno no qual vivem os milhões de pobres, de exilados, de perseguidos pelas ideologias, dos que sofrem o golpe da fome, da perseguição e o esquecimento.
Francisco sabe muito bem que para a Igreja primitiva, nascida do judaísmo que desejava universalizar-se, o rosto de Deus era visível somente na dor dos homens e na sede de justiça proclamada pelos profetas.
O Deus encarnado não é o que vive distraído e feliz sobre as nuvens, e sim muito preocupado, como se fosse uma mãe, com a vida real das pessoas. Francisco prefere ser, simplesmente, um cristão das origens.
É pouco?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VENENOS E LUCROS NO BRASIL

OS DADOS APRESENTADOS NOA ARTIGO QUE SEGUE SÃO FUNDAMENTAIS PARA QUE TODOS ENTREMOS NA LUTA CONTRA O USO E ABUSO DE VENENOS NA AGRICULTURA E CRIATÓRIO DE ANIMAIS, ESPECIALMENTE PELO AGRONEGÓCIO. SÓ MESMO OS ELEITORES PODEM EXIGIR QUE O GOVERNO MUDE DE ALIADOS E CUIDE DA SAÚDE DOS BRASILEIROS E DA TERRA. NÃO PODEMOS ACEITAR QUE KÁTIA ABREU SEJA IMPOSTA COMO MINISTRA DA AGRICULTURA, JÁ QUE ELA É FÃ E AGENTE DO AGRONEGÓCIO.


Lucro de empresas e bancos está à frente da segurança alimentar
3 de dezembro de 2014

Por João Pedro Stedile
Do Portal Uol

O Brasil consome mais de um bilhão de litros de venenos agrícolas por ano. Isso representa 20% de todos os venenos consumidos no mundo, embora sejamos responsáveis por apenas 3% da produção agrícola mundial.

Despejamos 15 litros de venenos por hectare cultivado. Essa realidade não tem paralelo com nenhuma agricultura do mundo, nem há nenhum manual de agronomia que faça tal recomendação.


Esses venenos de origem química são produzidos por poucas grandes empresas transnacionais. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), somente as dez maiores empresas do setor foram responsáveis por 75% das vendas de agrotóxicos na última safra.

Isso lhes permite a maior taxa de lucro do mundo: US$ 8,5 bilhões de dólares na safra 2010/2011, e ainda desovam por aqui seus estoques de venenos proibidos em outros países.

Os venenos matam. Matam a biodiversidade existente na natureza, já que o agronegócio visa ao monocultivo absoluto, seja de soja, milho, algodão, cana ou pastagem extensiva. Mata os nutrientes, empobrece o solo e contamina o lençol freático fazendo com que muitas cidades com poço artesiano encontrem resíduos inaceitáveis para o consumo humano.

Os venenos também contaminam as chuvas. Quando o veneno secante não é absorvido, sobe para atmosfera e volta democraticamente para todos habitantes com a chuva. Mas, sobretudo, os venenos contaminam nossos alimentos. A Anvisa faz testes por amostragem apenas em algumas cidades a cada seis meses.

Mesmo com os níveis alarmantes, nenhum supermercado cumpre a lei do consumidor, que obriga que o rótulo ou a gôndola dos produtos avisem que aquele alimento é transgênico ou possui veneno.

Resultado: segundo os cientistas do Inca (Instituto Nacional do Câncer), a cada ano, 500 mil brasileiros são acometidos por câncer, grande parte originário dos venenos dos alimentos. Quase metade destes brasileiros irá a óbito.

Em todos os países da Europa a pulverização aérea de veneno é proibida. Aqui no Brasil, porém, é a mais usada, causando todo tipo de consequência à natureza, aos rios e às pessoas. No ano passado, uma escola rural de Goiás foi atingida, causando problemas a centenas de crianças.

Na Holanda, por exemplo, já está proibido o uso do Glifosato, o mais usado no Brasil. Cientistas conseguiram comprovar que os agrotóxicos causam alterações genéticas e aumentam as probabilidades de contrair câncer, sofrer abortos espontâneos e nascimentos com malformações.

O Brasil, no entanto, caminha no sentido contrário da modernidade e da proteção da vida. Porque aqui, o lucro das empresas transnacionais e dos bancos que as financiam vem em primeiro lugar. E, ainda mais, o agronegócio tem hegemonia completa na mídia brasileira, que todo dia faz sua propaganda ideológica.

O Ministério da Agricultura, em vez de ser rigoroso no controle dos venenos, os libera - como é o caso do chamado D-4, proibido na maioria dos países. No Congresso Nacional, o agronegócio também tem hegemonia, com os deputados ruralistas se orgulhando desse modelo. Havia um deputado, líder ruralista, que defendia com entusiasmo o uso de agrotóxicos, alegando progresso e modernidade para agricultura. Deixou de fazê-lo. Há dois anos, Homero Pereira morreu de câncer no estômago.

A Esplanada dos Ministérios, por sua vez, justifica o apoio ao agronegócio pelo valor das exportações agrícolas, como se sustentassem nossa economia. Ledo engano. Nenhum país do mundo se desenvolveu exportando commodities agrícolas e minerais. Enquanto o agronegócio brasileiro representa 3% do comércio mundial agrícola, na Holanda, com seu "enorme" território, essa cifra é o dobro, porque compra nossas matérias-primas, as industrializa e revende a outros países.

Por essa realidade, que organismos internacionais, entidades de saúde pública e os movimentos camponeses de todo mundo declararam o dia 3 de dezembro como o Dia Mundial de Combate ao Uso de Agrotóxico.

Ajude a salvar vidas (inclusive a sua), vegetais, animais. Exija que o supermercado coloque no rótulo se tem ou não agrotóxico. Exija que o governo não permita, ao menos, os venenos já proibidos em outros países. E potencialize a fiscalização da Anvisa.

Cuide de sua saúde, e não se iluda com a cantilena do agronegócio e das empresas fabricantes de venenos, que somente querem o lucro, mesmo que para isso tenham que lhe enviar a um hospital.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BELO MONTE: A ANATOMIA DE UM ETNOCÍDIO

ESTA É A CONCLUSÃO DA PROCURADORA THAIS SANTI A PARTIR DO QUE ESTÁ CONHECENDO DA REALIDADE DA REGIÃO EM QUE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDA A HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE. 

VALE A PENA LER ESTA ENTREVISTA, MESMO SENDO LONGA. COMO ELA, THAIS, ESTÁ APRENDENDO, TAMBÉM PODEMOS APRENDER COM ELA. E PODEMOS COMPREENDER PORQUE PRECISAMOS MOBILIZAR-NOS PARA IMPEDIR QUE O PROCESSO DE BELO MONTE, COMPARÁVEL AO QUE ACONTECEU NA ALEMANHA NO TEMPO DE HITLER, SE TORNE REGRA EM NOSSA PRECÁRIA DEMOCRACIA.

PUBLICO A INTRODUÇÃO DA ENTREVISTADORA, QUE RESUME O CONTEÚDO DA ENTREVISTA E MOTIVA SUA LEITURA ATENTA.

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/01/opinion/1417437633_930086.html

Belo Monte: a anatomia de um etnocídio

A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

Eliane Brum
Quando alguém passa num concurso do Ministério Público Federal, costuma estrear no que se considera os piores postos, aqueles para onde os procuradores em geral não levam a família e saem na primeira oportunidade. Um destes que são descritos como um “inferno na Terra” nos corredores da instituição é Altamira, no Pará, uma coleção de conflitos amazônicos à beira do monumental rio Xingu. Em 2012, Thais Santi – nascida em São Bernardo do Campo e criada em Curitiba, com breve passagem por Brasília nos primeiros anos de vida – foi despachada para Altamira. Ao ver o nome da cidade, ela sorriu. Estava tão encantada com a possibilidade de atuar na região que, no meio do curso de formação, pegou um avião e foi garantir apartamento, já que as obras da hidrelétrica de Belo Monte tinham inflacionado o mercado e sumido com as poucas opções existentes. Thais iniciava ali a sua inscrição na tradição dos grandes procuradores da República que atuaram na Amazônia e fizeram História.
Ela já teve a oportunidade de deixar Altamira três vezes, a primeira antes mesmo de chegar lá. Recusou todas. Junto com outros procuradores do MPF, Thais Santi está escrevendo a narrativa de Belo Monte. Ou melhor: a narrativa de como a mais controversa obra do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento dos governos Lula-Dilma, um empreendimento com custo em torno de R$ 30 bilhões, poderá ser julgada pela História como uma operação em que a Lei foi suspensa. E também como o símbolo da mistura explosiva entre o público e o privado, dada pela confusão sobre o que é o Estado e o que é a Norte Energia S.A., a empresa que ganhou o polêmico leilão da hidrelétrica. Fascinante do ponto de vista teórico, uma catástrofe na concretude da vida humana e de um dos patrimônios estratégicos para o futuro do planeta, a floresta amazônica.
A jovem procuradora, hoje com 36 anos, conta que levou quase um ano para ver e compreender o que viu – e outro ano para saber o que fazer diante da enormidade do que viu e compreendeu. Ela se prepara agora para entrar com uma ação denunciando que Belo Monte, antes mesmo de sua conclusão, já causou o pior: um etnocídio indígena.
Nesta entrevista, Thais Santi revela a anatomia de Belo Monte. Desvelamos o ovo da serpente junto com ela. Ao acompanhar seu olhar e suas descobertas, roçamos as franjas de uma obra que ainda precisa ser desnudada em todo o seu significado, uma operação que talvez seja o símbolo do momento histórico vivido pelo Brasil. Compreendemos também por que a maioria dos brasileiros prefere se omitir do debate sobre a intervenção nos rios da Amazônia, assumindo como natural a destruição da floresta e a morte cultural de povos inteiros, apenas porque são diferentes. O testemunho da procuradora ganha ainda uma outra dimensão no momento em que o atual governo, reeleito para mais um mandato, já viola os direitos indígenas previstos na Constituição para implantar usinas em mais uma bacia hidrográfica da Amazônia, desta vez a do Tapajós.
Thais Santi, que antes de se tornar procuradora da República era professora universitária de filosofia do Direito, descobriu em Belo Monte a expressão concreta, prática, do que estudou na obra dafilósofa alemã Hannah Arendt sobre os totalitarismos. O que ela chama de “um mundo em que tudo é possível”. Um mundo aterrorizante em que, à margem da legalidade, Belo Monte vai se tornando um fato consumado. E a morte cultural dos indígenas é naturalizada por parte dos brasileiros como foi o genocídio judeu por parte da sociedade alemã.
A entrevista a seguir foi feita em duas etapas. As primeiras três horas no gabinete da procuradora no prédio do Ministério Público Federal de Altamira. Sua sala é decorada com peças de artesanato trazidas de suas andanças por aldeias indígenas e reservas extrativistas. Na mesa, vários livros sobre a temática de sua atuação: índios e populações tradicionais. Entre eles, autores como os antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha. A sala é cheirosa, porque as funcionárias do MPF costumam tratar Thais com mimos. Carismática, ela costuma produzir esse efeito nas pessoas ao redor. Dias antes da entrevista, participou da comemoração dos 10 anos da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio. Thais dormiu numa rede na porta do posto de saúde que sua ação ajudou a implantar, a alguns metros de onde acontecia um forró que durou a noite inteira. O sono era interrompido ora por casais mais animados em sua ênfase amorosa, ora por um atendimento de emergência no posto de saúde. Impassível, Thais acordou no dia seguinte parecendo tão encantada com todos, como todos com ela. “Noite interessante”, limitou-se a comentar.
A entrevista é interrompida pela chegada afetuosa de uma funcionária trazendo primeiro café e água, depois peras. É bastante notável, nas respostas de Thais, o conhecimento teórico e a consistência de seus argumentos jurídicos. Embora visivelmente apaixonada pelo que faz, em sua atuação ela se destaca por ser conceitualmente rigorosa e cerebral. Mas, na medida em que Thais vai explicando Belo Monte, sua voz vai ganhando um tom indignado. “Como ousam?”, ela às vezes esboça, referindo-se ou à Norte Energia ou ao governo. Como ao contar que, ao votar na última eleição, deparou-se com uma escola com paredes de contêiner, piso de chão batido, as janelas de ferro enferrujado, as pontas para fora, a porta sem pintura, nenhum espaço de recreação e nem sequer uma árvore em plena Amazônia. Uma escola construída para não durar, quando o que deveria ter sido feito era ampliar o acesso à educação na região de impacto da hidrelétrica.
A segunda parte da entrevista, outras três horas, foi feita por Skype. Reservada na sua vida pessoal, quando Thais deixa escapar alguma informação sobre seu cotidiano, suas relações e seus gostos, de imediato pede off. “Não tenho nem Facebook”, justifica-se. Dela me limito a dizer que acorda por volta das 5h30 da manhã, que faz yoga e que todo dia vai admirar o Xingu. Em seu celular, há uma sequência de fotos do rio. Uma a cada dia.

RURALISTAS SÃO INIMIGOS DOS POVOS INDÍGENAS

QUANDO, COM QUE GOVERNO, COM QUE DEMOCRACIA, OS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL TERÃO SEUS DIREITOS RECONHECIDOS E GARANTIDOS? QUANDO PODERÃO VIVER EM PAZ, COM SUAS CULTURAS E SUAS FORMAS DE RELAÇÃO COM A TERRA?

Ruralistas ampliam ataque aos direitos fundiários dos povos indígenas

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) repudia veementemente o texto do “Substitutivo à Proposta de Emenda à Constituição 215/2000” apresentado pelo deputado ruralista Osmar Serraglio (PMDB-PR), no dia 17 de novembro de 2014 (LEIA INTEIRO TEOR). A PEC 215/2000 e seu Substitutivo é descaradamente inconstitucional e ultrajante aos povos. Inviabiliza novas demarcações de terras indígenas. Reabre procedimentos administrativos já finalizados. Legaliza a invasão, a posse e a exploração das terras indígenas demarcadas.

O Substitutivo propõe uma ampla gama de exceções ao direito de posse e usufruto das terras por parte dos povos indígenas. Além das “ocupações configuradas como de relevante interesse público da União”, as exceções e limitações à posse indígena também se aplicaria em relação à “instalação e intervenção de forças militares e policiais, independentemente de consulta às comunidades indígenas", à "instalação de redes de comunicação, rodovias, ferrovias e hidrovias”, à “área afetada por unidades de conservação da natureza”, a “perímetros urbanos” e ao “ingresso, trânsito e permanência autorizada de não índios, inclusive pesquisadores e religiosos”.



Além de vedar à “ampliação de terra indígena já demarcada”, a proposta determina que a delimitação definitiva das terras indígenas seria feita somente por meio da aprovação de projeto de lei. Sendo assim, a demarcação de toda e qualquer terra indígena teria que passar pela aprovação da Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Com um Congresso Nacional dominado pelo ruralismo e interesses das grandes corporações empresariais multinacionais do campo, a consequência prática disso seria o total impedimento de novas demarcações de terras. A Proposta estabelece ainda que, “havendo conflito fundiário”, deve ser feita a “permuta de áreas”.



Concomitantemente, a Proposta ressuscita a estratégia usada pelo Estado e inimigos dos povos para promover o roubo e o esbulho dos territórios indígenas em décadas passadas ao definir que “As comunidades indígenas em estágio avançado de integração com os não índios podem se autodeclarar, na forma da lei, aptas a praticar atividades agropecuárias e florestais sustentáveis, celebrar contratos, inclusive os de arrendamento e parceria”.



Por fim, e não menos grave, o Substitutivo apresentado pelo deputado ruralista Osmar Serraglio, além de abrir a possibilidade das comunidades indígenas “permutar, por outra, a área que originariamente lhe cabe”, determina que “Os procedimentos de demarcação que estejam em desacordo com as disposições desta Emenda Constitucional serão revistos no prazo de um ano, contado da data da publicação desta Emenda”. Com isso, como evidente, abrir-se-ia uma situação de profunda fragilidade e instabilidade jurídica e política relativamente às terras indígenas já demarcadas e que estão na posse dos povos indígenas.



O Cimi reafirma o compromisso de manter o apoio às necessárias, urgentes e abrangentes mobilizações dos povos em defesa do direito às suas terras e às suas Vidas. Não à violência da Bancada Ruralista no Congresso Nacional. Sim à causa e à vida dos povos originários. Pela rejeição da PEC 215/00.



Brasília, DF, 1° de dezembro de 2014.

Cimi - Conselho Indigenista Missionário

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

IMPORTÂNCIA E A RUPTURA DO CICLO DAS ÁGUAS

COM ESTE TÍTULO, MAIS UMA VEZ ROBERTO MALVEZZI NOS DÁ UMA SIMPLES E PROFUNDA "AULA" SOBRE O CICLO DAS ÁGUAS. ELA PODE SERVIR PARA LIMPAR NOSSAS MENTES DAS ILUSÕES DIFUNDIDAS PELAS PRÁTICAS COTIDIANAS E PARA FUNDAMENTAR AS LUTAS PELA ÁGUA.

BOM PROVEITO E BOAS MUDANÇAS DE VIDA E DE POSICIONAMENTO POLÍTICO!

A importância e a ruptura do ciclo das águas.

Roberto Malvezzi (Gogó)

Quando éramos crianças e estávamos no ensino médio, nos ensinavam o ciclo das águas. Parece uma descrição abestalhada, como se diz aqui pelo Nordeste, mas é fundamental nos dias de hoje.

A professora nos ensinava que o sol aquece os oceanos e outros corpos d’água, o calor a muda para vapor de água (estado gasoso), que sobe para a atmosfera, que é empurrado pelos ventos para os continentes, que depois vai cair em forma sólida (granizo, neve, etc.) ou líquida, as chuvas.

Uma parte se perde por evaporação. Outra escorre alimentando os corpos de água de superfície, para os rios, daí para o mar. Outra parte penetra na terra, formando os reservatórios subterrâneos.

Um estudo pouco mais elaborado vai nos dizer que, se as chuvas caem em terreno coberto por vegetação (florestas), as árvores ajudam a amortecer o impacto da precipitação nos solos. Ela ainda retém o fluxo das águas, desacelerando-o. Quando é assim, o solo sendo poroso, cerca de 60% dessas águas podem penetrar e ficarem armazenadas no subsolo. São essas águas que depois vão alimentar a chamada vazão de base, que garante a perenidade de alguns corpos d’água de superfície.

Se o solo é compacto então cerca de 80% escorre rapidamente para as partes mais baixas, causando inundações repentinas. Essa água que se perde depois vai fazer falta para alimentar nossos rios.

Mesmo tendo cobertura vegetal, se o subsolo não for favorável, como o cristalino aqui do Semiárido, então a água pouco penetra. É por isso que não temos rios perenes nascidos aqui na região, a não ser o Parnaíba, exatamente porque ali está uma parte de solo poroso, que forma o aquífero do Gurguéia.

Temos pequenas nascentes em partes altas, nos chamados “Brejos de Altitude”. Por isso temos que armazenar água em açudes artificiais, de superfície, além das cisternas caseiras, barreiros, barragens subterrâneas e tantas outras tecnologias sociais criadas pelo povo e aperfeiçoadas na luta pela convivência com o Semiárido.

O ciclo das águas desperta ainda o “cio da Terra”. Em regiões como aqui no Semiárido, a caatinga que parecia morta reverdece, ressurgem nuvens de insetos, as flores se espalham de forma belíssima, os animais parecem sair do nada, como se fosse uma verdadeira ressurreição.

Meus amigos criadores de bode dizem que até as cabras entram no cio.

Portanto, sem o ciclo das águas a vida não reacontece, os reservatórios não se reabastecem e o que era cheio de vida pode se transformar num deserto.

O problema maior do Brasil nesse momento de diminuição das chuvas reside exatamente aí: para muitos especialistas estamos causando a “ruptura no ciclo de nossas águas”. Por um detalhe que merece atenção, isto é, parte do nosso ciclo de águas se origina na floresta amazônica, não só nos oceanos. Então, uma vez derrubada a floresta, diminui automaticamente a produção de vapor de água.

Outro elemento fundamental é que o Cerrado, ocupando a parte central do país, fazia o papel de armazenador de nossas águas, depois distribuindo-as para várias bacias brasileiras. Com a derrubada da vegetação, mais compactado, ele está perdendo capacidade de armazenar águas e depois alimentar os rios perenes, como é o caso do São Francisco.

Causa espanto que tantos peritos em água só falem em expandir seu consumo, ou ir busca-la mais longe para abastecer grandes centros, como São Paulo. O raciocínio é feito pela metade, sem capacidade de olhar sistemicamente nossos ciclos das águas e está nos conduzindo ao caos. Está apenas adiando a solução e causando problemas futuros em mananciais que também irão se esgotar se não forem preservados.

O Prof. Antônio Nobre (INPE) afirma que precisaríamos de um esforço de guerra para recuperarmos a eficiência de nosso ciclo das águas, replantando em áreas de encostas, margens de rios, quem sabe em trechos inteiros de bacias hidrográficas. Precisaríamos ainda, não só deter o desmatamento amazônico, mas começar a recuperação da floresta enquanto há tempo. Já para o Prof. Altair Salles (PUC Goiânia), o Cerrado não tem mais recuperação. Para o Prof. José Alves (UNIVASF) o São Francisco está inexoravelmente condenado à morte.

Mas, nada parece comover aqueles que impõem a destruição para satisfazer seus interesses imediatos. Retomando a metáfora do Titanic, a classe A dança e ouve orquestra enquanto o navio afunda.

PARTICIPE E REFORCE O DIA MUNDIAL CONTRA OS AGROTÓXICOS

VALE A PENA FAZER O POSSÍVEL, E UM POUCO DO IMPOSSÍVEL. AFINAL, MILHÕES DE PESSOAS ESTÃO MORRENDO MAIS NOVAS POR CAUSA DE DOENÇAS PROVOCADAS PELOS VENENOS QUE UM TIPO DE AGRICULTURA, E DE INDÚSTRIA E LABORATÓRIOS, ESTÃO COLOCANDO SOBRE NOSSA MESA. CRIME DE LESA HUMANIDADE, JÁ QUE EXISTEM CAMINHOS DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS SEM AGROTÓXICOS.

Brasil, 3 de dezembro de 2014

Manifesto pelo Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos

Povo Brasileiro,

Neste dia 3 de dezembro, saímos às ruas em todo o país para denunciar o modelo da morte que domina a agricultura brasileira: o agronegócio.

Há exatos 30 anos, explodia a fábrica de agrotóxicos da Caribe Union, atual Dow Chemical, na cidade de Bhopal, Índia. Na tragédia, mais de 16.000 pessoas morreram, e pelo menos 560.000 foram gravemente intoxicadas. Bhopal não foi um acidente. Assim como também não foi um acidente a chuva de venenos na escola de Rio de Verde (GO), e tantas outras tragédias anunciadas pela ganância daqueles que afirmam que a comida que nos alimenta só pode ser produzida com muito veneno. Eles lucram muito com isso.

Em 2013, o mercado de agrotóxicos rendeu US$11,5 bilhões. O lucro se concentra em 6 grandes empresas transnacionais: Monsanto, Basf, Syngenta, Dupont, Bayer (fabricante do gás letal usado pelos nazistas) e a Dow, que até hoje não reconhece sua responsabilidade sobre Bhopal.

Ano após ano, o Brasil bate recordes de consumo de agrotóxicos e sementes transgênicas. A população brasileira está sendo envenenada. Nas águas, no solo, nos alimentos, em pequenas doses diárias, ou em chuvas de veneno, temos contato com substâncias que causam câncer, levam ao suicídio, e provocam abortos espontâneos, entre outros vários efeitos.

A ciência comprometida com a saúde pública coletiva não tem dúvidas (1). De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), é preciso se “mobilizar frente à grave situação em que o país se encontra, de vulnerabilidade relacionada ao uso massivo de agrotóxicos.” De acordo com estas instituições, os agrotóxicos causam danos à saúde extremamente graves, “como alterações
hormonais e reprodutivas, danos hepáticos e renais, disfunções imunológicas, distúrbios cognitivos e neuromotores e cânceres, dentre outros. Muitos desses efeitos podem ocorrer em níveis de dose muito baixos, como os que têm sido encontrados em alimentos, água e ambientes contaminados. Além disso, centenas de estudos demonstram que os agrotóxicos também podem desequilibrar os ecossistemas, diminuindo a população de espécies como pássaros, sapos, peixes e abelhas.”

Por que tanto veneno?

A opção clara da política agrícola brasileira pelo agronegócio é a grande responsável pela situação. O agronegócio utiliza largas extensões de terras, os latifúndios, para plantar uma mesma espécie – normalmente soja, milho, algodão, eucalipto ou cana-de-açúcar. Dessa maneira, destrói a biodiversidade e desequilibra o ambiente natural, facilitando o surgimento de plantas, insetos ou fungos que podem destruir a plantação. Por isso, é uma agricultura dependente química: só funciona com muito veneno. O agronegócio também utiliza maquinário pesado, que compacta o solo, e não
gera empregos, favorecendo assim o êxodo rural.

No legislativo brasileiro, um grupo de deputados e senadores de vários partidos formam a chamada Bancada Ruralista, que tem como objetivo incentivar o agronegócio, o trabalho escravo, o desmatamento, lutar contra a demarcação de terras indígenas, quilombolas e contra a reforma agrária.

Kátia Abreu (PMDB/TO), Ronaldo Caiado (DEM/GO) e Luis Carlos Heinze (PP/RS) são alguns dos expoentes desta bancada. Estes políticos se elegem graças a altíssimas cifras doadas nas campanhas pelas empresas do agronegócio, como a JBS, BRF e Marfrig, e na prática agem como empregados destas empresas dentro do congresso e do senado. Os ruralistas também dominam o Ministério da Agricultura, que recebeu a cifra de R$140 bilhões neste ano.

No ano passado, esta bancada aprovou uma lei (12.873/2013) que permite uso de agrotóxicos proibidos no Brasil por serem altamente nocivos, e já conseguiram até demitir funcionários das agências reguladoras que lidam com o tema.

Após as eleições de 2014, os ruralistas declararam ter 51% do Congresso Federal. É necessária uma reforma política que decrete o fim das doações eleitorais de empresas para acabar com estas verdadeiras pragas da política brasileira.

Nós construímos uma alternativa: a agroecologia

Camponesas e camponeses do Brasil são aqueles que botam comida na nossa mesa. E somente elas e eles podem praticar a agroecologia. Agroecologia é um jeito de organizar a produção agrícola e a vida no campo em harmonia com a Natureza. Na agroecologia, se produzem diversos tipos de alimentos numa mesma área, fortalecendo assim a biodiversidade e deixando a natureza equilibrada.
Desta forma, não é necessário usar agrotóxicos, nem fertilizantes sintéticos, e muito menos sementes transgênicas. A agroecologia também busca uma vida digna no campo, com saúde e educação adequadas à realidade do campo.

Repudiamos a tese de que pobres têm que comer veneno. Não há mais dúvidas de que podemos alimentar a população com a produção agroecológica. Até mesmo a ONU reconhece que a agroecologia é única solução verdadeira para a fome no mundo (2) , e pode inclusive ajudar a frear as alterações climáticas.

O que queremos?

A população brasileira está unida na luta pela fim dos agrotóxicos e em defesa da vida. Queremos Agroecologia.

Movimentos sociais do campo, da cidade, sindicatos, instituições públicas de pesquisa, estudantes, e inclusive o Ministério Público vem se articulando junto à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Nossa luta é por comida sem veneno e um congresso sem ruralistas, que represente de fato os interesses do povo.

De imediato, pedimos:
· A proibição da prática criminosa da pulverização aérea, a exemplo do que ocorre na União Europeia;
· O banimento de agrotóxicos já banidos em outros países do mundo;
· O fim das vergonhosas isenções de impostos dadas aos agrotóxicos;
· A criação de zonas livres de agrotóxicos e transgênicos, para o livre desenvolvimento da agroecologia;
· Maior controle para evitar a contaminação da água por agrotóxicos.

Convocamos toda a população a se engajar nesta luta, através dos comitês da campanha espalhados pelo Brasil.

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

1 http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/em-nota-conjunta-fiocruz-inca-e-abrasco-alertam-para-o-risco-do-uso-de-agrot%C3%B3xicos
2 http://www.srfood.org/en/report-agroecology-and-the-right-to-food